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A reforma francesa do Direito das obrigações (2016)

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PROF. DOUTOR ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO

Sumário: I – O âmbito da reforma: 1. Introdução; 2. Antecedentes; os anteprojetos Catala e Terré; 3. Os anteprojetos da Chancelaria; procedimento legislativo; 4. A bibliografi a da reforma. II – A geografi a da reforma: 5. Conspecto geral da reforma. III – Os tipos de alterações: 6. Enunciado; preceitos renumerados; 7. Preceitos remodelados e recolocados;

8. Preceitos novos; a culpa in contrahendo; 9. A supressão da causa dos contratos;

10. O princípio do equilíbrio; 11. A alteração das circunstâncias. IV – Sentido e repercussão da reforma: 12. O sentido geral; 13. Repercussões.

I – O âmbito da r eforma 1. Introdução

I. No dia 11 de fevereiro de 2016, foi publicada, no Journal Offi ciel, a Ordo- nance n.º 2016/131, du 10 février 2016 portant reforme du droit des contrats, du regime général et de la prevue des obligations1. O âmbito da reforma é impressio- nante: são alterados ou introduzidos, no que se poderá chamar a parte geral das obrigações, os artigos 1100.º a 1386.º-1, do Código Civil francês de 1804.

Por razões de coordenação, foram ainda alterados diversos artigos do mesmo Código, bem como artigos de mais trinta e um códigos e diplomas diversos, incluindo os Códigos de Ação Social e da Família, dos Seguros, do Comércio, do Consumo, da Construção e Habitação, do Ambiente, dos Impostos, Mone- tário e Financeiro e dos Processos Civis e de Execução.

1 JORF n.º 0035, 11-fev.-2016, texte n.º 26; pode ser confrontado no sítio Legifrance.

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II. A uma primeira leitura, o confronto entre os preceitos de 2016 e os ori- ginais do Código Napoleão de 1804 revela três tipos de novidades2:

– surgimento de preceitos de enquadramento (p. ex., 1100.º a 1100.º-2, que enumeram e defi nem as fontes das obrigações) e novos preceitos defi nidores (p. ex., 1101.º a 1111.º-1, explicitando várias modalidades de contratos);

– inclusão de nova matéria (p. ex., 1112.º e 1127.º-6, sobre a conclusão dos contratos);

– consagração de institutos controversos ou desconhecidos no Direito legislado civil francês como a culpa in contrahendo (1112.º), a alteração das circunstâncias (1195.º), a cessão do contrato (1216.º a 1216.º-3) e o enriquecimento sem causa (1303.º a 1303.º-4).

Podemos antecipar que, com esta reforma, o sistema francês de Direito civil deixa o núcleo duro da tradicional família napoleónica, que lhe deve o nome, aproximando-se do romano-germânico. Tanto basta para justifi car um especial interesse por parte da doutrina lusófona.

III. Em termos constitucionais, a Ordenança n.º 2016/131 requer, ainda, uma lei de ratifi cação. A simples entrega, no Parlamento, de um projeto de lei de ratifi cação no prazo de seis meses obstaria à sua caducidade. O projeto em causa foi depositado no dia 6 de julho de 2016. A Ordenança entrou em vigor no dia 1 de outubro de 2016 e isso sem prejuízo de a futura lei de ratifi cação, quando for discutida e aprovada, poder introduzir novas alterações: uma even- tualidade considerada pouco provável.

2. Antecedentes; os anteprojetos Catala e Terré

I. A reforma do Código francês não é ideia nova3. Logo aquando do seu centenário, em 1904, o tema foi debatido4 tendo mesmo o ministro francês da

2 Os preceitos indicados sem outra referência reportam-se aos resultantes da Reforma de 2016;

quando anteriores, terão a referência RO ou redação original.

3 Quanto à génese da reforma de 2016, entre outros: Gaël Chantepie/Mathias Latina, La réforme du droit des obligations / Commentaire théorique et pratique dans l’ordre du Code civil (2016), 1087 pp., n.º 5 (6-7).

4 No célebre livro do centenário, ou seja, em Le Code Civil (1804-1904) / Livre du Centenaire (1904), L + 1128 pp., surgem cinco estudos sobre a necessidade da sua revisão, aliás com posições diversas;

F. Larmaude, Le code civil et la nécessité de sa révision, Livre du Centenaire cit., 902-931, favorável, mas

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justiça (garde des Sceaux) designado uma comissão para o efeito. Explicam os estudiosos que, na altura (há 112 anos!) o Code sofrera o triplo assalto da revo- lução industrial, da evolução dos costumes e da publicação do BGB alemão.

Foram produzidos trabalhos, rapidamente esquecidos5. Após a Segunda Guerra Mundial, nova comissão de reforma veio à luz, sob a presidência de Julliot de la Morandière6 (1885-1968). Foram publicados nove volumes, de 1945 a 19557, com um total de milhares de páginas. A ideia de base seria a de dotar a França do segundo pós-guerra de uma nova codifi cação, disponível ainda para os novos países francófonos cuja independência se avizinhava. Não houve apoio político, vindo a comissão a dissolver-se em 19638.

II. Nos anos setenta do século XX, a política de reformas civis abandonou a ideia de substituir globalmente o Código: a favor de reformas parcelares, por grandes temas: a família9, as pessoas10, das sucessões e liberalidades11, as garantias12 e a prescrição13. Intocáveis, permaneciam as obrigações e os bens14. Quanto às primeiras, a sua longevidade era imputada à desmotivação política e à insegurança que qualquer reforma, particularmente nas áreas negociais, sem- pre provoca. Todavia, passados duzentos anos, diversos preceitos obrigacionais

recomendando “calma e dignidade”; Marcel Planiol, Inutilité d’une Révision générale du Code civil, idem, 953-963, preconizando apenas reformas parcelares, Eugène Gaudemet, Les Codifi cations récentes et la Révision du Code civil, idem, 965-986, defendendo a estabilidade do Código; Félix Moreau, La Révision du Code civil et la Procédure législative, idem, 1041-1071, explicando como levar a cabo uma revisão relativamente rápida.

5 Yves Lequette, D’une célébration à l’autre (1904-2004), em 1804-2004 / Le Code Civil : un passé, un présent, un avenir (2004), XII + 1059 pp., 9-35 (11).

6 Julliot de la Morandière, La réforme du Code Civil, D Chron., 1948, 117-119. Vide Annick Batteur, Célébration du bicentannaire du Code civil / Regards d’un civiliste résolument optimiste sur l’avenir du Code des Français, CRDF 4 (2005), 171-178 (172 ss.).

7 Os oito primeiros são confrontáveis na Biblioteca da Faculdade de Direito de Lisboa: Travaux de la Commission de Réforme du Code Civil I (1945-1946), 735 pp.; II (1946-1947), 650 pp.; III (1947-1948), 753 pp.; IV (1948-1949), 895 pp.; V (1949-1950), 839 pp.; VI (1950-1951); 537 pp.;

VII (1951-1952), 339 pp.; VIII (1952-1953), 256 pp..

8 Jean Foyer, Le Code civil de 1945 à nos jours, em Le Code Civil : un passé, un présent, un avenir (2004), 275.

9 Lei n.º 65-570, de 17-jul.-1970, sobre regimes matrimoniais; Leis n.º 75-615, de 11-jul.-1975 e n.º 2004-439, de 26-mai.-2004, sobre o divórcio; Ordenança n.º 2005-759, de 4-jul.-2005, sobre fi liação.

10 Lei n.º 2007-308, de 5-mar.-2007, sobre a proteção jurídica dos maiores.

11 Leis n.º 2001-1135, de 3-dez.-2001 e n.º 2006-728, de 23-jun.-2006.

12 Ordenança n.º 2006-346, de 23-mar.-2006.

13 Lei n.º 2008-561, de 17-jun.-2008.

14 Chantepie/Latina, La réforme cit., 7.

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tinham evoluído, pela mão da jurisprudência. Tornava-se, assim, difícil explicar a matéria, sem recorrer a massas jurisprudenciais; numa situação bizarra, para o País tido como o pai do Direito codifi cado.

III.  Na preparação da reforma, tiveram peso duas propostas doutrinais encabeçadas, respetivamente, por Pierre Catala15 e por François Terré16.

Pierre Catala (1930-2012) foi um civilista francês, professor em Grenoble, Montpellier e Paris II – Panthéon-Assas, onde se jubilou. Foi um dos iniciadores da informática jurídica, devendo-se-lhe, ainda diversos escritos nas áreas civil e pro- cessual civil. Por fi m, fi cou associado à reforma das obrigações, a que já não assistiu.

François Terré (1930) é igualmente um civilista francês, professor em Estras- burgo, Nanterre e Paris II – Panthéon-Assas, onde se jubilou. Autor e co-autor de conhecidas obras gerais de Direito civil, François Terré é ainda membro cor- respondente da Academia das Ciências de Lisboa. Ficou igualmente associado à reforma das obrigações.

Pierre Catala defendeu, no seu anteprojeto, um mero ajustamento.

Explica17:

O estudo mostrou que muitas das soluções do Código Napoleão conserva- vam o seu valor após dois séculos de aplicação; vamos reconstruí-los seja sob a mesma forma na qual os nossos antepassados as tinham moldado, seja numa reda- ção melhor adaptada ao gosto do tempo presente. Nessa relação, o ante-projeto não propõe um código de rotura, mas de ajustamento.

O anteprojeto Catala não dava grande espaço a cláusulas gerais. A alteração das circunstâncias não é acolhida, a causa obtém uma secção especial (1124.º a 1126.º-1)18 e assume escassa infl uência europeia19.

15 Pierre Catala (org.), Avant-projet de réforme du droit des obligations et de la prescription (2006), 208 pp., com um articulado, precedido de uma justifi cação de motivos de 20 autores.

16 François Terré (org.), Pour une réforme du droit des contrats (2009), 310 pp.: um articulado seguido de justifi cação de motivos e de relatório, de 15 autores. Temos, ainda: François Terré (org.), Pour une réforme du droit de la responsabilité civile (2011), 224 pp. e idem, Pour une réforme du régime général des obligations (2013), 153 pp..

17 Pierre Catala, Présentation générale de l’avant projet, em Avant-projet de réforme cit., 11-16 (13); o itálico corresponde a negrito no original.

18 Pierre Catala, Avant-projet cit., 93-94.

19 Pierre Catala, Présentation générale cit., n.º 8 (15).

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O anteprojeto Terré, pelo contrário, conferia um papel especial à boa-fé nas negociações (24.º), reconhecia um poder ao juiz no campo da interpretação (66.º-2) e admitia a alteração das circunstâncias (91.º-1), como exemplos20.

3. Os anteprojetos da Chancelaria; procedimento legislativo

I. A Chancelaria (departamento do Ministério da Justiça) apresentou, em 2008, uma primeira versão da reforma, bastante avançada21. Optava por fi xar, como princípios reguladores, a liberdade contratual, a boa-fé e a força obri- gatória dos contratos. Aplaudida22 e criticada23, ela evoluiu para uma segunda versão, de 200924, mais próxima do anteprojeto Terré. A referência aos princí- pios reguladores desaparece; introduz-se a matéria atinente às cláusulas abusivas;

suprime-se a velha noção de causa. Abaixo veremos outros aspetos.

II. Entretanto, em 2011, fora apresentado um anteprojeto de reforma do regime geral das obrigações e dos quase-contratos25, inspirado no anteprojeto Terré26. Trata-se de um texto muito relevante, com o seguinte conteúdo:

I Parte – O regime geral das obrigações

Capítulo I – As modalidades da obrigação:

Secção I – A obrigação condicional (1.º a 9.º);

Secção II – A obrigação a termo (10.º a 14.º);

Secção III – A obrigação com vários objetos (15.º a 23.º);

Secção IV – A obrigação com vários sujeitos (24.º a 43.º);

Secção V – A obrigação indivisível (44.º a 48.º).

Capítulo II – A extinção das obrigações:

Secção I – O pagamento (49.º a 81.º)27; Secção II – A remissão de dívida (82.º a 86.º);

Secção III – A compensação (87.º a 101.º);

20 François Terré, Pour une réforme du droit des contrats cit., 14, 19 e 23.

21 Ministère de la Justice, Projet de réforme du droit des contrats (juillet 2008), 41 pp..

22 Denis Mazeaud, Réforme du droit des contrats: haro, en Hérault, sur le projet!, D 2008, 2675-2680.

23 Alain Ghozi/Yves Lequette, La réforme du droit des contrats: brèves observations sur le projet de la Chancellerie, D 2008, 2609-2613.

24 Ministère de la Justice, Projet de réforme du droit des contrats (mai 2009), 29 pp..

25 Ministère de la Justice, Projet de Réforme du Régime des Obligations et des Quasi-Contrats (mai 2011), 36 pp..

26 François Terré, Pour une réforme du régime général des obligations cit., 1-28.

27 Inclui a nossa consignação em depósito.

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Secção IV – A confusão (102.º e 103.º).

Capítulo III – O transporte da obrigação:

Secção I – A cessão de crédito e a retratação litigiosa (104.º a 115.º);

Secção II – A sub-rogação (116.º a 123.º);

Secção III – A novação (124.º a 132.º);

Secção IV – A delegação (133.º e 138.º).

Capítulo IV – A prova da obrigação:

Secção I – Disposições gerais (139.º a 141.º);

Secção II – Os diferentes meios de prova (142.º a 187.º);

Secção III – A admissibilidade dos meios de prova (188.º a 197.º).

II Parte – Os quase-contratos

Capítulo I – A gestão de negócios (199.º a 204.º);

Capítulo II – O pagamento do indevido (205.º a 211.º);

Capítulo III – O enriquecimento injustifi cado (212.º a 215.º).

III. A terceira versão da reforma, da Chancelaria, datada de 23 de outubro de 201328, procedeu à junção entre a anterior segunda versão e o ante-projeto do regime geral das obrigações e dos quase-contratos, acima sumariado. Ficou de fora a reforma da responsabilidade civil.

IV.  O Governo francês decidiu recorrer a uma ordenança para reformar o Direito das obrigações. A Assembleia Nacional concordou; o Senado, toda- via, entendeu que uma reforma do Direito das obrigações e dos contratos era demasiado importante para ser levada a cabo por uma ordenança29. Impôs-se, por isso e nos termos constitucionais franceses uma nova leitura, levada a cabo pela Lei n.º 2015-177, de 16 de fevereiro de 2015, relativa à modernização e à simplifi cação do Direito e dos procedimentos nos domínios da justiça e dos negócios interiores30.

A Lei n.º 2015-177 alterou diretamente o Código Civil em diversos pontos.

Assim, quanto à tutela (426.º, 431.º, 432.º, 442.º e 500.º), quanto ao estatuto dos animais (515.º-14 e outros) e quanto às sucessões (745.º e 971.º). Além disso, autorizou o Governo a, por via de ordenança, tomar medidas relativas a aspetos patrimoniais do divórcio (3.º). Ficam ainda contemplados aspetos menores.

28 Ministère de la Justice, Avant-Projet de Réforme du Droit des Obligations/Document de travail (23 octobre 2013), 27 pp..

29 Chantepie/Latina, La réforme du droit des obligations cit., n.º 22 (16).

30 JORF n.º 0040, de 17-fev.-2015, texte n.º 1.

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O artigo 8.º da Lei n.º 2015-177 autorizou o Governo a rever, por orde- nança, o Direito geral das obrigações, defi nindo os termos da reforma: um ponto relevante, abaixo explicitado. O prazo fi xado foi 15 de fevereiro de 2016.

V. Procedeu-se a uma consulta pública: cerca de 300 pessoas remeteram sugestões, no total de 3  200 páginas, a que se somam múltiplas publicações doutrinárias31. Em 17-mar.-2015, foi apresentado novo projeto de ordenança32. A aprovação fi nal do diploma ocorreu a 10 de fevereiro de 2016, tendo sido publicado no dia seguinte. Ocorreu ainda um relatório de apresentação da Ordenança n.º 2016-131, ao Presidente da República, onde se dão explicações sobre o texto, rubrica a rubrica33.

A Ordenança n.º 2016-131 foi consolidada pela deposição de um projeto de ratifi cação, como referido. Entrou em vigor no passado dia 1 de outubro.

4. A bibliografi a da reforma

I. A reforma do Direito francês dos contratos, de 2016, veio provocar uma multiplicação de estudos, comentários e atualizações em obras gerais. Para além de artigos doutrinários e de artigos de opinião, vamos apontar a bibliografi a disponível no fi nal de 2016, incluindo alguns títulos já citados. Assim, como preparatórios, temos:

Pierre Catala (org.), Avant-projet de réforme du droit des obligations et de la prescrip- tion (2006), 208 pp..

François Terré (org.), Pour une réforme du droit des contrats (2009), 310 pp.;

– (org.), Pour une réforme du droit de la responsabilité civile (2011), 224 pp.;

– Pour une réforme du régime général des obligations (2013), 153 pp..

II. O tipo de literatura dominante, neste domínio, tem sido o comentário, em geral artigo a artigo. Assim:

31 Números dados por Chantepie/Latina, La réforme du droit des obligations cit., 16, nota 3.

32 Projet d’Ordonnance n.º du portant réforme du droit des contrats, du régime général et de la preuve des obligations (17-mar.-2015), 49 pp. (os espaços em branco são do original).

33 Rapport au Président de la République relatif à l’ordonnance n.º 2016-131 du 10 février 2016 portant réforme du droit des contrats, di régime général et de la preuve des obligations, JORF n.º 0035, de 11-fev.- -2016, texte n.º 25, 41 pp.. Pode também ser consultado em Réforme du droit des contrats: quelles innovations?, Revue des contrats (2016/Hors série), 131-166.

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Barthélemy Mercadal, Réforme du droit des contrats (2016), 408 pp..

Thibault Douville (dir.), La réforme du Droit des contrats/Commentaire article par article (2016), 534 pp..

Gaël Chantepie/Mathias Latina, La réforme du droit des obligations/Commentaire théo- rique et pratique dans l’ordre du Code civil (2016), 1087 pp..

Dalloz, Réforme du Droit des obligations/Un supplément au Code Civil 2016 (2016), 73 pp..

François Terré (org.), La réforme du droit des obligations/L’ordonnace du 10 février 2016 commentée article par article (2016), 128 pp..

Yves-Marie Laithier/Olivier Deshayes/Thomas Genicon, Réforme du droit des con- trats, du régime général et de la preuve des obligations (2016), 945 pp..

III. No campo das intervenções monográfi cas, retemos:

Reforme du droit des contrats: quelles innovations?, Revue des contrats (2016/Hors- -série), 166 pp., com intervenções de Laurent Aynés e outros.

Philippe Chauviré (dir.), La réforme du droit des contrats: du projet à l’ordonnance (2016), 110 pp..

Corinne Renault-Brabinsky, Le nouveau droit des contrats (2016), 80 pp..

IV. Obras gerais já remodeladas em função da reforma:

Rémy Cabrillac, Droit des obligations, 12.ª ed. (2016), 451 pp..

Philippe Malaurie/Laurent Aynés/Philippe Stoff el, Droit des obligations, 8.ª ed.

(2016), 897 pp..

Alain Bénabent, Droit des obligations, 15.ª ed. (2016), 728 pp..

Bertrand Fages, Droit des obligations, 6.ª ed. (2016), 588 pp..

V. Temos ainda, como referência incontornável:

Dalloz, org. Xavier Henry e outros, Code civil, 116.ª ed. (2017), 3230 pp..

II – A geografi a da reforma 5. Conspecto geral da reforma

I.  A reforma de 2016, ora em análise, deu, no Código Civil francês, a seguinte confi guração às fontes das obrigações.

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Título III – Das fontes das obrigações (1100.º a 1111.º-2) Subtítulo I – O contrato

Capítulo I – Disposições liminares (1101.º a 1111.º-1) Capítulo II – A formação do contrato

Secção 1 – A conclusão do contrato

Subsecção 1 – As negociações (1112.º a 1112.º-2) Subsecção 2 – A proposta e a aceitação (1113.º a 1122.º)

Subsecção 3 – O pacto de preferência e a promessa unilateral (1123.º e 1124.º)

Subsecção 4 – Disposições específi cas para o contrato concluído por via eletrónica (1125.º a 1127.º-6)

Secção 2 – A validade do contrato (1128.º) Subsecção 1 – O consentimento

Parágrafo 1 – A existência de consentimento (1129.º) Parágrafo 2 – Os vícios do consentimento (1130.º a 1144.º) Subsecção 2 – A capacidade e a representação

Parágrafo 1 – A capacidade (1145.º a 1152.º) Parágrafo 2 – A representação (1153 a 1161.º) Subsecção 3 – O conteúdo do contrato (1162.º a 1171.º) Secção 3 – A forma do contrato

Subsecção 1 – Disposições gerais (1172.º e 1173.º)

Subsecção 2 – Disposições específi cas para os contratos concluídos por via eletrónica (1174.º a 1177.º)

Secção 4 – As sanções

Subsecção 1 – A nulidade (1178.º a 1185.º) Subsecção 2 – A caducidade (1186.º e 1187.º) Capítulo III – A interpretação do contrato (1188.º a 1192.º) Capítulo IV – Os efeitos do contrato

Secção 1 – Os efeitos do contrato entre as partes Subsecção 1 – Força obrigatória (1193.º a 1195.º) Subsecção 2 – Efeito translativo (1196.º a 1198.º) Secção 2 – Os efeitos do contrato perante terceiros

Subsecção 1 – Disposições gerais (1199.º a 1202.º)

Subsecção 2 – A prestação de terceiro34 e a estipulação para terceiro (1203.º a 1209.º)

Secção 3 – A duração do contrato (1210.º a 1215.º) Secção 4 – A cessão do contrato (1216.º a 1216.º-3) Secção 5 – A inexecução do contrato (1217.º e 1218.º)

Subsecção 1 – A exceção de inexecução (1219.º e 1220.º) Subsecção 2 – A execução específi ca (1221.º e 1222.º)

34 Traduzimos a convention de porte-fort por convenção de prestação de terceiro ; a tradução comum de porte-fort como garante ou, até, como fi ador, é incorreta.

(10)

Subsecção 3 – A redução do preço (1223.º) Subsecção 4 – A resolução (1224.º a 1230.º)

Subsecção 5 – A reparação do prejuízo resultante da inexecução do contrato (1231.º a 1231.º-7)

Subtítulo II – A responsabilidade extracontratual

Capítulo I – A responsabilidade extracontratual em geral (1240.º a 1244.º) Capítulo II – A responsabilidade por produtos defeituosos (1245.º a 1245.º-

-17)

Subtítulo III – Outras fontes das obrigações (1300.º) Capítulo I – A gestão de negócios (1301.º a 1301.º-5) Capítulo II – O pagamento do indevido (1302.º a 1302.º-3) Capítulo III – O enriquecimento injustifi cado (1303.º a 1303.º-4)

Deve sublinhar-se, neste elenco, que os artigos 1240.º a 1245.º-17, inte- grantes do subtítulo relativo à responsabilidade extracontratual não foram alte- rados: apenas renumerados, equivalendo aos artigos 1382.º a 1386.º-18 da ver- são anterior à reforma. Foram, ainda, modifi cados os títulos.

II. O antigo Título IV – as vinculações que se formam sem convenção, que abrangia a matéria atinente aos quase-contratos, aos delitos e aos quase-delitos e que foi redistribuído pelo título sobre as fontes das obrigações, passou a versar o regime geral das obrigações. Vamos sumariá-lo:

Título IV – Do regime geral das obrigações Capítulo I – As modalidades de obrigações

Secção 1 – A obrigação condicional (1304.º a 1304.º-7) Secção 2 – A obrigação a termo (1305.º a 1305.º-5) Secção 3 – A obrigação plural

Subsecção 1 – A pluralidade de objetos

Parágrafo 1 – A obrigação cumulativa (1306.º)

Parágrafo 2 – A obrigação alternativa (1307.º a 1307.º-5) Parágrafo 1 – A obrigação facultativa (1308.º)

Subsecção 2 – A pluralidade de sujeitos (1309.º) Parágrafo 1 – A obrigação solidária (1310.º a 1319.º) Parágrafo 2 – A obrigação a prestação indivisível (1320.º) Capítulo II – As operações sobre obrigações

Secção 1 – A cessão de crédito (1321.º a 1326.º) Secção 2 – A cessão de débito (1327.º e 1328.º) Secção 3 – A novação (1329.º a 1335.º) Secção 4 – A delegação (1336.º a 1340.º)

Capítulo III – As ações conferidas ao credor (1341.º a 1341.º-3) Capítulo IV – A extinção da obrigação

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Secção 1 – O pagamento

Subsecção 1 – Disposições gerais (1342.º a 1342.º-10)

Subsecção 2 – Disposições especiais para as obrigações pecuniárias (1343.º a 1343.º-5)

Subsecção 3 – A interpelação

Parágrafo 1 – A mora do devedor (1344.º a 1344.º-2) Parágrafo 2 – A mora do credor (1345.º a 1345.º-3)

Subsecção 4 – O pagamento com sub-rogação (1346.º a 1346.º-5) Secção 2 – A compensação

Subsecção 1 – Regras gerais (1347.º a 1347.º-7) Subsecção 2 – Regras particulares (1348.º a 1348.º-2) Secção 3 – A confusão (1349.º a 1349.º-1)

Secção 4 – A remissão de dívida (1350.º a 1350.º-2)

Secção 5 – A impossibilidade de executar (1351.º a 1351.º-1) Capítulo V – As restituições (1352.º a 1359.º-9)

III. A reforma de 2016 levou, ao Código Civil, um Título IV-Bis, relativo à prova das obrigações. O anterior Título IV-Bis reportava-se à responsabi- lidade do produtor: matéria que, renumerada, transitou para o subtítulo da responsabilidade extracontratual. Temos então:

Título IV-Bis – Da prova das obrigações Capítulo I – Disposições gerais (1353.º a 1357.º);

Capítulo II – A admissibilidade dos meios de prova (1359.º a 1362.º);

Capítulo III – Os diferentes meios de prova Secção 1 – A prova por escrito

Subsecção 1 – Disposições gerais (1363.º a 1368.º);

Subsecção 2 – O ato autêntico (1369.º a 1371.º);

Subsecção 3 – O ato sob assinatura privado (1372.º a 1377.º);

Subsecção 4 – Outros escritos (1378.º a 1378.º-2);

Subsecção 5 – As cópias (1379.º);

Subsecção 6 – Os atos de reconhecimento (1380.º);

Secção 2 – A prova testemunhal (1381.º);

Secção 3 – A prova por procuração judicial (1382.º);

Secção 4 – A confi ssão (1383.º);

Secção 5 – O juramento (1384.º);

Subsecção 1 – O juramento decisório (1385.º a 1386.º-1).

IV.  A simples consideração das diversas rubricas mostra que, em termos luso-germânicos, está em causa toda a área das obrigações em geral e, ainda, a do negócio jurídico. Estamos, seguramente, perante a maior mexida no Direito privado francês, desde o Código Napoleão, de 1804.

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III – Os tipos de alterações 6. Enunciado; preceitos renumerados

I.  A reforma francesa das obrigações conduz a uma reformulação geral da vasta doutrina existente nesse domínio. A tarefa só é minimizada por, de momento, a responsabilidade extracontratual se fi car por uma renumeração e, ainda, por várias das novidades corresponderem a uma consagração legal de saídas já sedimentadas na doutrina e na jurisprudência. Na recomposição geral da matéria, podemos apontar três tipos de alterações:

(1) preceitos inalterados, que transitaram com uma simples renumeração;

(2) preceitos remodelados e recolocados;

(3) preceitos inteiramente novos.

II. A análise subsequente não pretende ser exaustiva: estão em causa cerca de meio milhar de preceitos, numa das áreas mais densas da Ciência do Direito35. Todavia, o relevo científi co e cultural do Código Napoleão, bem como os seus refl exos na esfera lusófona, justifi cam a divulgação da matéria.

III. Os preceitos meramente renumerados são, desde logo, os artigos 1240.º a 1244.º: equivalem aos artigos 1382.º a 1386.º, que remontam a 1804. Foi alterada a denominação do capítulo: passou de “dos delitos e dos quase-delitos”

a “a responsabilidade extracontratual em geral”. Igualmente renumerados são os artigos 1245.º a 1245.º-17: respeitam aos antigos artigos 1386.º-1 a 1386.º- -18, sobre a responsabilidade do produtor, introduzidos pela Lei n.º 98-389, de 19 de maio de 1998, em transposição da Diretriz 85/374, de 25 de julho. Com efeito, a reforma da responsabilidade civil extracontratual, que se encontra em estudo, foi remetida para oportunidade ulterior.

IV. Foram também renumerados, com pequenos retoques, os artigos 1125.º a 1127.º-6 e 1174.º a 1177.º, relativos a contratos concluídos por via eletrónica:

provieram dos antigos artigos 1369.º-1 a 1369.º-9, 1108.º-1, 1108.º-2, 1369.º- -10 e 1369.º-11, inseridos no Code pela Lei n.º 2004-575, de 21 de junho e pela Ordenança n.º 2005-674, de 16 de junho.

35 Nesta fase, impõe-se a consulta de trabalhos que comportem, lado a lado, a versão antiga e a versão de 2016; vide, com tais tabelas, designadamente: Clément François, Table de correspondance/

/nouveaux articles – anciens articles, em Thibault Douville (org.), La réforme du Droit des contrats cit., 453-534.

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7. Preceitos remodelados ou recolocados

I. Boa parte dos novos preceitos corresponde a artigos antigos, com diver- sos graus de remodelação. Além disso, tais preceitos foram recolocados, em obediência a uma nova sistematização. Houve, em primeira linha, uma preocu- pação de atualizar a linguagem, usando termos mais precisos. Vamos dar alguns exemplos.

Redação de 2016 Redação de 1804

1101.º O contrato é um acordo de vontades entre duas ou mais pessoas destinado a criar, modifi car, transmitir ou extinguir obriga- ções.

1103.º Os contratos legalmente formados valem como lei para aqueles que os tenham feito.

1106.º O contrato é sinalagmático quando os contratantes se obriguem reciprocamen- te uns perante os outros

(…)

1107.º O contrato é a título oneroso quan- do cada uma das partes receba da outra uma vantagem em contrapartida daquela que proporcione.

Ele é a título gratuito quando uma das partes proporcione à outra uma vantagem sem esperar nem receber qualquer contra- partida.

1101.º O contrato é uma conven- ção pela qual uma ou várias pessoas se obrigam, para com outra ou várias, a dar, a fazer ou a não fazer alguma coisa.

1134.º-1 As convenções legalmente formadas valem como lei para aqueles que as tenham feito.

1102.º O contrato é sinalagmático ou bilateral quando os contratantes se obriguem uns perante os outros

(…)

1106.º O contrato a título oneroso é aquele que submeta cada uma das partes a dar ou a fazer qualquer coisa.

1105.º O contrato de benemerência [bienfaisance] é aquele no qual uma das partes proporcione à outra uma van- tagem puramente gratuita.

II. Noutros casos, a remodelação de linguagem foi mais longe, ainda que não se possa considerar totalmente inovatória. Assim, sempre como meros exemplos:

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Redação de 2016 Redação de 1804 1196.º Nos contratos que tenham por

objeto a alienação da propriedade ou a cessão de um outro direito, a transferên- cia opera aquando da conclusão do con- trato.

Essa transferência pode ser diferida pela vontade das partes, pela natureza das coisas ou por efeito da lei.

A transferência de propriedade impli- ca transferência dos riscos da coisa. Con- tudo, o devedor da obrigação de entrega volta a incorrer no encargo deles a con- tar da sua mora, em conformidade com o artigo 1344.º-2 e sob reserva das regras previstas no artigo 1351.º-1.

1201.º Quando as partes tenham con- cluído um contrato aparente que dissi- mule um contrato oculto, este último, designado também contre-lettre, produz efeitos entre as partes. Ele não é oponí- vel aos terceiros os quais podem, todavia, prevalecer-se dele.

1138.º A obrigação de entregar as coisas fi ca perfeita pelo mero consentimento das partes contratantes.

Ela torna o credor proprietário e co- loca a coisa sob os seus riscos a partir do instante em que ela devesse ter sido entregue, ainda que a tradição não tenha sido feita, a menos que o devedor esteja em mora de a entregar; nesse caso, a coisa permanece sob os riscos deste último.

1321.º As contre-lettres não podem ter o seu efeito a não ser entre as partes con- tratantes; elas não têm qualquer efeito contra os terceiros.

III.  Temos ainda remodelações correspondentes a paulatinas evoluções científi cas. Como exemplo:

Redação de 2016 Redação de 1804

1224.º A resolução resulta seja da aplica- ção de uma cláusula resolutória, seja, em caso de inexecução sufi cientemente gra- ve, de uma notifi cação do credor ao de- vedor ou de uma notifi cação em justiça.

1184.º A condição resolutória é sempre subentendida nos contratos sinalgmáti- cos, para o caso de uma das duas partes não satisfazer a sua vinculação.

Nesse caso, o contrato não é resolvido de pleno direito. A parte perante a qual o contrato não tenha sido executado tem, à escolha, ou de forçar a outra à execução da convenção quando seja possível ou de pedir a sua resolução com perdas e danos.

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Redação de 2016 Redação de 1804

A resolução deve ser pedida em justi- ça, podendo ser acordada uma moratória ao demandado, conforme as circunstân- cias (…)

Temos, aqui, uma migração do esquema tradicional francês, de base judi- cial, para o sistema alemão (“europeu”) de resolução extrajudicial, presente, de resto, no Código Civil de 1966.

IV.  Para além de remodelações e aperfeiçoamentos, verifi ca-se que a reforma de 2016 procedeu a uma nova sistematização dos preceitos. À luz do plano geral adotado, procedeu-se a uma renovação de múltiplos artigos, em seriações relevantes para a interpretação.

Cada preceito alterado tem uma justifi cação, a procurar, de um modo geral, em doutrinas e em jurisprudência sedimentadas ao longo de mais de dois sécu- los. O seu estudo em pormenor, já iniciado, irá ocupar a próxima geração de civilistas.

8. Preceitos novos; a culpa in contrahendo

I. A reforma torna-se especialmente interessante nos pontos inovadores, em face da lei velha. Relevamos os seguintes:

– 1112.º a 1122.º: formação do contrato, com a tramitação da proposta e da aceitação;

– 1123.º e 1124.º: pacto de preferência e promessa unilateral;

– 1179.º a 1181.º: nulidade absoluta e nulidade relativa;

– 1210.º a 1215.º: duração do contrato, incluindo a denúncia;

– 1216.º a 1216.º-3: cessão do contrato;

– 1303.º a 1303.º-4: enriquecimento sem causa;

– 1327.º a 1328.º-1: cessão de dívida.

Todos estes institutos eram conhecidos pelo Direito francês, à margem de uma consagração legal expressa. A reforma de 2016, além de lhes dar uma especial solidez, ultrapassou dúvidas.

II. Muito saudados pela Ciência Jurídica foram a boa-fé na negociação, na formação e na execução dos contratos (1104.º), a culpa in contrahendo (1112.º),

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a supressão da causa como elemento de validade do contrato (1128.º), o prin- cípio do equilíbrio nos contratos por adesão (1171.º) e a alteração das circuns- tâncias (1195.º). Comecemos pelos dois primeiros:

1104.º Os contratos devem ser negociados, formados e executados de boa-fé.

Esta disposição é de ordem pública.

O antigo artigo 1134.º, n.º 3, já dispunha que as convenções deviam ser executadas de boa-fé. O preceito novo dá, contudo, um especial alcance ao princípio em jogo. Quanto à culpa in contrahendo:

1112.º A iniciativa, o desenrolar e a rotura das negociações pré-contratuais são livres. Devem imperativamente satisfazer as exigências da boa-fé.

No caso de faute cometida nas negociações, a reparação do prejuízo que daí resulte não pode ter como objeto o compensar a perda das vantagens espe- radas do contrato não concluído.

Temos uma consagração lata de culpa in contrahendo, com remissão para a boa-fé. Todavia, na tradição napoleónica, foi frisada a liberdade de romper.

A indemnização foi limitada, pelo menos e aparentemente, ao que chamamos o interesse negativo. Era a orientação antes assumida pela Cassação Francesa.

III. O artigo 1112.º-1 merece uma focagem especial. Dispõe:

Aquela das partes que conhecer uma informação cuja importância seja deter- minante para o consentimento da outra deve informá-la dela desde que, legitima- mente, esta ignore essa informação ou tenha confi ança no seu cocontratante.

Todavia, esse dever de informação não incide sobre a estimação do valor da prestação.

Têm uma importância determinante as informações que tenham uma relação direta e necessária com o conteúdo do contrato ou a qualidade das partes.

Incumbe àquele que pretenda que uma informação lhe era devida provar que a outra parte lha devia, cabendo a esta outra parte provar que lha havia fornecido.

As partes não podem nem limitar nem excluir esse dever.

Além da responsabilidade daquele que a ele estava obrigado, o desrespeito por esse dever de informação pode implicar a anulação do contrato nas condições previstas nos artigos 1130.º e seguintes.

O Código Civil francês fi cou dotado de um regime explícito, quanto ao dever de informação precontratual. Cada proposição legal pode ser aferida em

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face da jurisprudência da Cassação: por exemplo, no tocante à não-informação sobre o valor da prestação principal. Chaqu’un se débrouille!

9. A supressão da causa dos contratos

I. A causa dos contratos constituiu, ao longo da História, um conceito des- focado: seja como subjetiva, seja como objetiva, ela vinha sobrepor-se a con- ceitos mais claros, como a vontade relevante das partes ou o fi m do contrato.

Correram rios de tinta e houve mesmo quem, contra uma doutrina dominante, que remonta a Manuel de Andrade, pretendesse inseri-la nos parâmetros lusó- fonos. A reforma, bem assente nos preparatórios, ultrapassou o problema.

II. O artigo 1128.º enumera os elementos necessários para a validade do contrato: o consentimento, a capacidade e o conteúdo lícito. Feito o confronto com o artigo 1108.º da Lei Velha, verifi ca-se a supressão da causa, supressão essa que é confi rmada com a revogação do antigo artigo 1131.º, segundo o qual a obrigação sem causa, com uma causa falsa ou com uma causa ilícita não teria qualquer efeito. A lei passou a validar o conteúdo do contrato. Com isso, pôs-se termo a séculos de discussão inútil.

III. Alguma doutrina explica que o papel da causa passou a ser assegurado por outros preceitos. Assim, vale o artigo 1170.º:

Qualquer cláusula que prive a obrigação essencial do devedor da sua substância é reputada não-escrita.

Esperemos que a sadia evolução da Lei francesa contribua para a clarifi cação da matéria: também no plano comparatístico.

10. O princípio do equilíbrio I. Segundo o artigo 1171.º:

Num contrato de adesão, qualquer cláusula que origine um desequilíbrio sig- nifi cativo entre os direitos e as obrigações das partes é reputada não-escrita.

A apreciação do desequilíbrio signifi cativo não recai nem sobre o objeto prin- cipal do contrato, nem sobre a adequação do preço perante a prestação.

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O contrato de adesão é defi nido no artigo 1110.º, por oposição ao contrato negociado individualmente (gré à gré): um preceito acima traduzido.

II.  No Direito francês, a matéria atinente às cláusulas contratuais gerais corresponde grosso modo à das cláusulas abusivas, referidas no artigo L-212-1 do Código do Consumo de 201636 e nele remetidas para decreto do Conselho de Estado. A transposição da Diretriz 93/13 é, aí, assegurada. O Código Civil pós-2016 coloca-se noutro plano: dirige-se aos contratos de adesão em geral, independentemente de estarem em causa consumidores. O juiz recebe, aqui, poderes muito signifi cativos, para ponderar a justiça intrínseca do contrato.

III. O artigo 1171.º deve ser aproximado do artigo 1190.º, relativo à inter- pretação dos contratos:

1190.º Na dúvida, o contrato especialmente negociado interpreta-se contra o credor e a favor do devedor e o contrato de adesão contra aquele que o tenha proposto.

Temos regras muito interessantes. A reforma de 2016 não acolheu uma regra imperativa de equilíbrio, relativo aos contratos. Muito criticada, prevale- ceu a ideia de que as partes são livres de estabelecer os equilíbrios que entendam, podendo, no limite, celebrar contratos gratuitos. Mas em face de contratos de adesão, o equilíbrio impõe-se. Além disso, ele transparece na interpretação, seja por via de um favor debitoris, seja pelo vetor in dubio contra stipulatorem.

11. A alteração das circunstâncias

I. A reforma de 2016 introduziu, no Código Civil francês, a “imprevisão civil”, entre nós conhecida como alteração das circunstâncias ou, erradamente

“base do negócio”. O artigo 1193.º fi xa a regra da estabilidade do contrato.

O 1194.º, mantendo a fórmula napoleónica, explica que os contratos obrigam não só àquilo que deles consta, mas também a todas as sequências resultantes da equidade, do uso e da lei. E nessa sequência, temos o artigo 1195.º:

Se uma modifi cação de circunstâncias, imprevisível aquando da conclusão do contrato, tornar a execução excessivamente onerosa para uma parte que não tenha

36 Resultante das alterações introduzidas pela Ordonance n.º 2016-301, de 14 de Março de 2016 e pelo Decreto n.º 2016-884, de 29 de junho de 2016. Há modifi cações datadas de dezembro de 2016.

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aceitado assumir esse risco, pode esta pedir uma renegociação ao seu co-contra- tante. Ela continua a executar as suas obrigações durante as negociações.

Em caso de recusa ou de fracasso da negociação, as partes podem acordar na resolução do contrato, à data e nas condições que determinarem, ou pedir de comum acordo ao juiz de proceder à sua adaptação. Na falta de acordo num prazo razoável, o juiz pode, a pedido de uma parte, modifi car o contrato ou pôr-lhe cobro, na data e nas condições que fi xar.

II. O Direito lusófono ultrapassa a alteração das circunstâncias com recurso à boa-fé (437.º, do Código de 1966). O Direito alemão recorria também à boa- -fé, por via jurisprudencial e com base no § 242 do BGB. Todavia, a reforma do Código alemão, de 2001/2002, optou por um esquema subjetivo (§ 313/1):

“… quando as partes, se tivessem previsto a alteração, não tivessem concluído o contrato ou o tivessem feito com outro conteúdo …”). Já o Código italiano de 1942 introduziu a ideia de “onerosidade excessiva” (1467.º/I), no que foi retomado pelo Código brasileiro de 2002 (478.º). O Código francês fi xa três condições para a “imprevisão” – locução que se mantém na literatura nova:

(1) imprevisibilidade; (2) não assunção do risco; (3) onerosidade excessiva. Este último ponto é o decisivo, pelo que, prima facie, o legislador francês aderiu à sugestão italiana, marcadamente objetiva.

III. A tradição jurídica francesa, reafi rmada ao longo de cento e cinquenta anos, era a de não admitir, no campo civil, a efi cácia jurídica da alteração das circunstâncias, dita “imprevisão civil”, no hexágono gaulês. O novo artigo 1195.º constitui, deste modo, uma novidade de fundo: como tal saudada pelas obras dedicadas à reforma. Aguarda-se, agora, concretização jurisprudencial da fi gura. A tradição restritiva do Direito francês deixa, desde já, sequelas, mau grado a reforma. Assim, o novo artigo 1195.º só se aplica a contratos celebrados após o dia 10 de outubro de 2016, data da sua entrada em vigor. Além disso, o preceito é supletivo: prevê-se que muitos contratos signifi cativos, à semelhança do que já sucedia, adotem esquemas próprios de revisão, designadamente atra- vés das denominadas cláusulas de hardship ou similares.

IV – Sentido e repercussão da reforma 12. O sentido geral

I. A reforma do Código Napoleão, levada a cabo em 2016, atingiu forte- mente o texto civil francês fundamental. Perdeu-se o sabor arcaico do francês de há duzentos e doze anos, bem como a arrumação do Direito das obrigações da

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época, ainda tateante. Manteve-se a técnica das defi nições legais: agora rejuve- nescidas. Em contrapartida, modernizou-se a linguagem, atualizou-se a sistemá- tica e completaram-se rubricas antes apenas bosquejadas. Lacunas signifi cativas foram colmatadas. A jurisprudência foi acolhida, em termos de lei. Procedeu- -se, por fi m, a uma signifi cativa alteração: a introdução da imprevisão civil.

II.  Não pode falar-se numa revolução ou, sequer, num sobressalto do Direito das obrigações. Os manuais já produzidos à luz de 2016 mostram a mesma arrumação e o mesmo conteúdo: enriquecido com referências e expli- cações atinentes aos novos textos. Mantiveram-se as categorias coloridas do francês jurídico consagrado. E quanto às novidades: salvo a imprevisão, elas são-no, apenas, no texto do Code. Na verdade, a jurisprudência e a doutrina já as conheciam, há muito, delas fazendo uma aplicação prática.

III. O sentido geral da reforma foi, no essencial, o de acertar o passo da lei pelo da Ciência viva: teórica e prática, tendo em particular atenção o Direito alemão37. Campeã do Direito escrito e da racionalidade da lei, a França amea- çava tornar-se numa Terra de jurisprudência. Cada preceito do velho Código Napoleão tinha de ser ponderado e completado por decisões jurisprudenciais nem sempre em perfeito alinhamento. Explicar o Direito francês – pense-se no enriquecimento sem causa – implicava sempre uma agradável mas morosa e complicada explanação de casos concretos. O legislador francês – com um certo contragosto, pois o texto de 1804 tinha um peso cultural inultrapassável – tentou a quadratura: mudar, para que tudo fi que na mesma.

13. Repercussão

A reforma de 2016 tem um primeiro alcance, de tipo político, que tem sido passado com uma certa discrição: corresponde a uma clara reafi rmação de nacionalismo civil. O peso da França, na Europa e a energia posta nos novos textos esconjuram uma pretensão de Direito civil europeu. Além disso, afi gura- -se-nos que a infl uência francesa nas áreas do Direito privado vai ser ampliada:

os novos textos são muito claros, servindo para ilustrar diversas categorias civis.

37 Claude Witz, Soixante ans d’infl uences du droit allemand sur le droit français des obligations, em Philippe Cossalter/Claude Witz, Soixante ans d’infl uences juridiques réciproques franco-allemandes (2016), 19-44 (36 ss.).

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II. É certo que a reforma veio aproximar o Direito civil francês da família romano-germânica. Vários institutos caminharam nesse sentido. Todavia, essa aproximação não apaga a família napoleónica, que mantém muitas das suas características. E quanto às novidades, com relevo para o papel concretizador do juiz: elas vinham já detrás, ditadas pela necessidade de suprir o envelheci- mento dos textos.

III. A reforma terá vindo tarde. Os juristas, mesmo nos países românicos, perderam o hábito de ler em francês. Tivesse a reforma ocorrido há trinta anos e ela seria celebrada com o grande progresso jurídico da Europa. Mas veio.

Além disso, a sua clareza deixa prenunciar uma infl uência direta no mundo francófono, ainda dominado pelo velho Code. Mesmo quando se proceda, aí, a atualizações paralelas, parece-nos claro que as novas fórmulas vão permitir perenizar a infl uência jurídica de Paris.

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