2 A REALIDADE PRISIONAL BRASILEIRA E O ENCARCERAMENTO DA
2.5 Os reflexos familiares do encarceramento feminino
Como se percebe o crescimento da população carcerária feminina se deve essencialmente ao envolvimento destas com crimes relacionados a entorpecentes e ao recrudescimento punitivo que se operou no país, nas duas últimas décadas, no campo da repressão as drogas. Este processo iniciou com o advento da Lei nº 8.072/90 que, em 1990, definiu este ilícito como equiparado hediondo, exigindo: regime integral fechado; 2/3 para a concessão de livramento condicional e proibição de livramento condicional para os reincidentes específicos.
Apesar das alterações promovidas pela Lei 11.464/07 que passou a permitir a progressão de regime para o tráfico de drogas, a nova lei de drogas (nº 11.343/06) aumentou as penas para este tipo de ilícito e proibiu, de forma expressa, a possibilidade de aplicação de penas restritivas de direitos, o que contribuiu para que
pessoas condenadas por este tipo de ilícito fossem conduzidas, obrigatoriamente ao cárcere e lá permaneçam por um período maior de tempo.
Buscando amenizar este processo o Supremo Tribunal Federal, por intermédio do Habeas Corpus nº 97256, relatado pelo Relator Ministro Ayres Britto, julgado em 01 de setembro de 2010, entendeu como sendo inconstitucional a norma legal que proíbe a conversão da pena privativa de liberdade em pena restritiva de direitos.
EMENTA: HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. ART. 44 DA LEI
11.343/2006: IMPOSSIBILIDADE DE CONVERSÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE EM PENA RESTRITIVA DE DIREITOS. DECLARAÇÃO INCIDENTAL DE INCONSTITUCIONALIDADE. OFENSA À GARANTIA CONSTITUCIONAL DA INDIVIDUAIZAÇÃO DA PENA (INCISO XLVI DO
ART. 5º DA CF/88). ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. 1. O processo de individualização da pena é um caminhar no rumo da personalização da resposta punitiva do Estado, desenvolvendo-se em três momentos individuados e complementares: o legislativo, o judicial e o executivo. Logo, a lei comum não tem a força de subtrair do juiz sentenciante o poder-dever de impor ao delinqüente a sanção criminal que a ele, juiz, afigurar-se como expressão de um concreto balanceamento ou de uma empírica ponderação de circunstâncias objetivas com protagonizações subjetivas do fato-tipo. Implicando essa ponderação em concreto a opção jurídico-positiva pela prevalência do razoável sobre o racional; ditada pelo permanente esforço do julgador para conciliar segurança jurídica e justiça material. 2. No momento
sentencial da dosimetria da pena, o juiz sentenciante se movimenta com ineliminável discricionariedade entre aplicar a pena de privação ou de restrição da liberdade do condenado e uma outra que já não tenha por objeto esse bem jurídico maior da liberdade física do sentenciado. Pelo que é vedado subtrair da instância julgadora a possibilidade de se movimentar com certa discricionariedade nos quadrantes da alternatividade sancionatória. 3. As penas restritivas de
direitos são, em essência, uma alternativa aos efeitos certamente traumáticos, estigmatizantes e onerosos do cárcere. Não é à toa que todas elas são comumente chamadas de penas alternativas, pois essa é mesmo a sua natureza: constituir-se num substitutivo ao encarceramento e suas seqüelas. E o fato é que a pena privativa de liberdade corporal não é a única a cumprir a função retributivo-ressocializadora ou restritivo-preventiva da sanção penal. As demais penas também são vocacionadas para esse geminado papel da retribuição-prevenção-ressocialização, e ninguém melhor do que o juiz natural da causa para saber, no caso concreto, qual o tipo alternativo de reprimenda é suficiente para castigar e, ao mesmo tempo, recuperar socialmente o apenado, prevenindo comportamentos do gênero. 4. No plano dos tratados e convenções internacionais, aprovados e promulgados pelo Estado brasileiro, é conferido tratamento diferenciado ao tráfico ilícito de entorpecentes que se caracterize pelo seu menor potencial ofensivo. Tratamento diferenciado, esse, para possibilitar alternativas ao encarceramento. É o caso da Convenção Contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e de Substâncias Psicotrópicas, incorporada ao direito interno pelo Decreto 154, de 26 de junho de 1991. Norma supralegal de hierarquia intermediária, portanto, que autoriza cada Estado soberano a adotar norma comum interna que viabilize a aplicação da pena substitutiva (a restritiva de direitos) no aludido crime de tráfico ilícito de entorpecentes.
5. Ordem parcialmente concedida tão-somente para remover o óbice da parte final do art. 44 da Lei 11.343/2006, assim como da expressão análoga “vedada a conversão em penas restritivas de direitos”, constante do § 4º do art. 33 do mesmo diploma legal. Declaração incidental de inconstitucionalidade, com efeito ex nunc, da proibição de substituição da pena privativa de liberdade pela pena restritiva de direitos; determinando-se ao Juízo da execução penal que faça a avaliação das condições objetivas e subjetivas da convolação em causa, na concreta situação do paciente. (HABEAS CORPUS 97256, Relator Ministro Ayres Britto, julgado em 01 set. 2010, grifo nosso)
Na atualidade, o envolvimento maior de mulheres com o tráfico de entorpecentes, deve-se a utilização destas, especialmente por organizações criminosas, como forma de facilitar a circulação de drogas no país e no mundo. Tradicionalmente as mulheres não correspondem ao perfil criminoso traçado pela ideologia prevalecente, ficando em virtude disso, menos propensas a investigação dos órgãos responsáveis pelo controle punitivo. Tal fenômeno permite que as mesmas tenham maior facilidade de fazer circular drogas, uma vez que o controle sobre mulheres é sempre mais brando.
O envolvimento com o tráfico tem aumentado, significativamente, o encarceramento feminino, o que provoca impactos também no âmbito das relações familiares, especialmente quando a mulher presa tem filhos menores que dela dependem.
A família é o lugar em que o caráter da pessoa se forma, é a base que se leva para a vida toda. Atualmente o instituto família vem passando por muitas crises, que deriva da falta de estrutura básica, de acesso a direitos fundamentais, entre outros, e são esses problemas, que, quando fora de controle, acarretam dificuldades maiores.
A prisão é responsável por uma série de traumas, uma vez que abala toda a família. Muitas crianças nascem e crescem sabendo que seu pai, sua mãe, seus tios, seus avôs ou até mesmo seus irmãos, são criminosos, e consequentemente a prisão acaba fazendo parte de suas vidas a cada dia de visita. Eles crescem num mundo tão desestruturado que, muitas vezes, são conduzidos a seguir os mesmos passos de seus pais, ingressando na criminalidade.
As mulheres presas têm o direito, de acordo com a legislação brasileira, de terem seus filhos juntos de si até os seis anos de idade, contudo na prática isso não ocorre em virtude da falta de infra-estrutura das penitenciárias, e pelo fato de ser traumatizante para uma criança morar em uma prisão.
Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz (2002, p. 26) em suas pesquisas em penitenciárias no Estado do Rio de Janeiro, asseveram que:
a maioria das mães presas deseja que suas crianças sejam retiradas da creche nos primeiros anos de vida, isto é, antes de começarem a perceber que vivem em uma prisão. Quando a interna tem família, as crianças são levadas pelos familiares, geralmente a avó materna. Quando não tem família, ou esta não se interessa, são encaminhadas para o juizado da infância. De qualquer maneira, até que se esgote o prazo regulamentar, cabe à mãe decidir o tempo que a criança permanece na creche.
As penitenciárias têm a obrigação de oferecer creches, com educação pré- escolar para atender as crianças que lá vivem, embora esse fator seja praticamente inexistente no sistema penitenciário feminino. De acordo com Soares e Ilgenfritz (2002, p. 26) ao abordarem o encarceramento feminino no estado do Rio de Janeiro: “Pela lei, essas crianças deveriam receber educação pré-escolar; contudo, o estado não dispõe deste serviço, ficando à mercê de cada direção proporcionar um melhor atendimento a elas, o que não vinha acontecendo.”
Assim como o sistema penitenciário brasileiro não está apto para cumprir a função social de ressocialização das detentas, não há de se falar em creches para as crianças que moram nas prisões com suas mães, e é por essa razão que as mulheres acabam deixando seus filhos sob o cuidado de familiares ou do próprio ente estatal.
Outro fator que merece destaque é a violência que está presente na vida de muitas famílias antes, durante e depois da vida prisional. De acordo com os estudos realizados por Soares e Ilgenfritz (2002, p. 45):
Em determinados momentos, pôde-se observar o mal-estar que sentiam perante o grupo quando se identificavam como vítimas de alguma das formas de violências abordadas nas reuniões, como se considerassem o assunto interdito para ser tratado socialmente. Mas a coragem que lhes vinha em seguida resultava da própria solidariedade do grupo, já que, de
uma forma ou de outra, quase todas haviam experimentado situações similares.
A violência é algo que invade muitos lares, sendo que é corriqueiro para muitos jovens conviver com cenas de agressões, tanto verbais quanto físicas. O futuro de um jovem ou de uma criança, que convive com violência, com a prática de crimes e que tem a prisão como parte integrante de sua rotina, não é nada promissor, uma vez que estará propenso a se influenciar pelo modelo de vida de seus pais.
O encarceramento feminino traz consequências sérias para as detentas que são obrigadas a viver em péssimas condições estruturais, físicas e morais, e também para seus filhos que sofrem constantemente pela situação de abandono em que vivem. A mulher, em regra, é a haste estrutural da família e da criação dos filhos, e o que fazer quando esta se encontra encarcerada?
De tudo, o que parece claro é que, se é na família que se encontra suporte para superar as barreiras existentes, são poucas as alternativas de soluções quando esta tem suas estruturas abaladas, ainda mais em razão do encarceramento feminino, que é um problema muito sério.
Conclui-se, portanto, que parte da solução para os problemas derivados do encarceramento feminino, passaria, inicialmente, pela reestruturação do sistema penitenciário brasileiro, no sentido de sua adequação aos parâmetros estabelecidos na Lei de Execução Penal, com a criação de espaços adequados para que mulheres cumpram suas penas e para que seus filhos menores com elas permaneçam, em condições de dignidade. Por outro lado, também seria importante uma alteração na legislação penal que autorizasse a utilização de penas alternativas para crimes de tráfico (especialmente para condenadas não reincidentes) o que permitiria que muitas mulheres, apesar de condenadas por tais práticas, pudessem permanecer com seus filhos, no âmbito de suas famílias. Parece que este é o caminho indicado pelo Supremo Tribunal Federal.
CONCLUSÃO
Após análise pormenorizada da prisão como pena, seus antecedentes históricos e o sistema de execução desta, conclui-se que, embora as penas existentes no Brasil sejam das mais variadas espécies, a pena de prisão é o principal meio de punição existente, contudo as condições oferecidas pelo sistema prisional brasileiro, para o cumprimento destas penas, são precárias.
Os estabelecimentos penais brasileiros encontram-se em péssimas condições, tanto no que se refere às condições estruturais, que são totalmente insuficientes para o número de detentos existentes, quanto na questão social, pois a função ressocialização não vem sendo colocada em prática. A conseqüência disso é grave, pois atinge-se a dignidade das pessoas presas, estimula-se a reincidência, o que gera efeitos negativos para a própria sociedade.
A criminalidade acentuou-se no país de forma significativa nos últimos anos, sendo que as mulheres passaram a envolver-se mais com ações criminosas, especialmente com crimes relacionados a drogas. Tal fato fez com que aumentasse significativamente o número de mulheres presas, enfrentando os mesmo problemas que os homens enfrentam durante a execução de suas penas.
No que se refere ao encarceramento feminino, à conclusão que se obteve com a presente pesquisa é que a grande maioria das mulheres está inclusa no sistema penitenciário, pelo crime de tráfico de entorpecentes, fato que se dá, muitas vezes, pelo convívio com os próprios companheiros, e pela dificuldade que encontram, em oferecer uma condição melhor de vida para sua família.
Outra conclusão obtida é que a maioria das detentas são predominantemente de status social menos favorecidos, possuindo baixo nível de escolaridade e com idades que podem ser consideradas como baixas, se comparado à expectativa de vida brasileira, ressaltando que é elevado o número de detentas que foram condenadas à penas elevadas. Em tese são criminosas jovens, que perdem parte de suas vidas dentro do sistema prisional, e muitas vezes acompanhadas por seus filhos, que nasceram, ou foram lá gerados e são entregues para familiares e para o próprio ente estatal.
As detentas sofrem pela falta de estrutura física dos estabelecimentos prisionais. No entanto suas famílias, especialmente os filhos, passam por situações piores, pois os reflexos causados pelo encarceramento são maiores fora do que dentro do próprio sistema penal. A prisão, às vezes, significa o fim de famílias, o que afeta profundamente a educação, a formação e o futuro de muitas crianças e adolescentes.
Para os detentos, independentemente de gênero, os dias correm, mas a rotina da vida continua a mesma, é um dia após o outro. Para os familiares são problemas que aumentam, ainda mais que, se é na família que se encontra suporte para superar todas as barreiras existentes, sabe-se que pouco se tem a fazer quando estão abaladas as estruturas familiares, em virtude do encarceramento feminino.
A solução para tais problemas não é simples, mas é possível pensar em alternativas que permitam que mulheres condenadas permaneçam próximas a seus filhos, contribuindo com sua educação e formação. Em casos extremos, sendo o encarceramento absolutamente necessário, é fundamental que se ofereça às detentas e a seus filhos menores condições estruturais adequadas. Para isso é necessário a adequação do sistema prisional aos parâmetros estabelecidos na lei de execução penal, com a criação de estabelecimentos exclusivos para mulheres onde estas cumpram suas penas e, se necessário, permaneçam com seus filhos menores em condições de dignidade. Por outro lado, também é necessária uma ampla reflexão no âmbito político criminal, no sentido de se avaliar a necessidade da prisão
de pessoas envolvidas com o trafico de drogas, especialmente quando se tratarem de condenados primários. Neste aspecto, seria importante uma alteração na legislação penal autorizando a aplicação de penas alternativas para crimes de tráfico pois isto permitiria que muitas mulheres, apesar de condenadas por tais práticas, pudessem permanecer com seus filhos, no âmbito de suas famílias.
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