DAIANI CONRAD DE LIMA
A PRISÃO COMO PENA E O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL
IJUÍ (RS) 2011
DAIANI CONRAD DE LIMA
A PRISÃO COMO PENA E O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL
Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador (a): MSc. Ester Eliana Hauser
Ijuí (RS) 2011
DAIANI CONRAD DE LIMA
A PRISÃO COMO PENA E O ENCARCERAMENTO FEMININO NO BRASIL
Trabalho final do Curso de Graduação em Direito aprovada pela Banca Examinadora abaixo subscrita, como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Direito e a aprovação no componente curricular de Trabalho de Curso
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas
Ijuí, 06 de dezembro de 2011.
_________________________________________ (Ester Eliana Hauser– Mestre– UNIJUI)
_________________________________________
Dedico este trabalho a todas as pessoas que me auxiliaram durante esta longa e árdua jornada de caminhada acadêmica.
AGRADECIMENTOS
A Deus, pela minha vida, e por ter me dado força e garra durante toda esta caminhada.
A minha orientadora Ester Eliana Hauser, pelo seu empenho e dedicação para que obtivéssemos êxito neste trabalho.
A minha família, que muito colaborou durante a trajetória de construção deste trabalho, minha muito obrigada!
“Liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite.”
RESUMO
O presente trabalho de pesquisa monográfica faz uma análise de como se deu o surgimento da pena de prisão e sua posterior evolução até chegar à atualidade. Trata brevemente sobre o sistema de execução da pena privativa de liberdade, de acordo com os preceitos estabelecidos na Lei de Execução Penal. Busca compreender os direitos e deveres dos presos, analisando a realidade prisional brasileira e, principalmente, o encarceramento feminino. Nessa perspectiva, tece algumas considerações acerca do perfil da população carcerária feminina, ponderando quais os reflexos que tal condição traz para seus familiares.
Palavras-Chave: Pena de Prisão. Execução. Evolução. Encarceramento Feminino.
ABSTRACT
The present research monograph makes an analysis of how arose the punishment by confinement and its subsequent evolution until the present. This work deals briefly about the execution of system of deprivation freedom according to the rules established in the LEP. It seeks to understand the rights and duties of prisoners, analyzing the Brazilian prison reality, and especially the female incarceration. In this perspective, it shows some considerations about the profile of the female prison population which considering the consequences that this condition brings to their families.
Key-words: Punishment by Confinement, Execution, Evolution, Female
Incarceration.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 10
1 A PENA DE PRISÃO E AS NORMAS QUE REGULAM A EXECUÇÃO PENAL NO BRASIL ... 12
1.1 A prisão como pena: antecedentes históricos ... ... 12
1.2 O sistema de execução da pena privativa de liberdade no Brasil segundo a Lei de Execução Penal (LEP) ... ... 19
1.3 Os estabelecimentos penais e os direitos e deveres dos presos ... ... 24
2 A REALIDADE PRISIONAL BRASILEIRA E O ENCARCERAMENTO DA MULHER ... ... 33
2.1 Evolução da população carcerária no Brasil... ... 34
2.2 A mulher presa no Brasil e no Estado do Rio Grande do Sul ... ... 39
2.3 O perfil das mulheres presas ... ... 42
2.4 Os crimes cometidos e o tempo total das penas ... ... 44
2.5 Os reflexos familiares do encarceramento feminino ... ... 45
CONCLUSÃO ... ... 50
REFERÊNCIAS ... ... 53
ANEXO A ... ... 56
ANEXO B ... ... 61
INTRODUÇÃO
O presente trabalho de conclusão de curso aborda a prisão como pena e o encarceramento feminino no Brasil, fazendo uma análise pormenorizada a respeito do sistema de execução penal, de acordo com os preceitos estabelecidos na Lei de Execução Penal, e sobre o perfil da mulher encarcerada no país, vislumbrando quais os reflexos que este fato representa para seus familiares.
A pena de prisão tem sido desde o século XVIII a principal forma de punição utilizada pelo Estado sendo que, nas últimas décadas, observa-se um crescimento considerável nas taxas de encarceramento. Este aumento reflete o crescimento da criminalidade, mas também o avanço na repressão punitiva que tem marcado a política criminal brasileira.
Ao se analisar o crescimento das taxas de encarceramento percebe-se que há, ano a ano, um crescimento significativo do número de mulheres presas. Sabe-se que a clientela tradicional do sistema punitivo é composta por homens, em geral jovens e pobres, mas, nos últimos anos a prisão de mulheres se acentuou bastante, especialmente no Brasil. Diante desta realidade surgem inúmeros questionamentos: Quem são as mulheres presas? Quais os crimes que estas praticam? Por que o sistema punitivo tem selecionado, de forma mais efetiva, as mulheres como suas clientes? Qual o impacto do encarceramento feminino no âmbito familiar?
Outro importante aspecto diz respeito à estrutura do sistema penitenciário, uma vez que os estabelecimentos prisionais brasileiros não possuem estruturas
adequadas para abrigar mulheres de maneira correta, conforme determina a legislação vigente. Neste sentido, o trabalho procura analisar as normas norteadoras da execução da pena privativa de liberdade, presentes no texto da Lei de Execução Penal, para demonstrar o distanciamento existente entre os comandos normativos e a realidade dos estabelecimentos prisionais, especialmente àqueles destinados para as mulheres.
Para discutir o tema, no primeiro capítulo, apresenta-se uma analise histórica da prisão como pena, sua função declarada, bem como as regras que orientam a execução da pena no Brasil. Ainda, são abordados os direitos e deveres dos presos que estão preestabelecidos em lei e deveriam ser cumpridos integralmente, mas que não condizem com a realidade prisional brasileira. Nessa perspectiva, é analisada a evolução da população carcerária no país, e o déficit que esse quadro representa se comparado ao número de vagas existentes.
No segundo capítulo faz-se uma análise detalhada do perfil da população carcerária feminina brasileira e gaúcha, a partir da evolução dos níveis de encarceramento de mulheres, buscando avaliar as razões que estão por traz deste fenômeno, bem como os impactos familiares que produz. Para realizar este estudo são utilizados dados fornecidos pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, que anualmente publica informações gerais sobre a situação carcerária brasileira.
Com base nestas informações pode ser vislumbrado o crescimento geral da população carcerária e, especialmente, das mulheres presas no Brasil, bem como as falhas do sistema de execução penal. A partir destes dados também se analisa o perfil da mulher presa, considerando a faixa etária, a etnia, a escolaridade, a procedência, o crime cometido e o tempo de pena a cumprir. Após a análise de todos os elementos referentes às mulheres presas e à prisão feminina, que demonstra qual é a realidade a que são submetidas às presidiárias no Brasil e no Estado do Rio Grande do Sul, são ponderados quais os reflexos que a prisão causa dentro do âmbito familiar.
1 A PENA DE PRISÃO E AS NORMAS QUE REGULAM A EXECUÇÃO PENAL NO BRASIL
A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 5º, inciso XLVI, elenca várias formas de penas passíveis de serem adotadas no país. Tal dispositivo determina que “a lei regulará a individualização da pena” autorizando a adoção de penas privativas e restritivas de liberdade, pena de perda de bens, multa, prestação social alternativa e a suspensão ou interdição de direitos.
Ao se fazer uma análise do artigo acima citado, percebe-se que apesar de existir um conjunto significativo de penas alternativas, que possibilitam a responsabilização aos condenados não só por meio do encarceramento, no país, por força das previsões do Código Penal, a prisão é a pena por excelência.
Conforme já mencionado, a maioria dos crimes existentes no país são punidos com a pena de prisão, contudo as condições oferecidas pelo sistema prisional brasileiro, para o cumprimento destas penas, são precárias. É um grande impasse se falar em aplicar penas a quem descumpre as leis do país, se não há sequer uma estrutura adequada para que isso aconteça.
1.1. A prisão como pena: antecedentes históricos
Inicialmente, para compreender o verdadeiro significado da pena de prisão, importante mencionar as lições de Cezar Roberto Bitencourt (1993, p. 11), para quem “a história da prisão não é a de sua progressiva abolição, mas a de sua reforma. A prisão é concebida modernamente como um mal necessário, sem esquecer que guarda em sua essência contradições insolúveis.”
Conforme demonstrado na citação acima, muitas são as contradições existentes com relação à pena de prisão, fato que se dá, em razão de que a sua existência é inevitável para que o Estado imponha a ordem perante a sociedade.
Ocorre que, tanto na atualidade, como em tempos remotos, os apenados não são tratados como deveriam quando da execução das suas penas, existindo desse modo, grandes revoltas.
Michel Foucault (2002, p. 29), em sua obra demonstra este fato:
Nos últimos anos, houve revoltas em prisões em muitos lugares do mundo. Os objetivos que tinham, suas palavras de ordem, seu desenrolar tinham certamente qualquer coisa de paradoxal. Eram revoltas contra toda uma miséria física que dura a mais de um século: contra o frio, contra a sufocação e o excesso de população, contra as paredes velhas, contra a fome, contra os golpes. Mas eram também revoltas contras as prisões-modelos, contra os tranqüilizantes, contra o isolamento, contra o serviço médico ou educativo.
A prisão sempre fez parte da humanidade, desde os seus primórdios, Bitencourt (1993, p. 13), menciona em sua obra, que é muito difícil situá-la em suas origens, pois ela é tão antiga quanto a humanidade. Na Antiguidade, a prisão além de ser utilizada como o meio pelo qual os réus eram preservados até a data dos julgamentos, também era usada por meio de torturas, com a finalidade de se descobrir verdades, porém, em alguns casos, essas verdades nem existiam.
Contudo, como pena, a privação de liberdade é uma invenção tipicamente moderna, uma vez que nos períodos antigo e medieval ela não aparecia como forma de punição, mas simplesmente como forma de contenção dos acusados, enquanto aguardavam julgamento.
Segundo Bitencourt (1993, p. 17):
Grécia e Roma, pois, expoentes do mundo antigo, conheceram a prisão com finalidade eminente de custódia, para impedir que o culpado pudesse subtrair-se ao castigo. Pode-se dizer com Garrido Guzman, que de modo algum podemos admitir neste período da história sequer um germe da prisão como lugar de cumprimento de pena, já que praticamente o catálogo de sanções esgotava-se com a morte, penas corporais e infamantes. A finalidade da prisão, portanto, restringia-se à custódia dos réus até a execução das condenações referidas. A prisão dos devedores tinha a mesma finalidade: garantir que os devedores cumprissem as suas obrigações.
Foi um período da história em que era muito comum utilizar-se da pena de morte e de penas corporais, como agressões e mutilações aos réus, razão pela qual a pena de prisão era considerada uma “ante-sala” de suplícios.
Conforme as lições de Foucault (2002, p. 30)
De qualquer modo, a maior parte das condenações era banimento ou multa: [...] Ora, grande parte dessas penas não corporais era acompanhada a título acessório de penas que comportavam uma dimensão de suplício: exposição, roda, coleira de ferro, açoite, marcação com ferrete; era a regra para todas as condenações às galeras ou ao equivalente para as mulheres – a reclusão no hospital; o banimento era muitas vezes precedido pela exposição e pela marcação com ferrete; a multa, às vezes, era acompanhada de açoite. Não só nas grandes e solenes execuções, mas também nessa forma anexa é que o suplício manifestava a parte significativa que tinha na penalidade; qualquer pena um pouco séria devia incluir alguma coisa de suplício.
Com o passar dos tempos, chegou-se à Idade Média, quando a pena de prisão foi se tornando um pouco mais utilizada, porém durante este período as sanções eram aplicadas de forma desigual, conforme o status social do réu. Nesse sentido, assevera Bitencourt (1993, p. 18):
As sanções criminais na Idade Média estavam submetidas ao arbítrio dos governantes, que as impunham em função do “status” social a que pertencia o réu. Referidas sanções podiam ser substituídas por prestações em metal ou espécie, restando a pena de prisão, excepcionalmente, para aqueles casos em que os crimes não tinham suficiente gravidade para sofrer condenação a morte ou a penas de mutilação.
De acordo com a citação, na Idade Média as sanções eram estabelecidas conforme a condição social a que pertencia o réu, sendo que os mais atingidos eram os pobres, além disso, a pena mais usada era a pena de morte. Contudo, com o surgimento da Idade Moderna, a pobreza tomou conta de toda a Europa, aumentando consequentemente o número de delinquentes, fator que demonstrou para os mais favorecidos da sociedade, que a pena de morte não era a melhor solução para a criminalidade.
A melhor solução encontrada para combater o impasse existente entre população e governo, foi justamente um movimento com o intuito de criar prisões que tinham como objetivo principal corrigir a conduta dos condenados, enfim, todo o
sistema necessitava com urgência de uma reforma, em que não prevalecesse apenas a vontade dos governantes.
Para Bitencourt (1993, p. 23):
A suposta finalidade da instituição, dirigida com mão de ferro, consistia na reforma dos delinqüentes por meio do trabalho e da disciplina. O sistema orientava-se pela convicção, como todas as idéias que inspiravam o penitenciarismo clássico, de que o trabalho e a férrea disciplina são um meio indiscutível para a reforma do recluso.
Foucault (2002, p. 83) leciona que “Vemos aí ao mesmo tempo a necessidade de uma classificação paralela dos crimes e dos castigos e a necessidade de uma individualização das penas, em conformidade com as características singulares de cada individuo”.
A adoção da prisão como pena por excelência foi fruto das mudanças ideológicas, políticas e culturais que ocorreram no século XVIII, como o iluminismo, o humanismo e a consolidação do capitalismo como principal sistema de produção.
O sistema punitivo anterior, dominado pelos nobres, era arbitrário, desproporcional, utilizava penas corporais, os suplícios, e não se baseava em normas legais. De acordo com Foucault (2002, p. 47), “O suplício se inseriu tão fortemente na prática judicial, porque é revelador da verdade e agente do poder. [...]; permite que o crime seja reproduzido e voltado contra o corpo visível do criminoso.”
No momento em que a burguesia emerge como a classe economicamente forte, passou a defender que o poder do Estado fosse limitado, pois não queria ficar sujeita ao poder absoluto dos reis, passando a exigir que sejam impostas limitações ao poder de punir do Estado, é nesse sentido que Foucault (2002, p. 63) afirma que: “É preciso que a justiça criminal puna em vez de se vingar.”
Segundo as lições de Dario Melossi e Mássimo Pavarini (1985 apud BITENCOURT, 1993, p. 29):
É na Holanda, na primeira metade do século XVII, onde a nova instituição da casa de trabalho chega, no período das origens do capitalismo, à sua forma mais desenvolvida. E que a criação desta nova e original forma de segregação punitiva responde mais a uma exigência relacionada ao desenvolvimento geral da sociedade capitalista que à genialidade individual de algum reformador.
Foi um período histórico em que se desenvolve o sistema capitalista de produção, baseado na produção fabril. Com a dissolução do modelo feudal de produção, que era baseado na produção agrícola, as populações passam a migrar para as cidades e, estando extremamente empobrecidas, passam a cometer crimes patrimoniais e a mendigar pelas ruas.
Neste mesmo contexto, as fábricas estão carentes de mão de obra capacitada para a produção, então passa a ser necessário disciplinar a mão de obra para o trabalho na fábrica. É nesse momento em que a prisão surge como pena principal, pois passa a “disciplinar” as populações para o novo sistema produtivo que se instaura.
De acordo com Bitencourt (1993, p. 29):
Os modelos punitivos não se diversificam por um propósito idealista ou pelo afã de melhorar as condições da prisão, mas com o fim de evitar que se desperdice a mão de obra e ao mesmo tempo para poder controlá-la, regulando a sua utilização de acordo com as necessidades de valoração do capital.
Ainda, com relação ao surgimento da prisão Melossi e Pavarini (1985 apud BITENCOURT, 1993, p. 30), afirmam que:
[...] a prisão surge quando se estabelecem as casa de correção holandesas e inglesas, cuja origem não se explica pela existência de um propósito mais ou menos humanitário e idealista, mas pela necessidade que existia de possuir um instrumento que permitisse, não tanto a reforma ou reabilitação do delinquente, mas a sua submissão ao regime dominante (capitalismo).
A partir desse momento da história, passam a serem questionadas as penas supliciantes, as penas de morte, passando a se defender a utilização de um sistema penal mais humanizado, em que possam ser alcançados os fins do direito penal, baseado no princípio da legalidade.
Ester Eliana Hauser (1997, p. 74) comprova esta ideia, dizendo que:
Os fatores reais da adoção da pena de prisão mencionados no item anterior jamais foram reconhecidos pelo discurso penal oficial. Sob sua ótica a adoção da prisão como pena por excelência deveu-se ao fato de ser ela instrumento mais humano para a realização dos fins do direito penal: a retribuição do mal praticado e a prevenção de novos delitos. Assim, através da execução da pena privativa de liberdade realiza-se a prevenção especial, que se faz pela reeducação e ressocialização do apenado, que almeja evitar que este venha a praticar novos delitos e, ao mesmo tempo, se cumprem objetivos de prevenção geral, através de intimidação.
Tudo aquilo que existe no mundo, já sofreu, ou vem sofrendo mudanças, isso também ocorre com a pena de prisão. Conforme se percebe com as citações anteriormente feitas, várias foram as formas pelas quais a humanidade encarou a pena de prisão e, atualmente, a única clareza que se tem é que embora se tente demonstrar eficácia na ressocialização dos apenados, ela continua sendo vista apenas como uma forma de repressão.
Foucault (2002, p. 56) afirmou está ideia em tempos remotos, contudo é válido citar tal ensinamento, uma vez que, além de reafirmar a crise penitenciária e a falta de ressocialização dos apenados, é uma análise muito rica em contemporaneidade, auxiliando nos dias atuais:
Estamos muito longe daqueles relatos que detalhavam a vida e as más ações do criminoso, que o faziam confessar ele mesmo seus crimes e que contavam com minúcias a suplício sofrido: passou-se da exposição dos fatos ou da confissão ao lento processo da descoberta; do momento do suplício à fase do inquérito; do confronto físico com o poder à luta intelectual entre o criminoso e o inquisidor. [...] O homem do povo agora é simples demais para ser protagonista das verdades sutis. Nesse novo gênero, não há mais heróis populares nem grandes execuções; os criminosos são maus, mas inteligentes; e se há punição, não há sofrimento.
No que se refere à expansão da pena de prisão, tem-se que muitas foram às fases por ela encaradas, uma vez que vem se expandindo desde o momento de seu surgimento, até a atualidade. Esta expansão da prisão se dá pelo avanço que a sociedade passa com o decorrer dos anos, e pelo fato de que ela também precisa se adaptar à fase que passa a humanidade.
Atualmente, vive-se de forma mais justa que nos primórdios da humanidade, ou pelo menos se tenta punir de maneira mais justa, pois no momento de decretar
uma sentença condenatória, não se levam em conta fatores que dizem respeito à intimidade do condenado, como era feito em tempos remotos, mas sim sua conduta social, que determinará os critérios para a fixação da pena e a forma que irá executá-la.
De acordo com as lições de Hauser (1997, p. 20):
Ocorre que nas sociedades modernas o homem tomou consciência do papel que esta exerce, ou melhor, dos efeitos que é capaz de produzir e por isso passou a utilizá-la de forma mais elaborada. Hoje punimos não para simplesmente punir, mas para através da punição alcançarmos um fim.
Segundo os ensinamentos de Bitencourt (1993, p. 56), “É quase unânime, no mundo da ciência do Direito Penal, a afirmação de que a pena justifica-se por sua necessidade”
E é justamente essa dita necessidade justificadora da prisão, e esse fim que deve ser alcançado com a punição, que caracterizam a função da pena de prisão na sociedade. Quando um crime é cometido, a pena de prisão surge como necessidade para punir o delinquente, ocasião que o estado obtém o fim esperado. Hauser (1993, p. 67), afirma que “A pena de prisão constitui-se, com o advento do estado moderno na principal resposta penal.”
Sendo a pena de prisão o meio pelo qual os condenados cumprem as sanções que lhe são impostas, sua função deve ser alcançada, que é o seu cumprimento adequado, com estabelecimentos que ofereçam no mínimo uma condição digna de vida, e a ressocialização dos detentos, que seria dar um preparo psicológico e moral aos apenados para que no momento que ganharem a tão esperada liberdade não voltem a cometer novos delitos.
1.2. O sistema de execução da pena privativa de liberdade no Brasil segundo a Lei de Execução Penal (LEP)
No Brasil, para cada crime cometido, existe uma sanção estabelecida pelo Estado, constantes no Código Penal Brasileiro, sendo que a pena de prisão é o principal meio pelo qual os condenados são punidos. A prisão no país é considerada como uma pena privativa de liberdade, e deve obedecer aos preceitos contidos na Lei de Execução Penal nº 7.210/1984 (LEP), e na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF), sendo que são várias as suas peculiaridades.
Dessa forma, vale mencionar o entendimento de Jescheck (1981 apud BITENCOURT, 1993, p. 80): “No decurso do século XIX impõe-se definitivamente a pena privativa de liberdade, que continua sendo a espinhal dorsal do sistema penal atual.”
Antes de abordar as particularidades da execução da pena de prisão, necessário citar o entendimento de Henrique Ferro Sobreiras (2011, p. 365) sobre a execução penal: “É um conjunto de atos judiciais pelos quais se dá efetividade à sentença judicial, cujo título executivo do Estado é a sentença penal condenatória transitada em julgado, impondo ao sentenciado o dever de cumprir a pena imposta”.
Nesse sentido, ainda, é válido salientar as lições de Renato Marcão (2009 apud MOSSIN H.; MOSSIM J.; 2011, p. 17), sobre a execução penal:
A execução penal deve objetivar a integração social do condenado ou o internado, já que adotada a teoria mista ou eclética, segundo a qual a natureza retributiva da pena não busca apenas a prevenção, mas também a humanização. Objetiva-se, por meio da execução, punir e humanizar.
O Brasil adota o sistema progressivo de execução da pena privativa de liberdade que, em palavras mais simples, é a possibilidade do condenado que inicia o cumprimento de sua pena em regime inicial fechado ou semi-aberto, progredir para um regime mais ameno, desde que obedecidos alguns requisitos indispensáveis.
A progressão de regimes dá ao apenado a possibilidade de terminar o cumprimento das suas penas já reinserido na sociedade, uma vez que passam para regimes mais brandos do que o inicial, e conseguem até mesmo um espaço no mercado de trabalho, durante o tempo em que estão fora dos estabelecimentos prisionais.
Na prática, muitas vezes, as coisas não ocorrem desta maneira. Primeiramente, pelas falhas existentes nos sistemas prisionais, e também pela falta de políticas públicas para reinserir os detentos na sociedade. Quando estes conseguem desfrutar da tão sonhada liberdade, seja pela progressão de regimes, ou pelo término do cumprimento da pena, acabam voltando a delinquir, pela falta de oportunidades e em razão da maneira com que são recebidos pela sociedade.
A Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.349), em seu artigo 110 nos diz que: “O juiz, na sentença, estabelecerá o regime no qual o condenado iniciará o cumprimento da pena privativa de liberdade, observado o disposto no art. 33 e seus parágrafos do Código Penal”.
Nesse sentido, para se entender quais são os regimes progressivos de execução da pena de prisão, interessante se faz mencionar o parágrafo 1º, do artigo 33, do Código Penal Brasileiro (VADE MECUM, 2011, p. 503):
Art. 33 [...]
§ 1º Considera-se:
a) regime fechado a execução da pena em estabelecimento de segurança máxima ou média;
b) regime semiaberto a execução da pena em colônia agrícola, industrial ou estabelecimento similar;
c) regime aberto a execução da pena em casa de albergado ou estabelecimento adequado.
Conforme referido anteriormente, cada conduta tipificada como criminosa no Código Penal Brasileiro prevê a espécie de pena a ser aplicada, sendo que no momento de proferir uma sentença condenatória, o juiz se encarregará de definir a pena privativa de liberdade para o réu, e o regime em que este iniciará o
cumprimento de sua pena, podendo com o passar do tempo, e analisando-se as peculiaridades de cada caso, progredir de regime.
Com relação à progressão de regimes, é válido citar o entendimento de Sobreiras (2011, p. 366, grifo do autor) para quem “A Progressão de Regimes leva em consideração o mérito do condenado, onde ele passa de um regime de cumprimento de pena em regime mais grave para um mais ameno.”
Com relação aos requisitos da progressão de regimes, George Hamilton Lins Barroso (2010, p. 2, grifo do autor) leciona que:
A Progressão de regime dar-se-á após o cumprimento dos requisitos objetivos/temporal e subjetivos.
O requisito objetivo compreende o cumprimento de determinado quantum
da pena:
a) 1/6 da pena nos crimes em geral;
b) 1/6 nos crimes hediondos e afins cometidos antes de 28/03/2007. (Data de vigência da Lei 11.464 que agravou este requisito).
c) 2/5 nos crimes hediondos e afins cometidos a partir de 28/03/2007, quando o apenado for primário.
d) 3/5 nos crimes hediondos e afins cometidos a partir de 28/03/2007 quando o apenado for reincidente.
[...]
Requisito subjetivo: compreende o bom comportamento atestado pela
direção da unidade prisional. O Superior Tribunal de Justiça já consolidou o entendimento de que o exame criminológico não é obrigatório para que o preso tenha direito à progressão de regime prisional, mas o magistrado pode solicitar a realização desse exame quando considerar necessário, desde que o pedido seja devidamente fundamentado.
De acordo com o que foi explanado, o apenado apenas terá direito à progressão de regime, no momento que tiver cumprido os requisitos necessários para que isto ocorra. Na legislação brasileira, cada conduta criminosa possui uma previsão legal, devendo ser obedecidos aos preceitos de cada tipificação.
No que se refere aos crimes em geral, não considerados como hediondos, para que se tenha direito à progressão, deve-se cumprir 1/6 (um sexto) da pena, é o que se demonstra no artigo 112 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.349):
Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos um sexto da
pena no regime anterior e ostentar bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão.
§ 1o A decisão será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor.
§ 2o Idêntico procedimento será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes.
No que se refere aos crimes hediondos, que são instituídos pela Lei nº 8.072/90, a progressão de regimes ocorre depois de cumprido 2/5 (dois quintos) da pena, fato que se comprova com o § 2º do artigo 2º da citada lei (VADE MECUM, 2011, p.1.391):
Art. 2º [...]
§ 2º A progressão de regime, no caso dos condenados aos crimes previstos neste artigo, dar-se-á após o cumprimento de 2/5 (dois quintos) da pena, se o apenado for primário, e de 3/5 (três quintos), se reincidente.
[...]
O sistema progressivo adotado pela Lei de Execução Penal visa criar condições para que o apenado entre, paulatinamente, em contato com a vida em liberdade, avançando de um regime mais rigoroso para outro mais ameno, na medida em que demonstrar condições para viver em sociedade, ou seja, que está se ressocializando.
No item anterior ficou demonstrada a função da pena de prisão, de maneira geral. No Brasil, não é nada diferente, pois se trata do cumprimento adequado da pena, baseada na Constituição Federal e na Lei de Execução Penal nº 7.210/1984, e da ressocialização dos detentos, contudo essa última função traz muitas distorções.
Atualmente a função de ressocialização não está ocorrendo, fato que se dá em razão da falta de políticas públicas e pela má qualidade de vida nos estabelecimentos prisionais, ocasionado pela superlotação, péssimas condições de saúde, alimentação e higiene que os apenados são obrigados a conviver.
Luiz Flávio Gomes (2006, p. 2) assevera que:
A pena de prisão, na atualidade, longe está de cumprir sua missão (ou finalidade) ressocializadora. Aliás, não tem cumprido bem nem sequer a
função inocuizadora (isolamento), visto que, com freqüência, há fugas no nosso sistema. A pena de prisão no nosso país hoje é cumprida de maneira totalmente inconstitucional (é desumana, cruel e torturante). Os presídios não apresentam sequer condições mínimas para ressocializar alguém. Ao contrário, dessocializam, produzindo efeitos devastadores na personalidade da pessoa. Presídios superlotados, vida sub-humana etc. Essa é a realidade. Pouco ou nada é feito para se cumprir o disposto no art. 1º da LEP (implantação de condições propícias à integração social do preso).
O artigo 1º da Lei de Execução Penal nº 7.210/1984 (VADE MECUM, 2011, p. 1.340) aborda a função da prisão no Brasil: “A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”.
Para Salo de Carvalho (2003, p. 170):
O processo de jurisdicionalização, disposto pela LEP nos arts. 1º (que fixa o conteúdo jurídico da execução penal), 2º (que anuncia a jurisdição e o processo), 66 (que detalha a competência do juiz de execução penal) e 194 (que determina o procedimento judicial), objetiva tornar eficaz o princípio da legalidade, assegurando aos reclusos seus direitos fundamentais.
Como se vê, a legislação pátria estabelece que a execução da pena de prisão deva proporcionar condições para a harmônica integração social do apenado, possibilitando com isso sua ressocialização à sociedade. Contudo, percebe-se que nada disso vem ocorrendo, e os detentos estão sendo obrigados a viverem de maneira desoladora.
De acordo com Rafael Damaceno de Assis (2007, p. 9):
A comprovação de que a pena privativa de liberdade não se revelou como remédio eficaz para ressocializar o homem preso comprova-se pelo elevado índice de reincidência dos criminosos oriundos do sistema carcerário. Embora não haja números oficiais, calcula-se que no Brasil, em média, 90% dos ex-detentos que retornam à sociedade voltam a delinqüir, e, conseqüentemente, acabam retornando à prisão. Essa realidade é um reflexo direto do tratamento e das condições a que o condenado foi submetido no ambiente prisional durante o seu encarceramento [...]
O simples fato de estarem recolhidos em um estabelecimento prisional, já proporciona aos detentos uma série de problemas psicológicos, pois estão ali em razão de suas más condutas, e ter que viver em situações que tornam a vida prisional mais difícil ainda, piora tanto o sistema físico quanto o psicológico.
Se no país, fosse colocada em prática a função ressocializadora, muitos detentos, ao saírem das prisões, não cometeriam novos crimes e consequentemente não voltariam a fazer parte do sistema prisional, como de fato ocorre, pois a reincidência é algo muito comum na atualidade.
1.3. Os estabelecimentos penais e os direitos e deveres do preso segundo a Lei de Execução Penal (LEP)
As regras relativas aos estabelecimentos prisionais, locais destinados ao cumprimento das penas privativas de liberdade, nos regimes fechado, semi-aberto e aberto, estão presentes na Lei de Execução Penal nº 7.210/84. Os artigos 82 e 83 da referida lei (VADE MECUM, 2011, p. 1.347), demonstram qual a destinação, e quais os serviços que deverão constar nos estabelecimentos penais:
Art. 82. Os estabelecimentos penais destinam-se ao condenado, ao submetido à medida de segurança, ao preso provisório e ao egresso. § 1° A mulher e o maior de sessenta anos, separadamente, serão recolhidos a estabelecimento próprio e adequado à sua condição pessoal. § 2º - O mesmo conjunto arquitetônico poderá abrigar estabelecimentos de destinação diversa desde que devidamente isolados.
Art. 83. O estabelecimento penal, conforme a sua natureza, deverá contar em suas dependências com áreas e serviços destinados a dar assistência, educação, trabalho, recreação e prática esportiva.
§ 1º Haverá instalação destinada a estágio de estudantes universitários. § 2o Os estabelecimentos penais destinados a mulheres serão dotados de berçário, onde as condenadas possam cuidar de seus filhos, inclusive amamentá-los, no mínimo, até 6 (seis) meses de idade.
§ 3o Os estabelecimentos de que trata o § 2o deste artigo deverão possuir, exclusivamente, agentes do sexo feminino na segurança de suas dependências internas.
§ 4o Serão instaladas salas de aulas destinadas a cursos do ensino básico e profissionalizante.
§ 5o Haverá instalação destinada à Defensoria Pública.
Ocorre que, na prática os fatos não são como determinam a lei, e os apenados são obrigados a viverem de maneira desumana, em celas extremamente pequenas, superlotadas, sem distinção de idade, e, além disso, não são oferecidos alguns serviços indispensáveis, tais como educação, recreação e trabalho. Caso não houvesse falhas no sistema prisional, e se a Lei de Execução Penal fosse respeitada, os presidiários deixariam o cárcere, aptos a conviver com outras
pessoas sem nunca mais pensar em delinquir, ou seja, a reincidência seria praticamente zero.
Conforme referido acima, a superlotação toma conta de todo o sistema prisional do Brasil, há poucas vagas para muitos presos, e raras são as ações para terminar com este impasse, mesmo existindo uma legislação que determine como deveria ser, é o caso do artigo 85 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.348):
Art. 85. O estabelecimento penal deverá ter lotação compatível com a sua estrutura e finalidade.
Parágrafo único. O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária determinará o limite máximo de capacidade do estabelecimento, atendendo a sua natureza e peculiaridades.
A penitenciária é o local em que os apenados ficam em reclusão no regime fechado, os artigos 87 e 88 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.348), demonstram minuciosamente como deveria ser a estrutura da penitenciária:
Art. 87. A penitenciária destina-se ao condenado à pena de reclusão, em regime fechado.
Parágrafo único. A União Federal, os Estados, o Distrito Federal e os Territórios poderão construir Penitenciárias destinadas, exclusivamente, aos presos provisórios e condenados que estejam em regime fechado, sujeitos ao regime disciplinar diferenciado, nos termos do art. 52 desta Lei.
Art. 88. O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório.
Parágrafo único. São requisitos básicos da unidade celular:
a) salubridade do ambiente pela concorrência dos fatores de aeração, insolação e condicionamento térmico adequado à existência humana; b) área mínima de 6,00m2 (seis metros quadrados).
O regime semi-aberto será cumprido pelos condenados, em colônia agrícola, industrial ou similar, tal situação é amparada pelos artigos 91 e 92 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.348),
Art. 91. A Colônia Agrícola, Industrial ou Similar destina-se ao cumprimento da pena em regime semi-aberto.
Art. 92. O condenado poderá ser alojado em compartimento coletivo, observados os requisitos da letra a, do parágrafo único, do artigo 88, desta Lei.
Parágrafo único. São também requisitos básicos das dependências coletivas:
a) a seleção adequada dos presos;
b) o limite de capacidade máxima que atenda os objetivos de individualização da pena.
Quanto ao regime aberto, será cumprido na casa do albergado, que é o local em que os condenados dormem, pois durante o dia saem para trabalhar, razão pela qual esta casa, deve localizar-se em centro urbano, fato que se comprova com os artigos 93 a 95 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.348):
Art. 93. A Casa do Albergado destina-se ao cumprimento de pena privativa de liberdade, em regime aberto, e da pena de limitação de fim de semana. Art. 94. O prédio deverá situar-se em centro urbano, separado dos demais estabelecimentos, e caracterizar-se pela ausência de obstáculos físicos contra a fuga.
Art. 95. Em cada região haverá, pelo menos, uma Casa do Albergado, a qual deverá conter, além dos aposentos para acomodar os presos, local adequado para cursos e palestras.
Parágrafo único. O estabelecimento terá instalações para os serviços de fiscalização e orientação dos condenados.
Tais preceitos legais não são, na prática, integralmente cumpridos. De acordo com os ensinamentos de Assis (2007, p. 1):
A superlotação das celas, sua precariedade e sua insalubridade tornam as prisões num ambiente propício à proliferação de epidemias e ao contágio de doenças. [...] O que acaba ocorrendo é uma dupla penalização na pessoa do condenado: a pena de prisão propriamente dita e o lamentável estado de saúde que ele adquire durante a sua permanência no cárcere. Também pode ser constatado o descumprimento dos dispositivos da Lei de Execução Penal, a qual prevê no inciso VII do artigo 40 o direito à saúde por parte do preso, como uma obrigação do Estado.
No que se refere às penitenciárias destinadas às mulheres, além de obedecerem aos preceitos legais anteriormente citados, deve-se levar em consideração que pela sua condição de mulher, de mãe, existem alguns particularidades, é o que demonstra o artigo 89 da Lei de Execução Penal nº 7.210/84 (VADE MECUM, 2011, p. 1.348):
Art. 89. Além dos requisitos referidos no art. 88, a penitenciária de mulheres será dotada de seção para gestante e parturiente e de creche para abrigar crianças maiores de 6 (seis) meses e menores de 7 (sete) anos, com a finalidade de assistir a criança desamparada cuja responsável estiver presa.
Parágrafo único. São requisitos básicos da seção e da creche referidas neste artigo:
I – atendimento por pessoal qualificado, de acordo com as diretrizes adotadas pela legislação educacional e em unidades autônomas; e
II – horário de funcionamento que garanta a melhor assistência à criança e à sua responsável.
A prisão feminina, segundo a legislação brasileira é considerada como um regime especial, fato que se comprova com o artigo 37 do Código Penal Brasileiro (VADE MECUM, 2011, p. 502): “Art. 37. As mulheres cumprem pena em estabelecimento próprio, observando-se os deveres e direitos inerentes à sua condição pessoal, bem como, no que couber, o disposto neste Capítulo.”
Porém, nem sempre aquilo que está delineado na legislação é o que ocorre na prática. A prisão das mulheres é mais um exemplo de que o sistema penitenciário está à mercê de esquecimento, pois as mulheres, que deveriam, assim como os homens, ter seus direitos garantidos, não estão tendo. É grande o número de presas que estão cumprindo suas penas em estabelecimentos masculinos, tendo que se adaptar àquilo que lhes é oferecido.
Mesmo sendo inúmeras as penitenciárias e presídios existentes no país, o que se tem é que as estruturas, no momento da construção, foram preparadas para receber homens, fazendo com que as mulheres sofram preconceito e repressão desde o instante em que são colocadas sob tutela do Estado.
Rosangela Peixoto Santa Rita (2006, p. 7) confirma a ideia mencionada acima, dizendo que:
a maioria das construções arquitetônicas é improvisada para abrigamento de mulheres, visto que a destinação original era abrigar homens em cumprimento de pena; em muitos Estados não há sequer um estabelecimento prisional específico para as mulheres, ficando estas em uma ala ou cela feminina inserida no interior de complexos prisionais masculinos; é ínfimo o número de espaços apropriados para a sua condição biogenética, de ser mãe, como, por exemplo, existência de berçário; o trabalho prisional se limita, na maioria dos casos, às atividades tipificadas do lar, como costura, limpeza, alimentação, entre outras podendo não favorecer uma atividade profissional que possibilite auferir renda adequada quando da saída da prisão.
Na atualidade, a criminalidade feminina está sendo vista com mais naturalidade, sendo alvo de menos preconceitos que em tempos remotos, afinal
vive-se num momento em que a classe feminina está em ascensão, ocupando, por vezes, cargos mais elevados que os homens.
O mundo da criminalidade é tão grande, e se expande tão rápido que as mulheres acabaram envolvendo-se bastante, e hoje é considerável o número de mulheres atrás das grades. Nesse sentido, é importante mencionar o entendimento de Rita (2006, p. 5): “Sabe-se que o número de mulheres encarceradas é expressivamente menor que o dos homens, apesar de também estar aumentando em relação ao universo masculino.”
Para Samantha Buglione (2006, p. 136):
A mulher criminosa é uma dupla transgressora. Primeiro por invadir a seara pública da criminalidade – que é masculina e, posteriormente, pelo crime cometido. Não ter esse processo em mente implica em não perceber a ação do Estado ao determinar a pena e correr o risco de interpretações evasivas quanto à diferença de individualização da pena. Na individualização da execução penal, o processo se repete.
Durante muito tempo a criminalidade era tida como um atributo quase exclusivo dos homens. Hoje, tudo mudou, sendo que as mulheres passaram a cometer crimes e a ser perseguidas por tais ações, incrementando-se o número de mulheres presas, no Brasil. É por esta e outras razões que tanto a legislação brasileira, quanto o sistema penitenciário devem estar preparados para tal situação, sem lacunas, e também sem exageros. Contudo, sabe-se que as perspectivas não são boas, a tendência é aumentar o número de detentas, piorando o sistema de execução penal brasileira.
No que se refere aos deveres dos presos, tem-se que são vastos, entre eles está o dever de cumprir integralmente as penas impostas, obedecendo todas as características previstas na sentença condenatória. Nesse sentido, avalia-se que muitos são os seus direitos fundamentais, presentes na Constituição Federal e na Lei de Execução Penal.
Quanto aos deveres dos presos, necessário se faz mencionar os artigos 38 e 39 da Lei de Execução Penal nº 7.210/1984 (VADE MECUM, 2011, p. 1343):
Art. 38. Cumpre ao condenado, além das obrigações legais inerentes ao seu estado, submeter-se às normas de execução da pena.
Art. 39. Constituem deveres do condenado:
I - comportamento disciplinado e cumprimento fiel da sentença;
II - obediência ao servidor e respeito a qualquer pessoa com quem deva relacionar-se;
III - urbanidade e respeito no trato com os demais condenados;
IV - conduta oposta aos movimentos individuais ou coletivos de fuga ou de subversão à ordem ou à disciplina;
V - execução do trabalho, das tarefas e das ordens recebidas; VI - submissão à sanção disciplinar imposta;
VII - indenização à vitima ou aos seus sucessores;
VIII - indenização ao Estado, quando possível, das despesas realizadas com a sua manutenção, mediante desconto proporcional da remuneração do trabalho;
IX - higiene pessoal e asseio da cela ou alojamento; X - conservação dos objetos de uso pessoal.
Parágrafo único. Aplica-se ao preso provisório, no que couber, o disposto neste artigo.
Antes de analisar os direitos exclusivos dos presos, devem-se levar em conta os princípios e garantias relativos à dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, vale mencionar os artigos 5º e 6º da Constituição Federal:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País à inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei;
[...]
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Quanto aos direitos exclusivos dos presos, primeiramente devem ser analisados alguns incisos do artigo 5º da Constituição Federal, para se ter a clareza da dimensão que tais direitos possuem.
Art. 5º [...] [...]
XLVIII - a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado;
XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; [...]
LXIII - o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado;
LXIV - o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial.
Ainda, no que tange aos direitos dos presos, é necessário que sejam analisados os artigos 40 e 41 da Lei de Execução Penal nº 7.210/1984 (VADE MECUM, 2011, p. 1343):
Art. 40 - Impõe-se a todas as autoridades o respeito à integridade física e moral dos condenados e dos presos provisórios.
Art. 41 - Constituem direitos do preso: I - alimentação suficiente e vestuário;
II - atribuição de trabalho e sua remuneração; III - Previdência Social;
IV - constituição de pecúlio;
V - proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação;
VI - exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com a execução da pena; VII - assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa; VIII - proteção contra qualquer forma de sensacionalismo;
IX - entrevista pessoal e reservada com o advogado;
X - visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados;
XI - chamamento nominal;
XII - igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena;
XIII - audiência especial com o diretor do estabelecimento;
XIV - representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito; XV - contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes.
XVI – atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilidade da autoridade judiciária competente.
Parágrafo único. Os direitos previstos nos incisos V, X e XV poderão ser suspensos ou restringidos mediante ato motivado do diretor do estabelecimento.
Percebe-se, com as citações acima que no Brasil, assim como existem deveres, muitos são os direitos normativamente previstos aos presos, visando assegurar a estes condições para que possam reintegrar-se dignamente a vida em liberdade. Porém, sabe-se que sua aplicabilidade é bem diferente do que deveria ser, e aqueles que teriam que ter seus direitos garantidos, ficam a mercê do esquecimento. Com isso, o sistema penitenciário acaba tendo apenas o papel de cumprimento das penas, mas não de proporcionar ao apenado condições para a harmônica integração social.
Hauser (1997, p. 78) assegura que:
Assim, o cárcere, contrariamente a todo modelo educativo que julgamos ideal, que promove o auto-respeito, a individualidade, a autonomia, acaba
por despojar o indivíduo desses valores. Enquanto a “educação promove o sentimento de liberdade e de espontaneidade do indivíduo: a vida no cárcere, como universo disciplinar, tem um caráter repressivo e uniformizante”. Demonstra-se, com isso, que a finalidade educativa não pode realizar-se através de uma longa pena carcerária.
Para o Estado poder exigir que os apenados cumpram rigorosamente seus deveres, deveria no mínimo cumprir seus deveres no sentido de propiciar uma adequada execução penal, fato que proporcionaria aos presos o integral cumprimento de seus direitos fundamentais.
Nesse sentido, entende Andrei Zenkner Schimidt (2002, p. 285):
A primeira obrigação atribuída ao condenado diz respeito ao comportamento disciplinado e cumprimento fiel da sentença. Quanto ao primeiro aspecto, só se poderá falar em “indisciplina” carcerária nos casos em que o preso insurja-se contra decisões e comandos que, além de emitidos pela autoridade competente, estejam adequados às garantias fundamentais da CRFB/88. Um comportamento indisciplinado do preso pressupõe, sempre. Um comportamento disciplinado do Estado – por seus representantes. Só existe indisciplina carcerária nos casos em que houve disciplina estatal.
A conclusão lógica que qualquer cidadão pode ter é que os presidiários cumprirão seus deveres, e terão seus direitos resguardados, no momento, em que o Estado, por meio de seus representantes, cumprir os seus deveres básicos de ente-estatal, fato que garantirá aos detentos seus direitos.
De acordo com Schimidt (2002, p. 285):
Esse balanceamento verificado entre direitos do apenado-deveres do Estado, deveres do apenado-Direitos do Estado, acaba por conferir obrigações disciplinares que recaem muito mais sobre os operadores da execução penal do que, propriamente, sobre o próprio preso. Nesse sentido, a lei de Execução penal deve ser vista, antes de mais nada, como um instrumento de fixação da disciplina não só do preso, como, primordialmente, do Poder Judiciário – bem como dos demais órgãos estatais ou essenciais à administração da Justiça -, uma carta magna do condenado.
Em suma, haverá igualdade entre todos os seres humanos, sejam detentos ou não, a partir do momento em que não houver mais falhas no sistema de execução penal, em que os estabelecimentos penais estejam realmente de acordo com o que determina a legislação e sejam garantidos aos apenados o integral
cumprimento de seus direitos e deveres. O Brasil necessita de atitudes que façam realmente valer suas leis, pois não adianta haver belas leis, em que sejam assegurados direitos e deveres a todos os cidadãos, se no momento de colocá-las em prática, não acontece exatamente nada.
2 A REALIDADE PRISIONAL BRASILEIRA E O ENCARCERAMENTO DA MULHER
Como Referido, no Brasil, a execução das penas privativas de liberdade é orientada pela Lei de Execução Penal, que estabelece um conjunto de direitos e de deveres ao preso, visando, a partir de um sistema progressivo de execução, a oferecer condições para a integração social do apenado. Apesar destas regras percebe-se que a realidade dos estabelecimentos prisionais do país distancia-se significativamente dos comandos normativos. Grande parte dos condenados cumprem suas penas em péssimas condições e também não são preparados para a inserção social. Ao contrário, as condições de execução da pena privativa de liberdade não garantem condições mínimas de dignidade aos condenados, contribuindo para a reincidência e para a reprodução da violência na sociedade.
Na sociedade existem muitos tabus, inclusive com relação aos apenados, que mesmo estando a mercê do esquecimento nos estabelecimentos prisionais, são alvos de preconceito, levando taxativamente o nome de criminoso, embora muitos tenham a vontade de se inserir na sociedade e viver com dignidade, conforme estabelece a Constituição Federal de 1988.
De acordo com Rita (2006, p. 2):
Observa-se ainda que as incidências penais se dão de forma mais sutis, seja por ação de preconceitos e estereótipos, no caso dos delitos das classes sociais economicamente menos favorecidas em detrimento dos delitos chamados “colarinho branco”. Ou seja, a criminalidade se estende a toda classe social, mas é desigual e regularmente distribuída de forma seletiva. Assim, para aquelas pessoas que não se enquadram nessa conjuntura sobram os caminhos da exclusão e da penalização.
Esse preconceito é forjado a partir de estereótipos construídos pelo sistema penal. Com uma simples análise do perfil da população prisional brasileira, o que se verifica é que a maioria dos apenados são pessoas pobres, negras, e com uma péssima condição sócio-econômica, fatores que serão demonstrados a seguir.
A maioria absoluta é formada por pessoas pobres, da classe baixa. Setenta
por cento deles não completaram o ensino fundamental e 10,5% são
analfabetas. Só dezoito por cento desenvolve alguma atividade educativa e
72% vive em total ociosidade. Uma população carcerária que é jovem: 55% são pessoas de 18 a 29 anos, homens ou mulheres. Quase metade dos presos do Brasil estão atrás das grades por terem cometido roubo
(121.611). A segunda maior razão para as prisões são o tráfico de entorpecentes (59.447), seguidos de furto (56.933) e homicídio (46.363).
Tal perfil demonstra que o sistema punitivo opta, preferencialmente, por perseguir pessoas oriundas das classes menos favorecidas, isentando, em grande medida, autores de crimes provenientes de outros grupos sociais. Este fenômeno permite que se reforcem estereótipos de crimes e criminosos e legitima a atuação mais repressiva do sistema punitivo contra fatos e pessoas que correspondam a tais estereótipos.
Todos os dados demonstram que a população carcerária cresce nos últimos anos de forma avassaladora, fazendo com que a crise no sistema penitenciário aumente gradativamente. Apesar dos investimentos na construção de estabelecimentos prisionais, percebe-se que estes são insuficientes para abrigar o número de apenados existentes no país. Paralelamente a isso, outro fenômeno ganha força, pois o encarceramento de mulheres cresce a cada dia.
2.1. Evolução da população carcerária no Brasil
A prisão esteve presente em todos os Códigos Penais Brasileiros. O primeiro Código Penal, promulgado em 1830, chamado de Código do Império do Brasil, estabeleceu penas de gáles, de prisão, banimento, degredo e desterro. Referida legislação determinava que a prisão, deveria ser aliada ao trabalho, obrigando os condenados a se ocuparem diariamente com o trabalho dentro do sistema prisional.
Com a Proclamação da República no país foi elaborado, no ano de 1890, o Código Penal da República, que trouxe muitas inovações. Foram introduzidas significativas alterações no que se refere às espécies das penas. De acordo com José Henrique Pierangeli (2001, p. 240), as penas estabelecidas eram a prisão
cellular, o banimento, a reclusão, a prisão com trabalho obrigatório, prisão disciplinar, interdição, suspensão e perda do emprego público, com ou sem inabilitação para exercer outro e multa.
Com o surgimento do Código Penal de 1940, as mudanças foram ainda mais significativas, especialmente no que tange a utilização da prisão como principal forma de punição. A partir daí as diversas formas de prisão foram transformadas em apenas três espécies, a pena de reclusão, de detenção e de prisão simples.
As alterações normativas mencionadas demonstram que, historicamente, a legislação brasileira evoluiu, reduzindo as espécies de penas previstas, centralizando a resposta punitiva essencialmente na privação de liberdade. Este fenômeno influenciou significativamente a realidade prisional brasileira, determinando, nas últimas décadas, um aumento expressivo do número de pessoas encarceradas no país.
Deve-se mencionar, também, que houve no país um recrudescimento punitivo significativo, que se manifestou pela criminalização de novas condutas, pelo endurecimento da execução das penas e pela restrição de benefícios. Esse processo de recrudescimento punitivo, que teve na lei dos crimes hediondos promulgada em 1990 seu exemplo mais significativo, contribuiu para o aumento da população carcerária, o que pode ser evidenciado por uma simples análise dos censos penitenciários brasileiros.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça e pelo DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional – em 1994, o número de detentos existentes no sistema penitenciário brasileiro correspondia a 129.169 presos, com uma média de 88 presos para cada 100 mil habitantes. Estes números indicam que, no início da década de 90 do século passado, a cada 100 mil habitantes, 0,8% estavam recolhidos em estabelecimentos prisionais.
No ano de 2003 o número de presos subiu para 308.304, o que correspondia a 182 presos para cada 100 mil habitantes. Isso significa que, decorridos apenas nove anos, o número de detentos para cada cem mil habitantes dobrou, pois em
2003, a cada 100 mil habitantes do Brasil, 1,82% estavam inclusos no sistema carcerário.
Em 2007, a população carcerária brasileira era de 422.373 presos, sendo que a média era de 226 presos para cada 100 mil habitantes. Decorrido apenas quatro anos, a cada 100 mil brasileiros, 2,26% estavam recolhidos no sistema prisional.
Os índices mais atualizados fornecidos pelo DEPEN são do mês de dezembro de 2010, sendo que a população carcerária correspondia a 496.251 presos, com uma média de 259,17 presos por 100 mil habitantes. Isso significa que a cada 100 mil brasileiros, 2,59% estavam recolhidos nos estabelecimentos prisionais.
Os percentuais, de maneira geral, parecem insignificantes mas ao se analisar minuciosamente os dados, percebe-se que os números são assustadores. Em menos de duas décadas, houve um aumento de 171,17 presos, para cada grupo de 100 mil habitantes, fato que expressa não somente o alto índice de criminalidade pelo qual o país vem passando, mas também as tendências de recrudescimento punitivo anteriormente mencionadas.
Analisando tais dados, Assis (2007, p. 8) menciona que o agravamento da crise no sistema carcerário deriva de processos sociais que se consolidaram nas últimas décadas e que contribuíram para o aumento da criminalidade própria das classes subalternas. Tais processos, aliados ao maior rigor punitivo, contribuíram para que os níveis de encarceramento no país aumentassem de forma assustadora.
Podemos traçar um paralelo entre a escalada dos índices de criminalidade (e o conseqüente agravamento da crise do sistema carcerário) e o modelo econômico neoliberal adotado por nosso governo. É inegável que, pelo fato de o crime tratar-se de um fato social, o aumento da criminalidade venha a refletir diretamente a situação do quadro social no qual se encontra o país. O modelo econômico neoliberal do qual falamos constitui-se numa filosofia de abstenção do Estado nas relações econômicas e sociais. Ele nada mais é do que a repetição do liberalismo outrora existente. A essência deste pensamento, além da intervenção minimizada da economia, é a idéia de que as camadas menos favorecidas da população devem trabalhar e se adequarem ao sistema econômico vigente, ainda que este os trate com descaso.
Além disso, se o sistema de execução penal, continuar apenas servindo como meio de repressão e não colocar em prática a função de ressocialização dos detentos, a tendência é o aumento do número de detentos, em função da reincidência.
No que tange especificamente à evolução do encarceramento feminino no país os números também assustam. No ano de 1994, as mulheres presas correspondiam a 3,69% da população carcerária brasileira. Já em 2010, este número cresceu, tendo o percentual de mulheres presas aumentado para 7,01%.
De acordo com um estudo realizado pelo DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional, no ano de 2008:
Nos últimos quatro anos houve um crescimento real da população carcerária feminina de 37,47%. Isto representa uma taxa média de crescimento anual de aproximadamente 11,19%. No último ano, no período de dezembro de 2006 a dezembro de 2007, o crescimento foi de 11,99%. O crescimento da população feminina tem sido maior que a masculina e vem se mantendo em percentuais elevados nos últimos anos. A estimativa de crescimento aponta que, em dezembro 2012, os homens encarcerados representarão 92,35% da população carcerária total do país (atualmente representam 93,88%). As mulheres encarceradas, no mesmo ano, representarão 7,65% da população carcerária total do país (atualmente representam 6,12%).
As mulheres estão ingressando cada vez mais no mundo da criminalidade, por razões desconhecidas, uma vez que além de ser muito difícil julgar a particularidade de cada caso, poucos são os estudos que demonstram os motivos que as levaram a delinquir. Os números são assustadores, levando-se em conta que o crescimento do número de mulheres presas é maior que o número de homens.
Os gráficos acima demonstram que o encarceramento feminino aumentou de forma significativa nos últimos anos. Entre os anos de 2004 a 2007, a evolução que ocorreu corresponde a 37,47%, isto demonstra que as mulheres estão entrando de forma assustadora no mundo do crime e superlotando os poucos estabelecimentos que são destinados à classe, tendo inclusive que viver em estabelecimentos masculinos.
As mulheres presas, embora tenham os mesmos direitos e deveres que os homens presos, no momento da execução de suas penas privativas de liberdade, por sua condição de mãe e mulher, deveriam ser colocadas em estabelecimentos distintos, com características específicas.
A Constituição Federal garante à mulher presa o direito de criar seus filhos em espaços adequados, só que é sabido que o sistema prisional não disponibiliza condições adequadas para as presas gestantes e para a criação de bebês. Nesse sentido, necessário se faz citar o inciso L do artigo 5º da Constituição federal:
Art. 5º [...]
L - às presidiárias serão asseguradas condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação.
Apesar desta previsão legal, expressa sob a forma de garantia fundamental no texto da constituição, percebe-se que as mulheres encarceradas no país, vivem em condições totalmente inadequadas.
Para se compreender a dimensão que o paralelo existente entre sistema penal e a execução penal feminina, é válido citar o entendimento de Buglione (2006, p. 140), que nos diz:
O sistema penal, no seu tratamento às mulheres, é um reflexo da posição social designada a elas. O discurso de igualdade, aqui, assume uma faceta cruel, por abstrair a materialidade das relações. A diferença gera desigualdade e a natureza continua sendo o fundamento de práticas preconceituosas.