O Dever Político Dos Cristãos
Silvio Meincke
Introdução
O s políticos e a política experim entam um a fase de profundo des crédito entre os brasileiros. H á sérias razões para esse descrédito. Há to da um a prática política viciad a que com eça já na busca do voto. C and i datos e povo têm exercitado um a inventiva cum plicidade para a mercan- tilização do voto. U m a vez eleitos, os políticos têm cuidado de usar os seus m andatos m ais para auto-servir-se do que para servir ao bem co mum. Isso leva muitos a pensarem em desistir totalmente de qualquer participação na política. C^utros desejam um governo autoritário na espe rança de que o m esm o m oralize o processo político. A in d a outros ficam a esperar.pelo líder forte, íntegro, correto e de bons ideais que conduza o povo com justiça e resolva se u s problemas.
Entre os cristãos há m uitos que consideram a prática política com o indigna para quem se volta à s coisas do espírito. Por isso, se abstêm de participar ativamente. Outros optam por um procedimento dicotômico. Dividem o m undo em d u a s e sferas e levam vida dupla: Em casa, são cris tãos; lá fora, são políticos. Poucos conseguem estabelecer um a relação integrada desses dois aspectos d a vida cristã: A fé e a política.
Importa que o p o v o 1 volte a confiar, não em indivíduos isolados, não em candidatos que criam n o v a s artim anhas na busca do voto, nem m esm o em pretensas p e rson alid ad és íntegras e idealistas; importa que o povo volte a confiar em si m esm o, na sua capacidade de organização e no seu poder de participar na edificação da sociedade.
1 — Q ua ndo usam os o termo " p o v o " , referim o-nos à m aioria dos brasileiros que não têm poder para participar organizadam ente n a s decisões políticas.
O s cristãos têm o dever de participar. Eles conhècem o am or que nasce da fé e experim entam a libertação interior para servir. O processo político deteriorado por interesses individualistas necessita do sal da co- m unitariedade solidária dos cristãos.
Para entrar no tema, sirvo-m e do docum ento D IA C O N IA EVAN G ÉLIC A2, recentem ente aprovado e d ivu lga d o pela direção da IECLB. Lemos no docum ento que " O N o vo Testamento distingue entre diaconia e liturgia"(p. 1). Liturgia, com o culto a Deus, em adoração, lou vor e obediência. Diaconia, com o serviço ao próxim o nas suas variadas expressões. N a s linhas abaixo, tentarei apontar a relação entre a diaco nia, com o serviço do am or que vem da fé, e a atuação política do cristão.
1 — Política, a A rte de O rga n iz a r a s Relações Sociais
O ser h u m an o é um ser social. Ele vive em relações sociais. N ã o vive isolado, sozinho. Convive. Essa convivência, essa rede de relações com eça na p e q u e n a com unidade familiar, passa pela vizinhança, pela com unidade local, pelo m unicípio e se am plia òs esferas da com unidade mundial. N e ssas relações, cada ser h um ano d ep e n d e de outros seres hu m anos e esses d ep e n d em dele. Estabelece-se, assim, um a com plem en- tação mútua e comunitária.
O s antigos g re g o s falavam da o rgan ização da vida na cidade. Pa ra a palavra cidade, no seu-idiom a, usavam a p alavra pólis. Daí a pala vra política. Q u a n d o diziam política, os gre go s referiam -se à arte de or ganizar bem a convivência das pessoas na cidade, o que significa organizá-la para o bem comum.
Política é a arte de organizar o relacionam ento d as p essoas para o bem comum. Dentro d essa definição da palavra política, toda atuação de indivíduos ou gru p os no sentido de organizar a convivência d as pessoas é atuação política. Isso inclui as leis sobre o uso da terra, sobre a com er cialização dos produtos, sobre a construção de estradas, sobre a criação de escolas, sobre a orga n iza çã o da saúde pública, sobre a preservação das riquezas naturais, enfim, todas as normas, regras e leis que organ i zam e tornam possível a vida das pessoas, definindo direitos e deveres de cada grupo. A política assim entendida é con seq ü ê ncia im ediata do fato de as p essoas serem seres sociais, de viverem em relação um as com
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as outras, de conviverem . Por isso, já o filósofo Aristóteles pôde afirm ar que " O hom em é político por sua natureza".
Decorre d o que estamos afirm ando que o ser h um ano já é político e já tem atuação política bem antes d e atuar na política partidária, bem antes de ingressar num partido político, antes m esm o de simpatizar com um ou outro partido. D a m esm a forma, a g e politicam ente a o n ã o querer agir, ao omitir-se, a o optar pela neutralidade, pois, nesse caso, não só d eixa de contribuir construtivamente, com o tam bém colabora com a si tuação vigente.
A o p çã o pela neutralidade n ã o d eixa de ser um a opção. Ela tem, na prática, o efeito de um a decisão a favor d a perm anência d a situação. Também na esfera política, com o n a vida em geral, o ser hum ano tem to d as a s liberdades para decidir-se, m enos a liberdade de não tomar deci sões, pois a decisão de não tomar decisões já é um a decisão. Havendo, por exem plo, distorções na o rgan ização da sociedade, um a decisão pela neutralidade política tem o efeito prático de um a decisão a favor da per petuação d e ssas distorções.
2 — O Cristão Na Política
De natureza, o %er h u m an o é um escravo. O Reform ador refletiu profundam ente sobre essa realidade em seu livro " D e servo arbítrio". A s pessoas estão presas a si mesmas, m anietadas pelos próprios interesses. São escravas do próprio EU e giram em círculo, em torno de si mesmas, capazes de obedecer, somente, a o s im perativos do egoncentrismo. Para poderem servir, a s p essoas precisam antes experim entar a libertação. Cristo liberta, e a fé busca essa libertação que Cristo oferece.
Incapaz d e servir ao próxim o porque forçado, pelos próprios inte resses, a servir a si somente, o ser h u m a n o é libertado pela fé em Cristo. Pela fé, o cristão consegue olfiar p ara além d os m uros das suas vanta ge n s in d ivid u ais e encontra um a lvo além d o círculo dos se us interesses egocêntricos. A fé traz ao cristão um n o vo centro de referência para a sua vida, su a s idéias e seus atos. O n o vo centro d e referência é Jesus Cristo que veio para servir e não para ser servido (M c 10.45), e cujo m aior discípulo é o q u e serve (M c 10.44). Podem os, pois, esperar dos seguid o res de Cristo, quer com o indivíduos, quer com o com unidade, que saibam servir desinteressadbm ente, acim a e além da expectativa da recom pen sa. D iaconia n ã o se prende à e qu iv alê n cia entre serviço e salário. Sab e dar de graça. Baseia-se na autodoação do a m o r " (Diaconia Evangélica, R-2).
O citado docum ento afirm a que "p o d e -se definir diaconia com o sendo, por excelência, a ação do a m o r " (p.3). Esse amor, para o qual a nossa fé nos liberta, "q u e r ver as pessoas, em situação de bem-estar e de saúde integral" (p.4).
Se acim a afirm am os que a política é a arte de organizar a convi vência h u m a n a para o bem com um; se aqui afirm am os que a diaconia, com o ação do am or por excelência, visa ao bem-estar integral das pes soas, percebem os que am or ao próxim o e política têm, no m ínimo, obje tivos semelhantes.
E de perguntar-se se o am or a o próxim o pode vir a ser um a ex pressão de atuação política, melhor: Se o am or ao próxim o n ã o seria a m aneira m ais nobre e m ais autêntica de atuar na política. Em que se aproxim am e em que se distinguem - d evem o s perguntar nas p á gin a s se g u in te s- o bom político, que atua no sentido do bem com um, e o cristão que, em sua ação diacônica, visa ao bem-estar integral das pessoas?
3 — O A m o r A g e N a Política
C om o são incontáveis as tonalidades do verde d as m atas e dos campos, assim são infindáveis, em sua variedade, as m anifestações da vida. A vida hum ana se realiza na m ais am pla diversidade de expressões de alegria e dor, de prazer e angústia, de bem-estar e sofrimento. Por is so, a diaconia, que é o serviço do am or na situação concreta do sofri mento, não pode ser padronizada. C a d a situação concreta requer um a nova criação, inventiva, da form a m ais ad equada de servir.
Dentro da variedade do servir, o docum ento "D ia c o n ia Evangéli ca” distingue duas form as gerais de diaconia (p.5):
— Diaconia com o misericórdia, que tem olhos para a m iséria e se com padece, a gin d o mais a nível de ajuda ao indivíduo, com o fez o bom samaritano.
— Diaconia com o ação da justiça, que tem olhos para os direitos das pessoas e denuncia a violação dos mesmos.
Sem dúvida, Cristo espera de nós o am or imediato, o curativo do sofrimento, na forma de assistência social. M a s ele não quer que nos de mos por satisfeitos com tão pouco; ele quer que atuemos, também, no sentido de elim inar as causas profundas do sofrimento. O am or é radical. Ele quer mexer com a raiz do sofrimento.
Se tiverm os olhos para ver o enorm e sofrimento de grana- jarce- la d a p opulação brasileira e n o s inform arm os das causas fundam entais, das raízes profu n das da m aior parte desse sofrimento, iremos descobrir que as ca u sas e a s raízes se localizam n a injusta organização da con vi vência hum ana. V ere m o s que b o a parte, senão a m aior parte das ca u sas do sofrim ento são estruturais.
O sofrim ento atroz d a m iséria de m ilhões n ã o é do vontade d e Deus, nem obra d o destino, nem con seq ü ê ncia da preguiça dos probres, nem m esm o é cau sad o por falta d e recursos, já que som os a sétima po tência e conôm ica do m undo ocidental.M uito antes, o sofrimento é fruto de leis injustas, feitas sem a m or p é lo s gru p os de m aior poder contra o s fracos. A diaconia, com o serviço cfe-amor, n a sua form a de socorro im e diato, desde o prato de com ida, p a ssa n d o pelo curativo e pela constru ção de creches e asilos, é m a n d a m e n to de Cristo, sim. M a s esse, talvez, seja o am or em d o ses pequenas, d e m igalhas, apenas. O am or a b ran gente, radical, transformador, q u e atinge o sofrimento nas suas ca u sas estruturais, quer m udar para m e lh o r a organização da convivência hu m ana, para que haja leis m ais justas e acesso igualitário aos recursos da vida, ou seja, òs riquezas que D e u s se m e ou de m ancheia sobre o nosso país. O am or abrangente e radical tem a ver com a justiça social, quer m udar estruturas sócio-econôm icas injustas, quer m exer nas leis, q u e s tiona o sistema político-econôm ico excludente, m arginalizante, concen trador de poder e d e riquezas, produtor de miséria. O am or abrangente e radical procura vencer a o rg a n iz a çã o sócio-econôm jca edificada a partir d o lógica do capital; quer construir a o rga n iza çã o social a partir da d ign i d ade de pessoa com o criatura d e Deus. A ssim , entendem os que o am or abrangente e radical a g e intensam ente n a política, porque atua sobre a s leis que o rgan izam a convivência hum an a. É, portanto, um am or que a g e na política.
4 — O s Partidos Políticos
4.1 — A Sociedade Dividida em Classes Sociais
A sociedade em que v iv e m o s está dividida em classes sociais. Há d u as classes ge rais distintas e a n tagô n icas: A classe d os d o n o s do capital e a classe dos trabalhadores, o u seja, a classe que vive do capital e a classe que vive do trabalho. A p rim e ira adm inistra o seu dinheiro e o tra b a lh o dos operários e a se g u n d a trabalha com os próprios braços.
O s d o n o s do capital detêm os m eios de produção: Eles, por exem plo, com pram um terreno, constroem um prédio, adquirem m áquinas, buscam m atéria-prim a, m ontam um a fábrica. Para produzir, precisam, tam bém , com prar a força de trabalho d o s operários. O capital investido cresce através da produção e do lucro, m ultiplicando-se para novo inves timento e aum ento da fábrica. Para que o lucro seja maior, o capital quer com prar a força do trabalho pelo m enor preço possível e se organ iza pa ra tanto.
A classe trabalhadora vende a sua força de trabalho por um salá rio. N ã o participa do lucro da produção, gasta o seu salário para o sus tento, restando-lhe sempre, apenas, a força d e trabalho para vender.
Dentro dessa divisão geral, aparecem variações em am b o s os la dos. Entre os d o n o s dos m eios de produção, aparece a classe d os gran d es proprietários de terras, a classe d os banqueiros, a classe d os em presá rios. A p arecem os militares de alta patente que, ain d a que não estejam necessariam ente entre os d o n os d os m eios de produção, os têm ap oia d o contra os trabalhadores.
Do lado d os trabalhadores, aparecem o s operários de fábrica, nas su a s m ais diferentes categorias, os ca m p o n e se s assalariados, os p eq ue n o s proprietários rurais, os m icroem presários, enfim, todos os que tiram o seu sustento do seu trabalho e não do capital (ainda que possam ter al g u m a propriedade).
A sociedade organiza-se dentro do conflito, da luta dessas classes sociais que têm interesses diferentes. Tem m aior influência na sociedade a classe que tem m aior poder. Por exem plo, os trabalhadores sem terra têm interesse em que a sociedade brasileira seja o rga n iza d a de tal form a q u e eles tenham acesso à terra. Já os gra n d e s proprietários rurais se or g a n iza m e lutam para que isso não aconteça. Esse conflito é centenário (já em .1850 foi feita a lei d as terras para im pedir que os negros tivessem acesso à terra) e causou m ais de 1000 assassinatos só nos últimos 20 anos. Trata-se de um ferrenho jogo de poder, no qual os latifúndios têm saído vitoriosos, porque têm m aior poder, a ponto de inviabilizarem , em toda história do Brasil, a reform a agrária, inclusive, agora, na n ova Constitui ção.
4.2 — Origem e Função dos Partidos
O partido político surge com o um a associação de um grup o de ci d a d ã o s que querem defender os seus interesses políticos. É a associação
de cidadãos que visam a exercer um a determ inada influência sobre a form ação política do povo. O partido quer assum ir o poder ou p e rm a n e cer nele; quer pôr em execução a s suas metas, bem com o im pedir a s m e tas dos outros partidos, q u an d o contrárias à s suas. O partido e xib e pro gram as e estratégias de ação, apresenta pessoas para serem eleitas com o fim de legislar ou go ve rn ar de acordo com as suas metas program adas. C analiza as aspirações de gru p o s e indivíduos e procura conquistar alia dos. O partido, ainda, tem a função importante de controlar o poder. O partido que é oposição controla o poder do partido que é governo.
4.2.1 — Democracia e Candidatos
H á quem d ig a q u e o importante n a s eleições é votar n a p e sso a certa independentem ente d o partido. É a pessoa que importa — dizem e n ã o o partido. Isso é um e n g a n o de quem não entendeu que a socie dad e é o rga n iza d a em classes sociais antagônicas, ou de quem n ã o quer admitir isso. Naturalm ente, esperam -se d o político a s qualificações mo rais, tais com o honestidade, a m o r pela verdade, vontade de servir, cor reto uso d a s verbas públicas. A o lado d as q u alid ad e s morais, todavia, importa observar a o p çã o d e classe d o político, porque a atuação política ocorre dentro do jogo de forças d á s diferentes classes sociais. Um político filiado a o partido a p o ia d o p e lo s g ra n d e s em presários, para citar um exem plo, q u a n d o no poder, independentem ente d a s suas q u a lid a d e s morais, trabalhará p e los interesses d o s em presários e n ã o d os operários. Temos tido políticos cristãos sinceram ente dispostos a servir, h o n esto s e corretos n a s su a s atitudes pessoais. Tais qualificações morais, n o entan to, não o s im pediram d e militar em partidos que representavam o s inte resses d a s classes d om inantes contra o s interesses d o p ovo oprim ido. Pior. não os im pediram de militar em partidos que inviabilizaram a refor m a agrária, que a p o ia ra m o arrocho salarial, que sustentaram a ditadura militar, que perseguiram , torturaram, cassaram e exilaram autênticos lí deres populares. Isto mostra q u e nem m esm o as q u alid ad e s m o rais indi viduais são id eologicam ente neutras. Tam bém a s qualificações m orais são subm etidas à visão d e so cie d ad e e à visão d o que seja bem -com um defendidas p e la classe social q u e o candidato e o partido representam .
4.2.2 — Partidos e Democracia
O go ve rn o realiza-se dentro d o jogo de interesses d as classes a n tagônicas. G o vern a r dem ocraticam ente é a arte d e g o ve rn ar conflitos de
interesses, sem elim iná-los autoritariamente, com o fazem os ditadores. Um governo dem ocrático respeita o direito do povo d e go ve rn ar-se a si mesmo. Instrumentos essenciais para tanto são as eleições livres e o voto livre. M a s é necessário mais. Ê necessário que o p ovo tenha ace sso a o go ve rn o e participação n a s decisões, tam bém d e p o is d a s eleições, atra vés da su a livre organização. Em um go ve rn o dem ocrático, o p o vo parti cipa n a s d ecisões sobre cobrança de im postos e sua aplicação, sobre in vestimento d os recursos públicos, sobre o que produzir e o q u e exportar, sobre com o o rganizar a saúde, o ensino e o transporte públicos. O g o v e r no dem ocrático é transparente nos orçam entos e na gestão d o s recursos, disp ondo-se a ouvir e acolher a op inião pública. O s g o v e rn o s d o s ditado res, vistos com o fortes, na verdade, recorrem a o s fuzis a a o s canhões, justamente, por serem fracos dem ais para gove rn ar dem ocraticam ente. A lé m disso, o s ditadores são suficientemente inescrupulosos para, a lia d os a o s fuzis e a o s canhões, impor à força o s seus interesses d e classe so bre toda a sociedade.
Talvez seja oportuno lembrar que há um conceito d e dem ocracia diverso do que descrevem os acima. Trata-se da dem ocracia d o capital, do investimento, do lucro, do consumo. É a liberdade do capital, sem controle ou planejam ento estatal nenhum . Su p õ e a p ropriedade privad a e a livre iniciativa e quer a liberdade de aplicação do capital on d e ele d á m ais lucro sèm perguntar pelas prioridades do povo. Assim , p o d e m o s com preender q u e se produz um sem -núm ero de produtos supérfluos e se d eixa faltar produtos essenciais, acessíveis a o povo. É que, no caso, os atigos supérfluos d ão m aior lucro. Podem os com preender, tam bém com o podem ditadores louvar a dem ocracia a o m esm o tem po q u e oprim em o p ovo e cortam a sua liberdade de organização e expressão. Referem -se, q u an d o fazem uso da palavra dem ocracia, ò liberdade d o capital, n ã o d os cidadãos. N a recente história do nosso país, concedeu-se a m p la li berdade a o gra n d e capital nacional e internacional e controlou-se o po vo, os trabalhadores. Assim , a econom ia cresceu e o p ovo em pobreceu; cresceram a s fortunas de a lg u n s grupos e indivíduos, com um a e norm e concentração do capital, em detrimento d as cam adas p o p ulare s num eri cam ente majoritárias.
5 — O s Partidos e a igreja
5.1 — 0 Compromisso com o Reino de Deus
Jesus Cristo traz e anuncia o Reino de Deus. Esse é o seu com pro misso, a sua missão. O Reino de Deus é universal, num d u p lo sentido. É
universal, porque visa a todas as coisas e a todas as realidades; e é uni versal, porque visa ò realidade toda. Assim , quer todas as pessoas e quer a pessoa toda. Por isso, o Reino de Deus está acim a de todos os progra mas político partidários. Q uem se compromete com o Reino com prom e- te-se por ele em primeiro lugar, acim a de todos os outros com prom issos. Do com prom isso com o Reino dependem e derivam o s outros com prom is sos. O com prom isso com o Reino é prioritário; todos os outros com prom is sos são secundários, conseqüentes e derivados do primeiro.
Eis por que Jesus não se com prometeu com program as concretos de ação política e social. A Bíblia não apresenta program as políticos con cretos de Jesus. Jesus recusa-se, por causa do seu com prom isso com o Reino de Deus, a comprometer-se com program as e partidos. Diante do caráter universal e absoluto do Reino de Deus, todo e qualquer p rogram a partidário torna-se provisório, penúltimo, relativo, sem pre sujeito à críti ca do reine. O Reino de Deus, o dom ínio de Deus, a vontade do Pai ficam com a última palavra; os program as concretos è os partidos ficam com a palavra penúltim a e perdem a sua validade, q uand o não se orientam pelo Reino. Por isso, o cristão, q uand o opta por um partido, o fará em conseqüência do seu com prom isso com o Reino, por causa do Reino; n ã o tomará decisão anterior acim a ou, muito menos, contrária ao Reino de Deus.
5.2 — A Igreja e o Reino de Deus
Até m esm o a instituição Igreja perm anece sob a crítica, sob o juí zo e a avaliação do Reino de Deus. Ela experim enta o Reino de Deus, mas não o tem com o sua posse. A universalidade do Reino de D eus lhe escapa. Ela não o abrange. N e n h um a criação hum ana, n enhum a insti tuição, nenhum partido, nenhum a realização concreta das pessoas é idêntica ao Reino de Deus, também não à instituição Igreja.
Essa consciência preserva a Igreja de três tentações, nas q u ais tem caído no decorrer da história. Preserva-a:
— Da tentação colonialista, quando quer governar a com unidade política, subjugar o âmbito profano ao seu dom ínio, fazer as leis e sujei tar os povos, com o ocorreu nos primeiros séculos da história latino-am e ricana. A g in d o assim, a Igreja a ge com o se ela m esm a fosse o Reino de Deus.
— Da tentação corporativista, quando quer lançar candidatos seus a cargos políticos, os quais atuariam em favor da instituição, com o fez a assim cham ada "b a n c a d a e v a n g é lic a " na elaboração da nova
Constitui-çõo. N ão é tarefa d a Igreja fazer política em benefício dela m esma, mas é sua tarefa anunciar o Evangelho assim que os cidadãos realizem a polí tica em benefício do bem comum.
— Da tentação partidarista, q uand o cria o seu próprio partido, a exem plo dos Partidos Democráticos Cristãos. N ã o é tarefa d os cristãos criarem partidos, m as é sua tarefa optar pelos partidos com program as m ais coerentes com o Evangelho e atuar neles, com o cristãos.
5.3 — A Significância Polftica do Reino de Deus
N ão obstante o acim a exposto, d evem os afirmar, com muita ênfa se, que o Evangelho do Reino de Deus é politicamente significativo, jus tamente por ser universal e abranger a realidade toda e todas as esferas da atuação hum ana. O fato de Jesus não ter apresentado nenhum pro gram a político concreto leva muitos a pensarem que o Evangelho não tem significância polílica e que o cristão deve perm anecer politicamente neutro. Isso é um engano, porque tudo está colocado sob o m andam ento de Deus, sob os critérios do seu Reino, sob a proposta do seu governo, também a organização da convivência hum ana, ou seja, a política. O governo de Deus diz respeito à pessoa toda, em todas as esferas de sua atuação, não somente à esfera da intimidade ou à esfera religiosa. Nin guém pode dizer: Olha, sou cristão, sim, m as na m inha vida privada, e não tenho nada a ver com a vida lá fora; nem pode dizer: sou cris tão na vida religiosa, m as na luta política preciso uivar com os lobos. O Reino de Deus é universal, dizíam os, e atinge a pessoa em sua totalida de; a salvação de Cristo é para a pessoa, incluindo o seu direito a ali mento, ò vestimenta, ò m oradia, ò saúde, à escola, enfim, o direito a sua dignidade de vida, o que diz respeito, diretamente, à organização so cial, ou seja, ò política. É preciso, pois, que entendam os a fé cristã como determinante na prática política.
Assim, p odem os entender porque a atuação e a pregação de Je sus geraram um conflito mortal com os poderes públicos do seu tempo; não que Jesus batalhasse por um partido de oposição, não que tivesse criado um program a ofensivo à ordem pública, m as porque estava com prometido com o Reino de Deus. A partir desse com prom isso, questionou e condenou as estruturas sociais injustas de rom anos e judeus. Em conse qüência, rom anos e judeus se uniram para crucificá-lo.
5.4 — A Igreja e os Partidos Políticos
A m issão da Igreja e a tarefa dos partidos políticos convergem na intenção de atuar para o bem comum; divergem por partirem de pontos de vista diversos na definição do que seja o bem comum. A igreja enten de o bem com um a partir da proposta do Reino de Deus; os partidos en tendem o bem com um a partir dos interesses das classes sociais a que servem de instrumentos. O centro de referência do cristão e da Igreja é o ensino e a atuação de Jesus Cristo; o centro de referência do partido é o seu program a elaborado em cima dos interesses da classe social que re presenta. O partido elabora técnicas e estratégias de atuação a partir dos seus interesses de classe; a Igreja e o cristão propõem uma atuação nor teada pelo Evangelho do Reino de Deus. O partido quer atrair a si; a Igre ja e o cristão querem apontar para Jesus Cristo, para que, a partir de Je sus Cristo, os que crêem façam um a opção pelos partidos, program as, técnicas e estratégias que m ais se aproxim em dos propósitos do Reino de Deus. N o seu apoio, sem pre apoiarão criticamente, em caráter provisó rio, transitório, penúltimo. Por isso, a com unidade cristã jamais poderá ser encam pada por um partido, e o a p oio de um cristão a um partido ja mais terá caráter absoluto.
A Igreja é um a com unidade de fé que lê e interpreta a realidade política à luz do Evangelho e não à luz de um program a partidário. O s fiéis que form am essa com unidade ficam livres para apoiar aquele parti do que, ao seu ver, m elhor corresponde à orientação do Evangelho. N es sas opções, dificilmente, haverá unanim idade, respeitando-se a livre resposta da fé (Naturalmente, será difícil entender a opção de um cristão por um partido que sustenta ou sustentou um a ditadura, ainda mais, em se tratando de um a ditadura que cassa m andatos eleitorais, que m anda ao exílio, que persegue, tortura, mata adversários políticos e destrói as organizações populares).
Tam bém o culto tem caráter político, pelo fato de despertar a res ponsabilidade dos fiéis de atuarem em favor do bem comum, por an u n ciar a paz, a conciliação, o amor, a justiça; por denunciar e condenar a injustiça. M a s o culto não se com prom eterá com determ inada corrente partidária.
Q ualquer pronunciam ento da instituição Igreja tem caráter políti co por ser um a instituição inserida na organização social, por fazer parte da sociedade, por atuar sobre pessoas que vivem e atuam na sociedade. Tanto a palavra da Igreja quanto a sua ação quanto, inclusive, a sua omissão, o seu silêncio ou a sua pretensa neutralidade são atitudes
poli-ticas, não necessitando, para isso, nem chegar a pronunciar-se por esse ou aquele partido.
6 — A s Raízes dos A tu a is Partidos Políticos 6.1 — A Função do Estado
O Estado tem a função de coordenar e integrar todas as associa ções e com unidades que os cidadãos criam e garantir, com isso, os direi tos essenciais das pessoas, inclusive tutelando e reprim indo organiza ções que transgridem o s direitos das pessoas. Para os cristãos, o poder do Estado é legítimo, q u an d o representa o consenso da m aioria e respeita o direito democrático d os cidadãos de se governarem a si m esm os, procu rando fazer convergir a atuação de todos para o bem comum.
A dem ocracia não é dádiva, nem concessão generosa, nem fruto do acaso, m as conquista do povo que se organiza e participa do poder através de associações, sindicatos, partidos e m obilizações populares. O castigo de quem não participa é ser governado pelos que m elhor se or ganizam , ou sejam, o castigo de sofrer a política. N a história do Brasil, seja por falta de consciência política do povo, seja por im potência diante da astúcia e do golpism o das classes dominantes, tivem os poucos perío dos de governo legítimo; períodos limitados dem ais para um processo de conscientização e de aprendizagem da democracia. N a história recente, tivem os a ditadura de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945, e a ditadura mi litar, iniciada em 1964, cujos entulhos de autoritarismo recém estão sen do removidos, o que acontecerá definitivamente com as eleições presi denciais deste ano. A m b a s as ditaduras elim inaram as organizações po pulares com m ão de ferro, cassando m andatos de parlam entares eleitos, prendendo, exilando, torturando e matando, usando-se para isso dos cassetetes da polícia e d os fuzis dos militares com o cães a rasgar o povo.
6.2 — O s Atuais Partidos3 6.2.1 — A s Raízes
Para verificar a s raízes dos atuais partidos, ajuda-nos retroceder até a ditadura de Getúlio Vargas, 1930-1945.
3 — A limitação dos espaços não permite um a apresentação detalhada de todos os partidos. Resta- nos apresentá-los resum idam ente para que, a o menos, se possam perceber suas rafzes, suas grandes linhas ideológicas e de interesses de classe e para redescobri-los nos blocos de
po-Para emprestar aparência de legitim idade ao seu governo autori tário, Getúlio V argas criou, artificialmente, dois partidos: O PSD, com a função de atrair os votos dos grandes proprietários rurais; o PTB, para atrair o voto do trabalhador urbano e das periferias da cidade. N o Rio Grande do Sul, esse partido teve a adesão dos fazendeiros da Fronteira Oeste, região de origem de Getúlio e de grande parte d os p eq uenos pro prietários rurais.
C om o m aior partido de oposição a Getúlio, h avia a UDN, com ba se eleitoral na classe m édia urbana e nos setores rurais latifundiários derrotados em 1930. Tinha apoio de exportadores e im portadores e con tava com larga base militar (Cordeiro de Farias, Golbery, Andreazza, Eu- clides Figueiredo). Era liberal conservadora, a p o ia va o alinham ento do Brasil aos Estados Unidos e defendia a livre entrada do capital multina cional no País, em oposição ao nacionalism o de Getúlio.
A o lado desses partidos maiores, havia outros, de m enor expres são:
O PR, form ado por fazendeiros e em presários tradicionais (o parti do vem da velha república, antes de 1930), com a lg u m a força em M in a s e na Bahia.
O PRP, de extrema direita, fascista, integralista, cujo m aior lider foi Plínio Salgado.
O PSP, com sua principal força em São Paulo, alim entado pelo ca risma clientelista de A d h e m a r de Barros.
O PDC, com intenção de orientar-se na Doutrina Social da Igreja Católica que, na efervescência dos m ovim entos populares, a partir de
1959, se dividiu em direita, centro e esquerda.
O PL, com forte base eleitoral entre os pecuaristas gaúchos; ideo logicamente, não se distanciava muito da UDN, m as não concordava com o a p oio da m esm a ao capital internacional, por causa dos conflitos
der em que hoje se divide o quadro partidário. Também não é possível, aqui, comentar em detalhes a form a com o o regim e militar conduziu a questão da s eleições, controlando e frau dando as expectativas populares, desde a abertura política "g ra d u a l, lenta e se g u ra "; desde os pacotes eleitorais (pacote de abril. Lei Falcão); desde a transição do governo militar paro o governo civil, m as tutelada pelos militares; passando ò traição, à m obilização popular pelos eleições diretas; passando pelo colégio eleitoral, pela im posição do ex-udenista, ex-arenista, ex-pedessista José Sarney com o vice de Tancredo; chegando a o C ongresso Constituinte no lu gar da A ssem bléia Nacional Constituinte que o povo esperava. Para m aiores detalhes, reco mendo: Joviniano de Carvalho Neto — O s partidos políticos no Brasil: De 1945 a nossos dias.
pecuaristas com os frigoríficos estrangeiros. Em seus quadros havia inte lectuais parlamentaristas, entre os quais se destacava Raul Pilla.
O PC, com forte base entre os operários estivadores e com a lide rança de Prestes, perseguido a partir de 1937.
6.2.2 — O Regime Militar e o Bipartidarismo
O regim e militar extingue todos os partidos e cria dois novos, arti ficiais, sem base popular. Esses partidos serviriam a p e n a s para travestir de dem ocracia a ferrenha ditadura.
Em torno da extinta U D N form a-se a A R EN A, com a função de apoiar o regim e; em torno do extinto PTB form a-se o M DB, com a tarefa de juntar a oposição num partido controlável e confiável. Para ser real mente confiável, a oposição não devia ter políticos populares em seus quadros. O s que havia, tiveram os seus m andatos cassados, e muitos fo ram exilados.
Com o passar dos a n o s e, apesar das continuadas cassações, ao lado de outras m edidas castradoras e arbitrárias, o M D B foi crescendo e adquirindo feições próprias de partido político, tornando-se incontrolá- vel. Isso levou ò reform ulação partidária de 1978, que extinguiu o bipar tidarismo, permitindo a criação de novos partidos.
Para o regime, a reform ulação partidária foi necessária, pois, com a industrialização do País, o núm ero de operários havia crescido e, com a política econôm ica do arrocho salarial, os m esm os estavam cada vez m ais insatisfeitos. Com o intenso êxodo rural, as cidades tinham cres cido e as m assas m arginalizadas, também, estavam insatisfeitas. Com a Anistia, os políticos cassados ou exilados voltaram à cena e, na maioria, passaram a atuar na oposição. Com a abertura política, ressurgiam os m ovim entos populares, expressivos a partir de 1959 e m assacrados em 1964, agora, fortemente ligados à Igreja, que lhes tinha dado abrigo du rante os anos de perseguição. Com o fracasso do "m ila g re econôm ico brasileiro"(que fez a econom ia crescer e o povo empobrecer), desfez-se o encanto da "g ra n d e z a n a cio n al". Tudo isso deu forças ao M D B para fu gir da tutela do regime. N em o absurdo institucional de cassar o m andato de senadores eleitos e substituí-los por senadores nom eados, nem a divi são do M ato Grosso, para aum entar a m aioria do governo no Congresso, puderam evitar as vitórias eleitorais da oposição, foi preciso, portanto, que os grupos no poder desde 1964 usassem, m ais um a vez, de toda a sua astuta criatividade m anobrista para se manterem no poder. O regim e recorre, pois, á reform ulação partidária, com a qual alcança vários obje tivos:
— Divide e pulveriza a oposição em um a porção de partidos m e nores, em baralha o quadro político partidário e confunde, por algum tempo, os eleitores m enos conscientizados.
— Enxuga o M D B heterogêneo, pouco confiável e crescido d e mais, para trazê-lo de volta à sua função de oposição controlável e con fiável para negociações.
— Se p ara e define os setores radicais à esquerda, que se haviam abrigado no M DB, para m elhor controlá-los.
— A bre espaço para a criação de um partido dos trabalhadores, na tentativa de dom esticar os intensos m ovim entos operários.
Resum indo: Independentem ente de um a avaliação positiva ou negativa dos efeitos, a reform ulação partidária visava ao controle da crescente oposição ao regime, pois que, para ditadores, a alternância do poder é a lgo com o morrer ou ser castrado.
6.2.3 — O Quadro Partidário Atual
Podem os agrupar os atuais partidos em três principais blocos. O primeiro bloco é constituído pelos grupos que ap óiam o governo Sarney, ainda que de form a discreta, d evido ò m á im agem do presidente. Tem suas raízes ideológicas e políticas na antiga UDN, passando pela A R EN A , chegando ao PDS,PFL,PMDB. Representa a continuidade do m odelo eco nômico im plantado pelo regim e militar, aind a que reciclado por força do esgotam ento da ditadura. Aposta num a saída da crise via pacto social, via plano verão, via negociação da dívida externa, via eleição de um candidato confiável nas eleições presidenciais deste ano. O voto do p ovo serve-lhe ap e n a s para emprestar legitim idade a o m andato dos seus can didatos, já que o seu verdadeiro poder reside na força econôm ica do ca pital transnacional, do gran d e capital e do latifúndio, ap o ia d o s pelos m i litares, pela UDR e pela Rede Globo. O se gu n d o bloco é form ado pelas forças da cham ad a social dem ocracia, representadas no PDT e no PSDB. Defende avanços econôm icos e sociais dentro do sistema capitalista, sem questioná-lo no seu âm ago. Para alcançar o poder, os partidos desse blo co estão dispostos a fazer alianças com partidos do primeiro bloco, con forme têm dem onstrado em muitos m unicípios n a s últimas eleições m u nicipais. Su as raízes políticas m ais fortes localizam -se no antigo PTB e n os setores cham ados autênticos do antigo MDB. Conta com a sim patia e o apoio da Social Dem ocracia européia, com quem Brizola estabeleceu contatos no exílio (W illy Brandt e M á rio Soares). C om o se sabe, Brizola
perdeu, num a m anobra de Golbery, a sigla do PTB para Ivete Vargas, si gla que rasgou, num gesto em ocional e simbólico, diante d as câm aras de televisão. Antiga sigla abriga hoje militantes da extrema direita, cuja maior expressão nacional é Jânio Quadros. De surgim ento m ais recente que o PDT, o PSDB reúne dissidentes do PMDB. Apesar de reunir políticos expoentes, com o Montoro, Covas, Leiva, Cardoso, o partido, por ter sido criado a partir da cúpula, não conta com bases eleitorais. O terceiro blo co são as forças populares e de esquerda que vêm se aglutinando em tor no do PT. Ele representa a força de organ ização das classes trabalhado ras e outros setores m arginalizados pelo sistema político econôm ico bra sileiro. Encontramos aqui os setores que sofreram o arrocho salarial e que foram derrotados na luta pela reforma agrária, além de muitos inte lectuais que m ais de perto sofreram a perseguição da ditadura militar. A s raízes ideológicas e políticas podem ser encontradas no m ovim entos de educação popular a partir de 1959; depois, nas com unidades eclesiais de base com ap oio da Igreja; depois, m ais organizadam ente em termos de partido, nos m ovim entos operários, principalm ente nas áreas m ais d in â micas da econom ia com o o A B C paulista. A s raízes m ais profundas atin gem as antigas lutas do operariado por salários dignos, do cam ponês por acesso à terra e do intelectual por liberdade e justiça. Há a lgu m a s novi dades no PT que merecem destaque:
— N unca antes os trabalhadores alcançaram , na história política brasileira, um a organização partidária própria de tal expressão.
— Nunca houve tão radical vontade democrática no sentido de respeitar os canais que o povo abre para participar efetivamente d as de cisões, também depois das eleições, por exem plo, via conselhos p opula res.
— O PT tem feição comunitária, de trabalho de mutirão, sem o pa trocínio de nenhum patrono ou dono de partido.
— O PT reúne setores populares em busca de condições m ínim as de vida e não grupos privilegiados que buscam o voto ap en as para legiti mar o seu poder.
— O PT nasceu com a participação igualitária da mulher.
— O PT se propõe a construir um a sociedade a partir da d ign id ad e da pessoa e não um a sociedade que privilegia o capital em detrimento da pessoa.
— O PT privilegia o conceito "justiça so c ia l" ao conceito "g r a n d e za n a cio n al", para a qual o trabalhador e o povo m arginalizado, repeti damente, foram convocados a dar o seu sacrifício; grandeza nacional,
cortina de fum aça, com a qual o regim e militar dissim ulou tantas arbitra riedades.
O PT tem mostrado coerência de program a, não se mostrou articu lável ou m aleável, nem se sujeitou a alianças fáceis em busca do poder. Igualmente, não se abriu à m igração partidária de políticos oportunistas. E de prever-se que prefira derrotas eleitorais decorrentes da sua coerên cia à vitória decorrente da incoerência. Isso mostra que se trata de um partido que vem de um a história diferente da dos partidos tradicionais. Surge de todo um processo político de luta popular conscientizadora que o torna confiável aos eleitores simpatizantes e difícil de ser m anobrado pelos grupos que sem pre detiveram o poder. A s eleições presidenciais deste ano, em grande parte, se farão em relação a esse novo parti do, a esse novo p ersonagem do quadro partidário nacional.
A história ensina que a direita conservadora vê qualquer o rga n i zação do povo com o subversiva.Q uando confrontada com m ovim entos populares, tem ap ela d o para a astúcia, tem feito uso da tática de adiantar-se e ocupar espaços que os m ovim entos populares am eaçam conquistar, para fazer à sua m aneira o que o povo pretende fazer. Assim se recicla e encena m udanças que não são verdadeiras m udanças. Em conseqüência, sem pre tem conseguido embutir a derrota nas vitórias po pulares. Basta lembrar o exem plo da m obilização popular pelas eleições diretas que acabaram no colégio eleitoral, com eleições indiretas, onde em torno de 600 eleitores, não eleitos para esse fim, d ão o seu voto em lugar do povo; além disso, a im posição de um vice-presidente, articula- dor no C ongresso da oposição às eleições diretas. Um vice-presidente que sem pre ap oiou a ditadura militar, sem reservas, sim bolizando tudo o que o grito pelas diretas queria ver varrido da face do País; com a morte de Tancredo, acaba assum indo " a m issão que o destino me impôs: g o vernar o País". Assim com o travestiu de dem ocrata o ditador Sarney, a direita — é de prever-se — travestirá de esquerda algu m político da di reita para esvasiar o discurso e a plataform a popular que se expressa via PT.
7 — A Liberdade Cristã
A salvação em Cristo envolve a pessoa toda. Por isso, a atuação do Evangelho sobre as pessoas é m aior do que a esfera política. Essa é ap en as um a das dim ensões que o Evangelho abrange. Em conseqüência, a atuação política do cristão é ap e n a s um cam po da vida em que a fé se
expressa. M a s é exatam ente na atuação política, ond e a luta pelo poder e os conflitos dos interesses antagônicos se chocam com violência, que o cristão terá oportunidade de viver e testemunhar concretamente a sua li bertação evangélica; de servir desinteressadam ente em favor dos excluí dos, dos em pobrecidos, dos m arginalizados.
N ã o serão os cristãos que construirão a nova sociedade para os em pobrecidos, de form a paternal, com o se a organização social justa e fraterna fosse um a dád iva generosa. Ela será, muito antes, um a conquis ta dos próprios m arginalizados via conscientização, organização e parti cipação. A tarefa dos cristãos é testem unhar o Evangelho libertador e ser vir diaconicam ente dentro da concretude da m obilização e organização social, para que ela aconteça na perspectiva do Reino de Deus e seja, por isso, democrática, participativa, comunitária, includente e fraternal.
O s partidos, dizíam os acima, são associações de cidadãos em bus ca e na luta pelos seus interesses de classe. N a s peq u e n as cidades, vilas e p o vo a d os do interior, os intresses de classe d os partidos podem não transparecer tanto, por causa da falta de organ ização das classes, por causa d os relacionam entos p essoais m ais próxim os entre eleitores e can didatos, por causa dos interesses de grupos m enores que não passam tanto pela definição d as classes. Em òmbito nacional, no entanto, os inte resses de um partido ap oia d o por latifundiários, grand es em presários e banqueiros não serão os m esm os do pequeno agricultor, do operário e da dona de casa da favela.
O cristão tem um a grande oportunidade de atuar acim a dos seus interesses de classe. Ele pode defender interesses que não são os da sua classe social, por dois motivos:
— O cristão foi liberto da necessidade escravizante de girar em torno dos seus próprios interesses. Ele conhece um novo centro de refe rência, fora dele mesmo, que é Cristo.
— O cristão experim enta o am or de Deus, e esse o constrange pa ra o am or ao próximo, abrangente e radical, que vai além do populismo, do assistencialismo, do paternalism o de m igalhas, para ser transforma dor de estruturas político-econôm icas injustas e de leis discrim inatórias e excludentes, feitas pelas classes sociais m ais fortes contra as m ais fracas. N a experiência da libertação para o amor, o cristão será capacitado a ter um a nova visão do que seja o bem comum, agora, orientado, não pelos seus interesses de classe, m as pelo Evangelho do Reino de Deus.
Liberto pelo Evangelho, o cristão terá condições de ouvir os em po brecidos, de com preender as suas prioridades, de ler o jogo político com
os seus olhos, de form ular a sua concepção de bem comum a partir d e les, de inserir-se na sua m obilização e cam inhar solidariam ente com eles. Tanto m ais evangélico será esse seu despojam ento quanto m enos as prioridades dos em pobrecidos corresponderem aos interesses da classe a que ele pertence.
A fé desprende o cristão de si m esm o e orienta-o para a vontade do Pai revelada em Cristo, para as prioridades do próxim o m ais necessi tado e para o futuro do Reino de Deus que se manifesta já aqui, tam bém , na edificação de um a convivência hum an a justa.