ANDRADE, Simone M. A. de C. Orientadora: Profª Drª Ivani C. Fazenda
Mestranda
Resumo
Este projeto de pesquisa foi originado por questionamentos gerados a partir de uma pesquisae da minha prática como profissional como psicóloga e educadora. Os resultados deste estudo evidenciaram, a partir da dimensão simbólica de representações gráficas (desenhos) um sentimento de fragmentação existencial existente no processo educacional. Assim, objetiva-se aprofundar reflexões sobre a possibilidade de explorar a linguagem simbólica como um recurso possível na formação de educadores com o intuito de mobilizar o educador para uma prática mais integral inter e transdisciplinar em sala de aula. A metodologia utilizada será qualitativa, com base na fenomenologia hermenêutica. Deverá ser realizada uma vasta revisão de literatura utilizando pressupostos teóricos da psicologia analítica, pedagogia simbólica, inter e transdisciplinaridade e currículo. Dessa forma, esta proposta poderia resultar na construção da dimensão espiritual no currículo.
Palavras-chave: Espiritualidade. Fragmentação. Dimensão simbólica .Prática interdisciplinar.
1-INTRODUÇÃO
Este projeto de pesquisa para mestrado resulta da experiência de mais de quinze anos na clínica como psicóloga, atuante em consultório e em escolas, particulares e públicas, trabalhando com crianças, famílias e educadores.
Observo em muitas crianças e educadores uma grande tristeza e um sentimento de esvaziamento em relação à Escola. A escola, como ressalta Moreira1 é um reflexo de nossa sociedade: “o importante é notar que o processo de divisão instalado em nossa sociedade que separa emoção e pensamento, lazer e trabalho, arte e vida, e que conseqüentemente a escola reproduz, está começando cada vez mais cedo.” Os referenciais teóricos e muitas vezes, as
nossas práticas, enquanto educadores são insuficientes ou inadequadas, e nos distanciam do educando em sua totalidade.
Com o intuito de buscar novos conhecimentos para ampliar esta reflexão e compreender melhor o universo infantil, me deparei com o caminho simbólico, ou seja, procurando ampliar o meu conhecimento sobre a criança, surgiu o próprio símbolo como caminho, conforme situava a educadora, Adriana Friedmann2, a qual já trabalhava há muitos anos com essa linguagem relacionada a criança, e na época, começaria a ministrar um curso sobre essa temática com o título de “Universo Simbólico da Criança”. Assim, realizei, juntamente com um pequeno grupo de profissionais durante três anos, esse curso (o que agora reconheço como um curso interdisciplinar). Como finalização do curso, realizei uma pesquisa motivada por uma inquietação pessoal, relacionada à percepção da criança em relação ao educador. Para atingir esse objetivo, estudei sobre as linguagens simbólicas refletidas através da produção gráfica, em contextos escolares diferentes realizando um trabalho que foi apresentado no Fórum Universidade e Espiritualidade, na UFRGS, realizado durante o período de 23 a 26/05 de 2007.
Os resultados desse estudo evidenciaram, a partir da percepção da criança, através da dimensão simbólica de representações gráficas (desenhos) e corporais, um sentimento de fragmentação existencial do aluno existente no processo educacional. Assim como escreveu Severino3 : “A superação da fragmentação da prática da escola só se tornará possível se ela se tornar o lugar de um projeto educacional entendido como o conjunto de propostas e planos de ação com finalidades baseadas em valores previamente explicitados e assumidos, ou seja, de propostas e planos fundados numa intencionalidade” e ainda descreve “... o projeto educacional como um campo de forças, como se fosse um campo magnético, no âmbito do quais as ações soladas, autônomas, diferenciadas, postas pelos agentes da prática educacional, encontra articulação e convergência em torno de um sentido norteador”. Penso que a linguagem simbólica poderia ser utilizada nesse “campo”, pois, seria um elemento de conexão, de integração, ajudando a configurar e direcionar esse campo.
Acredito nesse caminho de vivência integradora e transformadora através do simbólico. No estudo anterior, no qual me referi anteriormente, pude vivenciar com as crianças um verdadeiro encontro, hoje posso definir como uma vivência simbólica4, na qual me senti inteira e as crianças puderam expressar seus sentimentos, através de dramatização e
2 Adriana Friedmann é educadora, co-fundadora da Aliança pela Infância e coordenadora do Núcleo de Estudos e
Pesquisa em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento, autora do livro “o universo simbólico da criança –olhares sensíveis para a infância”, edit.Vozes.
3 Artigo de Antonio Joaquim Severino ,inserido no livro Didática e Interdisciplinaridade,p.39,11° ed Papirus
desenhos. Pude sentir com as mesmas, a mudança de estado de humor, onde a alegria contagiou o ambiente. Senti a inteireza de nossos seres, nossos corpos se movimentaram, expressaram o que precisavam expressar;o amor podia ser sentido no ambiente. Essa seria a espiritualidade vivenciada em sala de aula em um projeto interdisciplinar?
Wilber (apud Parode, 2007: 23) ressalta que viver a vida seria como se o fosse num processo mitologicamente, ou seja, o nosso aprendizado pressupõe ampliar a nossa consciência para vivermos mais “inteiros” no dia a dia, buscando compreender o transcendente, vê-lo vivo na própria pessoa, na própria vida, no trabalho, nos amigos e no meio ambiente.
A escola, contraditoriamente, ainda muitas vezes, é sentida como um “peso” para a vida infantil. Na pesquisa realizada por Furlanetto5, a autora, por exemplo, utiliza a leitura simbólica, como um caminho para ampliar a visão do educador em relação ao seu aluno. A pesquisadora ressalta a necessidade da qual compartilho “... de compreender a Educação como algo que extrapola as relações ao nível de consciência”, ou seja, dessa forma, acredito também ser necessário utilizar recursos da psicologia, compreendendo a dimensão simbólica como uma possibilidade de buscar essa leitura mais integrada no contexto escolar. Explica na sua prática a percepção de que “... muitas vezes educamos como se o ser humano fosse apenas um ser racional, esquecendo-nos que ele além de pensar, simboliza, isto é, estabelecem-se relações que não são pautadas na lógica mais profunda do consciente, mas sim em uma lógica mais profunda do inconsciente; e esta nós educadores muitas vezes desconsideramos”.
Esta colocação me faz refletir sobre a formação deste profissional, o professor parece ainda pouco preparado para trabalhar com esta compreensão. Para que haja esta ampliação na prática do professor é “necessário pensar em sua formação, além de modelos que privilegiem a racionalidade técnica”(Furlanetto,2007), devemos levar em conta os avanços culturais e a necessidade de se trabalhar com a própria subjetividade em sua formação, ainda como complementa a autora “...cada vez fica mais claro que as professoras e professores ,mulheres e homens inacabados ,contraditórios e multifacetados –com histórias pessoais forjadas nas relações que estabelecem com o outro , a cultura e consigo mesmos –fazem escolhas, criam-se e recriam-se encontrando formas de crescer e de exercer profissionalmente”. Acredito que só a partir desse trabalho vivencial com a própria subjetividade e a criação desse espaço no próprio currículo, da inclusão da linguagem simbólica já na sua formação, o professor estará
4 Segundo Dr. Byington “todas as coisas e vivências são símbolos.A percepção da parte como símbolo a remete
ao Todo .Assim conceituado o símbolo é a célula da Psique (Saiz laureiro ,1989).Ensinar por intermédio do símbolo ,por conseguinte ,é situar a parte inseparavelmente do Todo.”( 2003,p.34/35)
5 Dissertação apresentada por Ecleide Cunico Furlanetto, em 1989, para obtenção do título de mestrado em
mais preparado para trabalhar com outras dimensões e não só com a racional, em sala de aula, ou seja, poderá ser despertado já na sua formação para uma prática interdisciplinar, considerando interdisciplinaridade como “uma nova atitude diante da questão do conhecimento, da abertura à compreensão de aspectos ocultos do ato de aprender e dos aparentemente expressos, colocando-os em questão” (Fazenda,2002).
Segundo Japiassú, "a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa...", como é o caso do Projeto Pedagógico da Escola, fio condutor de nossas ações educativas e compromisso profissional.
Segundo Martín-Baró (1985) um trabalho de orientação escolar conscientizadora
Supõe um esforço para proporcionar a transmissão de capacidade crítica e criativa dos alunos frente ao que a escola e a sociedade lhes oferecem um estilo diferente de confrontar a vida social e laboral. “Trata-se não somente de que os alunos aprendam com os currículos escolares planejados mas , sobretudo, que aprendam a confrontar a realidade de sua
existência com um pensamento crítico”. Em que consiste, então, essa nova colocação teórica e prática do trabalho psicológico conscientizador?
Essa prática implicaria em lidar com a subjetividade e as relações interpessoais no âmbito da escola e em proporcionar aos docentes e demais profissionais da Educação uma reflexão sobre sua prática educativa.
2- REFERENCIAL TEÓRICO
Para este esboço reflexivo são colocadas algumas fundamentações de autores relacionados à interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, pedagogia simbólica, psicologia analítica.
Falar em linguagem simbólica como conteúdo a ser desenvolvido nas escolas é condição suficiente para que se comece a trabalhar nessa perspectiva. Para que haja uma efetiva comunicação, é preciso que haja entre o emissor e o receptor, no caso, os alunos e seu professor, um código em comum. Considerando-se fatores como a velocidade das transformações dos padrões comportamentais, dos códigos verbais e corporais difundidos pelos meios de comunicação de massa, torna-se clara a razão pela qual surge a dificuldade do professor em compreender as mensagens dos alunos. Acredita-se que o estabelecimento de tal tipo de diálogo entre professores e alunos é vital para que de fato sintamos avanços no
processo educacional. Na visão de Davis e Oliveira (1994), relações que necessitam de mediação são estabelecidas entre o sujeito e objeto do conhecimento. Assim, o que o indivíduo aprende por meio de suas experiências individuais são os conceitos espontâneos e a partir deles, havendo a mediação de pessoas mais experientes, esses conceitos passam a ser científicos, por requererem uma maior abstração conceitual que os espontâneos – que se referem a objetos ou situações observados, manipulados ou vivenciados diretamente.
Penso que a transdisciplinaridade também poderia contribuir para o que o que Wilber (2000) chama de educação integral, ou seja, contribuiria, a partir do reconhecimento das dimensões inerentes ao ser humano que são: corpo, mente, emoção e espírito, um movimento de síntese, propiciando, dessa forma um sentimento de totalidade no próprio desenvolvimento.
Assim, conceituando espiritualidade, conforme assegura Jean-YvesLeloup:
"[...] o homem é [...] humano naquilo que nele, lhe permite superar-se, abrir-se ao outro, seja o outro nosso vizinho, o nosso próximo, aquele que encontramos, ou o Totalmente Outro. Privar o homem dessa dimensão equivale a privar o homem de sua dimensão espiritual". (2002, p.64). Morin (2002, p.65-66) afirma “que existe uma unidade uma diversidade humana, e ainda, que a unidade está na diversidade e vice-versa. Sendo assim, a extrema diversidade não deve mascarar a unidade, e nem mesmo a unidade básica, mascarar a diversidade, deve-se, portanto, evitar que a unidade desapareça quando surge a diversidade e assim reciprocamente.” Morin, diante deste pensamento de unidade e diversidade, discorre que nas culturas existe uma diversidade que é o interior dos indivíduos.”
De acordo com estes autores, espiritualidade seria a conexão verdadeira da nossa essência ou self, em que o Cosmos seria a força integradora ou divina, ao mesmo tempo o que nos une e nos diferencia, uns dos outros.
3. OBJETIVOS
A partir dessa pesquisa, proponho esboçar, aprofundar e ampliar reflexões sobre a possibilidade de explorar a linguagem simbólica como um recurso possível na formação de educadores de ensino fundamental, utilizar esse conhecimento para mobilizar o desejo do educador para uma prática mais integral inter e transdisciplinar em sala de aula, na qual acredito que poderia diminuir esse sentimento de fragmentação, encontrado na minha prática e estudo anterior. As questões centrais que permeiam este projeto são:
O que e como seria para o professor de escola pública, no ensino fundamental inserir a dimensão espiritual no currículo?O professor percebe como relevante a inserção da dimensão espiritual no currículo?Como os alunos percebem a dimensão espiritual no currículo?
4. METODOLOGIA
Pesquisa Qualitativa, com base na fenomenologia hermenêutica. Esta abordagem de pesquisa permitiria que a mesma fosse um ato de descortinamento, possibilitando que a vivência do processo seja levada em consideração, uma vez que compreende o ser no Mundo a partir da compreensão, comunicação e afetividade. Já a pesquisa da prática Interdisciplinar será melhor fundamentada com base principalmente da pesquisadora Ivani Fazenda, cujo trabalho vem ao encontro de minhas colocações.
Deverão ser realizados desenhos, observações e questionários para um grupo professores, de ensino fundamental, os quais desejam trabalhar com a espiritualidade.Aos alunos das suas classes, farão o mesmo procedimento no começo da pesquisa no intuito de se obter um panorama razoável da realidade existente. Após a coleta serão realizados quatro encontros com o tema de educação integral, utilizando o referencial simbólico e a proposta de auto-conhecimento para esses encontros. Após esses encontros, haverá novo questionário e novas coletas de desenhos para alunos escolhidos pelos professores, após avaliação e conclusão do trabalho.
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