Tribunal de Justiça de Minas Gerais
1.0439.06.058382-0/001
Número do Númeração 0583820-
Des.(a) Tiago Pinto Relator:
Des.(a) Tiago Pinto Relator do Acordão:
26/06/2014 Data do Julgamento:
07/07/2014 Data da Publicação:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - FINANCIAMENTO IMOBILIÁRIO - SFH - C A P I T A L I Z A Ç Ã O D E J U R O S - L I M I T A Ç Ã O D E J U R O S REMUNERATÓRIOS - COMISSÃO DE CONCESSÃO DE CRÉDITO - CORREÇÃO DO SALDO DEVEDOR. A capitalização de juros em contratos imobiliários, independentemente da periodicidade, é proibida. Incabível a limitação dos juros remuneratórios se a taxa prevista no contrato não é abusiva. A "comissão de concessão de crédito", cobrada pela instituição financeira para fornecer crédito ao mutuário, somente pode incidir uma única vez. O Superior Tribunal de Justiça já firmou o entendimento sobre aplicação do IPC de 84,32% para o mês de março de 1990, para a atualização do saldo devedor. Nos contratos vinculados ao SFH, a atualização do saldo devedor antecede sua amortização pelo pagamento da prestação. Súmula n.
450 do STJ.
V.V.P.: (Des. Antônio Bispo) REVISIONAL - - RESTITUIÇÃO EM DOBRO - POSSIBILIDADE. Fica autorizada a restituição em dobro das quantias cobradas a maior quando verificada afronta à CF/88 e ao artigo 591 do CCB, por encartar ilegalidade bastante para configurar a má-fé considerada pela lei.
APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0439.06.058382-0/001 - COMARCA DE MURIAÉ - A P E L A N T E ( S ) : C O N S T R U T O R A S U D E S T E M I N E I R A L T D A - A P E L A D O ( A ) ( S ) : B A N C O B R A D E S C O S / A
A C Ó R D Ã O
Vistos etc., acorda, em Turma, a 15ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos
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VENCIDO EM PARTE O REVISOR.
DES. TIAGO PINTO RELATOR.
DES. TIAGO PINTO (RELATOR) V O T O
Construtora Sudeste Mineira Ltda recorre da sentença que lhe foi desfavorável nos autos da ação movida ao Banco Bradesco S/A.
A hipótese dos autos é de ação de revisão de contrato "particular de abertura de crédito com garantia hipotecária e outras avenças" (fl. 48), entabulado entre as partes em 1988 (fls. 47/58). Em virtude de tal avença, a i n s t i t u i ç ã o f i n a n c e i r a o r a a p e l a d a d i s p o n i b i l i z o u a q u a n t i a d e CZ$161.986.882,32 (cento e sessenta e um milhões, novecentos e oitenta e seis mil, oitocentos e oitenta e dois cruzados e trinta e dois centavos) a ora apelante com o objetivo de lhe propiciar os recursos necessários para construção de um prédio. Esse contrato, no ano seguinte, 1989, foi objeto de aditamento e modificação, com as partes fixando o montante do débito em NCZ$ 699.342,35 (seiscentos e noventa e nove mil, trezentos e quarenta e dois cruzados novos e trinta e cinco centavos) (fl. 61).
Na sentença, o douto julgador de primeira instância não reconheceu qualquer nulidade ou abusividade nos referidos contratos e, em virtude disso, julgou totalmente improcedentes os pedidos iniciais, mantendo as cláusulas nos termos em que foram originalmente pactuadas.
No recurso, afirma a autora, ora apelante, que os contratos apontados na inicial foram firmados sob a égide do Sistema Financeira de Habitação e que quantias cobradas de forma indevida devem ser restituídas em dobro. Diz que os procuradores da instituição financeira apelada procrastinaram o andamento do feito ao não
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disponibilizar os documentos necessários para a perícia, além de reter os autos por vários meses. Relativamente aos encargos previstos no contrato, alega que os juros foram cobrados de forma capitalizadas, em virtude do emprego da Tabela Price, e que o índice a ser aplicado para a correção foi o 84,32%, quando, na verdade, o devido seria 41,28%.
Ainda, aponta que os juros devem ser aplicados no percentual de 10% ao ano e que "outro ponto a evidenciar é o desrespeito por parte do apelado em relação ao preceito do art. 6º da lei n. 4.380/64 que determina a amortização antes da atualização monetária" (fl. 354). Por fim, aponta a cobrança de comissão de concessão de crédito em todas as parcelas do contrato, bem como assim requer o provimento do recurso nos termos de fls.
355/356.
Contrarrazões às fls.359/388.
É o relatório.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece-se do recurso.
Como já dito no relatório, as partes firmaram um contrato para financiamento de construção de edifício, com apontamento expresso de que as taxas de juros estipuladas "tem como pressuposto o enquadramento das vendas ou transferências das unidades condominiais, feitas a qualquer título, nas condições estabelecidas para financiamento do SFH" (fl. 57). Diante disso, e relevando todas as outras cláusulas pactuadas, é sob a ótica do Sistema Financeiro da Habitação, que deve ser efetivada a revisão dos encargos da apelante pela instituição financeira apelada.
Relativamente a capitalização de juros, o ilustre perito esclareceu que houve sim cobrança de juros capitalizados no caso dos autos. É o que se apanha da seguinte passagem extraída do laudo pericial: "Foram cobrados juros capitalizados mensalmente porque adotado o sistema francês de amortização (Tabela Price) na execução
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do contrato" (fl. 275).
Ocorre que a cobrança de juros compostos, seja por meio da Tabela Price, seja por qualquer outro sistema de cálculo, independentemente da sua periodicidade, não pode ser admitida. O artigo 4° do Decreto n°
22.626, de 1933, que dispõe sobre os juros nos contratos, proíbe a sua prática, por proporcionar um desequilíbrio econômico-financeiro entre as partes. E o Superior Tribunal de Justiça tem entendimento sedimentado sobre a matéria no sentido da impossibilidade da capitalização de juros nos contratos de financiamento vinculados ao Sistema Financeiro Habitacional.
Veja-se:
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS VEDADA EM QUALQUER PERIODICIDADE. TABELA PRICE. ANATOCISMO. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 5 E 7. ART. 6º, ALÍNEA "E", DA LEI Nº 4.380/64. JUROS REMUNERATÓRIOS. AUSÊNCIA DE LIMITAÇÃO. 1. Para efeito do art. 543- C: 1.1. Nos contratos celebrados no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação, é vedada a capitalização de juros em qualquer periodicidade. Não cabe ao STJ, todavia, aferir se há capitalização de juros com a utilização da Tabela Price, por força das Súmulas 5 e 7. 1.2. O art. 6º, alínea "e", da Lei nº 4.380/64, não estabelece limitação dos juros remuneratórios. 2. Aplicação ao caso concreto: 2.1. Recurso especial parcialmente conhecido e, na extensão, provido, para afastar a limitação imposta pelo acórdão recorrido no tocante aos juros remuneratórios. (REsp 1070297/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 09/09/2009, DJe 18/09/2009).
E ainda:
E M E N T A : R E V I S I O N A L D E C O N T R A T O - S F H - C D C - APLICABILIDADE - CONTRATOS POSTERIORES - TABELA PRICE -
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CAPITALIZAÇÃO DE JUROS - IMPOSSIBILIDADE - SÚMULA 121 STF - TR - CONTRATO POSTERIOR - LEI Nº. 8.177/91 - CET - CONTRATAÇÃO - LEGALIDADE. O Código de Defesa do Consumidor é aplicável aos contratos de mútuo hipotecário pelo SFH firmados após o advento da lei nº. 8.078. A capitalização de juros é vedada pelo nosso direito, mesmo quando expressamente convencionada. A tabela Price não pode ser utilizada nos contratos do Sistema Financeiro da Habitação em razão da capitalização de juros, prática esta permitida pela legislação pátria somente para casos em especifico. Prevendo o contrato a incidência dos índices de correção dos saldos das cadernetas de poupança, e sendo este posterior a Lei nº. 8.177 de 01 de março de 1991, legítimo é o uso da TR. Se o CET (Coeficiente de Equalização de Taxas) é contratado pelas partes, legal é a sua cobrança, não podendo apenas este integrar o saldo devedor, caso a prestação não seja paga pelo mutuário. (Número do processo: 1.0024.01.594420-0/001(1);
Relator: Des.(a) JOSÉ AFFONSO DA COSTA CÔRTES; Data do Julgamento: 05/06/2008; Data da Publicação: 24/06/2008).
O caso é, então, é de se reformar a sentença para se proibir a capitalização dos juros, determinando a incidência de tal encargo de forma simples.
No que se refere ao percentual da taxa de juros, é necessário esclarecer que mesmo sob o enfoque da Lei nº 4.380/64, não há previsão de sua limitação. É que o art. 6º, alínea "e", da Lei nº 4.380/64, ao dispor "e) os juros convencionais não excedem de 10% ao ano;", não determina limitação de juros remuneratórios.
Conforme entende o Superior Tribunal de Justiça, as disposições contidas no artigo 6º apenas estabelecem as condições de aplicação do artigo 5º, evidenciando que há possibilidade de contratos com taxa de juros superior a 10% ao ano. Observa-se: "Art. 6° O disposto no artigo anterior somente se aplicará aos contratos de venda, promessa de venda, cessão ou promessa de cessão, ou
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empréstimo que satisfaçam às seguintes condições (...)".
Veja-se:
"Como se percebe, o caput do art. 6º prescreve uma condição de aplicabilidade do art. 5º, o qual, por sua vez, prevê a possibilidade de reajustamento do contrato.
Assim, prevendo o caput do art. 6º que o disposto no art. 5º somente se aplica aos contratos cujos "juros convencionais não excedem de 10% ao ano", resta implícito que há contratos outros, permitidos pela Lei, cujos juros excedem a 10% ao ano, razão por que não se mostra lógica a tese segundo a qual o indigitado dispositivo prescreve uma limitação na taxa de juros remuneratórios.
A jurisprudência desta Corte está sedimentada nesse sentido." (REsp 1070297/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 09/09/2009, DJe 18/09/2009)
A questão está, inclusive, sumulada: "O art. 6º, e, da Lei n.
4.380/1964 não estabelece limitação aos juros remuneratórios nos contratos vinculados ao SFH." (Súmula 422, STJ).
Assim, as taxas de juros não devem ser limitadas no caso dos autos, até mesmo porque não há prova de elas extrapolam aquelas usualmente empregadas no mercado financeiro.
A despeito disso, é de se relevar que foram elas, as taxas de juros, acrescidas de outra taxa, denominada de comissão de concessão de crédito.
Isto é, "a comissão de crédito de 4,93% a.a foi somada à taxa de juros remuneratórios de 10,00% a.a formando a taxa nominal total de 14,93% a.a."
(quesito 12 do laudo pericial - fl. 268).
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que "é abusiva a incidência , mês a mês, da 'taxa de cobrança de serviço' ou 'taxa de administração de crédito', também conhecida como "comissão de concessão de crédito'. Esse encargo, cobrado pela instituição financeira para fornecer crédito ao mutuário incide apenas uma vez" (AgRg no REsp 117437/RS, Ministro Sidnei Beneti).
No caso dos autos, contudo, a comissão de concessão de crédito não incidiu apenas uma vez, mas sim "foi cobrada em todas as parcelas e durante todo o período do contrato" (fl. 268). É justamente em virtude disso que o financiamento concedido pela instituição financeira apelada à apelante deve ser revisto também nesse ponto, de forma que o encargo em questão incida de uma única vez.
No que se refere a atualização do saldo devedor, a prova pericial revelou que "de acordo com a cláusula primeira do contrato firmado em 18/08/1988 (fls. 47/58) e com a cláusula sexta do contrato de rerratificação firmado em 18/09/1989 (fls. 59/64), a prestação e seus acessórios seriam reajustados mensalmente, na data do vencimento do encargo mensal mediante a aplicação do mesmo coeficiente de atualização monetária utilizado para os reajustamentos dos depósitos de poupança livre mantidos instituições integrantes do sistema brasileiro de poupança e empréstimo" (fls.
267/268).
Em virtude de tais previsões contratuais "o banco realizou os cálculos da dívida aplicando o índice de 84,32% por ocasião do Plano Collor"
(fl. 274). E não há nada de ilegal nisso. O Superior Tribunal de Justiça já firmou o entendimento sobre aplicação do IPC de 84,32% para o mês de março de 1990, ou seja, "a correção monetária do saldo devedor dos contratos de financiamento imobiliário vinculados ao SFH, relativamente aos mês de abril de 1990, deve ser calculada com base no IPC de março do mesmo ano, no percentual de 84,32%" (AgRG no REsp no AREsp 251028, Ministro Antônio Carlos Ferreira).
Nada a para se prover aqui.
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lei n. 4.380/64 que determina a amortização antes da atualização monetária"
(fl. 354).
De fato, o laudo apontou que "o banco adotou a correção em primeiro lugar para depois realizar a amortização do valor pago". Mas disso não se apanha qualquer ilegalidade. Mais uma vez a hipótese dos autos encontra respaldo em jurisprudência já pacificada no Superior Tribunal de Justiça, onde está assentado que "o critério de prévia atualização do saldo devedor e posterior amortização não fere a comutatividade das obrigações pactuadas no ajuste, uma vez que a primeira prestação é paga um mês após o empréstimo do capital, o qual corresponde ao saldo devedor" (AgRg no REsp 1205169/DF, Ministra Nancy Andrighi).
Nos termos da súmula n. 450 do STJ: "Nos contratos vinculados ao SFH, a atualização do saldo devedor antecede sua amortização pelo pagamento da prestação".
Noutro giro, os valores cobrados de forma indevida devem ser restituídos de forma simples, e não em dobro como requerido no recurso.
Quando da celebração do contrato e de seu respectivo termo de aditamento não estava em vigor o Código de Defesa do Consumidor, não se vislumbrando também uma conduta consciente e deliberada no sentido se estabelecer a cobrança de um valor indevido. O que se discute, como já dito, é o alcance da lei no que se refere à interpretação de cláusula contratual havendo, inclusive, entendimento em sentido diverso.
Por derradeiro, ainda que a instituição financeira apelada não tenha disponibilizado todos os documentos requeridos pelo ilustre perito, os trabalhos não restaram inviabilizados. Então, como substancialmente os quesitos foram respondidos pelo ilustre expert e não se vislumbrando qualquer elemento ensejador da aplicação do artigo 17 do Código de Processo Civil, fica afastado o reconhecimento da má-fé.
Por essas razões, dá-se parcial provimento ao recurso para
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se determinar o recalculo do financiamento concedido pela instituição financeira apelada à apelante, com a aplicação de juros simples e com a incidência da comissão de concessão de crédito por uma única vez, nos termos deste voto. Os valores cobrados de forma indevida devem ser restituídos de forma simples à apelante e serão calculados em liquidação de sentença.
Considerando a sucumbência recíproca, as custas processuais devem ser dividias na proporção de 40% para a instituição financeira apelada e 60% para a apelante. Os honorários advocatícios fixados na sentença, bem como assim os honorários periciais, devem ser repartidos na mesma proporção.
DES. ANTÔNIO BISPO (REVISOR)
Acerca do pedido de restituição em dobro, observo que a Lei 8078/90, concebeu um sistema de proteção ao consumidor que fixa parâmetros de conduta que devem ser observados pelos fornecedores de serviços, parâmetros este que servem como medida para a aferição da qualidade da prestação fornecida, tomando-se por base a legítima expectativa do consumidor.
Por esta simples aferição, surge o dever de indenizar, por parte do fornecedor dos serviços, tendo como fato gerador do gerador tão somente a lesão a esse padrão de conduta, o que bem se justifica, se considerado que todo o sistema de proteção ao consumidor tem por norte os princípios da vulnerabilidade da boa-fé objetiva.
Nos casos de cobrança de forma indevida de juros e encargos pelos bancos, ocorre a violação de um dever inquestionável de cuidado e de adstrição à legalidade que se impõe às instituições financeiras e destoa do parâmetro de conduta determinado pelo princípio da boa-fé objetiva, pelo que é de ser deferida também esta pretensão do apelante.
No mais estou me colocando de acordo com o Eminente Relator
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Diante do que restou fundamentado acima, estou DANDO provimento ao recurso.
DES. PAULO MENDES ÁLVARES - De acordo com o(a) Relator(a).
SÚMULA: "DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO, VENCIDO EM PARTE O REVISOR."