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Defesa da Indústria e Defesa Comercial

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defesa comercial

Defesa da Indústria e Defesa Comercial

Welber Barral e Gilvan Brogini

Temas relacionados à proteção da indústria brasileira têm despertado a atenção da sociedade nos últimos tempos, sobretudo por conta do debate eleitoral e da pressão das importações sobre a indústria brasileira. A principal crítica veiculada aponta a inércia do governo como responsável pelo ingresso acelerado de produtos estrangeiros no mercado

nacional, em condições desleais de concorrência.

Deixando de lado o calor dos debates eleitorais, que quase sempre primam pela

superficialidade, busca-se neste breve artigo discutir as

providências que podem ser tomadas pelo governo. O objetivo central é fazer esclarecimentos a respeito dos instrumentos à disposição e desmistificar palpites equivocados.

Antes de cuidar do tema propriamente dito, algumas delimitações são necessárias.

Em primeiro lugar, observe-se que está em discussão a situação da indústria brasileira no âmbito do comércio internacional. Com efeito, ações estritamente em defesa da concorrência existem no contexto da economia interna, a exemplo da aplicação da legislação antitruste (Lei nº 8.884/94).1

Welber Barral é secretário de comércio exterior da Secex/MDIC e Gilvan Brogini é mestre em Direito Internacional pela USP.

1 Por oportuno, registre-se que a Lei nº 8.884/94 (DOU de 13/06/1994), conforme consta do seu art.

91, não se aplica aos casos de dumping.

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O foco da discussão passa a envolver, portanto, o seguinte questionamento: no âmbito das normas do comércio

internacional, até que ponto é legalmente possível adotar ações em defesa da indústria nacional?

A segunda delimitação que daí decorre é a seguinte: está-se cuidando de ações

governamentais, muito embora deva ficar claro que o setor produtivo nacional tem a obrigação de, paralelamente, empreender ações de reestruturação e aumento de eficiência, com vistas a se ajustar à concorrência internacional. Via de consequência, o parâmetro sobre o que pode ou não pode ser feito deve ser buscado nos compromissos internacionalmente assumidos pelo país.2

Em terceiro lugar, a delimitação mais importante é aquela relativa à própria noção de defesa da indústria. Nesse particular, e dado o contexto identificado acima, pode-se dizer que qualquer ação que acarrete, direta ou indiretamente, proteção para a indústria brasileira contra a concorrência de produtos

importados é uma ação em

“defesa da indústria”.

Apenas a título de argumentação, tais ações podem ser

classificadas em três categorias, que estão comumente inter- relacionadas: (i) ações meramente defensivas ou de reação: referem-se às medidas tomadas em resposta a

determinada prática ou a determinada situação; (ii) ações de planejamento ou pró-ativas:

relativas às medidas adotadas no âmbito de política industrial, que visam a melhorar a competitividade da indústria ou sua inserção virtuosa no comércio internacional;

e (iii) ações de fiscalização:

dizem respeito às medidas necessárias para garantir a efetividade e a implementação das demais ações. O próximo item discutirá o assunto.

AÇÕES EM DEFESA DA INDÚSTRIA Ações defensivas

No que se refere às ações defensivas, há diversos motivos que podem justificar a limitação de importações e a consequente proteção para a indústria

brasileira. Por vezes, esses fundamentos tratam de valores alheios ao comércio em si – como é o caso de medidas que restringem ou impedem a

importação de produtos nocivos à vida, à saúde, ao meio ambiente e à segurança, de que são exemplos as barreiras técnicas e as medidas sanitárias e

fitossanitárias.

Entre os fundamentos também está a proteção da indústria nacional. Trata-se basicamente, nesse sentido, das chamadas medidas de defesa comercial:

medidas antidumping, medidas compensatórias e medidas de salvaguarda. As três têm o

2 Em se tratando, portanto, de comércio internacional, o parâmetro em questão está materializado nos Acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC), que foram incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto nº 1.355/94 (DOU de 31/12/1994).

3 Sobre o assunto, veja-se Barral & Brogini, Manual Prático de Defesa Comercial.

A aplicação de medidas de defesa comercial deve observar os compromissos

assumidos pelo Brasil

no plano internacional

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mesmo objetivo: proteger a indústria nacional contra

importações. O que as diferencia é a natureza dessas

importações: medidas antidumping existem para combater importações com dumping; medidas

compensatórias, para combater as importações subsidiadas; e medidas de salvaguarda, para combater o aumento acentuado das importações em decorrência da evolução imprevista das circunstâncias. Em qualquer situação, as importações têm de necessariamente estar causando dano para a indústria brasileira, e deve haver nexo de causalidade entre a prática e o dano.3 Observe-se a diferenciação, conceitual e prática: defesa da indústria não se confunde com defesa comercial. No máximo, a defesa comercial pode ser considerada uma espécie do vasto gênero “defesa da indústria”.

Essa espécie, por sinal, está estritamente associada à noção de reação (é uma ação defensiva, não de planejamento) e, por decorrer de normas

internacionais, segue os compromissos assumidos pelo Brasil no contexto da

Organização Mundial do Comércio (OMC). De qualquer forma, como se verá, o Brasil utiliza ativamente a defesa comercial.

Ações pró-ativas

A delimitação do que venha a ser uma ação pró-ativa em defesa da indústria não é tarefa simples.

Com efeito, cuida-se aqui de

medidas de médio e longo prazos, normalmente inseridas em políticas horizontais cujo objetivo preconizado nem sempre é o da proteção para a indústria isoladamente considerada. Um exemplo nesse sentido é a Política de Desenvolvimento Produtivo do governo federal, vasto conjunto de ações que permeiam toda a economia nacional e visam a dar

sustentabilidade ao atual ciclo de expansão da economia. Em sede de amplas considerações, pode- se inclusive mencionar a própria política tributária, que onera o processo produtivo e tem impacto na competitividade da indústria nacional.

De forma mais específica, no entanto, são exemplos de ações pró-ativas que podem resultar em proteção para a indústria

nacional os atos da Câmara de Comércio Exterior (Camex) necessários à consecução dos objetivos da política de comércio exterior brasileira. É a Camex, por exemplo, que cuida da política tarifária na importação e na exportação, além de definir as diretrizes sobre normas e procedimentos envolvendo, entre outros, classificação de

mercadorias e regras de origem.4 Outro exemplo de ação pró-ativa em defesa da indústria nacional, certamente um dos mais

relevantes, envolve a negociação de acordos comerciais de que o Brasil é parte. De fato, à medida que, de um lado, a indústria nacional se articula na defesa de suas pretensões, e que, de outro, o governo se mostra hábil

na negociação de acordos que satisfaçam os interesses nacionais, a possibilidade de ocorrerem problemas com importações no futuro é menor.

Trata-se, como se pode ver, de ação planejada em prol da indústria.

Ações de fiscalização

Como se comentou, as ações de fiscalização são aquelas

destinadas a dar efetividade às medidas e às políticas que afetem o comércio exterior brasileiro. A intenção é que tais operações ocorram conforme preconizado nos atos normativos pertinentes, de forma que eventuais distorções, intencionais ou não, sejam corrigidas com vistas a não se criarem vantagens indevidas que possam, em última instância, prejudicar a indústria nacional.

Pode-se dizer, dessa forma, que duas são as vertentes da fiscalização: o comércio “oficial”

ou “regular”, em referência às importações que são

regularmente declaradas; e o comércio “paralelo” ou “irregular”, em referência aos produtos que não ingressam no território nacional por recintos alfandegados, configurando contrabando ou descaminho.

No que diz respeito ao comércio regular, a preocupação maior certamente está no combate às fraudes no comércio

internacional. As fraudes

caracterizam-se pela intenção do operador em burlar medidas que incidam sobre a importação e que a onerem, tais como o imposto de importação e as medidas de defesa comercial ou,

4 As competências da Camex estão previstas no Decreto nº 4.732/03 (DOU de 11/06/2003), art. 2º.

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ainda, os controles

administrativos. Em geral, as fraudes são materializadas em falsas declarações por parte do importador e atingem, por exemplo: a classificação fiscal do produto, o seu conteúdo (peso e quantidade), a sua origem e/ou o seu valor – cuida-se, neste último caso, do subfaturamento.

As ações de fiscalização para combater essas práticas são tomadas basicamente pela Receita Federal do Brasil (RFB) quando do despacho aduaneiro de importação.5

Por fim, no que se refere ao comércio irregular, além da questão da evasão fiscal, uma das preocupações é o combate aos crimes contra a propriedade intelectual, especialmente no caso de violação de marcas (contrafação). Marcas contrafeitas induzem a erro o consumidor e, em razão do baixo valor do produto

comparativamente aos produtos regulares, prejudicam a indústria nacional. A questão do comércio irregular, muito além dos

aspectos administrativos de uma importação, envolve práticas criminosas e, por isso, ações de fiscalização para combatê-las são conduzidas principalmente pela Polícia Federal.6

O DEPARTAMENTO DE DEFESA COMERCIAL

Como se pode verificar no item anterior, há várias ações

possíveis de serem tomadas para proteger a indústria nacional dos efeitos adversos das

importações. Em decorrência, diversos são os órgãos do governo federal envolvidos, cada qual com competências

específicas. A defesa comercial é uma dessas ações, e o órgão que detém a competência para conduzir investigações com vistas à aplicação da medida correspondente é o Departamento de Defesa Comercial (Decom), vinculado à Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Por oportuno, esclareça- se que o Decom tem

competência para conduzir investigações, mas a decisão final quanto à aplicação de eventual medida de defesa comercial é da Camex.7 Mencionou-se também que a aplicação de medidas de defesa comercial deve observar os compromissos assumidos pelo Brasil no plano internacional – no caso, os seguintes acordos da OMC: Acordo Antidumping;

5 As competências da Receita Federal estão previstas no art. 14 do Decreto nº 7.301/10 (DOU de 15/09/2010) e, em especial, no seu Regimento Interno (Portaria nº 125/09 do Ministério da Fazenda).

O despacho aduaneiro de importação, por sua vez, está regulamentado pela Instrução Normativa SRF nº 680/06.

6 As competências da Polícia Federal estão contidas no art. 29 do Decreto nº 6.061/07 (DOU de 16/

03/2007) e, ainda, no Regimento Interno do órgão (Portaria nº 3.691/09 do Ministério da Justiça). Cite- se também, em particular, o Decreto nº 5.244/04 (DOU de 15/10/2004), que dispõe sobre a composição e funcionamento do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual, órgão que integra a estrutura daquele Ministério.

7 As competências do Decom estão previstas no art. 18 do Decreto nº 7.096/10 (DOU de 05/02/

2010). A competência da Camex para “fixar direitos antidumping e compensatórios, provisórios ou definitivos, e salvaguardas” está no Decreto nº 4.732/03, art. 2º, XV.

8 A “Nova Estratégia” foi divulgada em 05/09/2003 pelo então Ministro do MDIC, Luiz Fernando Furlan. O documento está disponível em: http://www.desenvolvimento.gov.br/arquivo/secex/decom/

DecomNovaPolitica.pdf. (acesso em 25/10/2010).

Tendo em vista que o antidumping é o instrumento mais

acionado pelos membros

da OMC, sua utilização

acaba sendo o principal

termômetro em matéria

de defesa comercial no

mundo

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Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias; e Acordo sobre Salvaguardas. Além disso, é fundamental ressaltar que a utilização dos instrumentos de defesa comercial, que

demandam a condução de um processo administrativo, deve observar os princípios e garantias constitucionais, especialmente os relativos ao contraditório e à ampla defesa.

Em que pese a falta de espaço para o planejamento das ações de defesa comercial, dada a sua natureza estritamente reativa, que demanda iniciativa das indústrias nacionais afetadas, desde 2003 o Decom vem implementando a Nova Estratégia do Sistema Brasileiro de Defesa Comercial, cujas diretrizes abrangem: (i) divulgação dos instrumentos de defesa comercial; (ii) maior celeridade e simplificação dos procedimentos de abertura de investigação; (iii) ampliação do uso de direitos provisórios; (iv) redução do prazo de

investigação; (v) prioridade na aplicação de direitos específicos;

(vi) atuação preventiva; (vii) implementação do monitoramento das importações sujeitas a medidas de defesa comercial; e (viii) intensificação do apoio ao exportador submetido a investigações de defesa comercial no exterior.8

Vários aspectos, nesse sentido, podem ser ressaltados. Em primeiro lugar, é sabido que técnicos do Decom

constantemente participam de eventos para difundir o tema da defesa comercial no Brasil e que o departamento promove

encontros técnicos com outras autoridades estrangeiras. Em especial, destaque-se que, em maio de 2010, para celebrar os 15 anos do Decom, foi realizado o I Seminário Internacional sobre Defesa Comercial, em Brasília, prestigiado por palestrantes do Secretariado da OMC e por representantes das autoridades investigadoras de Brasil, Estados Unidos, União Europeia,

Argentina e África do Sul.9 A respeito da simplificação dos procedimentos, em que pese a necessidade de observância estrita dos requisitos contidos na normativa internacional para fins de abertura de investigação, o Decom disponibiliza, no caso das investigações antidumping, formulário de pré-análise para auxiliar os interessados na elaboração de petição, sem a necessidade de comprovação das informações nele inseridas naquele momento.10

No que diz respeito à ampliação dos direitos provisórios, de fato, a prática do Decom vem se

modificando nos últimos anos.

Com efeito, a partir de recomendações do

departamento, sete medidas antidumping provisórias foram aplicadas em cada um dos três últimos anos (2007, 2008 e 2009), revertendo tendência verificada de 2000 até 2006, período em que não houve a aplicação de qualquer medida provisória no Brasil.11

Quanto à forma da medida antidumping recomendada pelo Decom, tem sido mesmo privilegiada a proposição de medidas de defesa comercial no formato de direito específico, a fim de evitar que manipulações na base de cálculo da medida diminuam a proteção conferida pelos direitos aplicados. Nesse sentido, das 69 medidas de defesa comercial (67

antidumping, uma compensatória e uma salvaguarda) em vigor em setembro de 2010, apenas 13 mantinham o formato ad valorem.

Um olhar mais atento sobre essas medidas em formato ad valorem mostra ainda que, em sua maioria, elas dizem respeito a investigações antidumping que tiveram origem nos anos 1990.12 No que se refere à eficácia dos instrumentos de defesa comercial, sobretudo do

antidumping, cabe destacar ainda a inovação trazida pela Lei nº 11.786, de 2008, que prevê a possibilidade de investigação anticircumvention nos casos em que sejam observadas práticas com a finalidade específica de frustrar a cobrança de medidas aplicadas. A regulamentação da legislação anticircumvention foi feita pela Camex em agosto de 2010 e, em outubro do mesmo

9 Informações sobre o I Seminário Internacional sobre Defesa Comercial podem ser obtidas por meio do sítio eletrônico do Decom: http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=2643.

(acesso em 25/10/2010).

10 O formulário de pré-análise antidumping também pode ser obtido por meio da página do Decom, no seguinte endereço: http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=232. (acesso em 22/10/2010).

11 Dados obtidos a partir da leitura dos Relatórios Anuais do Decom, disponíveis na página do Departamento no endereço: http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=236.

(acesso em 22/10/2010).

12 Dados obtidos por meio da página do Decom na internet, no item “Medidas aplicadas em vigor”, disponível em: http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=234. (acesso em 21/

10/2010).

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ano, foi editada portaria da Secex contendo os procedimentos para as investigações, que também serão conduzidas pelo Decom.13 Por fim, merece destaque a criação, no ano de 2010, da Coordenação-Geral de Defesa da Indústria (CGDI) no âmbito do Decom. A CGDI deve

desempenhar um papel importante em termos de atuação preventiva do departamento, por meio de orientação ao setor produtivo nacional e de monitoramento das importações sujeitas a medidas de defesa comercial, além de intensificar o apoio ao exportador brasileiro submetido a

investigações de defesa comercial no exterior.14

UTILIZAÇÃO DA DEFESA COMERCIAL PELO BRASIL

Como se enfatizou no item anterior, o trabalho realizado pelo Decom é intenso. De fato, o departamento, além de conduzir

2005 2006 2007 2008 2009 Total

% % % % % %

Brasil 6 (11º) 3,0 12 (3º) 5,9 13 (4º) 7,9 23 (2º) 10,8 9 (7º) 4,5 63 (6º)* 6,4 Demais 196 97,0 191 94,1 132 92,1 190 89,2 192 95,5 921 93,6 Total 202 100,0 203 100,0 165 100,0 213 100,0 201 100,0 984 100,0 Tabela 1

INVESTIGAÇÕES ANTIDUMPING INICIADAS NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS PELOS MEMBROS DA OMC

Fonte: OMC. Elaboração dos autores.

Obs.: Os percentuais referem-se à participação relativa no total das investigações iniciadas no respectivo período.

*Os principais do período foram: Índia (19,9%), UE (10,5%), EUA (8,5%), Argentina (7,9%) e China (7,0%).

13 Trata-se da Resolução Camex nº 63 (DOU de 18/08/2010) e da Portaria Secex nº 21 (DOU de 20/

10/2010).

14 Informações sobre o âmbito de atuação da CGDI podem ser obtidas no seguinte endereço, na mesma página do Decom: http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=2758.

(acesso em 25/10/2010).

as investigações solicitadas pela indústria nacional, também realiza diversas ações no sentido de divulgar os instrumentos de defesa comercial e de aferir sua efetividade. Além disso, com a criação da CGDI, o Decon vem desempenhando um papel importante no sentido de orientar a indústria nacional com relação a problemas com importações.

Sobre os instrumentos em si, os dados do último relatório do Decom mostram que, até o final de 2009, haviam sido iniciados 336 processos de defesa comercial no Brasil desde 1988, ano em que o país

começou a utilizar o mecanismo.

Desses 336 processos, 313 foram relativos a investigações antidumping (originais e revisões), o que representa 93,2% do total.

A preferência pelo antidumping, no entanto, não é privilégio nacional: segundo dados da OMC, em junho de 2009 havia 1.416 medidas de defesa comercial em vigor em todo o mundo, das quais 1.327 (93,7%) eram medidas antidumping.15

O Brasil é um

dos usuários

mais frequentes

das medidas

antidumping,

especialmente

contra produtos

chineses

(7)

Tendo em vista que o antidumping é o instrumento mais acionado pelos membros da OMC, sua utilização acaba sendo o principal termômetro em matéria de defesa comercial no mundo. Dessa forma, a análise dos dados da OMC, sobretudo dos últimos anos, relativos ao número de investigações antidumping e ao número de medidas definitivas aplicadas comprova que o

Brasil é um dos usuários mais frequentes das medidas antidumping, especialmente contra produtos chineses.

Com efeito, desde a entrada em vigor dos Acordos da OMC (1995) até o final de 2009, 3.675 investigações antidumping16 foram iniciadas por 43 membros distintos da organização. Nesse período, o Brasil foi o sétimo que mais iniciou investigações: 179, o que representa 4,9% do total.

No entanto, considerando-se os últimos cinco anos (2005 a 2009), o Brasil foi o sexto país que mais iniciou investigações,

respondendo por 6,4% do total, conforme a Tabela 1.

Já no que diz respeito às medidas antidumping definitivas, durante o período de 1995 a 2009 foram aplicadas 2.374 medidas por 39 diferentes membros da OMC. O Brasil foi o oitavo membro que mais impôs medidas: 102, ou seja, 4,3% do total. No entanto, considerando-se apenas os últimos cinco anos (2005 a 2009), a participação brasileira é

maior: o Brasil foi o sétimo, respondendo por 5,9% no total.

Note-se, contudo, que essa participação vem crescendo – e, a título de exemplo, o país foi o segundo que mais aplicou medidas em 2009, conforme a Tabela 2.

15 Os dados da OMC foram obtidos a partir dos Relatórios Anuais (2009) dos Comitês Antidumping, de Subsídios e Medidas Compensatórias e de Salvaguardas (documentos G/L/902, G/L/906 e G/L/

901, respectivamente).

16 Esclareça-se que os dados da OMC aqui considerados referem-se apenas às investigações originais, ou seja, não são computados os processos de revisão de medidas antidumping. Da mesma forma, as medidas definitivas aplicadas, consideradas nas estatísticas seguintes, também dizem respeito apenas àquelas que foram resultado dessas investigações originais.

17 A título de esclarecimento, as Circulares de reconhecimento de economias de mercado e respectivos países “reconhecidos” são as seguintes: Circular Secex nº 33, de 9 de maio de 2003 (DOU de 26/05/

2003): Rússia; Circular Secex nº 16, de 21 de março de 2007 (DOU de 23/03/2007): Ucrânia; Circular Secex nº 89, de 18 de dezembro de 2008 (DOU de 22/12/2008): Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia e República Checa; e Circular Secex nº 32, de 10 de junho de 2009 (DOU de 12/06/2009): Bulgária e Romênia.

2005 2006 2007 2008 2009 Total

% % % % % %

Brasil 3(13º) 2,2 0(-) 0,0 9(5º) 8,3 11(5º) 7,9 16(2º) 11,6 39(7º)* 5,9 Demais 135 97,8 139 100,0 99 91,7 128 92,1 122 88,4 623 94,1 Total 138 100,0 139 100,0 108 100,0 139 100,0 138 100,0 662 100,0 Tabela 2

MEDIDAS ANTIDUMPING DEFINITIVAS APLICADAS NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS PELOS MEMBROS DA OMC

Fonte: OMC. Elaboração dos autores.

Obs.: Os percentuais referem-se à participação relativa no total das medidas definitivas aplicadas no respectivo período.

*Os principais do período foram: Índia (18,0%), UE (10,4%), China (10,3%), EUA (10,0%), Turquia (8,5%) e Argentina (6,6%).

DEFESA COMERCIAL CONTRA PRODUTOS CHINESES

Em relação à defesa comercial contra produtos chineses, convém que se esclareça, em primeiro lugar, o status da China em processos antidumping no Brasil. Em particular, o

reconhecimento contido no artigo 1º do “Memorando de

Entendimento entre a República Federativa do Brasil e a

República Popular da China sobre Cooperação em Matéria de Comércio e Investimento”, assinado em 12/11/2004 (DOU de 29/11/2004), opera apenas no plano político. Para fins de defesa comercial, o reconhecimento de um país como de economia predominantemente de mercado, quando ocorre, é tornado público por meio da publicação no Diário Oficial da União de Circular da Secex, após deliberação da Camex nesse sentido.17 Dessa forma, a China não é tratada como economia de mercado em uma investigação de defesa comercial no Brasil.

Sobre a utilização do antidumping contra a China, os dados da OMC mostram que, desde 1995 até o final de 2009, 29 membros distintos da organização haviam iniciado um total de 761 investigações

antidumping contra produtos daquela origem. Como se observa pelo Gráfico 1, que destaca a participação relativa dos 12

principais membros nesse aspecto, o Brasil foi o sexto, tendo iniciado 41 investigações originais (5,4% do total) contra produtos chineses.

Quando se observa, por outro lado, o percentual das

(8)

investigações iniciadas contra a China em relação ao total das investigações iniciadas no período, os dados mostram que o Brasil também figura entre os principais.

Com efeito, enquanto, em média, 20,7% de todas as investigações antidumping iniciadas são contra a China, no Brasil esse percentual é de 22,9%, ficando atrás apenas de Colômbia, Turquia, Argentina e

México, e à frente de usuários tradicionais como Estados Unidos, União Europeia e Índia.

A respeito das medidas definitivas aplicadas contra produtos chineses no período de 1995 a 2009, também foram 29 os membros da OMC que impuseram medidas contra a China, num total de 538 medidas. Nesse particular, o Gráfico 1

INVESTIGAÇÕES ANTIDUMPING INICIADAS CONTRA A CHINA (1995 A 2009) PELOS MEMBROS DA OMC, EM TERMOS RELATIVOS

Fonte: OMC. Elaboração dos autores.

Gráfico 2

MEDIDAS ANTIDUMPING APLICADAS CONTRA A CHINA (1995 A 2009), EM TERMOS RELATIVOS

Fonte: OMC. Elaboração dos autores.

Um dos desafios do próximo governo será o de reforçar a fiscalização das

operações de comércio

exterior no Brasil

(9)

Brasil foi o sexto, com 27 medidas no período. Sobre isso, o Gráfico 2 apresenta a

participação relativa dos 12 principais membros da organização.

Assim como no caso das investigações iniciadas contra produtos chineses, a Tabela 3, referente à relação entre as medidas definitivas aplicadas

contra a China e o total de medidas antidumping aplicadas, demonstra que o Brasil figura entre os principais usuários do instrumento. Com efeito, ao passo que a média geral é de que 22,7% das medidas totais aplicadas sejam impostas contra produtos chineses, no Brasil essa média é de 26,5%.18 Apesar de o Brasil estar entre os principais usuários de medidas antidumping, inclusive contra a China, as medidas brasileiras raramente são contestadas na OMC. De fato, de todas as medidas que o país aplicou desde o início do funcionamento da organização, em apenas duas ocasiões o Brasil foi acionado no órgão de solução de

controvérsias: no caso das medidas impostas sobre sacos de juta da Índia e sobre certas resinas da Argentina. Em ambas as reclamações, porém, houve solução já na fase de consultas entre as partes.

Apenas a título comparativo, até setembro de 2010, por conta de medidas antidumping aplicadas, os Estados Unidos haviam sido demandados cerca de 30 vezes, a União Europeia sete, a Argentina cinco, a Índia três, a China duas (desde 2002), e a Turquia uma. Em casos

envolvendo os norte-americanos, os europeus e os argentinos, houve inclusive condenações das medidas impostas pelo órgão de solução de controvérsias da OMC.

Esses dados demonstram a respeitabilidade que o Brasil obteve no âmbito multilateral em relação à utilização das medidas

antidumping, principal instrumento

18 Apenas a título ilustrativo, considerando-se somente as medidas atualmente em vigor no Brasil, o percentual é ainda maior. De fato, em 30 de setembro de 2010, havia 67 medidas antidumping definitivas em vigor no Brasil, sendo que 28 delas (ou seja, 42% do total) eram contra produtos da China. Ressalte-se que esses dados, contudo, também incluem as medidas decorrentes de processos de revisão. Os dados foram obtidos na página do Decom na internet: http://www.mdic.gov.br/sitio/

interna/interna.php?area=5&menu=234. (acesso em 21/10/2010).

Tabela 3

PARTICIPAÇÃO DAS INVESTIGAÇÕES CONTRA PRODUTOS CHINESES EM RELAÇÃO AO TOTAL DAS INVESTIGAÇÕES INICIADAS PELOS MEMBROS DA OMC (1995 A 2009)

Membro Percentual Número absoluto

Colômbia 50,0% (24/48)

Turquia 38,9% (56/144)

Argentina 29,6% (80/270)

México 27,8% (27/97)

Brasil 22,9% (41/179)

Estados Unidos 22,5% (99/440)

União Europeia 22,4% (91/406)

Índia 22,0% (131/596)

Coreia do Sul 21,3% (23/108)

Canadá 16,6% (25/151)

África do Sul 15,6% (33/212)

Austrália 14,4% (30/208)

Demais (17 membros) 17,1% (101/590)

Média geral 20,7% (761/3675)

Fonte: OMC. Elaboração dos autores.

Tabela 4

PARTICIPAÇÃO DAS MEDIDAS ANTIDUMPING DEFINITIVAS CONTRA PRODUTOS CHINESES EM RELAÇÃO AO TOTAL DAS MEDIDAS APLICADAS PELOS MEMBROS DA OMC (1995 A 2009)

Fonte: OMC. Elaboração: Decom.

Membro Percentual Número Absoluto

Colômbia 53,8% (14/26)

Turquia 38,3% (51/133)

Peru 31,9% (15/47)

Coreia do Sul 27,1% (19/70)

Estados Unidos 27,1% (77/284)

Argentina 26,8% (49/183)

Brasil 26,5% (27/102)

União Europeia 24,7% (66/267)

Índia 23,4% (98/419)

México 19,5% (16/82)

Canadá 18,5% (17/92)

África do Sul 13,4% (17/127)

Demais 18,4% (72/392)

Média geral 22,7% (538/2374)

(10)

de defesa comercial. Essa constatação é importante, uma vez que seria temerário aplicar medidas sem observar os critérios e procedimentos estabelecidos na legislação (para atender

interesses imediatos de proteção), já que, depois, o país poderia ser obrigado a retirar a medida aplicada por força de determinação da OMC.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir dos dados apresentados, pode-se afirmar que:

a) a defesa comercial não se confunde com a defesa da indústria. Enquanto esta se refere ao conjunto de ações (de

natureza defensiva, pró-ativa ou de fiscalização) que, direta ou indiretamente, geram proteção para a indústria brasileira, aquela diz respeito apenas às medidas antidumping, compensatórias e de salvaguardas, sendo as primeiras o instrumento mais utilizado no mundo;

b) especificamente sobre defesa comercial, o Brasil é,

comparativamente, um dos principais usuários das medidas antidumping no mundo. Apesar da frequência com que o Brasil aplica as medidas, o país é respeitado no plano multilateral – no caso, na OMC – por conta da preocupação em utilizar o instrumento conforme as normas da organização;

c) além disso, no plano interno, o Decom vem desempenhando importante trabalho no sentido de divulgar a cultura da defesa comercial pelo país,

especialmente para associações e federações de indústrias.

Ademais, o departamento tem se esforçado constantemente para, nos limites da legislação, acelerar o processo tanto de análise de abertura de investigações quanto de seu encerramento; e

d) como se observou, muitos dos problemas enfrentados pela indústria nacional escapam à competência do Decom, não envolvendo defesa comercial.

A maior parte está associada a questões de fraude no comércio internacional, razão pela qual as soluções passam, em especial, por ações de fiscalização tanto nas aduanas (importações regulares) quanto nos demais pontos do território nacional (comércio paralelo).

É evidente, por tudo isso, que um dos desafios do próximo governo será o de reforçar a fiscalização das operações de comércio exterior no Brasil, o que implica, sobretudo, melhor aparelhamento dos órgãos de fiscalização. Seria injusto, no entanto, imaginar que apenas a Receita Federal precisa de aperfeiçoamento. Apesar do excelente trabalho que vem sendo desempenhado na defesa comercial, também o Decom tem necessidade de reforços.

Reforçar o Decom significa, principalmente, ampliar o quadro de funcionários para conduzir o número cada vez maior de investigações de dumping, de subsídios e de salvaguardas.

Além disso, é bom que se relembre, o departamento começará a conduzir

investigações anticircumvention, conforme normativa publicada recentemente. A ampliação do

quadro de funcionários também se justifica para que a CGDI, criada no Decom, tenha condições de realizar o importante trabalho de monitoramento das medidas aplicadas e, em especial, de orientar a indústria nacional quanto aos problemas por ela sofridos relacionados a importações.„

Referências bibliográficas

Barral, W. e Brogini, G. 2008. Manual prá- tico de defesa comercial. São Paulo:

Aduaneiras.

Barral, W. 2000. Dumping e comércio in- ternacional: a regulamentação antidumping após a Rodada Uruguai.

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Brogini, G. 2004. OMC e indústria na- cional. São Paulo: Aduaneiras..

Barros, M. C. M. de. 2003. Antidumping e protecionismo. São Paulo: Aduaneiras.

Faria, F. M. 2002. A defesa comercial: ori- gens e regulamentação das medidas antidumping, compensatórias e de sal- vaguardas. São Paulo: Aduaneiras.

Referências

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