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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

Eli Gomes Castanho

A construção de uma imagem do caipira:

cenas de enunciação e ethos discursivo em causos de Cornélio Pires

MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

Eli Gomes Castanho

A construção de uma imagem do caipira:

cenas de enunciação e ethos discursivo em causos de Cornélio Pires

Dissertação apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação do Professor Doutor Jarbas Vargas Nascimento.

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Banca Examinadora

__________________________________________

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As árvores velhas quase todas foram preparadas para exílio das cigarras. Salustiano, um índio guató, me ensinou isso. E me ensinou mais: Que as cigarras do exílio são os únicos seres que sabem de cor quando a

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AGRADEÇO...

À minha família – legitimadora deste dizer, bastidores – cabem, nesse núcleo familiar: - meus primos que sonharam comigo esta conquista e ajudaram a dar a ela seu devido valor. - aos meus tios, em especial a dois deles: a tia Zezinha - por me conduzir a paratopias culinárias, durante os intervalos de estudo no sítio; ao tio Renato por transmitir muita motivação com o orgulho que demonstra sentir pelo sobrinho e o diálogo lítero-artístico e bem-humorado que sempre soube estabelecer.

- minha vó Natália por me fazer lembrar das minhas origens com os causos de seu tempo, dando mais sentido ainda a este trabalho.

- meus irmãos de sangue e de sonhos: David e Priscila. Eles tiveram paciência de ouvir e escutar muito do que é este trabalho, mesmo, algumas vezes, escutando por um ouvindo e soltando pelo outro. Ele, por ser meu orientador para assuntos desta vida, amigo ouvinte dos meus anseios e frustrações, fonte de motivação para seguir na realização de sonhos, parâmetro para equilíbrio. Ela, nossa futura economista, orgulho e prova maior de que apropriar-se do conhecimento é a possibilidade de mudar os rumos da nossa história. - meu pai, Silvino, Sirvino, Vino... junto a minha mãe, por ter sabido me educar nos princípios caipiras. É co-autor de muita coisa aqui, por seu saber que vai além de uma dissertação, pelos diálogos estabelecidos com músicas caipiras, causos e caipiragens afins que aparecem no rádio e na TV e, principalmente, por suas experiências e conversas pelas veredas de nosso sertão.

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Ao Jarbas, cuja vivência, amizade e cumplicidade fizeram perder todos os pronomes de tratamento e títulos que, teoricamente, acompanhariam o nome de meu orientador; mas, para não quebrar de vez o protocolo, escrevo aqui: ao Professor Doutor Jarbas Vargas Nascimento. Recepção amiga na PUC-SP. Sabiamente soube me orientar, fazendo-me perceber, desde a especialização, temas que dialogassem com o sujeito que me constituí e tenho me constituído. Serenidade que deixa os impasses da vida acadêmica fáceis de serem transpostos. Companheiro de viagens, de Sul a Nordeste, que marcaram de forma especial os anos de estudo. Conselheiro amigo, semeador de sonhos, inspiração.

Aos demais professores do programa que me fizeram transcender o olhar, dar relevância e revestir de significado objetos de estudo: Prof. Dr. Dino Preti, Profª Drª. Jeni Turazza, Profª. Drª. Dieli Vessaro Palma, Profª. Drª. Vanda Elias e Profª. Drª. Leonor Lopes Fávero.

À Profª. Drª. Cecília Perez Souza-e-Silva e ao Prof. Dr. Inácio Rodrigues de Oliveira por terem aceitado fazer parte da banca, durante o exame de qualificação, convertendo aquele espaço-tempo em oportunidade de significativo aprendizado. Ela, por suas contribuições teóricas e analíticas. Ele, por seu envolvimento com o gênero causo. Agradeço novamente por continuarem na banca da defesa.

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A outros personagens, colegas e amigos da PUC-SP: a Maria Rita pelos constantes diálogos, inspirações e caronas até a Dr. Arnaldo; a Cristiane, conversa caipira, moda de viola e caronas até São Roque; meninas e menino da Ana Rosa: Marcinha, Maísa, Patrícia, Losana e Luiz, parceiros de ansiedades; o Adriano Mesquita que também fazia parte do grupo anteriormente mencionado e parceiro na abertura desta estrada [o mestrado] que trilhamos; a Heidy, pela bibliografia via sedex.

Ao Zaqueo, ao Josimar e à Nice que baratearam e tornaram um barato minhas idas e vindas a São Paulo, com as vagas que sobravam no ônibus da secretaria da saúde de Salto de Pirapora. Facilitadores, minha gratidão.

Aos parceiros da EMEF Professor José Marcello, ex-alunos, atuais alunos, funcionários, professores e, em especial: ao professor Rogério por compartilhar do mesmo sonho de se tornar mestre, só que em Educação Matemática, e por poder realizá-lo juntamente comigo; a Elizete, amiga incentivadora desde a graduação; a Enedi, Ziquinha, pelas pedaladas e caminhas, movidas a muita conversa e apoio acadêmico; a Solange, minha professora de Educação Moral e História, agora colega-amiga, sempre conselheira e presente na partilha dos anseios.

Aos professores, alunos e funcionários da EE Jd. Daniel David Haddad pela compreensão e credibilidade a mim confiada.

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suas químicas), Adriana (no silêncio, uma catedral... Será que chove?), Regiane (Branca de Neve, Snow, quanta alegria!), Eliã (bom dia, sem tipão!) e a respectiva Virgínia, Sara (histórias do Sul, CTG, bocha, mãe orgulhosa...), Eduardo (ou Eduarte, valeu pelas práticas intersemióticas), Ana Célia (“Oi, pri...”. “Que pri?”. Princesa!). E outros mais: Patrícia, Tato, Cecília, Sandra, Jacira, Claudete, Diego, Neto, Gabi, Cristiane... Conviver com todos vocês me deu muita força para chegar até aqui. Obrigado mesmo.

Às Supervisoras de Ensino, Sandra e Cleide, responsáveis competentes pelo programa Bolsa Mestrado; às funcionárias do Setor de Finanças: Neuci, Bete e Mari, pela simpatia com que recebiam os documentos mensais da bolsa.

À Secretaria de Educação do Estado de São Paulo por garantir meu direito à formação continuada.

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RESUMO

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adversidade decorrente do abandono às políticas de saúde pública, por um saber que lhe é particular e não menos importante do que a do homem da cidade e por um posicionamento político ante a realidade de seu país. Tais facetas construídas são, também, corroboradas por mecanismos da variante caipira, configurando um código linguageiro próprio. Consideramos, por fim, que os causos procuram construir um ethos caipira capaz de subvertê-lo de anti-herói a herói, não acatando, pelo humor, um estereótipo negativo e polêmico, desde aquela época até os dias de hoje.

Palavras-chave:

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ABSTRACT

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constructed are also confirmed by mechanism of the “caipira” variant spelling, configuring an own language code. We considered, finally, that the tales-stories draw a countryman ethos that exchanges the antihero for the hero, not accepting, by the humor, a negative and polemic stereotype, since that time until nowadays.

Key-words:

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...01

CAPÍTULO I – A ANÁLISE DO DISCURSO 1.0 Introdução...05

1.1Percursos da Análise do Discurso...05

1.1.1 Um movimento fundador: A Análise Automática do Discurso...08

1.1.2 Quando as máquinas param: um segundo momento da AD...11

1.1.3 Tendências atuais da Análise do Discurso: por uma análise da Semântica Global...13

1.2 As noções de enunciado, texto, discurso e interdiscurso...18

1.3 Discurso literário...23

1.3.1 O contexto do discurso literário e o conceito de paratopia...24

1.4 Gênero do discurso...26

1.4.1 O conceito fundador de gênero discursivo em Bakhtin...26

1.4.2 Maingueneau e o conceito de gênero de discurso...29

1.4.3 O oral e o escrito nos gêneros de discurso...32

1.5 Cenas de enunciação...34

1.6 Do ethos retórico ao ethos discursivo...37

1.6.1 Antecedentes da noção de ethos discursivo...37

1.6.2 Abordagens lingüísticas (ou nem tanto) sobre ethos...40

1.6.2 Ethos para a Análise do Discurso de D. Maingueneau...47

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CAPÍTULO II – CULTURA CAIPIRA, CORNÉLIO PIRES E SEUS CAUSOS.

2.0 Introdução...56

2.1 A formação histórico-cultural do Brasil Caipira...56

2.2 Literatura Paulista...62

2.3 Cornélio Pires e o maior de todos os causos: a sua vida...71

2.4 As estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho, o queima-campo...74

2.5 O dialeto caipira, de Amadeu Amaral...78

CAPÍTULO III – CENAS DA ENUNCIAÇÃO E ETHOS DISCURSIVO NO GÊNERO CAUSO 3.0 Introdução...82

3.1 Cornélio Pires e a construção do causo...85

3.2 O causo como um gênero de discurso: a cena genérica...90

3.3 A cenografia no gênero causo: espaço e tempo empíricos e discursivos...94

3.4 Um caboclinho mirradinho... A construção do sujeito no causo...99

3.5 Cá estou eu na fazenda velha... A construção das cenas...104

3.5.1 CAUSO 1: Joaquim Bentinho frente a um problema de saúde pública...104

3.5.2 CAUSO 3: Joaquim Bentinho e um caso de cirurgia plástica...108

3.5.3 CAUSO 15: Joaquim Bentinho e a República...112

3.6 A construção do ethos nos causos...117

3.6.1 Pessoas do discurso do “dialeto” caipira: um índice...117

3.6.2 O ethos efetivo de Joaquim Bentinho...121

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CONSIDERAÇÕES FINAIS...129

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...131

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INTRODUÇÃO

Foram quase quatro anos de idas e vindas do interior de São Paulo para a capital, para estudos de pós-graduação em níveis lato e stricto sensu, na PUC-SP. Nessas viagens, as diferenças se escancaravam a cada interlocução travada; a viagem de quase duas horas era espaço para autoconhecimento na diluição paulistana. O impacto da diferença nos fez optar pelo estudo de uma literatura pouco conhecida, embora com temática voltada a um modo familiar de vida, às origens paulistas, em suma, ao universo caipira.

Esse sentimento de estrangeiro no próprio país é que nos motivou à investigação de uma manifestação literária produzida no interior paulista. Assim, esta dissertação tem como tema o estudo das cenas de enunciação e a construção do ethos discursivo nos causos de Cornélio Pires, escritor do interior paulista, autor da obra As estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho, o queima-campo. Dela, elegemos os causos que compõem nossa amostra. Para darmos conta do tema escolhido, optamos pelos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso, na perspectiva de Maingueneau (2005, 2006c, 2008).

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anti-herói; enquanto que Pires nos pinta um jeca heróico, bom selvagem, à moda do índio para os românticos.

Outra justificativa se dá pelo fato de que há alguma tendência, no âmbito das Letras, em valorizar manifestações literárias populares orais ou escritas, como a poesia de cordel, por exemplo; no entanto, muito pouco se sabe e se tem pesquisado sobre as práticas literárias paulistas, em sua vertente popular. Talvez, ainda que também não seja esse nosso objeto de discussão, o esquecimento da literatura popular paulista tenha ocorrido em razão de São Paulo ter sido o ícone modernista dos anos 20 e, com isso, o foco voltou-se mais ao cânone literário, mesmo este tendo vertente popular. É, pois, como tentativa de rememorar esse patrimônio imaterial paulista que este trabalho surge.

Além disso, o estereótipo do caipira paulista é, historicamente, reconstruído por tipos que vão desde o Jeca Tatu a Chico Bento, pelos vários meios midiáticos. Essa reconstrução constante traz no bojo de seu discurso diferentes imagens do paulista da zona rural; tais representações vão desde o matuto preguiçoso e alienado a questões minimamente necessárias a sua inserção no mundo econômico ao homem bucólico em paz com a natureza e desapegado dos valores urbanos. Daí decorre nosso interesse em perceber imagem que se constrói do caipira nesse gênero discursivo: o causo.

Assim, pelo estudo das cenas de enunciação, pudemos delimitar a forma como o autor se legitima num campo discursivo, por meio da construção da cena englobante para, por conseguinte, construir, com a cena genérica, o gênero de discurso causo. Optamos pelo uso da terminologia causo em vez de caso, uma vez que o primeiro parece sugerir maior proximidade à cultura caipira; já que o termo caso é de uso mais recorrente em norma culta. O próprio autor da amostra dessa pesquisa oscila entre o termo ‘caso’, nas falas de narrador e ‘causo’ quando o caipira é o locutor. Segundo o dicionário Houaiss (2005), a etimologia de ‘causo’ provém do hibridismo de ‘caso’ e ‘causa’ e é de uso freqüente no português popular brasileiro. Genericamente, podemos dizer que causos são narrativas comuns à esfera discursiva caipira, tendo temáticas variadas, mas sempre caracterizadas pela variante regional, o que aqui temos chamado de código linguageiro.

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construção do ethos discursivo, entendendo-o como uma imagem construída pelo e no discurso; logo, justificamos por não tê-lo tomado separadamente como objeto autônomo de análise, mas sim, como parte das cenas de enunciação que dita regras sobre o como dizer e sobre o conjunto de fatores do ritual enunciativo. O estudo do ethos discursivo compreende a apreensão de um caráter, de uma corporalidade e de um tom, que serão objeto de nossa investigação.

A amostra da dissertação é composta de três causos, da já citada obra. O critério de escolha deles pautou-se pela temática neles presente, a saber, saúde pública, avanço científico e situação política. Desse modo, tornou-se possível apreender, pelas pistas deixadas no gênero e na língua, a relação entre o homem do campo e a sociedade da década de 20, do século passado. Assim, o trabalho concentra-se no discurso apreendido pela tríade: língua, homem e sociedade.

Sobre o autor dos textos, temos a dizer que Cornélio Pires era autodidata e exerceu várias profissões, a maioria delas ligada à comunicação. Dentre suas atividades, na década de 20 e metade da década de 30, realizou alguns shows de humor, abordando a temática caipira. Escreveu cerca de vinte obras entre causos, contos, poemas e, no fim de sua carreira, algumas obras de cunho espírita. Em seu currículo, não se pode deixar de mencionar o fato de, mesmo tendo poucos recursos financeiros, haver sido mecenas de algumas duplas de moda de viola, inaugurando a produção fonográfica desse gênero musical. Acrescente-se à sua produção, freqüentes colaborações em meios periódicos de humor comuns à época, como a revista O Pirralho e Almanaque d’O Sacy.

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Portanto, queremos responder à seguinte questão de pesquisa: que imagem do caipira é construída a partir dos causos, nas primeiras décadas do século XX? Para isso, procedemos à análise dos três causos da obra. Os textos têm como temática as mentiras de Joaquim Bentinho e, nessa inventiva, o enunciador deixa transparecer um ethos do homem do campo, construído a partir da negação/reafirmação de estereótipos, bem como de uma prática intersemiótica, compreendendo imagens e descrição indumentária.

A organização da dissertação conta com esta Introdução e mais três capítulos. No Capítulo I, Análise do Discurso, tratamos dos pressupostos que norteiam a pesquisa; apresentamos um percurso da disciplina desde seu surgimento, na década de 60, às novas tendências preconizadas por Maingueneau; também centramos nossa atenção nos conceitos de texto, enunciado e discurso, gênero de discurso, cenas de enunciação, ethos e código linguageiro.

No Capítulo II, Literatura Paulista, Cornélio Pires e seus causos, fizemos uma contextualização que acreditamos ser necessária, dado o pouco conhecimento sobre autor e sua obra. Assim, o leitor pode localizar-se no campo discursivo a que temos chamado de literatura paulista.

Por fim, no Capítulo III, Cenas de Enunciação e Ethos no Gênero Causo fazemos a análise propriamente dita, em que buscamos entender os meios pelos quais o enunciador lança mão de recursos lingüístico-discursivos para construção das cenas de enunciação e, conseqüentemente, do ethos que faz parte da cenografia.

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CAPÍTULO I

A ANÁLISE DO DISCURSO

1.0 Introdução

Neste capítulo, apresentamos a base teórico-metodológica que norteia este trabalho. Fizemos, primeiramente, um breve percurso da Análise do Discurso, desde seu surgimento até as tendências apresentadas por Maingueneau (2005, 2006c, 2008), na contemporaneidade. Bem sabemos que a disciplina passou por grande variabilidade e, revistar os caminhos por ela percorridos, nos auxiliará no entendimento de sua configuração mais recente.

Discutimos as noções de texto, enunciado e discurso, para tratarmos de mais outros tópicos teóricos: a noção de discurso literário e a importância de se considerar seu contexto de produção. Por concebermos o causo como um gênero discursivo, o conceituamos de acordo com a base teórica deste trabalho. Já que a noção de gênero é complementada pelas cenas da enunciação de que trata o teórico privilegiado na análise, não pudemos deixar de definir cena englobante, cena genérica e cenografia. Por fim, mereceu um tópico especial o conceito de ethos para a Análise do Discurso.

1.1Percursos da Análise do Discurso

A Análise do Discurso (doravante AD), especificamente a fundada pelos francófonos, vêm apresentando várias facetas desde seu surgimento na década de 60, do século passado, tendo em vista os debates sobre sua epistemologia e sua divulgação pelo mundo.

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sistematizar como se configurou a disciplina ao longo do tempo. Além disso, tal revistar fazemos com certo tom didático com vistas a registrar um saber construído ao longo de nossa formação.

Grosso modo, podemos dizer que o itinerário da AD passou por, pelo menos, três momentos marcados por rupturas, nada estanques, no seio da própria disciplina. Fato natural às ciências, as quais buscam novos paradigmas, quando os antigos não lhes dão as respostas buscadas. Pela observação da totalidade da AD, podemos perceber movimentos de continuidade versus descontinuidade históricas, ao longo de sua trajetória.

Os pares opostos mencionados anteriormente surgem em Kuhn [1962] (2006:29), que postula a noção de paradigma e nos permite aplicá-la em diferentes áreas de conhecimento. O conceito de paradigma é chave para o entendimento da proposta de Kuhn. Para ele, o termo está atrelado à concepção de ciência normal, a qual precede seu entendimento. Desse modo, para o autor, ciência normal

significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.

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Do mesmo modo que os paradigmas são construídos pelo fazer científico, são, também, dinamitados por ele. Isso porque, segundo Kuhn (op. cit.: 93) algumas crenças ou procedimentos anteriormente aceitos foram descartados e, simultaneamente substituídos por outros. Logo, em meio às crises de uma teoria, novas teorias emergem. Assim, a resposta a essa crise leva a uma transição de paradigmas e a esse movimento é que Khun nomeia revolução científica.

O surgimento da AD, nos anos 60, deu-se revolucionariamente em resposta à constatação de paradigmas do estruturalismo lingüístico que não atendiam aos novos objetivos de pesquisa que surgiam àquele tempo, sobretudo, nas correntes formais e funcionalistas, já que essas excluíam a fala dos estudos do campo lingüístico. O cenário para o surgimento dessa revolução foi uma França humilhada pela Segunda Grande Guerra, lançada num continente dividido por modelos sócio-econômicos díspares: o capitalismo e o socialismo, representados, respectivamente, pelos Estados Unidos e pela União Soviética.

Logo, percebemos que a AD foi um movimento de descontinuidade ao estruturalismo. Embora a corrente teórica do lingüista genebrino gozasse de seu período áureo, na Europa, pelo menos até o final dos anos 60.

Assim, os paradigmas constituem-se e dinamitam-se por movimentos de continuidade e descontinuidade históricas, já que as revoluções não se dão abruptamente, mas, lenta e gradualmente. Para Possenti (2004:355), o saber científico apresenta rupturas e, no caso das teorias do discurso, apresenta múltiplas rupturas:

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de verdade tomam seu lugar, tanto teórica quanto politicamente.

A AD, mesmo revolucionando um paradigma no contexto de sua aparição, apresenta em seu interior vicissitudes que comprovam os movimentos contínuo e descontínuo que a constituem sob perspectivas diferentes. Sobre elas, buscaremos perceber esses movimentos.

1.1.1 Um movimento fundador: a Análise Automática do Discurso

Conforme já mencionamos, a AD nasceu num contexto de contestação de projetos totalizantes como foi o estruturalismo. Embora pareça um movimento de ruptura total com aquela fase áurea da Lingüística, é possível perceber, nessa primeira fase, um movimento de continuidade. Cabe-nos, anteriormente, entender de que trata esse ramo da Lingüística.

A disciplina tem o discurso como seu objeto de estudos, conforme a própria nomenclatura já sugere. Logo, é necessário compreender esse objeto. Fernandes (2007) define-o por exclusões e começa pela distinção entre o que vem a chamar discurso e o que o senso comum o categoriza. Desse modo, discurso não compreende uma fala formal, longa, com protocolos próprios. Tampouco discurso é sinônimo de texto, de língua, de fala. Discurso é, para a disciplina, a exterioridade à língua; é o terreno em que o ideológico e o social se fundem e se concretizam na língua. Nessa perspectiva, o discurso é agasalhado na língua. E, embora aspectos de ordem lingüística não entrem em sua constituição, a língua é, em relação ao discurso, o seu suporte. Então, para a AD, são privilegiadas duas interfaces de um mesmo objeto de estudo: a textualidade (materializada pela língua) e o lugar social, a exterioridade (apreendida pelo contexto sócio-histórico-social).

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diálogo entre a Lingüística Estrutural, o Marxismo e a Psicanálise que surge o constructo teórico-metodológico da AAD-69, com vistas à compreensão (esta definida em oposição à inteligibilidade e interpretação) sobre como um objeto simbólico produz sentidos para e por sujeitos.

A constatação, no paradigma estruturalista, de objetivos distantes das novas questões que surgiam, levou, paulatinamente, os estudiosos franceses, do final da década de 60, a rupturas com o sistema. Uma das principais pulsões para isso se deu em razão do questionamento da forma pela qual se estudavam textos, àquela época. Para Pêcheux (1993:62):

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Para dar conta desse impasse, Pêcheux propõe uma análise em dois níveis: um lingüístico e outro discursivo. Para isso, propunha o uso da gramática gerativa, pela análise transfrástica, o que, de certa forma, sugeria um movimento de continuidade histórica dos padrões estruturalistas, embora caminhasse, antiteticamente, num movimento de descontinuidade.

Mussalim (2001) descreve os passos dessa análise preconizada por Pêucheux. A primeira etapa tem seu início pela escolha do corpus. Eram preferíveis discursos estabilizados, produzidos em condições estáveis e homogêneas. Não que não fossem discursos polêmicos, mas eram marcadamente de um grupo específico. Por exemplo, no Manifesto Comunista, nota-se, explicitamente, o locutor assujeitado a uma ideologia, no caso, a das tendências políticas de esquerda. Assim, o texto é fechado numa instituição e ele representa parte de seus interlocutores inscritos nela. A seguir, a análise contempla, ainda, o campo lingüístico; uma vez que o analista se ocupará das relações sintáticas entre os enunciados, bem como do léxico que compõe o discurso. O passo seguinte já é de uma dimensão discursiva: o analista empregará estratégias de substituição e de paráfrase. Por fim, em última estância de análise, ao analista caberá reconhecer, pelas relações de sinonímia e paráfrases, se oriundas de uma mesma estrutura geradora do processo discursivo.

A partir desses passos analíticos, concluía Pêcheux (op.cit.:118) pela existência de uma máquina discursiva, numa metáfora industrial. Esse conceito corresponderia a

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discurso (o comunista, para tomá-lo como exemplo).

Como se vê, a escolha do discurso para o corpus já implica, nessa perspectiva, eleger uma estrutura de condições em que um processo discursivo é gerado. Para perceber a máquina discursiva por detrás desse corpus, é necessária uma análise lingüística (de cunho gerativo, como vimos), prosseguida de uma discursiva. A esse procedimento teórico-analítico, Pêcheux nomeou Análise Automática do Discurso (AAD-69).

1.1.2 Quando as máquinas param: um segundo momento da Análise do Discurso

Esta fase tem como principal diferencial, nesse período, a agregação de conceitos advindos da Filosofia de Foucault, sobretudo, o conceito de formação discursiva (daqui para frente, FD). Pela FD é que se pode dizer que tais palavras somente fazem sentido se relacionadas às condições sócio-históricas de seu uso. É por esse conceito foucaultiano que se regula o que deve e o que não deve ser dito em uma situação sócio-histórico-ideológica dada. Atrelado ao conceito de FD permeia a noção de formação ideológica (daqui para frente, FI), que é exatamente o espaço sócio-histórico em que o sujeito se encontra. Por isso é que Brandão (1997:38) diz que são as formações discursivas que, em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação de classe, determinam “o que pode e deve ser dito” a partir de uma posição dada, em uma conjuntura dada.

O próprio Pêcheux [1983] (1996:314), pai da AAD-69, reconhece a ruína da máquina discursiva, como superação de um paradigma:

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pois é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras FD) que se repetem nelas, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (por exemplo, sob a forma de “pré-construídos” e “discursos transversos”.

Ao contrário da primeira fase em que as máquinas discursivas são estruturas justapostas, fechadas sobre si mesmas, este outro momento trabalha com a obrigatoriedade de o analista perceber as zonas “invadidas” por outras formações. Assim, o processo discursivo não é mais gerado por uma máquina, conforme a metáfora, mas se constrói pelo embate ou pela proximidade, pela disputa de espaço das diferentes FDs.

Em decorrência desses novos modos de perceber o discurso, a noção de sujeito é alterada. Na perspectiva anterior, o sujeito era entendido como assujeitado pela maquinaria discursiva; nesta, vem à baila a noção de sujeito em dispersão. Essa concepção resulta da filiação a determinadas e distintas FDs, que vinculam saberes e que, por sua vez, são articulados a interesses sociais. O sujeito não é mais, portanto, marcado pela unidade. Todavia, isso não lhe dá o status de livre. Como o sujeito se constitui em detrimento das muitas funções, dos muitos papéis que exerce em diferentes espaços discursivos, ele tem sua enunciação regulada pelas coerções oriundas das FDs, pertencentes às respectivas instituições de que ele faz parte.

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Uma FD é, portanto, heterogênea a ela própria: o fechamento de uma FD é um fundamentalmente instável, ela não consiste em um limite traçado de forma definitiva, separando um exterior e um interior, mas se inscreve entre diversas FDs como fronteira que se desloca em função dos embates da luta ideológica.

E, em conseqüência e aperfeiçoamento dessa natureza heteróclita do discurso, é que o modelo paradigmático proposto por este segundo momento foi, aos poucos, sendo substituído pelas novas tendências, paralisando, de uma vez por todas, as máquinas discursivas.

1.1.3 Tendências atuais da Análise do Discurso: por uma análise da Semântica Global

Conceber o discurso numa perspectiva polifônica ditava a necessidade de lançar-se à busca de novos paradigmas. Assim, os estudos nessa vertente muito influenciaram uma nova configuração na AD, desde os princípios bakhtinianos, passando pelos estudos da enunciação e os estudos de semântica discursiva.

Os estudos de Bakhtin, embasados no princípio dialógico da linguagem, favoreceram àquele pesquisador russo a construção do conceito de polifonia, a partir da análise de obras de Dostoievski, de acordo com Bezerra (2006). Desse mesmo conceito, Ducrot apropriou-se mais tarde e o aperfeiçoou, dando a ele, segundo Mainguenau (2006:109), um trato lingüístico, afirmando que aquele que produz materialmente seu enunciado não se encarrega dele, não se apresenta como seu responsável.

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pelo sujeito falante) e enunciador (ao contrário do locutor, o enunciador não se responsabiliza pelas palavras do enunciado, mas pelo ponto de vista sobre ele; possibilita, por exemplo, lançar olhar irônico sobre dada situação discursiva).

Como o locutor não é o dono de sua voz, mas o templo de muitas outras vozes, perpassam por esse conceito as noções de polifonia e de heterogeneidade. A primeira, conforme já mencionamos, é condição essencial para que se constitua o discurso, já que ele se faz das muitas vozes (poli/fonia), que circulam no espaço de convivência do sujeito empírico. A segunda, preconizada por Authier-Revuz, a partir das noções de dialogia e polifonia, refere-se à materialização dessas outras vozes no discurso. Ela pode ser classificada sob duas formas: a heterogeneidade constitutiva que torna implícita a voz do sujeito; e a heterogeneidade mostrada, como sendo aquela que deixa transparecer a voz do outro, que é parte constitutiva do discurso, são exemplos desse tipo de heterogeneidade as citações, as referências a outros dizeres.

Maingueneau (2007:21), na esteira dos estudos semânticos de Ducrot, avança sobre novas considerações acerca da aplicabilidade do conceito foucaultiano de FD, culminando no primado do interdiscurso. Logo, a unidade de análise não é o discurso, mas um espaço de trocas entre vários discursos convenientemente escolhidos. A construção do conceito de interdiscurso decorre do fato de que a heterogeneidade constitutiva não é tão fácil de ser apreendida em uma abordagem lingüística stricto sensu, como seria a heterogeneidade explícita. Logo, para o Maingueneau (op. cit.:33): a hipótese do primado do interdiscurso inscreve-se nessa perspectiva de uma heterogeneidade constitutiva, que amarra, em uma relação inextricável, o Mesmo do discurso e seu Outro.

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interdiscurso, possibilitando a análise do texto, entendido como a materialização de uma rede semântica de discursos, do qual a AD se ocuparia da apreensão desse espaço de trocas. Por outro lado, cabe ressaltar que em trabalhos recentes, Maingueneau (2006c) começa a repensar o conceito de FD. Para ele, o termo foucaultiano-pechetiano, de dupla paternidade, não é dotado de muita clareza. Ao referir-se à FD como aquilo que pode e deve ser dito, articulado sob alguma forma, há a implicação de dois termos caros à AD, o conceito faz menção ao posicionamento (aquilo que pode e deve ser dito) e ao gênero (o que é dito é articulado sob uma forma). Maingueneau (op cit.:14-15) reconhece o uso embaraçoso do termo:

quando redigi o verbete “Formação Discursiva” para o Dictionnarie d’analyse du discours, co-dirigido com P. Chauraudeau, eu mesmo substituí “formação discursiva” por “posicionamento”, devido à incapacidade em que me encontrava de atribuir-lhe um estatuto bem claro.

Com vistas a desembaraçar os nós que se formam ao redor da terminologia, Maingueneau propõe a nomeação de duas grandes unidades, as unidades tópicas e unidades não-tópicas. As unidades tópicas dizem respeito a um recorte de um fluxo de palavras que circulam em certos setores da sociedade: discurso administrativo, publicitário, políticos, judiciários e, como privilegiamos neste trabalho, o discurso literário. Esses tipos, diferentemente da noção de tipos textuais, albergam os variados gêneros de discurso, entendidos por Maingueneau (op. cit.:15) como dispositivos sócio-históricos de comunicação, como instituições de palavras socialmente reconhecidas. Assim, as fronteiras são visíveis, já que os discursos fazem parte de espaços pré-delineados pela sociedade.

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inscritos na história. Nesse caso, Maingueneau reconhece certo valor à terminologia FD, pois permitirá ao analista um recorte de determinada FD para um estudo plurifocal em relação às demais ou para simples comparação. Como ilustração, remete à sua própria pesquisa acerca do discurso religioso (Maingueneau: 2007), em que compara dois posicionamentos num mesmo campo religioso: o discurso do humanismo devoto e o jansenismo, com intuito não de compará-los, mas de construir uma unidade bifocal.

Desse modo, a esta altura da AD proposta por Maingueneau (op. cit: 19),

É necessário ressaltar o caráter dinâmico e agentivo do termo “formação” em “ formação discursiva”. Em vez de considerá-lo em uma perspectiva puramente estática como referindo-se a uma entidade já existente, o analista, em função de sua pesquisa, dá forma a uma configuração original.

Como visto, a AD nesta perspectiva, pretende afastar-se ao máximo daquela que via as FDs como ilhas justapostas. Antes, quer investigar as aproximações dessas ilhas movediças, formadoras de fractais que se materializam em textos, em que parte dela remete a um todo e o todo remete a uma parte. Portanto, o conceito de interdiscurso é ponto fulcral para sua teoria.

Mas o que permitiria ou regularia a adesão de novos discursos/posicionamentos num dado espaço discursivo? Maingueneau, valendo do termo de Chomsky de competência, preconiza a existência de uma competência discursiva dos sujeitos, a qual o torna capaz de aceitar ou refutar determinados discursos, a partir de uma rede de restrições semânticas, a qual funciona como um filtro que fixa critérios na seleção de textos que pertenceriam a outra formação discursiva.

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planos, tanto na ordem do enunciado, da materialidade lingüística, como da enunciação, das condições sócio-históricas de produção da prática discursiva. São alguns desses planos: o vocabulário, a temática, o ethos, as cenas de enunciação, o gênero discursivo, os recursos coesivos, os modos de encadeamento, entre outros. Centrar-se somente no vocabulário, por exemplo, sem considerar a globalidade dos discursos, poder-se-ia correr o risco de uma análise pouco profunda, reducionista.

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1.2As noções de enunciação, texto, discurso e interdiscurso

Conforme vimos nesse percurso pelas tendências principais da disciplina AD, pudemos perceber que seu desenvolvimento se deu por movimentos de continuidade e descontinuidade históricas, já que conceitos novos foram sendo agregados, à medida que outros foram sendo ressignificados em meio às condições sócio-histórico-culturais.

É aparente que cada fase da AD apóia-se num conceito-chave para sua respectiva época, assinalando o movimento de descontinuidade. A primeira fase recorre ao conceito de máquina discursiva, como estrutura única, geradora dos processos discursivos. Aos poucos, o segundo momento pluraliza e abre-se para outras estruturas, a partir da incorporação das formações de Foucault, possibilitando-se, pela análise, o confronto e as aproximações entre as diferentes FDs justapostas. Já as tendências recentes, aproximam-se ainda mais de um olhar heterogêneo sobre os fenômenos da linguagem, fazendo uso do termo interdiscurso, em que as FDs não se apresentam mais como justapostas, mas sim, imbricadas, “invadidas” entre si. É esta última tendência da AD que elegemos como mais adequada para nossa reflexão. Por isso, é necessário tornar claros os conceitos dados às produções verbais variadas, a saber: enunciado, texto, discurso e interdiscurso.

Segundo Maingueneau (2008a:56-57), o enunciado está para o produto, assim como a enunciação está para a produção. O enunciado é a marca verbal de um acontecimento e sua extensão é variável, desde uma frase a um livro. Para alguns estudiosos da linguagem, o enunciado é uma expressão verbal elementar com sentido completo. Já outros, o definem em oposição à frase, por ser esta desprovida de um contexto; sob essa ótica, podemos exemplificar a distinção entre enunciado e frase, a partir do seguinte enunciado: “a porta está aberta”. Tal proposição poderá ter diferentes significações se dita por um empregador quando o empregado estava pedindo um aumento salarial; bem como seria completamente diferente se um locutor dissesse o enunciado ao locutário, com gestualidade que indicasse estar sentido frio. Há, também, lingüistas que entendem o enunciado como uma seqüência verbal que é parte formadora de uma unidade dotada de um sentido completo, de um gênero discursivo. Nessa perspectiva, enunciado tem grande proximidade com ‘texto’.

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pela modalidade escrita da língua, com uma intencionalidade, estruturado especificamente para o sucesso nas interações verbais específicas. Os textos podem ser produzidos tanto por um como por vários locutores, até mesmo porque que a heterogeneidade dos textos – marca constitutiva deles e do discurso - traz consigo novas vozes que são levadas em conta no processo de sua constituição.

Para esta pesquisa, faremos como Maingueneau (op. cit.:57):

utilizaremos freqüentemente “enunciado” com valor de frase inscrita em contexto particular, e falaremos preferencialmente de “texto” quando se tratar de unidades verbais pertencentes a um gênero de discurso. Mas quando tal distinção não tiver importância, utilizaremos indiferentemente os dois termos.

Conforme vimos, ao apresentarmos as tendências mais recentes da AD, o discurso é somente apreensível no interior do interdiscurso, sendo que ambos se materializam em textos. Aquele é entendido como uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas, de acordo com Maingueneau (2007:15). Isso porque os discursos se constituem na heterogeneidade, logo, sua apreensão somente se torna possível pelo confronto estabelecido com outros discursos. Então, para entendermos melhor a constituição do discurso é necessário compreender sua gênese, que se dá no interdiscurso.

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Há, porém, o campo discursivo que é certo agrupamento de FDs que nos permite inferir, a partir de textos e do conhecimento do analista, acerca da existência de um determinado campo discursivo. Como exemplo, podemos citar os discursos jansenista e o humanismo devoto, freqüentemente retomados por Maingueneau, os quais embora apresentem concordâncias e/ou discordâncias pertencem a um mesmo campo discursivo: o religioso. O campo discursivo é um afunilamento de média restrição em relação ao interdiscurso, uma vez que se restringe a um grupo de FDs que permite certa dispersão de textos com certa regularidade entre eles, já que pertence a um mesmo campo. Maingueneau (op. cit.:36) diz que

É no interior do campo discursivo que se constitui um discurso e fazemos a hipótese de que essa constituição pode deixar-se descrever em termos de operações regulares sobre formações discursivas já existentes.

Contudo, o campo discursivo é ainda um terreno de grande amplitude ao analista, é necessário um afunilamento ainda maior para se conceber o corpus. Há de se isolar espaços discursivos, explica Maingueneau (op. cit.:37): subconjuntos de formações discursivas que o analista julga resultar apenas de hipóteses fundadas sobre um conhecimento dos textos e de um saber histórico, que serão em seguida confirmados ou infirmados quando a pesquisa progredir.

Como visto, o espaço discursivo como o lugar de interstícios de FDs, perceptível num determinado campo discursivo, o qual se encontra num terreno ainda maior: o interdiscurso. Daí o motivo pelo qual o teórico francês assegura ao termo sua primazia em detrimento do discurso.

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enunciados que decorrem dele (op. cit.: 54). No entanto, é preciso deixar claro que os Sujeitos não são puros, estáveis quanto à FD que “assujeitam”; eles podem, sim, deslizar por outras competências discursivas que possam garantir o sucesso na sua interação verbal. O conceito interacionista de máscaras, proposto por Goffman (2005) pode ser relacionado com essa variação de competências. O indivíduo pode recorrer a outras competências discursivas, outras máscaras, de acordo com a imagem que queria passar a seu destinatário. Daí a necessidade de renomear essa competência como competência interdiscursiva, já que permite aos Sujeitos recorrer a infinidade de FDs que compõem seu universo discursivo.

A vastidão da interdiscursividade, demanda ao pesquisador uma análise que integre múltiplas dimensões textuais que possibilitam, em razão do diálogo entre os espaços ou campos discursivos, a identificação da alteridade nos textos. Pensando nisso, Maingueneau alerta quanto ao equívoco analítico de considerar somente planos de análise, sendo que o teórico sugere ir além do enunciado e da enunciação. Convoca, pois, ao estudo da sua globalidade, tanto que propõe uma Semântica Global para o estudo dos textos. Segundo sua propositura, há de haver uma integração entre todos os planos do enunciado e da enunciação.

Para sua Semântica Global, são caros conceito como o de intertextualidade que são as relações intertextuais julgadas possíveis pela competência discursiva, diferentemente do intertexto que é o conjunto de fragmentos citados pelo sujeito. A intertextualidade pode se dar pelos empréstimos de textos de outras FDs, dum mesmo espaço discursivo, a que Maingueneau chama de intertextualidade interna; ou, então, a partir de empréstimos textuais de FDs que pertencem a outros campos discursivos, denominada intertextualidade externa. O vocabulário, nessa semântica global, deve ser considerado como um sistema de restrições do espaço discursivo, uma vez que a restrição do universo lexical é inseparável da constituição de um território de conivência (op. cit.:85).

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Como visto, o espaço discursivo é a unidade de análise proposta por Maingueneau. O texto é apenas a materialização do discurso; seus aspectos formais e histórico-sociais do texto são explicáveis pelo sistema de restrições que o permite constituir-se como nos é apresentado. A tarefa do analista é, portanto, a de investigar como esses sistemas de restrições tornam possível a leitura de determinado enunciado e não de outro, ou seja, pela globalidade do texto, entender o funcionamento das relações interdiscursivas.

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1.3Discurso literário

Jakobson (1969), que trabalhou numa perspectiva funcionalista (portanto, diferente da que aqui estamos abordando) com a seguinte questão: “que é que faz de uma mensagem verbal uma obra de arte?”. A resposta seria a função poética da linguagem, isto é, a maneira como se diz, utilizando-se de recursos estilísticos que diferem da linguagem referencial, a convencional dos usos cotidianos. Mas para a AD, o que viria a ser a discurso literário? Ou reformulando a pergunta do funcionalista: “o que é que faz de um discurso um discurso literário?”.

A AD trabalha com a noção sociológica de instituições; de maneira que todo discurso se instaura numa determinada instituição discursiva, no caso, a literária. Por instituição literária, entendemos com Maingueneau, ser aquela capaz de designar a vida literária, isto é, os escritores, os prêmios, os editores, as representações coletivas sobre os escritores, a legislação que norteia os trâmites literários, as instâncias que legitimam e premiam as obras, os usos etc. Esta limita o dizer e as formas de dizer. Desse modo, entendemos a noção de discurso literário como discurso constituinte, legitimado por práticas sociais do campo literário. Maingueneau (2006b:61) define discursos constituintes como aqueles que conferem sentido aos atos da coletividade, sendo em verdade os garantes de múltiplos gêneros do discurso.

O discurso literário surge, então, de um lugar social que o institucionaliza e o legitima através das práticas anteriormente citadas; sendo que cada época tem seus lugares instituídos, assim como foram os salões no século XVII e XVIII e os cafés para o século XIX, espaços que albergavam os artistas e, por esse pertencimento, eram investidos por ethos de escritores. Em contrapartida, é também motor gerador de sua existência a criação de um outro lugar não-institucionalizado, um não-lugar onde os textos surgem; lugares criados pelo escritor para fazer dialogar com aqueles lugares institucionalizados.

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Maingueneau (op.cit.:89) para produzir enunciados reconhecidos como literários, é preciso apresentar-se como escritor, definir-se com relação às representações e aos comportamentos associados a essa condição.

Outro ponto importante que decorre da noção maingueneauniana de discurso literário é o conceito de paratopia. A literatura, enquanto um discurso institucional, possui um lugar na sociedade; no entanto, ela remete a outros lugares que não são exatamente aqueles nos quais ela se insere. O discurso literário tem o poder de ser onipresente, já que pode estar dentro e fora da sociedade. Para Maingueneau (op. cit.: 92), pelo discurso literário se tece uma rede de lugares na sociedade, mas não pode encerrar-se verdadeiramente em nenhum território. Daí a necessidade de atermos ao conceito de paratopia, como uma das marcas do discurso literário.

1.3.1 O contexto da obra literária: contribuições a partir do conceito de paratopia

O conceito de paratopia foi introduzido por Maingueneau (2001, 2006a), a fim de tratar da questão problemática acerca da pertinência de um escritor ao campo literário e à sociedade. Essa problemática não pode ser comparada ao centauro em que parte do corpo estaria imersa na sociedade e a outra parte voltada para as estrelas, para a criação. Embora o campo literário se inscreva na sociedade, é a própria enunciação literária que abala a estabilidade da representação convencional daquilo que se entende por lugar, onde fora e dentro encontram-se delimitados. O espaço discursivo da literatura se constitui na fronteira, isto é, não se localiza nem dentro, posto que a literatura não se confunde com a sociedade comum como tantos outros campos da atividade social, nem fora, porquanto não se fecha em si mesma, muito menos vive apartada da realidade. Como bem salienta Maingueneau (2001:28), a pertinência ao campo literário não é, portanto, a ausência de qualquer lugar, mas antes uma negociação difícil entre o lugar e o não-lugar, uma localização parasitária, que vive da própria impossibilidade de se estabilizar.

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considerava a história literária, numa perspectiva filológica, isto é, a obra seria a expressão e a representação de seu tempo; ou se considerava a clausura literária, numa perspectiva estilística, ou seja, tomada como um universo fechado, traduziria o espírito, a consciência criadora do autor.

Essas visões foram bem marcadas pela Filologia, pelo Estruturalismo e, embora tenham se prolongado por muito tempo, não impediu que uma nova abordagem e concepção do fato literário se instaurassem. Assim, correntes que viam a obra literária sob um novo olhar, um olhar com empréstimos da Pragmática, passam a concebê-la como um ato de comunicação no qual o dito e o dizer, o texto e seu contexto são indissociáveis.

A partir disso, Maingueneau (2001) preconiza dois tipos de paratopia: a paratopia espacial – que corresponde ao não-lugar criado pelo autor, a “Passárgada” de Manuel Bandeira, fugidia à realidade que o faz produzir versos de sangue; e a paratopia social, que compreende o lugar em que o autor de encontra, de onde ele enuncia e se legitima no campo literário, no caso do citado autor, o Modernismo Brasileiro. Em se tratando dos causos que temos estudado, sua paratopia social é o campo literário da Literatura do Interior Paulista, consumida pelos novos cosmopolitas que surgiam na década de vinte; a obra, no entanto, se remetia ao interior, aos “jecas” que ainda não haviam habitado aquele espaço da bela época paulistana.

A paratopia não pode ser entendida enquanto uma noção sociológica, sob esse aspecto, nos referiríamos ao inexplorado interior paulista da década do início do século XX, às favelas do nosso século, aos garimpos... como lugares paratópicos. No entanto, a paratopia é uma noção discursiva que é embasada por um paradoxo. Isto significa ocupar um lugar, sem ocupá-lo, de fato; estar num determinado lugar, sem estar realmente lá. Um texto que exemplifica a noção de paratopia é dado por Maingueneau1 e que está no início do Evangelho de São João: Cristo (o verbo) estava no mundo, fez o mundo, mas o mundo não o conhecia; daí o motivo do verbo fazer carne e habitar no meio de nós. Maingueneau cita protótipos de seres paratópicos como o judeu, que está num país e não pertence a ele. A noção de paratopia é fundamental ao se tratar de discurso literário, pois se torna perceptível a posição paradoxal do discurso constituinte e também dos seus produtores.

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1.4 Gênero do discurso

A noção de gênero torna-se cara ao trabalho não por uma questão de tipologia, de reconhecimento de estruturas que o caracterizam como gênero causo, mas por uma necessidade preliminar para entender as relações sociais que implicam na sua constituição. Para aprofundarmos essa noção sob olhar da AD, pareceu-nos conveniente entender como esse conceito de originou com Bakhtin.

1.4.1 O conceito fundador de gênero em Bakhtin

A discussão sobre gênero do discurso preconizada por Mikhail Bakhtin (2000) tem reformulado a ciência da linguagem e aberto caminho para uma lingüística do enunciado. Apesar de ter sua edição em ano não tão distante do Curso de Saussure, sua influência nos estudos lingüísticos só veio a ocorrer na década de 60, em razão do difícil acesso à produção científica soviética pelo Ocidente, principalmente por impasses políticos.

O autor define gênero discursivo como tipos relativamente estáveis de enunciado e acrescenta que a natureza desses tipos está na esfera da atividade humana a que eles pertencem. Essas esferas fazem uso da língua a partir de enunciados concretos e únicos, com condições e finalidades específicas. Logo, o gênero do discurso é um enunciado concreto, no qual funde-se em sua composição: conteúdo temático, estilo e construção composicional. Ele pode apresentar-se em variedades infinitas, desde de um diálogo cotidiano a um romance. Toda essa diversidade funcional dos gêneros deve-se à flexibilidade que os enunciados adquirem para dar conta das mais diversas esferas sociais de comunicação.

Para Bakhtin, os estudos da Retórica e até mesmo da Lingüística Geral não privilegiaram o gênero enquanto produto da língua (sistema), além de que tais áreas haviam trabalhado somente com discursos a que ele chamou de secundários, ignorando, assim, a globalidade dos usos língua.

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filosófico, entre outros — são produtos de trabalho em circunstância de comunicação cultural, utilizando-se da tecnologia da escrita. Assim que os define, observa que os gêneros primários, ao serem transformados em secundários (como na reprodução de um diálogo num romance, por exemplo) muito perdem de sua relação com o mundo. Sobre esse processo, Bakhtin (2000.: 281) diz:

transformam-se dentro destes [os gêneros secundários] e adquirem uma característica particular: perde sua relação imediata com o mundo existente e com a realidade dos enunciados alheios.

Considera que uma análise eficiente deve tomar como ponto de partida a inter-relação entre as duas modalidades de gênero e seu processo histórico, uma vez que aí se encontra a natureza do enunciado. Aliás, a historicidade é a característica constitutiva de todo enunciado. Além de que, a partir de sua análise, permite-se a apreensão de ideologias e visões de mundo.

Bakhtin (op. cit.: 282) justifica o estudo da natureza da linguagem, a partir de enunciados concretos, a que ele denominou gêneros, pelo fato de que:

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também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua.

Pela citação acima, podemos inferir a sinonímia entre gênero discursivo e prática social. Os gêneros são, antes tudo, práticas sociais.

Mais adiante, trata da questão do estilo. Defende que a sua apreensão dá-se somente por meio do estudo dos gêneros. Acrescenta que os estilos individuais são mais visíveis em gêneros da esfera literária; enquanto que em outros, como documentos oficiais, o próprio gênero determina o seu estilo geral. Portanto, o estudo do estilo deve preceder o estudo do gênero, o que a Estilística mostrou não haver feito. O autor vai mais além, salientando que qualquer que seja novo fenômeno lingüístico, em qualquer que seja seu nível gramatical (fonético, morfológico, sintático, semântico...) passa ou deveria passar, antes, pela definição de gênero do discurso.

Ao Bakhtin (op. cit.:320) dizer, repetitivamente, que os gêneros são elo da cadeia muito complexa de outros enunciados, deixa entrever a noção de dialogia como marca norteadora de seu pensamento. Dessa forma o dito já-aqui, contém parte do dito antes, isto é, de outros enunciados concretos utilizados para a interação humana. O dito já-aqui pressupõe uma resposta do outro, que a fará em seu momento.

Considerando esse princípio dialógico da linguagem, o lingüista soviético critica os estudos de Saussure e outros estruturalistas, behavioristas, uma vez que esses consideravam o outro como passivo na interação verbal. O momento do outro interagir com a linguagem dá-se pela alternância dos sujeitos falantes e essa alternância só ocorre pelo fato de que o enunciado concreto pressupõe um sujeito falante, um destinatário dotado do que o autor chamou de compreensão responsiva ativa.

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1.4.2 Maingueneau e o conceito de gênero de discurso

Seguindo a noção bakhtiniana, as reflexões de Maingueneau (2008:61) apontam para novas considerações acerca do gênero e sua categorização. O lingüista define gêneros de discurso como dispositivos de comunicação que só podem aparecer quando certas condições sócio-históricas estão presentes. Somente justificará a necessidade da emergência de um gênero, se houver atores sociais e condições que promovam o seu uso. Daí, a necessidade de incorporar à noção de gênero, o ethos e as cenas da enunciação, isto é, os termos anteriores referem-se, respectivamente a atores sociais e tempo-espaço, como veremos mais à diante.

Implicitamente, o autor parece retomar o conceito de FD atrelada ao seu conceito de gênero, já que é um dispositivo de comunicação (o dito articulado sob uma forma) que só pode aparecer numa dada situação sócio-histórica (aquilo que pode e deve ser dito). Ao nos depararmos com um determinado gênero, podemos reformular aquela pergunta de Foucault: “por que esse gênero foi parar aí e não outro?”

Portanto, as condições sócio-históricas justificam o uso de uma estrutura textual, de um dispositivo enunciativo e esses fatores devem ser levados em conta na produção de efeitos de sentidos, no processo de intercompreensão. Isso ilustra a importância que o status gênero ocupa na AD. A disciplina lingüística tem de ser capaz de analisar as regularidades lingüísticas do texto e, concomitantemente, formular hipóteses sobre ele. Todavia, com certo equilíbrio para que não haja predominância das condições sócio-históricas em detrimento da textualidade ou vice-versa.

Tanto é que os gêneros estão impregnados das condições histórico-sociais, que Mainguenau (op. cit.:61) sugere certa efemeridade aos gêneros. Eles não são eternos como podem ser as tipologias comunicacionais (funções da linguagem e funções sociais). Essas sempre existiram e existirão em menor ou maior graus em alguns gêneros; no entanto, um gênero como o talk show ou o editorial nada têm de eterno. Poderíamos, assim, caracterizar uma sociedade pelos gêneros de discurso que ela torna possível e que a tornam possível.

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cognitivistas, como as de Marcuschi (2005), apontam para uma infinidade de gêneros que circulam na sociedade e cerca de quase meia dúzia de tipos que perpassam por essa infinidade. Segundo aquele autor, os gêneros são atravessados por tipos predominantes, sendo eles: a narração, a descrição, a argumentação, a exposição e a injunção. Os tipos textuais têm subsidiado muitos trabalhos, sobretudo na Lingüística Textual, e suas relações com o ensino.

A AD de Mainguenau (op. cit.: 61) propõe uma separação por tipo um pouco mais variável e flexível. Para ele, os gêneros de discurso são pertencentes a vários tipos, não apenas quase meia dúzia, pois os tipos de discurso são associados a vastos setores de atividade social. Como exemplo, cita novamente o talkshow que é um gênero pertencente ao tipo de discurso “televisivo”, o qual faz parte de um conjunto ainda mais vasto, o tipo de discurso “midiático”, em que podemos identificar os discursos radiofônico e os da imprensa escrita. Além da tipologia do discurso orientada pelo setor de atividade social, Maingueneau propõe a classificação de tipos por: lugar institucional, como a escola, o hospital, a família, a empresa etc; estatuto de parceiros, como o discurso do idoso, da criança, da mulher; ou posicionamento de natureza ideológica, como o discurso católico, o discurso socialista.

Podemos acrescentar aos critérios de tipologias os discursos que deixam entrever terrenos de posicionamentos diversos, criando, para o pesquisador, unidades que apresentam difícil reconhecimento de uma demarcação ideológica, dando origem ao que mencionamos de unidades não-tópicas; assim, poderá se falar de discurso racista, discurso homofóbico, discurso motivacional etc.

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psicossocial que são parte de processo de atividades socialmente organizadas. O lingüista norte-americano reforça ainda que os gêneros tipificam muitas coisas além da forma textual.

Segundo Maingueneau (op. cit.:66), para conceber um gênero e sua tipologia de discurso há de se levar conta: uma finalidade reconhecida, o que justifica a necessidade de se optar por determinado gênero e não outro; um estatuto de parceiros legítimos, isto é, o papel que os enunciadores e co-enunciadores desempenham na interação verbal; o momento e o lugar legítimos, a enunciação se dá num aqui e agora, o qual deve ser levado em conta ao conceber determinado gênero; um suporte material, o que vale questionar através de que mídia um texto será transmitido a um interlocutor; além de que, entre as necessidades já citadas, entender que o texto apresenta uma organização textual que é (ou deve ser) reconhecível ao co-enunciador.

Além do mais, o lingüista aponta três metáforas com o intuito de esclarecer como caracterizar um gênero. Tais metáforas são o contrato, o papel e o jogo, respectivamente dos seguintes campos o jurídico, o teatral e o lúdico.

O contrato caracterizador do gênero diz respeito a regras de sua sistematização que, utilizadas pelo locutor e, por serem (re)conhecidas pelo interlocutor-destinário, é por este aceito como um gênero “x”. É possível, também, que haja alguma transgressão desse contrato; quando houver, o interlocutor-destinatário deverá perceber o motivo pelo qual seu interlocutor optou por fazê-la.

A metáfora teatral do papel refere-se ao fato de que os interlocutores assumem papéis sociais múltiplos em detrimento das situações. Por exemplo, um homem pode ser um professor e comportar-se como tal numa instituição de ensino, porém, ao chegar em casa exercerá papéis diversos como de pai ou marido. Assim também os alunos desse professor poderão exercer múltiplos papéis fora dessa instituição.

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Mas, contrariamente às regras do jogo, as regras do discurso nada têm de rígido: elas possuem zonas de variação, os gênero podem se transformar. Além disso, o gênero de discurso raramente é gratuito, ao passo que um jogo exclui as finalidades práticas, visando apenas o lazer.

Ademais desses elementos caracterizadores, há de se levar em conta o suporte onde um discurso é materializado. Tal dimensão é essencial no tratamento do gênero, uma vez que o efeito de sentido capaz de um texto produzir pode ser alterado se apresentado em suportes diferentes. Desse modo, o causo contado por meio da modalidade oral é diferente daquele que se materializa pela modalidade escrita. Então, é necessário perceber como essas modalidades dicotômicas podem interferir na caracterização de um gênero.

1.4.3 O oral e o escrito nos gêneros de discurso

Maingueneau (2001, 2006a e 2008a) aponta que à manifestação material dos discursos merece ser reservado um lugar importante. Durante muito tempo, principalmente no discurso literário, considerou-se o texto como seqüência de frases dotada de sentido, sem preocupar-se com o midium a que tal seqüência estaria veiculada. Nos dias atuais, dados os diferentes suportes em que os textos se materializam, estamos cada vez mais conscientes de que o midium não é simplesmente um meio de transmissão de discurso, mas ele imprime certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que podemos fazer dele.

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Por seu turno, acerca do oral e do escrito, Marcuschi (2003) postula não haver oposição entre eles, mas sim, uma relação que se funda num continuum entre as modalidades e não numa dicotomia polarizada. Desse modo, fazendo coro a Maingueneau, um texto ainda que se materialize pela escrita poderá conter marcas de um texto falado; o contrário também pode ser verdadeiro.

Essa premissa é proposta por Marcuschi a partir da noção de gêneros textuais e das atividades de retextualização. Por essas últimas, entende-se que é uma atividade corriqueira na sociedade, como exemplo da transposição de gêneros da modalidade oral para a escrita, temos a atividade de um jornalista, ao fazer uma entrevista. Ele transpõe um texto da modalidade oral para a escrita. Essa atividade não é tão simples e requer conhecimento de características próprias da fala e da escrita, sendo que, nessa atividade em especial, o jornalista deverá eliminar as marcas de oralidade na produção de seu texto escrito; todavia, algumas características próprias à fala permanecerão, considerando-se as condições de produção do texto. A retextualiação poderá ocorrer, também, de forma inversa a nosso exemplo, a partir de um texto escrito, poderão surgir novos textos na modalidade falada. Também é possível a retextualização entre enunciados de mesma modalidade, por exemplo, a resenha é uma escrita sobre outro texto também escrito. Portanto, os textos devem ser vistos num continuum em que seu ponto de localização será determinado pelos critérios de afastamento e proximidade em relação às modalidades escrita e oral.

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1.5 Cenas de enunciação

O conceito de cenas de enunciação foi apresentado, inicialmente, sob outros rótulos por Maingueneau, conforme recupera Rocha (1997:93-95). O conceito é primeiramente apresentado em Gênese do Discurso como dêixis enunciativa. Essa se constituiria sob o duplo registro de uma dimensão espacial (aqui) e uma dimensão temporal (agora), nomeadas, respectivamente por cena e cronologia.

Dois anos mais tarde, conforme lembra Rocha, o conceito é reformulado em Elementos de Lingüística para o Texto Literário, a partir do acréscimo de concepções de Benveniste, culminando em situação de enunciação, por apresentar um tempo, um espaço e, por outro lado, seguindo a orientação enunciativa, um enunciador e um destinatário. Essa situação de enunciação seria tratada, ainda na mesma obra, como “sinônimo” de cena enunciativa. Com essa nomenclatura é que o conceito reaparece em Novas Tendências em Análise do Discurso.

Já em obras mais recentes, Maingueneau (2006c, 2008a) trata, respectivamente de cena de enunciação e cenas da enunciação, a última, inclusive, se configura como título da tradução brasileira. Não obstante a variação da nomenclatura, sua acepção continuou quase que inalterada em comparação a cena enunciativa.

Ao usar o discurso, o enunciador sempre encena sua fala, num contexto capaz de enredar a si e a seu co-enunciador, colocando ambos os interlocutores numa rede de sentidos. Desse modo, a enunciação cria espaços, cenas, onde as partes interessadas no que veicula um discurso se negociam num espaço-tempo, por meio de construções textuais próprias, com propósito e público-alvo também próprios. A essas cenas, Maingueneau nomeia cena englobante, cena genérica e cenografia.

A cena englobante delimita o espaço de origem de uma fala; percebê-la em um texto implica o reconhecimento do lugar social, da instituição de onde ele emana. É por esse tipo de cena que o analista torna-se capaz de dizer que determinado texto pertencente ao discurso político, literário, religioso etc. Ao assim fazer, reconhece-se a cena englobante do texto, ou seja, o tipo de discurso a que ele pertence.

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