TÍTULO: COMPOSIÇÃO DOS DESCARTES NAS PESCAS DE EMALHE E DE ARRASTO DA BAIXADA SANTISTA, ESTADO DE SÃO PAULO.
TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE SANTA CECÍLIA INSTITUIÇÃO:
AUTOR(ES): JULIANA APARECIDA LEONEL VIANA AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): ACÁCIO RIBEIRO GOMES TOMÁS ORIENTADOR(ES):
SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO AGENCIA PAULISTA DE TECNOLOGIA DOS AGRONEGÓCIOS
INSTITUTO DE PESCA
Relatório Final Bolsista PIBIC/CNPq-IP
COMPOSIÇÃO DOS DESCARTES NAS PESCAS DE EMALHE E DE ARRASTO DA BAIXADA SANTISTA, ESTADO DE SÃO PAULO.
Bolsista: Juliana Aparecida Leonel Viana (Processo 129413/2016-0) Orientador: PqC Acácio Ribeiro Gomes Tomás
Início: 01/08/2016 Término: 31/07/2017 SANTOS 30 de junho de 2017
RESUMO
Descartes são comuns em todas as artes de pesca comercial, e são decorrentes, basicamente, da falta de interesse econômico de parte da captura. O presente estudo caracterizou a composição dos descartes da pesca de arrasto (de portas e de parelhas) e emalhe da Baixada Santista (SP), a partir de coletas periódicas. Após acesso a esse material, solicitado às tripulações de unidades diversas de cada frota, em laboratório todos os exemplares foram identificados ao menor nível taxonômico, mensurados em comprimento e massa, além da observação de estágio de maturação gonadal (subamostra semialeatória de 30 indivíduos). Foram obtidas 36 amostras com total de 8.078 peixes, 978 crustáceos e 458 moluscos registrados, e, dentro de cada grupo zoológico, as espécies de maior frequência de ocorrência foram o falso-voador Dactylopterus volitans (em 21,00% do total dos peixes), o siri-baú Hepatus pudibundus (35,34% dentre os crustáceos) e do gastrópode Olivancillaria urceus (46,09% dentre os moluscos). Os exemplares que se destacaram nos descartes das duas artes de pesca foram a oveva Larimus brevips, a Maria-Luiza Paralonchurus brasiliensis e o Cangoá Stellifer rastrifer. A pesca de arrasto apresentou exemplares menores que os da pesca de emalhe, com as médias de tamanho dos indivíduos desta última maior.
PALAVRAS-CHAVE: recursos pesqueiros; fauna acompanhante; descartes INTRODUÇÃO
O monitoramento das atividades pesqueiras orienta tomada de decisões, de modo a implementar ordenamentos visando a sustentabilidade (SUMAILA, 2001), o que se inicia no completo conhecimento do que venha a ser capturado, de modo que os estudos sobre avaliação de estoques possam promover a gestão sustentável dos recursos pesqueiros (ARAGÃO e CASTRO-SILVA, 2006; JACQUET et al., 2010).
Em quaisquer pescarias comerciais (seja industrial ou artesanal) são capturadas espécies além das espécies-alvo, que podem ou não apresentar interesse secundário para o mercado, e cujo conjunto representa a fauna acompanhante (bycatch) (CLUCAS e JAMES, 1997; ROBERT et al., 2007). Entretanto, mesmo a pesca comercial, com diversos estudos sobre artes de pesca relativamente bem conhecidas, ainda apresenta lacunas em relação ao que efetivamente é capturado, já que somente a parcela de interesse comercial é desembarcada, e o restante descartado a bordo não contabilizado como dado estatístico pesqueiro (BATISTA e BARBOSA, 2008).
A pesca de arrasto de portas dirige seus esforços para os camarões peneídeos, porém nas ultimas décadas vem se adaptando à captura de peixes (TOMAS et al. 2007). Além desta, arrastos de parelha, ainda menos estudados. Da pesca de emalhe basicamente nada se conhece acerca de descartes. Essa atividade de pesca tem grande destaque na costa Sudeste-Sul do Brasil, já que em grande parte são originadas de embarcações oriundas de outras atividades de pesca (TOMAS, 2007).
OBJETIVOS Geral:
- Caracterizar e identificar os descartes pesqueiros das frotas de arrasto (portas e parelha) e de emalhe ao longo da Baixada Santista.
Específicos:
- caracterizar os descartes por cada frota específica;
- identificar a composição taxonômica dos descartes em cada frota específica. METODOLOGIA
Área de estudo
A Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS) é formada por nove municípios (Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente) e apresenta uma grande diversidade de atividades que a caracterizam (parque industrial de Cubatão, o Complexo Portuário de Santos, atividades industriais e turísticas (EMPLASA, 2017)). Detém o maior volume de desembarques da pesca comercial no litoral paulista (66,4%) e a frota pesqueira de maior destaque numérico (e em todo o Estado) é a de emalhe, secundada pela de arrastos de portas, sobretudo aquela dirigida ao camarão-sete-barbas (INSTITUTO DE PESCA, 2017).
Entre junho de 2016 e junho de 2017 foram efetuadas visitas a locais de desembarque em busca de tripulações de embarcações que pudessem colaborar na cessão de amostras de descartes, a partir da informação sobre o tema em estudo aos mestres das embarcações. As amostras obtidas foram resultantes de lances distintos selecionados por locais de pesca e mantidas em refrigeração em sacos de ráfia etiquetados internamente com código alfanumérico, e após desembarque, foram transferidas para laboratório, onde permaneciam congelados até a triagem. Nestas triagens, após descongelamento natural, o material era separado por táxon e identificado ao menor nível taxonômico com base em literatura especializada (FIGUEIREDO, 1977;
FIGUEIREDO e MENEZES, 1978; 1980; 2000; MENEZES e FIGUEIREDO, 1980; 1985; MARCENIUK 2005). Na sequência, cada exemplar foi submetido à mensuração em seu comprimento (total e padrão em peixes, largura da carapaça ou comprimento do cefalotórax em crustáceos) com auxílio de régua graduada em milímetros, e em massa (balança digital de 0,001g). A seguir, procedia-se um seccionamento ventral, expondo as gônadas para identificação do sexo e do estádio de maturidade gonadal pela escala macroscópica apresentada em Dias et al. (1998).
Todos os dados gerados foram digitados em planilha eletrônica para as análises subsequentes, realizadas após depuração pela frequência de ocorrência (FO%) de cada táxon por petrecho de pesca.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Obtidas 36 amostras num total de 9.514 exemplares de 177 espécies, das quais 8.078 peixes de 132 espécies, 978 crustáceos de 28 espécies e 458 moluscos de 17 espécies foi observado. Destas, as de arrasto de portas abrangeram 73,12%, as de parelha 24,71% e as de emalhe 2,17%, com alguns compartilhando as mesmas espécies (Tabela I). Nesta tabela somente são apresentados os táxons com representação acima de 10 exemplares, os demais foram Synodus foetens, Balistes capriscus e Nebris microps com 9; Genidens barbus, Haemulon aurolineatum e Brevoortia pectinata com 7; Ogcocephalus vespertilio, Sardinella brasiliensis, Lycengraulis grossidens e Sphyraena guachancho com 6; Ophidion holbrookii, Thyrsitops lepidopoides, Synodus myops, Pomatomus saltatrix e Diplectrum formosum com 5; Cynoscion jamaicensis, Haemulon steindachneri, Caranx crysos e Rhinobatos horkelli com 4; Hemicaranx amblyrhynchus, Upeneus parvus, Umbrina coroides, Stephanolepsis hispidus, Selene vomer, Rhinobatos percellens, Chaetodipterus faber, Engraulis anchoita, Conodon nobilis, Ogcocephalus vespertilio, Narcine brasiliensis e Raneya fluminensis com 3; Aspistor luniscutis, Bairdiella ronchus, Etropus sp, Hippocampus erectus, Oligoplites
saurus, Cynoscion acoupa, Pareques acuminatus, Symphurus plagusia,
Chloroscombrus crysus, Cathrops spixii, Atlantoraja platana, Conodon nobilis, Ophichthus gomesii, Rioraja agassizii, Thalassophryne montevidensis e Anchovia clupeoides com 2; Scorpaena isthmensis, Trachinotus goodei, Gymnachirus nudus, Paralichthys patagonicus, Rhinoptera bonasus, Mycteroperca rubra, Syngnathus rousseau, Sphoeroides testudineus, Haemulidae não identificado, Lagocephalus laevigatus, Cetengraulis edentulus, Citharichthys arenaceus, Chirocentrodon
bleekerianus, Diplectrum radiale, Sympterygia bonapartei, Odontognathus mucronatus, Auxis rochei, Elops saurus, Gymnothoray ocellattus, Engraulidae n.i., Trachinotus carolinus, Cynoscion microlepidotus, Ophichthus parilis, Pomadasys ramosus, Mugil curema, Syacium micrurum, Cynocium jamaicensis, Atlantoraja castelnaui, Scorpaena díspar, Citharichthys spilopterus, Scorpaena brasiliensis, Balistes capriscus e Psammobatis sp cada com um 1 exemplar.
A espécie Paralonchurus brasiliensis (Maria-luíza) foi a mais comum nos descartes, e esteve presente em todas as artes de pesca analisadas: 73,93% na pesca de arrasto de portas, 24,44% na parelha e 1,63% no emalhe. O coió Dactylopterus volitans apresentou a maior quantidade de indivíduos descartados, 1.683 exemplares, 20,83% do total de peixes, exclusivos nos arrastos de portas e de parelha. Os arrastos (portas e parelha) apresentaram o maior número de espécies de peixes descartadas (97,46%).
Dentre os crustáceos, o maior destaque em número foi o siri-baú Hepatus pudibundus (35,37% do total), seguido pelo siri Callinectes ornatus (25,96%), ambos em arrastos (portas e parelha), e outras espécies ocorrentes foram a tamburutaca Squilla brasiliensis (4,29%), o camarão sete-barbas Xiphopenaeus kroyeri (2,65%) e o ermitão Dardanus arrosor (1,84%).
Nos moluscos, o gastrópode Olivancillaria urceus (46,28%), as lulas Lollingula brevis (20,74%) e Doritheutis plei (14,62%) e o bivalve Anadara brasiliensis (7,64%), todos presentes nos arrastos.
Dentre os peixes, a maior ocorrência nos arrastos foi de Dactylopterus volitans (34,82%), seguido por Paralonchurus brasiliensis (19,01%) e Larimus brevips (18,58%). No emalhe, Stellifer rastrifer predominou (36,27%), seguido por Oligoplites saliens (9,80%) e Paralonchurus brasiliensis (6,37%). Esta última foi a única espécie com destaque em ambas, com diferenças quanto a tamanho, FO% e estágios de maturação, sendo 53,84% fêmeas em estádio de maturação avançada no emalhe. Esta arte de pesca é mais seletiva quanto a tamanho, sugerindo a maior participação de fêmeas em estágio de maturação avançada decorrente do maior perímetro corporal na região ventral nessa fase reprodutiva, o que amplia a probabilidade de captura mesmo na menor malha empregada (7 ou 70 mm), semelhante ao que Alves et al. (2012) observaram para outras espécies de Sciaenidae.
Tabela 1-Lista dos táxons amostrados por petrecho de pesca. Dactylopterus volitans 1.504 179 - 1.683 Paralonchurus brasiliensis 590 195 13 798 Larimus breviceps 414 259 11 684 Isopisthus parvipinnis 222 124 2 348 Macrodon atricauda 342 - 4 346 Stellifer brasiliensis 295 1 3 299 Pellona harroweri 78 188 - 266 Diapterus rhombeus 88 162 2 252 Harengula clupeola 6 236 1 243 Porichthys porosissimus 205 7 1 213 Stellifer rastrifer 126 7 74 207 Prionotus punctatus 71 133 - 204 Peprilus xanthurus 91 100 3 194 Trichiurus lepturus 137 17 7 161 Stellifer stellifer 142 - 1 143 Eucinostomus gula 134 6 - 140 Chloroscombrus chrysurus 11 122 3 136 Cynoscion leiarchus 2 128 - 130 Ctenosciaena gracilicirrhus 103 21 - 124 Menticirrhus americanus 65 49 2 116
Stellifer brasiliensis afins 93 - - 93
Micropogonias furnieri 42 20 20 82 Anchoa sp 36 43 - 79 Priacanthus arenatus 53 17 - 70 Haemulopsis corvinaeformis 11 54 - 65 Umbrina canosai 63 1 - 64 Dules auriga 63 - - 63 Chilomycterus spinosus 13 48 - 61 Trachurus lathami 4 56 - 60 Anchoviella lepidentostole 55 1 - 56 Orthopristis ruber 18 32 1 51 Brevoortia aurea - 3 - 3 Decapterus tabl 37 3 - 40 Eucinostomus sp 35 - - 35 Oligoplites saliens 1 8 20 29 Anchoa tricolor 22 6 - 28 Etropus longimanus 26 1 - 27 Symphurus tessellatus 26 - - 26 Umbrina coroides 26 - - 26 Stellifer brasiliensis 25 - - 25 Syacium papillosum 7 17 - 24 Decapterus punctatus 20 - - 20 Urophycis brasiliensis 17 3 - 20 Genidens genidens 8 - 9 17 Percophis brasiliensis 16 - - 16 Ctenosciaena gracillicirhus 15 - - 15 Selene setapinnis 4 10 - 14 Cynoscion guatucupa 13 - - 13 Pagrus pagrus 12 - - 12 Mullus argentinae 11 - - 11 Bagre bagre 7 - 3 10 Trinectes paulistanus 8 - 2 10 Zapteryx brevirostris 9 1 - 10 Arrastos
Portas Parelha Emalhe Total Táxons
Nos arrastos na maior parte das vezes (41,52%) para P. brasiliensis nem foi possível obter estágio de maturação gonadal devido ao estado que o peixe chega (danificado por conta do próprio arrasto) ou se tratar de fêmeas imaturas (9,15%).
No emalhe os descartes ocorrem em diferentes maneiras, mais associadas com aspectos de condição da captura (se predados e/ou com outros danos ao aspecto geral que possam impedir a comercialização), já que devido à seletividade diferenciada, adequação do aparelho de captura (TOMÁS et al. 2006) não captura exemplares tão pequenos como nos arrastos, com inclusive (segundo ainda TOMÁS et al. 2006) menor captura de imaturos, o que os resultados deste presente relatório corroboram.
Nos arrastos o maior indivíduo amostrado foi um peixe espada Trichiurus lepturus de 101,6cm e o menor uma manjuba Anchoa sp. de 2,5cm; No emalhe, o maior exemplar registrado foi T. lepturus de 113cm e o menor uma P. brasiliensis de 9,6cm. Para o cangoá S. rastrifer também se pode exemplificar essa diferença: maior na pesca de emalhe (22,2cm) e menor (6,5cm) nos arrastos; no emalhe o menor dessa espécie teve 10,6cm.
Os tamanhos médios foram de 8,44+/- 0,05cm no arrasto e 23,71+/-0,26cm no emalhe para L. brevips, 12,52+/-0,08cm no arrasto e 19,03+/-0,47cm no emalhe para P.brasiliensis, 15,3+/-0,07cm no arrasto e 16,06+/- 0,34cm no emalhe para S. rastrifer. CONCLUSÕES
Apesar de muitas espécies registradas nos descartes apresentarem algum interesse comercial as suas presenças variam de acordo com a arte de pesca utilizada.
Como esperado, os arrastos de portas e de parelha, face à menor seletividade, apresentaram espécies descartadas em maiores quantidades.
A presença e frequência de espécies de grande interesse comercial nos descartes ratifica a importância e a continuidade de estudos deste tipo.
ATIVIDADES COMPLEMENTARES
Ao longo do estágio, participei mensalmente das coletas com picaré e beam trawl nas praias de Itararé (São Vicente) e do José Menino e Aparecida (ambas em Santos), do projeto Ïctiofauna da Zona de Arrebentação, que me proporcionou conhecimento com outras espécies.
Também colaborei na coleta de dados para o projeto “Capturas Não Reportadas - Pesca Recreativa”, em saídas de campo em diversos municípios da Baixada Santista.
Este projeto avalia a composição das capturas da pesca recreativa e é tema de dissertação do Programa de Pós-graduação em Aquicultura e Pesca do Instituto de Pesca.
AVALIAÇÃO DO BOLSISTA
O projeto de iniciação científica contribuiu para meu crescimento profissional, pois nesse período obtive experiências em saídas de campo, visitas em comunidades de pescadores, de modo a conhecer a relação pescador-pescado e as espécies capturadas.
Aprendi nas visitas frequentes ao Terminal Público Pesqueiro de Santos (TPPS) como funcionam embarcações de arrasto de portas e de parelha, as traineiras da pesca de sardinha e os emalhes, presenciando alguns dos seus desembarques.
Em laboratório obtive experiência em taxonomia, identificar sexo e estágios de maturação gonadal em peixes.
AVALIAÇÃO DO ORIENTADOR
A bolsista teve a oportunidade de conviver com o mundo da pesquisa, acompanhando desde o delineamento amostral, a coleta, análises e interpretação de dados, de modo que entenda como é um processo de criação de uma pesquisa científica, o que norteia de fato uma Iniciação Científica.
Os conhecimentos adquiridos são complementares aos ofertados na instituição de ensino onde desenvolve a graduação, de modo que amplia o acesso ao conhecimento e a oportunidade de desenvolver eventuais talentos que estivessem eventualmente adormecidos.
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