UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCAS DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
THAYSE DA COSTA MACHADO
A PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA CRIANÇAS EM SANTA CATARINA: A HISTÓRIA DE UM CONCURSO
Florianópolis 2019
Thayse da Costa Machado
A PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA CRIANÇAS EM SANTA CATARINA: A HISTÓRIA DE UM CONCURSO
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Mestra em Educação.
Orientadora Prof.ª Dr.ª Eliane Santana Dias Debus
Coorientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Hermínia Lage Laffin
Florianópolis 2019
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor, através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC Machado, Thayse da Costa
A produção literária para crianças em Santa Catarina : a história de um concurso / Thayse da Costa Machado ;
orientadora, Eliane Santana Dias Debus, coorientadora, Maria Hemínia Lage Laffin, 2019.
177 p.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Florianópolis, 2019.
Inclui referências.
1. Educação. 2. Literatura infantil. 3. Santa Catarina. 4. Materialidade do impresso. 5. Linguagem verbal e visual. . I. Santana Dias Debus, Eliane. II. Lage Laffin, Maria Hemínia. III. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Educação. IV. Título.
Dedico esta pesquisa às crianças e aos profissionais do Núcleo de Educação Infantil Municipal Zilda Arns Neumann. Gratidão por me apoiarem diariamente durante os dois anos de mestrado!
AGRADECIMENTOS
Os ciclos que se encerram são cheios de agradecimentos às pessoas que, de alguma, forma comigo trilharam o caminho.
À Eliane Debus, minha orientadora, pelas leituras atentas, marcações precisas, encontros importantes e pela generosidade de partilhar comigo seus saberes.
Aos professores-membros da banca de defesa: Maria Herminia Lage Laffin (UFSC), Lilane Chagas1 (UFSC), Rosane Cordeiro (CFNP), Gladir Cabral (UNESC) e Jilvania Bazzo (UFSC) pela leitura atenta e pelas importantes contribuições.
À Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por me possibilitar tanto aprendizado desde a graduação! Especialmente, aos professores do PPGE/UFSC, que tanto contribuíram e contribuem para minha formação crítica.
Às profissionais do NEIM Dra. Zilda Arns Neumann que me acolheram de forma tão carinhosa (2018-2019) e me incentivam diariamente a continuar estudando. Especialmente, agradeço à Lucila Malagoli e Aline Steck por serem tão afetuosas, solidárias e terem um abraço apertado para partilhar em todos os momentos.
Às crianças que constituem o Grupo 6B e que me tiveram como professora durante os dois anos de mestrado: Allan, Beatriz, Bernardo, Brayan, Davi, Gabriel, Henrique, Julia Caroline, Julia R., Lara, Luiz Eduardo, Marcela, Maria Eduarda, Miguel M., Miguel P., Nicolas, Rayssa, Sofia, Sophia, Vitor e Willian. Obrigada por ensinarem-me tanto!
À minha mãe, Erondina Machado, pelo amor incondicional e por me ajudar diariamente.
Às minhas amigas queridas Aline Effting, Cíntia Andrade, Thayse Junckes, Morgana Welter, Amanda Morais, Taise Couto, Yasmin Pires, Léia Ribeiro, Fabíola Castro e Maiara Pereira por partilharem a vida comigo.
A Deus, sempre.
1
Prof.ª Lilane Chagas ministrou a disciplina Linguagem Escrita e Criança quando cursei a terceira fase em Pedagogia/UFSC (2013.1). Obrigada por fazer parte da minha trajetória acadêmica.
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê;
É preciso transver o mundo.
RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo analisar a produção composta por 10 livros de literatura infantil, resultantes do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (1984-1985) em relação às linguagens verbais, visuais e materialidade, bem como as evidências regionais (SC) presentes, ou não, nesses títulos. Desse modo, há dois objetivos específicos, sendo eles: apresentar estudos acerca dos elementos históricos e teóricos sobre a literatura infantil catarinense e do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense; analisar as linguagens verbais, visuais e a materialidade, bem como as evidências relativas às marcas regionais dos livros de literatura infantil estudados. A pesquisa tem caráter qualitativo, bibliográfico e documental, entendendo o livro infantil também como documento. Para tanto, historicizamos o Concurso de Histórias para a Infância Catarinense; contextualizamos historicamente a literatura infantil produzida no Brasil, e nesse contexto, a literatura produzida no estado de Santa Catarina; refletimos sobre elementos específicos a serem considerados na análise de livro infantil; analisamos as linguagens verbais, visuais e a composição material nos 10 livros e estudamos os elementos regionais destacados nas narrativas. O referencial teórico utilizado para a construção deste trabalho pautou-se nas leituras de estudiosos sobre literatura e infância, entre eles Perrotti (1986), Cademartori (2010), Lajolo e Zilberman (2007), Sachet (1985; 2012), Debus (1996), Coelho (2000), e Lauro Junkes (1992); Coelho (2000), Vale (2001) e Jardim (2001), para ajudar a pensar especificidades da linguagem verbal; Chartier (1996), Lluch (2006) e Nikolajeva (2011), que ajudaram a pensar a materialidade do livro; Linden (2011), que contribui na reflexão sobre as ilustrações; Debus (2017), Debus, Bazzo e Bortolotto (2017) e Bakhtin (2003), que contribuem sobre os conceitos literatura infantil, educação e linguagem; Laraia (2001), que contribui sobre o conceito de cultura, e Hall (2005), que discute sobre a construção da identidade; e, ainda, Olanda; Almeida (2008) e Lima (2000), estudiosas do campo da geografia e literatura. Dessa forma, concluímos que a contribuição dos livros ao pequeno leitor da época não foi referente às evidências regionais, como objetivava o Concurso, mas a possibilidade do desenvolvimento do imaginário por meio da ludicidade presente nos enredos através da linguagem verbal e visual, possibilidade de ampliação do repertório literário para as crianças que tiveram acesso aos livros. As evidências regionais fizeram-se presentes por meio do lúdico, e não de modo utilitário. O Concurso foi
importante para a constituição de um repertório literário infantil produzido no estado de Santa Catarina.
Palavras-chave: Literatura infantil. Santa Catarina. Materialidade do impresso. Linguagem verbal. Linguagem visual.
ABSTRACT
This paper aims at analyzing the development of 10 children's literature books from the Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (1984-1985) - story contest for the childhood of Santa Catarina -, regarding the verbal and visual language and materiality, as well as the presence, or not, of the regional evidences in those titles. Therefore, there are two specific objectives to this paper: presents the studies about the historical and theoretical elements regarding the catarinense child's literature and the contest; analyses the verbal and visual languages and the materiality, just as the evidences regarding the regional marks in the examined child's books. This is a qualitative, bibliographic and documental research, that understands the child's book as a document. For that, we contextualized the "Concurso de Histórias para a Infância Catarinense", historically contextualized the Brazilian child's literature, and, in this respect, the literature produced in the state of Santa Catarina. Also, we reflected about the specific elements that have to be considered when analyzing the child's book; we analyzed the verbal and visual language, as well as the material composition of the books, furthermore, we have studied the regional elements highlighted in the narrative. The theoretical frame in which we based this work was based upon the studies of literature and childhood years, among them Perrotti (1986), Cademartori (2010), Lajolo e Zilberman (2007), Sachet (1985; 2012), Debus (1996), Coelho (2000) and Lauro Junkes (1992); Coelho (2000), Vale (2001) and Jardim (2001), who helped thinking the verbal language particularities; Chartier (1996), Lluch (2006) e Nikolajeva (2011), who based the thinking about the books' materiality; Linden (2011), who assisted the reflection regarding illustrations; Debus (2017), Bazzo and Bortolotto (2017) and Bakhtin (2003), whose studies established the concept of child's literature, education and language; Laraia (2001), who brings the culture concept; Hall (2005), who discuss the identity's development; and Olanda; Almeida (2008) and Lima (200), who focus on geography and literature. Therefore, we realized that the books contribution for the young reader at the time wasn't about the regional evidences, as the contest aimed at, but they contributed for the imaginary, through the plot's playfulness, regarding the verbal and visual languages and the augmentation of the literary repertoire among the children who had access to the books. The regional evidences were present because of the playfulness, not in an utilitarian way. The contest
was very important for the construction of a children's literary repertoire, created in the state of Santa Catarina.
Keywords: Child‟s Literature. Santa Catarina. Publishing material. Verbal Language. Visual Language.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Capa do livro A baleia da praia da Armação, de Gladys Teive ... 94 Figura 2 - A composição do espaço no livro A baleia da praia da Armação ... 96 Figura 3 - Deslocamento de um personagem em A baleia da praia da Armação ... 98 Figura 4 - Verso da capa e contracapa do livro A baleia da praia da Armação ... 99 Figura 5 - Capa do livro A lenda do peixe boi, de Fábio Brüggemann e Danuza Meneghello (1985) ... 99 Figura 6 - Imagem emoldurada em A lenda do peixe-boi ... 102 Figura 7 - Imagens que sugerem movimento em A lenda do peixe boi ... 103 Figura 8 - Capa do livro As traquinagens da tainha Troc, de Eduardo Saavedra (1985) ... 104 Figura 9 - Cultura açoriana nas ilustrações em As traquinagens da tainha Troc ... 105 Figura 10 - Ilustrações coloridas em As traquinagens da tainha Troc . 106 Figura 11 - “Adeus da tainha Troc” em As traquinagens da tainha Troc ... 107 Figura 12 - Imagens que sugerem movimento em As traquinagens da tainha Troc ... 107 Figura 13 - Capa do livro Benina-Bernunça com dor de barriga, de Sérgio Jeremias (1985) ... 108 Figura 14 - Imagem emoldurada em Benina–Bernunça com dor de barriga ... 110 Figura 15 - Imagens que sugerem movimento em Benina-Bernunça com dor de barriga ... 111 Figura 16 - Capa do livro Dr. Barbado: o rei da lagoa, de Paulo J. da Silva (1985) ... 112 Figura 17 - Linguagem verbal e visual em Dr Barbado: o rei da lagoa115 Figura 18 - Imagens que sugerem movimento em Dr. Barbado: o rei da lagoa ... 116 Figura 19 - Capa do livro Gugu da barriga verde, de Ana Lice Brancher (1985) ... 117 Figura 20 - Localização de Santa Catarina no mapa em Gugu da barriga verde ... 118 Figura 21 - A televisão em Gugu da barriga verde ... 118 Figura 22 - Imagens emolduradas em Gugu da barriga verde ... 120
Figura 23 - Detalhes revelados pelas ilustrações em Gugu da barriga verde ... 120 Figura 24 - Capa do livro de Kinkim, o pinguim, de Carla Calazans (1985) ... 121 Figura 26 - A televisão em Kinkim, o pinguim ... 122 Figura 27 - Detalhes revelados pelas ilustrações em Kinkim, o pinguim ... 124 Figura 28 - Imagens que sugerem movimento em Kinkim, o pinguim 124 Figura 29 - Capa do livro Mino, o passarinho do sino, de Sérgio José Meurer (1985) ... 125 Figura 30 - Ilustrações que trabalham cores em Mino, o passarinho do sino ... 127 Figura 31 - Imagens que sugerem movimento em Mino, o passarinho do sino ... 128 Figura 32 - Capa do livro Dorotéia e o Vento Sul, de Gladys Teive (1986) ... 129 Figura 33 - Ilustrações em preto e branco, e ilustrações coloridas em Dorotéia e o vento sul ... 132 Figura 34 - Frase que ocupa a página dupla em Dorotéia e o vento sul ... 132 Figura 35 - O ângulo de visão do pássaro em Dorotéia e o vento sul . 133 Figura 36 - Verso da capa e contracapa do livro Dorotéia e o vento sul ... 134 Figura 37 - Capa do livro A terra do passavento, de Danuza Meneghello (1986) ... 134 Figura 38 - Imagens ligadas na página dupla em A terra do passavento ... 137 Figura 39 - Imagem na posição vertical em A terra do passavento ... 137 Figura 40 - Representação de movimento nas ilustrações de A terra do passavento ... 138
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Títulos publicados na 1ª edição do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense ... 40 Quadro 2 - Títulos publicados na 2ª edição do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense ... 43 Quadro 3 - Primeiros títulos infantis produzidos em Santa Catarina: décadas de 1950-1990 ... 51 Quadro 4 - Elementos regionais apresentados nos títulos analisados . 139 Quadro 5 - Relação entre os elementos regionais e a autoria da narrativa ... 141
LISTA DE ABREVIATURAS
ACARESC Associação de Crédito e Extensão Rural de Santa Catarina
ACARPESC Assistência Pesqueira de Santa Catarina BESC Banco do Estado de Santa Catarina
FCC Fundação Catarinense de Cultura
FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FNLIJ Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil IBM Brasil Indústria, Máquinas e Serviços Ltda. IC Iniciação Científica
LADESC Liga de Apoio ao Desenvolvimento Social Catarinense MArquE Museu de Arqueologia e Etnologia Oswaldo Rodrigues Cabral
MEC Ministério da Educação e Cultura
PIBIC Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica PNBE Programa Nacional Biblioteca da Escola
PNSL Programa Nacional Sala de Leitura PPGE Programa de Pós-Graduação em Educação PROLER Programa Nacional de Incentivo à Leitura SEB Secretaria de Educação Básica
SUPED Sujeito, Processos Educativos e Docência TCC Trabalho de Conclusão de Curso
UDESC Universidade do Estado de Santa Catarina UFSC Universidade Federal de Santa Catarina
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 25 1. CAMINHOS PERCORRIDOS NA PRODUÇÃO LITERÁRIA INFANTIL NO BRASIL ... 31 1.1 CONCURSO DE HISTÓRIAS PARA A INFÂNCIA CATARINENSE: CONTEXTUALIZAÇÃO ... 32 1.2 AS PRINCIPAIS MUDANÇAS NA PRODUÇÃO LITERÁRIA INFANTIL NO BRASIL... 44 1.3 A PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA CRIANÇAS NO ESTADO DE SANTA CATARINA ... 49 1.4 DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS INFANTIS PARA INSTITUIÇÕES PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO ... 57 2 REFERENCIAL TEÓRICO PARA ANÁLISE DO LIVRO DE LITERATURA INFANTIL... 61 2.1 ESPECIFICIDADES DA CONSTRUÇÃO DA PALAVRA LITERÁRIA PARA O PEQUENO LEITOR ... 61 2.2 REFLEXÕES SOBRE A MATERIALIDADE E AS ILUSTRAÇÕES NO LIVRO INFANTIL ... 72 3. CONCURSO DE HISTÓRIAS PARA A INFÂNCIA CATARINENSE: UM OLHAR SOBRE OS LIVROS E AS EVIDÊNCIAS REGIONAIS (SC) EVIDENCIADAS NELES ... 91 3.1 OS LIVROS DO CONCURSO DE HISTÓRIAS PARA A
INFÂNCIA CATARINENSE: LINGUAGENS VERBAIS,
LINGUAGENS VISUAIS E MATERIALIDADE ... 93 3.2 OS ELEMENTOS REGIONAIS QUE COMPÕEM OS LIVROS INFANTIS DO CONCURSO DE HISTÓRIAS PARA A INFÂNCIA CATARINENSE ... 139 3.3 REFLEXÕES SOBRE A LITERATURA INFANTIL E O OBJETIVO DO CONCURSO ... 153 3.4 AUTORES DOS LIVROS ANALISADOS: ALGUMAS INFORMAÇÕES ... 158 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 162 REFERÊNCIAS ... 167 ANEXO A ... 175
INTRODUÇÃO
A palavra ficcional arrebata o leitor para um tempo e espaço que não são os seus. Desse modo, ele experiência um viver distante do seu, ao mesmo tempo tão próximo, e, ao voltar desse encontro ficcional, já não é o mesmo; ele é capaz de reconfigurar o seu viver. (DEBUS, 2017, p. 29).
Compreender e acreditar nas diferentes experiências possibilitadas pela leitura literária e no seu possível caráter transformador faz com que estudiosos não desanimem de pesquisar sobre literatura e escrever literatura para crianças, jovens e adultos. Esta dissertação foca nas especificidades da literatura para o público infantil, em que as linguagens verbal, visual e a materialidade se entrelaçam.
Nossas escolhas sempre estão pautadas em algo que já conhecemos ou queremos de alguma maneira aprofundar. Na quinta fase do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na disciplina Literatura e Infância, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Eliane Debus, comecei2
a compreender a relevância em pesquisar literatura infantil por considerá-la importante na formação leitora dos sujeitos. Nesse ínterim, surgiu a possibilidade de iniciar como bolsista no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC/UFSC/2014-2016), com a pesquisa intitulada 30 anos do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense: a produção e promoção da literatura infantil em Santa Catarina (MACHADO, 2016), sob orientação da mesma professora. Assim deu-se a primeira aproximação com o objeto da pesquisa: investigamos os objetivos do Concurso, os critérios de inscrição e seleção dos livros e as regiões dos inscritos por meio dos arquivos do jornal O Estado3, que se encontram no setor de obras raras da Biblioteca Pública do Estado de Santa
2 No presente parágrafo, eu – Thayse Machado – escrevo na primeira pessoa do
singular por tratar-se de um relato particular, sendo minhas mãos e memórias que o teceram. No decorrer do trabalho, a primeira pessoa do plural prevalecerá por entender o diálogo com as várias vozes que estão no discurso.
3
O Estado foi um jornal do estado de Santa Catarina, criado em 1915, em Florianópolis. O seu auge foi nas décadas de 1970 – década em que alcançou todas as regiões do estado – e 1980. Em 1991, diversos problemas passaram a ocorrer, fazendo com que, em 2007, sua circulação começasse a chegar ao fim, e, em 2009, deixasse de existir.
Catarina. Realizamos também a resenha dos títulos publicados nas duas edições e entrevistamos a organizadora do Concurso em suas duas edições, Mary Garcia.
A partir da pesquisa de Iniciação Científica (IC), observamos a relevância da continuidade dos estudos sobre o Concurso, principalmente sobre os livros infantis que focalizam elementos da cultura do estado de Santa Catarina. Assim, realizamos o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) As marcas do ser catarina nos livros infantis do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (MACHADO, 2016a), com o objetivo de estudar as marcas do “ser catarina”, isto é, os elementos de regionalidade nos livros infantis da coleção Pró-Criança.
Desse modo, a pesquisa realizada em nível de mestrado junto à Linha Sujeito, Processos Educativos e Docência (SUPED), do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UFSC, também em diálogo com o Grupo Literalise – Grupo de pesquisa em literatura infantil e juvenil e práticas de mediação literária, busca ampliar e aprofundar os estudos anteriores sobre os livros infantis publicados no referido Concurso.
Esta pesquisa tem como objetivo analisar a produção composta por 10 livros de literatura infantil, resultantes do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (1984-1985) em relação às linguagens verbais, visuais e materialidade, bem como as evidências regionais (SC) presentes, ou não, nesses títulos. Para tanto, ela possui dois objetivos específicos: o primeiro é o de apresentar estudos acerca dos elementos históricos e teóricos sobre a literatura infantil catarinense e do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense. O segundo é analisar as linguagens verbais, visuais e a materialidade, bem como as evidências relativas às marcas regionais dos livros de literatura infantil estudados.
A importância desta pesquisa em um Programa de Pós-Graduação em Educação está vinculada à concepção de que a literatura possui grande importância na formação do ser humano e na formação de um leitor mais crítico. Desse modo, é relevante de serem desenvolvidos estudos que discutam literatura infantil no campo da Educação. A presente pesquisa traz reflexões importantes sobre os elementos que compõem o livro de literatura infantil, como a materialidade, a linguagem verbal e visual, e apresenta transformações marcantes desses elementos em âmbito nacional e na produção literária do estado de Santa Catarina.
A primeira edição do Concurso ocorreu em 1984 e resultou na publicação de 20 livros, e a segunda edição aconteceu em 1985 e resultou em 11 livros, portanto, a coleção é constituída de 31 títulos. O
Concurso foi promovido pela Comissão Interinstitucional Pró-Criança, coordenado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e patrocinado pela Liga de Apoio ao Desenvolvimento Social Catarinense (LADESC), que daria o nome à coleção.
Os organizadores do Concurso consideravam importante aproximar as crianças de histórias que evidenciassem elementos do estado de Santa Catarina, como a cultura e seu povo, por isso o seu objetivo principal foi o de ''[…] promover narrativas que contassem o folclore e a realidade do estado'' (CONCURSO..., 1984, p. 23). Constata-se, porém, que, dos 31 títulos, 10 apresentam elementos regionais, são eles: A Baleia da praia da Armação, de Gladys Teive, ilustrado por Astrid Munch; A lenda do peixe-boi, de Fábio Brüggemann e Danuza Meneghello, ilustrado por Zito; As traquinagens da tainha Troc, de Eduardo Saavedra, ilustrado por Nice; Benina-Bernunça com dor de barriga, de Sérgio Jeremias de Souza, ilustrado por Astrid Munch; Dr. Barbado: o rei da lagoa, de Paulo J. da Silva, ilustrado por Astrid Munch; Gugu da barriga verde, de Ana Lice Brancher, ilustrado por Mário César Coelho; Kinkim, o pinguim, de Carla Calazans, ilustrado por Astrid Munch; e Mino, o passarinho do sino, de Sérgio Meurer, ilustrado por Astrid Munch, totalizando oito títulos publicados na primeira edição. Os títulos A terra do passavento, de Danuza Meneghello, ilustrado por Nice; e Dorotéia e o vento sul, de Gladys Teive, ilustrado por Nice, publicados na segunda edição. E serão sobre esses 10 títulos que deteremos nosso olhar investigativo.
A produção literária do Concurso está entrelaçada com o boom (COELHO, 2000) da literatura infantil na década de 1970, que foi um período de fortes mudanças estruturais na composição dos livros para infância: temas, aspectos gráficos e linguagem. Dialogando com a produção do país, os livros para a infância produzidos em Santa Catarina também assumem uma nova estrutura e, segundo Celestino Sachet (2012), o Concurso impulsionou essa nova forma de caminhar.
Os livros literários precisam possibilitar ao leitor a fruição, a inquietação, entre outros aspectos próprios da obra literária. Assim, mesmo que de modo implícito, o trabalho aponta as possíveis contribuições da produção literária do Concurso para as crianças de Santa Catarina da década de 1980 e das décadas posteriores a partir da análise dos 10 livros. Consideramos que “[a] literatura infantil e juvenil é assim produzida num determinado contexto, marcado ideologicamente, mas também temporalmente, isto é, ela é fruto de uma determinada época e dos diversos acontecimentos que nela ocorreram”' (BALÇA, 2012, p. 910). Desse modo, acreditamos que, evidenciar esses
títulos, mesmo que a uma distância de tempo considerável de quando foram publicados, é importante por trazer um pouco da história da literatura infantil produzida no estado de Santa Catarina.
Esta pesquisa é caracterizada como bibliográfica e documental. De acordo com Antônio Carlos Gil, “[…] a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos […]” (GIL, 2002, p. 44). A pesquisa documental é semelhante à bibliográfica, que se diferenciam de acordo com a natureza das fontes. “Enquanto a pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se de materiais que não recebem ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos da pesquisa” (GIL, 2002, p. 45). Os livros infantis analisados também serão lidos como documentos.
O presente texto estrutura-se em três capítulos, sendo que os dois primeiros estão articulados ao primeiro objetivo específico da pesquisa, que é apresentar estudos acerca dos elementos históricos e teóricos sobre a literatura infantil catarinense e do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense. O terceiro está relacionado ao segundo objetivo específico da pesquisa, que é analisar as linguagens verbais, visuais e a materialidade bem como as evidências relativas às marcas regionais dos 10 títulos escolhidos para a análise.
No primeiro capítulo, “Caminhos percorridos na produção literária infantil no Brasil”, realizamos a contextualização histórica da literatura infantil produzida no Brasil e, nesse contexto, no estado de Santa Catarina na década do Concurso (considerando também a década de 1970), evidenciando as principais mudanças nas narrativas infantis referentes ao tema, linguagem, aspectos gráficos e os principais acontecimentos decorrentes da produção. Para discutir em contexto mais amplo, contribuem alguns estudiosos sobre literatura e infância, entre eles Perrotti (1986), Cademartori (2010), Lajolo e Zilberman (2007), Sachet (2012), Debus (1996) e Coelho (2000). Para a discussão sobre a literatura produzida em Santa Catarina, contribuem Sachet (1985), Terezinha Junkes (2012), Lauro Junkes (1992) e Debus (1996). Ainda no primeiro capítulo, realizamos a historicização do Concurso por meio dos jornais O Estado e da entrevista com a organizadora do Concurso, Mary Garcia, que hoje atua na FCC. Apresentamos, também, os 31 títulos com as capas, seus autores e ilustradores. Na última parte do capítulo, também evidenciamos o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que perdurou por 18 anos e foi extinto, no ano de 2015.
No segundo capítulo, intitulado “Referencial teórico para a análise do livro de literatura infantil”, refletimos sobre elementos específicos para a referida análise, como questões referentes à construção da palavra literária, às ilustrações e à materialidade. Coelho (2000), Vale (2001) e Jardim (2001) auxiliam a compreender as peculiaridades da linguagem verbal, e, ainda, Debus (2010) discute sobre não ser interessante classificar o livro por faixa etária. Os estudiosos que contribuem para a reflexão sobre os elementos que compõem a materialidade são Chartier (1996), Lluch (2006) e Nikolajeva (2011), e também Linden (2011), que contribui na discussão sobre as ilustrações. As linguagens verbais e visuais e os elementos materiais estão articulados e se complementam. Este capítulo é o fundamento para a análise das linguagens verbais, visuais e da materialidade dos livros infantis publicados no Concurso.
No terceiro capítulo, intitulado “Concurso de Histórias para a Infância Catarinense: um olhar sobre os livros e as evidências regionais (SC) evidenciadas neles”, o foco é refletir sobre as linguagens verbal e visual e a materialidade nos 10 títulos do Concurso e estudar os elementos regionais evidenciados neles. Para tanto, ancoramos nosso olhar em Debus (2017) e Debus, Bazzo e Bortolotto (2017), que contribuem sobre o conceito de literatura infantil, educação e linguagem, Bakhtin (2003) como referencial da linguagem importante, mas usamos suas categorias, Laraia (2001), que contribui sobre o conceito de cultura, e Hall (2005), que discute sobre a construção da identidade. Para além do estudo ser construído a partir das contribuições dos estudiosos citados, também discutimos, a partir de Olanda, Almeida (2008) e Lima (2000), questões referentes à relação geografia e literatura. Ressaltamos ser importante trazer contribuições também do campo da geografia e literatura por se tratar de narrativas que apresentam elementos de uma determinada região.
Neste capítulo, também estudamos sobre questões desenvolvidas por Marilda Merência Rodrigues (2001) em sua dissertação intitulada Pró-criança: por entre creches, livros e canções, a busca de consensos (Santa Catarina - década de 1980). Ao investigarmos sobre pesquisas desenvolvidas sobre o Concurso, essa foi a única encontrada, e ela traz questões importantes sobre o governo do estado de Santa Catarina na época do projeto e os nomes que deram base a ele, porém problematizamos, aqui, somente os pontos relacionados às narrativas, por serem o foco da nossa pesquisa.
1. CAMINHOS PERCORRIDOS NA PRODUÇÃO LITERÁRIA INFANTIL NO BRASIL
Podemos reconhecer uma literatura “catarinense‟‟? Ou convém antes falar na produção literária realizada em Santa Catarina? É literatura catarinense ou literatura de Santa Catarina? A discussão é livre! (JUNKES, 1992, p. 12).
Lauro Junkes, falecido em 2010, foi um estudioso da literatura brasileira e da literatura produzida em Santa Catarina e suas palavras são acolhidas para integrar o início deste capítulo por considerarmos que são inúmeras as suas contribuições para a discussão sobre a produção literária realizada em Santa Catarina ou literatura de Santa Catarina.
Como dito anteriormente, o objetivo é analisar a produção composta por 10 livros de literatura infantil, resultantes do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (1984-1985) em relação às linguagens verbais, visuais e materialidade, bem como as evidências regionais (SC) presentes, ou não, nesses títulos. Para tanto, primeiramente realizamos a historicização do Concurso por meio dos jornais O Estado e da entrevista com a organizadora do Concurso, Mary Garcia, que hoje atua na FCC. Após a contextualização, evidenciamos os 31 títulos publicados no Concurso, seus autores, ilustradores, edição e ano. Consideramos relevante apresentar toda a coleção Pró-Criança por serem livros de difícil acesso atualmente.
Após a historicização, contextualizamos historicamente a literatura produzida para o público infantil no estado de Santa Catarina nas décadas de 1970/1980, no contexto da produção em nível nacional da época, evidenciando suas principais mudanças. Perrotti (1986) destaca que foi um momento de mudança do discurso utilitário para o discurso estético, quando a literatura infantil começou a se distanciar da intencionalidade de transmitir ensinamentos, valores morais, amor à pátria, entre outros aspectos. Sachet (2012) enfatiza que o Concurso impulsionou essa nova literatura em Santa Catarina.
1.1 CONCURSO DE HISTÓRIAS PARA A INFÂNCIA CATARINENSE: CONTEXTUALIZAÇÃO
Como explicitado na introdução, o Concurso de Histórias para a Infância Catarinense foi promovido pela Comissão Interinstitucional Pró-Criança, coordenado pela FCC e patrocinado pela LADESC nos anos de 1984 e 1985, resultando em 31 livros infantis que foram distribuídos para as escolas e creches da rede de ensino público, municipal e estadual, e particular do estado de Santa Catarina, cabendo à Assistência Pesqueira de Santa Catarina (ACARPESC) fazê-los chegar às comunidades pesqueiras e à Associação de Crédito e Extensão Rural de Santa Catarina (ACARESC), à zona rural.
Na primeira edição, que ocorreu em 1984, participaram 1.142 catarinenses entre 5 e 73 anos de idade, de 122 municípios diferentes, resultando na seleção e publicação de 20 títulos. Na segunda edição do Concurso, que ocorreu em 1985, participaram 670 catarinenses, entre 7 e 65 anos de idade, de 92 municípios diferentes, resultando na publicação de 11 títulos.
Segundo o jornal O Estado (CONCURSO..., 1984), o Concurso teve como objetivo principal valorizar os autores do estado Santa Catarina e estimular a criação de histórias para o público leitor de três a seis anos de idade. Observando que as histórias contadas nos jardins de infância ficavam distantes da realidade social, cultural e geográfica de Santa Catarina, a LADESC lançou o Concurso com o objetivo de promover a publicação de livros em que as narrativas tematizassem o folclore e a realidade do estado.
A inscrição para participar do Concurso, segundo arquivos do jornal O Estado (CONCURSO..., 1984), foi gratuita e podia ser realizada nas agências do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), onde ficava disponível o regulamento do Concurso, ou na FCC. Era obrigatório o envio das histórias em envelope, contendo ficha de inscrição, que ficava disponível nas agências do BESC, acompanhado de três vias da história, escritas em letra de fôrma ou máquina, e o título e pseudônimo do autor deveriam ser escritos no verso do envelope.
Era obrigatório que os participantes do Concurso tivessem nascido ou que fossem residentes em Santa Catarina, e não havia idade determinada para a participação, sendo que cada inscrito podia concorrer com duas histórias, inéditas e originais; caso alguma tivesse sido publicada anteriormente ou fosse uma adaptação, não seria aceita. Na primeira edição, foram apresentados 1.142 trabalhos, dos quais pouco mais de 100 foram considerados aptos à disputa do prêmio. O Concurso
premiou individualmente os autores das 10 melhores histórias, que receberam Cr$ 200.000,00 em solenidade especial no dia 24 de novembro de 1984. Todos os autores receberam exemplares publicados de suas histórias, e a LADESC contou com cinco mil exemplares para efetuar a distribuição.
Segundo o arquivo particular de Sérgio Meurer, um dos autores do Concurso, a comissão julgadora foi constituída por Mary Garcia, na época técnica em assuntos culturais e literários da FCC, Maria Schlickmann, na época professora de educação pré-escolar, Adélia Terezinha Massaro, na época diretora do Colégio de Aplicação, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Maria Suzanila Lopes Flores, na época professora do Curso de Educação Artística, da Udesc, Marta Martins da Silva, na época coordenadora dos projetos de Redação, Criatividade e Literatura Infantil para municípios catarinenses e autora de alguns livros infantis e juvenis, Stela Maria Naspolini, na época professora de Literatura infantil e autora do livro Florianópolis conta sua história para crianças, e Milva Maria Dal Ponte (Irmã Jaqueline), na época diretora do Curso Elementar Menino Jesus. Os critérios para a seleção dos livros foram: originalidade, tema e linguagem apropriados para crianças de três a seis anos de idade.
Ainda conforme consta no jornal O Estado (PRÓ-CRIANÇA...,1985), Angela Amin, primeira-dama do estado na época, lançou, em conjunto com a Comissão Pró-Criança e a LADESC, no dia 25 de outubro de 1985, a coleção de livros infantis da edição de 1984, no Palácio Santa Catarina. No evento, ocorreu a premiação dos autores e ilustradores vencedores do 2º Concurso de Histórias do Pró-Criança. “Nosso objetivo é que esses trabalhos cheguem ao maior número possível de crianças de zero a seis anos” (PRÓ-CRIANÇA..., 1985, p. 17), pontuou Angela Amin na ocasião, dizendo ainda acreditar que o Pró-Criança estava, por meio desses concursos, “[…] estimulando a criação literária e também o hábito pela leitura. Nesse último concurso participaram vários estudantes de segundo grau, que veem condições de mostrar sua criação através das publicações da Ladesc”. Segundo o mesmo jornal, no que diz respeito às despesas, foram gastos pela LADESC, para a edição de 1984, cerca de Cr$ 600 milhões, em conjunto com as empresas patrocinadoras, como Coca-Cola, IBM e BESC.
Mary Garcia, organizadora do Concurso, funcionária de carreira na FCC, concedeu-nos entrevista em seu local de trabalho, no segundo semestre do ano de 2015. Naquele momento, a procurávamos com o objetivo de preencher algumas lacunas existentes na história do
Concurso. O encontro teve a duração de aproximada duas horas e levou em conta 10 questões previamente formuladas.
Iniciamos a entrevista apresentando uma breve contextualização da pesquisa realizada na época (“30 Anos do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense: a produção e promoção da literatura infantil em Santa Catarina”) e a questionamos sobre a origem da realização do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense, pois precisávamos compreender as motivações iniciais que levaram ao seu surgimento. Segundo ela:
[…] a mentora do programa, Angela Amin, sempre tinha interesse em trabalhar com zero a seis, porque ela tinha muita preocupação com essa idade. Pelo menos naquela época, o conceito científico era de que tudo na vida do ser humano se resolvia numa base bem estruturada nesse período de zero a seis. […] Com relação à criação do programa, eu não consigo me lembrar quem foi o autor dessa ideia, me parece que tenha sido a própria Angela ou, como a gente era uma equipe de vinte e uma pessoas que compúnhamos um grupo de trabalho, então, havia representantes de todos os setores: da educação, da cultura, que era eu, da ACARESC, na época em que existia a ACARESC, Secretaria da Saúde, enfim, várias representações. [...] E a criação talvez tenha sido no conjunto desse grupo, desse colegiado, porque a gente fazia reuniões, porque tudo era definido colegiadamente. Então, foi resolvido fazer o Concurso, paralelo ao Concurso, um concurso de música para a infância catarinense também. (GARCIA, 2015)
Na fala da entrevistada, percebe-se que a ideia de realizar o Concurso surgiu a partir de reuniões com representantes de diferentes setores públicos, pois o governo da época tinha interesse em projetos4 que beneficiassem crianças bem pequenas, especificamente da faixa etária de zero a seis anos. Interessava-nos saber como foi a divulgação do Concurso nas mídias.
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Neste trabalho, não cabe analisar tais projetos, mas os elementos que compõem os livros literários publicados a partir de um dos projetos do governo de Esperidião Amin em vigência no período.
Se não me falha a memória, pela Secretaria da Educação dos municípios. [...] Era uma rede, em que as coisas iam se entrelaçando, porque na época era muito difícil o acesso aos meios de comunicação, a televisão não pegava em muitos lugares, não era tão simples assim. Hoje é uma loucura, na época não, era escrita, rádio [...] (GARCIA, 2015)
Entendemos, portanto, que a divulgação foi realizada pela Secretaria de Educação e também por meio do jornal O Estado. Entre as notas publicadas, O Estado (CONCURSO...,1984, p. 4) informou sobre a quantidade de trabalhos aptos e os critérios de seleção, sendo eles: originalidade, tema e linguagem apropriados para crianças de três a seis anos de idade, como já mencionado. Perguntamos, então, sobre os critérios que fizeram muitos trabalhos não estarem aptos e que referência teórica norteou os jurados do Concurso.
[...] tinha que ser um livro que fosse compreensível, que ele tivesse uma linguagem boa na perspectiva literária e que tivesse essa característica regionalizada. Uma referência teórica talvez fosse até complicado naquele momento, década de 1980. É também dada a regionalização, tinha que ter um teórico para cada situação, talvez na época a gente nem tivesse, não havia tanta literatura, as que tinham era a Câmara do Livro do Rio Grande do Sul, Fundação Nacional do Infantil e Juvenil […] (GARCIA, 2015)
Mary Garcia (2015), assim como o jornal O Estado, ao explicar os critérios de seleção dos livros, menciona que o enredo deveria apresentar algum elemento regional. Questionamos se o elemento regional que deveria estar presente na narrativa realmente se efetivou como critério de seleção.
Esse critério de seleção estava no rol elencado, mas evidente que em Florianópolis, todos os programas que eu desenvolvi até hoje o edital, a cidade tem a maioria esmagadora de participantes de Florianópolis. Por quê? Porque a concentração é maior, o número de universidades é muito grande, consequentemente, o número de
estudantes, o número de pessoas aptas a participarem de programa é maior comparativamente. […] Então, o critério inicial é que a obra tinha que ter um gosto palatável, ou seja, ela deveria ser uma obra que tivesse alguma coisa que fosse atraente à leitura; possivelmente hoje, eu até quero fazer, quero ler tudo de novo, talvez eu não aprovasse a metade, porque o nível de exigência também mudou completamente. Na época, apesar que a gente teve uma experiência e tudo, mas não sei se tinha o conhecimento de julgar da forma mais qualitativa, por exemplo. A literatura infantil é uma coisa relativamente nova, ela não tem um histórico como a literatura. […] (GARCIA, 2015)
Compreendemos que, além do elemento regional, outros critérios de seleção também foram utilizados para a aprovação das histórias, como os já mencionados: originalidade, tema e linguagem. Portanto, entendemos que as histórias aprovadas e que não apresentam um elemento regional dialogam com esses outros critérios de seleção. No entanto, o objetivo principal do Concurso era o de promover narrativas que contassem o folclore e a realidade do estado – objetivo bastante evidente nos jornais da época e na fala da entrevistada. Os avaliadores também selecionaram histórias que não cumpriram o objetivo principal e, com tal contradição, parece ter acontecido o não cumprimento do que fora prescrito no edital.
Consideramos relevante a justificativa da organizadora de que, na época em que o Concurso ocorreu, talvez não houvesse o conhecimento para selecionar de forma mais qualitativa as histórias. No entanto, a pergunta permanece: qual fator ou quais fatores contribuíram para um grande número de histórias não estarem aptas? Possivelmente, critérios subjetivos fizeram parte da seleção das narrativas. Avaliar as narrativas enviadas de forma qualitativa e a partir de critérios pré-selecionados também se refere a considerar elementos como a ortografia, gramática, desenvolvimento de uma narrativa, criatividade, tamanho da história, entre outros.
Como não havia restrição de idade ou nível escolar para a inscrição, interessava saber se os participantes tinham uma idade determinada, por exemplo, se eram jovens do Ensino Médio ou pessoas que cursavam (ou eram formadas) no Ensino Superior.
Pelo que me lembro, a maioria eram jovens. O que está retido na minha memória de participação, eu acho que alguns não eram tão jovens, mas a maioria era juventude mesmo, que estava começando a escrever, que queria uma oportunidade. Então, eu não lembro, não posso te dizer o perfil deles com certeza, mas o que me retém na memória é que foi a maioria jovem. (GARCIA, 2015)
A partir da entrevista e das informações dos autores, apresentadas na contracapa dos livros, observamos que grande parte destes era composta por jovens, alguns ainda estudantes do Ensino Médio (algumas contracapas apresentam que o autor cursava o 2º grau – termo utilizado na época para se referir ao atual Ensino Médio). Percebemos que, para além do objetivo de possibilitar às crianças pequenas histórias infantis compostas por elementos regionais, também havia o objetivo implícito de possibilitar aos estudantes jovens a oportunidade de escrever e ter uma história publicada, e isso nos pareceu um determinado “estímulo” para aqueles que gostavam de escrever.
Para além da escrita, perguntamos também sobre os ilustradores. Questionamos como ocorreu a busca pelos ilustradores, se o ilustrador também deveria ter nascido ou ser residente em Santa Catarina e se os autores eram responsáveis pela escolha. “Alguns conheciam bons ilustradores, mas a gente também indicou bastante. Ali, o grupo junto com a Angela tinha conhecimento, então foi trazendo o que tinha de melhor, que era uma coisa dificílima” (GARCIA, 2015).
Desse modo, a escolha dos ilustradores era realizada por indicação do autor do livro ou por indicação dos organizadores do Concurso. Astrid Munch foi quem mais ilustrou histórias nas duas edições. Referente aos livros aqui analisados, ela ilustrou cinco narrativas, Nice ilustrou três, Zito, um livro, e Mário César Coelho também um livro. Além dos ilustradores já comentados, Sérgio José Meurer também se fez presente. Não sabemos identificar os ilustradores que foram indicados pelos organizadores ou pelo(a) autor(a).
Outra informação importante obtida por meio da entrevista foi saber como os livros infantis foram distribuídos. O jornal O Estado (CONCURSO..., 1984, p. 23) informou que as obras selecionadas seriam distribuídas, em âmbito estadual, para as redes de ensino público, municipal e estadual, e particular, enquanto a ACARESC acionaria seus mecanismos (os mecanismos não são explicitados por meio da nota do jornal) para os livros chegarem até as crianças da zona rural e a
ACARPESC faria o mesmo em relação às comunidades pesqueiras, como mencionado anteriormente.
Dessa forma, perguntamos como foi a repercussão dos livros, depois de prontos, nas instituições de Educação Infantil e escolas.
A Angela dizia que ela abria as portas e vocês são os técnicos das áreas que têm que executar. Essa distribuição foi muito eficiente, porque cada setor fazia, cada secretaria, era tudo do governo, mas cada um tinha sua especificidade. Então, ACARPESC e ACARESC tinham muitos técnicos. Eles eram incumbidos de passar para cada escola, cada creche. Foi feito somente porque foi feito com esse formato, com essa dinâmica, eu digo, porque aqui [FCC] a gente pena para distribuir pra Santa Catarina as nossas publicações. (GARCIA, 2015)
Desse modo, assim como consta nas notas do jornal O Estado, Mary Garcia também confirma que os livros foram distribuídos para creches e escolas em nível estadual. Para finalizar a entrevista, perguntamos sobre sua avaliação sobre a pertinência do Concurso: afinal, ele foi importante para a disseminação da literatura para a infância produzida no estado de Santa Catarina?
Hoje eu considero que essa premiação foi fundamental, não dá nem de mensurar na época, porque a gente não tinha muito essa preocupação. A gente estava imbuída de um ideal de fazer alguma coisa muito boa e que atingisse o máximo que pudesse de crianças, de fato, de todas as camadas sociais, especialmente as menos favorecidas. Então, isso era um ideal que todo mundo era consenso, todo mundo queria participar dessa forma. Agora, hoje pensando a respeito, lamento em primeiro lugar a absoluta ausência de mais programas relativos à área de infantojuvenil do estado, me deixa até uma inquietação grande. Um programa em cima do nosso trabalho, para trazer à tona uma situação que está esquecida que é a infância e juventude do estado de Santa Catarina. E relembrar que não é o fato de não terem sido os melhores livros premiados na época que tiram hoje a grande
responsabilidade e o grande poder de transformação que teve esse Concurso na história de muita criança do estado. Teve criança que teve esse contato pela primeira vez de uma história contada dentro da sua realidade e não daquela coisa que você imagina que está tão longe. Eu imagino a repercussão interna de cada criança e de cada professor, que tenha feito a diferença, porque realmente ela tratou um tema que é esquecido, você conservar a sua origem, de uma forma que seja um orgulho, que seja um conhecimento a mais e que esteja inserido ali dentro da tua perspectiva de ampliação de conhecimento. A gente mensurar isso, acho que não tem como, mas com certeza, é um marco que merece muito respeito, de toda sociedade de Santa Catarina. (GARCIA, 2015)
A avaliação da entrevistada sobre o Concurso é bastante positiva, no entanto, ela acredita que não foram os melhores livros selecionados na época. Como visto, Mary Garcia diz que o Concurso foi transformador para muitas crianças do estado. Refletimos que, possivelmente, tal convicção seja devido ao Concurso possibilitar às crianças o acesso à literatura. O objetivo era bastante importante para a equipe que pensou o Concurso (para o governo da época) e se articulava com a ideia de construir uma identidade catarinense. Nos cabe questionar quais elementos constituem a identidade catarinense para a equipe que se reunia em colegiado para tomar as decisões. Será que os elementos apresentados nas narrativas são aqueles que, para eles, deveriam constituir a identidade catarinense?
Alguns elementos gerais sobre a materialidade dos livros estudados são importantes de serem apresentados, já que o Concurso ocorreu na década de 1980 e, hoje, poucas pessoas conhecem a coleção Pró-Criança. De forma geral, os livros são do mesmo tamanho e formato: papel couché, acabamento em grampo e sem lombada. A capa do livro é constituída pelo título, a ilustração da história a ser contada, a logomarca da coleção Pró-Criança e o selo do Governo do Estado de Santa Catarina. Todos os livros têm o número do exemplar e aqueles que têm patrocinador possuem também o selo da empresa patrocinadora. O número de páginas varia conforme o tamanho do enredo e não possuem numeração de página.
O verso da capa constitui-se da ficha catalográfica e de uma breve introdução, a qual tem como título, na primeira edição, Histórias para as crianças catarinenses e, na segunda, Coleção Pró-Criança ANO 2, que apresenta informações gerais sobre o Concurso. Na contracapa, há o título do livro, o nome do(a) autor(a) e do(a) ilustrador(a), e algumas informações sobre o autor, como a cidade de origem, também o selo da LADESC e a lista com os títulos e autores das histórias publicadas.
No quadro a seguir, são apresentados os títulos publicados na primeira edição do Concurso, constando: a capa do livro; o nome do(a) autor(a); e o nome do(a) ilustrador(a).
Quadro 1 - Títulos publicados na 1ª edição do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense (Continua...) A Floresta do Rima tudo Luiz de Freitas Astrid Munch A baleia da praia da Armação Gladys Teive Astrid Munch
A lenda do peixe boi Fábio Brüggemann e Danuza Meneghello Zito A mais fabulosa confeitaria do mundo
Ana Rita dos Santos Lopes Astrid Munch A minhoquinha dançarina Sinclair da Silva Nice A laranja bailarina Roseli Schutel Astrid Munch
(Continuação) A palavra mágica Silvia Brum Astrid Munch As traquinagens da tainha Troc Eduardo Saavedra Nice Benina-bernunça com dor de barriga Sérgio Jeremias Astrid Munch Dr. Barbado: o rei da lagoa
Paulo José da Silva Astrid Munch
Gugu da Barriga Verde
Ana Lice Brancher Mário César Coelho
Kinkim, o pinguim Carla Calazans Astrid Munch
Mino, o passarinho do sino
Sérgio José Meurer Astrid Munch
O amiguinho Círculo Ana Janete Pedri de Andrade Lopes Astrid Munch
O chapéu e a chapela Anne Levisky e Silvia Karina Coral
Astrid Munch
(Continuação)
O pingo de chuva Paulo Roberto Ataíde Machado
Astrid Munch
O Pintalho
Neide Maria de Souza Moreira Areco
Astrid Munch
Pituca
Edith Poltronieri Astrid Munch
Um dia na vida do sol Irene Rizman Husmann Nice
Uma sociedade interessante
Vera Maria Silvestre Cruz
Astrid Munch Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2018).
Na primeira edição do Concurso foram publicados 20 livros, totalizando 22 autores, pois as narrativas A Lenda do peixe boi e O
chapéu e a Chapela são construídas por dois autores. Astrid Munch,
Mário César Coelho, Zito e Nice são os ilustradores da edição, sendo que Astrid Munch foi quem mais livros ilustrou – o total de 15 títulos – Mário César Coelho e Zito ilustraram uma história cada, e Nice três títulos. A seguir, apresentamos o quadro com os títulos da segunda edição do Concurso.
Quadro 2 - Títulos publicados na 2ª edição do Concurso de Histórias para a Infância Catarinense
(Continua...)
A lenda das cores Maria Sylvia Carneiro Astrid Munch A terra do passavento Danuza Meneghello Nice Amigos inseparáveis Ruth de Farias Coral Sérgio José Meurer
Doroteia e o vento sul
Gladys Teive Nice
Miguelito o pirulito Else Sant‟Ana Brum Sérgio José Meurer
Palito cabeça de TV Sérgio José Meurer Sérgio José Meurer
Presente da Natureza
Júlio César Ramos Nice
Renata cara de batata
Raquel Régis Ávila Astrid Munch
Um planeta diferente Deise Alberton Sérgio José Meurer
(Continuação)
Uma família feliz Marita Deeke Nice
Vivinha para sempre Elizabete Verônica Tomé
Astrid Munch
Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2018).
Na segunda edição do Concurso, foram publicados 11 livros, totalizando 11 autores e três ilustradores, sendo estes Astrid Munch, Nice e Sérgio José Meurer. Nessa edição, Astrid Munch ilustrou três títulos, Sérgio José Meurer e Nice quatro cada. Danuza Meneghello escreveu a narrativa A lenda do peixe boi em parceria com Fábio Brüggemann na primeira edição e, na segunda, escreveu A terra do passavento, de apenas sua autoria. Gladys Teive também contribuiu com uma história em cada edição: A baleia da praia da Armação (1985) e Doroteia e o Vento Sul (1986). Sérgio José Meurer, autor, na primeira edição, de Mino, o passarinho do sino, também escreveu Palito cabeça de TV, na segunda, e contribuiu como ilustrador.
1.2 AS PRINCIPAIS MUDANÇAS NA PRODUÇÃO LITERÁRIA INFANTIL NO BRASIL
Na década de 1920, surgiu a literatura infantil com marcas de brasilidade por meio dos escritos de José Bento Renato Monteiro Lobato. Lobato distanciou-se do caráter didático dos livros infantis e das histórias importadas da Europa, trazendo novos rumos para a literatura infantil e enfatizando, em suas narrativas, questões sociais: “Dessa natureza é o nacionalismo de Lobato: sem ufanismos, sem patriotada, o olho crítico e impiedoso na realidade do país, a inconformidade com os problemas da sociedade brasileira” (CADEMARTORI, 2010, p. 52).
Como corroboram Lajolo e Zilberman (2007), a partir de então apareceram novos autores e essa se tornou uma etapa bastante fértil da produção brasileira:
A profissionalização, acompanhada de especialização, por parte de editoras e escritores, é um dos traços marcantes do período que ocupa as décadas entre 1940 e 1960. Ele baliza, portanto, a etapa subseqüente do processo de industrialização que acompanha, em paralelo, a história dos livros para a infância no Brasil. Assim, após a fase de estruturação do gênero através de iniciativas pioneiras e corajosas, como a de Monteiro Lobato, o momento seguinte foi uma etapa de produção intensa e fabricação em série, respondendo de modo ativo às exigências crescentes do mercado consumidor em expansão. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2007, p. 82-83)
Anteriormente aos escritos de Lobato, precisamente desde o século XIX, as produções para o público infantil eram escassas e tinham caráter de discurso utilitário, com o objetivo de passar ensinamentos, valores morais, amor à pátria, entre outros. “Nunca importou muito, por exemplo, a coerência interna das narrativas, em nenhum de seus aspectos: personagens, enredo, tempo e espaço” (PERROTTI, 1986, p. 27). Perrotti (1986) argumenta que a “dependência cultural” em relação à produção portuguesa dura até o início do século XX, e se rompe somente nos primeiros anos desse século, quando os livros começam a ser produzidos com um teor nacionalista, surgindo “[…] no Brasil, uma preocupação de abrasileirar a linguagem dos textos escritos para crianças vindos de fora, para torná-los mais atraentes” (PERROTTI, 1986, p. 57).
Antes da década de 1920, as escassas histórias para crianças eram importadas de Portugal ou escritas para fins didáticos, porém, a partir dos escritos de Lobato, constroem-se outros caminhos para a literatura infantil, embora muitos ainda tivessem um caráter didático e utilizassem de um discurso utilitário.
Lajolo e Zilberman (2007) consideram que, nas décadas de 1960 e 1970, “[...] em comum com certas vertentes da narrativa contemporânea, empenhada na representação da realidade brasileira, a narrativa infantil mais significativa aderiu à temática urbana, fazendo-se porta-voz de denúncias da crise social brasileira‟‟ (LOJOLO;
ZILBERMAN, 2007, p. 159). Na década de 1980 ficaram de lado histórias que apresentam heróis pátrios e conteúdos escolares, mas ainda permanecia uma preocupação educativa que se articulava com valores menos tradicionais, entendidos como libertadores.
Perrotti (1986) considera a década de 1970 um marco, momento em que ocorreu a mudança do discurso utilitário, até então presente nas narrativas infantis, para o discurso estético, e explicita a diferença entre os dois:
[…] o discurso utilitário marca um tipo de relação entre narrador e leitor: a relação de doutrinação, onde o primeiro oferece o mundo acabado ao segundo, que deverá incorporá-lo a seu universo. Em tais condições, a linguagem torna-se fetiche, dotada de vida própria, uma vez que ''esconde'' sua condição para confundir-se ela própria com a coisa representada. Assim, a linguagem assume-se a si mesma enquanto ''verdade'', proclamando-se útil. Daí a necessidade de ''encenação'' da linguagem, quando se pretende alcançar o ''estético''. A encenação cria no leitor uma distância crítica: ele sabe que o que lê é ''ilusão'', ''criação''. Com isso o útil que está sempre presente na obra literária torna-se possibilidade e não certeza […] (PERROTTI, 1986, p. 84). As mudanças nas histórias destinadas ao público infantil, a partir de 1970, em particular, ocorreram a partir de três eixos: o primeiro está articulado à temática das narrativas, pois começaram a surgir temas de relevância política, afetiva, social, entre outros, os quais, por vezes, tinham relação com os acontecimentos que ocorriam no Brasil, na época. Nessa perspectiva, as autoras Lajolo e Zilberman (2007, p. 122) apontam que “[a] literatura infantil brasileira mais contemporânea também reata pontas com a tradição lobatiana por outras vias. Por exemplo, pela inversão a que submete os conteúdos mais típicos da literatura infantil”.
O segundo eixo focaliza os aspectos gráficos do livro infantil, destacando-se a sua materialidade, como o tipo de papel, o tamanho das letras, a ilustração, que não são ''mais vistos como subsidiários do texto, e sim como elemento autônomo, praticamente auto-suficiente'' (LAJOLO; ZILBERMAN, 2007, p. 124-125). O terceiro eixo reporta-se à linguagem:
Marca bastante típica dos livros infantis de 1960 para cá é a incorporação da oralidade, tanto na narrativa quanto na poesia. A tentativa de fazer uso de uma linguagem mais coloquial é outra forma de a literatura para crianças aproximar-se tanto das propostas literárias assumidas pelos modernistas de 22, quanto da herança lobatiana. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2007, p. 151).
As transformações no eixo da linguagem articulam-se com o distanciamento de um modelo padrão formal culto para se articular ao objetivo de apresentar, nas histórias infantis, diferentes contextos e culturas. Lajolo e Zilberman (2007) afirmam que as mudanças ocorridas na linguagem das narrativas se entrelaçam com os enredos e personagens que estavam se distanciando dos valores dominantes.
Segundo Sachet (2012), muitas histórias classificadas atualmente como literatura infantil e juvenil não foram produzidas pensando nesses públicos, apresentando, como exemplo, o livro Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift, que é “[...] uma violenta sátira contra a sociedade irlandesa, nada poderia significar para um adolescente e, muito menos, para uma criança da época‟‟ (SACHET, 2012, p. 514). O autor também observa que, para conceituar uma obra em literatura infantil e juvenil, não importa se foi escrita por uma criança, adolescente ou adulto. Consideramos que não é qualquer livro que atrai as crianças, elas gostam de livros de adultos pelo desejo de aventura e se interessam pelo elemento fantasioso e mágico.
A expressão literatura infantojuvenil denomina “[...] um texto adotado pela criança ou pelo adolescente porque os dois grupos sentem-se atraídos pela história e/ou pela técnica que impregna o texto‟‟ (SACHET, 2012, p. 514). Ele ainda destaca que, hoje, a intenção das literaturas infantil e juvenil não deve se centrar no ajustamento do leitor a valores e hábitos, mas deve possibilitar a “[...] superação da dependência, pela aquisição de autonomia no raciocínio e nos modos de agir. Daí ser possível deduzir que esse tipo de literatura não deve apresentar apenas uma finalidade didática ou moral como aconteceu nos primeiros tempos dessa nova forma de manifestação estética‟‟ (SACHET, 2012, p. 515, grifos do autor).
Sachet (2012, 520-521) também contribui para a compreensão das mudanças ocorridas após a segunda metade do século XX, observando que:
A força dessa literatura nova está na presença de um enorme grupo de autores que pelo Brasil afora comparece com textos que desviam o tradicional eixo-do-didático ou maravilhoso-bem-comportado para enveredar pelas quebradas e pelos ângulos de um maravilhoso agressivo, inesperado, repreensível, politicamente incorreto a partir da própria capa do livro, em que o jogo das palavras e os sons do título abrem um novo caminho de interpretações e de estranhos significados. Debus (1996) destaca importantes acontecimentos que antecederam a década de 1970, como a criação da Fundação do Livro Escolar, em 1966, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), criada em 1968, o Centro de Estudo de Literatura Infantil e Juvenil, que luta pela valorização do genêro, em 1973, a Fundação da Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, criada em 1979, o Instituto Nacional do Livro, criado em 1937, que coedita obras infantis e juvenis na década de 1970, e “A Lei 5.692/71, de Diretrizes e Bases da Educação, com a ampliação do nível de escolaridade, vem acelerar o processo de fomento do genêro, também, ao recomendar a leitura de autores nacionais no ensino de primeiro grau” (DEBUS, 1996, p. 16-17).
Coelho (2000) denomina o boom da literatura infantil de uma fase inovadora pós-lobatiana, a qual aconteceu a partir das décadas de 1960 e 1970, pois “por uma visão panorâmica das obras criativas, ou melhor, das que apresentam valor literário original, vimos que elas podem ser distribuídas em duas grandes áreas: a do questionamento e a da representação” (NOVAES, 2000, p. 150, grifos da autora). Desse modo, as obras distribuídas no âmbito do questionamento são inovadoras, e as distribuídas no âmbito da representação são continuadoras, sendo que ambas têm relevância no campo da literatura. Segundo a autora, a intencionalidade da obra é a principal diferença entre elas:
[…]as primeiras questionam o mundo – procurando estimular seus pequenos leitores a transformá-lo, um dia; as segundas representam o mundo – procurando mostrar (ou denunciar) os caminhos ou os comportamentos a serem assumidos (ou evitados) para a realização de uma vida mais plena e mais justa. Dessa intencionalidade (consciente ou inconsciente)
derivam as diferenças literárias que as distinguem. (NOVAES, 2000, p. 150, grifos da autora) Coelho (2000) evidencia que ambas têm um objetivo muito importante, o de dar prazer ao leitor, sendo que o valor de um livro está entrelaçado com uma visão questionadora de mundo, e ela está em constante mudança. Assim, possibilita o desenvolvimento de uma consciência crítica, pois permite ao leitor, mesmo ao pequeno, refletir sobre o mundo.
Não é de repente que os escritos para o público infantil passaram do discurso utilitário, com fins didáticos e moralizantes, para o literário, o qual possibilita a fruição, o prazer, a inquietação, entre outras possibilidades. Muitos continuam a apresentar enredos moralizantes, preocupados em passar ensinamentos, basta verificar muitas das produções contemporâneas no mercado editorial.
As transformações na literatura infantil estão sempre articuladas às constantes mudanças que ocorrem na sociedade. No período das transformações contextualizadas, aconteciam, no Brasil, grandes mudanças em diferentes áreas, como na política e na economia, entre outras. Não podemos deixar de mencionar que as mudanças de mercado também possuem articulação com as transformações na literatura. É também por meio da literatura que surge a possibilidade de formar um sujeito crítico e pensante, que não seja um mero receptor de ensinamentos.
1.3 A PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA CRIANÇAS NO ESTADO DE SANTA CATARINA
Na década de 1970, ocorreram mudanças nas literaturas infantil e juvenil produzidas no estado de Santa Catarina e tais transformações articularam-se com aquelas ocorridas em nível nacional, referentes à temática das narrativas, surgindo temas de importância social, política, afetiva, entre outros. Houve transformações também ligadas aos aspectos gráficos, como o tipo de papel, o tamanho das letras e as ilustrações, que passaram a ser vistos como elementos autônomos e não auxiliares à linguagem verbal, e, ainda, mudanças na própria linguagem. Silva (2009, p. 19) destaca que “[...] somente a partir de 1970 a produção literária dos escritores catarinenses endereçada a crianças e jovens vem a público sem a preocupação doutrinária ou com incumbência de educar e formar esse futuro homem”.