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Algebra Matricial - Nota 06
Matrizes
M´arcio Nascimento da Silva 8 de outubro de 2013
A manipulac¸˜ao com n ´umeros dispostos em linhas e colunas foi muito ´util na resoluc¸˜ao de sistemas. Vimos que esta forma de dispor os coeficientes de um sistema, aliada ao m´etodo de Gauss, tornou poss´ıvel a aplicac¸˜ao de uma ´unica “arma” para resolver os mais variados tipos de sistema. Os chineses, pioneiros nessa t´ecnica, estavam com a semente do que mais tarde germinaria como a ´Algebra Matricial (MEYER, 2000).
As matrizes passaram a ganhar um tratamento alg´ebrico (com a definic¸˜ao de operac¸ ˜oes e proprie-dades) apenas com Arthur Cayley (1821-1895).
1
Representac¸˜ao de conjunto de matrizes
Nossa primeira ideia de matriz foi a de uma representac¸˜ao organizada dos coeficientes de um sistema de equac¸ ˜oes lineares. Esta representac¸˜ao consistia da disposic¸˜ao dos coeficientes em linhas e colunas bem determinadas.
Podemos trabalhar com coeficientes (e termos independentes) sendo n ´umeros reais (R) ou complexos (C). Ali´as, tais conjuntos podem ser usados para a representac¸˜ao de outros, alguns at´e visualiz´aveis geometricamente:
• R2 = R×R = {(x
1, x2) ; xi∈ R} - Conjunto dos pares ordenados de n ´umeros reais. Plano Cartesiano. • R3 = R × R × R = {(x
1, x2, x3) ; xi ∈ R} - Conjunto dos ternos ordenados de n ´umeros reais. Espac¸o. • Rn= R × R . . . × R = {(x
1, x2, . . . , xn) ; xi ∈ R} - Hiperplano de dimens˜ao n.
Por exemplo, o elemento (1, 2, 3, 4, 5, 6, 5, 4) pertence `a R8. Um espac¸o com 8 dimens ˜oes e um tanto
quanto dif´ıcil de se representar geometricamente... Analogamente, podemos usarC para representar os conjuntosC2, C3, . . . , Cn.
Observac¸˜ao 1 (N ´umeros Complexos) Lembremos que um n ´umero complexo ´e um elemento na forma a+ bi onde a, b s˜ao n´umeros reais e i, chamada unidade imagin´aria, ´e tal que i2= −1. Assim, a representac¸˜ao geom´etrica deC j´a ´e feita atrav´es de um plano, havendo uma correspondˆencia biun´ıvoca entre C e R2. Tal correspondˆencia tamb´em existe entreC2eR4,C3eR6e, mais geralmente, entreCneC2n.
Para representar um conjunto de matrizes podemos usar notac¸˜ao semelhante. Considere, por exemplo, uma matriz qualquer de ordem 2× 2, isto ´e, uma matriz que possui 2 linhas e 2 colunas:
A=
"
x y
z w
#
Poder´ıamos representar os elementos de tal matriz em uma lista, da seguinte forma: (x, y, z, w)
Observe que a ordem em que os elementos aparecem na lista, tem uma relac¸˜ao direta com a ordem de disposic¸˜ao na forma matricial, isto ´e, a representac¸˜ao da lista
(3, 4, 1, 5) como uma matriz de ordem 2× 2 seria
" 3 4 1 5 #
Diremos, ent˜ao, que a matriz gen´erica A descrita acima ´e um elemento deR2×2, uma vez que seus elementos podem ser escritos em uma lista de 4 elementos (R4). Mas por que n˜aoR1×4ouR4×1? Simples!
A notac¸˜aoR2×2nos diz exatamente a ordem da matriz que se quer representar. Se escrevˆessemosR1×4, por exemplos, estar´ıamos afirmando que a matriz tem 1 linha e quatro colunas. Desta forma,
R2×2= {conjunto das matrizes de ordem 2 × 2 e elementos reais} Exemplo 2 " 8 0 2 7 7 4 # ∈ R2×3, −3 1 5 2 4 3 5 7 ∈ R4×2, −1 0 0 14 3 2 1 1 2 5 9 ∈ R3×4 Obviamente, no caso de matrizes com elementos complexos, a ideia ´e a mesma.
Exemplo 3 " (1− 2i) (4 + 2i) (7− 7i) (2 − 4i) # ∈ C2×2, 5−3i− i −2 + 2i1 0 −i ∈ C3×2, −1 0 0 14 3 2 1 1 2 5 9 ∈ C3×4 Generalizando,
Rn×m= {conjunto das matrizes de ordem n × m e elementos reais}
Cn×m= {conjunto das matrizes de ordem n × m e elementos complexos}
1.1 Notac¸˜ao
Nem sempre ´e poss´ıvel explicitar uma matriz. E, algumas vezes, tamb´em ´e incoveniente escrever por inteiro uma matriz qualquer. Assim, para escrever uma matriz de forma gen´erica, podemos usar a seguinte notac¸˜ao A= a11 a12 . . . a1m a21 a22 . . . a2m ... ... ... an1 an2 . . . anm
cada elemento (ou entrada) da matriz possui um ´ındice duplo. Esta informac¸˜ao diz a posic¸˜ao do elemento dentro da matriz:
• a23- elemento posicionado na segunda linha e terceira coluna;
• a18- elemento posicionado na primeira linha e oitava coluna;
Repare, ainda, que o ´ultimo elemento da matriz traz em seu ´ındice informac¸ ˜oes sobre a ordem da matriz. Neste caso, anmindica que a matriz possui n linhas e m colunas.
Em alguns casos, ´e poss´ıvel e conveniente condensar ainda mais a representac¸˜ao da matriz. Podemos escrever simplesmente:
A= [ars]n×m
para indicar uma matriz de n linhas e m colunas. Observe que o primeiro ´ındice, o r, varia de 1 a n, enquanto o ´ındice s, o da coluna, varia de 1 a m.
Exemplo 4 Vamos esboc¸ar matriz A= [ars]3×2sabendo que ars= r − 2s.
Inicialmente vemos que a matriz possui 3 linhas e 2 colunas. Ent˜ao sua forma ser´a a seguinte: A=
a11a21 a12a22 a31 a32
Para detereminar cada entrada da matriz, basta fazer a conta “linha menos duas vezes a coluna”:
A= (1(2− 2.1) (1 − 2.2)− 2.1) (2 − 2.2) (3− 2.1) (3 − 2.2) = 10 −3−2 1 −1
2
Operac¸ ˜oes com Matrizes
Para falarmos em ´Algebra Matricial, se faz necess´ario introduzir operac¸ ˜oes em um conjunto de matrizes. Veremos que em alguns momentos, teremos situac¸ ˜oes similares `as experimentadas com n ´umeros reais ou complexos.
Doravante, um escalar nada mais ´e do que um n ´umero real ou complexo. Eles ser˜ao extremamente ´uteis para o porvir.
Diremos que duas matrizes A = [ars], B = [brs] s˜ao iguais quando ambas tˆem a mesma ordem e elementos correspondentes iguais.
Exemplo 5 As matrizes A= " 1 −1 0 2 # , B = " −cosπ −sen(π/2) log 1 √4 #
s˜ao iguais, pois ambas s˜ao de ordem 2× 2 e a11 = b11, . . . , a22= b22. J´a as matrizes A=h1 5i, B =
" 1 5 #
embora tenham os mesmos elementos, tˆem ordem diferente. N˜ao s˜ao iguais!
2.1 Soma
Desde muito cedo lidamos com operac¸ ˜oes entre n ´umeros naturais. Com o passar dos anos, aprendemos como operar n ´umeros inteiros, racionais, reais e complexos e, nesse ´ultimo conjunto, vemos uma generalizac¸˜ao do que aprendemos desde o in´ıcio com os naturais.
Agora, embora diante de conjuntos “diferentes” dos n ´umeros complexos1podemos definir operac¸ ˜oes baseadas nas operac¸ ˜oes que j´a conhecemos para os conjuntos num´ericos. A primeira delas ´e a soma.
Sejam A = [ars] e B = [brs] matrizes de mesma ordem m× n. Definimos a soma A + B da seguinte forma:
A+ B = [(ars+ brs)]m×n
isto ´e, a soma de duas matrizes ´e uma nova matriz (de mesma ordem m× n) obtida pela soma elemento a elemento de A e B. Exemplo 6 Sendo A= 41 −22 5 4 , B = −3 58 1 3 3 tem-se A+ B = 1 39 3 8 7
J´a para as matrizes
C= " 1 0 1 2 1 0 # , D = " 7 6 4 2 #
a soma n ˜ao est ´a definida, pois as ordens s˜ao diferentes.
Uma vez que a soma de matrizes se baseia na soma de n ´umeros complexos, ´e de se esperar que tenhamos as mesmas propriedades neste caso.
(1) Associatividade: Sejam A= [ars], B = [brs] e C= [crs] matrizes de mesma ordem m× n. Ent˜ao
A+ (B + C) = [ars]+ ([brs]+ [crs])
= [ars]+ [(brs+ crs)] (somando B e C) = [ars+ (brs+ crs)] (somando A e (B+C))
= [(ars+ brs)+ crs] (associatividade dos complexos) = [(ars+ brs)]+ [crs] (separando a soma)
= ([ars]+ [brs])+ [crs] (separando a soma) = (A + B) + C
(2) Comutatividade: Sejam A[ars] e B= [brs] matrizes de mesma ordem m× n.
A+ B = [ars]+ [brs]
= [(ars+ brs)] (definic¸˜ao de soma)
= [(brs+ ars)] (comutatividade dos complexos) = [brs]+ [ars] (separando a soma)
= B + A
(3) Existˆencia do Elemento Neutro:Na adic¸˜ao de n ´umeros complexos, o zero aparece como elemento que n˜ao altera o valor da operac¸˜ao, isto ´e, para qualquer n ´umero complexo z, a soma z+0 continua sendo z. No caso de uma matriz qualquer A = [ars], tamb´em temos uma matriz que faz as vezes do 0 dos n ´umeros complexos. Vejamos se h´a soluc¸˜ao para a equac¸˜ao
A+ X = A ⇔ [ars]+ [xrs]= [ars]
⇔ [(ars+ xrs)]= [ars]
⇔ ars+ xrs= ars para cada r∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , n} ⇔ xrs = 0 para cada r ∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , n}
Portanto, a soluc¸˜ao da equac¸˜ao A+ X = A ´e X = [0]m×n e este ´e o elemento neutro da soma de
matrizes.
(4) Inverso aditivo: No caso de n ´umeros complexos, o inverso aditivo de z ´e o n ´umero w tal que
z+ w = 0, j´a que zero ´e o elemento neutro da soma. No caso de matrizes, tudo indica que cada A= [ars] possui uma inversa aditiva. Vejamos se h´a soluc¸˜ao para a equac¸˜ao A+ B = [0]
A+ B = [0] ⇔ [ars]+ [brs]= [0] ⇔ [(ars+ brs)]= [0]
⇔ ars+ brs= 0 para cada r ∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , n} ⇔ ars= −brs para cada r∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , n}
Portanto, para cada matriz A= [aij] a sua inversa aditiva ´e matriz [−aij]. Observe que pelo fato de cada n ´umero complexo possuir somente um inverso aditivo, segue-se que cada matriz A possui, tamb´em, ´unica inversa aditiva. Denotaremos a matriz [−aij] por−A.
Exemplo 7 Dada a matriz
A= (1+ i) (3− 2i) 4 (√2+ √2i) 4− 1 3i 2i
a sua inversa aditiva ´e
−A = (−1 − i) (−3 + 2i) −4 (−√2− √2i) −4 +1 3i −2i Observac¸˜ao 8 (Subtrac¸˜ao) Podemos aproveitar a existˆencia de inverso aditivo no conjunto de matrizes para definir a operac¸˜ao subtrac¸ ˜ao. Dadas duas matrizes A= [ars] e B = [brs] de mesma ordem m× n, definimos a diferenc¸a entre A e B por
A− B = A + (−B) Isso significa realizar a subtrac¸˜ao elemento a elemento:
A− B = A + (−B)
= [ars]+ [−brs] = [ars+ (−brs)]
= [ars− brs] (definic¸˜ao de inverso aditivo nos complexos) Exemplo 9 Considerando as matrizes
A=
(1−i+ 8i) 7 (1 − 2i)3i (2− i)
5 4 0 , B =
(4+ 2i) (7 − 3i) (5 − 5i)2i 6 0 (2− 7i) (5 − 8i) (4 + 8i)
temos
A− B =
(−4 − 3i) (−7 + 6i) (−3 + 4i)(1+ 6i) 1 (1− 2i) (3+ 7i) (−1 + 8i) (−4 − 8i)
, B− A =
(−1 − 8i)(4+ 3i) (7 − 6i) (3 − 4i)−1 (−1 + 2i) (−3 − 7i) (1 − 8i) (4 + 8i)
IMPORTANTE: a subtrac¸˜ao de matrizes ´e N ˜AO COMUTATIVA.
2.2 Produto de matriz por escalar
A soma de matrizes ´e uma operac¸˜ao envolvendo, basicamente, duas matrizes. No entanto, podemos definir operac¸ ˜oes envolvendo elementos de “natureza diferente”.
Exemplo 10 A seguir, um quadro mostrando a variac¸˜ao de prec¸os (em reais) dos produtos P1, P2e P3nas cidades C1, C2, C3e C4. T1 C1 C2 C3 C4 P1 20 35 42 50 P2 200 150 130 130 P3 3 3 3 2, 5
Devido `a variac¸˜ao do mercado, a empresa decidiu reajustar os prec¸os em todas as cidades com um aumento de 20% no valor de cada produto. Desta forma, a tabela de prec¸os passa a ser:
T2
C1 C2 C3 C4
P1 24 42 50, 4 60
P2 240 180 156 156
P3 3, 6 3, 6 3, 6 3
Considerando `as matrizes compostas pelos prec¸os dos produtos, temos
A= 200 150 130 13020 35 42 50 3 3 3 2, 5 , B = 240 18024 42 50156, 4 60156 3, 6 3, 6 3, 6 3
Qual a relac¸˜ao entre A e B? Lembre que cada produto teve um aumento de 20%, isto ´e, o prec¸o foi multiplicado por 1,2. Desta forma, todos os elementos de A foram multiplicados por 1,2.
A situac¸˜ao do exemplo acima pode ser generalizada para uma matriz qualquer. Considere uma matriz A de ordem m× n e um escalar α. Se multiplicarmos todos os elementos de A pelo escalar α, obtemos uma nova matriz (tamb´em de ordem m× n):
α ∈ C, A = [ars]∈ Cm×n−→ α.A = [(α.ars)] No exemplo (10), aconteceu: 1, 2. 200 150 130 13020 35 42 50 3 3 3 2, 5 = 240 18024 42 50156, 4 60156 3, 6 3, 6 3, 6 3 O produto por escalar tem algumas propriedades:
(1) Seα e β s˜ao escalares e A = [ars] ´e uma matriz de ordem m× n, ent˜ao (α.β).A = α.(β.A)
De fato,
(α.β).A = (α.β).[ars]
= [(α.β).ars] (produto de cada entrada pelo escalarα.β) = [α.(β.ars)] (associatividade dos complexos)
= α.[(β.ars)] (definic¸˜ao de produto por escalar) = α. β.[ars] (definic¸˜ao de produto por escalar) = α. β.A
(2) Distributividade do Escalar: Seα ´e um escalar e A = [ars], B = [brs] s˜ao matrizes de ordem m× n, ent˜ao
α.(A + B) = α.A + α.B pois
α.(A + B) = α.([ars]+ [brs])
= α.[(ars+ brs)] (soma de matrizes)
= [α.(ars+ brs)] (definic¸˜ao de produto por escalar) = [α.ars+ α.brs] (distributividade dos complexos) = [α.ars]+ [α.brs] (separando a soma)
= α.[ars]+ α.[brs] (definic¸˜ao de produto por escalar) = α.A + α.B
(3) Distributividade da Matriz:Seα e β s˜ao escalares e A = [ars] ´e uma matriz de ordem m× n, ent˜ao (α + β)A = α.A + β.A
com efeito
(α + β)A = (α + β)[ars]
= [(α + β)ars] (definic¸˜ao de produto por escalar) = [α.ars+ β.ars] (distributividade dos complexos) = [α.ars]+ [β.ars] (definic¸˜ao de soma de matrizes) = α.[ars]+ β.[ars] (definic¸˜ao de produto por escalar) = α.A + β.B
(4) Elemento identidade: Se A = [ars] ´e uma matriz de ordem m× n e o produto α.A ´e sempre uma matriz, ent˜ao deve existir um escalarα0tal queα0.A = A. Resolvendo a equac¸˜ao x.A = A onde x
´e um escalar, temos:
x.A = A ⇔ x.[ars]= [ars]
⇔ [x.ars]= [ars] (definic¸˜ao de produto por escalar) ⇔ x.ars= ars para cada r∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , n} ⇔ x = 1
2.3 Tranposic¸˜ao Considere as matrizes A= " 1 5 7 (2− i) (1 − 2i) 0 # e B= 15 (1(2− 2i)− i) 7 0 Alguma semelhanc¸a entre elas?
Veja que as duas matrizes possuem exatamente os mesmos elementos, mas n˜ao na mesma ordem. A primeira linha de A corresponde `a primeira coluna de B e, da mesma forma, a segunda linha de A corresponde `a segunda coluna de B. Repare, ainda, que a ordem da matriz A ´e 2× 3. J´a a matriz B tem ordem 3× 2. Assim, podemos dizer que a matriz B foi constru´ıda depois de transpormos as linhas de
A para a posic¸˜ao de coluna.
Definic¸˜ao 11 (Transposta de uma matriz) Seja A = [ars] uma matriz de ordem m× n. Se reescrevermos os
elementos de A de modo que cada linha seja disposta em forma de coluna, ent˜ao a nova matriz obtida ter´a n linhas e m colunas e ser´a chamada transposta de A, cuja notac¸˜ao ´e AT.
Exemplo 12 Se A= 2i 7 3/5 √2 4i (2− 6i) √ 3 i√5 ent˜ao AT = " 2i 3/5 4i √3 7 √2 (2− 6i) i√5 #
onde A tem ordem 4× 2 e ATtem ordem 2× 4.
2.3.1 Conjugada de uma matriz
Nos complexos, temos o conceito de conjugado, que na representac¸˜ao geom´etrica nada mais ´e do que a reflex˜ao de um n ´umero complexo em relac¸˜ao ao eixo horizontal.
a+bi
a
a−bi
−b
b
Figura 1: Representac¸˜ao geom´etrica do conjugado de um n ´umero complexo. No caso de matrizes, podemos usar o conceito alg´ebrico para definir uma matriz conjugada.
Definic¸˜ao 13 (Matriz Conjugada) Seja A= [ars] uma matriz de ordem m× n. A matriz conjugada de A ´e definida por:
A= [ars]
onde ars´e o conjugado2do n ´umero complexo arspara cada r∈ {1, 2, . . . , m}, s ∈ {1, 2, . . . , m}. Exemplo 14 Se A= " (1+ 2i) (3 − 5i) 5 4i # ent˜ao A= " (1− 2i) (3 + 5i) 5 −4i # Podemos tomar a conjugada de uma matriz e, em seguida, a sua transposta. Considerando, nova-mente, a matriz do exemplo acima, teremos:
A= " (1+ 2i) (3 − 5i) 5 4i # =⇒ A = " (1− 2i) (3 + 5i) 5 −4i # =⇒AT = " (1− 2i) 5 (3+ 5i) −4i # Mas nada impede que tomemos a transposta para depois considerar a conjugada, isto ´e:
A= " (1+ 2i) (3 − 5i) 5 4i # =⇒ AT = " (1+ 2i) 5 (3− 5i) 4i # =⇒ AT = " (1− 2i) 5 (3+ 5i) −4i #
Vemos que a conclus˜ao ´e a mesma. E, de fato, este resultado vale para qualquer matriz: AT = AT pois AT = a11 a12 . . . a1n a21 a22 . . . a2n ... ... ... am1 am2 . . . amn T = a11 a12 . . . a1n a21 a22 . . . a2n ... ... ... am1 am2 . . . amn T = =
a11 a21 . . . am1 a12 a22 . . . am2
... ... ...
a1n a2n . . . amn
=
a11 a21 . . . am1 a12 a22 . . . am2
... ... ...
a1n a2n . . . amn
= = a11 a12 . . . a1n a21 a22 . . . a2n ... ... ... am1 am2 . . . amn T = (AT)
A matriz quando conjugada e tomada a sua transposta, tem uma notac¸˜ao especial:
A∗:= (AT) Desta forma, Se A= " (1+ 2i) (3 − 5i) 5 4i #
ent˜ao A∗= " (1− 2i) 5 (3+ 5i) −4i #
Algumas propriedades da transposta e da conjugada transposta merecem registro. (1) Transposta da soma e soma das transpostas: (A+ B)T= AT+ BT
De fato, sendo A= [ars] e B= [brs] duas matrizes de mesma ordem m× n, temos:
(A+ B)T = [(ars+ brs)]T = (a11+ b11) (a21+ b21) . . . (am1+ bm1) (a12+ b12) (a22+ b22) . . . (am2+ bm2) ... ... ... (a1n+ b1n) (a2n+ b2n) . . . (amn+ bmn) =
a11 a21 . . . am1 a12 a22 . . . am2
... ... ...
a1n a2n . . . amn
+ b11 b21 . . . bm1 b12 b22 . . . bm2 ... ... ... b1n b2n . . . bmn = A T+ BT
(2) Conjugada da transposta da soma e soma das conjugadas transpostas: (A+ B)∗= A∗+ B∗ (3) A transposta no produto de um escalar por um matriz, age apenas na matriz:(α.A)T = α.AT (4) A conjugada transposta no produto de um escalar por um matriz, age em ambos:(α.A)∗= α.A∗
Todas essas propriedades podem ser verificadas como a primeira.
3
Simetrias
A transposta ou conjugada transposta aplicada `a matrizes quadradas podem gerar matrizes com algu-mas peculiaridades, como veremos a seguir.
3.1 Matrizes Sim´etricas
Exemplo 15 Considere a matriz
A= 3 2 12 4 5 1 5 0
Veja que a matriz transposta
AT = 3 2 12 4 5 1 5 0
´e exatamente igual a matriz A.
Dentro da pr ´opria matriz A observamos que a primeira linha ´e igual3a primeira coluna, a segunda linha ´e igual a segunda coluna e que a terceira linha ´e igual a terceira coluna. Em s´ımbolos:
A1∗= A∗1, A2∗= A∗2, A3∗= A∗3
3Igual, aqui, significa que os elementos s˜ao iguais e aparecem na mesma ordem. Em s´ımbolos, se L ´e uma linha de uma
Denotando a matriz A por [ars] observamos, ainda, que a11 = a11, a12 = a21, a13 = a31 e assim por
diante. Generalizando, temos:
ars= asr para r, s ∈ {1, 2, . . . , n}
Al´em disso, observamos que a diagonal principal4da matriz n˜ao muda em AT.
Definic¸˜ao 16 (Matriz Sim´etrica) Dizemos que uma matriz quadrada A ´e sim´etrica quando A= AT.
3.2 Matrizes Antissim´etricas
Considere agora o seguinte exemplo. Exemplo 17 Se A= 04 −4 i0 2 −i −2 0 ent˜ao AT = −4 0 −20 4 −i i 2 0
Neste caso n˜ao ocorre A= AT, no entanto, h´a uma outra semelhanc¸a. Repare que as entradas de ATs˜ao iguais `as de A a menos do sinal, isto ´e
AT = −A
Na matriz do exemplo acima, vemos que a relac¸˜ao entre linhas e colunas dentro da pr ´opria matriz A ´e
A1∗= −A∗1, A2∗= −A∗2, A3∗= −A∗3
enquanto que a relac¸˜ao entre os elementos de A= [ars] ´e
ars = −asr para r, s ∈ {1, 2, . . . , n}
Com relac¸˜ao `a diagonal principal, para que a relac¸˜ao acima seja verdadeira, devemos ter:
a11= −a11, a22 = −a22, . . . , ann = −ann
e portanto
arr = 0 ´e uma condic¸˜ao necess´aria para que ocorra AT = −A.
Definic¸˜ao 18 (Matriz Antissim´etrica) Seja A uma matriz quadrada. Dizemos que A ´e antissim´etrica quando AT = −A.
Importante: Antissim´etrica N ˜AO ´E o contr´ario de sim´etrica!!!
Exemplo 19 Uma matriz pode que n˜ao ´e sim´etrica, n˜ao necessariamente ´e antissim´etrica:
A= 1 2 32 1 3 3 1 1 =⇒ AT = 1 2 32 1 1 3 3 1
Veja que n˜ao ocorre AT = A e nem AT− A.
4A diagonal principal aparece em matrizes quadradas e ´e formada pelos elementos do tipo a
3.3 Matrizes Hermitianas
Outras matrizes com caracter´ısticas interessantes aparecem ao considerarmos a transposta conjugada de uma matriz.
Exemplo 20 Considere a matriz
A= 32+ i 33− i 2 + 2i5− 3i 2− 2i 5 + 3i 4
Sua conjugada transposta ´e
A∗= 32+ i 3− i 2 + 2i3 5− 3i 2− 2i 5 + 3i 4 isto ´e, A∗= A. Lembrando que Ar∗e A∗sdenotam, respectivamente, a linha r e a coluna s da matriz A, vamos usar
Ar∗e A∗spara denotar, respectivamente, a linha
[ar1 ar2 . . . arn] e a coluna a1s a2s ... ans
Desta forma, na matriz do exemplo acima, vemos que Ar∗ = A∗r ocorre para cada r ∈ {1, 2, . . . , n}. Al´em disso, vemos que
ars = asr
para r, s ∈ {1, 2, . . . , n} e isso significa que os elementos da diagonal principal devem, necessariamente, ser reais puros, pois se arr = αrr+ iβrr ent˜ao
arr = arr⇐⇒ αrr+ i.βrr= αrr− i.βrr⇐⇒ βrr = −βrr ⇐⇒ βrr= 0 isto ´e, arr= αrre, portanto, ´e um real puro.
Definic¸˜ao 21 (Matriz Hermitiana) Seja A uma matriz quadrada. Dizemos que A ´e hermitiana5 quando A∗= A.
3.4 Matrizes Anti-hermitianas
Como no caso das matrizes antissim´etricas, temos uma situac¸˜ao an´aloga ao considerarmos a conjugada transposta. Exemplo 22 Sendo A= (−1 + i)i (1+ i)0 (2+ 3i)2 −2 (−2 + 3i) −4i temos que
A∗= (1−i− i) (−1 − i)0 (−2 − 3i)−2 2 (2− 3i) 4i
e percebemos que A∗= −A.
No exemplo (22) vemos que a relac¸˜ao entre linhas e colunas de A ´e a seguinte:
Ar∗= −A∗r
Consequentemente, a relac¸˜ao entre os elementos da matriz A ´e
ars = −asr
para r, s ∈ {1, 2, . . . , n}. Isso faz com que os elementos da diagonal principal tenham a seguinte carac-ter´ıstica:
arr = −arr Isto ´e, se arr= αrr+ i.βrr, ent˜ao
arr = −arr ⇐⇒ αrr+ i.βrr = −(αrr− i.βrr)= −αrr+ i.βrr ⇐⇒ αrr = 0
e desta forma os elementos da diagonal principal da matriz devem, necessariamente, ser da forma
arr= i.βrr
Definic¸˜ao 23 (Matriz Anti-hermitiana) Seja A uma matriz quadrada. Dizemos que A ´e anti-hermitiana quando A∗= −A.
Importante: Anti-hermitiana N ˜AO ´E o contr´ario de hermitiana!!!
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Exerc´ıcios
1. Determine a quantidade desconhecida em cada uma das express ˜oes: (a) 3.X = 0 3 6 9 ! (b) 2 x+ 2 y + 3 4 0 ! = 3 6y z !T
2. Identifique cada uma das seguintes matrizes como sim´etrica, anti-sim´etrica ou nenhum dos dois. (a) −31 −34 −33 3 3 0 (b) 03 −3 −30 1 3 −1 0 (c) −30 −3 −30 3 −3 3 1 (d) 1 2 0 2 1 0 !
3. Explique por quˆe o conjunto de todas as matrizes sim´etricas de ordem n× n ´e fechado para a adic¸˜ao. Isto ´e, explique por quˆe a soma de duas matrizes sim´etricas de ordem n× n ´e tamb´em uma matriz sim´etrica de ordem n× n. O conjunto de todas as matrizes antissim´etricas de ordem n × n
´e fechado para a adic¸˜ao?
5. Seja A uma matriz quadrada.
(a) Mostre que A+ AT ´e sim´etrica e que A− AT ´e antissim´etrica.
(b) Mostre que existe uma, e somente uma, maneira de escrever A como uma soma de uma matriz sim´etrica com uma matriz antissim´etrica.
6. Se A e B s˜ao duas matrizes de mesma ordem, mostre que cada uma das sentenc¸as ´e verdadeira: (a) (A+ B)∗= A∗+ B∗
(b) (αA)∗= α.A∗
7. Mostre que (AT)T = A.
8. Dada uma matriz A∈ Cn×n, quando ocorre A∗= AT?
9. ´E poss´ıvel encontrar uma matriz que seja ao mesmo tempo sim´etrica e antissim´etrica? E uma matriz que ao mesmo tempo seja hermitiana e anti-hermitiana?
Referˆencias
[1] MEYER, Carl Dean. Matrix Analysis and Applied Linear Algebra Book and Solutions Manual. SIAM, 2000.