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Rev. Saúde Pública vol.33 número2

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Academic year: 2018

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33

Universidade de São Paulo

Faculdade de Saúde Pública

VO LUM E 33

NÚM ERO 2

ABRIL 1999

© Copyright Faculdade de Saúde Pública da USP. Proibida a reprodução mesmo que parcial sem a devida autorização do Editor Científico. Proibida a utilização de matérias para fins comerciais. All rights reserved.

Revista de Saúde Pública

Journal of Public Health

Editorial

Editorial

Responsabilidades sociais e éticas do cientista

Social and ethical responsability of the scientist

José Alberto Neves Candeias

Editor

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Rev. Saúde Pública, 33 (2): 111-2, 1999

www.fsp.usp.br/ ~rsp 111

Mesmo aceitando alguns limites da ciência, quanto à sua objetividade e ao seu caráter definitivo, não há dúvidas que o conhecimento científico vem se acumulando ao longo do tempo, de modo consistente, contri-buindo para definir características fundamentais da sociedade. Ao mesmo tempo, a racionalização tecnológica mostrou que sem desenvolvimento econômico, as perspectivas de progresso seriam limitadas. Ficou, então, evidente, que o primeiro grande passo seria ampliar os auxílios financeiros, tanto por parte do governo, em si, como por parte de agências financiadoras e da própria indústria.

Com o início, em 1988, do projeto Genôma Humano, cerca de 5% dos fundos para a pesquisa têm sido destinados a desenvolvimento de projetos laboratoriais e estudos das suas implicações éticas, legais e sociais. Esta mudança de panorama resultou, também, e talvez mais, da pressão do público leigo, através de seu insa-ciável apetite em forçar a ação efetiva dos especialistas em Bioética, na análise do significado social dos avanços naquela área de trabalho. Este esforço de dar maior credibilidade à ciência, entre o público, é, ainda, importante uma vez que a ciência tem, também, um papel cultural a desenvolver e, tal como a música e a pintura, pode despertar entusiasmados aplausos. Mas pode despertar angústias e preocupações. As habilidades e facilidades que a tecnologia colocou nas mãos do homem de ciência pode levá-lo a pensar que dispõe de poderes tão formidáveis, que não lhe será muito difícil mudar os fundamentos da vida. E tal pensamento pode converter-se em realidade! É esta realidade que devemos analisar com equilíbrio, aceitando os benefícios, mas sem esquecer o quanto nosso ambiente poderá ser alterado, irreversivelmente, levando à destruição da própria espécie. Afinal, o cientista, verdadeiro escravo da ciência, pode tomar consciência deste domínio, e aceitar ter em mãos a chave da liberdade e da dominação “tout court”. Achar que esta insólida situação não poderá ocorrer, uma vez que a “racionalidade ética”, sempre, caminhará, par e passo, com o progresso científico, é laborar em uma falsa verdade, pois o que existe é um tremendo desequilíbrio, contra o progresso ético e moral, a favor do progresso científico e tecnológico.

Desequilíbrio este, que resulta de uma forma de divórcio entre os escritos científicos e os que discorrem sobre ética em ciência. Estes, preocupados com conseqüências, aqueles esquecidos das mesmas, confiantes, talvez em demasia, nos moldes arbitrários ou não de suas técnicas e improvisações pessoais. Ora é preciso, com proficiência de fundamentos, colocar as coisas no devido lugar, pondo a descoberto a tardia compreensão, ou o simples amor-próprio do saber, que vez por outra, se tem como onipotente.

Longe do tempo em que valor e fatos científicos eram considerados como independentes, aceitamos, hoje, que os fatos científicos emergem de uma constelação de percepções, valores e ações, o que transfere aos cientistas a responsabilidade intelectual de saber o que é aceitável e não aceitável em ciência? É cada vez maior o número dos que se preocupam com as implicações éticas e morais da ciência, considerando que cabe aos cientistas a responsabilidade de dar as devidas informações sobre quaisquer aspectos de risco que venham a resultar de seu trabalho. Tal esclarecimento deve ser amplo e perfeitamente caracterizado, para que seja possível definir, igualmente, o que é moral e imoral em ciência. Naturalmente, não cabe aos homens ou mulhe-res de ciência tomar decisões morais ou éticas a seu favor, mas estes devem preparar-se para mulhe-resolver situações onde suas responsabilidades, frente à sociedade, não podem ser esquecidas, ou descuidadas.

Editorial

Editorial

Responsabilidades sociais e éticas do cientista

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Editorial Rev. Saúde Pública, 33 (2), 1999

www.fsp.usp.br/ ~rsp

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Se há assunto a respeito do qual a concordância é geral, é o que define o cientista como emocionalmente envolvido em seu trabalho e em permanente ansiedade com uma possível descoberta. Por estes atributos o cientista espera que suas idéias sejam aceitas, não se sentindo muito inclinado a abandoná-las, a menos que se lhe apresentem sólidos argumentos para tanto. São estas as razões pelas quais os cientistas, de um modo geral, procuram adotar a estratégia de simultânea competição e colaboração. Competição que é perfeitamente justi-ficável, uma vez que o número de descobertas importantes é limitado e quando um cientista ou grupo de cientistas foi bem sucedido, outros, trabalhando no mesmo tema, perdem a primazia e se desinteressam em continuar suas pesquisas. Em termos da colaboração não há como fugir de um conjunto de regras já universal-mente acatadas. Respeitadas estas razões, vê o cientista satisfeito o seu desejo de reconhecimento e alimentada aquela força impulsionadora, que sempre deve assistir-lhe definitivamente afastada da “complacência ociosa”. Devotado, inteiramente, aos seus trabalhos, intransigente na defesa da dignidade da cultura e do primado da inteligência, sem jamais esquecer sua condição humana, pela qual se sente irmanado aos que lutam por um mundo melhor.

Estas rápidas considerações sobre o processo científico e sobre as responsabilidades do cientista abrem um novo horizonte, do que poderíamos chamar de ecossistema científico. Aí está uma população de milhões de pessoas dedicadas a outro tanto número de pesquisas, com dispêndio de bilhões, nas mais variadas moedas, e uma multidão de entidades governamentais e industriais, estas últimas mais recentemente, disposta a financiar aquelas pesquisas. Este tipo de organização conduz a financiamentos globais, em que acabam sendo prestigiados os mesmos tópicos, como biotecnologia, eletrônica, fusão nuclear, astronomia e outras grandes áreas. É óbvio que os grandes complexos financiadores não irão decidir que tipo de pesquisa deve ser feito, mas poderão favorecer o grupo de pesquisadores que desenvolvem trabalhos que venham a oferecer-lhe maior retorno. É levando em conta esse tipo de ecossistema, que as discussões sobre ética em ciência devem orientar decisões, amparadas mais no juízo moral do que no limite ético.

Afinal, o problema central da Bioética é o da procura das razões que justificam um dado juízo moral. E cada juízo moral terá as suas razões, sem que isto signifique que “o edifício da ética” pode desabar, e a mortalidade pode estar ameaçada.

Referências

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