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O termo sintaxe origina-se do grego arcaico σύνταξις e, no geral, significa “ordem” ou “disposição”. A origem do termo revela o berço dos estudos sintáticos, embora eles não tivessem se desenvolvido tanto na Grécia Antiga, pois as reflexões linguísticas da época estavam voltadas mais às questões discursivas, compreendidas no âmbito da Retórica. Por essa razão, os estudos mais desenvolvidos concerniam a teorias da significação relacionadas sobretudo ao léxico (MATTOS E SILVA, 1989, p.16).

Ainda assim, é nos gregos que vamos encontrar uma primeira menção àquilo que hoje podemos considerar os componentes sintáticos da oração. Conforme bem lembra Câmara Jr (s/d [1975], p. 26), foi Aristóteles quem primeiro fez uma distinção nítida entre as “partes do discurso” e sobre a “estrutura da oração (o nome como sujeito e o verbo como predicado”. Além

disso, segundo assinala Kristeva (1974, p.161) apud Mattos e Silva (1989, p. 16), o filósofo grego também definiu a “proposição, que afirma ou nega um predicado ao sujeito, ou diz se o sujeito existe ou não”.

Ainda em solo grego, com o surgimento da Arte Gramática, pouca mudança se observa com relação aos estudos sintáticos. Dionísio, o Trácio, o gramático inaugural, sequer aborda as questões sintáticas, abrigando somente a fonética e a morfologia. É somente em Apolônio Díscolo, aproximadamente duzentos anos mais tarde, que vamos encontrar uma parte dedicada à sintaxe (NEVES, 2005 [1987], p.127).

De acordo com a autora, esse estudo é de grande valia, pois considera

[...] dois níveis, o do conteúdo e o da forma. A "oração completa" é definida pela "congruência dos significados· (ll1 sintaxe I 2; IV 16), mas ao mesmo tempo se considera que a congruência ou a não-congruência gramatical reside na construção das palavras, que vão tendo sua forma adequadamente transformada, enquanto mantêm os conteúdos básicos (ll1 sintaxe III 10). Isso implica a consideração de que a congruência da oração se obtém de uma adequação formal (ll1 sintaxe III 27) dos elementos da oração, segundo os acidentes: gêneros, números, casos e pessoas (ll1 sintaxe III 13); A oração se define, pois, por determinações da congruência do conjunto, ou do significado, mas também por determinações da forma e da função das palavras (NEVES, 1993, p.71).

Apesar da relevância do feito de Díscolo, é importante considerar que seu estudo se baseia sobretudo na “classificação e na sistematização das formas, não com a análise das funções” (ibid., p. 70). Esse fato, no entanto, não minimiza a importância do gramático grego, uma vez que, como um todo, o seu tratado promove uma visão diferente da até então imperante: a da relação entre os termos, a sintaxe propriamente dita, e não a separação das partes da oração, como se observa em seu antecessor, Dionísio, o Trácio.

Entre os romanos, a tradição de Apolônio Díscolo será mantida por estudiosos de renome, tais quais Prisciano, que dedica uma parte de seus estudos à sintaxe latina e assume, como base, os preceitos do gramático grego. Entretanto, o estudioso romano desenvolve os conceitos iniciais e, conforme assinala Fortes (2012, p.381), promove uma análise muito maior e mais consistente, na qual insere uma série de indagações acerca do latim e em comparação com o grego. Além disso, chega “à elaboração de uma ‘teoria’ da variação linguística na própria descrição sintática”.

Com o surgimento das gramáticas das línguas vernáculas, mantém-se o paradigma greco-latino. Isso se pode observar, por exemplo, na teoria sintática dos modistas, grupo de gramáticos parisienses que existiu entre meados do século XIII e início do século XIV.

Conforme assinala Beccari (2017, p. 184), os estudos desse grupo figuram como “uma tentativa consciente de síntese entre aristotelismo medieval e tradição gramatical”. Nesse sentido, corrobora-se a visão de Câmara Jr (s/d [1975], p.26), segundo a qual, a tradição lógica inaugurada por Aristóteles permeou os estudos da linguagem até o advento da Linguística propriamente dita, no século XX.

No entanto, é importante ressaltar que, em meados do século XIX, Gottlob Frege, matemático e filósofo alemão, apresenta uma crítica considerável e contundente à sintaxe gramatical, até então calcada nos princípios aristotélicos, e promove uma reformulação nos princípios da sintaxe lógica. Sobre o pensamento do matemático, Prado (2012, p. 22, grifos do autor) destaca:

De acordo com Frege, a sintaxe lógica da proposição é baseada nas categorias de conceito e objeto, não sujeito e predicado. Um conceito, Para Frege, é uma

entidade insaturada, que possui um espaço vazio que precisa ser preenchido

para formar uma proposição e adquirir significado. Por exemplo: “__ é irmão de __“, é um conceito. “João” e “Maria” são os objetos. “João” e “Maria” preenchem o conceito em nosso exemplo acima, produzindo a proposição “João é irmão de Maria”. Da mesma forma, num enunciado predicativo, “___ é filósofo” é o conceito; “Sócrates” é o objeto; quando Sócrates assume o lugar vazio existente no conceito, teremos a proposição com sentido “Sócrates é filósofo”.

Apesar da importância das considerações de Frege, que inclusive é considerado o pai da lógica moderna, os estudos sintáticos, organizados sob a forma de uma disciplina linguística propriamente dita só irão se firmar como autônomos no século XX, depois das considerações de Saussure. No entanto, outro marco notável do século XIX foi a publicação da obra O que é Sintaxe?, de John Ries, o que, de certo modo, definiu o lugar da Sintaxe nos estudos realizados até então.

Mesmo com o advento da Linguística, conforme destaca Nunes (2015, p.7), até a metade do século XX, os estudos sintáticos ainda não eram tão expressivos quanto os de outras disciplinas, e “o seu alcance não ia muito além do que já havia sido estabelecido pelas gramáticas tradicionais”. O autor aponta os anos 1960 como o marco do início de uma nova fase da Sintaxe, devido ao surgimento de mecanismos formais que possibilitaram análises mais acuradas.

Além disso, podemos apontar a mudança do paradigma estruturalista para o cognitivista como uma possível causa da nova fase. Prova disso, por exemplo, foi o advento da Sintaxe Gerativa, postulada por Noam Chomsky. Na visão desse estudioso, todo o processo de construção frasal obedece a um conjunto de regras sintáticas, que norteiam o processo de

criação linguística. Partindo desse pressuposto, compete à análise gerativa o estudo de como essas regras são aplicadas nas línguas e, por conseguinte, descrever tais regras (KENEDY, 2015, pp.14-15).

O auge do processo deu-se, ainda segundo Nunes, nos anos 1980, em decorrência dos postulados da Teoria de Princípios e Parâmetros. Segundo o pesquisador, ela exerceu grande influência na comunidade científica da época não só “pelos princípios e parâmetros específicos propostos, mas principalmente pela sua capacidade de agregar os mais diferentes tipos de investigação em sintaxe”. (ibid., p. 7). Com isso, as pesquisas voltadas à sintaxe das línguas aumentaram consideravelmente, e o conhecimento obtido apenas nessa década pode ser considerado superior a tudo o que já tinha sido produzido nos séculos anteriores (ibid, p.8).

Jean Dubois et al. (2014 [1973]) definem sintaxe como “a parte da gramática que descreve as regras pelas quais se combinam as unidades significativas em frases; a sintaxe, que trata das funções, distingue tradicionalmente da morfologia, estudo das formas ou das partes do discurso” (p. 523). Pela conceituação apresentada, observamos que ela se caracteriza como assimilação entre os recursos linguísticos que compõem a formação dos enunciados. Tem como objetivo de investigação a análise da sentença, ou seja, estuda a função dos vocábulos dentro de uma frase.

Othero e Kenedy (2015, pp. 9-10) relembram a complexidade do fenômeno sintático e relacionam a isso o fato de haver distintas formas de abordagem da Sintaxe. Sobre elas, ponderam que, muitas vezes, trata-se de abordagens complementares, pois “a sintaxe é parte da estrutura das línguas e, assim, compreende um conjunto de formas e arranjos formais, mas é claro que essas formas querem dizer alguma coisa sobre o mundo e, dessa maneira, cumprem alguma função comunicativa”.

Sob o prisma da Linguística, contamos com a Gramática Sintagmática, a qual abarca a Sintaxe como um dos aspectos mais significativos, uma vez que indica e possibilita procedimentos mais apropriados para o entrelaçamento e a organização das palavras nas sentenças, e dessas na estruturação de um texto/discurso, garantindo sentidos aos processos comunicativos.

A Gramática Sintagmática se desenvolveu em oposição à Gramática Tradicional, que se ocupa da Sintaxe com foco na classificação dos vocábulos em sujeito, predicado e outros termos da oração (adjunto adverbial, adnominal, aposto). Já com relação à análise sintagmática, sua relevância está no estudo da relação e da atribuição de cada elemento na formação de uma sentença em contextos determinados.

O sintagma caracteriza-se pela ordenação dos elementos linguísticos, que integram uma unidade na oração e também dependem da forma como essas unidades são compostas. Nessa perspectiva, organizam-se determinadas categorias, a saber: Sintagma nominal, Sintagma verbal, Sintagma preposicionado, Sintagma adjetival e Sintagma adverbial:

Sintagma Nominal, toda unidade que tem por núcleo um nome (um substantivo); Sintagma Verbal, a parte constituinte do predicado, cujo núcleo é o verbo. É importante observar que um sintagma nominal também pode completar o sentido de um sintagma verbal.

Sintagma Preposicionado, o qual se apresenta precedido por uma preposição. Para facilitar o entendimento dos sintagmas acima, exemplificamos a seguir:

• Aquele romance é do Saramago.

Vejamos nesta sentença que o determinante Aquele e o nome romance compõem o sintagma nominal; o determinante o associado ao nome Saramago constituem um sintagma nominal que, acrescido à preposição de criam o sintagma preposicionado. Este, mais o verbo de ligação, aqui representado pela terceira pessoa do verbo ser no presente do indicativo é, formam o sintagma verbal que, adicionado ao sintagma nominal, constituem a oração.

Vale aqui ressaltar a importância do artigo utilizado na determinação do nome, pois a sua escolha garante diferentes efeitos de sentido, conforme indicam os exemplos abaixo:

• Compramos um presente para Luara. • Compramos o presente para Luara.

Observe-se que quando usamos o artigo indefinido em um presente significa que compramos um presente qualquer, ao passo que ao usarmos o artigo definido em o presente significa que compramos o presente especial.

Sintagma Adjetival, constituído por um adjetivo que possui função de núcleo, simples ou composto, conforme os exemplos:

• A casa amarela é bastante visitada pelos turistas. • Ganhei um sapato verde-limão.

É possível em algumas situações optar por especificadores, os graus dos adjetivos, os quais no interior do sintagma adjetival quantificam o núcleo. Aqui exemplificados apenas pelo grau superlativo:

• Um homem muito estranho. • A tarefa foi muito bem executada. • O vovô é imensamente afável. • Uma estrada super-perigosa.

Pode-se optar também por complementos situados à direita do adjetivo, os sintagmas preposicionais, quando o sintagma adjetival tem função predicativa e por frases.:

• Aqueles documentos estão sujos de poeira. (Restringe a intensão do núcleo adjetival.)

• O garoto quebrou o vaso da sua mãe. (Não restringem, mas introduzem um novo argumento no sintagma adjetival.)

• Eles estão cansados de explicar. (Iniciados por uma preposição a que se segue uma frase infinita.)

• É improvável que ele chegue a tempo. (Frase completiva sem preposição.) Sintagma Adverbial, em sua formação tem como núcleo central o advérbio que, na frase, pode se evidenciar por meio de uma única palavra ou de uma locução adverbial e seus modificadores. Observe-se o exemplo:

• Ganhei um livro muito interessante que li atentamente.

Nota-se que o sintagma adverbial muito integra-se ao sintagma adjetival interessante, que é complemento do sintagma nominal, e o sintagma adverbial atentamente, que é complemento do sintagma verbal li.

Compreender, portanto, a análise sintagmática, é estudar a gramática inserida no texto/discurso e ir além do estabelecido pela tradição gramatical. É ler e observar o texto, segundo Guimarães “pela perspectiva da língua, isto é, dos recursos linguísticos utilizados pelo autor para dar sentido ao texto” (2013, p. 49). Isso ressalta a importância de atentarmos na produção dos sintagmas, que constituirão as sentenças, para que a comunicação, o propósito maior, se realize de forma clara e coerente.

Entende-se ainda a dimensão sintática ao ser ela concebida como uma ferramenta essencial que entra na construção de um observatório dos discursos e permite a observação, análise e manipulação dos enunciados, já que a mediação sintática intervém no domínio discursivo.

Essa interface sintaxe/discurso é relevante. De um lado, a sintaxe identifica-se com aquilo que dá feição própria a uma língua, traçando-lhe a organização estrutural; de outro, o discurso, como processo de produção de sentido, tem na língua, na sintaxe, um suporte decisivo na constituição de sua materialidade linguístico-histórica (2013, p. 49, grifos do autor).

O arcabouço da textualidade está, portanto, ligado à estruturação sintática do texto (coesão textual) que, por meio das relações estabelecidas, assegura a homogeneidade do texto/discurso. É na estrutura sintática do texto que se apresentam os conectores discursivos, elementos encarregados do planejamento e da progressão textuais. A utilização adequada desses elementos possibilita a redação de um texto claro e eficiente.

Podemos chamar de um texto bem elaborado aquele que cumpre o papel de estabelecer comunicação e de divulgar conteúdos relevantes aos seus leitores/ouvintes. Para tanto, é elementar que o autor do texto expresse suas proposições de forma inteligível, concreta e objetiva e produza enunciados adequadamente elaborados.

Nesse sentido, a articulação do texto, ou coesão interfrástica, determina recursos de continuidade entre as sentenças que se realizam num texto. A conexão interfrástica é atestada pelos conectores, viabilizadores do encaminhamento das ideias e essenciais para o desenvolvimento textual.

O emprego dos conectores possibilita uma melhor coesão textual e favorece a apreensão da coerência global do texto. Temos como elementos conectores: conjunções, advérbios, preposições além das locuções conjuntivas, adverbiais e prepositivas, expressões adjetivas ou orações completas.

Assim, as relações entre os enunciados podem ser, segundo Koch (2015), de natureza lógico-semântica ou discursivo-argumentativa.

Vejamos a seguir alguns exemplos que marcam, por meio de conectores, as relações lógico-semânticas:

• Meu filho foi aprovado no exame porque estudou bastante. • A força do vento foi tão grande que provocou muita destruição.

Os exemplos acima diferem simplesmente pelo critério sintático e estrutural; ambos estabelecem relações de causalidade, que envolvem a causa e a consequência.

• Quando meus amigos chegarem, jogaremos baralho. (temporalidade – tempo pontual)

• Depois que você chegou, todos se sentiram mais felizes. (temporalidade – tempo posterior)

• Cada um colabora segundo suas possibilidades. (conformidade)

Quanto às relações de natureza discursivo-argumentativas, Koch (2015) afirma que diferentemente das relações lógico-semânticas,

[...] encadeam-se não conteúdos (estado de coisas de que falam os enunciados...), mas atos de fala, em que se enunciam argumentos a favor de

determinadas conclusões. Ou seja: ocorre um primeiro ato de fala, que poderia

ser realizado de forma independente, e acrescenta-se outro ato, que visa a justificar, explicar, atenuar, contraditar etc. o primeiro (p. 170, grifos do autor).

Citamos a seguir alguns exemplos dessas relações, elencados por Koch (2015, pp. 171- 172):

Justificação ou explicação:

• Prefiro não sair, pois estou um pouco gripada. • Vá ver o filme, que você vai gostar.

Disjunção argumentativa:

• Acho que você deve reivindicar o que lhe é devido. Ou vai continuar se

omitindo?

Modalização da força ilocucionária:

• Vou entregar hoje os resultados da perícia. Ou melhor, vou fazer o

possível.

Consideramos, pois, que os conectivos, enquanto objetos de coesão textual, são fundamentais na estruturação e na progressividade das ideias que constituem um texto.

Diante da diversidade de demonstrações sobre a importância da Linguística Textual na evolução dos estudos textuais, Marcuschi (2012) propõe que a vejamos, “mesmo que provisória e genericamente, como o estudo das operações linguísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos e orais” (p. 33).

[...] trata o texto como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas. Por um lado deve preservar a organização linear que é o tratamento estritamente linguístico abordado no aspecto da coesão e, por outro, deve considerar a organização reticulada ou tentacular, não linear, portanto, dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas (MARCUSCHI, 2012, p. 33).

Ainda de acordo com Marcuschi (2012), imputa-se à Linguística Textual caráter determinante “no ensino de língua e na montagem de manuais que buscam estudar textos” (p. 33).

Neste capítulo, buscamos formular um conceito de Linguística Textual, considerando os principais autores que buscaram defini-la no âmbito dos estudos linguísticos. Além disso, procuramos apresentar as outras disciplinas que estabelecem um diálogo com ela, posta a sua característica interdisciplinar já por nós mencionada. Apresentados todos esses elementos, passamos, então, ao segundo capítulo, no qual nos ocupamos dos aspectos concernentes ao texto, no que tange à sua definição.

Além disso, também abordaremos a questão discursiva, buscando, igualmente, a definição do termo discurso, levando em conta as novas contribuições da Linguística ao tema. Em seguida, mensuraremos até que ponto se fundem os conceitos de texto e discurso e o porquê de tal fusão. Por fim, trataremos do conceito de enunciado, também de grande valia no âmbito dos estudos textuais e que, assim como os dois conceitos anteriores, é motivo de muita controvérsia, pelas possibilidades inúmeras de abordagem que apresenta.

2 ENTENDENDO A RELAÇÃO TEXTO/DISCURSO

[...] A experiência de vida que constitui o ser-no-mundo de cada um de nós é inalienável e intransferível; sua transformação em matéria textual só é possível quando ela é submetida às categorias da língua e do discurso, que são coletivas. Por isso, mesmo produzido em ato supostamente solitário e mantido em segredo, o texto jamais deixará de ser um acontecimento social. Fora dessa condição, jamais seria compreendido. Com efeito, nenhum texto é obra exclusiva de um autor; nele colaboram dados de uma espécie de memória coletiva [...] que contribuem para o seu sentido e compreensão. Noutros termos, o relato, a reflexão, o texto, enfim, não é um ‘retrato sem retoques’ da experiência que cada indivíduo tem no mundo, mas uma transfiguração dessa experiência nos termos de uma forma de conhecimento.”

(José Carlos de Azeredo)

A epígrafe deste capítulo retrata bem o objetivo a que nos propomos nesta etapa de nossa pesquisa. Conforme se verifica em Azeredo (2018), a “matéria textual” está submetida a outros fatores que subjazem à produção dos textos e que, em grande medida, são essenciais para a sua realização na sociedade. O modo como o autor compreende o texto, ligando-o ao seu papel social e, portanto, às suas condições de produção, já denotam uma visão bem diferente daquela que imperava antes do surgimento das disciplinas que dele se ocuparam, dentre elas a Linguística Textual.

No entanto, a convergência entre texto e os aspectos pragmáticos e sócio-históricos - em outras palavras, discursivos - levou a uma série de questionamentos com relação ao próprio conceito de texto e em que medida ele se relaciona ao discurso. Levando isso em consideração, propomos, doravante, uma reflexão acerca do conceito de texto, discurso e enunciado, visando a lançar alguma luz sobre a questão dos limites envolvendo esses três termos, com base em diferentes autores que se ocuparam de tal discussão, seja no âmbito da Linguística Textual, seja no âmbito de outras disciplinas. Com isso, mostramos, inclusive, de que modo ela mantém um diálogo interdisciplinar com outras formas de trato com o texto, como já mencionamos no capítulo anterior.

2.1 SOBRE A CONCEPÇÃO E CONCEITUAÇÃO DE TEXTO À LUZ DA LINGUÍSTICA