ARQUIVO
MAYER
E
A
CONSERVAçÃODA
ENERGIAROBERTO DE A. MARTINS*
Instituto de Física
-
[Jniversidade Estadual de CampinasI.
A
Obra de MayerFoi na década de 1850 que a lei da conservação da energia passou a ser aceita como um dos princípios fundamentais da Física. Para se chegar a isso,
foi
neces-sário o trabalho de muitos pesquisadores que contribuíram de cliferentes formas
para a elaboração da teoria e sua
fund
a história éèxtremamente rica e complexa,
e
não
no
âmbitode um único artigo. Aqui,
apresentarem
ssa história,centralizando nossa atenção
na
obra
1814-1878),conhecido como um dos proponentes da
lei
da conservação da energia.Come-çaremos descrevendo a evolução das idéias de Mayer, e depois estudaremos os
irabalhos de |oule
e
de outros autores que contribuíram igualmente Para oestabelecimento dessa lei'1
Mayer era filho de um farmacêutico de Heilbronn, e sob sua influência estudou medicina, tendo recebido seu título em 1858. Foi na prática dessa profissão que
Mayer chegou à concepção do princípio da conservação da energia. Isso pode parecer estranho, mas Helmholtz, outro médico que ajudou a desenvolver a lei da conservação da energia, esclarece este ponto:
"Ora, à primeira vista, parece muito notável e curioso que mesmo fisiólogos
*
Pesquisador subvencionado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico (CNPq).
r
Há muitos livros bem documentados a respeito da história da conservação da energia.Veja-se, por exemplo: Planck, IÀlax, Das Prinzip der Erhaltung der Energíe. Leipzig:
Barth,
l9l3;
Mach, Ernst, History and Rootof
the Princípleof
Conservation olEnergy. Chicago: Open Court, 19ll; Hiebert, Erwin N. Tfte Hístorical Roots of tlrc Prínciple
ol
Conserva,tionol
EnergX. Madison: University of Vy'isconsin Press, 1962;Meyerson, Émile, Identité et Realité. Paris: J. Vrin, 1951. Ver as bibliografias: Brown,
Theodore M., "Resource letter EEC-I on the evolution
of
energy concepts fromGalileo to Helmholtz", Anterican lournal
of
Physics 33 (1965), pp.759-965; Hesse,Mary, "Resource letter PhM-l on philosophical foundations
of
classical mechanics",Anerican Journal of Physics 32 (1964), pp. 905-911. Sobre Mayer: Heimann, P. M.
"Mayer's concept
of
"fo¡ce"",
Hístorìcal Sludíesin
the Pltysical Sciences7
(1976),pp. 277-296. Há uma biografia, acompanhada por t¡aduções de seus principais tra-balhos, em: Lindsay, Robert B. Julius Robert Mayer: Prophet
ol
Energy. Oxford:64
Roberto de A. l[arrinspudessem chegar a
tal
natural.que elafosse detecta<.la por
filtisofos niìruriìis
ou
o
o
foi'n"
inefoì;iL:--iu. .*irr.,rerlmente. unlr
íntima
as quesrôes fuÀ'Ou-enia¡i da enge_ nharia e .¿_squesröes
fisiotogiacÀ;-;
';;;;;;vação da (ene|gi¿¡.":Em sua experiência médica na Europa, Mayer estava acostumado a observar
i\f¿rver conhecia
a
teoria de Lavoisier aesta teoria, o aquecimento dos animais é o re tâo ou oxidação:
o
sangue arterial conduz.7
tl'[ayer e a Consentaçiío dø Energia 65
pelo sangue venoso até os pulmões.{ Mayer considerou que a diferença entl.e a
cor do sangue arterial e venoso seria devida
à
diferença entre seus conteúdosde oxigênio e gás carbônico. Ora, segundo Mayer, r'para que
o
corpo h1rmanopossa ser mantido
a
uma temperatura uniforme,o
clesenvolvìnterûo cle calordentro dele deve manter uma relação quantitativa com
o
calor percliclo pelo corpo-
deve depender, portanto, da temperatura do meio ambiente; portãnto a produção de calor eo
processo de oxidação, assim como a clilerença cle cor dos dois tipos de sangue, devem ser globalmente menores nas zonas tór'ridas do que em regiões temperadas." ¡Assim, Mayer explicava a diferença entre a cor do sangue venoso observado
cm
europeus
Peus na EutoPa. Masidéias não
pa
a Pensar a resPeito da.produzidos
p
te do calor, como se salimento
abs
Masa
quantidade deproduzida pela combustão de uma determinada quantidade de matéria orgânica é limitada;-e, se o alimento assimilado pelo organismo sofre uma oxidação
com-I Antes do surgimento da teoria de Lavoisier, ainda se acreditava na teoria de
Aristóte-les. segundo
a
quala
respiração era um processo de refrigeração do organismo.Helmhõltz (nota
2)
descreve mais detalhadamente a teoria de Lavoisier: Os animaisvivos ingerem pela alimentação substâncias combustíveis, e absorvem oxigênio do ar' pela respiração. Depois, o organismo vivo devolve ao ambiente gás carbônico (na
res-piração), água e uréia (na urina), principalmente. Como
o
peso do animal adulto é quase constante, praticamente todo alimento assimilado pelo organismofoi
trans-formado nesses produtos
-
o que representa um processo de oxidação quase completo.Ora, se os alimentos fossem queimados na presença do ar, eles produziriam pratica-mente esses mesmos produtos, e além disso uma certa quantidade de calor. O que
âcontece em um organismo vivo? Pelo menos uma parte deste calor aparece como
calor do animal. Dulong e Despretz fizeram experiências em que comprovaram que o
calor emitido por animais vivos em repouso é quase igual ao calor que seria obtido pela combustão direta dos alimentos que eles ingerem, sendo a diferença inferior a
l0%. No caso dos seres humanos, as primeiras pesquisas bem controladas de medida
de calor produzido. trabalho realizado e energia química consumida por seres huma-nos. foram realizadas em 1857-8 por Hirn, e estão descritas detalhadamente em: Hírn,
G.-A. La Thernrodynantique et I'Etude tlu Travail chez les Êtres Vivants. Paris: Bureau
des Revues, 1887. Mayer (nota 3), pp. 499-500.
\
e6
Roberto de A. Martinsde
realizar
, e esta, por sua vez. pelocalo
eradopelo
alirne
i
que"o
calor produzidomec
orga-nismo
dev
lação quantitativainvariável
balhogasto
em
Mas esse lesultado deveser
paraorganismos vivos, rnas para qualquer tipo de processo da natureza. Poftanto, Nlayer conclui qr.re
o
calor produzido através de uma ação mecânica qualqueré proporcional ao trabalho empregado.
Após essa p'imeira concepção de suas idéias, Mayer dedicou-se a fundamen-tá'las e a dar-lhes uma forma convincente. Em fevereiro de 1841 Mayer retornou
a
Heilbronn,e
nodia
16 de junho do mesmo ano ele envioua
Poggendorff,editor da revista Annalen cler Physik uncl Chentie, um tlabalho com
o
título: "Über quantitative und qualitative Bestimmung der Kräfte" ("Sobre a determi-nação quantitativa e qualitativa das forças").'i Este trabalho nãofoi
aceito para publicação, por motivos muito bem fundamentados, segundo Oettingen,i Mãyer era profundamente ignorante a respeito da mecânica, e seu artigo continha muitosertos sobre conceitos básicos: queda livre, adição vetorial de forças, etc,
Mayer não desanimor-r; tendo melhorado setrs conhecimentos físicos. escreveu uma lìova versão de seu trabalho
-
agora, um artigo bastante curto-
e
o enviou para Liebig,o
famoso químico, editor da revista Annalen cler Chemieund Pharmacie. Desta vez,
o
artigofoi
aceito, Esta é a primeira publicação deMayer', ploduzida em 1842, e cuja tradução apresentamos ao final deste artigo.s
Pode-se descrever o conteúdo deste primeiro trabalho publicado de Mayer da
seguinte maneira: ele está propondo um novo conceito
-
s çs¡ssi¡s ds "f9¡ç¿" -e tncstrando como esse conceito pode ser aplicado à física. As "forcas" de Mayer.são coisas que poclem assumir diferentes folmas, mas cuja quantidade não varia,
e
que se distinguem da matéria por não possuirem peso, Quando uma força turuda de forma, diz-se que sua primeira formaé a
causa da segunda forma;e, como a quantidade de
"força"
não varia, Mayer pode aplicara
esseq fenô. menos o princípio da igualdade das causas e dos efeitos,Entre os exemplos
de
"forças", Mayercita
aquilo que, em termos atuais,:'
Mayer (nota 3), pp. 499-500.1
Ver as Notas de A. von oettingen. editor de: Mayer, [Julius] Robert. Die Mccltattik d¿r w,irme-
7.n'ei Abhandlrtngen Leipzig: wilhelrn Engeúnann, t911, pp. tìo-90,esp. p. 81.
*
IVfayer,J.
R., "Bemerkungen über die K¡rifte rler unbelebten Natur.,,Annalen ler
Cltcntie und Plrurntacic 42 (1842). pp. 233-240. Reimpresso, com omissão de dois
ilîayer e a C-onsenação do Energia 67
designaríamos por: energia cinética; energia potencial gravitacional; calor; energia
química. Mayer procura estabelecer que
o
calor produzido pelo atrito de dãis sólidos é proporcional ao trabalho mecânico utilizado; sugere que nas máquinasa vapor há uma conversão de calor em trabalho;
e
calcula,a
partir das pro-priedades dos gases, o valor do equivalente mecânico do calor, chegando a umvalor numérico que pode ser expresso como
: I
cal
:
3,6f.
Mayer não tentaexplicar
o
calor como uma forma de movimento, mas adota uma concepção muito mais geral: ele admite que o calor, o movimento (energia cinética) e a forçade queda (energia potencial) são diferentes formas de uma mesma coisa. mas
que essa çsi5s
-
a " força" , em abstrato-
não é propriamente nenhuma dessastrês coisas. Esta é uma concepção muito semelhante ao nosso conceito moderno de energia. Mayer estava muito mais próximo da metodologia utilizada na
termo-dinâmica
do
que alguns outros autores, como Helmholtz. Este, como muitos outros autores da época, tinha uma visão mais mecanicista, e preocupava-se com a elaboração de modelos microscópicos dos fenômenos físicos.A
termodinâmicaplopnamente
dita
utihza uma abordagem fenomenológica,e
apenas trata derelações entre grandezas macroscópicas mensuráveis.
Ao se ler o primeiro artigo de Mayer, é importante notar que há componentes apriorísticos ao lado de outros empíricos. Por um lado, Mayer enf.atiza, como um
princípio filosófico
-
portanto não-empírico, e não passível de teste-
a idéiade que alguma coisa deve se conservar, nas transformações físicas, Ele justifica essa icléia a partir dos princípios metafísicos de que "nada pode surgir do nada",
"nenhuma coisa pode se transformar no nada",
e
"a
causa é igual ao efeito".Mais cspecificamente, Mayer afirma que cluas coisas independentes se conservaln
nc¡s fenômenos: pot um lado, a rnatéria; pot outro ladc, algo que corresponde
a nosso conceito de energia: a força.
Esta icléia apricrrística de que algo deve se conservar nos fenômenos
é
um importante princípio, que teve papel fundamental em vários episódios da história da ciéncia." Já na filosofia grega, procurava-se algo imutável por trás do mundo dos fenômenos,e
isso gerou, entre outras idéias férteis,o
modelo atômico.roNa ciência clássica, a idéia de que
o
movimento deveria ser indestrutívelpro-duziu. em primeiro lugar,
o
conçeito de "quantidade de movimento" (massaI'
Sobre este tema, veja-se a magnífica obra de Emile Meyerson (nota [).lo
Na teoria atomística de Epicuro. conforme exposta por Lucrécio. isto aparece de fornramuito clara. Para introduzir a idéia de coisas imutáveis (os átomos) subjacentes aos
fenômenos, Lucrécio utiliza os aforismos "nihil de nihil gigni" (1, 150) e "nihil ud
nihilum interire" (I.215), ou seja: nada surge do nada, e nenhuma coisa pode se transformar no nada. Lucrèce. De
la
Nature, trad. por Ernoud,A.
Paris: Belles-68
Roberto de A. Il[artinsnultiplicada
por
velocidade)de
Descartes.rre
a
lei
da
inércia;'2 depois, o.on..ito
de "iorçaviva"
de Leibniz (de onde saiu nosso conceito moderno deenergia cinética).t'ì Examinando-se as obras desses autot'es, verifica-se que
Des-car.tei
e
Leibrriz utilizam uma base apriorística para suas propostas, da mesma forma que IVIayer,Essa idéia de que alguma grandeza (ou várias) deve se consefvar nos fenô-menos físicos
foi
também tlm ponto de partida básico para Lavoisier, noesta-belecimento da
lei
cla .onr.ruução da mâssa: contrariamente ao quea
tradiçãoempiricista ensina, em seus trábdho, mais antigos Lavoisier- utilizott
a
lei
daconservação da massa, ao invés de tentar testá-la experimentalmente; e manteve
,uu aaanço nela, r¡esmo em casos em que <¡bservava uma variação de tnassa nas r.eações químicas.rr Não se deve estranhar qu9 Kant tenh_a procurado dar uma ¡uriifi"utiuu apriorística para esse princípio,t-
ou
que Herbert Spencer tenha ädotado o princípio da coiservação da energia como um dos princípios evidentesde sua filosofia da natureza'r'ì
rL
Nos Princípios da Filosolia (segunda parte, artigos 35-44), Descartes propõeo
prin-cípio de que Deus mantém no universo uma quantidade constante de movimento;
onde "mouimento" representa uma quantidade proporcional à massa e à velocidade.
Ver; Descartes, René, Principiorum Philosophiae, em:- Oetvres de Descartes, ed. por Adams, Charles e Tannery, Pau[. Paris: J. Vrin, 1965, vol. VIII-I, pp. 6l-67; ou:
Descartes, René, Principes de la Philosophie, em: Oeuvres de Descartes, ed. por Adams,
Charles e Tannery. Paul. Paris: J. Vrin, 1971, vol. IX-II, pp.83-89. Ver também:
Bohn, "Historic notes on the conservation of energy", The London, Edinburgh and
Dublin Pltilosophícal Magazine and Journal
ol
Science(4)
28 (1864), pp.31l-314.12 A lei da inércia pode ser considerada como um caso particular da lei da conservação
do movimento.
¡
iì
l-eibniz apresentao
princípio da conservação da "força viva" em muitos de seusescritos, ao criticar o conceito cartesiano de quantidade de movimento. Veja-se, por exemplo. os artigos t7 e 18 do Discurso de MetaÍísica, e a carta de 4/7/1686 a Arnaud, ¡rssim como as notas bibliográficas de le Roy, em Leibniz, G. W. Discolrs de
Méta-plrysique
or le Roy' G. Paris: J. Vrin' 1970'pp.
53-55
o artigo "Brevis demonstratio errorismemorab
1686 na Acta Erudilontrn, etradu-zida
em:
ant. Lucy. Paris: Aubier Montaigne.L9'l-2. vol.
t,
pp. 159-161. Sobre Leibniz, ver também: Lindsay, R. B. "The sonceptof
energy and its early historical development", FoundalíonsoÍ
PhysicsI
(1971), pp.383-393.I{
Veja-se os artigos de l-avoísier: "Surla
nature de I'eau et sur les expé-rierces par lesquelles on a prétendu prouver la possibilité de son changement en terre", Mémoires tle l'Acatlémíe cles Scîences (1770), p. 73: "Analyse du mémoire sur I'augmentation tlu poids des métaux par la calcination". Hisloire de I'Académie des Sciences (17741,p.2O: Oeuvres de Lavoisier. Paris: Imprimerie Impériale, 1861, vol. II, pp. 1-28' 97-121.
r.i
Yett
Críticu du Razãc¡ Pura(Ã
182. B ?24): Kant, Imm¿rnuel, Critíque de la RaisottP¡rr¿, trad. por Tremesaygues. A. e Pacaud. B. Paris: Presses Universitaires de France.
1975. p. 177.
16 Spencer, Herbert, A Sy.rtent
ol
Synthetíc Philosophy, vol. I: Fi¡sl Prîncíples. Osnabrück:trIayer e a hnsenaçiío da Eneryia 69 No entanto, não se pode identificar a
com vagas afirmações de que algo se co distingue
do
princípio metafísico grandezas mensuráveis. Apenas qua de energia torna-se possível um tesconstante entre as quantidades das vári
umas nas outras. No trabalho de Mayer e
que no de Grove ou no de Faraday fal
ssão. Algum rempo depois, examinava mais detalhada_
onhecidos em que se
obser-,Armaten;otrabarhoroirecusado,""-Xï;u"å""äi1ätrulTSîJî""1trïîi::
artigos de química aguardando e-spaço para pu-blicaçâo. Mayer acabou
ú. il;*
mi-lo por conta própria, sob a forma de um livretô.r*
Em 1846, Mayer envia
à
Academia francesa de ciênciasum
trabalho em que utiliza suas idéias para tentar explicara
produção do calor solar: Mayer. propõe que a queda de meteoritos sobreo
sol
produziria uma grande quaåti-dade de calor, capaz de produzir o aquecimento de sua superfície-
uma idéia que mais tarde será desenvolvida por Lord Kelvin.rÐA
Academia encaminhou o trabalho primeiramente a uma comissão formada por pouillet e Babinet; a.poir, a uma outra comissão formada por Arago e cauchy.lo As comissões não cônsi-deraram o trabalho digno de publicação. Assim, em lg4g, Mayer publica, nova-mexte por sua própria conta, uma versão deste trabalho.:rEm
lg5l,
Mayerpublica sua quarta memória, que nada de importante adiciona às preceáentei..t
Entretanto, haviam sido publicados os primeiros trabalhos
de
foule,e
istot?
lñ
l!)
!l
Mais adiante serão descritas as contribuições de Grove e de Faraday sobre este tema.
Mayer, Julius Robert. Die organische Bewegung ín ihren Zusømmenhange mit dent
Stolfwechsel. Heilbronn: C. Drechsler, 1845;-reimpresso em: Mayer (nota 7).
ver as notas sobre
o
trabalho recebido. em: cotnptes Rendus Hebdomadaires desS,éance.s de l'Académie des Sciences (Paris) 23 (1846), pp. 220 e 544.
Mayer, J.
R'
amik des Hímnters, ín popurärer Darsteilung. Heilbronn:c. Drechsler,
por H. Dubus: Mayer,i.
R. "on celesriai mechanics",Tltc
London,
ttblin Philosophical Magazine and lournal oÍ Sciencel4j
25 (1863),
p
09, 417-428.Mayer, Julius Robert, Bemerkungen über das mechanische Áequivalent der wänne.
7O Roberto de A. Mørtins
deu início
a
uma controvérsia que amarguroua
vida de Mayer, levando-o auma tentativa de suicídio.
II.
loule e MayerO
primeiro trabalhode
Joule diretamente ligadoao
estudoda
conservaçãoda energia data de 1843
--
o
ano seguinte à publicação do primeiro artigo de Mayer. Ele apresentou este trabalho no dia 21 de agosto de 1843 na reuniãoda British Association
tor
the Advancementol
Science, em Cork.z3O
tema básico deste trabalho é o estudo do calor que surge em fenômenos eletromagné-ticos. Entre outras coisas, ]oule determina experimentalmente que o calor geradona bobina de um eletroímã é proporcional ao quadrado da corrente elétrica que
a
percorre-
o
primeiro estudo quantitativodo
"efeitofoule".
Ele mostra também que em um dínamo ou motor elétrico há uma relação entreo
calorprodtrzido pelas correntes elétricas
e
o
trabalho geradoou
consumido. Suas primeiras medidas mostraram queo
aquecimento de umalibra
de águaa l'F
era equivalente ao trabalho mecânico capaz de erguer 896 libras
à
altura de um pé-
ou seja, um resultado correspondentea
1
cal:
4,8f.
Em outrasmedidas descritas no mesmo artigo, os resultados apresentam uma ampla
osci-lação, entre 3,2
l/cal
e 5,5lf
cal. Como observa muito bem Meyerson,2a resul-tados tão incertos não eram muito adequados como provas empíricas da exis-tência de uma relação constante entre trabalho e calor.Na versão publicada de seu artigo, em um P.S., foule acrescenta uma
refe-rência às experiências de Rumford relativas
à
produção de calor por atrito,25 como evidências de queo
trabalho mecânico pode se transformar em calor.26Diz
também haver realizado uma experiência de medidado
aquecimento deágua que passa através de tubos finos, sob pressão, tendo observado seu
aque-cimento, e calculando que um trabalho capaz de er[$er 770 libras à altura de um pé era capaz de aquecer de
l"F
uma libra de água (1 cal:
4,1I)
-
um23 Joule, J. P. "On the calorific effects
of
nagneto-electricity and on the mechanical value of heat", The London, Edinburgh and Dublín Philosophical Møgøzine and Journal of Science(3)
23 (1843), pp.263-276,347-355, 435-443. Ver também: Jones, G. "Joule's early researches", Centaurus 13 (1968), pp. 198-219. Há uma ediçãocom-pleta dos trabalhos de Joule: The Scientific Paper of James Prescolt loule. Londres: Þhysical Society, 1884; toínt Scientilic Papers of lames Prescott loule. Londres: Physical Society, 1887.
24
Meyerson (notal),
p.213.25
Mais adiante comentaremos sobre o trabalho de Rumford.2(i Neste artigo, utilizo
o
termo "calor" em seu sentido impreciso, como era utilizadono início do século passado, e não no moderno sentido mais estrito de uma forma de energia que flui entre dois corpos como conseqüência de uma diferença de
tempe-ratura. Embora atualmente seja bem sabido que não se pode falar sem contradição com a termodinâmica sobre
"o
calor contido em um corpo", espero que o uso pouoo--illoyer e ø Consemøçíío da Energb
7l
resultado sernelhante ao obtido pelos outros nrétodos. Logo em seguida, foule
observa:
"Não perderei tempo repetindo e estendendo essas experiências, pois estou
seguro de que os grandes agentes da natureza sâo indeslrutíveis, pelo liør
do Criador; e que quando se gasta poder mecânico, obtém-se semprc om
calor exatamente equ¡valenle."2?
foule discute ainda
o
problema da geraçâo do calor nos animais,e
sugerê quc para uma mesma ação química ocorrida no organismo vivo, o calor desen-volvido será maior se ele estiver parado do que se estiver realizando um esforçonecânico:
e
discute também, através de um modelo ingênuo,a
produção decalor nas
reações
generalizar suas idéias,em quase
todos
lemas bem específicos,e apenas em
um
mais ampla e coerelìteo princípio geral
De acordo com o testemunho do próprio loule,2e a apresentação deste trabalho
na r.eunião
da
British Associatian não suscitou interesse.As
experiências de foule não eram muito simples de ser interpretadas, e os efeitos observados eram muitopeque
às vezes, aPenas centésimos de grau-
e variáveis'Gay-Lussac, mas que Joule desconhecia.
No mesmo ano, foule publica sua primeira descrição da famosa experiência de agitação de água atravès de pás.3' Os primeiros resultados eram muito
variá-27 Joule (nota 23), p. a42.
2s
Joule, J. P. "On marter, living force, and heat", impresso en. Th9 Scientific Pøpers. . .(nota 23), pp.265-276. Reproduzido em: watson-,. E. C. "Joule's only gene¡al
expo-iit¡on of ihä'principle of c-onservation
of
energy", American lournalof
Physics 15(t947), pp. 383-390.
rr
loint Scientific Papers... (nota 23), p.2t5. Cfr. Watson (nota 28).30 Joule, J. P. "On the changes of temperature produced by tþe r.alejaction and
conden-satioi of air,', The
uiaoi,
Edínbursh and Dublin Philoiophical Magazine and Iournalo! Science (1) 26 (1845), pp. 369-383.
31 Joule, J. P. "On the existence of an equivalent relation between heat and the ordinary iormi of mechanical power", The Loidon, Edínburgh and Dublin Philosophícal Ma-gazine and lournal of Science (3) 27 (1845)' pp. 205-207.
72.Roberto de A. fu[artins
veis, mas em 1847 foule começa a obter resultados muito mais consistentes.:ìz
Ele publica então um artigo na revista da Academia francesa de ciências.Ì'r
joule apresentou esse novo trabalho na reunião da British Association
lor
theAdvancement
ol
Science de 1847, em Oxford. Na ocasião, o presidente da seção pediu que Joule apenas desse uma versão verbal de suas experiências, ao invésde
ler
sua comunicação, pois havia pouco tempo disponível. Mesmo assim, aexposição de Joule impressionou favoravelmente alguns dos presentes, entre os
quais V/illiam Thomson (posteriormente conhecido como Lord Kelvin).3{ O apoio de Thomson
foi
muito importante na aceitação dos resultados de Joule.O
artigode
[oule publicadona
França provocou imediata reação. Séguin, sobrinho de Montgolfier, autor de um livro sobre estradas de ferro e máquinasa vapor,'J; publicou um artigo onde dizia já ter chegado, antes de |oule, a
resul-tados muito semelhantes, pelo cálculo
do
trabalho realizado na expansão dovapor d'água; mas que não os publicara porque aguardava que experiências positivas viessem confirmá-las.'i'ì
Um ano depois,
a
mesma revista publica uma carta de Mayer.s¡No
estilo de sua carta transparece claramente a indignação de Mayer, que não conseguiraa publicação de seu artigo apresentado à Academia francesa, e que vê agora o trabalho de Joule publicado, com a sanção de um comitê que incluía
o
mesmo:t2 loule, J. P. "On the mechanical equivalent of heat, as determined by the heat evolved
by the friction of fluids", !'he London, Edinburgh and. Dublin Philõsophical Magazine ancl.Journal of Science
ß) 3l
(1847), pp. 173-176.3"Ì Joule,
J.
ntité entre le calorique et la force mécanique.Déter-mination
chaleur dégagée pèndantla
friction du- mercure",Comptes
des Séances de l'Académie des Sciences (pariÐ 25(1847),
34 Ver: Watson (nota 28).
fiõ
séguin, Marc: D¿ I'lnlluence des chemins de Fer et de I'Art de les Tracer et de lesConstnùrc. Paris: Blanchard, 1839.
3$
Séguin, M. "Note à I'appui de I'opinion émise par M. Joule, sur I'identité du mouvementet
du caloriotte", ContDtes Rendus Hebtlotnadaires des Séances de I'Académie desSciences (Paris) 25 (1847), pp. 420-422.
37
Mayer, J. R. "Sur la transformation de la force vive em chaleur, et réciproquement,,, Comptes Rendus Hebdomaduires des Séances de l'Académie des Sciencàs (Parisl 27Møyer e a Consemøçäo da Energia 73
Pouillet
tt
qu.
havia recusado seu trabalho.Nesta carta, Mayer tenta estabelecer sua prioridade na descoberta das trans-formações mútuas de poder mecâ¡ico em calor, e afirma ter sido
o
primeiro acalcular o equivalente mecânico do calor. Desconhecendo o conjunto dos traba-lhos de |oule, e pensando que o inglês só havia investigado a relação entre calor
e poder mecânico, Mayer enfatiza que em seu próprio trabalho havia também estudado transformações de poderes magnéticos, elétricos, químicos, etc.
foule responde com uma cartase onde se refere a seus trabalhos de 1841,a0
para tentar estabelecer sua prioridade sobre Mayer. Mas nesses trabalhos, em que
|oule estudava certas propriedades de reações químicas, não havia qualquer enunciado da
lei
da conservação da energia, em toda a sua generalidade, nemqualquer avaliação do equivalente mecânico do calor. Esses trabalhos de 1841,
em resumo, não antecipam
o
trabalho de Mayer. Em sua carta, foule faz umabreve descrição de todos os seus trabalhos,
e
afirma que não tinha qualquer conhecimento dos artigos de Mayer.{lfoule faz também uma forte acusação: a de que o cálculo de Mayer do
equi-valente mecânico do calor parte do pressuposto de que
o
calor específico de um gás não depende de sua densidade, e que, na época em que Meyer escreveraseu primeiro artigo, todos acreditavam no contrário:
3e Joule, J. P. "Sur l'équivalent mécanique du calorique", compres Rendus Hebdoma-daires des séances de l'Académie des sciences (parii) 2s (lg4þ), pp. 132-135.
74
Roberto de A. I¡Iørtins"...
A opinião geral, de acordo com as experiências dos senhores de la Rive e Marcet, era de o,ue o calor específico de um gás varia com a pressão àqual está submetido; de onde se segue que a conclusão não fundamentada do sr. Mayer, que nâo estava em concordância com os fatos conhecidos nessa época, não deveria chamar a atenção dos sábios."l2
E após comentar ligeiramente os trabalhos de Rumford, Davy e Séguin, foule
conclui ironicamente:
"De acordo com esses fatos. todos apreciarão
a
sagacidade dosr'
Mayerem predizer as relações numéricas que seriam estabelecidas entre
o
calor e o poder; mas não sepde
negar, creio, que eu tenha sido o primeiro ademonstrar a existência do equivalente mecânico do calor, e que tenha fixado seu valor numérico por experiências incontestáveis."{3
Mayer responde pouco depois,{a esclarecendo que seus cálculo-s eram apoiados
na famosa eiperiência de Gãy-Lussac {5 que mostrava que o calor específico de um gás não sè alterava pela rarefação, ao se expandir no vácuo; e que portanto
"volumétrico"
o calor específico "mássico" será constante,o que está
de
Mayer, e com nossos conhecimentos atuais.As-medidas
de
rmitem concluir qual a relação entre pressãoe calor específico "volumétrico", mas não estão em contradição com a suposição de
Mayer.
'13 Joule (nota 39), p. 135.
44
Mayer, J.R.
"Réclamation de priorité contre M. Joule, relativementà la loi
del'équivalence du calorique", Compies Rendus Hebdomadaíres des Séances de l'Académíe
-trIoyer e a Consentoçäo da Energw 7S
cle tinha uma boa base para seus cálculos.t" Mavet assinr conclui seu artigo
"De l esto. estou persuadido <.le que o sr. Joule realizou suas descobertas
:ohre o calor e u forr'ir sem conhecer as minhas. e os numerosos méritos
tlesse ilustre físico inspiram-me umù granrJe estima: mus creio que estou em
meu direrto repetindo que ftri eu quem primeiro publicor.r. no ano de 1842'
l lei da equivalência do calórico e da força viva. com sua expressào nr¡mérica." li
\las
a ccr¡trovélsia nao tel'minou aí. Na lnglaterra. Tait e Kelvln assumiranÌ¿r defc-sa da priot'idade de Joule. pl'ocurando diminuil a importzìncia <Ia obra de
\lavcl': l'vnclaì1. por outl'o lado, empenhou-se na defesa da validade do trabalho
clc Nlaverl.'' Em 1863, Mayer escreve uma carta
a
Tyndall, agradecendo seu apoio; ncsta carta, refere-se aos arligos publicados nas Comples Ren¿l¿ts, eilidica qLrc, conto foule não havia respondido à sua r-rltima carta. deve ter
con-col'tiaclo com ela. Tyndall publica parte da carta.{!r e Tait e foule reagem
l'iolen-tatrcnte.;'r t'eafirmando qtte Mayer não tinha base alguma para seus cá[culos'
loule clrega ao ponto de sr-rgelir que l\4aver mentiu ao dizer que se baseou nos resLrltaclos da expeliência de Gay-Lussac:
"Nâo fui capaz de consultar o primeiro volume das Méntoires d'Arcueíl'
que contém a clescriçtìo da experiência de Gay-Lussaci mas é seguro que
seu resultado. confornre descrito pelo sr. Mayer, não foi acolhido ot¡
rc Sobre a base experimental que justificava o cálculo de Mayer, ver: Hutchinson. Keith.
"Meyer's hypothesis: a study of the earllr years of thermodynamics", Centaurus 20
(1976). pp.279-104. '17 Mayer ( nota 44 ),
+Â Veja-se de artigos nó
da prim modinâmica. evi
Magazir 1865. Por e aP
do volu ágina inicial: 5 (
26 ( 186 64) 25i 29 ( 3)
2-s {1867) 261', 429'. 16 (1863) 144:' 28 (18ó4) 188; 29 ( llì65) 55. Joule. J. P. 24
(1862) 121. l73l 28 (1864), 150. Tvndall escreveu um livro popular, traduzido para
vános idiomas. e que teve um importante papel na divulgação do nome de Mayer:
'fyndall. John, Hcat Consiclered a,s a Mode of Motion. Londres. 1863. Ver também: Llovd. J. T. "Background to the Joule-Mayer controversy", Notes and Record'r ol lhc
Rot'ol .society 25 ( 1970). pp. 2 t0-225: Daub. E. E. "The hidden origin of the
-fait-Tyndall
controversy". Proceedíng.s of the XIV International Congress oÍ Hislorv c;l Sciertce. vol. 2. pp. 241-144.
+fr Tyntìall. J. "Remarks on Professor Tait's last letter to Sir David Brewster", The London, Etlinbttrgh and Duhlln Philo.rophicol Magazine and Journal of Science (4\ 26 (1863l..
pp. 6-5-67. Nas páginas 66-67 encontra-se um extrato da cartû de Mayer, datada de
3l/5/1863.
¡rr Tait. P. G. "On the conservation of energy", Tlrc London, Edinhurglt and Dttblin Pltilo.rophical Magazine antl Jottrnal of Science (4) 26 I1863), pp. 144-145:. Joule- i. P'
"On rhe dynamical theory of heat", ?-/re London, Eclinbnrgh and Dublin Philosophicai Mttkazine und Jottrnal ol Scicnce l1) 26 (1863), pp. 145-147.
76
Roberto de A. ltlørtinslembrado pelo mundo científico, de tal forma que Regnault e eu próprio
fomos considerudos pelos outros. e consideramo-nos. os pesquisadores
ori-ginais deste ¿ìssttnto. Além disso. pode-se perceber
a
partir dos trabalhosdo sr. Mayer que ele nada sabia desta experiência de Gay-Lussac ao escrever
sua famosa memória tle 1842. .
.";l
Ora, sabe-se atualmente com segurança que |oule
foi
injusto: em 1841, ou seja, antes de publicar seu primeiro artigo, Mayerjá
se referia às experiênciasde Gay-Lussac, e outras experiências relevantes com gases, conforme prova sua
correspondência.íl
Retornemos um pouco
a
1847. Neste ano, em que os trabalhosde
loule começam a ser mais conhecidos, aparece o magnífico trabalho de Helmholtz sobre a conservação da energia.í3 Ao contrário de Joule e Mayer, Helmholtz possui um bom conhecimento (embora não completo) do trabalho de outros pesqui sadores;e
tem uma capacidadee
preocupação de fornecer uma visão teórica aprofundada, detalhada e unificada de todos os processos de transformação deenergia
-
começando pela mecânica, e aprofundando-se nos processos térmicos e elerromagnéticos. Helmholtz refere-se a foule (cujos resultados experimentais,no entanto, lhe parecem pouco precisos), mas não se refere
a
Mayer, embora descreva cálculosde
Holtzmann 5{ que se assemelham muito aosde
Mayer.Na reedição de seu trabalho, em 1881,õõ Helmholtz adiciona uma série de
notas. Em uma delas, ele se. refere aos dois primeiros trabalhos de Mayer,
afir-mando não conhecê-los em 1847. Helmholtz inclina-se mais favoravelmente aos trabalhos
de
fouledo
que aos de Mayer,e
desenvolve longas consideraçõesõ1 Joule (nota 50), p. 146.
i2
Cartas de Mayer a Baur, publicadas em Mayer, Kleíne SchriÍlen... (nota6)'
pp.130-132, 145-146, 152-154; èfr. Kuhn, T. S., "The caloric theory of adiabatic compres-sion", lsis 49 (1958), pp. 132-14O, p. 132, nota
I'
ã:r Helmholtz, Hermann, Ueber die Erhaltung der Kraft
-
eine physikalische Abhandlung.Berlin: G. Reimer, 1847. Este trabalho foi origifialmente apresentado diante da
Socie-dade de Física de Berlim, em ?7 de julho de' 1847. H^ uma tradução completa da
primeira edição, por John Tyndall: Helmholtz. H. "On the conservation of force: a physical memoir", Taylor's Scientific Memoírs
(2) I
(1853), parte 2, pp, 114-162. Sobre o trabalho de Helmholtz, ver: Elkana, Y. "Helmholu's Kraff', Historical Studiesin tlte Physical Science.ç 2 (1970), pp. 263-298; Clark, P. "Elkana on Helmholtz and
the conservation of energy", Bri¡ish tournal for the Philosophy of Science 27 (.1976),
pp. 165-176.
rr'r Hoftzmann. Ueher díe Wärme tmd Elasticität der Gase und Dämpfe. Manheim, 1845;
cfr. Helmboltz (nota
5l),
p. 33.:¡í
Helmholtz, Hermann, Wìssenschaftliche Abhandlungen. I*ipzig: Johann Ambrosius Barth, 1882, vol.I,
pp. l2-75. Reimpresso em: Ostwald's Klassiker der etol<tenWissensclnften, n.o
l:
Helmholtz, H. Über díe Erhaltung der Kraft. Leipzig: Wilhetm Engelmann, 1915.lilayu e a C-onsenaçíio da Energia 77
metodológicas que foram publicadas por Tait, sob a forma de uma çarta,ã6 em
defesa da prioridade de Ioule, e minimizando a importância de Mayer.
Com relaçâo
a
toda essa controvérsia, Sarton õ7 chegaà
conclusão de queTyndall tinha melhor compreensão e maior generosidade do que seus adversários, e que não se pode negar a Mayer a prioridade na formulação da primeira lei da termodinâmica.
Essas controvérsias, e a falta de reconhecimento por seu trabalho, deprimiram
muito Mayer, que tentou suicídio, e
foi
depois internado em um asilo para alie-nados mentais, sendo rapidamente esquecido.O
próprio Liebig, que apoiara apublicação do primeiro artigo de Mayer, referiu-se a ele, em 1858, como se ele
ja
tiuesl" morrido." Mayer chegou a sair do sanatório, mas nãofoi
capaz de realizar novas contribuiçõesà
ciência, tendo falecidoem
1878.As
revistascientíficas não publicaram seu necrológio.
IIL
Uma descoberta múItiPlarioridade,
tentan-idéia, atualmente
tas
independente-O
surgimento dalei
da conservação da energiajá foi
estudado por Kuhn como um caso de descoberta simultânea por uma dúzia de cientistas indepen-dentes.'ioO
trabalho de Kuhné
interessante, mas temo
defeito de tender ae
alelismoeasemelhaa
diferenças entre osa
por eles utilizada, az
rrm dos casos. Essaspor Elkana.dr Vamos nos limitar aqui a abordar rapidamente apenas alguns dos þredecessores ou contemporâneos de Mayer que propuseram igualmente alguma
;6
Helmholtz (nota 55), p. 71. Carta publicada em: Taig P. G., Sketchof
Thermody-namics. Edimburgo, 1868.t7
Sarton, G. "The discovery of the law of conservationof
energy", Is¡,s 13 (1929),pp. 18-34.
:i8
Sarton (nota 57'1, p, 22.;!ì
Sobre descobertas múltiplas na ciência, ver Merton, R., "Singletons and multiples in scientific discovery", Proceedingsol
tlte Americøn Philosophícal Society 105 (1961 ),pp. 42O-486.
60
Kuhn, T. S. "Energy conservation as an exampleof
simultaneous discovery", em:Clagett,
M.
(ed.) Critical Problems in the Ilislory of Scíence. Madison: Universityof Wisconsin Press, 1959, pp. 321-356.
ô1
Elkana, Y. "The conservation of energy: a case of simultaneous discovery?" Archives Internatíonsles d'Histoíre des Sciences 23 (1970), pp. 31-60.78
Roberto de A. Martinsidéia associada à lei da conservação da energia. Mais uma vez, repetimos que não
é
possível aqui esgotaro
assunto,e
queo
leitor interessado deverá consultar a bibliografia indicada, a fim de completar as informaçoes desta curta descrição.A
lei da conservação da energia contém, como caso particular, a transforma-ção mútua de calor e energia mecânica.tìl No caso de muitos autores, estefoi
oponto de partida que levou
à
lei
geral da conservação da energia,e
pode-seconsiderar que, uma vez estabelecido este ponto, não era difícil aplicar a mesma idéia
a
outras conversoes energéticas. Por isto, muitas vezes se supoe que ostrabalhos de Rumfold e de Davy 63 no final do século
XVIII
já haviam fornecidouma boa base para
a
primeiralei
da termodinâmica. Rumford havia mostradoque, na perfuração de canhões, surge uma grande quantidade de calor,
e
que era difíciI explicar esse surgimento como simples efeito do corte do metal, poiscontinuava
a
surgir calor mesmo quandoa
broca estava gastae
quase não cortava mais o metal. Por outro lado, Humphry Davy alegava que havia conse-guidofundir
peloatrito
mútuo dois pedaçosde
gelo,e
era também difícil explicar esse fato sem se admitir a transformação de energia mecânica em calor.No entanto,
a
história nãoé
tão simples. Era possível interpretar as expe-riênciasde
muitas formas diferentes,e
por
isso grande parte dos cientistascontinuou
a
admitir uma conservaçãodo
calórico, ao invés de aceitar uma transformação de trabalho em calor.6{Mesmo para aqueles que queriam admitir
a
produção de calor pelo atlito,não cta clalo qual modelo se deveria adotar para o calor. Por um lado,
desco-briu-se que o calor podia se propagar pelo vácuo, e acabou-se chegando à idéia
rì:: Novanrente é importante indicar que. aqui. utilizo a palavra "calor" de um modo pré-telnto<lirrâmico. As experiências de transformação de trabalho em "calor" são.
muitas vezes, experiências em sistemas que procuram ser adiabáticos. e portanto o
que se estuda é a variação da energia interna do sistema. e não calor gue entra ou
sai do sistema. Ver nota 26.
rijl Thomson. Benjamin (count of Rumford). "4n inquiry concerning the source of the
heat rvhich is excited by friction". Philosophical Transaction.r ol tlte Royal Societ¡' 33
{179u), pp. 80-102. uma lâmina. p. 286. Há uma edição recente das obras completas tie Rumford: Thc Collected 14/orks ol Couttt Runtfolrl. Cambridge. Mass.: Harvard University Press, 1968. Davy, Humphry, "An essay on heat, light. and the combinations of light". enl: Beddoes. Thomas. Contibutiotts to Pltl'sicul and Medical Know'lcdgc,
Principully frorrt tlte Wcst ol England, 1799; reimpresso em:7'1rc Collected Work.s ot'
Htuttpltr¡- I)¿v-v, ed. por Davy, John. Nova York: Johnson Reprint, 1972,9 vols., vol. 2,
pp. l-116. Sobre Rumford. e a fase pré-Mayer. veja-se; Brown, Sanborn C., Benjuntin
Thomson
- Count Rutnford. Oxford: Pergamon Press, 1967. Olson, Richard G.
"Count Rumford. Sir John Leslie. and the study of the nature and propagation of
heat at the beginning of the nineteenth century", Annals of Science 26 (1970). pp.
173-104t Langley. S. P. "The history of a doctrine", Anterican Journal ol Science t3) 37 (ltt89). pp. l-23.
rìr Ver. por exemplo: Lilley. S. *Attitudes to the nature of heat about the beginning of the nineteenth century", Archives Internationales tHistoire des Sciences 27 (1948),
pp. 630-639: Fox. Robert, The Caloric Theory of Gases, from Lavoisier to Regnault.
lulayer e a Consenøçíio da Energia 79
de que o calor radiante
e aluz
eram entidades-muito semelhantes; então, pelo menos no vácuo, o calor seria constituído por algum tipo de ondas.Costuma-se atribuir a Melloni o estabe
das radiações Îérmicas e a luz. Na ver
A situação não era completamente clara, ter produzido por meio de filtragem um efeito térmico algum, mesmo quando for
que era possível obter-se independentem
de refração, o que parecia mostrar que se tratava de entidades distintas.Bõ Além de não ser clara a situação experimental, a teoria era ainda mais deli-cada. Se o calor radiante era um tipo de onda, ele deveria continuar a possuir
a mesma natureza dentro dos corpos materiais. Mas então, por que motivo ele
se propagava tão lentamente, quando comparado com os outros tipos de ondas: som e luz? E por que motivo as equações de propagação do calor não obedeciam às equações de propagação de ondas? Este era o principal problema teórico do modelo ondulatório do calor. Surgiram várias tentativas de solução,
e
Cauchy,por exemplo, procurou derivar as equações da condução de calor de Fourier a partir das equações de onda.6"
Ampère propôs uma interessante solução.6î
A
idéia de Ampèreé
mais ou menos a seguinte: em um fluido homogêneo, a propagação de ondas não podese assemelhar
à
propagação do calor; mas em um meio constituído por umaparte homogênea, dentro da qual estão distribuídos sistemas descontínuos com densidade superior à do meio, a vibração desses sistemas pode se espalhar por
eles segundo uma
lei
semelhanteà
da propagação do calor. Ampère identificao
calorà
energia cinética de vibração dos átomos,e
compara esses átomos vibrantes a uma rede de diapasões de mesma freqüência distribuídos no ar. Pormeio deste modelo, ele mostra que se poderia explicar as leis de condução
do calor.
Embora em alguns modelos mecânicos do calor, como no de Ampère, indi-que-se claramente que o calor corresponderia à energia cinética (ou, mais exata-mente, à "força viva") dos átomos ou moléculas, o que permitiria deduzir uma
rì:i
Melloni, M. "Observations et expériences relatives à la théorie de I'identité des agens qui produisent la lumière et la chaleur rayonnante", Annales de Chimie ct de Physique (2) 59 (1835), pp. 418-426. Ver também: Brush, S. G. "The wave theory of heat''. British lournal for the History ol Sciencc5
(1970), pp. 145-167.6ri cauchy.
A.
"Mémoire où I'on montre comment une seule et même théorie peut fournir les lois de propagation dela
lumière et dela
chaleur", comptes Reidus Hebdomudaires des séance.; de I'Acadéntie des science,s (Paris) 9 fl839), þp. 2g3-2gs.rì? Ampère. A. M. "Note sur la chaleur et sur la lumière considérées comme résultant
de mouvement vibratoire". Annales de Chímie et de Physique
Q)
58 (1835), pp. 432-444.80
R.oberto cie A. 'Vartinsconexão quantitariva entre o calor gerado e o trabalho consumido ern um fenô n]eno, em outl'os modelos
a
ligação entre calore
glandezas mecànicas era difetente.um
caso interessante apareceno
trabalho publicadopor
Mohr em 1857.O
artigo de Nlohrfoi
publicado5
anos anres do trabalho de Mayer. na nlesma revista, e é às vezes descrito como sendo uma antecipação das idéias deìVlayer.'r" Neste artigo, Mohr fala sobre os trabalhos de Melloni. e baseando-se
neles afirma que
o
calor só pode ser um tipo de vibração de alta freqtiência.Mas,
a paltir
dessa idéia básica, acrescenta uma série de suposicões erroneas.Segundo
i\lohr.
o
caloré
um tipo de força, pois eleé
capaz de vencer a coesão dos corpos. que é uma força. Note-se que ele utiliza a palavra "força" no scntido nervtoniano, e não como sinônimo de energia. Mohr indica que. sea água é aquecida a volume constante, um aumenro de tempelatura Ce l"C produz
um aumento de pressão de 97 atmosferas, e que pol'tanto luC
:
97 atm. Ora,essa iderrtificaçào de temperatura com pressão só teda sentido se todos os
mate-liais
tivessemum
aumento de pressão de97
atmosferas para cada grau deaumento de temperatura; mas isso não ocorre, e a igualdade de Mohr não tem
sen tido.
Em outro ponto, Mohr afirma que
"a
temperatura éo
número de vibraçõesque Llm corpo faz em rlm dado tempo", e daí deduz consequências totalmente
erradas, interpretando en'oneamente
o
aquecimento produzido na ccmpressão dos gases. Uma análise detalhada do artigo de Mohr evidencia que ele estava tnuìto longe da concepção da conservação da energia. No entanto, Tait, o grande adversário de Mayer, traduziue
publicou este artigo de iVlohr.'to e acrescentou ao seu final urna nota extremamente provocante: Tait considerao
trabalho de Nlohr como mais notável do que o de Mayer, e adiciona:"De ntodo muito singular, Mayer não se refere [a este artigo], embora seu
primeiro artigo tño elogiado tenha aparecido apenas cinco anos mais tarde na mesma revista. Ele
lo
artigo de Mohr] contém, sob forma considera-velmente superior. quase tudoo
queé
correto no artigo de Mayer; e,embola contenh¿r muitos enganos, ele evita alguns dos maiores erros
come-tidos por Mayer. especialmente sua falsa analogia e seu raciocínio a priori... O próprio pr-ocesso para determinar o equivalente mecånico do calor pelos
clois calores específicos do ar, pelo qual Mayer recebeu louvor tão
extraor-dinário em algnns
cantos,. é
aqui expresso muito mais claramente do qtte o foi por Mayer cinco anos mais tarde."7{}fìr) llfohr, R, ''Views of the nîture of heat"; trad. por T^i¡., The London, Edinburgh antl
_
Dtt.blin Pltilosopltical ,lfapazine and Journalof
science(5)
z
0 s76), pp. tio-tt¿.7
-Wyer e a Consen'açdo tla Eneryia gl
.\s
alirnracocs clc T¿rit s¿rr¡ lalsas.c
sua icluzidr acìnra) iìe qr.rc Vlavc| r.'¡'ia
utilizado
"i:t:;,;-ì::"J
absur'da. pois :uas iclúias são
cotnpletanrent
moclo algumarrtccipa c) proccsso ¡-rtilizado por \lavet'
no
mecânicò doealor'. Não
loi
a vontadc de adicionar Lrma infolmação histór'icatitil.
rnas ¡rnralaiva cega. c a vorrtaclc cle dinrinuir o brilho do trabalho de Mayer'. quc rnorivou ùsta not¿r dc J'air.
Deixando tle lado o caso mais estrito das relaçöes cntre calot'e enet'gia mecâ-nica. pode-sc dizer que a idéia da transformabilidade de um tipo de coisa em ùLlrr'¿r. na iÍsica.
ioi
apontada por vários autores, antes e depois do surgimentodo prinreiro trabalho de ivlayer. Faraday, por exemplo, tendo realizado pesquisas
nas áreas de eletrostática. eletricidade voltaica. magnetismo. química. e ùutros. cstuc{ou ir.rúmeros ienômenos de conversão de um desses tipos de coisas em
outras. e teve Llm vislumbre da lei de conservação da energia. Faraday propôs
cm
l85i
a idéia de que se podia estabelecer um padrão quantitatìvo de equi-valência entre "forcas" químicas e elétricas-
ou seja. um "equivalente químicoda clerricidaclc". que não serìa menos importantc do que o equivalente mecanico
do calor. Nos anos seguintes. Faraday sugere algo ainda mais gcral, afirmando
quc as "forças" são indestrutíveis. embora interconv€rtíveis.
e
que todas elassão derivadas da eletricidade.lt Suspeita-se até que as idéias de Faraday tenham
influcnciado loule, que. como vimos. iniciou seu trabalho estudando reaçoes c1uímicas
c
[cnôlnelros eletrornagnéticos. e que devia estar a par do trabalho de Faraclav.E,rlrbora se possa ver en1 certas frases de Faraday uma antecipação da lei da conscl'r,acão da errergia, é impoltante notar que o próptio Faraday não fazia uma
distirrçac, clat'a entre gt'andezas intensivas, como
a
tenlperaturac a
[ot'ca (tr<¡sentido ueu,tonialro).
e
grandezas extensivas. como massae
energia.ir Apenas se pode aplicar a idéia de conservação a grandezas extensivas, lnas Faraday nãohavia compleendido isso. Faraday utilizava. como Mayer, a expressão
"a
causa é igual ao c'feito", mas aplicava-a para descrever a igualdade entl'e ação e reação (5."lei
de Ncwtorr),e
não pala indicara
igualdade entre as quantidades dÈrrnra coisa que se tl'ansfol'ma cm outra. Por isso, não se pode dizer que Faraday
tcnha anlccipaclo as idéias de lVlayer'.
Algo scmelhantc pode ser afitmado a respeito de William Grove. Este físico
aprcsentolr
no
nlesmo ¿tnoda
publicaçãodo
p|imeiro artigode
Nlayer uma co¡icr'ència na London Ittslilution em cìuc propunha;¡
idéia de possibilidaderlc convcrsão mútua cle todos os tipos dc "forças". No ano scgttinte, apl'esentou
Gooding, D. "Metaph¡;sics versus measurement: the conversion and crlnservalion of
force in Faradays physics". Annals ol Science l7 (l9flO). pp. l-29.
Sobre a tliferença entre grandezas intensivas e extensivas. ver. por exemplo: Campbell. N, R. For¿r¡¿,/ations of Scic¡tcc. Novl York: Dover. l9-5?.
82
Roberto de A. ilartinsuma série cle conferências sobre
o
assuntose tol'nou muito popular.;';
e em 1846 publicou um
livro
queAs idéias exposras por Grove eram mais qualitativas do que quantirativas. e
por isso assemelhavam-se muito às de Faraday. Em alguns pontos, Grove adota uma atitude reducionisra, como a de foule e Helmholtz, e pretende explicar todos os fenômenos da natuteza a partir da mecânica; em outros pontos nega a
exis-tência de um tipo particular de "forca" que possa ser considerada a mais impor'-tante ou a causa de todas as outras, já que todo tipo de "força" pode ser
conver-lido em um outro. A idéia geral era fértil, mas ao tental. quantificar sua proposra
Glove incortia em erros grosseiros, como
o
de considerar queo
calor gerado pelo atrito de um colpo seria proporcional à diminuição da velocidade daquelecorpo.ì {
Embora o trabalho de Grove tenha tido um importante papel na popularização da conservacão das "forças", pode-se dizer que ele estava longe de compreender claramente a idéia dessa "força", e da natureza de um princípio de conservação.
Pode parecer que a visão aqui apresentada é muito parcial, por negar o valor. de todos os outros proponentes da
lei
da conservação da energia,e
enfatizar exageradamente o papel de Mayer. Por isto, como contra-exemplo, vale a pena indicar a existência de um obscuro dinamarquês que pode ser considerado um rival à altura de Mayer. Seu nome, pouco conhecido. é Ludwig Augusr Colding.;'O
primeiro trabalho apresentado publicamentepor
Colding datade
1845.Neste ano, ele aplesentou à Academia Dinamarquesa de Ciências uma memória onde clescleve ìdéias semelhantes às de Mayer, sobre a conservação e
converti-bilidade da energia. e também resultados de experiências sobre
o
calorprodu-zido
por
atrito.A
idéia que Colding toma como ponto de partidaé
muitocuriosa,
e
pode parecer pouco científica:"Já que as forças são seres espirituais e imateriais, e já que são entidades
que só conhecemos por seu domínio sobre a natureza, essas entidades devem
ser sem dúvid¿r muito superiores a toda coisa material existente; e como é
evidente que é apenas pelas forças que se exprime a sabedoria que
perce-bemos
e
admiramos na natureza, esses poderes devem estar relacionados com o próprio poder espiritual. imaterial e intelectual que dirige o progresso d¿r natureza. Mas se assim é, torna-se impossível conceber que essas forças sejam coisas mortais e perecíveis. Sem dúvida alguma, portanto. elas devem3 Crove. William Robert. On the Conelation
ol
phltsical Forces.Londres. 1g46. Ver: Cantor, G. N. "William Robelt Grove. the correlation of forces. and the conservation
of energy". CentaLtrus
l9
( 1975). pp. 273-290.Na verdade. para. uma força de arriro constante,
o
calor gerado seria proporcional ao espâço percorrido, ou à variação do quadrado da velocidãde clo corpo.Dahl. P. F, Ludwis Coldine and the Con.çcrvation ol Energ.^t. Nova york. 1972.
trIayer e ø Consemoçdo da Energia 83
ser encaradas como absolutamente imperecíveis. .. Todas as vezes que um'
força parece se irniquilar realizando um trabalho mecânico. químico ou
de qualquer oulra natufeza. ela apenas se transforma, e reaparece sob uma nova forma. onde ela conserva toda a sua grandeza primitiva." Trt
Colding indica que essa idéia lhe ocorreu em 1839, ao estudar
o
teorema da conservação das "forças" mecânicas. Mas Colding esperou até tel uma confir-mação experimental de suas idéias, antesde
publicá-las: pois,em
1840, ao explicar suas idéiasa
Oersted,iTfoi
aconselhadoa
abordar um estudoexperi-mental antes de expor suas concepções.
No
trabalho apresentadoem
1843, Coldingutiliza
suas idéias parainter-pretar
o
do ou absorvlíquidos
apenas def
seu
favor
de produçãoMorosi
e
ele PróPrio ecle trabalho mecânico em calor, utilizando superfícies de latão em atrito com
vários outros materiais: latão, zinco, chumbo, ferro, madeira é tecido. Colding
varia a p¡essão e a velocidade do movimento, e em experiências repetidas cerca de 200 vezes verifica
a
existência de uma relação constante entrea
energia mecânica perdida e o calor desenvolvido. As medidas iniciais apresentadas porColding em 1843 davam uma relação de 3,4
I : I
cal-
um resultado seme-lhante ao de Mayer. lVlais tarde, graçasa
uma verbada
Sociedade Real deCopenhagen. Colding construiu um aparelho aperfeiçoado com
o
qual realizou experiências mais precisas; e publicou outros trabalhos, onde estudava asmá-îtì
Colding, L. A. "On the history of the principle of conservation of energy", Tlte London, Edinburgh and Dtúlin Philosophical Magazine and tournal of Science (4) 27 (1864), pp. 56-64: esta carta de Colding foi traduzida por M. Verdet: Colding, M. A. "Lettre aux rédacteursdt
Philosophical Magazin¿ sur I'histoire du principe de la conservationdel'énergie
) I
(18original
de
apresepublicado
"NogleVidenskabe
hagen)i7
Hans Christian Oersted é bem conhecido por sua descoberta da ação de correntes elétricas sobre a agulha das bússolas. Oersted também já possuia idéia de urna corre-lação entre todas as forças da natureza, e certamente não ficou escandalizado comas estranhas idéias metafísicas de Colding, pois ele próprio havia escrito um livro intitulado
A
AIma na Natureza. Ver: Hirn lnota 38), p.l2l.
Sobre estes âspectosde Oersted, veja-se: Stauffer, C. "Speculation and experiment in the background of
Oersted's discovery of electromagnetisn". I.çis 48 ( 1957), pp. 33-50.
?E Na ve¡dade, um líquido sólido comprimido nalo sof¡e um aquecimento proporcional
ao t¡abalho de compressão, pois uma parte do trabalho fica armazenado sob a forma de energia potencial elástica. Uma mola de aço comprimida, por exemplo, não æ
aquece. Colding, parecia nâo notâr claramente
a
diferença entre os processos queocorrem nos vá¡ios estados da matéria.
A
respeito do estudo experimental da questão,no início
do
século XIX, pode-se consulta¡: Colladon e Sturm, "Su¡ la compression des liquides",.,4nnalesdeChimieeIdePhysique(2)36(1827),pp. I13-159,225'257.84
Robeno de A. ù[artinsquilras
a
vapor, assinr como a cvolucão do sisterna solar e da vida. E cur.iosotambém quc colding parece ter tido um vislumbr-e do pr.incípio de dcglaclaçÀo da energia.
Nota-se que no tlabalho de colding. como no cle Mayer, há o aspecto marc¿ìnte
da getteralitl¿ttle cla idéi¿r. aliado a uma concepcelo qr-ranritativa
.
à bur.u de urn valo¡'numé¡'ico parao
fator de conversão do trabalho em calor. pocle-se dizer que os trabalhos dc colding são nruito scmelhantes ao de Maycr, enr nívcl cem
alcance.e
aplesentados quaseao
mesmo tempo. Notc-sc ainda que. aocontl'ár'io do que ocorrcu nos casos de foule
e
Mayer. os rrabalhos de Colding produzi ram nruito boa irnplessâo em seus ouvintes, como se pode infer.ir a partiida dotacão cm dinheiro pat'a o prosseguimento dc seus estudos; talvez isso tcnha
sido devido ao apoio de ocrsted. De qualquer lorma, se não houvesse
o
pr.o-blema da barreira iclionrática, e se a Dinamarca fosse naquela época um centro
cultul'al mais influcnte, Colding talvez losse tão citado nos livros históricos e didáticos quanto lvlaycr e Joulc.
Por' l'im. valc
a
pena mencional' que Sadi Carrrot, cujolivro
publicado em 1824, Sobre o poeler motriz clo logo,1" apresenta a primeira proposta da segunda lci da tclnrodinâmica, redigiu antes de sua mol're (eml8l2)
uma série de notasmanuscritas (publicadas postulnamente, muito mais tarde)
t"
em que apresentauma antecipação da primeira lei da termodinàmica. e calcula para o equivalenre
¡necânic<¡ do calor um valol ieual ao proposto por Mayer. e baseado no mesmo raciocínio.'r Se Carnot houvesse publicado essas notas durante sua vida, ele poderia ter s^ido considerado
o
pai de toda a tel'modinâmica.t9 Curnot, Sadi, Réflexions sur Ia Puissance llfotrice du Feu, et sur les
ùlachines hopres à Développer cette Puissance. Paris: Bachelier, 1824.
\rr Ver: Mentloza. E. "Contribution to the study of Sadi Carnot and his work". ,1rr'åiyr,,r Itttet nuliotnlat cl'H i,stoire do¡ .Scicnt'c,r I ? ( 1959 ). pp, 317 -396. As notas manuscriras
de Carnot foram entregues à,\cademia de Ciências de Palis em ltl78. pelo seu irmão; C¿rrno.. H. "l-ettre accompagnant l'envoi d'une nouvelle édition des "Réflexions sur
lr puissirnce nrotrice du feu" par Sadi Carnot. et de divers manuscrits du même auteur".
Contnle\ Rcndtn Hebdotnuduires dc.¡ .\canca,¡ d¿ I'Acldé¡nie de.ç Scicncer I Pa,'i,\) 87
( ltlTli ). pp, 961-969. ,\s nota\ foram parcialmente publicadas na reediçrìo do livro
de. Carno¡: Carnot. Sadi. ¡1r;l/¿r inrrr Paris: (ìauthier-Villars. I t{78. p. tl9. Há rrnra
traclucito enr inglês clo livro tle Carnot. com um¿ì selecáo de suas notas m¿rnuscritüs. C¿rrnot. S¡di, Iì.cÍlcction\ on tlr( llotit't'Po*'cr ol f ìte ttr¡d otlter Pupct,s ott tlte Set'tttttl
Lttt rtl 'l'itt'rnto¿lvttutnic.r. ed. por Mendoza. E. Nova York: Dover. 1960.,{s notas
foranr publicadas de fornra completa em: Picard. Emile led. ) 1¿rrli Cornot. Biourupltic (t .Vlilnttrcrìt. Paris: Cauthier-Villars. t917. Há também uma reprodução completa das
notas n¿r reediçiro do livro de Carnot pela editora Blanchard (Paris ) em l9-53.
'l Ulrich. Hoyer. "How clid Carnot c¿rlculate the mechanical equivalent of heatl"