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Cad. Saúde Pública vol.27 número6

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 27(6):1247-1252, jun, 2011

AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E A EXPERIÊN-CIA COM O DIABETES: UM ENFOQUE SOCIO-ANTROPOLÓGICO. Barsaglini RA. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2011. 248p. (Coleção Antropolo-gia & Saúde).

ISBN: 978-85-7541-208-4

Seja no âmbito nacional, seja no internacional, as re-presentações sociais constituem uma categoria analíti-ca recorrente no analíti-campo dos estudos da doença. Byron Good 1, em sua clássica obra de antropologia médica, observa que há, pelo menos, quatro abordagens no tra-to das representações da doença que podem se com-plementar: tradição empirista (baseada em crenças do senso comum); antropologia cognitivista (foco nos aspectos formais e semânticos); abordagem interpreta-tiva (centrada nos significados culturalmente constitu-ídos); e abordagem crítica (foco nas questões políticas e econômicas relacionadas à produção/reprodução de significados socialmente compartilhados e experiên-cias coletivas).

Junto ao fato de as representações serem foco de inúmeros estudos 2,3,4,5 sobre a doença, há críticas acer-ca do uso desta acer-categoria analítiacer-ca. Alguns usos dessa categoria são criticados porque: carecem de um maior aprofundamento epistemológico; não contextualizam aspectos estruturados e estruturantes; e reduzem a do-ença a representações sem levar em conta a experiên-cia dos adoecidos.

Fazendo um destaque acerca das categorias repre-sentações e experiência da enfermidade,

observam-se – pelo menos – três posicionamentos explícitos ou implícitos na discussão sobre o assunto. Um desses posicionamentos é tratar uma das categorias como se fosse excludente da outra. Nesse sentido, por exemplo, investigar a representação da enfermidade envolveria desconsiderar a experiência dos sujeitos enfermos. Ou-tro posicionamento investigativo encontrado em parte da produção do conhecimento das ciências sociais em saúde é o de abordar essas duas categorias analíticas como se uma fosse oposta à outra. Assim, linhas argu-mentativas voltadas para a defesa de uma delas servem de argumentação para o ataque à outra. Por último, destaca-se o posicionamento de investigar as repre-sentações e a experiência da enfermidade com base na lógica da complementaridade. Em outras palavras, potencializa-se a compreensão da enfermidade na me-dida em que se investiga tanto o polo representativo quanto o da experiência dos sujeitos enfermos.

Essa discussão pode ter significativo avanço com o lançamento do livro As Representações Sociais e a Expe-riência com o Diabetes: Um Enfoque Socioantropológico. Pelo título da obra, observa-se que se trata de mais uma iniciativa que se filia ao vasto acervo na área da Antro-pologia e Saúde, voltado para as representações sociais e a experiência de doenças, que tanto trazem inúmeras contribuições no que se refere à compreensão das en-fermidades quanto no que se relaciona aos caminhos investigativos para se chegar a esta compreensão.

Ao lado das doenças cardiovasculares e da hiper-tensão arterial, o diabetes figura como um dos princi-pais problemas do quadro sanitário brasileiro. Sua alta prevalência e sua crescente incidência nas populações brasileiras e mundiais demandam intervenções indivi-duais e coletivas. Ao eleger essa doença crônica como foco da discussão, a obra em questão já pode ser con-siderada como uma relevante discussão. Entretanto, o ganho que se obtém com esta publicação vai além des-sa constatação.

O diferencial é que este estudo é um dos poucos que investem com maestria na articulação entre o po-lo representacional e o da experiência das enfermida-des, potencializando-se assim por meio da lógica da complementaridade a compreensão da enfermidade. Nessa articulação, as dimensões subjetivas e objetivas refletidas nos sentidos atribuídos ao diabetes e nas for-mas concretas de se lidar com o adoecimento por ele provocado constituem a pauta da discussão da autora. Para isso, ela lança mão de uma abordagem a qual de-nomina de construtivista integradora, entendendo que a realidade social se constitui, de um lado, por ações interacionais e interpretativas dos sujeitos sociais e, de outro, por aspectos socioestruturais. Nessa abor-dagem, tanto há uma relativização da determinação social como da autonomia/liberdade do indivíduo. A discussão ancora-se em pesquisa documental, entre-vista, relato oral e observação em campo de natureza etnográfica. Com essa ancoragem procurou-se foca-lizar elementos estruturais, contextuais, simbólicos e

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biográficos presentes nas representações sociais e na experiência do diabetes.

A obra estrutura-se em seis artigos, com os seguin-tes focos acerca desse assunto: (1) a literatura socioan-tropológica; (2) a abordagem construtivista utilizada no estudo; (3) o saber biomédico e prática; (4) a pers-pectiva dos profissionais de saúde; (5) a perspers-pectiva dos adoecidos; e (6) estudos de casos sobre as repre-sentações sociais e a experiência.

A linguagem empregada pela autora é digna de menção. De um lado, ela consegue promover a fluên-cia do texto de forma a produzir uma compreensão dos conceitos, dos seus procedimentos e de seus achados. Por outro, apesar da simplicidade da linguagem, ela consegue tratar o assunto com a densidade que ele me-rece.

Sua leitura pode, dentre outras contribuições, sub-sidiar o estabelecimento de boas práticas voltadas tan-to para o diabetes como para o adoecimentan-to crônico. Pode trazer referências para que os serviços melhor se organizem para atender aos cronicamente adoecidos. Pode ainda fornecer elementos para uma atualização profissional no sentido de melhor lidar com a cronici-dade da doença. Enfim, trata-se de um lançamento im-portante para o campo da saúde pública.

Romeu Gomes

Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

[email protected]

1. Good BJ. Medicine, rationality and experience: an anthropological perspective. Cambridge: Cam-bridge University Press; 1994.

2. Alves PC, Rabelo MC. Repensando os estudos so-bre representações e práticas em saúde/doença. In: Alves PC, Rabelo MC, organizadores. Antrop-ologia da saúde: traçando identidades e explo-rando fronteiras. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/ Editora Relume-Dumará; 1998. (Antropologia e Saúde).

3. Cardoso MHCA, Gomes R. Representações sociais e história: referenciais teórico-metodológicos pa-ra o campo da saúde coletiva. Cad Saúde Pública 2000; 16:499-506.

4. Gomes R, Mendonça EA, Pontes ML. As repre-sentações sociais e a experiência da doença. Cad Saúde Pública 2002; 18:1207-14.

5. Herzlich C. A problemática da representação so-cial e sua utilidade no campo da doença. Physis (Rio J.) 1991; 1:23-36.

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