XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
A PROTEÇÃO DO PRODUTOR RURAL ANTE OS CADASTROS DE RESTRIÇÃO AO CRÉDITO NAS RELAÇÕES BANCÁRIAS
RURAL PRODUCER PROTECTION BEFORE CREDIT RESTRICTION REGISTRATIONS IN BANKING RELATIONS
Autora: Camila Casteleira1
Orientadora: Prof.ª Malu Romancini2
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari - FAFIMAN
COMUNICAÇÃO ORAL
RESUMO
O presente artigo busca evidenciar acerca da proteção do produtor rural em face dos cadastros de restrição ao crédito, de modo a comprovar a ilegalidade de sua inscrição nos cadastros de restrição ao crédito em virtude do inadimplemento involuntário do mútuo, pelo fato de o fomento da produção agrícola ser um direito constitucional e social que viabiliza a manutenção da sociedade. Através do método hipotético-dedutivo utilizando-se da técnica bibliográfica oriunda da procedência de livros, notícias, legislações, jurisprudências, dentre outras, pretende seja traçado um paralelo entre as garantias constitucionais e sociais do fomento da produção agrícola como um direito social, e as consequências da negativação do produtor rural, ressaltando o relevante impacto que a tomada de medidas alternativas por parte deste, causa em todas as esferas da sociedade, tendo por base a legislação agrária, constitucional, bancária e afins.
Palavras-chave: Produtor rural. Negativação. Ilegalidade. ABSTRACT
This article seeks to highlight about the protection of rural producers in the face of credit restriction records, so as to prove the illegality of their enrollment in credit restriction records due to the involuntary default of the loan, due to the fact that the promotion of production be a constitutional and social right that enables the maintenance of society. Through the hypothetical-deductive method using the bibliographic technique derived from the origin of books, news, legislations, jurisprudence, among others, it intends to draw a parallel between the constitutional and social guarantees of the promotion of agricultural production as a social right, and the consequences of the negativity of the rural producer, highlighting the relevant impact that the alternative measures taken by the rural producer cause in all spheres of society, based on agrarian, constitutional, banking and related legislation.
Key-words: Rural producer. Negativity. Ilegality.
1 Graduanda do Curso de Direito da Fundação Fafiman – Faculdade de Filosofia Ciências, e Letras de Mandaguari. Graduanda em
Mediação e Conciliação Extrjudicial pelo Centro de Mediadores Instituto de Ensino do Distrito Federal. E-mail: [email protected].
2 Mestre em Ciências Jurídicas pelo Centro de Ensino Superior de Maringá (2015); pós -graduada em Direito do Estado
pela Universidade Estadual de Londrina; graduada em Direito pela Faculdade Maringá (2012) e em Secretariado Executivo Trilíngue pela Universidade Estadual de Maringá (2010). Atualmente é advogada, atuando principalmente nas áreas de Direito Empresarial e Internacional. É sócia da M Romancini Consultoria Internacional e da FA Romancini Advocacia. Professora Universitária de Graduação e Pós-Graduação em Direito. Presidente da Comissão de Direito Empresarial da OAB Maringá. Diretora da Associação Brasileira de Advogados no Paraná. Ex -Presidente do Núcleo de Consultores Empresariais da ACIM. Membro do Conselho Permanente do Jovem Empresário de Maringá (COPEJEM) da ACIM.
Introdução
O presente artigo foi desenvolvido com a finalidade de demonstrar a proteção jurídica que o produtor rural possui perante as instituições financeiras quanto à reprogramação do calendário de pagamento dos financiamentos de safra, pois, grandiosa à falta de informação que lhes são oferecidas relativamente a este assunto. Principalmente, no que diz respeito à inscrição do seu nome nos cadastros de restrição ao crédito em virtude do inadimplemento involuntário da Cédula de Crédito Rural.
Evidenciar-se-á para tanto, a normativa de nº 2.6.9 do MCR (Manual de Crédito Rural do Banco Central) que assegura ao produtor rural nesses casos, a prorrogação da dívida independentemente de consulta prévia ao Banco Central do Brasil, o que torna a inscrição ilegal, pois, trata-se de um direito do agricultor e um dever das instituições financeiras.
Apesar de existir a normativa do Bacen que garante ao produtor rural a reprogramação do calendário de pagamento do mútuo, e ainda, sendo matéria com entendimento pacificado pela súmula 298 do STJ no sentido de que é direito do devedor o alongamento da dívida, os agricultores encontram empecilhos na hora de negociar com a instituição financeira.
Dessa forma, os argumentos aqui apresentados pretendem demonstrar a ilegalidade na inscrição do produtor rural nos cadastros de restrição ao crédito, através de um paralelo traçado entre as garantias constitucionais do fomento da produção agrícola como um direito social e o inadimplemento involuntário da Cédula de Crédito, que leva a tomada de medidas alternativas que causam impacto em todas as esferas da sociedade, tendo por base a legislação agrária, constitucional, bancária e afins.
Tal circunstância vai muito além da taxatividade imposta pela sociedade no sentido de que “é muito fácil realizar contratos de crédito com elevadíssimos valores, inadimpli-los e sair ileso”, em virtude de que na maioria dos casos, se trata de ato involuntário do produtor rural que sofre com as mudanças climáticas, pragas, racionamento de agrotóxicos de para melhorar a qualidade do produto primário, entre outros.
EMBASAMENTO TEÓRICO
O fundamento da corrente pesquisa se dá através do estudo da legislação bancária, agrícola/agrária, constitucional e afins, tendo ainda, como suporte, o entendimento dos renomados doutrinadores da área, tais como, Ricardo Barbosa Alfonsin, Lutero de Paiva Pereira, Tobias Marini de Salles e Arnaldo Rizzardo.
2.1 A DIFICULDADE DO PRODUTOR RURAL EM ADIMPLIR COM O PAGAMENTO DA CÉDULA DE CRÉDITO RURAL COMO TITULAR DE UM TRATAMENTO INDIVIDUALIZADO JUNTO ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS.
A dificuldade em adimplir o pagamento da cédula de crédito rural pelos agricultores tem gerado muitos transtornos na esfera administrativa-financeira destes, que em virtude do não pagamento acabam por vezes negativados nos sistemas de restrição ao crédito (SERASA/SCPC/SISBACEN) o que os impedem de pactuar novos financiamentos de safra.
Ante a característica de “empresa a céu aberto” desenvolvida pela atividade primária, é notório que esta atividade está exposta a riscos naturais, tais como, chuvas fortes, seca, geadas, ataque de pragas, bem como, tantos outros fatores inesperados, como por exemplo, a greve dos caminhoneiros ocorrida em 20183 e a geada ocorrida no mês de julho de 2019 que atingiu diversas propriedades em várias localidades do país gerando um grande prejuízo nas lavouras4, para exemplificar alguns acontecimentos mais recentes.
Por esse ângulo, fica evidente que todos esses fatores naturais e imprevisíveis contribuem para a chamada “frustração total/parcial da safra” o que por muitas vezes tem como consequência a impontualidade no pagamento e até mesmo ao não pagamento do mútuo.
De mais a mais, o inadimplemento involuntário ou não culposo faz com que os produtores rurais fiquem com o saldo devedor para com as instituições financeiras, cooperativas e empresas do agronegócio, o que por muitas vezes suscita em sua negativação junto aos cadastros de restrição de crédito.
Essa mácula carregada pelo produtor rural em virtude do inadimplemento faz com que as empresas que fomentam o ramo agropecuário passem a dificultar e até mesmo a negar a tratativa e a realização de negócios com os produtores, em virtude de que se encontram inadimplentes por conta do não pagamento do crédito adquirido para a realização da safra anterior.
2.2 LEGISLAÇÃO APLICÁVEL À DEFESA E PROTEÇÃO DO PRODUTOR RURAL
A Lei 4.829/655 institucionalizou o crédito rural no Brasil para que os produtores rurais possuíssem mais recursos para arcar com o custeio, investimento ou comercialização dos produtos rurais a longo prazo.
3 Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/greve-dos-caminhoneiros-afeta-abastecimento-de-pereciveis-em-supermercados-e-paralisa-producao-de-frigorificos.ghtml. Acesso em: 20 jun. 2019.
4 Disponível em: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2019/07/14/frio-intenso-e-geada-causam-estragos-na-producao-rural-de-pelo-menos-tres-estados.ghtml. Acesso em: 06.ago.2019.
A partir de então, o crédito rural tem sido disciplinado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e operacionalizado pelo Banco Central do Brasil que instituiu o MCR (Manual do Crédito Rural), onde constam todas as políticas de finalidades, regras e condições do crédito rural, cujas diretrizes devem ser seguidas por todas as instituições que compõe o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), tais como, bancos, cooperativas de crédito e todas as demais empresas que fomentam o crédito rural.
Nesse sentido, todas essas instituições do ramo financeiro devem atuar executando as políticas creditícias e financeiras do Governo Federal, tendo por finalidade incentivar as atividades rurais.
Por ser uma atividade econômica “a céu aberto” é extremamente dependente das condições climáticas para uma safra satisfatória, no entanto, vez ou outra passa por dificuldades financeiras, ainda que em determinadas regiões, em que o produtor rural em decorrência da frustração total/parcial da safra ou em decorrência da dificuldade de comercializar o produto, não logra êxito em sua produção, restando impossibilitado de arcar com todas as obrigações financeiras assumidas.
O que muitos não sabem é que, nesses caos, o ordenamento jurídico protege o produtor rural, proporcionando a flexibilidade no pagamento dos mutuários que não foram cumpridos por motivos alheios a vontade do agricultor, ao invés de simplesmente inseri-los no rol dos maus pagadores.
É o que está assegurado na normativa de nº 2.6.9 do MCR (Manual de Crédito Rural do Banco Central). Veja:
Independentemente de consulta ao Banco Central do Brasil, é devida a prorrogação da dívida, aos mesmos encargos financeiros antes pactuados no instrumento de crédito, desde que se comprove incapacidade de pagamento do mutuário, em consequência de: (Circ 1.536).
a) dificuldade de comercialização dos produtos; (Circ 1.536) b) frustração de safras, por fatores adversos; (Circ 1.536)
c) eventuais ocorrências prejudiciais ao desenvolvimento das explorações. (Circ 1.536) 6
Por conseguinte, incumbe aos agentes financeiros observarem a referida normatização do Banco Central do Brasil e informarem ao produtor rural acerca da prorrogação do pagamento, proporcionando imediatamente a reprogramação do calendário para garantia do mutuário, uma vez que não se trata de mera discricionariedade da instituição, mas de direito adquirido de todo produtor rural (MRC 2.6.9).
Ocorre que na maioria das vezes isso não acontece, levando a negativação automática e indevida do produtor rural, o que o impede de realizar novos financiamentos de safra.
É notório que a negativação indevida do produtor rural ocasiona um imensurável transtorno social que se desdobra desde a produção agrícola até a aquisição dos produtos pelo consumidor final.
Noutro norte, a Constituição Federal em seu artigo 23 e 184 atribuem como competência do Estado o fomento da produção agropecuária e a organização do abastecimento alimentar por se tratarem de condição para assegurar a ordem pública e a paz social, devendo tal premissa ser considerada quando da análise dos contratos agrários.
Ainda, dentre as medias protetivas constitucionais do produtor rural, guarnece a Carta Magna em seu art.187, V, acerca do seguro agrícola, sendo o mais conhecido no Brasil como PROAGRO, instituído pela Lei 5.969 de 1973 que se rege pela Lei 8.171 de 1991.
A existência desse seguro é imprescindível ao produtor rural com o cunho de se evitar o inadimplemento involuntário como consequência à frustração da safra, pois, o mesmo visa à compensação dos prejuízos causados por eventuais adversidades.
Todavia, a contratação desse seguro deve ser feita nos contratos de concessão de crédito, mediante previsão de cláusula, ou seja, caso o produtor rural não tenha ciência disso e não sendo-lhe oferecido o seguro pela instituição bancária, fica o produtor exposto aos riscos inerentes a atividade de empresa a céu aberto, tendo que arcar com 100% dos prejuízos em face das cooperativas e instituições financeiras, o que na maioria das vezes leva a negativação creditória do mesmo.
Sendo a agricultura uma atividade dotada de extrema relevância e de inegável interesse social, a dívida oriunda do não pagamento de crédito para implantação de safra não deve servir de parâmetro para fins de negativação.
É de se considerar que os normativos do Conselho Monetário Nacional em relação ao crédito rural, possuem natureza cogente e normativa, com obrigatoriedade de serem aplicados em todos os casos em que se enquadrem.
É o entendimento pacificado do Superior Tribunal de Justiça através da Súmula nº 298 “O alongamento de dívida originada de crédito rural não constitui faculdade da instituição financeira, mas, direito do devedor nos termos da lei”. 7
Assim, não cabe às instituições financeiras determinar as normas contratuais do crédito rural, nem mesmo incide sobre os aludidos pactos a livre estipulação de vontades e demais prerrogativas inerentes aos contratos de crédito.
No que diz respeito ao tema, um tanto quanto discutível ainda no judiciário pelo fato de as instituições financeiras não cumprirem a lei, os tribunais de justiça pátrios tem firmado entendimento pacífico no sentido de que o alongamento da dívida não constitui faculdade da instituição financeira, como decidiu a décima sétima Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:
7 Disponível em: https://ww2.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2011_23_capSumula298.pdf. Acesso em: 18.jun.2019.
APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. EMBARGOS À EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO E DE CRÉDITO RURAL. SECURITIZAÇÃO. RESOLUÇÃO N. 3.376 DE 2006. INVIABILIDADE DE PRORROGAÇÃO UNILATERAL. AUSÊNCIA DE PROVA ACERCA DE PEDIDO EXPRESSO DO MUTUÁRIO. Súmula 298 do STJ. O alongamento de dívida originada de crédito rural não constitui faculdade da instituição financeira, mas direito do devedor nos termos da lei. Incumbe à parte o ônus de demonstrar o atendimento aos requisitos estabelecidos pela Resolução para incidência do benefício. Caso. Safra de arroz 2005/2006. Critérios e exigências para prorrogação que não foram cumpridas, pois não formalizado pedido para prorrogação do custeio. NEGARAM PROVIMENTO AO APELO. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº 70074251760, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Giovanni Conti, Julgado em 19/10/2017). (TJ-RS - AC: 70074251760 RS, Relator: Giovanni Conti, Data de Julgamento: 19/10/2017, Décima Sétima Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 01/11/2017). 8
Além disso, no agravo de instrumento nº 10034180036757001, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, negou provimento ao recurso interposto pela instituição financeira mantendo a decisão do juízo singular que deferiu a antecipação da tutela determinando a concessão imediata do benefício de alongamento da dívida rural.
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO ORDINÁRIA - CRÉDITO RURAL- PROLONGAMENTO DE DÍVIDA - DIREITO DO CREDOR - SÚMULA 298, DO STJ - TUTELA ANTECIPADA - REQUISITOS LEGAIS - VERIFICADOS. Com a edição da Súmula 298, do Superior Tribunal de Justiça, restou sedimentado o entendimento de que o alongamento de dívida originada de crédito rural não constitui faculdade da instituição financeira, mas, direito do devedor nos termos da lei. Contudo, o prolongamento da dívida não é automático e depende do preenchimento dos requisitos legais. Demonstrado o preenchimento dos requisitos previstos na resolução 4.660/2018 deve ser mantida a decisão que deferiu o pedido de antecipação de tutela formulado na inicial, determinando a concessão do benefício para alongamento da dívida rural do autor. (TJ-MG - AI: 10034180036757001 MG, Relator: Luciano Pinto. Data de Julgamento: 27/06/2019. Data de Publicação: 09/07/2019).9
8 Disponível em: https://tj-rs.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/516787579/apelacao-civel-ac-70074251760-rs?ref=serp. Acesso em 10.ago.2019.
9 Disponível em: https://tj-mg.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/730126627/agravo-de-instrumento-cv-ai-10034180036757001-mg?ref=serp. Acesso em 10.ago.2019.
Outrossim, a Súmula 298 do STJ vem sendo reforçada frequentemetne como alicerce fundamental nas decisões em favor do produtor rural, conforme se observa da decisão prolatada pela Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, no agravo de instrumento nº 70079990446:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. CAUTELAR DE BUSCA E APREENSÃO. ALONGAMENTO DE DÍVIDA. SÚMULA 298 DO STJ. Nos termos da Súmula 298 do STJ, o alongamento de dívida originada de crédito rural não constitui faculdade da instituição financeira, mas, direito do devedor nos termos da lei, razão pela qual, por ora, não há razão para modificar a decisão singular. AGRAVO NÃO-PROVIDO. (Agravo de Instrumento Nº 70079990446, Décima Terceira Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Alzir Felippe Schmitz, Julgado em 25/04/2019). (TJ-RS - AI: 70079990446 RS, Relator: Alzir Felippe Schmitz. Data de Julgamento: 25/04/2019, Décima Terceira Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 02/05/2019).10
Nessa perspectiva, a falta de pagamento por motivos alheios à vontade do produtor mutuário nem sempre gera inadimplência contratual. Em determinadas circunstâncias, a possibilidade de prorrogação do financiamento é um direito do devedor, conforme dispõem claramente o MCR 2.6.9., e ainda o parágrafo único, do artigo 4º, da Lei 7.843/89, in verbis:
Parágrafo único. Fica assegurada a prorrogação dos vencimentos de operações rurais, obedecidos os encargos vigentes, quando o rendimento propiciado pela atividade objeto de financiamento for insuficiente para o resgate da dívida, ou a falta de pagamento tenha decorrido de frustração de safras, falta de mercado para os produtos ou outros motivos alheios à vontade e diligência do devedor, assegurada a mesma fonte de recursos do crédito original.11
Destarte, tendo o produtor rural preenchido as condições previstas na norma contida no MCR 2.6.9., a prorrogação do contrato é medida que se impõe em virtude do caráter impositivo dos normativos do CMN.
Tais medidas tem o condão de assegurar a proteção do produtor rural em face das instituições financeiras, que na maioria dos casos, inscreve o agricultor nos
10 Disponível em:
https://tj-rs.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/707189241/agravo-de-instrumento-ai-70079990446-rs?ref=serp. Acesso em 10.ago.2019.
sistemas de restrição ao crédito (SERASA/SCPC/SISBACEN) indevidamente, privando-os do direito à reprogramação do calendário de pagamento.
Logo, as medidas alternativas tomadas pelos agricultores negativados para que possam arcar com o custeio da safra, como a redução da área de plantio, refletem drasticamente no bem estar social, pois, há escassez de determinados alimentos no comércio varejista, além do aumento no preço final do produto, que consequentemente, ocasiona em diversos descontentamentos a população, dificultando a manutenção da ordem pública e do bem estar social.
2.3 CONSEQUÊNCIAS DA INSCRIÇÃO DO PRODUTOR RURAL NOS CADASTROS DE RESTRIÇÃO AO CRÉDITO E A CONSEQUENTE ILEGALIDADE NA SUA NEGATIVAÇÃO
Sem a possibilidade de obter o crédito para a compra de fomentos a prazo, muitas vezes o produtor rural não vê alternativa senão a redução da área de plantio, a redução do emprego tecnológico e automatizado na agricultura, a compra e utilização de agrotóxicos do mercado paralelo por terem um custeio ameno12, dentre outras medidas alternativas, já que de outra forma não consegue manter os elevados custos de produção.
Sem dúvidas, a tomada dessas medidas alternativas geram grandes reflexos negativos na sociedade, pois repercute diretamente no setor secundário e terciário.
Por exemplo, a despeito da plantação do conhecido feijão-carioca que é consumido somente pelos brasileiros, não tendo mercado externo, os preços sofrem variações intensas.
Na última safra das águas, semeada em outubro e novembro de 2018 e colhida em janeiro e fevereiro de 2019, boa parte dos produtores diminuíram a área de plantio em vista das condições climáticas previstas para o ano de 2019.13
Resultado disso, o aumento no preço pago pela saca nos primeiros meses deste ano, que chegou a 400 reais, e o consumidor, por sua vez, sofre com o alto preço no varejo, que chegou a ultrapassar 12 reais o quilo, além da falta do produto no mercado.
Utilizando-se do exemplo mais recente, como o mencionado acima, é evidente que a diminuição da área de plantio, por exemplo, faz com que haja
12 Disponível em: https://digital.agrishow.com.br/porque-voce-nao-deve-comprar-defensivos-no-mercado-paralelo/. Acesso em 14.jul.2019.
13 Disponível em: https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Feijao/noticia/2019/06/depois-de-dois-anos-de-reducao-no-plantio-preco-do-feijao-subiu-em-2019.html. Acesso em: 14.jul.2019.
grandes variações e elevações no preço do produto, uma vez que a safra foi, mormente, reduzida com relação às anteriores, o que reflete nos custos para o setor secundário (industrialização) e consequentemente causa impacto no preço de mercado.
A vista disso, evidente que não se trata de inadimplemento por culpa exclusiva do agricultor, uma vez que a tomada das prevenções começam até mesmo antes de semearem o plantio, como ocorreu no caso da safra de feijão 2019, e consequentemente, gerou grande impacto econômico e social.
A frustração da safra por fatores adversos, especialmente os climáticos, é sempre o principal motivo que impulsiona o produtor rural a buscar o alongamento de seu financiamento. A frustração da safra é um mal que atinge o setor produtivo independentemente da experiência e/ou técnica do agricultor, posto que sua ocorrência decorre de fatores climáticos.
Justamente por esse fato, de que as forças da natureza não estão no controle e planejamento humano, é que a ocorrência de um fator externo não pode prejudicar o agricultor que retirou o financiamento para custear seu plantio.
Ainda que com a frustração parcial, tem-se que a pouca renda obtida deve ser direcionada, primordialmente, à manutenção familiar do agricultor.
Vislumbra-se, pois, por todo o exposto, que o espírito da lei (e normativo MCR) 14, é impor um condicionamento à cláusula de pagamento, por reconhecer, no contrato representativo da dívida rural, a aleatoriedade da atividade e, por consequência, dos resultados positivos do empreendimento financiado.
A exigibilidade da dívida, portanto, está vinculada ao resultado do negócio, que necessariamente há de resultar na geração de capacidade de seu pagamento pelo mutuário. O banco, quando distribui o crédito rural, tem que estar ciente de que o retorno dos recursos liberados somente ocorrerá se o resultado do projeto custeado for bem-sucedido.
Logo, o inadimplemento involuntário da cédula de crédito por parte do produtor rural possui proteção legal no sentido de que deve ser oportunizado a ele o alongamento da dívida, bem como, a reprogramação do calendário de pagamento, fazendo com que as instituições financeiras, cooperativas, ou qualquer outra empresa que fomente o crédito rural no país fiquem impedidas de negativar os
produtores, incorrendo em indenização nos casos de descumprimento destas normas legais.
CONCLUSÃO
De acordo com o exposto, ficou evidente o grande impacto que a negativação do produtor rural tem causado na sociedade frequentemente, visto que, as medidas alternativas que vem sendo tomadas além de ocasionarem na falta dos produtos finais no mercado de varejo, têm a questão envolvendo a compra de agrotóxicos no mercado alternativo por ter um custo menor, o que é altamente prejudicial à saúde da população.
Além do mais, as normas constitucionais claramente determinam que é dever do Estado o fomento e incentivo da produção agrícola, pelo fato de que a alimentação é matéria essencial para manter a paz social e a ordem econômica do país.
Dessa forma, restou comprovado que a reprogramação do calendário de pagamento da Cédula de Crédito Rural é medida que se impõe nos termos da MCR 2.6.9 do Banco Central do Brasil e demais prerrogativas constitucionais, corroborada ainda, pela Súmula 298 do Supremo Tribunal de Justiça, pois, é direito do produtor rural e dever da instituição financeira fornecer tal benesse, tornando-se ilegal a sua inscrição nos sistemas de restrição ao crédito.
REFERÊNCIAS
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com Fornecedores, Medidas Judiciais. 2. Ed. Rev. Porto Alegre: Livraria do
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[revogada].
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rural em face dos cadastros de restrição de crédito (Serasa, SPC, Sisbacen).
Teresina: Revista Jusnavegandi. 2018. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/67766>. Acesso em: 10.06.2019.
RIZZARDO, Arnaldo. Curso de Direito Agrário. 1. Ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
XVI ERIC – (ISSN 2526-4230)
O EXERCÍCIO DA CIDADANIA POR MEIO DA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA EM PROL DA CONCRETIZAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: um estudo em
meio a estudantes do ensino superior
Acadêmica: Anna Caroline Costa Fontes15
Orientadora: Prof. Me. Juliane Aparecida Kerkhoff16
RESUMO
Este artigo está voltado ao Direito Constitucional e a Teoria Geral do Estado e visa tratar do exercício da participação popular na gestão da coisa pública, como um exercício da cidadania. A Constituição Federal de 1988, marcando um período de redemocratização do País previu a possibilidade de a população participar diretamente, através de diversos mecanismos disponibilizados pela própria Carta Constitucional e posteriormente, por atos legais supervenientes, da gestão pública. Como exemplo disso citamos o orçamento participativo, a iniciativa popular de leis, a participação em Conselhos Públicos, em Conferências da cidade, em audiências Públicas, entre outros. No entanto, é preciso avaliar se esta participação garantida na legislação e tão importante para maior controle da eficiência da gestão pública, de fato ocorre com efetividade. Com base neste contexto, justificamos o presente trabalho empírico, que por meio de pesquisa a estudantes de graduação de faculdades de Mandaguari e Região, buscou identificar em meio a este público, em processo de conhecimento científico e profissional, o interesse dedicação dos mesmos ao exercício da cidadania, no sentido de participar pelos instrumentos disponíveis da gestão da coisa pública.
Palavras-chave: Cidadania. Participação Popular. Políticas Públicas. ABSTRACT
His article focuses on Constitutional Law and the General Theory of the State and aims to address the exercise of popular participation in the management of public affairs, as an exercise of citizenship. The Federal Constitution of 1988, marking a period of redemocratization in the country, foresaw the possibility for the population to participate directly, through various mechanisms provided by the Constitutional Charter itself and later, by supervening legal acts, of public management. As an example of this we mention the participatory budget, the popular initiative of laws,
15Graduanda em Direito pela FAFIMAN; bolsista do programa PROBIC no presente Projeto de
Pesquisa.
16Graduada em Direito; Especialista em Gestão de Recursos Hídricos e em Direito Ambiental; Mestre
em análise Regional e Ambiental; Mestre em Ciência Jurídica; Professora de Direito na Graduação e Pós Graduação; Advogada; Assessora Jurídica no Instituto Agua e Terra do Paraná; orientadora do presente Projeto de Pesquisa.
theparticipation in public councils, in city conferences, in public hearings, among others. However, it is necessary to assess whether this guaranteed participation in the legislation is so important for greater control of the efficiency of public management, in fact it occurs effectively. Based on this context, we justify the present empirical work, which, through research to undergraduate students from colleges in Mandaguari and Region, sought to identify among this public, in the process of scientific and professional knowledge, their interest in dedicating themselves to the exercise citizenship, in the sense of participating through the available instruments of public affairs management.
Keywords: Citizenship. Popular participation.Public policy.
1 INTRODUÇÃO
A finalidade de trabalharmos com este tema está na necessidade de avaliarmos a atuação/participação da população, especialmente a parcela que está cursando ensino superior, na vida política do Estado, e principalmente em assuntos relacionados a concretização de políticas públicas, vez que, entendemos que a efetiva participação popular na vida política do Estado em prol da efetivação de serviços públicos e políticas públicas é certamente exercício da cidadania.
O presente artigo tem como objetivo estudar o conceito de Cidadania e busca identificar o quanto a população está a par do tema. Visa também, por meio de pesquisa empírica, levantar junto a comunidade acadêmica, o grau e intensidade de participação dos mesmos. Justifica-se a escolha desta população para a realização da pesquisa, vez que estão em momento de formação acadêmica e profissional, o que pressupõe maior contato ou debate sobre a importância de participar na gestão do que é público.
Diante disso, com o resultado da pesquisa feita à este público, objetiva-se identificar se esta parcela da população, em formação acadêmica, profissional e cívica, tem participado na construção e fiscalização de políticas públicas locais, regionais e nacionais e o grau e qualidade desta participação. Em sendo negativa esta participação, que o resultado da pesquisa possa nos fazer compreender a inércia e os motivos pela falta de exercício deste direito/dever por esta parte da população.
Neste momento, entendemos que tal tema envolve algumas problemáticas que visamos esclarecer com o resultado da pesquisa bibliográfica e empírica realizada. O problema principal que entendemos existente é se há de fato na população acadêmica efetividade em utilizar das ferramentas e espaços de participação popular em prol da gestão da coisa pública. Caso não haja, pretendemos pela pesquisa aplicada compreender os motivos do não exercício deste direito por esta população.
Para tanto, a metodologia utilizada para a realização do trabalho é o levantamento bibliográfico, utilizando de livros, artigos científicos, leis, julgados entre outros fontes. LIMA E MIOTO (2007, pg 38) explicam que “a pesquisa bibliográfica implica em um conjunto ordenado de procedimentos de busca por soluções, atento ao objeto de estudo, e que, por isso, não pode ser aleatório”. FONSECA (2002, p. 32) esclarece que “a pesquisa bibliográfica é feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos páginas de web sites”.
A outra metodologia utilizada é a pesquisa de campo, que ocorre quando o pesquisador vai até o ambiente natural de seu objeto de estudo e faz pesquisas que correspondem á observação, coleta, análise e interpretação de fatos e fenômenos que ocorrem dentro de seus nichos. Tal pesquisa não necessariamente precisa ocorrer de maneira física, sendo que é possível a coleta de dados por meio on-line o que se justifica diante da situação de pandemia pela COVID 19 que estamos vivenciando.
De acordo com Gonsalves (2001, pg 67) a pesquisa de campo exige que o pesquisador tenha um contato mais direto com a população estudada, só assim irá coletar informações específicas para registro. A pesquisa a campo é importante pois extrai informações direto da realidade do estudo. Normalmente esta pesquisa é realizada após a pesquisa bibliográfica, pois nessa etapa o pesquisador já deve ter um bom embasamento teórico sobre o tema de seu artigo ou trabalho.
A pesquisa a campo possui várias formas de ser realizada, a utilizada nesta pesquisa é a quantitativa que tem raízes no pensamento positivista lógico que “enfatiza o pensamento dedutivo, salienta por si os aspectos dinâmicos e individuais de experiências humanas para ver o contexto dos que estão vivenciando o fenômeno”. (POLIT, BECKER, E HUNGLER, 2004, pg. 201)
E com a pesquisa quantitativa é possível validar as hipóteses e descobrir respostas gerais sobre o assunto estudado.
Por fim, como resultado desta pesquisa, objetiva-se identificar o perfil dos entrevistados, bem como o grau de interesse e efetivo exercício da cidadania no que tange a participação política na vida do Estado e na condução do que é público.
2 EXERCICIO DA CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO POPULAR
É importante compreendermos a magnitude do que é o exercício da cidadania e o que é ser de fato cidadão, bem como, saber usar e gozar dos direitos e garantias dos cidadãos de um determinado Estado.
Cidadania e participação popular são conceitos já bastante debatidos, estudados, pesquisados, no entanto, percebe-se que a prática e o exercício da cidadania, especialmente por meio da participação popular na gestão da coisa pública, na elaboração, execução e fiscalização de políticas públicas são ainda de pequena ou baixa expressão no Brasil
Para tratar deste assunto, abordaremos na sequência os conceitos doutrinários e os meios garantidos pela legislação brasileira de exercício da cidadania e participação popular.
2.1 Conceito de Cidadania
Cidadania, não é uma ideia estática, mas dinâmica, pois está sempre em evolução, a depender do momento histórico e da evolução da sociedade.
Segundo a Secretaria da Justiça, Trabalho e Direitos Humanos, cidadania deriva do latim “civitas”, palavra que significa “cidade”. Na Grécia antiga, “civitas” caracterizava o cidadão nascido em terras gregas. Já na Roma antiga, a palavra era mais usada para indicar a situação política e os direitos aos quais os cidadãos tinham ou podiam exercer. (DEDIHC, web)
O cidadão na Grécia antiga era aquele que participava dos debates políticos na cidade. Apenas estes exerciam o direito a cidadania e eram tidos como cidadãos, os que eram impedidos deste ato (como mulheres e escravos), não eram considerados cidadãos. (REIS, 2018)
Os séculos XIX e XX foram responsáveis por progressos significativos que repercutiram no conceito de cidadania. Fomentados pelos ideários de um novo modelo de Estado, mais garantista, com mais inclusão social, devido as lutas sociais e movimentos organizados que começaram a surgir e culminaram com a Revolução Francesa e Inglesa. A primeira e segunda Guerra mundial também contribuíram para uma mudança de ideologia sobre cidadania passando a associá-la a ideia de direitos humanos. (MELO, 2013).
A partir desta evolução histórica da sociedade, segundo Melo:
O conceito de cidadania passou a ser vinculado não apenas à participação política, representando um direito do indivíduo, mas também o dever do Estado em ofertar condições mínimas para o exercício desse direito, incluindo, portanto, a proteção ao direito à vida, à educação, à informação, à participação nas decisões públicas. (MELO, pg. 1, 2013).
Juridicamente, o indivíduo que goza de direitos civis e políticos de um Estado é um cidadão. Num sentido mais amplo, cidadania é a qualidade de ser cidadão, o qual, consequentemente, o torna um sujeito de direitos e deveres.
Assim, ser cidadão no Brasil, é ser possuidor de direitos e deveres garantidos por nossa Carta Maior e legislação infraconstitucional.
A Constituição Federal de 1988 dispõe em seu Artigo 1º, inciso II, que a cidadania é um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. No título dedicado aos diretos e garantias fundamentais de nossa Carta Magna, em seu Artigo 5ºcaput, vemos que:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do Direito a vida, á liberdade, á igualdade, á segurança e a propriedade.
Os incisos que se seguem, neste artigo 5º especificaram diretos e deveres dos cidadãos brasileiros e alguns também estendidos aos estrangeiros que vivem ou estão em território brasileiro.
Não só o artigo 5º, mas vários outros de nossa Carta Maior estabelecem direitos e deveres ligados ao exercício da cidadania, como o Art. 205, por exemplo:
A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (grifamos)
Como ensina Silva, a garantia da cidadania constitui uma das maiores conquistas da Constituição Federal de 1988, de tal forma que a mesma passa a ser denominada de ‘Constituição Cidadã’, rompendo com o ‘velho modelo’ de representação política (por meio exclusivamente da participação indireta), democratizando o poder através da participação popular diretamente (SILVA, 2005).
Dentre os direitos e deveres de cidadania, estabelecidos na CF/88, ressaltamos neste trabalho, o direito/dever de participar da vida pública.
Quanto ao exercício deste direito/dever, Dalmo de Abreu Dalari citado no artigo de Madrigal, entende que a cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. (MADRIGAL, 2016).
Segundo Durkheim citado por Madrigal, ninguém nasce cidadão, mas torna-se pela educação, pois dela torna-se dá o potencial natural para a vida social e comunitária do homem, cidadania é também o direito de ter uma ideia e poder expressá-la, é poder votar, praticar o exercício de seus direitos civis, políticos e sociais (MADRIGAL, 2016).
Nesta concepção podemos então perceber que a cidadania é um processo de construção que deriva de conhecimentos e da conquista da humanidade, ela não se dá apenas em pesquisas, mas também na convivência social, pois é nesta convivência que conseguimos exercê-la melhor.
Assim, cidadania deve ser entendida como uma construção que visa a realização gradativa dos direitos humanos e de uma sociedade mais justa e solidária com a inserção do indivíduo não apenas como expectador de seus direitos, mas também, como aquele que participa na construção, idealização e concretude dos direitos da coletividade.
No âmbito Constitucional a cidadania é mais do que o simples ato de votar e de ser votado, ela amplia o conceito colocando o indivíduo como um ser que participa da vida do Estado e o reconhece como membro integrado na sociedade a
qual ele vive.
Neste sentido, o cidadão que de fato exerce de forma ampla os direitos que lhe são conferidos pelo ordenamento jurídico brasileiro, participa na vida pública, não apenas de forma indireta, elegendo seus representantes, mas também, diretamente, participando na construção e gestão de políticas públicas, fiscalizando e controlando o poder público em suas ações e exigindo que o governo paute sua conduta na condução do que é público para a efetividade e concretude das ações e políticas públicas.
2.2. Cidadania e os Direitos Fundamentais
Os direitos fundamentais do ser humano foram sendo garantidos e conquistados, como já mencionamos acima, decorrente de teorias filosóficas modernas, das lutas sociais e políticas que desencadearam na Revolução Francesa e Inglesa e posteriormente, ganharam força, pela ação dizimadora das duas grandes guerras mundiais do Século XX.
A contribuição dos pensadores, sobretudo Ingleses, franceses e norte americanos foi importante para a construção dos primeiros direitos fundamentais positivados, neste sentido lecionam Carvelli e Scholl:
As contribuições dos diversos pensadores e as respectivas proposições insignes foram indubitavelmente elementares para o desenvolvimento da ideia dos direitos fundamentais. No entanto, essas ideias filosóficas, teológicas, jurídicas e políticas encontraram uma primeira ressonância prática dentro do direito positivo em declarações de direitos na Inglaterra, nos Estados Unidos da América e na França. Assim, os primeiros direitos fundamentais positivados representaram um marco na história da luta da humanidade por direitos e liberdades e projetavam, ao mesmo tempo, a eclosão mundial dos direitos fundamentais na concepção dogmática moderna.
Exemplo disso citamos a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 1789 na França, a qual traz em seu bojo direitos e garantias
fundamentais, como a de participação direta na gestão da coisa pública17. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos de proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro 1948, a qual também destaca direitos fundamentais de todos a participação ativa na gestão do que é publico. Neste sentido citamos abaixo alguns artigos deste importante documento neste sentido:
Artigo 22. Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo 27. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.
Na Constituição Federal brasileira de 1988, os direitos e garantias fundamentais individuais, coletivos e difusos, estão previstos no Título II e em vários outros artigos da CF/88, como ex. citamos o art. 225 que trata do direito a um ambiente sadio e equilibrado e a participação da coletividade na proteção deste direito.
Além disso, vemos uma ampla garantia de Direitos fundamentais presentes em nosso ordenamento jurídico, na legislação infraconstitucional, a exemplo da Lei 10.257/2001 que trata do Estatuto da Cidade e estabelece o direito/dever da coletividade em participar na gestão da cidade.
Os Direitos fundamentais podem ser conceituados como um sistema cheio de princípios e regras, pelos quais possibilita aos indivíduos os seus direitos subjetivos e também demonstra as formas pelas quais o Estado deve agir em relação a sociedade.
17 Art. 14º. Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a coleta, a cobrança e a duração.
Neste sentido, buscando interligar a ideia do exercício da cidadania por meio da participação popular na gestão da coisa pública, como um direito fundamental do indivíduo, Urbano Carvelli e Sandra Scholl esclarecem que:
Os direitos fundamentais são primordialmente constitutivos para um Estado constitucional democrático e representam o verdadeiro núcleo de uma ordem liberal-democrática. Os direitos fundamentais delimitam as áreas nas quais o poder estatal não deve intervir e representam, ao mesmo tempo, os fundamentos da comunidade. Eles são a expressão e a garantia tanto da liberdade política quanto da liberdade pessoal. Os direitos fundamentais munem o indivíduo da garantia de organização e gerência de sua própria vida, abrindo-lhe a possibilidade de participar da vida política da comunidade. (CARVELLI; SCHOLL, pg. 168, 2011)
Dalmo Dallari citado na obra de Vidal Serrano Nunes Jr., dá a sua concepção sobre os direitos fundamentais, o autor diz que “esses direitos são considerados fundamentais, porque sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida”. (NUNES JR., 2009, pg.14)
Diante desta constatação, privar a pessoa humana do exercício ou acesso aos seus direitos fundamentais, seria o mesmo que privá-la de viver plenamente na sociedade ao qual está inserido.
Vimos assim, que participar na vida publica, na construção, gestão e fiscalização do atendimento público às demandas sociais é um direito fundamental garantido em documentos internacionais e também no nosso Ordenamento Jurídico. Assim, o exercício de tais direitos pela população brasileira, é certamente, um exercício da cidadania.
2.3. A Participação Popular e sua Interdependência com o Princípio da Dignidade Humana.
O Princípio da Dignidade Humana está intimamente ligado aos direitos e garantias fundamentais, pois decorre da existência dos mesmos. Ora, ao se aplicar
um direito ou uma garantia fundamental está se garantindo dignidade àquele beneficiado.
Tal Princípio é considerado pela nossa Carta Magna como um dos Fundamentos da República Federativa brasileira, conforme previsão do Art 1º abaixo transcrito:
Art. 1º. A república Federativa do Brasil, formada pela União indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I- A soberania; II- A cidadania;
III- A dignidade da pessoa humana;
IV- Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; (destacamos)
O conceito de dignidade humana, segundo Vidal Serrano, deve ser visto como uma forma de resgatar o valor da vida humana com seu destaque na autodeterminação. “Com base no pensamento Kantiniano, se você cuidar de valores relativizados sem sentido, esta capacidade não pode ser restringida por nenhuma forma de estado hegemônico ou organização social”. (NUNES JR., 2009, pg. 111)
José Afonso da Silva citado na obra de Serrano conceitua dignidade humana como, “atributo intrínseco, da essência, da pessoa humana, único ser que compreende um valor interno, superior a qualquer preço, que não admite substituição equivalente”. (SERRANO, 2009, pg.112)
Para Bulos, os direitos fundamentais retratam proposições jurídicas que asseguram uma vida com dignidade, liberdade e igualdade entre as pessoas, ou seja, são os direitos sem os quais “o homem não vive, não convive e, em alguns casos, não sobrevive” (BULOS, 2007, p. 401).
Assim, a noção de dignidade humana há de ser integrada ao núcleo irredutível da proteção do ser humano, e dessa forma, ela não deve ser mitigada frente a outros interesses, sobretudo, quando se referem a ações públicas que envolvem diretamente a vida e os direitos da pessoa humana, tais direitos devem ser preservados tanto a frente do Estado quanto a frente de particulares.
Partindo de outro princípio devemos enxergar o ser humano como fim, e não como um meio, principalmente quando se trata de gerir o que é público, onde é lícito
que todos devem participar não só de forma indireta, mas, principalmente diretamente como coadjuvantes da construção e efetivação de direitos.
Dessa forma, o sentido de dignidade humana, apresentaria necessariamente uma relação de interdependência com o exercício da cidadania, entendida por Hannah Arendt, citado por Vidar Serrano, como “o direito a ter direitos”(NUNES JR. 2009, pg 113)
Portanto, a dignidade teria um valor interior ligado ao psíquico e físico do ser, e um valor externo no que diz respeito á inclusão do individuo na sociedade, no qual a nosso ver não se deve ter o individuo como parâmetro enquanto tal, mas sim enquanto parte da sociedade em que ele vive.
Os direitos fundamentais como dito são essenciais para a garantia da dignidade humana. Ao participar ativamente da gestão da coisa pública, não apenas como mero expectador, mas sim, como construtor de seu destino, das políticas públicas voltadas para sua comunidade, para a sociedade em que está inserido, poder acompanhar, deliberar, decidir e fiscalizar a execução de tais políticas é para o cidadão a certeza de que os seus direitos fundamentais individuais, sociais e difusos foram cumpridos de forma abrangente, garantindo aos partícipes e usufrutuários de tais direitos, dignidade, tanto em ter direitos, como em usufruir concretamente dos mesmos e ainda mais, em poder participar da concretização dos mesmos.
3. DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Neste capítulo discorreremos de forma breve sobre o que são e qual a importância das Políticas Públicas, como instrumento de atendimento das demandas populares, da garantia de direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana.
As políticas públicas nada mais são do que as ações dos governos com intuito de melhorar a gestão da coisa pública, atender as necessidades sociais e cumprir com os direitos garantidos no ordenamento jurídico.
Celina Souza explica que enquanto área de conhecimento e disciplina acadêmica, o estudo das políticas públicas surge nos Estados Unidos da América, rompendo ou pulando as etapas seguidas pela tradição europeia de estudos e
pesquisas nessa área, que se concentravam, então, mais na análise sobre o Estado e suas instituições do que na produção dos governos (SOUZA, 2006).
Ainda, segundo a autora, “na área do governo propriamente dito, a introdução da política pública como ferramenta das decisões do governo é produto da Guerra Fria e da valorização da tecnocracia como forma de enfrentar suas consequências” (SOUZA, 2006, pg. 22).
Ao longo da história do Estado e da sociedade vemos que o conceito de políticas públicas foi sendo ampliado, de acordo com a inclusão de direitos e garantias sociais nos ordenamentos jurídicos.
Neste sentido, Ricardo W. Caldas, organizador de um manual sobre Políticas Públicas pelo SEBRAE de Minas Gerais, ensina que:
A função que o Estado desempenha em nossa sociedade sofreu inúmeras transformações ao passar do tempo. No século XVIII e XIX, seu principal objetivo era a segurança pública e a defesa externa em caso de ataque inimigo. Entretanto, com o aprofundamento e expansão da democracia, as responsabilidades do Estado se diversificaram. Atualmente, é comum se afirmar que a função do Estado é promover o bem-estar da sociedade. Para tanto, ele necessita desenvolver uma série de ações e atuar diretamente em diferentes áreas, tais como saúde, educação, meio ambiente. (CALDAS, 2008, pg. 5)
O autor ainda conceitua políticas públicas como um conjunto de ações e decisões do governo, voltadas para a solução (ou não) de problemas da sociedade:
As Políticas Públicas são a totalidade de ações, metas e planos que os governos (nacionais, estaduais ou municipais) traçam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público. (CALDAS, 2008, pg. 5)
Para Celina Souza, as políticas públicas repercutem na economia e nas sociedades, daí por que qualquer teoria da política pública precisa também explicar as inter-relações entre Estado, política, economia e sociedade (SOUZA, 2006).
Basicamente elas seriam uma forma de fazer com que o governo se mova para promover ações, e que se necessário, propor mudanças para o rumo da mesma.
3.1. Participação Popular na concretização de Políticas Públicas
Nas últimas décadas intensificou-se a participação da população não apenas na fiscalização e cobrança pela execução de políticas públicas, mas também, na construção de tais políticas, buscando sempre eficiência, agilidade e qualidade da prestação dos serviços e no atendimento de tais políticas em prol do bem comum.
As demandas da sociedade são apresentadas aos dirigentes públicos por meio de grupos organizados, no que se denomina de Sociedade Civil Organizada (SCO), a qual inclui sindicatos, entidades de representação empresarial, associação de moradores, associações patronais e ONGs em geral, entre outros (CALDAS, 2008).
Tal participação popular é vista também no sentido de controle e fiscalização, a fim de evitar o desvio de finalidade, a corrupção e o gasto inadequado de recursos públicos com políticas públicas ineficientes e desnecessárias.
A execução com eficiência e economicidade de políticas públicas que atendam aos anseios sociais, visa atender aos direitos fundamentais da coletividade e garantir dignidade a todos.
Seria então, a participação popular, uma forma direta da população interagir com o Governo na implementação ou formulação de políticas públicas, na ação de prioridades ou no controle da atuação estatal. (LOTTA, 2018)
Sua importância se dá no âmbito de efetividade das ações públicas, alcançando maiores possibilidades de elas serem concretizadas e eficazes, melhorando então a gestão da coisa pública e concretizando-se direitos e garantias fundamentais.
Segundo Roberta Jucá, a intervenção do povo nas decisões do Estado revela-se como fator primordial para a transformação da realidade política e governamental que vivemos, na medida em que oportuniza tanto um diagnóstico mais fiel dos problemas sociais como a identificação das mais prementes soluções, além de possibilitar a fiscalização e o controle dos cidadãos sobre a gestão da coisa pública e a legitimação das decisões coletivas. (JUCÁ, 2007, pg. 12)
Marcus Pessanha afirma que o número de pessoas que vem contribuindo para com as políticas públicas tem aumentado cada dia mais, pois quem participa vê que em várias áreas, como a dos serviços públicos, tem caminhado bem melhor
quando a sociedade está a par dos assuntos e se envolvendo com os projetos (PESSANHA, 2015).
Segundo o autor, esta mudança, possibilitando a participação dos próprios administrados na gestão da coisa pública, ganhou espaço com a Constituição Cidadã, de 1988. “É possível afirmar, então, que foi instituída uma ordem jurídica que pretendeu permitir o controle das atividades do Estado e a participação dos cidadãos no exercício do poder político”. (PESSANHA, 2015).
Mudanças começam pelo local, nem sempre a participação já começam em alto nível, no âmbito de políticas federais ou estaduais, às vezes elas vem de reuniões de bairros, Associação de Pais e Mestres, nas escolas como no caso da educação, Conselhos de Saúde e destes espaços vão tomando proporções maiores, possibilitando a estas deliberações locais, se tornarem planos e ações de governo e mais adiante, serem concretizadas em benefício, da coletividade.
A participação da população nas políticas públicas como exercício da cidadania é essencial, pois é direito nosso exigir dos nossos governantes desenvolvimento de ações, melhoria na prestação de serviços públicos e a eficácia no cumprimento de direitos fundamentais, como saúde, educação, trabalho, esporte, moradias, entre tantos outros.
Infelizmente, ainda é pequeno o número de pessoas que efetivamente participam de algumas das diversas formas e espaços de debates e construção de políticas públicas, ou mesmo, apenas, de manifestações de fiscalização e controle dos atos e ações políticas, apesar de ser inegável o avanço do envolvimento popular nas últimas décadas no Brasil.
Nesse sentido, afirma otimista Pessanha:
Mesmo considerando as dificuldades econômicas e sociais que se fazem presentes na sociedade brasileira, é possível se afirmar que os institutos da democracia inclusiva e democracia se fazem presentes, e com tendência de expansão, tanto na qualidade de seus instrumentos, quanto na quantidade de seus titulares. (PESSANHA, 2015. pg 4).
É preciso intensificação e qualidade na participação da população na gestão da coisa pública. Intensificar com o aumento progressivo de pessoas engajadas e envolvidas com elaboração e execução de políticas públicas em todas as áreas, a
fim de que o governo seja eficiente e para o povo de fato. Qualidade no sentido de que esta participação popular deva ser cada vez mais capacitada, inteirada, sobre questões legais, orçamentárias, fiscais e outras, que possibilitem uma efetividade e resultados positivos decorrentes da participação da coletividade na gestão pública.
A falta de conhecimento faz com que as pessoas não exijam a concretização de seus direitos, ou se conformem com os serviços que são prestados, que não fiscalizem o uso do dinheiro público, que mantenham o ciclo vicioso da corrupção.
Diante disso, educar para que o cidadão possa participar diretamente da construção de políticas públicas e acompanhar, cobrar a execução das mesmas é fundamental no presente momento. Criar nos jovens o sentimento de pertença, de responsabilidade social, não olhar apenas de forma individual para seus próprios interesses e projetos, mas sim, participar como um integrante do corpo social em prol da melhoria da qualidade de vida para todos.
Nesse sentido, em pesquisa realizada em comunidades do Município de São Paulo, Fernanda Burgos comenta sobre as dificuldades que as lideranças comunitárias locais encontram em incluir os jovens nesta atuação democrática e cidadã:
As organizações de base e as associações de moradores tentam engajar as novas gerações, mas como disse uma líder comunitária, “nós podemos fazer muita coisa, mas se o Estado não faz a sua parte, há uma tendência para as pessoas desistirem”. (BURGOS; SPINK, 2019, pg. 118)
Trata-se de uma parcela importante da sociedade, pessoas que estão iniciando sua vida cívica, que deveriam estar engajados e participando na construção de políticas públicas, sobre tudo as voltadas a atender as demandas de seu próprio segmento, a juventude, como educação superior, esportes, cultura, lazer, trabalho, mas que porem envolve-se de forma tímida e ainda pequena na gestão da coisa pública.
3.2 A Participação Popular na gestão da coisa pública por estudantes de graduação de Faculdades da Região de Mandaguari - Resultado da pesquisa a campo
A metodologia que foi utilizada foi a pesquisa de campo, no qual se deu por um questionário que foi encaminhado pelo e-mail de respectivos professores que consequentemente encaminharam a seus alunos e os mesmos devolveram as pesquisas por e-mail.
Optamos por fazer a pesquisa no âmbito regional com alunos de faculdades da nossa região e município, pois com os devidos impedimentos que aconteceram o método que mais foi eficaz e que nos cabia foi esse.
A pesquisa num primeiro momento foi idealizada para ser realizada com os alunos da FAFIMAN presencialmente, porém, em virtude da situação de Pandemia pelo COVID – 19, tivemos que alterar a forma de aplicação dos questionários, contando com a participação de professores de algumas faculdades da região de Maringá, que enviaram via e-mail os questionários aos seus alunos e posteriormente, nos enviaram as respostas.
Ao todo, foram enviados 279 questionários, sendo que destes, apenas 47 retornaram respondidos. Abaixo, apresentamos o resultado compilado das respostas obtidas.
3.2. Resultado da pesquisa aplicada aos alunos de graduação de faculdades da região de Maringá
O questionário aplicado possui 17 perguntas e segue anexo a este artigo. O mesmo busca identificar, além do sexo e idade do entrevistado, se o mesmo, alguma vez na vida participou, ainda que como expectador, de momentos e instrumentos de gestão direta da coisa pública.
Assim, do total de questionários respondidos 53% era do sexo masculino e 47% do sexo feminino.
Quanto a idade, 47% dos entrevistados têm entre 18 e 30 anos, 33% entre 30 e 40 anos e 20% tinha acima de 40 anos. Neste quesito, vemos que 53% dos
entrevistados são pessoas já maduras, com mais de 30 anos, pessoas que já estão no mercado de trabalho, que já possuem certa vivência e experiência.
Quanto a formação acadêmica, 42% dos entrevistados estavam cursando a primeira graduação, 38% já eram graduados e estavam na segunda graduação e 20% já faziam inclusive, pós-graduação, o que demonstra um bom nível de conhecimento entre os entrevistados.
Quanto a participação direta na gestão do que é publico, este público entrevistado, 100% afirmaram que nunca participaram de comitês/conselhos (municipais, estaduais, federais) na função de conselheiro titular ou suplente; 21% participaram como ouvintes ou apenas assistiram as reuniões e os outros 79% nunca participaram nem mesmo como ouvinte;
Quanto a participação como membros em ONGs, OSCIPs ou outro tipo de Associação de Interesse público sem fins lucrativos, 5% disseram que já haviam participado e os outros 95% disseram que nunca participaram; Já em relação a Associações com fins lucrativos, 6% já participaram como membros e 94% nunca participaram como membros.
Quanto a participação em sessões na Câmara Municipal de seu município, 14% disseram que já haviam participado e 86% que nunca participaram. Dentre os que participaram, 2% afirmaram que participaram em sessões da Câmara de vereadores de seu Município, apenas uma vez, 96% afirmaram que participaram algumas vezes e 2% disseram que participam muitas vezes;
Quanto a participação em reuniões para discutir a aplicação do orçamento do Município 4% disseram que já haviam participado neste sentido e 96% que nunca participaram; ainda no quesito orçamento público, sobre a participação em audiências ou consultas públicas a fim de aprovar a prestação de contas dos governantes, 12% afirmaram que já participaram de sessões de prestação de contas e 88% que nunca participaram.
Ainda sobre o controle da gestão pública, via acesso ao Portal da Transparência 90% afirmou que já havia acessado por algum motivo de acompanhamento ou controle e 10% que nunca acessaram.
Quanto a participação em carreatas/passeatas/protestos e outras formas similares de participação popular, 17% já participaram desta forma e 83% nunca
participaram. Dos que responderam que já haviam participado desta forma de manifestação, 4% informaram que apenas uma vez e 96% algumas vezes.
Sobre a participação em conferências ou encontros para a discussão de políticas públicas, 8% disseram que já participaram e 92% disseram que nunca participaram.
Indagados sobre o porquê de não terem participado, 8% dos entrevistados afirmaram não participarem por falta de tempo, 68% por falta de interesse, 2% por descrédito de que a participação terá resultado útil, 10% por desconhecimento de canais ou meios de participação e 8% por falta de oportunidade/convite para a participação.
E por fim perguntava se acreditaria que a participação na gestão da coisa pública pode contribuir para melhoria dos serviços públicos e para atuação mais eficiente do executivo e legislativo e a resposta foi de (98%) para sim e (2%) para não.
O questionário ainda contava com uma questão aberta, para que em querendo, o entrevistado pudesse fazer alguma consideração sobre o assunto da pesquisa e muitas das colocações que recebemos era sobre o descrédito dos participantes na democracia direta, alguns até comentaram que acreditam que as próprias Associações e ONGs, ou outras instituições criadas com esta finalidade, na realidade são meios de lavagem de dinheiro ou de conseguir dinheiro público para fins particulares.
Assim, verificamos que no grupo pesquisado, de maioria de pessoas já com formação acadêmica e profissional, em faixa etária adulta, pessoas então que estão em pleno período de conquista e estabilidade profissional, a participação popular direta é muito pequena, excetuados os que acompanham a execução das políticas públicas e fiscalizam os gastos públicos via portal da transparência, único dado que obteve resposta positiva em relação a participação popular.
A maioria não participa e afirmam não terem interesse em participar, nem como integrantes de ONGs, Conselhos ou Movimentos, nem mesmo, como ouvintes, em Convenções, manifestações, reuniões de bairros ou nas câmaras municipais. Muitos alegaram desconhecimento sobre o assunto, falta de tempo ou convite para participarem destes espaços e mesmo, desconhecerem as formas/instrumentos existentes de participação popular existentes em nosso País.