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Pessoas do discurso do “dialeto” caipira: um índice

No documento Eli Gomes Castanho.pdf (páginas 132-136)

CAPÍTULO III – CENAS DA ENUNCIAÇÃO E ETHOS DISCURSIVO NO GÊNERO

3.6 A construção do ethos nos causos

3.6.1 Pessoas do discurso do “dialeto” caipira: um índice

Do diálogo que se estabelece entre o narrador e o personagem, com intervenções de outros caipiras que estão ao pé do fogo, são apreensíveis algumas formas cuja variação é justificada pelo contexto. Nesse sentido, estamos de acordo com Benveniste (1988) e Kerbrat-Orecchioni (1980) para quem a subjetividade é revelada por meio de dêiticos e, assim sendo, as pessoas do discurso (pronomes de tratamento) funcionariam como primeiros índices da revelação do “eu” e do “tu” no discurso, pelo qual podemos extrair dados que nos auxiliarão a entender a construção do ethos discursivo na interação.

Comecemos pela abordagem do narrador a Joaquim Bentinho:

Excerto 14 (Causo 3)

— Bom, Nho Joaquim... Já vi que o senhor é “truco-flecha” em paes de mel... Vamos ao caso!!

— Esse Nho Joaquim... interrompeu um dos caipiras: larga a estrada, garra as incruziada, passa pros amassado, segue os trio, entra no carreado, erra o ataio e num tem fim!

— Puis váe lá! Cumo ia dizeno, Nho Pae, eu, meu ermão, o Gabrié, compadre Caria, Dito de Nhana, Chico de Nhá Angérca, e meu cunhado Sarafim fomo chupa fruito no mato e porveitá pra fura as veiêra.

Pelo trecho acima podemos observar que o narrador tenta passar, por seu turno, uma imagem de si que se assemelha ao caipira, isso com vistas a manter a interação e ouvir o causo que espera poder registrar. Esse ethos de caipira é perceptível pela apropriação da forma de tratamento Nho, incomum ao código de linguagem que afirmaria um posicionamento de cidatino, de homem culto da cidade. Em seguida, o mesmo narrador usa a forma o senhor, o que demonstra certo distanciamento do contador de causo e, em momento algum, o tratará de você. Outro caipira que estava ao pé do fogo, também faz uso de Nho.

Já o protagonista, ao referir a seu pai, utiliza a mesma forma, certamente um sinal de respeito ao status de pai. Esse uso, no entanto, nos remete a forma registrada por Amaral (1920), o qual aponta para a influência de falares africanos, como em sinhô-moço, conforme expusemos anteriormente.

Em outro momento, ainda no causo 3, o cunhado de Bentinho, ao ter seu nariz aparado por um facão, assim o trata:

Excerto 15

— Num ande, rapais, ocê piza no meu nari, masgaia o nari... o meu nari de tanta estimação!

Temos aí um exemplo do ponto máximo de afinidade, de solidariedade, concretizado no uso do termo ocê, conforme assegurou o estudioso do dialeto caipira. Considerando que o personagem é o cunhado de Bentinho e que este havia ‘decepado’ seu nariz, nada mais lógico que o tratar na maior das informalidades. Ao Joaquim é permitida a construção de uma imagem de seu cunhado como alguém que está numa mesma hierarquia social, compadre, companheiro de caçadas.

O caipira para o homem da cidade não hesita em usar informalmente vacê para o narrador, porém, essa forma aparenta um pouco mais de distanciamento que a forma ocê. Vejamos um exemplo desse uso no causo 3:

Vacê sabe: os pai de mé, abeinha do mato, tem de tudas qualidade: manda-saia, mandaguary, tuvuna, jetahy...

Vacê chupa elle co só quente, elle sobe na cabeça que nem pinga, e dexa a gente chucro.

Vacê sabe. . . no mato tem esses matinho mai miúdo; guainxúma, unha de gato...

Ara. . . Vacê num magina a trapêra que conteceu!

Quãno elle tá pitano, vacê vê: sorta aquela fumacêra pra riba, pró nari, que nem chaminér...

Note-se a permanência dessa forma de tratamento em várias falas, num mesmo causo. Isso evidencia a freqüência do uso, quase desconhecida na fala popular atual.

Outra forma também utilizada de maneira mais formal do que as até aqui mencionadas é o mecê, sugere um distanciamento ainda maior que ocê, vacê, vancê. Retiramos um trecho em que o narrador faz uso de mecê, novamente com o intuito de passar uma imagem de também caipira. O excerto é retirado de um causo 8, em que Bentinho cavalgou (se assim podemos dizer) numa anta, por vários dias:

Excerto 17 — E mecê?

— Eu no piloto... Imbico e nua corrida loca, co’a dor do anzó, garro barranco a riba c’a canôa e tudo...

— E mecê? — Eu no piloto!

O uso de mecê nos permite a inferência de que Bentinho era mais velho que o narrador. Por três motivos. O primeiro é em razão do uso da forma anteriormente mostrada

no excerto 15, o senhor. O segundo, pela forma que agora expusemos. E terceiro, pela forma pronominalizada que o homem do campo usa para com o homem da cidade em:

Excerto 18

— Ocês são burro... baxem as orêia imquanto eu c’o moço cumberso...

Desse modo, o status etário dos falantes também justifica a variação.

Concluímos, pela análise do uso dos pronomes de tratamento, que o homem da cidade faz uso dos recursos de polidez disponíveis no “dialeto” caipira, a fim de construir nos interlocutores que estão ao pé do fogo, uma proximidade maior e manter certo distanciamento em razão da faixa etária mais avançada do seu interlocutor. O “cidadão” para revestir-se de um ethos discursivo capaz de promover uma interação de sucesso com o caipira, isso pode ser explicado por Maingueneau (2007:49), pois o falante da cidade encontra-se preso a um sistema de restrições semânticas como um filtro que fixa critérios em virtude dos quais certos textos se distinguem do conjunto de textos possíveis como pertencendo a uma formação discursiva determinada.

Por seu turno, o caipira vê no homem da cidade um sujeito mais novo com quem interage, fazendo uso de formas adequadas à interação com mais novos, não importando a titulação que o outro possa ter, diferenciando-se do tratamento aos demais caipiras pelo uso das formas vacê e vancê. O ethos mostrado pelos dêiticos nos leva a presumir certo distanciamento do homem da cidade por ele não pertencer à comunidade rural e estar ali na condição de visitante.

Por fim, podemos sistematizar as pessoas do discurso utilizadas na variante, considerando o ethos dos interlocutores que sugerem solidariedade e distanciamento, pelo seguinte continuum:

No documento Eli Gomes Castanho.pdf (páginas 132-136)