Em Portugal, a questão ambiental emergiu tardiamente, ao contrário do que se verificou noutros países da Europa. Por este mesmo motivo, não existe ainda um grande empenho cívico, nem uma forte visibilidade social da problemática ambiental.
Até à revolução de 25 de Abril de 1974, o movimento de defesa do ambiente era praticamente inexistente. Pese embora a criação do primeiro órgão encarregue especificamente de resolver problemas de ordem ambiental, a Comissão Nacional do Ambiente, ter ocorrido em 1971, foi sem dúvida o conjunto de transformações introduzidas pela revolução de Abril que proporcionou a oportunidade para o salto qualitativo no tratamento destas questões.
No entanto, apenas em 1997, com a publicação do Dec.-Lei 11/87 – Lei de Bases do Ambiente, foram definidas as bases da política nacional de ambiente. As medidas políticas de carácter ambiental abandonaram uma perspectiva conservadorista, passando a privilegiar uma regulamentação transsectorial e uma acção preventiva. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) passaram a submeter a uma análise provisional diversos tipos de projectos de grandes obras públicas e privadas, passando a conferir às questões ambientais uma legitimidade e dignidade que, durante muito tempo, tinham permanecido obscurecidas.
Neste contexto de relativa novidade das questões ambientais, tem sido preocupação da Câmara Municipal de Alenquer a preservação da qualidade ambiental do concelho aos mais variados níveis. Para tal tem vindo a ser desenvolvido um conjunto de iniciativas, sendo que este esforço que a autarquia vem realizando traduz-se, obviamente, num aumento das despesas municipais relativas à rubrica do ambiente.
Como se pode verificar no quadro seguinte, entre 1994 e 2000 o total de despesas da
autarquia local em matéria de ambiente duplicou, o que denota efectivamente uma
maior preocupação nesta área. A área ambiental que tem exigido um maior investimento
por parte da autarquia é a protecção do recurso água, sendo que a gestão dos resíduos
constitui também uma área onde as despesas da autarquia são igualmente elevadas.
Quadro 9.1.- Evolução das despesas da CMA em Ambiente – 1994-2000 (103 €)
Protecção do Recurso Água Anos Total das
despesas ambiente em
Trat. e Controle de qualidade da agua para abastecimento
Sistema de Drenagem
Sist. de Tratam.
de águas residuais
Gestão Resíduos dos
Protecção da Biodiversidade e das Paisagens
Infra-estruturas para tratam. e
deposição de resíduos
1994 1 021 9 362 182 452 8 5
1995 1 297 9 689 69 506 23 5
1996 1 536 10 928 31 549 17 6
1997 2 625 8 1 746 38 729 104 16
1998 3 180 10 1 992 788 389 39
1999 3 187 11 1 982 921 272 74
2000 2 208 1 316 435 437 -
FONTE: INE, Anuários Estatísticos da Região de Lisboa e Vale do Tejo.
No período compreendido entre os anos de 1994 e 2001, a Câmara Municipal de Alenquer aumentou os seus gastos na área ambiental cerca de 241,5 %, evolução esta que é visível de uma forma mais nítida no gráfico seguinte:
Gráfico 9.1.- Evolução das despesas da autarquia local em matéria ambiental (1994-01) Despesas da CMA em Ambiente
0 1000 2000 3000 4000
1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Anos
Euros
FONTE: INE, Anuários Estatísticos da Região de Lisboa e Vale do Tejo.
Se entre 1999 e 2000 se registou uma descida nas despesas da autarquia local relativas
ao ambiente, o ano de 2001 apresenta o valor total de despesas em ambiente mais
elevado dos últimos anos, prefazendo um total de 3 487 000 Euros, que se distribuíram
da seguinte forma pelas diferentes áreas:
Gráfico 9.2.-Despesas da Câmara Municipal de Alenquer em Ambiente no ano de 2001
72%
14%
13% 1%
Gestão Àguas Residuais Gestão Resíduos
Protec. Biodiv e Paisagem Outros Domínios
FONTE: Anuários Estatísticos da Região de Lisboa e Vale do Tejo, 2002
Como já foi referido, o tratamento das águas é a área que engloba uma maior fatia das despesas da autarquia em matéria ambiental, cerca de 72% no ano de 2001, enquanto que a gestão dos resíduos apresentava, no mesmo ano, uma percentagem de 14% do total de despesas, e apenas 1 ponto percentual dizia respeito a outros domínios do ambiente.
Pese embora o crescimento verificado nesta área, existem ainda alguns pontos a melhorar. Um deles é o facto de cerca de 30% da população do concelho não estar ainda servida por rede de saneamento e tratamento de águas residuais.
Outro dos problemas verificados no concelho é a questão da poluição dos recursos hídricos, ligada em parte às descargas realizadas para os rios e à utilização de pesticidas na agricultura, que de alguma forma acabam por penetrar nas águas. No entanto, segundo informações recolhidas junto do Vereador do Pelouro do Ambiente, a grande maioria das indústrias e das pecuárias no concelho, potenciais focos poluidores das águas, estão licenciadas e a realizar o tratamento dos seus efluentes. Eventualmente existirão no concelho alguns casos que não agem em conformidade com o que se encontra legislado, mas nesses casos têm existido fiscalizações e coimas para que tudo funcione legalmente.
A resolução destes dois problemas torna-se fundamental para a qualidade das águas
superficiais, ou seja, das águas dos rios e ribeiras e das águas dos poços, e a intervenção
ao nível destes problemas faz com que tenha vindo a melhorar a qualidade das águas
dos principais rios do concelho.
Mas talvez o grande problema a nível ambiental no concelho se prenda com a questão da existência de algumas pedreiras, que acarretam consequências a nível ambiental, como sejam a descaracterização da paisagem, as poeiras, o ruído, e para além disso são indústrias que provocam prejuízos às populações que se encontram mais próximas, apesar de actualmente todos os industriais estarem a cumprir com os parâmetros exigidos pela lei nos rebentamentos.
“Os grandes problemas das pedreiras são a poluição sonora, a questão do ruído, das vibrações e das poeiras. O ruído faz parte de uma indústria extractiva, as poeiras podem-se evitar com coberturas, sobretudo nas britadeiras, e eles estão a fazê-lo, só há três que ainda não têm cobertura de poeiras. E depois a recuperação paisagística é um impacto visual negativo que têm. Nesse aspecto eu penso, e é aí estamos a trabalhar agora, que os industriais poderiam começar a trabalhar na recuperação paisagística das zonas envolventes, nomeadamente cobrir aquelas áreas com terra florestal e pôr árvores, fazer uma espécie cortina arbórea à volta daquilo, que, para além não deixar ver, permitia que as poeiras não viessem para as zonas envolventes. Alguns industriais vão avançar com isso, até porque está de acordo com o plano recuperação da paisagem que eles foram obrigados a apresentar”.
(Vereador do Pelouro do Ambiente)
Apesar de todos os problemas resultantes das pedreiras, existe uma consciência dos mesmos por parte dos industriais, que, como se pôde constatar, tentam com algumas acções minorar os efeitos desses problemas. Verifica-se também, associado a este problema, o facto de o transporte de pedra nos veículos pesados nem sempre se fazem da melhor forma, o que, para além de poder provocar danos em outros veículos, faz com que se verifiquem estragos nas vias de circulação.
Outra questão referida em termos ambientais, em sede de entrevista exploratória, diz
respeito às áreas verdes no concelho. O facto de grande parte da área florestal ser
propriedade de privados faz com que muitas vezes não se faça a devida limpeza das
matas, problema que também se verifica quando as pessoas abandonam a agricultura e
não têm forma de limpar os seus terrenos, o que vai fazer com que estas áreas se possam
tornar em potenciais focos de incêndios na época de Verão. Efectivamente, o concelho
foi, no ano transacto, alvo da devastação das chamas, que atingiram com grande gravidade a Serra de Montejunto.
No caso da recolha de resíduos sólidos, esta é realizada no concelho por uma empresa privada, a Recolte, que cobre a totalidade do concelho, sendo os resíduos recolhidos posteriormente encaminhados para o Aterro Sanitário do Oeste. Também o abastecimento e drenagem das águas se encontram a cargo de uma empresa privada, dado a autarquia ter deixado de possuir meios, humanos e materiais, para assegurar ambos os serviços.
Quanto a projectos desenvolvidos pela autarquia a nível do ambiente, existe a Agenda 21 Local, que se encontra em fase de implementação, bem como toda uma série de iniciativas no âmbito da sensibilização ambiental. De entre estas iniciativas destacam-se os percursos pedestres, que são essencialmente passeios a algumas zonas do concelho, organizados pelo Pelouro do Ambiente, que têm vindo a registar uma grande aderência por parte da população.
“Os percursos pedestres são uma das coisas que está a ter sucesso, as pessoas procuram muito este tipo de percursos, e pretende-se que os passeios não sejam só passeios. São passeios mas a determinadas zonas do concelho, não só no Montejunto, que realmente é o local privilegiado, mas temos outras áreas interessantíssimas em que se passeia, mas vêem-se as espécies, a fauna, a parte geológica, ao mesmo tempo que vão havendo pequenos cursos ou sessões com temas que têm a ver com o ambiente. Já fizemos sobre as aves, vamos fazer sobre geologia, meteorologia, vamos fazer outro sobre as aves, em que num dia ou em dois dias as pessoas estão ali na Casa da Serra e se fala destas temáticas relacionadas com o ambiente.”
(Vereador do Pelouro do Ambiente)
Existe no concelho uma estrutura que vai adquirindo uma importância cada vez mais
relevante em termos ambientais, a Casa da Serra, situada na freguesia de Vila Verde dos
Francos. Neste espaço são desenvolvidas uma série de iniciativas interessantes,
principalmente de carácter pedagógico para as faixas etárias mais jovens, tais como as
referidas pelo Vereador do Pelouro do Ambiente:
“ Já está a despoletar uma horta biológica, vamos ter um compustor, para que as crianças da escola possam ver como se faz compustagem, vamos ter um apiário para elas verem as abelhas, etc. (...) mas também temos lá a floresta das escolinhas, em que as escolas plantaram as suas árvores, puseram os seus ninhos, temos lá os comedouros dos pássaros, portanto aquilo está-se a tornar ali uma zona interessante onde as crianças podem ir para ver e sobretudo para mexer, para ver crescer a batata, para ver crescer a alface, para mexer, para cavar, apanhar fósseis, e a nossa intenção é juntar a prática à teoria. Está a ter bastante sucesso, mas estão a procurar mais as escolas de fora do que as do concelho.”
(Vereador do Pelouro do Ambiente)
Ainda na área ambiental, está em curso uma carta de ruído do concelho, elaborada no âmbito da revisão do Plano Director Municipal de Alenquer, e também um mapa de ruídos específico, que está a ser realizado na zona do Carregado pelo Instituto do Ambiente, devido essencialmente à questão da construção do Novo Aeroporto de Lisboa no concelho. Isto porque a freguesia do Carregado possui já níveis de ruído bastante elevados, devido em parte à circulação rodoviária, que apresenta grande intensidade nesta zona do concelho, e com o Novo Aeroporto, esta questão tenderá a agravar-se, pelo que se torna fundamental uma análise no âmbito da que está a ser realizada actualmente, para que se possa de alguma forma controlar este problema.
Apesar do número de iniciativas existentes, seria ainda necessário desenvolver outras actividades, nomeadamente no âmbito da sensibilização da população em termos de selecção dos resíduos, para posterior reciclagem, dado que a este nível existem ainda alguns problemas no concelho, apesar de este se encontrar já dotado de um número bastante razoável de ecopontos.
Há também que realizar algumas acções de sensibilização, dirigidas a uma faixa etária
de jovens com idades que rondem os 15/16 anos, pois no entender do Pelouro do
Ambiente, esta é uma faixa etária problemática, que demonstra menos interesse pelas
questões ambientais. Haverá assim de dirigir a atenção para este grupo etário, e não
tanto para as crianças, que já se encontram em grande parte sensibilizadas para este
aspecto.
“Acho que temos de apostar noutras idades, ao contrário do que se faz muita vez, que é ir às crianças, as crianças são realmente as que já estão mais sensibilizadas para isso, são as que menos precisa. Quem precisa é realmente uma faixa etária a partir dos 15/16 anos que demonstra menos interesse por estes problemas, e que suja, e que não tem cuidado, e que faz tudo ao contrário do que devia fazer.”
(Vereador do Pelouro do Ambiente)