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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE COMUNICAÇÃO E LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS. MARIA INÊS FRANCISCA CIRÍACO. ASPECTOS DA TESSITURA DO TEXTO À LUZ DA LINGUÍSTICA TEXTUAL. São Paulo 2020.

(2) MARIA INÊS FRANCISCA CIRÍACO. ASPECTOS DA TESSITURA DO TEXTO À LUZ DA LINGUÍSTICA TEXTUAL. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do Título de Doutor em Letras. Orientadora: Prof.ª Dra. Regina Helena Pires de Brito. São Paulo 2020.

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(5) MARIA INÊS FRANCISCA CIRÍACO. ASPECTOS DA TESSITURA DO TEXTO À LUZ DA LINGUÍSTICA TEXTUAL. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do Título de Doutor em Letras. Orientadora: Prof.ª Dra. Regina Helena Pires de Brito Aprovada em 16 de abril de 2020.. BANCA EXAMINADORA. Prof.ª Dra. Regina Helena Pires de Brito Universidade Presbiteriana Mackenzie. Prof.ª Dra. Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos Universidade Presbiteriana Mackenzie. Prof.ª Dra. Elisa Guimarães Pinto Universidade de São Paulo / Universidade Presbiteriana Mackenzie. Prof.ª Dra. Marilena Zanon Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Prof.º Dr. Moacir Lopes de Camargos Universidade Federal do Pampa.

(6) DEDICATÓRIA. À minha mãe, Maria Ângela, sempre amiga, zelosa e dedicada. Ao meu pai, Joias (in memorian). À minha irmã, Marilda e à minha vovozinha, Francisca, pelo amor incondicional. Ao meu esposo, Elio, companheiro de todas as horas..

(7) AGRADECIMENTOS. A Deus, pela oportunidade concedida e por direcionar minha caminhada. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, (Capes), e ao Instituto Presbiteriano Mackenzie, pelo apoio à pesquisa e o financiamento deste trabalho. Aos meus professores do programa de Pós-Graduação em Letras, por todo conhecimento que me foi transmitido. À minha orientadora, Prof.ª Dra. Regina Helena Pires de Brito, pelo incentivo e colaboração. Seu conhecimento, seus ensinamentos, suas contribuições e seu carinho foram decisivos para que eu conseguisse realizar este propósito. E por permitir que fizéssemos um pequeno desvio em nossa viagem pelo mundo da lusofonia. Às professoras da Banca Examinadora de Qualificação, Prof.ª Dra. Marilena Zanon e Prof.ª Dra. Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos, pelo apoio, pelas correções e considerações, essenciais para o direcionamento da versão concluída deste trabalho. À Prof.ª Dra. Elisa Guimarães, por estar ao meu lado, com toda sua delicadeza e generosidade incentivando e colaborando em diversos momentos desta pesquisa e por aceitar fazer parte da Banca Examinadora. Ao Prof.º Dr. Moacir Lopes de Camargos, pela correção, pelas observações e ponderações importantíssimas para finalização desta Tese e pela honra em tê-lo na Banca Examinadora. Ao Prof.º Dr. Marlon Luiz Clasem Muraro e à Prof.ª Dra. Nancy dos Santos Casagrande, por aceitarem compor, como suplentes, a Banca Examinadora. À minha mãe, Maria Ângela, pelo amor, estímulo e apoio. À minha irmã, Marilda, pelo encorajamento, e aos meus familiares, pelo constante apoio. Ao Elio, companheiro inseparável durante mais esta jornada. Ao Caio Catalano, pela amizade que construímos durante todos esses anos na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a qual nos possibilitou partilhar nossas angústias, frustrações, alegrias e vitórias acadêmicas. A todos os amigos, que à maneira especial de cada um, fizeram parte desta minha empreitada..

(8) “Texto quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia” (Roland Barthes).

(9) RESUMO. A presente tese tem como tema os aspectos da tessitura do texto e situa-se na linha de pesquisa “Procedimentos de constituição dos sentidos do discurso e do texto”. Tem como objetivo geral reconhecer os processos de textualização, considerando seus elementos constituintes e as relações por eles estabelecidas. Entre os objetivos específicos, figuram: compreender a constituição e o desenvolvimento da Linguística Textual; conceituar texto e discurso na perspectiva da Linguística Textual; refletir acerca da controvérsia entre os conceitos de gênero discursivo e gênero textual; elaborar uma proposta de análise textual, que será utilizada para direcionar o estudo do nosso corpus e que poderá ser aplicada por outros pesquisadores e professores em seus trabalhos dentro e fora da universidade; investigar, no corpus selecionado, as relações estabelecidas na estrutura textual por meio de constituintes e contextualizadores textuais; e verificar, nas análises, a relação entre texto e contexto. Para tanto, partiu-se das seguintes hipóteses: pode-se considerar que o texto somente se constitui de forma clara e coesa se estiverem contemplados, na sua concepção, todos os elementos estruturais, que envolvem o arcabouço linguístico necessário para sua compreensão enquanto objeto de comunicação? A Linguística Textual se apresenta devidamente apropriada para a análise dos processos linguísticos de constituição dos textos, assim como das relações de interação entre o autor, interlocutor e contexto? O corpus selecionado constitui-se de quatro textos de autores de diferentes espaços de oficialidade da língua portuguesa, cuja temática se relaciona a aspectos linguísticos: Descascar palavras, de Manoel de Barros (1989) e Abraço caudaloso, de Gregório Duvivier (2015), do Brasil; Bibliotecas, de Valter Hugo Mãe (2018), de Angola; e Perguntas à língua portuguesa, de Mia Couto (2011), de Moçambique. O método utilizado foi a pesquisa bibliográfica. A base teórica fundamentou-se nos estudos de Adam (2017; 2019 [2017]; Antunes (2005; 2006 [2010]; 2017); Beaugrande e Dressler (1997 [1983]); Bernárdez (1982); Fávero e Koch (2012 [1983]); Guimarães (1992; 2013); Koch (2015 [2004]); Marcuschi (2012 [1983]; 2014 [2008]; 2010 [2002]); Sautchuk (2003); e Van Dijk (1997 [1983]). Os resultados da análise demonstram a relevância dos princípios da Linguística Textual vigentes até o momento, mas sinalizam a necessidade de reconsiderar a definição da coerência que, tal como já sinaliza Koch (2015 [2004]), não deve ser abordada como um fator de textualidade em si, mas o resultado a que se chega por meio dos demais aspectos textuais.. PALAVRAS-CHAVE: Linguística Textual. Língua Portuguesa. Textualidade. Tessitura do Texto. Processos de Textualização..

(10) ABSTRACT Situated within the realm of research into “Methods of establishing discourse and text meanings”, this thesis has as its main theme the aspects of text construction. Its general objective is the recognizing of the textualization processes, which conduct textuality, taking into consideration its constituent parts and the relationships they establish. Specific objectives include: the comprehension of the constitution and development of Text Linguistics; the conception of text and discourse from the perspective of Text Linguistics; the reflection about the controversy between the concepts of discursive and textual genre; the development of a proposal for textual analysis, which will be used to direct the study of our corpus and which may be applied by other researchers and professors in their work inside and outside the university; the investigation of the selected corpus and the relations established in the textual structure by means of the textual components and contextualizers; and the verification, by means of analysis, of the relation between text and context. For this, the following hypotheses were formulated: can it be considered that the text only constitutes itself in a clear and cohesive way if all structural elements, which involve the linguistic framework necessary for its comprehension as an object of communication, are contemplated? Is Text Linguistics adequately suited for the analysis of linguistic processes for the constitution of texts, as well as the interaction relations between the author, interlocutor and context? The selected corpus consists of four texts by authors from different official spaces of the Portuguese language, whose theme is related to linguistic aspects: Descascar palavras by Manoel de Barros (1989) and Abraço caudaloso by Gregório Duvivier (2015), from Brazil; Bibliotecas by Valter Hugo Mãe (2018), from Angola; and Perguntas à língua portuguesa by Mia Couto (2011), from Mozambique. The method used was the bibliographic search. The approach utilized based on the studies developed by Adam (2017; 2019 [2017]; Antunes (2005; 2006 [2010]; 2017); Beaugrande e Dressler (1997 [1983]); Bernárdez (1982); Fávero e Koch (2012 [1983]); Guimarães (1992; 2013); Koch (2015 [2004]); Marcuschi (2012 [1983]; 2014 [2008]; 2010 [2002]); Sautchuk (2003); e Van Dijk (1997 [1983]). The results demonstrate the relevance of the Postulates of Textual Linguistics in effect until now but signal the need to reconsider the definition of coherence, as Koch (2015 [2004]) already signals, which should not be addressed as a standard of textuality, but the result that is achieved through other textual aspects.. KEYWORDS: Text Linguistics. Portuguese Language. Textuality. Text Construction. Textualization Process..

(11) ÍNDICE DE FIGURAS. Figura 1: O triângulo de Rastier ............................................................................................... 30 Figura 2: Fórmula do Texto e do Discurso, segundo Adam (1990) ......................................... 56 Figura 3: Diagrama representacional de Adam (1999) sobre o texto e o discurso ................... 56 Figura 4: Dimensões, domínios e interação nos gêneros discursivos, segundo Bakhtin.......... 73 Figura 5: A coesão do texto, de acordo com Antunes (2016 [2005]) ....................................... 88 Figura 6: Os tipos de coesão, segundo Marcuschi (2014 [2008]) ............................................ 89 Figura 7: Ilustração das categorias de análise usadas neste trabalho ..................................... 101.

(12) SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................................. 13 1CONSTITUIÇÃO DA LÍNGUÍSTICA TEXTUAL .......................................................... 21 1.1 PRELIMINARES ........................................................................................................... 21 1.2 A IMPORTÂNCIA DA PRAGMÁTICA....................................................................... 25 1.3 O PAPEL DA SEMÂNTICA ......................................................................................... 29 1.4 O ESCOPO DA SINTAXE ............................................................................................ 37 2 ENTENDENDO A RELAÇÃO TEXTO/DISCURSO ..................................................... 46 2.1 SOBRE A CONCEPÇÃO E CONCEITUAÇÃO DE TEXTO À LUZ DA LINGUÍSTICA TEXTUAL .................................................................................................. 46 2.2 DEFINIÇÃO DE DISCURSO ........................................................................................ 55 2.3 TEXTO/DISCURSO: CONFLUÊNCIAS ...................................................................... 60 3 NO ÂMBITO DO TEXTO, CONTEXTO E INTERAÇÃO ........................................... 65 3.1 ORGANIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TEXTO ........................................................... 65 3.1.1 Tipologias e gêneros textuais ................................................................................... 66 3.1.2 Funções Textuais ...................................................................................................... 78 3.1.3 As correlações entre os constituintes e contextualizadores textuais ........................ 82 3.2 TEXTO E CONTEXTO ................................................................................................. 96 4 ENTRE AS TRAMAS DO TEXTO: ANÁLISE DO CORPUS ....................................... 99 4.1 DELIMITAÇÃO DO CORPUS DA PESQUISA E DOS CRITÉRIOS DE ANÁLISE .... 99 4.2. CARACTERIZAÇÃO DA METODOLOGIA ............................................................ 102 4.3. ANÁLISE DOS TEXTOS ........................................................................................... 103 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 151 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 156.

(13) 13. CONSIDERAÇÕES INICIAIS O mundo da comunicação é o dos telefones, das redes, dos livros, dos jornais, da televisão. É também o dos meios que utilizamos para nos comunicar, a conversação oral, a escrita, a imagem, o gesto. A comunicação é o conjunto desses dispositivos de transporte. Mas transportar para quê? Essa questão é frequentemente evitada. A resposta a ela, contudo, é simples, evidente e essencial: os dispositivos de comunicação servem para transportar a palavra humana ou, em outras palavras, para tomar a palavra. (Philippe Breton1). A partir das considerações de Philippe Breton (2016 [2003]), damos início ao nosso estudo, centrados na composição do texto enquanto materialidade dos processos de constituição dos discursos, tema recorrente ao buscarmos compreender os usos da linguagem no desenvolvimento da comunicação. Segundo o autor, esta última configura-se como um conjunto de dispositivos que transportam a palavra, inserindo o homem na sociedade onde habita. Já no século IV a.C., Aristóteles refletia sobre as potencialidades linguísticas do ser humano, capazes de o diferenciar dos demais seres vivos. Em sua obra Política, o filósofo grego definiu o logos – que em muitas traduções aparece sob a forma de discurso – como um “dom”, que diferencia o homem dos demais animais, pois ele pode discernir ações e verbalizar sentimentos. Em suas palavras, “é precisamente a comunicação desses sentimentos o que engendra a família e a cidade” (ARISTÓTELES, 2011 [2001], p.57). No limiar da história, a “palavra” percorreu diversos caminhos, manifestou-se e ainda se manifesta sob as mais distintas facetas e, no entanto, continua tendo destaque central em nossa vida. Como bem lembra Yunes (2003, p.7), a escrita foi o marco que provocou a cisão entre a história e a pré-história “e funda a civilização tal qual a conhecemos: a do acúmulo de informações fixadas pelo código alfabético, em um sistema de sinais”. A partir de então, o texto grafado passou a ser fundamental nas sociedades que se valem da escrita como forma de registro de informações, garantindo a sua perpetuação entre as gerações. Se o texto escrito começou a ocupar lugar de destaque nas sociedades grafocêntricas, obviamente os estudos acerca dessa prática comunicativa também passaram a abundar. Desde o advento da gramática, que surge como tentativa primeira de estabelecer condições de leitura. Philippe Breton – Sociólogo, Doutor em Psicologia e Doutor em Ciências da Informação e Comunicação, Professor emérito da Universidade de Estrasburgo. Seus estudos concentram na antropologia da fala, técnicas de comunicação e práticas de argumentação. 1.

(14) 14. dos textos clássicos e fornecer padrões de escrita a eles semelhantes, inúmeras outras abordagens se desenvolveram ao longo dos séculos. No século XX, com o Curso de Linguística Geral, Ferdinand Saussure instaura-se uma nova fase dos estudos linguísticos, concebendo a Linguística como uma “ciência autônoma, separando-se dos estudos históricos, da psicologia, da filologia e literatura” (MARCUSCHI, 2014 [2008], p.27). Do ponto de vista epistemológico, houve uma mudança na forma de considerar língua, que passou a ser vista como um fenômeno social. No entanto, ela foi tratada prioritariamente como um “código e sistema de signos” (ibid). Além dessa visão, outras também despontaram ao longo do século XX, dentre elas o gerativismo de Chomsky, provocando um deslocamento no escopo dos estudos: deixa-se de lado a questão das línguas e suas relações com a cultura e sociedade e passa-se a pensar na relação da linguagem com a mente humana. Apesar da aparente polarização, outras tendências menos reducionistas também surgiram, sobretudo a partir da década de 1960. Ainda segundo Marcuschi (2014 [2008], p. 39), tratava-se de “linhas de trabalho que buscavam observar a linguagem em seus usos efetivos. Tratava-se do que se chamou de a guinada pragmática”. Entre essas linhas, destacam-se a Linguística do Texto ou Linguística Textual (expressão esta que adotaremos no decorrer da nossa pesquisa) e a Análise do Discurso, aprimoradas nas décadas posteriores. Sabe-se ser esse período de muita discussão e estudos mais profundos a respeito dessas teorias linguísticas e tantas outras que afloravam com grande entusiasmo. Para nós, no entanto, não interessa trabalhar individualmente cada teoria, mas investigar, à luz da Linguística Textual, o funcionamento das relações estabelecidas no processo de concepção do texto e de sua própria tessitura. A Linguística Textual compreende a gramática de texto e a pragmática, ao passo que a gramática de texto integra a sintaxe textual e a semântica textual. Por isso, é atribuição da Linguística Textual expor, sistematicamente, as circunstâncias e as normas de composição do texto e explanar seu significado em função de sua aceitação. Nesse sentido, diante da complexidade dos estudos da linguagem, levantamos hipóteses a serem retomadas ao longo deste estudo: 1) é possível considerar que o texto somente se constitui de forma clara e coesa se estiverem contemplados na sua concepção todos os elementos estruturais, que envolvem o arcabouço linguístico necessário para sua compreensão enquanto objeto de comunicação? 2). a Linguística Textual se apresenta devidamente. apropriada para a análise dos processos linguísticos de constituição dos textos, assim como das relações de interação entre o autor, interlocutor e contexto?.

(15) 15. Embora existam inúmeras pesquisas e obras publicadas sobre os estudos da linguagem e, especificamente no caso desta pesquisa, da Língua Portuguesa, o presente trabalho se justifica pela possibilidade de compreensão do alcance da Linguística Textual nos processos de desenvolvimento da Língua Portuguesa nas suas variedades, na constituição dos textos e nas situações de comunicação e interação dos sujeitos. Isso nos propicia a realização de uma pesquisa objetiva e sucinta que, finalizada, servirá tanto como objeto de estudo quanto como ferramenta teórica de apoio àqueles que se interessarem pelo tema, sejam professores, sejam graduandos que se iniciam no complexo contexto da Linguística Textual. Além disso, o presente estudo pode servir de apoio a docentes da educação básica, fornecendo-lhes alguns caminhos a fim de promoverem um ensino textual mais próximo dos postulados científicos. Esses aspectos, do ponto de vista da contribuição social, tornam nosso trabalho pertinente, pois os pontos tangenciados concernem não só ao âmbito escolar quanto ao âmbito acadêmico. No entanto, devemos esclarecer que, apesar de ser também de nosso interesse, não será possível, neste trabalho, abordar especificamente as questões educacionais. Apesar de acreditarmos que o modelo de análise aqui proposto possa ser utilizado também por professores da educação básica e, por essa razão, vez por outra, tangenciarmos tal possibilidade, há uma série de aspectos concernentes à prática pedagógica que devem ser levados em conta no contexto de sala de aula. Diante disso, considerando nosso objetivo geral a seguir e a extensão da pesquisa, optamos por não adentrar essa seara, pois, a nosso ver, trata-se de tema que exige rigor na abordagem. Dadas as dimensões da presente tese, tratar também do tema educacional torná-laia por demais extensa e, talvez, fugiria a nosso escopo, muito mais ligado às questões textuais propriamente ditas. Deixamos claro, no entanto, nosso interesse em abordar melhor a possibilidade de aplicação de nosso modelo no contexto escolar, em pesquisa futura. Neste trabalho, como objetivo geral, propõe-se reconhecer os processos de textualização aplicados nos textos, corpus da nossa análise, que são condutores da textualidade, considerando seus elementos constituintes e as relações estabelecidas. Para tanto, destacamos os seguintes objetivos específicos: 1. Compreender a constituição e o desenvolvimento da Linguística Textual; 2. Conceituar texto e discurso na perspectiva da Linguística Textual; 3. Refletir acerca da controvérsia entre os conceitos de gênero discursivo e gênero textual;.

(16) 16. 4. Elaborar uma proposta de análise textual, que será utilizada para direcionar o estudo do nosso corpus e que poderá ser aplicada por outros pesquisadores e professores em seus trabalhos dentro e fora da universidade; 5. Investigar, no corpus escolhido, as relações estabelecidas na estrutura textual por meio de constituintes e contextualizadores textuais, com base em nosso modelo de análise; 6. Verificar, nas análises, a relação entre texto e contexto. A fim de constituirmos o corpus, selecionamos 4 (quatro) textos escritos por autores de diferentes espaços de oficialidade da língua portuguesa. São eles, do Brasil: Descascar palavras, de Manoel de Barros (1989); Abraço caudaloso, de Gregório Duvivier (2015); de Angola: Bibliotecas, de Valter Hugo Mãe (2018); e de Moçambique: Perguntas à língua portuguesa, de Mia Couto (2011), atendendo ao critério de explorarem temas que tangenciam questões de linguagem. Tem-se, pois, em todos eles, um interesse central: a palavra é o eixo das considerações que cercam o exercício da análise. Trata-se, por conseguinte, de um processo de intertextualidade apoiado em ideias relacionadas ao valor da palavra e seus desdobramentos nas situações de comunicação. Esses textos nos permitirão identificar questões alusivas aos elementos linguísticos ou não, conferindo-lhes sentido. Adotamos para este trabalho, o método de pesquisa bibliográfica, que nos possibilitará conhecer as teorias introdutórias de fomentação dos estudos linguísticos no Brasil a partir da década de 1960, bem como a intensa evolução dos estudos do texto desde a década de 1980. Nosso procedimento de análise está baseado, em um primeiro momento, nos estudos de Beaugrande e Dressler (1997 [1983]), que fornecem um modelo textual interdisciplinar ainda em voga, assim como de Bernárdez (1982), que apresenta direcionamentos iniciais acerca da Linguística Textual e também nas investigações de Teun A. van Dijk (1997 [1983]) a respeito do lugar que a “ciência do texto” ocupava no contexto dos estudos linguísticos naquele período. Num segundo momento, buscamos reconhecer as características que compõem os processos de elaboração, produção, constituição e sentidos dos textos, corpus da nossa análise. Por outro lado, a partir de autores como Adam (2017; 2019 [2017]; Antunes (2005;2006 [2010]; 2017); Fávero e Koch (2012 [1983]); Guimarães (1992; 2013); Koch (2015 [2004]); Marcuschi (2012 [1983]; 2014 [2008]; 2010 [2002]) e Sautchuk (2003) identificaremos a direção em que caminham os estudos do texto no Brasil, na perspectiva da Linguística Textual. Este estudo, inserido na linha de pesquisa “Procedimentos de constituição dos sentidos do discurso e do texto”, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, integra-se na grande área da Linguística, da qual faz parte a.

(17) 17. Linguística Textual, atribuindo suporte teórico ao trabalho. Assim, definimos como tema norteador o estudo de aspectos da tessitura do texto com base nos preceitos da Linguística Textual. A propósito da relevância dos estudos linguísticos e com o intuito de alcançar os objetivos propostos, esta investigação fundamentar-se-á nas pesquisas realizadas pelos seguintes autores: Beaugrande e Dressler (1997 [1983]) , que elevam a Linguística Textual à categoria de reguladora das relações entre a linguística, a ciência cognitiva e a inteligência artificial e propõem um modelo textual interdisciplinar, no qual todo texto deve contemplar sete critérios de textualidade, “dois de tipo linguístico (coesão e coerência), dois psicolinguísticos (intencionalidade e aceitabilidade), dois sociolinguísticos (situacionalidade e intertextualidade) e um do tipo computacional (informatividade) e três princípios comunicativos ‘eficácia, efetividade e adequação’”2 (p. 12, tradução nossa). Entende-se por textualidade a agregação de elementos linguísticos e extralinguísticos determinantes para que um texto não seja somente uma sucessão de frases, mas um texto de fato. Bernárdez, com a obra Introducción a la linguística del texto (1982), que nos introduz no campo da Linguística Textual, elenca seus principais problemas e teorias que se destacam, mas, por se tratar de uma obra introdutória, o faz de forma superficial, segundo diz o próprio autor: “limitado a questões que podem ser consideradas como ‘absolutamente fundamentais’, questões que basicamente se concentram nos princípios teóricos da disciplina”3 (pp. 12-13, tradução nossa, grifo do autor). Teun A. van Dijk que, com La ciência del texto (1997 [1983]), objetiva apresentar o lugar que a ciência do texto ocupava diante das demais disciplinas, ou seja, “A ciência do texto também deve ser entendida em relação a fenômenos e problemas que são estudados em outras ciências e especialidades”4 (p. 14, tradução nossa), analisando elementos, questões complexas e resultados que possibilitassem à linguística do texto ser tratada na perspectiva da interdisciplinaridade.. Beaugrande e Dressler (1997 [1983]): “dos de tipo linguístico (cohesión y coherencia), dos psicolinguísticos (intencionalidad y aceptabilidad), dos sociolingüísticos (situcionalidad y intertextualidad) y uno de tipo computacional (informatividad)”; los tres principios comunicativos son ‘eficacia, efectividad y adecuación’” (p. 12). 3 Bernárdez (1982) “limitado a las cuestiones que se pueden considerarse como “absolutamente fundamentales”, cuestiones que se centran básicamente en los principios teóricos de la disciplina” (pp. 12-13). 4 Teun A. van Dijk (1997 [1983]) “la ciencia del texto también hay que entenderla en relación con fenómenos y problemas que se estudian en otras ciencias y especialidades” (p.14). 2.

(18) 18. Adam (2017; 2019 [2017], apresenta um trabalho de grande relevância acerca da teoria das sequências textuais, além de analisar detalhadamente as características de alguns protótipos de sequências, a saber: descritiva, narrativa, argumentativa, explicativa e dialogal. O autor também trata das relações entre linguagem, discurso, gênero e texto, procedimento indispensável para os estudos da criação e da percepção dos sentidos por meio do texto. Antunes (2005; 2016 [2010]; 2017), que será referenciada desde sua obra clássica “Lutar com palavras: coesão e coerência” (2005), até chegar a seu último livro “Textualidade”, no qual apresenta os caminhos da pesquisa em Linguística Textual, sobretudo voltados à prática pedagógica. Esta autora nos será de suma importância, uma vez que em “Análise de textos” (2016 [2010]) ela também cria um modelo de análise a ser usado, sobretudo, por estudantes da educação básica, o que também não deixa de ser um dos nossos escopos neste trabalho. Fávero e Koch (2012 [1983]), que oferecem um trabalho aprimorado sobre as diferentes correntes teóricas que abrigaram os estudos fundadores da Linguística Textual. Koch (2015 [2004]) especificamente trata das diferentes teorias e “concepções de texto que a Linguística tem abrigado durante seu percurso” (p.11), bem como suas implicações para o entendimento da disciplina que conhecemos hoje. Guimarães (1992; 2013), que trata, em suas obras, da Linguística Textual considerando as características elementares do texto e do discurso, propiciando melhor entendimento acerca das relações estabelecidas entre elementos textuais e discursivos, seus desdobramentos e/ou ramificações na organização, elaboração e constituição do texto. Marcuschi (2012 [1983]; 2014 [2008]), considerado um dos precursores da Linguística Textual no Brasil, que será contemplado em dois momentos de sua obra: a inicial, com o seu conhecido Linguística de Texto: o que é, como se faz?, marco da introdução dos estudos dessa disciplina no Brasil, e a posterior, no também conhecido livro Produção textual, análise de gêneros e compreensão, no qual mostra os avanços das teorias do texto, o que é relevante para este trabalho. Sautchuk (2003), que promove um diálogo entre o escritor e o leitor interno em sua obra A produção dialógica do texto escrito, na qual preconiza a existência de um duplo autor do texto, estabelecido por meio de um “escritor ativo” e um “leitor interno”, e organiza um esquema de operações textuais e cognitivas ativadas pelo autor no momento da escrita. Esse esquema nos foi de grande valia em nossa reflexão acerca da elaboração das categorias de análise a que chegamos nesta tese. Essas obras, além de apresentarem a Linguística Textual como disciplina, traçam seu percurso; exploram as teorias que a definiram, desde sua origem, passando por sua introdução.

(19) 19. no Brasil, seguindo até o presente. Em outras palavras, tratam de demonstrar como se desenvolveu a ciência do texto e em que medida a própria Linguística Textual passa a dialogar com outras disciplinas, estabelecendo os limites desse diálogo, bem como enumerando as vantagens dessa confluência de estudos. Vale a pena ressaltar que outros autores também fazem parte de nosso referencial teórico. Entretanto, os citados foram os que mais contribuíram para a formulação de nossos princípios de análise. Quanto à organização do trabalho, ela foi feita da seguinte maneira: No capítulo 1, discorremos, inicialmente, acerca do conceito de Linguística Textual, passando das abordagens mais iniciais, a partir da constituição desses estudos no Brasil, até chegar a definições mais modernas, como a de Adam (2017). Além disso, apresentamos outras disciplinas com as quais a Linguística Textual mantém diálogo, essenciais para uma abordagem textual que leve em conta o contexto de produção, dentre elas a Pragmática e a Semântica. Além disso, detivemo-nos também à questão da Sintaxe, demonstrando a sua igual importância no trato com o texto, sob a luz da disciplina por nós estudada. Já no capítulo 2, abordamos o conceito de texto, essencial não só a nossa pesquisa como também a quaisquer trabalhos ancorados nas ciências linguísticas textuais. Assim, procuramos estabelecer um panorama desde as primeiras definições, a partir dos estudos iniciais da Linguística Textual até chegar às concepções mais contemporâneas, em franco diálogo com as teorias pragmático-discursivas. Em seguida, também apresentamos o conceito de discurso, mostrando os limites existentes ou não entre ambos os conceitos. Por fim, ao chegarmos à interface texto e discurso, apresentamos o conceito de enunciado, por acreditarmos que ele se relaciona indissociavelmente às questões envolvendo as fronteiras entre os conceitos de texto e discurso. O capítulo 3 é o responsável por apresentar os aspectos estruturais do texto propriamente ditos, tanto do ponto de vista de sua organização quanto dos elementos que contribuem para a chamada textualidade. Além disso, é importante destacar a discussão levantada nesse capítulo sobre o conceito de gêneros textuais e discursivos, considerando haver ainda muitas imprecisões acerca de sua equivalência – ou não equivalência. No quarto capítulo, é apresentada a análise propriamente dita, na qual se retoma o referencial teórico apontado neste trabalho e também se procura responder às duas perguntas de pesquisa aqui expostas. Na ocasião, tratamos de elaborar um quadro com aquilo que compreendemos ser uma análise textual adequada, simplificada, e que possa realmente ser usada no contexto tanto acadêmico – por alunos de graduação, por exemplo – quanto escolar sobretudo por alunos do Ensino Médio..

(20) 20. Na sequência são apresentadas as considerações finais, nas quais sintetizamos o percurso proposto com esta tese, destacando novamente os objetivos e respondendo às questões aqui lançadas. Além disso, suscitamos uma reflexão baseada a partir da elucidação de nossos questionamentos, que consideramos de grande importância para a continuidade dos estudos da Linguística Textual..

(21) 21. 1 CONSTITUIÇÃO DA LÍNGUÍSTICA TEXTUAL “Há seis mil anos não surgem novos meios de comunicação; entretanto, o movimento de inovação continua, mas se refere aos suportes de comunicação, que são um prolongamento de cada um dos meios. Assim, o sonoro se prolonga no processo da acústica [...]. A imagem se prolonga nos progressos da pintura, da gravura e da escultura, depois na fotografia, no cinema e no vídeo. O escrito, por sua vez, conhece uma linha de evolução de suportes particularmente rica, desde a carta manuscrita ao correio eletrônico e aos sites na Internet, passando pela imprensa, pelo livro e pelo jornal”. (Philippe Breton). 1.1 PRELIMINARES. Das palavras de Breton 2016 [2003], apreendemos que a comunicação humana, apesar de ser feita há mais de seis mil anos sem inovações do ponto de vista dos “meios”, apresentase em constante inovação sob a perspectiva dos suportes. De todos eles, o escrito goza de variedade evidentemente considerável, levando em conta a importância da escrita nas sociedades contemporâneas, o que faz com que ela se desvele em infinitas possibilidades de realização, observando as diferentes funções sociais de que se revestem os textos. Partindo desse pressuposto, devemos ponderar que a efervescência desse processo de surgimento de novas formas de comunicação escrita deve-se também à capacidade inata de o homem se comunicar e, nesse âmbito, a linguagem representa culturas, comportamentos, revela integralmente um domínio singular com suas conjecturas psicológicas e filosóficas, indispensáveis para o engrandecimento da experimentação humana. Vista nessa perspectiva, considera-se a linguagem o espaço de um saber, em que o agente fundamental localiza exteriormente a própria linguagem. Ela, por sua vez, manifesta-se de modo particularmente notável nos textos que circulam nas sociedades calcadas em uma cultura grafocêntrica. A Linguística, por se tratar de uma ciência da linguagem humana, abarca a língua em toda sua amplitude oral ou escrita. Por isso é que a linguagem se evidencia por meio das línguas e é a maior e mais fabulosa conquista do indivíduo, o que justifica o grande interesse em desvendar os meandros de sua evolução nos processos de comunicação. Desde o advento da gramática, escrita pelos filósofos alexandrinos, ao advento do estruturalismo de Ferdinand de Saussure, que veio a público no início do século XX. Dos estudos gerativistas, à chamada.

(22) 22. virada pragmática5, iniciada na década de 1960, quando surgiram “a pragmática, a sociolinguística, a psicolinguística, a análise do discurso, a análise da conversação, a etnolinguística e, neste contexto, também a linguística textual” (MARCUSCHI, 2014 [2008], p. 29, grifo do autor). Pensando a história desta última, Vilela nos leva a observá-la, em três etapas: A primeira compreende o espaço que vai desde os princípios de investigação estruturalista do texto até a constituição da linguística de texto como disciplina autónoma (desde 1947 até 1965). A segunda etapa é o espaço que é dominado pela gramática de texto como disciplina autónoma (de 1965 a 1972). A terceira etapa dirige-se para o domínio do conhecimento. Sob influência da pragmática, da teoria da atividade linguística, da psicolinguística, da sociolinguística e da estilística funcional, o texto é compreendido, desde princípios dos anos 70, como um fenómeno de acção social linguísticocomunicativo (1995, p. 313).. O desenvolvimento dessas etapas deu-se em um período importante na história da Linguística. Fervilhavam pesquisas, especulações e debates sobre a variedade, amplitude e complexidade do tema, mas entre todas as correntes teóricas, é unânime o fato de que, neste estudo, devem ser considerados não só os aspectos linguísticos, mas também os sociais e psicológicos. De acordo com Marcuschi (2014 [2008], pp. 39-40), tratava-se de uma época em que se “introduzia a preocupação com a produção efetiva; teve início aqui uma discussão sobre a natureza da linguagem e se de fato a perspectiva formal daria ou não conta do tratamento da língua como ‘forma de ação’”. Consideramos como um dos caminhos desse desenvolvimento, a Linguística Textual. De acordo com Fávero (2009 [1991]), ela surge na década de 1960 na Europa, especificamente na Alemanha. Ainda segundo a autora, embora o termo já tivesse sido utilizado por Coseriu em 1955, o primeiro uso com o significado tal como o concebemos hoje encontra-se em Weinrich, datando de 1966. Nessa época, os estudos textuais ganham impulso, com o objetivo de compreender, expandir e/ou substituir as teorias existentes, analisando os problemas advindos quando do estudo do texto. Mais especificamente,. 5. De acordo com Marcuschi (2014 [2008], pp. 39-40), a guinada pragmática, advinda dos conhecimentos da filosofia da linguagem analítica de Wittgenstein e Austin, apresentou “novos paradigmas de análise da língua como forma de ação, mas sem atingir a linguística como um todo”..

(23) 23. As causas de seu desenvolvimento são, dentre outras, as falhas das gramáticas da frase no tratamento de fenômenos como a referência, a definitivização, as relações entre sentenças não ligadas por conjunções, a ordem das palavras no enunciado, a entonação, a concordância dos tempos verbais, fenômenos estes que só podem ser explicados em termos de texto ou em referência a um contexto situacional (FÁVERO, 2009 [1991], p.5).. É importante destacar que o estudo do texto tem suas raízes na Retórica de Aristóteles. De acordo com Breton (2006 [2003], p. 153), o filósofo grego abre a sua obra “com uma reflexão sobre o que se pode fazer e o que não se deve fazer com a palavra”. Essa preocupação justificava-se pelo fato de o mundo grego estar, na época, atrelado a uma concepção de vida social inspirada nos moldes de uma política baseada em discussões, debates, nos quais predominavam os ideais democráticos, a ideia de coletividade, embora saibamos que nem todos os habitantes das cidades-estado tinham a condição de cidadãos. Como se pode notar, as preocupações com o objeto texto obedecem ao contexto onde se inserem os estudiosos e, no decorrer da história, também se modificam os objetivos e as concepções de cada autor, gerando inúmeras teorias linguísticas, cada uma com suas especificidades. Entretanto, desde o seu início, até o formato atual, o interesse maior sempre foi com a organização estrutural do texto. O próprio Aristóteles, em sua já aludida Retórica, dedicou uma parte do terceiro livro às chamadas partes do discurso, que trazem a divisão adequada para um bom texto argumentativo. Retornando à Linguística Textual, Bernárdez (1982) assinala que, desde a primeira fase, houve um entusiasmo pelos estudos sintáticos numa visão transfrástica. A análise transfrástica e/ou a construção de gramática de texto diz respeito aos recursos linguísticos que, em nenhum momento, foram adequadamente esclarecidos pelas concepções formalistas reduzidas ao patamar da frase. Segundo Adam (2017, p. 34), as primeiras gramáticas de texto baseavam-se sobretudo na Perspectiva Funcional da Sentença, desenvolvida pela Escola Funcionalista de Praga. Para o autor, essa teoria figurou como o “meio de pensar a coesão textual e de descrever como se estabelecem as relações necessárias de dependência interfrástica”. Começa-se da frase para o texto, por pensar as ligações/os elos transfrásticos 6 implementadas/os entre as frases e os períodos, constituindo sentidos e por perceber a presença de construções inexplicáveis por teorias sintáticas ou semânticas. Assim, pode-se inferir desse conceito que, além do retorno da semântica e da pragmática, “o objeto privilegiado de estudo era a coesão, ou seja, a propriedade de cohere (hang together), muitas vezes equiparada à. 6. Sobre “elos transfrásticos” ver Guimarães (1992, p. 21)..

(24) 24. coerência (coherence), já que ambas eram vistas como qualidades ou propriedades do texto” (KOCH, 2015 [2004], p.12, grifos do autor). Koch (2015 [2004]) destaca que, durante a década de 1980, houve uma expansão na definição de coerência numa visão “pragmático-enunciativa”, ou seja, passou a ser considerada um acontecimento abrangente que surge em contextos de reciprocidade entre o enunciado e os enunciatários, de acordo com o desempenho de um conjunto multifacetado de elementos “de ordem linguística, cognitiva, sociocultural e interacional” (p.12). Esses elementos, na construção do texto, realizam o processo da interação. A Linguística Textual é disciplina inovadora, indo muito além dos limites da Linguística Geral, encaminhando-se para o estudo da língua na esfera interna de sua estrutura e sistema. Trata o texto como elemento essencial da comunicação humana, relacionando-o com o contexto externo, onde a interação verbal ocorre num completo âmbito comunicativo. “A linguística do texto é, portanto, integradora... a nova linguística tem uma nova forma de ver a linguagem, precisamente por causa desse desejo integrador7” (BERNÁRDEZ, 1982, p. 246, tradução nossa). Ainda sobre a questão integradora, é necessário considerar o pensamento de Adam (2017). Para ele, essa característica acompanha a Linguística Textual desde o seu surgimento, ligado às “antigas disciplinas do texto”. Assim, ela mantém alguma relação com a Retórica e a Estilística, “que tinha por objeto a tessitura (elocutio) dos textos literários” e também com a Poética, “que tem por objeto a questão dos gêneros literários, a estrutura dos textos poéticos e narrativos, a inserção da descrição e do diálogo no relato”. Além disso, relaciona-se com a Hermenêutica e com a Filologia, no que concerne aos seus “saberes e técnicas de estabelecimento do texto e de sua análise” e com a Tradução, “que encontra plena realização textual e discursiva na Poétique du traduire de Henri Meschonnic”. O fato de atentar para todo tipo de texto como seu objeto de análise e contribuir com outras áreas no conhecimento dos recursos que dominam sua produção, compreensão e interpretação, faz com que a nova disciplina se direcione para uma prática interdisciplinar, agregadora. Enquanto disciplina autônoma, que surgiu a partir de 1965, a Linguística Textual desenvolveu-se amplamente durante os anos setenta, não somente, mas principalmente, sob a luz da Semântica e da Pragmática, sem, no entanto, esquecer a importância da Sintaxe, aspectos sobre as quais trataremos adiante.. Bernárdez (1982) “La linguística del texto es, por tanto, integradora... la nueva lingüística tiene una nueva forma de ver el lenguaje, precisamente por esa ansia integradora” (p. 246). 7.

(25) 25. Em suma, podemos dizer que a Linguística Textual, conforme assinala Marcuschi (2014 [2008], p.73), consiste no “estudo das operações linguísticas, discursivas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção e processamento de textos escritos ou orais em contextos naturais de uso”. De acordo com essa concepção, fica claro que se trata de uma disciplina que compreende o texto de modo global e revela a sua já mencionada interface com estudos pragmático-discursivos.. 1.2 A IMPORTÂNCIA DA PRAGMÁTICA A Pragmática comporta a esfera da Linguística que descreve a linguagem em uso e analisa a relação entre a língua e seus usuários. A princípio, surgiu ao lado da Sintaxe e da Semântica como um dos elementos da Semiótica, ciência que trata principalmente dos signos e seus sistemas. Segundo Tatit (2005 [2002]), esse novo “projeto de ciência”, criado pelo lexicólogo lituano Algirdas Julien Greimas, tinha como foco a indagação acerca do sentido construído dentro do próprio texto, deixando de lado a preocupação com a palavra e a frase stricto sensu e recebeu, inicialmente, o nome de “semântica estrutural” e, posteriormente, “semiótica”. De acordo com Batista (2012), o estudo da Pragmática caminha em duas direções principais: a escola de “tradição inglesa e norte-americana”, que considera a Pragmática “como mais um dos ramos da linguística, ao lado da fonologia, morfologia, sintaxe e semântica” e a escola de “tradição europeia”, para a qual “a definição do campo é mais abrangente, situando a pragmática como estudo da linguagem em perspectiva funcional” (p.50). Cabe também à Pragmática estudar a maneira como a gramática, de um modo geral, pode ser empregada em circunstâncias concretas de comunicação. Atenta principalmente para a interação verbal. Segundo Jean Dubois et.al. (2014 [1973]: O aspecto pragmático da linguagem concerne às características de sua utilização (motivações psicológicas dos falantes, reações dos interlocutores, tipos socializados da fala, objeto da fala, etc.) por oposição ao aspecto sintático (propriedades formais das construções linguísticas) e semântico (relação entre as unidades linguísticas e o mundo) (p. 448).. Embora tenhamos acima uma definição sobre o aspecto pragmático da linguagem, conceituar a Pragmática pode ser tão complexo quanto entender sua importância no desenvolvimento da Linguística Textual. Dessa forma, adotamos como parâmetro do nosso estudo a vertente de Van Dijk, segundo a qual a Pragmática “como ciência dedica-se à análise.

(26) 26. dos atos de fala e, de forma genérica, às funções de enunciados linguísticos e suas características nos processos de comunicação8” (1997 [1983], p. 79, tradução nossa). Trata-se de um conceito compreendido como a análise da linguagem em seu processo efetivo de utilização, nos diversos contextos linguísticos e extralinguísticos, culturais e sociais em que se insere. Uma das características essenciais no desenvolvimento da Pragmática é, exatamente, constatar que a aplicação da língua não se restringe apenas a produzir enunciados9, mas na prática de ações sociais estabelecidas. Sob a ótica da Pragmática, o texto não deve ser visto como produto acabado, mas como parte de um processo ainda maior e mais complexo de constituição, embasado nas intenções e contextos do falante. Isso significa que a Pragmática trata dos vínculos entre texto e contexto10. Para a Pragmática, o importante está na forma como a comunicação se processa entre os falantes da língua; é preciso saber identificar o que se diz (os ditos) e perceber o que está implícito (os não ditos) nos enunciados. Partindo dessa perspectiva, para os linguistas, vai se tornando imprescindível ultrapassar a abordagem sintático/semântica do texto, ou seja, ir além das definições-padrão concedidas às palavras pela semântica e pela sintaxe. Vejamos o exemplo a seguir: •. Como o volume da música está alto! Não estou ouvindo bem o que diz.. •. Me desculpe, irei baixá-lo.. Mesmo que o locutor não tenha solicitado que o volume fosse diminuído, o interlocutor, pela observação do enunciado, deduziu que, para ser bem ouvido, deveria abaixar o volume, intenção implícita pelo primeiro falante. O aspecto pragmático da língua reconhece que alguns enunciados realizam mais do que aparentam, são os implícitos no ato comunicativo. É momento de lembrar a importância do contexto no ato da comunicação. Compreendase aqui a noção de contexto ligada à percepção das intenções implícitas nos discursos. Por isso, é fundamental conhecermos tanto a estrutura contextual (situação comunicativa) quanto a estrutura textual. Diante disso, reconhece-se a relevância da Pragmática no estudo das relações entre a estrutura textual e os elementos da circunstância comunicativa a que se refere, isto é, os elementos do contexto.. Van Dijk (1997) “La pragmática como ciencia se dedica al análisis de los actos de habla y, más en general, al de las funciones de los enunciados lingüísticos y sus características en los procesos de comunicación” (p. 79). 9 Trataremos da questão da enunciação com mais profundidade no capítulo 2. 10 A respeito da relevância do contexto, debruçar-nos-emos com mais afinco no terceiro capítulo desse estudo. 8.

(27) 27. É, pois, foco principal no desenvolvimento da Pragmática a constatação de que a aplicação da língua não se limita a produzir um enunciado, mas é fundamental na realização de determinada ação social. Vejamos o exemplo a seguir: •. Amanhã devolverei seus discos.. Ao pronunciar a oração acima, apresentamo-la de forma gramaticalmente adequada à língua portuguesa, além de praticar, simultaneamente, uma ação que engloba algum princípio social, como fazer uma promessa. Van Dijk (1977) afirma que o caráter social de atos de fala dessa natureza evidencia nossa intenção em transformar a compreensão, os propósitos e, por vezes, até a atuação do nosso interlocutor porque implica certos deveres. Quando nos comprometemos a algo, devemos estar conscientes de que realizaremos a tarefa. Além do que é preciso sabermos, de antemão, se nosso interlocutor também tem interesse na ação proposta. Mesmo assim, para a Pragmática, os atos de fala podem se realizar ou não em uma situação concreta. Nesse contexto, o sucesso de atos de fala depende de elementos pragmáticos. Por isso, é importante destacar que fazem parte da dimensão pragmática do texto os aspectos associados às ações do autor e receptor do texto, nas ocorrências comunicativas. A esse processo agregamse as características textuais de intencionalidade, relativas a condutas do autor; as de aceitabilidade, atreladas a comportamentos do receptor; as da situacionalidade, pertinentes às circunstâncias de comunicação11. Por essa razão, autor/receptor do texto, na medida em que manipulam a linguagem, demandam recursos de níveis sociocognitivos, interacionais e textuais, com o intuito de gerar significado. Conforme observamos em Austin (1990), é na teoria dos atos de fala, os quais se referem a toda ação efetuada por meio do dizer, que encontramos os elementos para a análise dessa manipulação. Segundo o autor, os atos de fala se apresentam em três modalidades: 1. Atos locutórios ou locucionais são aqueles evidenciados por expressões coerentes, ou seja, ditas com um dado sentido; evidenciam-se, ainda, quando, por referência, são contextualmente pertinentes. Exemplo: •. 11. O rapaz está pintando o muro.. Sobre intencionalidade, aceitabilidade e situacionalidade, trataremos mais atentamente no capítulo 3, item 3.1.3, ao expormos os sete fatores de textualidade postulados por Beaugrande e Dressler..

(28) 28. 2. Atos ilocutórios ou ilocucionais são aqueles representados em sentenças linguisticamente eficientes, nas quais está evidenciada a intenção do locutor, ou seja, a ação realizada no enunciado, no ato locutório ou locucional. Estão além do significado apenas e entre as relações sociais desenvolvidas pelos falantes o poder de um ato ilocucional. Segundo Austin (1990), pela utilização da terminologia de ilocução, inserimos uma referência aos princípios ilocucionais relacionados com as condições próprias do momento em que a mensagem é enunciada, ou seja, é o ato realizado na fala ao expressar um ato locucionário. Embora apresente relação com a criação de impressões, sensações em determinados significados, o ato ilocucional não é, em si mesmo, resultante de um ato locutório. Exemplo: •. No próximo mês visitarei minha mãe.. Guimarães (2013) afirma ser parte do ato ilocucional causar no alocutário “um certo ato mental, mediante o qual ele reconhecerá a intenção do falante” (p. 57). A intenção do falante é verificada nos enunciados, principalmente por alguns verbos considerados performativos, como declarar, prometer, aprovar, avisar, apostar, pedir, os quais dizem respeito à prática de ações. 3. Atos perlocutórios ou perlocucionais são caracterizados por enunciados que produzem efeitos de sentido e demandam interação do leitor/ouvinte. Em outras palavras, podemos dizer que no ato perlocutório estão as consequências das nossas ações, intencionais ou não. Exemplo: •. As análises estão péssimas: vocês entenderam o enunciado?. Quando produzimos um enunciado para convencer, persuadir, impedir e até mesmo surpreender ou confundir nosso leitor/ouvinte, realizamos atos perlocucionais. Na concepção de Austin (1990), o fato de “ podermos incluir no próprio ato uma gama indefinidamente extensa do que se poderiam chamar ‘consequências’ do ato, é ou deveria ser um ponto pacífico fundamental na teoria da nossa linguagem acerca de toda a ‘ação’ em geral” (p. 93, grifos do autor). Os três atos de fala apresentados estão submetidos, justamente por se tratar de ações, aos obstáculos e restrições que diferem uma experimentação de um feito. Isto é, cada uma das.

(29) 29. modalidades de atos de fala usufrui de suas próprias regras e informações a partir das quais uma ação confere resultados. Desse modo, segundo Van Dijk (1997 [1983]), encontra-se no escopo da Pragmática a análise das circunstâncias perante as quais as ocorrências linguísticas se fixam e se adaptam à condição comunicativa, ou seja, ao contexto. São integrantes do contexto dos enunciados: as instâncias locutor-interlocutor; a ação desempenhada por eles na elaboração e consequente assimilação do enunciado; o sistema linguístico que conhecem e usam; as condutas mútuas perante as normas estabelecidas; e os deveres e práticas sociais, campo para a ação e interação humanas. Podemos deduzir dos postulados apresentados por Van Dijk (1997 [1983]) que o mérito dos estudos da Pragmática está na criação de oportunidades para a produção legítima dos enunciados, resultante das relações entre texto e contexto. Por isso, concerne a ela analisar as situações de sucesso e de insucesso na propagação dos enunciados; a saber, condicionados ao contexto. Por fim, os conceitos expostos até então, seguramente não se encerram com o que apresentamos aqui; entretanto, eles nos fornecem um entendimento geral da Pragmática na perspectiva da Linguística Textual, atendendo à nossa expectativa para esta pesquisa.. 1.3 O PAPEL DA SEMÂNTICA Desde a Grécia antiga, uma das grandes empreitadas do homem tem sido procurar assimilar o funcionamento da linguagem humana em todos os seus meandros; tarefa árdua, mas que se tornou mais acessível a partir do século XX. Nesse período, surgiu a Linguística enquanto ciência autônoma, que se vai constituindo em diversas disciplinas: a Fonética, a Fonologia, a Morfologia, a Sintaxe, a Semântica, a Sintaxe-Semântica, a Linguística Textual, a Análise do Discurso, a Pragmática, a Sociolinguística, a Psicolinguística, entre outras. Dentre as disciplinas da Linguística, é a Semântica que, segundo Ribeiro:. [...] estuda o significado das línguas naturais, subdivide-se em vários tipos, de acordo com as variadas visões dos especialistas nessa área. Desta forma, há a semântica textual, formal, lexical, discursiva, cognitiva, dentre outras, ligadas por um ponto comum: em todas elas o objeto de estudo é o significado (2016, p. 9).. Ainda de acordo com Ribeiro (2016), o termo Semântica foi criado pelo filólogo Michel Bréal (1832-1915), que fez suas primeiras investigações sobre a ordenação dos eventos.

(30) 30. semânticos importantes e a sua relevância para os estudos das línguas naturais. No entanto, é sabido que os estudos sobre os sentidos vêm sendo realizados desde Aristóteles. De acordo com Pietroforte e Lopes (2014 [2003], p. 114), a questão sobre a significação do que é dito oscila de acordo com as tendências de determinada época e também com a tradição a que se filia determinado autor. No geral, essas oscilações podem ser representadas por meio do triângulo de Rastier (1990, p.7), apresentado a seguir:. Figura 1: O triângulo de Rastier. CONCEPTUS (conceito). VOX ....................................................... RES (palavra) (coisa). Fonte: (RASTIER, 1990, p.7). Segundo os autores, podem-se considerar duas vertentes principais de estudos semânticos, sobretudo com relação à chamada semântica do referente. De um lado, observam aqueles baseados em Carnap e Frege, descendentes de uma tradição lógico-gramatical que impera no mundo ocidental desde os antigos gregos, passa pela escolástica medieval, atravessa a lógica de Port-Royal da Idade Moderna e apresenta inúmeros desdobramentos nos séculos XVIII e XIX. Nessa perspectiva, os estudiosos acreditavam que “as palavras remetem aos conceitos e que estes, por sua vez, representam as coisas” (PIETROFORTE; LOPES, 2014 [2003], p. 114). Do outro lado, tem-se os estudos baseados no legado retórico-hermenêutico que, de acordo com Pietroforte e Lopes (2014 [2003, pp.114-115) prefere examinar o que se passa entre o fazer persuasivo de um locutor e o fazer interpretativo de um interlocutor; já não se trata das relações linguagem-.

(31) 31. coisas ou linguagem-mundo, e sim das relações entre o que se diz e como se diz, ou, em termos mais modernos, entre significantes e significados.. Ainda segundo os autores, o Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure ligase especificamente a essa segunda tradição, chamada por François Rastier de retóricohermenêutica. Assim, é principalmente a partir das ideias de Ferdinand de Saussure (18571913) a respeito do signo linguístico, significante e significado, que a Semântica vem se desenvolvendo amplamente. Isso porque, por conta das ideias do mestre genebrino, passa-se a um “estudo da linguagem humana orientado pelo que se passa em seu interior, e não numa instância qualquer situada fora dela” (PIETROFORTE; LOPES, 2014 [2003], p.115). Desse modo, embora o estudioso não tenha se ocupado especificamente das questões semânticas – posto que a parole não figurava entre os objetos de estudo no Curso –, os seus estudos foram de grande importância, pois A noção de que o significado não é um objeto do mundo, mas uma construção de linguagem, está apoiada na teoria do signo desenvolvida no Curso de Linguística geral; a concepção de que o sentido se constitui na diferença está assentada na tese saussuriana de que a língua é forma (PIETROFORTE; LOPES, 2014 [2003], p. 115).. Partindo dessa premissa, estudiosos de diferentes correntes e variadas teorias tentam indicar um caminho adequado para o seu entendimento. Apesar do esforço, segundo Ferrarezi Jr. (2019), [...] nas primeiras décadas do árduo processo de construção da linguística como ciência, a semântica não teve posição de destaque. Isso talvez se deva ao fato de que a missão de Saussure, como fundador da linguística tivesse, à primeira vista, pouco a ver com a dimensão semântica das línguas (p.16). Dessa forma, apesar da influência posterior exercida pela teoria saussuriana sobre os estudos semânticos, a preocupação maior do estudioso estava, sobretudo, na estrutura das línguas, sendo. essa “a chave para a reconstrução das línguas antigas, pois seria nessa estrutura que estariam as “leis” que regem todas as línguas” (FERRAREZI JR., 2019, p. 17). O modus operandi em questão fez surgir o estruturalismo linguístico, escola que não dava nenhuma importância à dimensão semântica da língua. Em linhas gerais, esse foi o paradigma que norteou os estudos linguísticos até meados dos anos 1950, quando – nos Estados Unidos – surge uma nova corrente linguística conhecida como gerativismo, cujo maior expoente é Noam Chomsky. Nessa nova perspectiva, passa-se a conceber a linguagem como “uma faculdade mental inata instalada no ‘equipamento biológico’ e não como um fenômeno social; a linguística passa a ser concebida como o estudo da língua internalizada”.

(32) 32. (MARCUSCHI, 2014 [2008], p.35). A partir de tal visão, os estudos descritivos cedem lugar aos “intuitivos”. Todavia, a mudança paradigmática também não se mostrou promissora à questão dos estudos semânticos. Isso porque, ainda conforme Marcuschi (2014 [2008], p. 36), os trabalhos de orientação chomskiana eliminaram “os estudos ligados à vida social da linguagem [...], ligados ao uso, funcionamento ou desempenho linguístico”. A situação só reverterá efetivamente a partir de meados do século XX, quando tais questões se tornam o centro dos debates linguísticos. Em suma: É a passagem da análise da forma para a função sociocomunicativa e o enquadre sociocognitivo. Sabemos que as línguas são empregadas no dia-adia das mais variadas maneiras e não de forma rígida. Os estudos discursivos e pragmáticos tentam esclarecer como se dá essa produção de sentidos relacionados aos usos efetivos: o sentido se torna algo situado, negociado, produzido, fruto de efeitos enunciativos e não algo prévio, imanente e apenas identificável como um conteúdo (MARCUSCHI, 2014 [2008], p.37).. Como se pode notar, até meados do século XX, os estudos semânticos não eram priorizados pelas correntes linguísticas vigentes. Isso fez com que o estudo dos sentidos das palavras fosse realizado principalmente sob uma base histórica, levando em conta as transformações lexicais, tradição iniciada ainda no século XIX por estudiosos como Hermann Paul, Michel Bréal e Meillet. Assim, nas primeiras décadas do século posterior, nomes como Gustav Stern e H. Sperber mantiveram, de modo geral, linha de pensamento semelhante (CÂMARA JR, s/d [1975], p. 235). Apesar da forte tendência histórica no trato dos assuntos semânticos, outros autores, de base saussuriana, desenvolveram estudos consideráveis nesse campo de conhecimento. Dentre eles, podem-se citar Gardiner e Bally e, além deles, Gombocx e Buyssens. No entanto, as contribuições mais consideráveis viriam através dos estudos de Sapir com a publicação do Gradação, um Estudo da Semântica, no qual o autor elenca três níveis de significação: o lógico, o psicológico e o linguístico. Este último não coincide com os anteriores, posto que podem estar superpostos ou permanecerem não expressos nele. A distinção proposta pelo estudioso foi de grande valia para a chamada “semântica linguística”, cujo escopo é o nível linguístico do significado e encontrava base na teoria de Saussure acerca do lugar do significado nas oposições linguísticas (CÂMARA JR, s/d [1975], p. 237). No decorrer dos anos, entretanto, tais discussões tomaram corpo quando se constatou a importância de observar não só a palavra em si, mas as relações que o homem estabelece na interação com o outro e a forma como apreende o mundo ao seu redor, significando-o de.

Referências

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