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462 O PROCESSO DE RECONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FAMILIAR E DE SEUS
MEMBROS DIANTE DO DIAGNÓSTICO DE AUTISMO: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
THE PROCESS OF RECONSTRUCTION OF THE FAMILY IDENTITY AND ITS MEMBERS BEFORE THE DIAGNOSIS OF AUTISM: A BIBLIOGRAPHIC
REVIEW
Valéria Luiza Campos Ribeiro1, Andreia Queiroz Carniel2
1- Bacharel em Psicologia, pela Faculdade Municipal Professor Franco Montoro – FMPFM (Mogi Guaçu/SP); 2- Mestre em Ciências Médicas (UNICAMP/Campinas/SP), Bacharel em Psicologia (UNESP/Assis/SP) e docente da FMPFM.
Contato: [email protected]
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo uma pesquisa bibliográfica sobre o tema a reconstrução da identidade familiar diante do autismo. Buscou-se levantar artigos científicos produzidos na literatura científica de janeiro de 2008 até o primeiro semestre de 2018. Como forma de pesquisa, foram utilizados os seguintes descritores para as buscas online: autismo, autismo e família, e ainda, autismo e identidade familiar. As fontes utilizadas para as buscas online foram as seguintes bibliotecas virtuais: BIREME, SciELO e BVS-Psi. Espera-se com este trabalho compreender através de revisão bibliográfica, como a família e seus membros redefinem seus papéis, diante das readaptações que implicam o diagnóstico e prognóstico do autismo. Os achados das pesquisas foram categorizados em conformidade com o tema investigado. Os tópicos relevantes discorridos pelos artigos foram o impacto do diagnóstico, desenvolvimento e crenças familiares, resiliência familiar e parental, reestruturação familiar e readaptação dos papéis e estressores. Os autores apontaram estratégias de enfrentamento diante do impacto do diagnóstico de autismo na família e a relevância de mais estudos para a comunidade científica.
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463 ABSTRACT
The present work aims at a bibliographic research on the theme the reconstruction of the family identity in the face of autism. We sought to survey scientific articles produced in the scientific literature from January 2008 until the first semester of 2018. As a form of research, the following descriptors were used for online searches: autism, autism and family, as well as autism and family identity. The sources used for online searches were the following virtual libraries: BIREME, SciELO and BVS-Psi. This work is expected to understand through bibliographic review, how the family and its members redefine their roles, in view of the readaptations that imply the diagnosis and prognosis of autism. The research findings were categorized according to the topic investigated. The relevant topics covered by the articles were the impact of diagnosis, family development and beliefs, family and parental resilience, family restructuring and readaptation of roles and stressors. The authors pointed out coping strategies in view of the impact of the diagnosis of autism on the family and the relevance of further studies for the scientific community.
Keywords: Autism. Family. Family identity. Family readaptation.
INTRODUÇÃO
O Autismo caracteriza-se como uma síndrome comportamental de etiologias múltiplas, disfunções neurológicas que implicam no comprometimento do processo de desenvolvimento infantil, na comunicação verbal e não verbal, e no empobrecimento ou diminuição da atividade imaginativa. (ANDRADE; TEODORO, 2012; APA, 2010). Os primeiros estudos oficiais sobre o Autismo Infantil e suas características foram realizados por Leo Kanner, em 1943 (SILVA 2013).
Segundo Schmidt e Bosa (2008) a compreensão e a definição de autismo modificaram-se de acordo com as diferentes etiologias, graus de severidade e características específicas ou não usuais da síndrome. Ainda assim, compreende-se que o autismo é um tipo de distúrbio global do decompreende-senvolvimento humano, que abrange alterações severas e precoces em três áreas específicas: 1) comprometimento qualitativo da interação social; 2) comprometimento da comunicação e 3) padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades (ANDRADE E TEODORO 2012; APA 2010). De forma que estas alterações nesta tríade descrita são nomeadas como Transtornos do Espectro Autista (PETERSEN E WAINER 2011).
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464 Ressalta-se que segundo o Manual Diagnóstico e Estatísticos de
Transtornos Mentais (DSM V) as características essenciais do Transtorno do Espectro Autista são:
[...] prejuízos persistentes na comunicação social recíproca e na interação social (Critério A) e padrões restritivos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades (Critério B). Esses sintomas estão presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento diário (Critérios C e D). O estágio em que o prejuízo funcional fica evidente irá variar de acordo com características do indivíduo e seu ambiente (2014).
Nos dias atuais os sintomas do Transtorno Autista estão presentes no processo de desenvolvimento da criança, antes dos 36 meses de idade. Sendo possível realizar o seu diagnóstico por volta dos 18 meses de idade. (ANDRADE; TEODORO, 2012). Verifica-se ainda que, a taxa de prevalência do Transtorno do Espectro Autista na população mundial é de 0,5%, sendo a maior incidência no sexo masculino. Pesquisas recentes, contabiliza um aumento de casos, com prevalência mundial atingindo a média entre 40 e 70 casos a cada 10.000 habitantes (SILVA E MULICK, 2009). De acordo com Silva (2009) o diagnóstico de Autismo é feito pelo médico e se dá mediante a observação do comportamento do indivíduo, como também, através do estudo de seu histórico desde a sua infância do indivíduo. Não há exames laboratoriais específicos para a detecção para tal síndrome.
Segundo Andrade e Teodoro (2012) desde muito cedo essas características do desenvolvimento do Autista, repercutem na rotina das famílias e nas relações entre seus membros. Existe a possibilidade de sobrecarga dos membros da família, devido aos cuidados próprios requeridos pelo individuo com o diagnóstico Autista. Considera-se, que estas inter-relações familiares requerem uma atenção especializada e de amplo auxilio biopsicossocial dos sistemas sociais que os assistem, permitindo assim uma melhor manutenção da estrutura para a adaptação familiar diante do diagnóstico e prognóstico do Autismo (FAVERO e SANTOS 2005).
Alguns teóricos sugerem ainda, fatores importantes para o processo de adaptação familiar em relação ao indivíduo Autista. São eles: modos de funcionamento familiar, padrões de comunicação intra e extrafamiliar, qualidade dos sistemas de saúde e crenças sobre saúde. Destaca-se ainda, que o impacto das dificuldades pode–se agravar de acordo com as características psicológicas
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465 individuais de cada um dos pais, bem como da gravidade dos sintomas do Autismo
e, das demandas apresentadas ao longo do tempo em virtude do tratamento. (ANDRADE; TEODORO, 2012).
Os indivíduos com Autismo tendem a desenvolver-se adequadamente diante de situações cotidianas, desde que sejam planejadas ações dos cuidadores/familiares de forma compreensiva, colaborando com o desenvolvimento do indivíduo Autista (SILVA 2009).
Observa-se, que não há como refletir sobre identidade familiar, se não for relacionando à influência recíproca com outros. Sendo assim, compreende-se que a construção da identidade dos indivíduos sofre influência do ambiente em que está inserido. Consequentemente o indivíduo se diferencia e se iguala em conformidade com os diversos grupos sociais em que está inserido (FERNANDES e ZANELLI 2006).
Diante dos dados supracitados, o presente estudo tem por objetivo realizar um levantamento bibliográfico em bases de dados reconhecidas pelo meio científico, as alterações na dinâmica familiar diante do autismo, buscando-se assim identificar temas convergentes nos artigos publicados que possibilitem a organização e análise dos dados.
MÉTODO
Esta pesquisa bibliográfica foi operacionalizada mediante a busca eletrônica de dados. As fontes para as buscas foram as bibliotecas virtuais BIREME, SciELO e BVS-Psi. Como fontes de pesquisa, foram consultados artigos científicos atuais utilizando os seguintes descritores: Autismo; Família; Identidade Familiar e readaptação familiar. Foram selecionados artigos publicados em ordem cronológica decrescente entre o período de junho 2018 até janeiro de 2008.
Objetivo fundamental e predominante deste trabalho foi de realizar uma revisão bibliográfica sobre o tema: a reconstrução da identidade familiar diante do autismo. Os achados bibliográficos foram lidos e reagrupados de acordo com o tema principal.
A amostra coletada abrangeu as publicações de artigos selecionados mediante uma leitura prévia dos resumos anexados, que seguiu os seguintes critérios de inclusão: I) Quanto aos veículos de publicação, priorizou-se pelos
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466 órgãos de maior divulgação e de fácil acesso para os pesquisadores; II) Idiomas
de publicação, optou-se por artigos publicados na íntegra em língua inglesa e portuguesa; III) Ano de publicação, foram preferidos artigos publicados entre 2018 a 2008, totalizando, portanto, um período de 10 anos; IV) Quanto à modalidade de produção científica, foram selecionados trabalhos originais; V) Referências que tiveram como objeto de estudo autismo e reorganização da identidade familiar. Como critérios de exclusão foram analisados: I) Referências que tiveram como objetivo de estudo educação e inclusão; II) Capítulos, teses e/ou livros III) Estudos laboratoriais.
Os estudos selecionados foram lidos na integra, fichados, analisados e avaliados a luz da Psicologia, introduzindo uma discussão de modo a avaliar o material coletado, conforme a metodologia, sendo utilizado como abordagem de pesquisa, o método qualitativo de trabalho e estudo. Os temas comuns aos artigos foram reagrupados em temas específicos, para melhor compreensão dos mesmos.
RESULTADOS
Como estratégia de busca, utilizou-se na Biblioteca Virtual BVS-BIREME pesquisa com o descritor Autismo, sendo identificados 8949 artigos, mediante o cruzamento com o descritor Família os achados caíram para 368, que no cruzamento com Identidade Familiar reduziu para 3 artigos. Porém, na análise do conteúdo desses achados, nenhum artigo atendeu aos critérios pertinentes à investigação.
Na BVS – PSI, a busca com o descritor Autismo resultou em 503 artigos, que no cruzamento com Família reduziu para 17 artigos, porém o cruzamento com o descritor Identidade Familiar não resultou em nenhum artigo correspondente.
Na biblioteca virtual SciELO, a pesquisa com o descritor Autismo identificou 37 artigos, quando este foi cruzado com o descritor Família os achados caíram para 23, porém, no cruzamento com o descritor Identidade Familiar não foi contemplado nenhum artigo.
Ao final obtiveram-se nove artigos, que embora não evidenciassem diretamente a questão da reconstrução da identidade familiar, trouxeram referências consideradas importantes para um estudo mais amplo sobre esta temática.
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467 Através dos resultados da busca realizada, observou-se escassez de
trabalhos sobre o tema investigado, no âmbito de abrangência destas três bibliotecas virtuais pesquisadas. Salienta-se que a leitura dos resumos possibilitou verificar alguns artigos que foram selecionados e recuperados por apresentarem aproximação com o tema investigado. Os resultados foram classificados de acordo com as datas de publicação e agrupados em períodos de dez anos.
O quadro que se segue, está em ordem cronológica de captação dos artigos e permite visualizar o que foi obtido:
Quadro 1. Artigos analisados.
Autores/Ano Amostragem Resultados Obtidos Conclusão Principal
SPINAZOLA et al. (2018)
60 mães O estudo revelou que as mães mesmo com filhos com diferentes deficiências apresentaram aspectos parecidos. Esses dados trazem subsídios importantes para a implementação de políticas e programas de apoio frente às variáveis estudadas, para que assim cada vez mais se possa oferecer apoio a essas famílias.
O estudo pode contribuir para conhecimento das principais necessidades e do suporte que as famílias de crianças com diferentes deficiências possuem.
SEMENSATO; BOSA (2017)
6 casais Os indicadores de resiliência foram classificados a partir do que, de acordo com o relato dos pais, gerou-lhes um senso de amparo e, por outro lado, senso de desamparo, bem como a ênfase em comprometimentos ou em potencialidades.
Os resultados revelaram que a busca e atribuição
de sentido ao
comportamento do filho e ao próprio termo autismo e a capacidade de desenvolver um empoderamento nessa vivência, foram indicativos de resiliência parental importantes no processo de elaboração do diagnóstico de autismo do filho. PINTO et al. (2016)
10 familiares Identificou-se uma unidade temática Central com respectivas categorias: o impacto da revelação do diagnóstico de autismo para a família; características da revelação do diagnóstico: o local, o tempo, e a
Há necessidade do profissional de saúde que noticiará o autismo saber preparar melhor a família para enfrentar as dificuldades impostas pela síndrome e para
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468 relação dialógica entre o
profissional e a família; alteração nas relações familiares e a sobrecarga materna no cuidado à criança autista. conquistar a autonomia no cuidado ao autista. MISQUIATTI et al. (2015)
20 familiares A média do Índice de sobrecarga do familiar cuidador de ambos os grupos foi 28, portanto, não foi
observada diferença
estatisticamente e indicou que os
G1 e G2 estavam
moderadamente sobrecarregados.
Cuidar de crianças com transtorno do espectro do autismo pode sobrecarregar seus familiares de modo semelhante ao de familiares de crianças com outros transtornos do desenvolvimento. Ambos os grupos de familiares estavam moderadamente sobrecarregados. SUN; FERNANDES (2014)
60 pais Foi possível observar que houve diferença significativa entre o grupo de pais de crianças com DEA com SD e DEL nos domínios dois (impressão dos pais sobre eles próprios em relação aos seus filhos), três (Percepção dos pais em relação à aceitação das pessoas para com seus filhos) e quatro (Impressão dos pais em relação aos seus filhos).
O questionário é efetivo para a identificação das dificuldades de comunicação das crianças portadoras de DEA a partir dos dados colhidos com seus pais e/ou cuidadores, mas não para os outros
distúrbios do
desenvolvimento. MACHADO;
ANSARA (2014)
6 mães Seguindo a perspectiva dos novos movimentos sociais, as famílias de pessoas com autismo se tornam atores políticos em suas manifestações, ocupando espaços de participação, apresentando suas reivindicações como interlocutoras que desejam reconhecimento do poder público.
Procura evidenciar que a mobilização e a exposição de suas reinvindicações fazem as famílias emergirem na cena pública como atores sociais.
BALESTRO; FERNANDES
(2012)
40 pais O questionário foi desenvolvido de maneira a abranger aspectos
fundamentais para o
relacionamento interpessoal, tanto no âmbito comunicativo quanto social. O estudo possibilitou testar a compreensão do instrumento, e a análise estatística indicou que 19 questões apresentaram diferença.
O questionário elaborado identificou diferenças na percepção e atitude de pais de crianças do espectro do autismo e de crianças sem queixa de linguagem, em relação às dificuldades de comunicação com seus filhos. Dessa forma, mostrou-se útil para o levantamento dessas
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469 dificuldades em um grupo maior de indivíduos. MECCA et al. (2011)
25 irmãos Mediante a utilização da versão brasileira do Autism Screening Questionnaire (ASQ), foram confirmados dois casos de irmãos com Transtornos Globais do Desenvolvimento. Os dados apontam para taxas elevadas de autismo em irmãos de indivíduos previamente diagnosticados com o transtorno.
A aplicação de protocolos amplos de maneira sistemática, no caso de indivíduos com TEA deve prever a investigação genealógica e a aplicação de questionários de rastreamento de sinais e sintomas em consanguíneos dos probandos, principalmente irmãos. Permitirá conhecimento detalhado das manifestações desse transtorno nas famílias, propiciando melhor assistência às mesmas. FAVERO-NUNES; GOMES (2009)
10 casais A participação dos casais na consulta terapêutica liberou um movimento disparador de conflitos adormecidos, mas presentes, até modificações nas maneiras de lidar com os desafios existentes no funcionamento familiar.
Faz-se necessária a criação de espaços de escuta a esses pais. Iniciando-se com o fortalecimento desse tipo de parentalidade, para só depois passarmos a
etapa de
aprofundamento da conjugalidade.
Fonte: elaborado pelas autoras (2018).
Pode-se observar similaridade dos temas abordados entre os artigos avaliados, possibilitando assim uma análise dos dados apresentados nestes artigos, reagrupando em grupos (categorizações) para discussão do material coletado. Desta forma obtiveram-se os seguintes resultados:
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470 Impacto da Revelação do Diagnóstico
Nesta categoria as crenças dos pais sobre o autismo podem influenciar no impacto ao receberem o diagnóstico. Os pais relatam que receber o diagnóstico de autismo do filho foi um desafio que transformou suas vidas. Descrevem que durante o processo de elaboração do diagnóstico, há muitas angústias dos familiares, sendo assim, afetam todos os membros da família em suas rotinas e relações, tornando-se um episódio marcante. (SEMENSATO E BOSA, 2017; PINTO et al., 2016; MECCA et al., 2011; FÁVERO-NUNES E GOMES, 2009).
Desenvolvimento, Crenças, Valores e Comportamentos dos Membros
Neste tópico foram agrupados nessa categoria trabalhos referentes ao desenvolvimento do autista e as repercussões significativas no entendimento dos indivíduos sobre os acontecimentos do mundo. Influenciando desta maneira, seus comportamentos, valores, atitudes, convicções e respostas diante das crises na família. Há evidências de que a repercussão do autismo na família pode estar associada às crenças familiares sobre o desenvolvimento do filho. (SEMENSATO E BOSA, 2017; BALESTRO E FERNANDES, 2012).
Resiliência Familiar e Parental
Nesta categoria abrangeu forças e recursos que as famílias são capazes de desenvolver no processo de elaboração do diagnóstico do filho, que possibilitem não exclusivamente o desenvolvimento do filho, contudo, da família. Diante das necessidades específicas de seus filhos, os pais buscam conhecimentos para seu melhor ajustamento com relação ao manejo do filho autista. É importante também atentar para o fato de que, muitas vezes, os irmãos acabam apresentando sentimentos ambíguos nas relações. Sendo que, em relação aos pais podem sentir-se menos amados, acarretando em sentimentos de ciúmes. Contudo, constatam-se nas relações e na convivência entre os irmãos, sentimentos de preocupação, paciência e amor (SUN; FERNANDES, 2014; MACHADO; ANSARA, 2014; BALESTRO; FERNANDES, 2012; FÁVERO-NUNES; GOMES, 2009; PINTO et al., 2016).
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471 Readaptação Familiar: A Percepção dos Papéis de Cada Membro da Família
Nesta categoria caracterizam-se por um desenvolvimento gradativo de aprendizagem para enfrentar os desafios exigidos pelo autismo, assim, elaborar as situações relevantes, ressaltando as diferenças e semelhanças no processo. A perturbação e a expectativa podem variar, verificando-se sentimento de tristeza, raiva, depressão, ou ainda, divergências de ideias entre os cônjuges. Há a necessidade num primeiro momento de buscar um sentido para o autismo e o que isso representa para o filho e para a família. Num segundo momento, reconstruir um significado para a identidade da família e dos membros que a constitui, diante das demandas e papéis nos cuidados com o filho com diagnóstico de autismo. Dessa maneira, a família passa a ser modelo fundamental para os filhos. Diante disso, verifica-se que os sintomas do autismo podem se revelar de diferentes maneiras, como rigidez diante das mudanças, agressividade, hipersensibilidade e dificuldade de compreender regras sociais. Estas particularidades do autista, geralmente são pouco aceitas pela sociedade e pelos familiares, ocasionando incômodo aos pais em situações de convívio social. (SUN; FERNANDES, 2014; SPINAZOLA et al., 2018; SEMENSATO; BOSA, 2017; FÁVERO-NUNES; GOMES, 2009).
Os Papéis Familiares e os Estressores no Cotidiano
Nesta categoria observa-se uma mudança na rotina diária da família, provocando a readaptação de papéis. Em alguns casos houve alterações no âmbito ocupacional, financeiro e das relações familiares. Observa-se que mesmo com as adaptações dos papéis, verifica-se que a concentração dos cuidados frequentemente ocasiona sobrecarga de um dos membros da família, geralmente a figura materna. Diante disso, reforça-se que o cuidado integral dedicado e assumido pela mãe, pode causar-lhe significativas consequências físicas e mentais. Por muitas vezes, ao aceitar o papel de cuidador o familiar encontra-se submetido à tensão e a fatores estressores. Com isso, buscam-se nas relações familiares adaptações e negociações dos novos papéis para a superação do diagnóstico. Nota-se um isolamento social, onde a família se distanciou das pessoas e as pessoas afastaram-se da família. Esta maneira de exclusão social é bastante frequente e independe das condições socioeconômicas da família. (SEMENSATO; BOSA, 2017; PINTO et al., 2016; MIQUIATTI et al., 2015;
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472 MACHADO; ANSARA, SPINAZOLA et al., 2018; PINTO et al., 2016;
FÁVERO-NUNES; GOMES, 2009).
DISCUSSÃO
Verificou-se com esta busca bibliográfica que, estudos sobre o tema a reconstrução da identidade familiar diante do diagnóstico de autismo ainda é restrito, visto o número de artigos consideráveis sobre o tema Autismo nos últimos 10 anos – 8.949 artigos.
Diante da proposta desta pesquisa, reconstrução da identidade familiar diante do diagnóstico de Autismo, esperava-se encontrar um número maior de artigos sobre o tema, mas não foi o que ocorreu (SILVA; MULICK, 2009).
É importante também apontar para o fato de que, este dado sugere-nos que há lacunas na literatura no que diz respeito à identidade familiar e reconstrução deste processo diante de um indivíduo Autista na família, visto a ínfima (ou nenhuma) produção sobre o tema. Sugerindo pesquisas de campo transversais utilizando-se desde metodologias quantitativas, como qualitativas para abordar tal questão.
Ainda neste quesito sobre a identidade, podemos destacar, que de acordo com o dicionário de Psicologia da APA (2010), entende-se por identidade:
“ [...] o senso que um indivíduo tem de si próprio, definido por (a) um grupo de características físicas e psicológicas que não é compartilhado com outra pessoa e (b) uma gama de aflições sociais e interpessoais e papéis sociais” (APA 2010).
A identidade do indivíduo é construída segundo o ambiente no qual está inserido. Abrangendo, por meio de diferentes valores, as estruturas sociais, a cultura e o histórico das relações. (FERNANDES; ZANELLI, 2006). O que poderíamos estender tal definição para a construção dos papeis de identidade nas relações familiares, principalmente para o desempenhar de cada papel exercido pelos membros familiares.
Diante das lacunas nas bibliotecas virtuais pesquisadas, foram então, contemplados artigos cujo enfoque relacionam-se a esta questão da reconstrução da identidade familiar. Cabe ressaltar que o objetivo da pesquisa foi analisar a reconstrução da identidade familiar, diante da readaptação constante e diária das famílias e de cada um de seus membros perante os reajustamentos que demandam o cuidado do filho autista.
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473 No que levantamos, pudemos verificar que as relações do cotidiano dos
indivíduos familiares, bem como com os autistas são transformadas de forma significativa. Tais transformações são desde questões econômicas, como questões emocionais. Cada membro percebe estas alterações e podem exacerbar tanto nas relações com comportamentos hostis como dos irmãos não autistas para com os pais, bem como no estresse gerado pelos cuidados específicos em relação ao Autista (SPINAZOLA et al., 2018; SUN; FERNANDES, 2014).
Ainda assim, pode-se verificar que, há um conjunto de crenças construídas pelas famílias, em relação a seus padrões de organização para o cuidado ao filho Autista. Desta maneira, as demandas de cuidado do filho, podem mudar a rotina diária da família, provocando a readaptação de papéis e proporcionando mudanças no âmbito ocupacional, financeiro e das relações familiares. (PINTO et al., 2016). Assim sendo, os impactos causados no contexto familiar conseguem produzir alterações na dinâmica familiar. (BALESTRO; FERNANDES, 2012). Verificou-se que diante do diagnóstico há a necessidade de uma revisão de valores e das prioridades para a vida e para o futuro. Dentre elas destacam-se recursos sociais, recursos econômicos, divisão de tarefas, a divisão de responsabilidades referentes à criança e resolução de conflitos conjugais. (SEMENSATO; BOSA, 2017; MACHADO; ANSARA, 2014; FÁVERO-NUNES; GOMES, 2009).
Os resultados obtidos possibilitaram reflexões sobre a maneira sensível na dinâmica dos pais, diante das necessidades do filho desenvolvendo-se numa relação protetora, que podem ou não facilitar a mobilização do casal para novas possibilidades inter-relacionais. (SEMENSATO; BOSA, 2017; FÁVERO-NUNES; GOMES, 2009).
No geral, este estudo além de verificar a baixa produção sobre a temática já citada, a sugestão de pesquisas adicionais que relacionem aspectos da construção das identidades dos papeis familiares diante do indivíduo com Transtorno do Espectro do Autismo. Verificando principalmente a readaptação de cada membro diante deste diagnóstico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verificou-se através dos estudos bibliográficos a necessidade de implementar estratégias de acolhimento para familiares diante do diagnóstico do Transtorno do Espectro do Autismo, que se estende desde questões das adaptações financeiras, bem como emocionais. Visto as demandas necessárias para serem empreendidas para o desenvolvimento do indivíduo com Autismo.
Portanto, o objetivo central deste estudo sobre a reconstrução da identidade familiar, não foi contemplado diretamente no que esperávamos, nota-se a necessidade de mais estudos longitudinais sobre este enfoque, dando ênfanota-se tanto ao processo de reconstrução da identidade familiar como a readaptação diária de seus membros perante o diagnóstico de autismo.
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474 Os textos selecionados podem nos sugerir a relevância do tema em
questão, principalmente por se utilizarem o método qualitativo de pesquisa científica.
Finalmente, reforça-se a necessidade de estudos que busquem ampliar os conhecimentos e verificar que as famílias passam por diversas fases, dentre elas, o impacto do diagnóstico, negação, tristeza e luto. Relacionados a sentimentos ambíguos diante da reconstrução familiar, o que demanda uma readaptação de papéis.
REFERÊNCIAS
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As autoras declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.