IX CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO URBANÍSTICO
GT 03
PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO URBANO – PDDU E SEUS
“DIRECIONAMENTOS” PARA EXPANSÃO URBANA DE ARACAJU-SE. CIDADE PARA QUEM?
Sarah Lúcia Alves França1
INTRODUÇÃO
Semelhante à maioria das cidades brasileiras, a expansão urbana de Aracaju obedeceu à lógica dos agentes imobiliários e do Estado, privilegiando interesses econômicos e caracterizando-se como um campo de lutas e disputas sócioespaciais. A legislação urbanística, através da obrigatoriedade da implementação do Plano Diretor, surgiu com estratégias e diretrizes para nortear transformações territoriais, pautadas em regulamentos para o uso e ocupação do solo e expansão urbana. Além disso, tenta-se conter disparidades sociais e econômicas influenciando assim, no mercado de terra.
Alguns aspectos influenciaram no adensamento e expansão urbana em Aracaju, como o estabelecimento de normas de controle de uso e ocupação do solo, permitindo e restringindo a realização de obras e intervenções urbanísticas, especialmente no tocante ao sistema viário e implantação de equipamentos coletivos e, por fim, o valor da terra. Esses elementos se constituíram importantes para a escolha das áreas utilizadas pelo mercado imobiliário, para construção de condomínios, ou pelo Estado para implantação de conjuntos habitacionais.
Diante disso, este artigo busca analisar o papel do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano – PDDU de Aracaju, como incentivador do processo de expansão a partir de 2000. Essa legislação urbanística, através do macrozoneamento e seus respectivos índices, tem direcionado a ocupação para áreas com precária infraestrutura e acessibilidade, presença de grandes vazios e elementos ambientais, como dunas e lagoas, na Zona de Expansão Urbana e no bairro Jabotiana, respectivamente enquadrados nas Zonas de Adensamento Restrito – ZAR e de Adensamento Básico – ZAB 2. De fato, o rápido crescimento fragmentado é fruto de uma urbanização controlada por uma legislação ineficaz, que serviu aos interesses do capital e aumentou a distância entre pobres e ricos, reforçando uma série de mecanismos de segregação e exclusão social.
Para o desenvolvimento deste foram realizados levantamentos documentais referentes à legislação e aos empreendimentos construídos nas referidas zonas do PDDU, quantificando-os e mapeando-os a fim de subsidiar a análise desse referido processo.
1 Arquiteta e Urbanista, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense. Professora Adjunta do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Sergipe – CampusLar. [email protected]
LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA EM ARACAJU: O PLANO DIRETOR DE 2000
Aprovado em 2000, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Aracaju – PDDU (Lei n°42) estabeleceu diretrizes da Política de Desenvolvimento Urbano, com macrozoneamento definido conforme disponibilidade de infraestrutura e serviços. Dentre seus objetivos e diretrizes destaca-se o “cuidado” com a expansão dedestaca-senfreada, de modo a: “ordenar o crescimento e a implantação de núcleos urbanos, através da distribuição adequada da população e das atividades de interesse urbano, de forma a evitar e corrigir as distorções do crescimento da cidade” (ARACAJU, 2000, p.1). Essas diretrizes de controle se contradizem com os índices urbanísticos propostos, e o zoneamento urbano, como será discutido adiante.
O macrozoneamento foi elaborado a partir dos níveis de adensamento populacional, capacidade de infraestrutura e acessibilidade, condições ambientais, “estabelecendo-se zonas em que a ocupação urbana pode ser intensificada e outras em que deve ser restringida” (ARACAJU, 2000, p.12). Assim, ficaram definidas: Zona de Adensamento Preferencial – ZAP, Zona de Adensamento Básico – ZAB e Zona de Adensamento Restrito – ZAR (Figura 2).
Essa última merece atenção, pois é caracterizada como dispersa e descontínua e, com acentuado déficit ou ausência de infraestrutura, correspondendo à Zona de Expansão Urbana – ZEU, uma área com a presença de áreas ambientais, protegidas por lei federal, além do predomínio do turismo de veraneio e segunda residência, impregnado nos condomínios horizontais às margens da faixa litorânea ou do rio Vaza Barris.
Apesar do Estatuto da Cidade ter sido aprovado somente em 2001, o Plano Diretor de Aracaju incorporou instrumentos como Coeficiente de Aproveitamento Único, fixado para todo o município como três, podendo ultrapassar até seis na Zona de Adensamento Preferencial – ZAP, através da Outorga Onerosa do Direito de Construir, desde que se disponha de esgoto sanitário projetado pelos órgãos competentes. A lei ainda define a isenção de pagamento da Outorga Onerosa até 4, acarretando a liberdade do acréscimo de áreas construídas e permitindo o adensamento sem financiamento da urbanização. Entretanto, nunca houve a aplicação deste.
Esse Coeficiente de Aproveitamento definido de forma equitativa para toda Aracaju, sem considerar as diferenças e contrariando as diretrizes do macrozoneamento, traz sérios prejuízos. Os índices urbanísticos que deveriam restringir o crescimento dessa área têm servido para incentivar o parcelamento do solo e agravar cada vez mais a dispersão, a segregação sócioespacial e a ocupação irregular de áreas ambientais, como ocorreu nos últimos 15 anos. Nesse caso, observa-se que esses índices urbanísticos são muito elevados para Aracaju, quando se avalia a oferta de infraestrutura e serviços e presença de ecossistemas que fazem da cidade um campo minado de intensa fragilidade ambiental. Aponta-se assim, a necessidade de ajustes na referida lei, para garantir a recuperação da mais-valia fundiária proveniente da utilização exacerbada do solo e dos investimentos públicos, conforme objetivos e diretrizes da própria lei.
REFLEXOS DA IMPLEMENTAÇÃO DO PLANO DIRETOR NOS ÚLTIMOS 15 ANOS
A legislação urbanística tem influência sobre a expansão urbana, especialmente em função das discordâncias e inconsistências das leis complementares retalhadas, que contrariaram as determinações do Plano Diretor, estabelecendo diretrizes que direcionaram as formas de ocupação que priorizaram determinados grupos econômicos. Uma dessas foi a sucessão de leis que determinaram gabaritos de altura para edificações multifamiliares, cujas distorções tiveram início ainda nos anos 1970, criando uma colcha de retalhos na legislação urbanística de Aracaju e dificultando seu cumprimento.
Quando se sobrepõe o macrozoneamento à produção habitacional, observa-se que embora as diretrizes e índices urbanísticos sirvam para controlar a ocupação, o alto coeficiente de aproveitamento básico três, não propiciou a aplicação da Outorga Onerosa do Direito de Construir. Isso resultou no estímulo à ocupação, em detrimento a outros fatores, em bairros de interesse dos compradores dos produtos imobiliários, como aqueles localizados na Zona de Adensamento Básico – ZAB 2. É aí que se concentram 365 empreendimentos, correspondendo à cerca de 70% do total produzido entre 2000 a 2014 (Tabela 1 e Mapa 1).
Tabela 1 Aracaju
Produção Habitacional
Empreendimentos e Unidades Habitacionais por Zonas de Adensamento 2000 - 2014 Área (km2 ) % Empreendimentos % ZAB ZAB 1 21,81 13,34 37 7,13 ZAB 2 53,06 32,46 365 70,32 ZAP 8,89 5,46 50 9,63 ZAR 79,67 48,74 67 12,92 Total 163,45 100 519 100 Fonte: França, 2016.
Na Zona de Adensamento Restrito – ZAR (equivalente à grande parte da Zona de Expansão Urbana) foram licenciados 67 empreendimentos (12% do total), quantidade superior àquela da ZAB 1 e ZAP. O interesse do mercado imobiliário aumentou em função do baixo valor da terra, comparado às demais similares, pela paisagem ambiental e proximidade aos elementos naturais e às áreas mais valorizadas da zona leste e sul, como 13 de Julho, Jardins e Atalaia.
Mapa 1: Aracaju, Produção Habitacional e Macrozoneamento, 2000-2014. Fonte: França, 2016
Todavia, o grande entrave da ZAR é o antagonismo entre legislação e realidade, em função dos índices urbanísticos elevados, que beneficiam os agentes produtores da moradia, desconsiderando a capacidade do saneamento básico. A permissividade das normas para a
indução ao parcelamento do solo é significativa tendo em vista o coeficiente de aproveitamento máximo até 3,5, a taxa de permeabilidade 5% e a de ocupação com 90% (FRANÇA, 2011). Quanto à estruturação urbana, verifica-se que a definição do coeficiente de aproveitamento elevado patrocinou os interesses imobiliários, sobretudo favorecendo a ZAP 4 e 5, ZAB 2 e ZAR, que corresponde a bairros valorizados e com poucos vazios urbanos, mais centralizados, portanto sendo, ao longo desses anos, adensados. Os bairros na porção oeste da ZAB 2 e na ZAR, ambos com infraestrutura deficiente e sistema viário fragmentados, mas com índices urbanísticos elevados, foram alvo do atuação do mercado imobiliário e do Estado, no tocante à produção de empreendimentos habitacionais, em especial do Programa Minha Casa Minha Vida.
A construção de grandes empreendimentos nessas áreas mais valorizadas, localizadas nas ZAB, tem causado enormes ganhos ao setor imobiliário. Essa fragmentação fundiária, proporcionada a partir da instituição de uma nova forma de produção imobiliária, tornou-se elemento fundamental no avanço das relações capitalistas de produção do espaço.
O setor imobiliário pouco se interessou por atuar em bairros da ZAB1, assinalados por uma ocupação mais popular, com assentamentos precários e irregulares. Isso tendeu a reduzir os interesses de investimento, embora haja uma participação do setor privado na produção habitacional subsidiada pelo Minha Casa Minha Vida.
Assim, observa-se que o Plano Diretor se apresenta como forte fator contribuidor do descompasso entre ocupação e uso do solo e dotação de recursos para infraestrutura, havendo um distanciamento da verdadeira restrição ao adensamento, considerando a capacidade de saneamento ambiental, especialmente esgotamento sanitário e drenagem urbana, que deveriam conter a expansão fragmentada e nociva para as condições ambientais da cidade.
B
REVESC
ONSIDERAÇÕES:
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EGISLAÇÃO EE
XPANSÃOU
RBANAAracaju experimentou, desde o ano 2000, um modo de crescimento que tem configurado a implosão-explosão urbana, resultando numa forte segregação sócioespacial e fragmentação espacial. Isso significou para os mais pobres, a dificuldade de acesso aos serviços de infraestrutura, como transporte deficiente, saneamento precário e drenagem inexistente, além dos equipamentos de saúde, educação e lazer com oferta de serviços deficientes.
Essas divergências socioeconômicas são muito grandes e isso é refletido no espaço e na estruturação urbana da capital. Assim, constatou-se uma variedade de empreendimentos imobiliários, entremeados nos vazios urbanos, causando descontinuidade do tecido, fragmentação social e espacial, que oneram a implantação e manutenção da infraestrutura e serviços urbanos em direção à ZAR e ZAB 2, para bairros que não deveriam ser classificados como tal. O resultado também foi uma maior valorização dos imóveis devido à escassez do solo, que foi estimulada por aqueles que detém o monopólio da distribuição do espaço para as moradias.
A aplicação de tais índices interferiu decisivamente na configuração urbana atual, apontando incentivos e restrições para ocupação do território e do uso do lote, traduzindo a função social da
cidade. Discutidos, ao longo desses anos, pela sociedade civil organizada e por estudiosos, esses índices são considerados muito altos para a realidade urbana, permitindo cada vez mais a ocupação acirrada e o adensamento de áreas sem infraestrutura.
Contudo, alguns aspectos influenciaram no adensamento e expansão urbana em Aracaju, como o estabelecimento de normas de controle de uso e ocupação do solo, permitindo e restringindo formas de apropriação de determinadas áreas, a realização de obras e intervenções urbanísticas, especialmente no tocante ao sistema viário e implantação de equipamentos coletivos e, por fim, o valor da terra. Esses elementos se constituíram importantes para a escolha das áreas utilizadas pelo mercado imobiliário, para construção de condomínios, ou pelo Estado para implantação de conjuntos habitacionais.
REFERÊNCIAS
ARACAJU. Lei no 42 de 06 de outubro de 2000. Institui o Plano Diretor de Desenvolvimento
Urbano de Aracaju e dá outras providências. Aracaju, SE. 06 de outubro de 2000.
FRANÇA, Sarah L. A. Estado e Mercado na produção contemporânea de habitação de
Aracaju-SE. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Niterói: UFF, 2016.
______________. A produção do espaço na Zona de Expansão Urbana de Aracaju:
dispersão urbana, condomínios fechados e políticas públicas. Dissertação (Mestrado em