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A Republica Consentida Maria t c Mello (2)

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M aria Tereza Chaves de Mello

A República

Consentida

Culliiia denioc;rálica e científi(ía

do filial do Império

, . i . I

í

Edur

FGV

FALTARAM AS

PAGINAS 144, 145!

(4)

ISBN — '■)78-83-22S-0(i 15-6

C o p y rig h l (<) M aria Tereza Chaves cle M e llo D ir e ito s rlcsla edieão reservatlos à

u D i r o K A r e v

Rua J o rn a lista O rla n d o D antas, 57 2 2 2 5 1 -0 1 0 — Rio d c J a n e iro , RJ - - Brasil

lel.s.: 0 8 0 0-2 1 -7 7 7 7 — 2 1 -25 5 0 -4 42 7 I ax: 21-2 5 5 0 -4 4 5 0

e -n ia il: e iliioratitJfiv.hr w eb site: w w w .e rlilo ra J j;v b r Im presso no Brasil / i'r iiilc d in B ra zil

4 b dos os d ire ito s rescrvatlos. A re|n o d ü çã o não a u lo riz a d a desta p u b lic a ç ã o , no to d o o n em parte, c o n s tim i violaçãt) tlo c o p y rig h t (bei n" 0 .6 10/08).

O.s fomTito.s cm iiidos ucslc liv ro são dc iiilc ira rcspon-,ahiliiluilc da autora. b 'edição — 2007

P im i’AK.\ç;At) 1)1' Or k íIN A Is: M aria bacia l.eão Velloso tie Magalhães ni)ru)iíA(.:A o lit 1:1 RONK A: l'A lid ito ra ç ã o

R i;visAo: A le id is tie B eltran e b a tiin a C aroni Ca i'.\: aspect o:design

b O K ) 1)1: Capa: M ate F errez. Brazil'- I’e in p lo da V itó r ia (1870). Rraça da R e p ú b lica , Rio de J a n e iro , Rj. B ib lio te c a N a c io n a l, D ivisã o tie le o n o g ra lia .

II I LS I R A (,;A t) 1)1: CON t R A ( A lV V biiire g ad a mensagem do governo p ro visttrio da República, conten­ d o a nota o licia l de e x ílio , pelo m ajor Solon, a D. Pedro II, em 16 de n o ve m b ro de 1880. Fonie: G aleria hi.'itorica da revolução b razileira dc 15 dc novembro de IBH9 que oecasionou a fundação da Repúbliea dos líslados-Utiidosdo lírtiç í/, Urias A n to n io da Silveira, 1800. B iblioteca Nacional, D iv i­ são de leonogralia. D isponível em: b ttp ://in te rn a tio n a l.lo c .g o v /in tld l/b rh tm l/l)r-1 /b r-l -6.htm l.

F ic h a ç a ta lo g rá fic a e la b o ra d a pe la B ib lio te c a M a r io H e n r iq u e S im o n s e n

M e llo , M aria lereza Chaves de

A república co n se niitla : cu ltu ra d e m o crá tica e cie n tifica do fin a l d o Im p é rio / M aria lereza Chaves de M ello. - Rio d e ja n e iro : F d ito ra F G V : F d ito ra da U n ive r­ sidade Federal R ural d o Rio de ja n e iro (F .d ú r), 2007.

244 p.: il.

Condensatlt) tia tese da autora (tio u to ra d o / P ontifícia U niversidade Católica do Rio de ja n e iro . D epartam ento de H istória, 2004, com o titu lo : C om o arado tlo peasamento: a cu ltu ra democrática e científica da década dc 1880 no Rio de janeiro).

In c lu i b ib lio g ra fia .

I . Brasil - H is tó ria - Proclam ação da R e p ública, 1880. 2. C .u ltu ra p o liiic ;i Rio de ja n e iro (F s ta tlo ). b buntlação G e tu lio Vargas. II. I iiu lo .

(5)

A memória de Carlos, doída saudade

(6)
(7)

Sumário

Introdução 9 Notas

Prólogo 17

15

I 1 No olho da rua; valorização e am pliação do espaço público do Rio de Janeiro na década de 1880 19

A política na rua 19

O riso na rua 45

Oratória e propaganda: "o povo brasileiro gosta muito de discursos" 52

A democratização pela rua 55

As celebridades da rua 67

(8)

2

I

O sorriso da intrusa: a idéia de República como cultura democrática e científica 93

Ciência e evoliu^'ào: "o arado do pensam ento" 94

Antidericalismo e ateísmo: "a ciência eliminou Deus" 99

Anti-romantismo: "uma atitude geral diante da vida" 105

Imagens do progresso 126

República com o ciência e evolução: "a ra/.ão e o futuro" 131

Notas 148

3

I

A bela paz doméstica se vai por água abaixo: a desafeição ao regime e a dessacralização do monarca 157

A crise do regime 158

República r'crs//s Monarquia: uma comparação desigual 174

Não há reforma com a Monarquia 181

A popularidade de d. Redro II 185 Os anos de 1888 e 1889 190 Notas 214 Epílogo 225 Notas 232 Bibliografia 235

(9)

Iiitrodiição

E

difícil cMicontrar um texto sobre a proclamação da República no

brasil que não cite a afirmação de Aristides I .obo, no Diário l\)puliirdc São Paulo, de que "o povo assistiu àquilo bestializado".'

A construção bistoriográfica fez do bestializado não um surpreendido pelo fato, como quis dizer o autor da frase. Aristides referia-se a um iiovinii, a um mínimo temporal, único e irreversível, a uma experiência de surpresa. O que está embutido na interpretação canônica é a não-participação popular no evento como sinal do desapreço do povo brasileiro pela República e, por derivação, sua vinculação à Monarquia.

lissa interpretação de raiz monarquista foi posteriormenfe esposada e difun­ dida pelos intelectuais desiludidos com a República, quando então se reforçou o que, no tal artigo, se seguia ao bestializado, ou .seja, que, "sem conbecer oque significava", o povo acreditou "estar vendo uma parada". Foi o próprio Aristides que classificou o evento, "por ora", como um governo "puramente militar".

Juntando-se tais significações, o que se divulgou através do bestializado é que não havia motivo para se desejar a queda da Monarquia, pois o imperador era popular. Ficou então entendido que aquele fato histórico foi resultado de uma simples insubordinação da caserna, que teria brindado o país com um regime militarista. Ou seja, como o sistema imperial seria modificável — monar­ quia democrática, monarquia federativa, reformas —, a proclamação da Repú­ blica c explicada como um ato de força.

(10)

10 A República consentida

Essa versão foi relida pelos enaltecedores da Revolução de 1930, que não descuraram da forma republicana, mas realçaram a exclusão social, o militarismo e o estrangeirismo da fórmula implantada em 1889. Isto por­ que o Brasil brasileiro teria nascido em 1930. Antes dessa data o que se contava era uma mesma e longa história de oligarquias, monocultura agrário-exportadora, dependência externa etc.

Não tenho a pretensão que seria desvairada — de defentler a

existência de qualquer apoio popular à proclamação da República. Não desconheço, outrossim, o fato de que d. Pedro II era um monarca popu­ lar, benquisto pelo povo "pé no chão" — para usar uma expre.ssão dt' Joaquim Nabuco — , que tinha nele uma referência quase familiar: a ima­ gem de um pai ou de um avô querido.

Não me interessa igualmente entrar iu> debate sobre a prevalência civil ou militar na instalação da República brasileira. Até porque, como constituinte do argumento, formavam todos eles — entendendo-se-, no caso, por civil, setores ilustrados e republicaners das camadas médias da população — um mesmo grupo de intere.sse, quer pelo partilhamento de urna idêntica "visão de mimtlo", t|uer pi-la situação dc- marginali/.aelos das oportunidades oferecidas pelo sistema. Também não pretendo dis­ cutir a convicção republicana ou monárquica de Deodoro, ou qual a me­ lhor narrativa da proclamação.

A pergunta feita aqui é a seguinte: por que a desafeição ao regime prévaleceu sobre a afeição ao monarca no momento da proclamação? Pandiá Calógeras, em Formação hititórica do Brasil, fala de uma desafeição ao regime. Suponho que a aceitação da República deve ser explicada por uma disposição mental para o novo regime, em decorrência da incorpo­ ração de uma nova cultura democrática e científica na década de 1880, tomando-se como recorte espacial a cidade do Rio de Janeiro, em função de sua centralidade na vida do país.

A crise do Império é, sem dúvida, o resultado da conjugação de di­ versos fatores. Satisfatoriamente conhecidos são aqueles de ordem soci­ al, econômica e política. Mas pouco se fez ainda para conhecer o sistema simbólico que legitimava e emprestava sentido às instituições monárquicas, assim como é de valia a visualização de um quadro de disposição mental para o novo, socialmente difundida no Brasil do final do Oitocentos. A palavra de ordem era, então, reforma. Reformas para acelerar o advento do télos — de qualquer maneira inevitável, segundo entendiam — do [■> rog resso-t’ i v i I i za çã o .

(11)

Introdução 11

O desm onte das instituições m onárquicas vinha sendo preparado mediante críticas fundamentadas ao sistema imperial, moldancio um ou­ tro sistema simbólico.

O emperramento da máquina c'statal, o apego aos privilégios deram ensejo à noção de que as reform as eram im possíveis sob o regim e monárquico, posto que, para sobreviver, este precisava abrir suas insti­ tuições e acabar com a escravidão, o que logo se percebeu como seu selo de morte, ü aí em diante o sistema só poderia se manter pela força — inclusive cios seus símbolos — , já t]ue se tornara um sistema sem proje­ tos, que não se via no futuro.

O c-stado doentio do imperador e as notícias sobre seu com porta­ mento nas reuniõc'S públicas oram objeto de críticas, aprc-ensões e chaco­ tas. Disso se valeram a imprensa e a propaganda republicana. As chargc\s, as caricatura.s, os epítetos c]ue se arranjavam para ct. IVdro II, divulgados não só pc‘la imprensa diária e pela literatura, mas nas ruas e nas rc-vistas

ilustradas muito em voga na época , atingiam um público mais ex-

Ic-nso do que o alfabetizado. São índices cia redução do prc-stígio imperi- ,il, por onde se processava a dc'ssacralização da figura rc-al e o dc'sapreço pi'lo regimc', em função da desconsideração cie seus símbolos maiores.

As "questcães" brasileiras foram pensadas atravc-s cio arsenal cias idéias novas. Por meio cie outros conceitos e semântica, as formaçõc-s discursivas loram renovacias para subverter o sentido romântico-liberal-hierárquico do Império. A linguagem cientificista por tocios empregada mocielou novos símbolos. Entretanto, os novos discursos só obtiveram êxito por­ que inovaram mais nas teses e na forma cio que nos temas, retirados cio repertório liberal. O cjue cquero dizer com isso é que a renovação simbó- lua colou na sociedade porque não foi construída scrbre um vazio. Foi pel.i rearrumação cia traciição liberal, por exemplo, que se montou outra n.inativa da nação.

Por serem marginalizados em relação ao sistema, os grupos refor­ mistas contestadores não tinham no Parlamento seu espaço de ação polí- liea e de expressão. O que occrrreu, na década de 1880, foi a ampliação do r .p.iço público através de associações, conferências, imprensa, livrarias, I onli'itarias, clubes, m obilizações pcrpulares etc. Com isso, a rua foi I rssig n ifica cia . M eetin g s, im ag en s, e fe ito s de retó rica , fcirm ações (li'A iirsiv<is, ilustrações e até mesmo a repressãcr policial foram elemen- Ins olimos para afetar os olhos, os ouvidos e a emoção, sendcD, por isso, l.iloivs elii <i/(>s na desinlc-gração do regime, graças à instauração de um nn\ ii clima, (|ue imprejqioii as mentes num simbolismo renovado.

(12)

12 A Rcpul>lic;> tonstntitla

Essa deslegitim ação da M onarquia criou uma disponibilidade afetiva para aceitar os "rum os da história", que indicavam, no Brasil, a forçosa instalação tie uma socit'dade democrática e capitalista. A propaganda, a literatura e a imprensa conseguiram fazer derivar essa sociedade do re­ gime republicano.

É acompanhando a "crise de direção" do final do Império que penso contribuir para a ampliação da capacidade explicativa da instalação da República no Brasil.

Busquei fontes c]ue me dessem uma visão melhor da construção sim ­ bólica: a literatura, cspecialmcmte a pot'SÍa social e científica, e também a ficção naturalista, as memórias e a crítica, a imprensa escrita e ilustrada, imagens dos préstitos carnavalescos, a visualização das mobilizações de rua, cie caráter político ou recreativo. Vamos também assistir às persona­ gens se cruzando em suas redes de solidariedade. Vamos ouvir as vozes contem porâneas, em detrimento das interpretações modernas, excetu­ ando-se as avaliações de críticos literários.

E scolh i co m o form a n a rra tiv a a co n stru çã o d e trés q u a d ro s contextuais, onde, no cenário-rua, temas da agcmda liberal .são atrave.s- sados pelas idéias novas. O cenário, o chão, o solo de todo o argumento constitui o prim eiro capítulo. Fatos maiores da nossa histé>ria, como a Abolição, a Revolta tto Vintém, a Questão Militar, dividem o espaço com pequenos incidentes e, naqueles, o que interessa é sua dim ensão de mobilizadores do fazer político na rua, a sugestão visual e auditiva que porventura tenliam causado na população da Corte.

Também na literatura ou na política não busquei o panteão, mas poe­ tas menores, que gozavam de prestígio naquela quadra histórica, ou pro- pagandista.s, no lugar dos grandes teóricos do republicanism o brasi­ leiro. O que quis captar foi a capilaridade, os vasos secundários que irrigaram a grande artéria social. O que pretendi surpreender foi o intercurso de símbcrlos num cenário de "crise de direção".

O primeiro capítulo visualiza a personagem central: a rua. É na am ­

pliação do espaço público, na década de 1880 na cidade do Rio de Janei­ ro, que entendo encontrar uma forte razão para a desestabilização da M onarquia brasileira. Acontecim entos econôm icos, políticos e sociais, ideologias e teorias ganhavam im portância pela oportunidade de sua apreciação pela opinião pública. Por isso precisei buscar o que estava na rua de forma atomizada. Nela se fez a articulação da grande política com o homem comum, através de epi.sódios como o roubo das jóias da coro.i, os escândalos públicos, os rumores, as chacotas. Portanto, o capítulo opem

(13)

Ii iIk hIi k iU)

na direção vertical, pela qual a crise penetra no conjunto da sociedacie, através desses canais secundários. Certos acontecimentos — mesmo os memores — perm itiram que a crise fosse percebida e acáquirisse valor simbólico. O espaçei público puxa para eientro dele as "e]uestõe\s".

O agente principal é o povo, que na década de 1880 não é mais enten-

didei como o cidaelãei ativo. De qualquer maneira, é na acepção política e não na social e]ue ele será aqui tratado. O que quere) eie’tectar é como a rua alimentou certos temas. Como ela retireru a discussãe) de um circule) restrito e fechado e a je)gou na praça pública, percebida age)ra ce)me) a verdadeira representação nacional.

Vamos visualizar nesse capítulo os instrumente)s de exinstrução da opinião pública: jornais, revistas, livre)S, panflete)s, e)púscule).s, e]uc atingi­ am a peipulaçãe) alfabetizaeia. Mas as conversas de rua e nas ceMifeútarias, os clubes, as conferências, e)s rumore‘s, a leitura de)s je)rnais em ve)z alta, as ilustrações faziam chegar os debateis ae) home-m eomiim e ae)s ágrafos. O que está em questãe) é, pois, a pereepção ela crise ela Me)narquia pele) conjunto da populaçãe), desafeiçoande)-a ele) re-gime.

Fica, enfim, sugerido nesse capíteilo que o povo pe)de ter intre)jelaelo uma idéia ele crise e elecadência através ele sinais visuais e auditivos, ou mesmo até por uma linguagem e' unia semântica novas, l uelo o c]ue k'v<i- va ã elesafeição pelo regime trazia água para o moinho republicano.

As idéias novas contielas na literatura e nas polêmicas constituem o segundo capítulo, que trata das fe)rmas eliscursivas, da construção ele outra linguagem e outro campo semântiex), onde irá aparexxxido uma vi­ são diferemte elo mundo, elo país dentro dele e da identidade nacional. Esse é o momento em que as exTioções individuais se cruzam, adquirinde) dimensão política, emoções cujo solo está ne) capítulo anterior. Mas ago­ ra o texto se constrói em dire'ção horize)ntal: uma discussão entre diri­ gentes.

A crise se apresenta nesse capítulo não por meio de campanhas como a n tes, m as sob a fo rm a de p o lêm ica s. A p erso n ag em é o u tra, a intelectualidade, e o espaço valorizado é aquele em que as polêmicas se dão: a imprensa, os livros.

O movimento intelectual provocou a deslegitimação simbólica o teó­ rica do regime atacando seus suportes maiores: o monarca, a religião, o romantismo. Criou outra linguagem e semântica. Selecionou os temas, retirados da agenda liberal. Por isso m esm o, por sustentar o discurso numa base real, e pelo fato de os monarquistas também terem se apro­ priado dessa nova linguagem, teve força de desconstrução.

(14)

14 A República consemida

As "idéias novas" criaram um solo republicano. M as também a con­ juntura internacional foi-lhes favorável. A imagem do progresso foi per­ cebida na modc'rnização dos transportes e das com unicações, no em pre­ go da eletricidade, na aceleração do ritm o de vida. A am pliação das camadas médias tornou a sociedade mais complexa, mais ilustrada e mais desejosa de participação na vida pública.

A vitória basilar da propaganda foi assimilar à República o termo cie- mocracia e, através dele, trazer para si as bandeiras progressistas do pre­ sente: as "idéias avançadas". A palavra "república" vinha marcada com o sinal do futuro, da evolução necessária, da civilização, e foi ganhando as consciências. Os monarquistas não conseguiram impedir que essas marcas se colassem ao termo "república", até porque eles mesmos estavam con­ vertidos ao novo repertório intelectual. Mas quiseram os republicanos que também o passado lhes pertencesse. Para tanto, foram auxiliados pela ge­ neralizada sensação de renascença liberal que os movimentos de rua trazi­ am à memória, configurando uma tradição republicana brasileira.

PocHe-se então dizer, com Maria Alice Rezende efe Carvalho, que, "para uma parcela específica da inteligência brasileira, a cultura do Impé­ rio s(' esgotara antes dele".^ O que sugiro, porém, é que, para uma cam a­ da bem mais extensa da população, .se aquela cultura não se esgotara, estava certamente em agonia.

O terceiro capítulo é pontual: enfoca certos temas em debate no final cic4 Oitocentos brasileiro. Tais temas foram escolhitáos em função de sua maior rt^percussão entre os contemporâneos cujas vozes serão ouvidas. É o terreno da experiência, através da qual os atores se vão fazendo propa­ gandistas, soldados-cidadãos, intelectuais, e uma nova cultura vai se encorpando, através de estratégias discursivas c|ue conquistam a adesão pela .sedução oratória.

A im pressão que este últim o quadro quer deixar é a da intensa politização da sociedade fluminense na década, muito espt'cialmente nos anos de 1888 e 1889, quando atingiu o paroxismo. É nesse clima confla­ grado e no centenário da Revolução Francesa que se proclama a Repúbli­ ca no Brasil.

Informando toda a narrativa e direcionando sua análise estão dois princípios: o de "crise de direção"^ e a imagem dos "três mundos do Im pério", de lim ar R. de Mattos, que será explicitada no correr do texto.

Essa narrativa, portanto, opera no campo do progressivo consenti­

mento de uma nova concepção de mundo, na qual ('stava inscrito o regi­ me ix'public<ino.

(15)

Inlrodução 1ò

Este livro foi condensado de minha tese de cioutorado, defendicia no Departamento de História da PUC-Rio, sob o título Com o arado do

pensamento: a cultura democrática e científica da década de 1880 no Rio de Janei­

ro. Para o êxito da em preitada original contei com a competentíssima

orientação do m estre e professor lim ar R ohioff de M attos, sob cuja inexcedível sensibilidade histórica fui vendo o quadro que justifica esta (ese.

Agradeço à banca, composta pelos professores Marco Antonio Pamplona, Kicarcio Sales, Eduardo Silva c Margarida Souza Neves, pelas observações percucientes, que fizeram do exame um debate de qualidade. Agradeço aos pro­ fessores César Guimarães, Marco Antonio Pamplona e Marcelo Jasmin, que aju- tlaram, com suas aulas — e carinhosa amizade —, na confecçcão deste texto. Ao .ifinado quarteto de funcionários do Departamento de História da PUC-Rio, Edna Timbó, Anair de Oliveira, Cleusa Ventura e Cláudio Santiago de Araújo,

fX 'la notória competência e solicitude. Aos amigos Jackson de Carvalho Sampaio,

Sérgio Antônio Câmara e Selma Rinaldi de Mattos, pelo acolhimento em todos os passos deste percurso. A Celeste Pereira da Silva, que com competência e carinho acompanhou minhas ultrapassagens. Ao meu admirável e querido ir­

mão, Agostinln). Ao meu filho, Eelipe, o permanente amor.

NOTAS

1 C rô nica escrita em E5 de n o v e m b ro de 1H89 e p u b lic a d a três dias de po is, a p u d Silva, U „ 1972.

2 C a rv a lh o , H M i.á lO .

> S eg un do C ra m s c i, a h e ge m onia d e um g ru p o social é o re su lta d o da d o m in a çã o p o lític a e da " d ire ç ã o ", o u seja, d o c o n tro le da red e s im b ó lic a q u e im p r im e na sociedade a pre em in ên cia da concepção de m u n d o d a q u e la elite. Na década de 1880, o Im p é rio b ra s ile iro v iu se e s va zia r o p o d e r d e atraçã o de sua id e o lo g ia sobre o cx>njuntr) da sociedade, o q u e C ra m s c i cham a de "c ris e de d ire çã o ".

(16)
(17)
(18)

A k l - p i l l l l u M l ( I I I S C M l I l h l

Era preciso essa paz patriarcal (...)• Não havia nenhuma questão domés­ tica (...) a assombrar o futuro.

Mas, nisto, a sogra lembra-se de visitar os nubentes — arma uma intriga de mil diabos e quase deita tudo a perder... (...) ela insinua à dona da casa que a sua vida é intolerável, que está enclausurada, que não tem liberda­ de alguma, que isto não é paz doméstica, mas despotismo!

Esta, com tais sugestões, começa (...) a mostrar-se de uma exigência feroz. (...) e por um triz que a bela paz doméstica não se vai pela água abaixo, chegando até ao — divórcio.

E tudo isto porque (...) a política quis tomar nas almas o lugar que compe­ tia ao simples patriotismo.

Afastemos, pois, a intrusa, que tudo perturba, que tudo disforma (...), que exalta as paixões (...) e que só gosta de dominar sobre as ruínas.

Não confiem nos seus sorrisos!

( ...)

Cuidado com a perfídia!

0 melhor é a gente fingir que concorda com tudo o que ela diz, para não a irritar mais e, jeitosamente, ir tratando de a pôr no olho da rua.*

NOTA

(19)

1

No olho

da

ma: valorização

e

ampliação

do

espaço púh. ■=- j'

»i ï meiro

na década de 1880*

A

po lít ic a na r u a

Sem explicitar o ocorrido, o jornal O País, em sua edição de 1" de janeiro de IS89, traz uma matéria sob o título "C.raves conflitos", estampado na primeira página.

Essa não-explicitação fala p>or si mesma da imensa repercussão — primeiro na capital, depois em todo o país - dos acontecimentos que envolveram a con- lerência de Silva Jardim na Scxúedade Francesa de Ginástica no dia 30 de de­ zembro de 1888. Em duas palestras — uma a 23, outra a 30 de dezembro — o pi'opagandista pretendeu responder aos "argumentos republicanos" que joa- . |uim Nabuco contestava no mesmo jornal.

|á eram, então, contumazes os ataques da Guarda Negra aos rneetiii^s e a I lersonalidades republicanas. Essa entidade fora criada após o 13 de Maio para

' liste te x to d e c u ltu ra p o lític a valeu -se sob rem a neira da tese de J. H aberm as (1986) •obre a c o n stru çã o da esfera p ú b lic a , on d e , seg un do o filó s o fo , passa a o c o rre r o uso p u b lic o d a ra z ã o p o r pessoas p r iv a d a s pa ra tr a ta r d e a ssu n to s g e ra is, g ra ça s à .u iio n o m iz a ç ã o de setores sociais c u ltiv a d o s em relação ao p o de r. N o e n tanto, se, p o r um lado, pode-se assistir, na crise da M o n a rq u ia b ra s ile ira , a um a intcUigcnlsia que pugna pela p u b lic iz a ç ã o d o debate, p o r o u tro , é d ifíc il im a g in á -la conn) c o n s titu tiv a lie Lima o rd e m burguesa, c o n ira lu a l e cap italista. l ’o r isso, u tiliz e i os p rin c íp io s de I l.ib erm .is io m resL'i vas, ila m lo p re h 'ré iu i.i a e \p iv s s ,io "espaço p iib lii i>", de .lic p ç .io

(20)

? 0 A R e p u b l i c a c o n s e n t i d a

defender a princesa Isabel e as instituições. Hra composta por libertos e capoei­ ras e, cie fato, agredia e ameaçava republicanos com atitudes provocacioras, vivancio a Monarc^uia, dando "morras" ou perpetrando mesmo atos violentos, o que provocava constantes tumultos nas ruas. Dizia-se que fora idealizada por jersé do Patrocínicr após sua adesão ao monarcjuismo. No dia 23, testemunhou Silva Jardim (1891:226):

Ao sairmos dessa conferência, assistida pela fina flor da sociedade fluminense, um grupo de pretos perfidamente inspirados, correu sobre mim com a intenção de agredir-me. Um punhado do valentes amigos populares impediu-os de me atingirem. Barata Ribeiro e Chagas Lobato iam-se sacrificando (...).

O anúncio da conferência do dia 30 foi acompanhado de boatos de toda a ordem: a Cfuarda Nt'gra impc'diria sua realização, provocaria grandc's distúrbios e Silva jardim seria assassinado no salão. Membros do Partido Republicano instaram com o propagandista para que cancelasse o evento, enquanto os mais exaltados ofereceram-lhe proteção. Mas a ameviça era tal (]iie não achavam casa para se apresentar. Todas recusavam por medode reprc‘sálias. O PoUtcmun, por exemplo, foi ameaçado de incêndio. Por fim, alugaram a sala da Sociedade I Van- cesa eJe dinástica. () poeta e jornalista Medeiros e Albuquerque publicou no

Novidades — periódico que fazia campanha republicana e que tinha como reda­ tor-chefe Alcindo diLianabara —, no qual colaborava, os boatos correntes e dos quais fora certificado por um empregado da polícia.' Tal estratégia tirou do governo qualquer possibilidade de argumentar posteriormente ignorância so­ bre a ocorrência de distúrbios que exigissem providências prévias de proteção policial.

A conferência estava marcada para as 12 horas, mas desde cedo as cercanias da travessa da Barreira (hoje, rua Silva Jardim) passou a ser freqüentada por negros empunhando cacetes e navalhas, ameaçando os passantes e obrigando- os a dar "vivas à Monarquia”. Assegura Medeiros e Albuquerque (1982:87) que "a travessa da Barreira estava literalmente apinhada de uma turbamalta san­ guinária e ululante". Hm conseqüência, apesar de as conferências de Silva Jar­ dim atraírem multidões de 2 mil a 3 mil ouvintes, esta teve um público diminuto. O palestrante, homem de reconhecida coragem e especial tino para a propa­ ganda, fez questão de atravessar sozinho a rua, já lotada de gente, sendo recebi­ do no salão sob aplausos. No fundo do recinto, homens de cor comunicavam-se com pessoas das galerias e, pouco tempo depois de ter se iniciado a conferência, apartes e tumultos fizeram o orador pedir silêncio. Um negro foi postar-se, en­ tão, por trás de Jardim, o que obrigou um de seus dcfensori's a si' colar nele, segundo o relato de O Paísr

(21)

N o o i h o d a r u a 21

Algum tempo depois, muitos dos agitadores deixaram o salão e começou uma grande balbúrdia do lado de fora. No interior, após a advertência "aí vêm ulcsl", ouviram-se tiros. Cirande parte dos espectadores fugiu pelos fundos do K l mto, enquanto outros sc postaram à porta, gritando s/oçr«n.s republicanos e,

11H smo feridos, continuaram combatendo. Dos telhados voavam telhas, arran-

' .idas e arremessadas contra os atacantes. Do lado de fora, a (iuarda Negra K l uava e avançava sem qualquer intervenção da tropa de cavalaria, cujas ‘ lu heiras davam para o largo de São Francisco. Viram alguns que um policial iiiMiflava os negros. Das janelas vizinhas projéteis de toda espécie eram

atira-( ) conflito durou cerca de uma hora, e Fvaristo de Moraes atira-(1985:21 ) relata que impressionou muitíssimo a calma de Silva jardim durante a disputa". De fato, I i.iquele ambiente conflagrado, o orador manteve-se destacado no alto da tribu-II, I empunhancio o revólver que comprara pela manhã.

O tumulto sé) serenou com a chegada de um delegado, que garantiu a I ,opes

111 >\ ão - que, na entrada, fora recebido com "morras" desferidos da praça o

I ml role da situação. A conferência foi, então, retomada, por insistência da pla-

ii 1,1, do ponto em que havia sido interrompida. No final, quando já sé) havia no

ilao cerca de .50 pessoas, o dr. Teixeira de Sou/.a ainda atendia aos feridos, no ' |iie não teve o auxílio do colega Barata Ribeiro, d i reta mente i-ngajado na luta.

Na saída, o comissário de polícia pediu qui' os republicanos evitassem dei- II a academia pela porta da frente e em bando, e ofereceu proteção aos i|ue ' |i iisessem acompanhá-lo pela rua do havradio. Lopes Trovão, "que sempre foi iiiiiilo medroso, aceitou a proteção policial",^ como diminui Medeiros e Mhuquerque, mas Silva Jardim a recusou e, ao lado de Barata Ribeiro, Medeiros I Albuquerque, Anacleto"’ e uma outra pessoa, capitaneou o grupo que desceu a

I II, 1, seguido de muito povo simpatizante.'’ Em suas memórias, comenta o pro-

I Mi;andista: "Todos os olhares dos pretos convergiam sobre mim. Eram olhares

11II iosos. Eu fitava-os sereno e continuava o meu caminho".^

Adentrando o Rocio (hoje, praça Tiradentes), onde se postavam soldados da ' , IV.liaria, ouviu-se: "Morra Silva jardim! Morra Barata! Abaixo a República! \ i\’.i a Monarejuia!". E do meio da multidão surgiram negros armados, que ■ i\ .inçaram sobre o grupo republicano, gritando: "mata, mata!". Ao que reagiu l''.||■.lta Ribeiro, mostrando-se a si mesmo e ao orador. O povo então se afastou ii-meroso e um oficial da polícia dispersou a Guarda Negra, segundo o relato do |i'in.ilisla de Novidades, que comenta em suas memórias: "Do que nunca me I ■■,c|uei i foi do olhar de profundo espanto com que os negros se voltaram para o "lu i.il". Esl.ivam, então, na rua do Teatro. O que quis notificar Medeiros e \ll iui|ucn|iie ( I ãS2:8‘'f) é qui' o espanto dos atacantes linha razão de si'r, porque

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22 A Republica consent ida

eles tinhcim sido "recrutados e incitados pela polícia para dar cabo de Silva Jardim".

A procissão continuou pela rua do Ouvidor. No Café I.ondres, ficou Silva fardim com alguns amigos. Mais farde, acompanhado teão-somente por popula­ res, foi aguardar o bonde que o levaria a Santa Teresa, onde morava, l.opes Trovão foi voluntariamente t'scoltado por dois militares.’'

Um grupo de negros postado defrc>nte do jornal Ciilíuir do Rio, ile José cHo 1’atrocínio, dirigiu-se para oCafé Londres, que fechou suas portas. Dali, à noite, retirou-se Barata Ribeiro para sua residência, noCatete. Novos boatos davam conta de que as moradias dele e de Jardim seriam atacadas, enquanto "hordas de desordeiros" percorriam as ruas agred indo os transeuntes. C om "morras ao Barata" e "abaixo a República", pedradas foram desfechadas contra a casa do médico durante a madrugada.

Silva Jardim lanijou em O País, a 6 de janeiro, sua "Carta política ao país e ao Partido Republicano", contando sua versãrr dos acontecimentos, pelos quais culpava a polícia, o Ministério da Justiça e a "falsa regente". Deu à conferência um lugar de marco inaugural da grande lufa no "único redufo da Monarquia",

c]Lie era a cidade do Ric) de Janeiro, mas da qual não descria e contava ganhá-la para a causa republicana, porque era preciso ser vitorioso aí para que o novo

regime vingasse. Para tanto estava disposto a dar a vida: "v i;nciko u m o k k ik"

passou a ser seu lema. Lema pelo qual assumia abertamente uma opção revolu­ cionária, em contraposição à atitude moderada da direção do partido.

E continua em seu arrazoado: o povo pedia as reformas — uma "revolução governamental" —, obra que a Monarquia era incapaz de realizar. Cabia, então, a "revolução, que é a reforma popular". E a revolução brasileira devia esfalar no ano de 1889: "O castelo fl uminense deve cair no ano excepcional em que caiu no pó dos tempos a fortaleza de Paris!"'*

Nos relatos que tomaram a imprensa no começo de 1889, insistiu-se, em alguns casos, cm desqualificar os republicanos por terem fugido quando ataca­ dos. A coluna republicana de O País atribuiu a notícia a "agentes do sr. Ferreira Viana", o ministro da Justiça, que, segundo o que correra de boca em boca, assistira ao desenrolar do tumulto do morro de Santo Antônio, onde residia."’ O articulista afirmava ter tido notícia de que, tendo um republicano pedido à polí­ cia para impor a ordem, ouvira dela que recebera instruções para só atuar após a conferência.

Quanto à fuga de ouvintes, defende a coluna: "o efetivo das conferências políticas é composto de massa heterogênea". E a classifica entre indiferentes, curiosos e adeptos. Estes últimos, no entanto, resistiram."

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No olho da rua 23

() primeiro número da Rcviíita llustrndti do 1889 foi quase todo tomado por ■ I «inentários e notícias dos fatos ocorridos a 30 de dezembro. Em sua parte ilus-

11 ada, o conflito é narrado nas páginas centrais: pessoas correndo pelos telha-

' li >s, projéteis sendo arremessados de prédios vizinhos, vultos armados nas ja- iichis. Também nas ruas aparecem indivíduos portando armas. Uma senhora . (>bre protetoramente com o pré>prio corpo uma criança. Em outra cena, registra-

< ■ o ataque ao jornal O I’íu's.

A indignação da Rnúshi não tem, no entanto, a mesma veemência quando ii.da doataqueà conferência. No artigo "Craves acontecimentos", o que se la­ menta são os "quadros sanguinolentos e trágicos das lutas civis" a que se assis- iii .im. Pelos comentários, fica-nos a idéia de que se atribui ali alguma culpa aos

lepublicanos, vinham proferindo nas ruas "gritos subversivos". Diz o arti-

",o que os adversários se culpavam uns aos outros pelo ocorrido. O que parecia

.1 Revista inadmissível é que, tendo o evento sido fartamente anunciado pela

imprensa, as pessoas que o foram assistir tenham sido recebidas a tiros. E, ad- \ ci lindo que, apesar de não costumar "freqüentar essas conferências", achava qiK' "isso tinha sido reconhecido como um direito inconcusso!". Eembra ele, ' nl.K), que o l’artido Republicano não vinha atendendo aos apelos da Revista

I 'I 'I' moderação e que não escolhia meios para sua propaganda, valendo-se mes­

mo da "linguagem, mais excitante, que açula as paixões e que pede cabeças

I I Huo quem pede croquetes!"

Se um tumulto dessa ordem marcou o fim da década, outro de maiores pro- l'oições a inaugurou. E não foi séi a coluna de O País que viu naquele uma

• m.ilogia com a "epopéia" de 1" de janeiro de 1880, marcando-lhe "quase o

iníversário". Inventava-se aí uma tradição de combatividade republicana que loi partilhada por um bom número de pessoas naquele momento.

I 'ssa comemoração tumultuaria, se comemoração o foi, pode ser atestada pelas

I 'I imeiras edições da Revista Ilustrada de 1889 e 1880. Igual mente, quase todo o I m mero de 7 de janeiro deste último ano foi tomado pela "Revolta do Vintém", • uj,i narrativa ilustrada também ocupa as páginas centrais, fazendo sobressair a ligura de Lopes Trovão. A Revista registra um contingente de 4 mil a 5 mil

I 'cssoas envolvidas na rebelião.

Mas, diferentemente da edição de 1889, em 1880 só há louvores na Revista. A il ilude do povo do Rio de Janeiro, que saíra da "apatia perigosa", na qual o I«-lúme pretendia mantê-lo, é incensada. E comenta: "a verdade é o melhor pro- 1« -sio contra esse governo que, divorciado da opinião pelos desmandos, ameaça •iislenlar-se pelo abuso, pelo crime". Refere-se ainda ao "cordão sanitário entre

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’-I A K rpiiM u ;i í n iis r iiiu la

punir a agressão contra o povo, por desconhecer que "a nação não se personifi­ ca nos homens da corte".'’ Nesse mesmo dia 9, noticia que, tendo o chefe de polícia apreendido grande contrabando de revólveres, rejubila-se em provar que "a República lavra", li justifica-se: "não vai no que fica escrito nem uma espe­ rança de republicano, nem um aviso de monarquista", declarando-se neutra. Mas adverte: "Nesse ínterim, o partido republicano (...) fica à espreita a ver em que param as modas e se for possível, no momento oportuno, dirá ao povo qual a melhor forma de governo, na sua opinião (...) e põe seus serviços ao dispor do povo (...)".

A Revolta do Vintém foi um movimento de massa, cujas dimensões, por inu­ sitadas, assustaram os governantes e como que os despertaram.

O ministério Cotegipe passara em 31 de outubro de 1879 a I .ei do Orçamento, que previa um imposto de 20 réis sobre as passagens de bondes e trens. O minis­ tro da Fazenda, Afonso Celso, viu na taxação um alívio para a situação financei­ ra do país. No governo não havia discordância quanto ao imposto, mas alguns pensavam que seria mais prudente cobrá-lo às companhias dos carris, do que discordava veementemente o ministro, pelo que foi alcunhado de "Afonso Vin­ tém".

A reação popular logo se fez sentir. Ainda no final de dezembro, uma multi­ dão de cerca de 4 mil pessoas se dirigiu a São Cristóvão para entregar uma petição a d. Pedro, que não a recebeu. A imprensa exortava o povo. Da coluna da

Gazeta de Notícias, refletia I .opes Trovão: "Sei por meio de uma revolução o povo conseguirá chamar o poder ao cumprimento dos seus deveres".''' Comícios eram realizados, l.opes Trovão e Terro Cardoso promoveram dois deles: em São Cris­ tóvão e no largo do Paço. já no primeiro, ouviram-sc alguns vivas à República, gritos que foram mais freqüentes no segundo meeting.

Mas Trovão não incitou a população, ao contrário, espantado com a virulên­ cia das manifestações, apelou para a ordem, pedindo ao povo que retornasse às suas casas. Não foi atendido, e a exaltação espalhou-se pela cidade. Populares ergueram barricadas à frente do pequeno jornal Gazeta da Noite, cujo redator- chefe era o grande orador republicano. Das janelas do jornal, este discursou, assim como Ferro Cardoso e José do Patrocínio, que, então, começava a distin­ guir-se na Gazela de Notícias, sob o pseudôn i mo de Proudhomme.

Na manhã de 1" de janeiro, quando o imposto começaria a vigorar, o governo mandou postar policiais e tropas de linha nas estações e locais mais concorri­ dos. A exaltação popular ultrapassou qualquer expectativa. O povo aplaudia freneticamente oradores antimonarquistas como 1'erreira de Menezes, Ferro Car­ doso, Lopes Trovão, José do Patrocínio e o tenente Carvalho, vivando mais

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entu-No olho da rua 25

i.islicamente os discursos mais radicais. Mas o maior herói daqueles dias foi I c ipes Trovão, que, com sua oratória contundente, entusiasmava a multidão.

No centro da cidade, trilhos foram arrancaefos, bumes desatrelados, carros • |i lebrados, ruas descalçadas. Os conflitos resultaram em vários mortos e muitos ii-i idos. As manifestações mais violentas foram atribuídas ao calor da revolta, m.is fontes maisisentas falaram de uma estrafégia da preipria polícia para justi- iic ar a repres.são, que se valeu, ademais, de capoeiras armados com navalhas. I lês cadáveres passaram horas sem socorro, estirados no chão. Na rua do I hividor, Jo.sé do Patrocínio foi atacado pielo secretário da Câmara Municipal, ' |Mc' fora por ele vilipendiado pela imprensa.

O tumulto continuou por três dias consecutivos. Apesar de o comércio man­ ier as portas fechadas, tentou-se saquear as lojas de armas. Pm cantigas

popula-II 's, o imperador era ridicularizado como o "Pedro banana". No dia 2 de janeiro,

mdo o imperador ao Colégio Pedro II para assistir a um exame, ouviu de um pas.sageiro, em alto e bom som, a declaração de que não pagaria o imposto. I iiquanto is.so, num outro canto, um grupo de pes.soas resmungava contra ele.

Os passageiros que se recusavam a pagar o imposto eram arrancados dos I 'ondes por baionetas. A imprensa tudo notificava com repercussão em todo o I MIS e até no exterior. No dia 4, surgiu o boato eJe que o imposto seria suspenso, iii<is, como a Câmara não se reunia em janeiro, a .solução foi fazer vista grossa

• los que resistiam ao pagamento. A rebelião então serenou.'’ A partir daí a

liistoriografia diz que não houve notificação de outros incidentes tumultuários .Ué a campanha abolicitmista. Lopes Trovão foi para a Europa, de onde só K'Iornou no final de 1888. A memória de sua atuação na revolta, porém, se

II umteve viva, revestindo-o de perene prestígio.

Relatou-se muito na imprensa, após a Revolta do Vintém, que o imperador se desgostara com a forma adotada para .se reprimir a rebelião. No entanto, em I ,irta à condessa de Barrai, diz ele: "(...) mas que remécfio. A lei deve ser respeita- ( la. Creio que houve prudência da parte das autoridades"."’

A repercussão do motim foi nacional e agitou os ânimos republicanos. Em­ bora entendendo que não se tratava ainda de uma revolução contra a Monar- c|uia, no jornal Colombo,'^ Lúcio de Mendonça o descreve com tintas fortes, fa­ lando em mais de 8 mil pessoas rebeladas. Estavam já aí os elementos de uma revolução, segundo ele, o que devia mostrar aos correligionártós paulistas a necessidade de organizar o partido, porque se avizinhava o momento de entrar em ação, mas "parece, infelizmente, que a hora nos surpreende desprevenidos". ( )s fatos davam-lhe "razão antes do |esperado|, antes, talvez, do que fora para desr'jar". ( )s ac irnlecimenlos haviam ili-monstrado a validade ile sua pregac.io

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pela revolução antimonárquica. lim outro artigo sobre o mesmo assunto - "Nova fase?" —, diz que o governo agora ataca "o verdadeiro povo" e que "o usurpador, que se fingia de pai, confessa-se inimigo", lí declara: "a monarquia já não ilude ninguém".'”

Também Raimundo Cc^rrêa lança o monarca em descrédito por sua atitude na revolta:

Tu que és da direção das massas investido, Tu que vingas o crime e que o Povo defendes,

E executas a lei penal, e do bandido

No topo de uma forca, o cadáver suspendes; Tu que tens o canhão, a tropa, a artilheria. Tu mesmo és quem fuzila a inerme populaça; Incurso estás também no Código, e devia Para ti também se erguer uma forca na praça.

;*ri A i\( pul^lira ( (>!)srniul.í

Hntre esses dois extremos da década — 1880 e 1880 — foi a campanha abolicionista que mais ix upou o espaço público com progressiva intensidade a partir de 1884, depois de seu despertar em 1880. Es.sa intensidade vazou do Parlamento para as ruas e encheu as salas de conferências e os teatros com peças antiescravistas. Inúmeras sociedades o associações emancipadoras fo­ ram criadas em todo o país desde 1880. A campanha ganhou a imprensa - com destaque para os jornais () Pa/s, Gazeta da Tarde c Gazeta de Notícias —, encheu suas páginas e compôs imagens contundentes na Reidsta Ilustrada, por isso chamada pelos escravocratas de "revista vermelha". Penetrou profunda­ mente nas academias, inclusive na militar, e nos meios positivistas. F.rgueu líderes de renome nacional, como Joaquim Nabucoe José do Patrocínio, mas também, num âmbito mais restrito, 1 ,uís Gama, João Clapp, Ferreira de Menezes, Rui Barbosa, André Rebouças, Antônio Bentoe até mesmo um Antônio Prado. Provocou comoções e ódios, acuou governos e feriu mortalmente o regime, numa nítida demonstração da ressignificação da rua e da progressiva impor­ tância da opinião pública na década de 1880. fi o que deixa claro essa declara­ ção de Rebouças:

Aristocracia territorial e Plutocracia; riqueza e prestígio; tudo foi vencido pela Propaganda, sem outras armas além da palavra e da Imprensa... Fizemo-nos empresários de espetáculos para o público a 500 réis por pessoa; varremos teatros e pregamos cartazes; éramos simultaneamen­ te redatores, repórteres, revisores e distribuidores; leiloeiros nas quer­ messes; propagandistas por toda a parte, nas ruas, nos cafés, nos

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tea-No olho da rua 27

tros, nas estradas de ferro e até nos cemitérios, junto aos túmulos de Paranhos, de Ferreira de Menezes, de Luís Gama e de José Bonifácio.'”“ Foi essa m esm a opinião pública que associou o abolicionism o ao icpublicanismo. Se o Manifesto Republicano de 1870 fora cauteloso quanto ao privilégio de raça", .se o Partido Republicano Paulista se esquivava ou era reticente na questão, se a emancipação também atraiu monarquistas, para a opinião pública. Abolição e República eram faces — e até fases, ou melhor, elapas — de um mesmo caminho para a liberdade. Nem mesmo a intensa cam- P<mha para denegrir o republicanismo em razão das adesões de e.scravocratas, chamados de "republicanos de 14 de maio", conseguiu desfazer a percepção (laqueia complementaridade. Dessa relação entre aqueles ideais muito se apro- \ eitou a propaganda republicana.

Desde seus primeiros momentos, o movimento abolicionista percebeu a ne-

1 icssidade de empolgar a sociedade. Sua primeira associação, a Sociedade Brasi­

leira contra a Hscravidão, fundada em 7 de setembro de 1880, objetivava comba- ler o regime servil pela propaganda, buscando inventar uma narrativa cinancipacionista da nação que começava com José Bonifácio, passava pela icvolução de 1817e continuava através de parlamentares brasileiros.

Depois de seu impacto inicial, o movimento perdeu o ritmo até 1884. Joaquim Nabuco leve uma votação irrisória em 1881, deixando em seguida o Brasil. Os jornais, ligados na sua maioria aos interesses agrícolas e comerciais, davam

1'ouco apoio à causa. Desse tempo, de maior repercussão nacional foi a recusa

dos jangadeiros do Ceará a embarcar escravos. Mas os clubc's e associaçeães loram se espalhando pelo país, contando o ideal com o irrestrito apoio dos pt)siti vistas. Fm 1882, José do 1’atrocínio esteve três meses naquela província do norte, quando foram libertados todos os c>scravos do primeiro município do país a fazer a abolição.

O acontecimento que aglutinou novamente as forças foi a abolição da escra- \ idão no Ceará, em março de 1884. A partir daí, o movimento ganhou expressão I lopular com a progressiva adesão de diferentes setores da sociedade, capita­ neados por nomes da vida intelectual e pela entusiástica filiação de estudantes.

A emancipação do Ceará foi comc'morada no Rio com uma quermesse carna­ valesca que durou três dias. O Teatro Politeama — que ficava na rua do Lavra- tlio —, centro maior das conferências libertadoras na capital, apresentou-se todo enfeitado e florido, com as bandeiras das sociedades abolicionistas dispcwtas pelas paredes, onde se liam os nomes de grandes ativistas já mortos. Essa festa sc'guiu o ritual dos outros meetings abolicionistas, excetuado o das alforrias, com .is quais eram encerradas as sessões: músicas, derlamações e discursos. No linal da lardc', o salão j<í esl.iva l.io ,ipinh<ido ilc' genlc' qiu' uma ordem ofici.il,

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28 A República consenlida

temendo perigo público, proibiu a venda cie mais ingressos. Um imenso desfile da rua 1" de Março até o Passeio Público, com paradas para saudar abolicionistas cearenses, fechou a festa desse dia. Mas cia se estendeu por mais tempo, levando à rua mais de 10 mil pessoas, tornando, a partir daí, o abolicionismo um movi­ mento popular.

Disser se deu conta o governo, c:[ue foi obrigacio a refomar a iniciativa, o que fez através do projeto Dantas, queç retocado e desfigurado, foi aprovado em 1885 cermo a Lei Saraiva-Cotegipe, c]ue emancipou os escravos maiores de 60 anos.

Em 1886 os escravocratas ainda eram bastante forDs para fazer maioria no Parlamento, apesar de José do Patrocínio ter sido conduzido à C âmara Munici­ pal. No entanto, o único abolicionista eleito para a Câmara dos Deputados, o pernambucano jerse Mariano, teve seu direito à cadeira negado. Esse fato levcni 8 mil pessoas acr Teatrcr Perliteama e 3 mil às ruas de Recife.

No mesmo ano, a opinião pública extraiu um avanço do governo. Dois escra­ vos condenados a 300 açoites vieram a falecer em Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro, e o fato foi divulgado c'm D /Cus por Joaquim Nabuco. A imprensa se incumbiu de espalhar a notícia pelo território nacional e a Rrvista

Ilustrada carregou nas tintas para denunciar o horror e a bestialidade da escravi­ dão. Diante de clamores de tocia a parte — e da notícia da emancipação servil em Cuba — o Parlamento votou, com impressionante rapidez, a abolição dos casti­ gos corporais no país.^'

Em 1887 foi de São Paulo que vieram os fatos mais decisivos. Antônio Bento e seus "caifazes", descrentes dos métodos legais, incitaram fugas em massa de escravos, que muitas vezes atacavam as cidades e as estradas.’^ O movimento foi de tal ordem que desorganizou gravemente a produção, levando os proprie­ tários paulistas a buscar a rápida substituição dos trabalhadores escravos pc)r imigrantes. Como a solução se mostrou factível e proveitosa, deu-se a conversão deles em emancipade^res, libertando a capital da escravidão. A atitude de São Paulo pesou sobre as províncias escravistas, sobrando como seu reduto maior a do Rio de Janeiro.

Com a exacerbação do tom abolicionista, aumentou também a repressão aos comícios e conferências, que se faziam debaixo de ataques de capoeiras ligados à polícia. Os choques se amiudaram, mas os abolicionistas continuaram a desa­ fiar os governos subseqüentes.

Os mectings se tornaram freqüentes na década, especialmente a partir de 1887. Mas nada comparável às imensas demonstrações de apreço e alegria por ocasião da proclamação da Lei Áurea, seguida de festas, discursos das sacadas de jornais, conferências e uma colossal missa campal, no di.t 17, em São Cristó­ vão, eviMito a (]U(' comparc'Cc'ram mais de 20 mil pesso.is. I )m,i marcha cívica

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No olho da rua 29

icuniu "quase todas as associações e classes fluminenses" no dia 20, quando se v.astavam duas horas para se andar uma légua, segundo a Reznsta IlustraJaP No dia da votação da lei, as imediações do Senado estavam apinhadas de gente na ma, nas árvores, nos postes e nos telhados. Quando a notícia da aprovação oorrcu, o povo explodiu em vibrações do alegria ruidosa, abanando lenços, ati- I ando chapéus ao ar e soltando foguetes. Dos fortes e dos navios, ouviram-se I letonações. Na descrição de C oelho Neto: "O entusiasmo recrudesceu chegan- I Io às raias do delírit)". José do Patrocínio, que se prostrou aos pés da princesa nesse dia, foi o seu herói maior: "P, de tranco em tranco, asfixiado, rouco, a gesticular, chorando e rindo, vinha um homem de bronze por entre o tumulto, de hraço em braço, como um ídolo que todos quisessem veneradamente tocar e sentir — era Patrocínio".-'' O povo arrancava-lhe botões da roupa para guardar

>lc'suwmu>.

Do Senado, o povo desfilou até o Paço para aguardar a princesa. Assinado o decreto da abolição, a rua do Ouvidor, já enfeitada com bandeiras em arco, entupiu-se de gente. Bandas de música, serestas, negros com maracás, reco- ivcos, e discursos sucessivos das janelas dos jornais, onde se revezavam Joa­ quim Nabuco, Quintino, Rui Barbosa. Diz Coelho Neto que Luís Murat fez mais de 20 discursos, que Bilac já não tinha mais voz.

Com grande dificuldade. Patrocínio conseguiu chegar ao Cidade do Rio, onde um negro se ajoelhou a seus pés. Fez mais uma série de pronunciamentos da sacada. Ao jantar, já exausto, lhe pediam outras vezes a palavra no restaurante e nas ruas. Queriam arrancar-lhe fios do cabelo como recordação. Pelo relato de ( oelho Noto, nesse dia, o "tigre da abolição" fez mais de 46 discursos. Os feste- |os vararam a noite e duraram oito dias. Apesar de rechaçado pelos republica­ nos, por sua conversão à Monarquia, na edição de 27 de outubro de 1888, a

Revista Ilustrada registra que a quinta conferência do Patrocínio, no Teatro Dra­ mático, "transbordava de povo".

Os textos historiográficos costumam referir-sc a um marasmo político desde os primeiros anos da década de 1880 até, pelo menos, 1886/87. A afirmação lalvez seja um tanto forçada. E não só pelo pequcnís.simo apanhado aqui feito do algumas poucas das muitíssimas agitações abolicionistas, mas porque a popu- l.ição das cidades, e principalmente a do Rio de Janeiro, aprendera a reivindicar nas ruas e pela imprensa. Nem que fosse pela galhofa.

A rua foi ressignificada. Adquiriu um sinal positivo como o espaço do uso público da razão — da crítica, nos termos da época — e como o lugar da verda­ deira representação popular. A rua passou a disputar, e vantajosamente no linal tia dec,ul,i, com o ParlamcMiloo loeiis do fazer político, nutn i l.iro .ivançoilo

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30 A Republica c()nsenti(.la

conteúdo republicano que a experiência do Primeiro Reinado e da Regência hesitou em assumir. A proposta liberal, que recuara ante o discurso "saquarema", foi retomando o campo cedido, principalmente no insistente apelo por reformas. O sentimento democrático foi encurralando o elemento aristocrático. Essa sen- saçeão de retomada histórica, de recomposição dos fios de uma tradição esgarçada ou silenciada fica patente no correr do texto. Em relação ao período da Regência, disse exageradamente Ferreira de Resende: "O Brasil vivia muito mais na praça pública do que mesmo no lar doméstico".^"’

O Império estigmatizou a rua como o lugar da desordem. A ela se opunham o Estado e a Casa, os espaços do governo — quais sejam, os da ordem, pública e privada. l’oi a vitoriosa solução "saquarem a" que superou os espectros vivenciados na Regência, durante a qual a rua era sentida como o espaço da democracia e da liberdade. No novo arranjo, a política ficou enfeixada no Esta­ do e a Casa se civilizou, para o que foi de espiecial serventia a literatura român­ tica. O t|ue permaneceu foi o medo da rua, local de escravos e de vadios, de doenças e de sujeira.-'’

Foi nesse panorama renovado que o projeto de reforma eleitoral do ministé­ rio Saraiva (1881), por exemplo, deu ensejo a um comício, convocado por Lopes Trovão, no largo do Rocio. A presença de uma multidão provocou a intervenção da polícia, chefiada por Trigo Loureiro, acompanhado de capoeiras. Os partici­ pantes do mcciin^ davam vivas à República, ao que os policiais respondiam vivando a Monarquia. Ao que parece, o orador esteve ameaçado de morte. A noite, a balbúrdia ainda continuava. Fiouve uma tentativa de assalto à Gazeta da

Tarde, folha dirigida pelo liberal republicano Ferreira de Menezes. Mas o pesso­ al do jornal o aguardava armado. A Revista Uustrada de 5 de novembro de 1881 retratou o tumulto. Desenhando a estátua eqüestrc de d. Pedro I naquela praça, mostrou, na narrativa figurada que sempre ocupava suas páginas centrais, o rei saltando da montaria com a espada em riste contra a polícia, enquanto as perso­ nagens c os animais esculpidos na base da estátua fugiam espavoridos. Procla­ mando o direito do livre pensamento. Ironiza a Revista: "esteve [d. Pedro I] quase a meter a espada em todos esses monarquistas e gritar: viva a república".

Em conscqüência, o governo deportou estrangeiros republicanos. Lopes Tro­ vão, como correspondente do jornal O Globo, partiu para a Europa, e as agitações de rua tomaram um caminho ainda mais tumultuário e esparso. Mas a crônica política não deixou a imprensa, enquanto o republicanismo ganhava mais adep­ tos nos meios acadêmicos e positivistas, entre artistas, literatos, e na intelligentsia em geral. Na Faculdade de Medicina, destacavam-se os nomes de Barata Ribei­ ro, Érico Coelho, Domingues Freire. Na Politécnica, Enes de Souza, Timóteo da C’osta, loaijuim e |osé Mortinho.

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No olho da rua 31

líram frequentes as conferências públicas. Não cito as da Glória, das quais muitas vezes participava o imperador, porque seus temas eram mais literários I >u científicos. Na coluna "Pequeno Correio", de 26 de março de 1882, a Revista

Ilustrada noticiou, por exemplo, uma série de encontros em defesa da "grande

n. 11 uralização", que foram ina ugu rados por Saldanha Marinho, mas que seriam

' ontinuados por Pereira da Silva, Magalhães Castro, Ubaldino do Amaral, José ' h > Patrocínio, Nicolau Moreira, Vicente de Souza, Lopes Trovão, Sílvio Romero, I i'rro Cardoso e Quintino Bocaiuva. A plêiade de oradores, todos republicanos, ‘ l.i uma amostra de por que o povo os ligava às "idéias avançadas".

As conferências, meetings e reuniões políticas, realizadas em teatros quase .(■mpre repletos, costumavam extravasar o seu entusiasmo para a rua. Era i.iinbém nas vias públicas que se reclamava das medidas administrativas prejudiciais a categorias profissionais ou a todo o povo, como o projeto do go- wrno que decidiu onerar a distribuição de água.

A Revista Ilustrada relata e põe em imagens as repercussões de um meeting no teatro Príncipe Imperial contra abusos da Companhia de Gás, em novembro de 1882. Afirma ela que, ã tarde, "a rua do Ouvidor encheu-se de povo e de comen-

1,1 rios". Os lampiões, no começo da noite, não foram acesos em sinal de protesto.

( >s lojistas que não se submeteram à decisão dos revoltosos tiveram seus estabe- t i imentos apedrejados. A balbúrdia foi de tal ordem que exigiu a intervenção I le tropas da cavalaria. Muito interessante é o comentário da Revista, do dia 18 I le novembro, para a percepção dos novos sinais que a rua vinha emitindo: "De Ioda essa bernarda, concluímos que, para se obter alguma coisa do governo cm I 'eiiefício público, é preciso fazer chinfrim. Pois viva a chinfrinada!"

Em outubro de 1888, Silva jardim foi chamado por comerciários para apoiá- l( )s cm sua luta pelo descanso semanal. Nessa conferência, realizada no Teatro ' >. Pedro de Alcântara, a convite da Associação dos Empregados do Comércio, l.irdim (1978:214-231) defendeu a conciliação entre o capital e o trabalho, mas o que importa aqui é uma observação sua: "os processos que empregam [os . omerdários] são os de que usam as classes intelectuais mais elevadas, a tribu­ na e a imprensa, isto é, os meios empregados para uma modificação social qual- .|iier (...)".

Em março de 1889, a Rexnsta registrou a "enorme quantidade de povo" que

• issistiu a um comício de Lopes Trovão no largo da Lapa. Uma vez disperso pela

I 'olícia, o povo o acompanhou até a rua do Ouvidor, onde a repressão foi ainda

II la ior. No dia seguinte, houve um desfile na mesma rua, com pessoas portando

1 artazes onde se lia "água", "limpeza", "socorro", "desinfetantes", pois que a

l.illa d'água fora o motivo do meeting. Rui Barbosa escreveu sobre a questão iliversos e extensos artigos no D/iíno de Notíeias, propondo soluçõe.s, mas tam­ bém se b.ileuilo contra i<'pressãoem tiM iuos contundentes: "porqueos nossos

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concidadãos estão caincio, feridos pelas balas cie quadrilhas insufladas com a senha do terceiro reinado"d"

A repressão policial aos meetings era sempre objeto de crítica da imprensa. Protestava-se contra o emprego de capoeiras — e, a partir de 1888, da Cluarda Negra — e do cerceamento cia liberdade. Um artigo da Revistn Ilustrada de 13 de agosto de 1887 assim explica a reação do poder público: "O governo, sentindo-

se fraco c confessando haver perdido a força moral (...), quer governar pelo ter-

rerr". Naquele artigo citado. Rui Barbosa descreve a repressãr) a um "legítimo" comício republicancr em Campos que "foi alvo de um atentadci ao nível da Cafraria". Policiais e libertos invadiram o prédio, atemorizando as senhoras presentes e espancando convivas ao "fragor de vivas ã polícia e à rainha".

A má impressão causada pela repressão policial e mais especialmente pelo recurso a elementos que a sociedade via como desclassificados, como a ralé, levava à idéia subversiva de que a desordem era provocada pelo próprio gover­ no. hntre muitíssimos outros exemplos, vale destacar essa observação de Rui Barbosa num dos incidenNs da Questão Militar: "A autoridade é c]ueeslá demo­ lindo a autoridade. O governo é quem se ocupa em solapar o governo. A ordaiii é que trabalha pela desordem".-'^ Quando da viagem que Silva Jardim empreen­ deu junto com o conde cl'hu às províncias do Norte, parece que o propagandista foi mal recebido em Salvador. Porém, lembra Rui, diferente foi a reação dos estudantes da Faculdade de Medicina, que, embora sequiosos da palavra di‘ jardim, foram intimados, "sob pena de bordoadas", a dar vivas à Monarquia. Oficiosamente, determinadas pessoas foram destacadas, no dia seguinte, desdi' às seis horas da manhã, para sc' postar nos pontos por onde passaria o orador republicano. Rui Barbosa contesta a versão mais corriqueira sobre o assunto, asseverando que as manifestações agressivas não haviam partido da massa popular, mas "de grupos discrimináveis entre ela". O que interessa nesse episé)- dio, entretanto, c o título que Kui deu a seu artigo: "Anarquia pelo rei".- '

O Impc>rio educara a sociedade na idéia de que ordem e civilização eram termos intrinsecamente interligados. Hra, pois, com picrplexidade que se assistia a tais ocorrências. Na coluna "Boletim Republicano” de (d País, de 24 de julho de 1889, Saldanha Marinho notificava;

Ainda ontem a cidade inteira foi testemunha de um espetáculo boçal e bárbaro, que nos envergonha perante a mais atrasada civilização. Imperiais marinheiros, capitaneando conhecida malta de capoeiras e mal­ feitores, percorreram a rua do Ouvidor, de navalha em punho, dando vivas à monarquia e morras aos republicanos.

Para comemorar o centenário da Revolução Francesa, os republicanos pre­ pararam grandes festas. Um grupo deles, formado por estuciantes,

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concentrou-No olho da rua 33

so defronte ao Club Tiradentes e, em seguida, marchou para o Parlamento, onde lora programada uma sessão especial. Na rua do Ouvidor, deram gritos de viva

.1 República, sendo reprimidos pela cavalaria da polícia, com a ajuda da Cuarda

Negra. Hsta tentou acertar l.opes Trovão, que os capitaneava. Itoram ouvidos li rose pessoas ficaram feridas. A Gazchuic Nolíciiis tomou o depoimento de dois dos feridos. Um deles disse ao jornal que estava "no Café Brasil quando ouviu gritos de viva à República e, chegando à porta, deu ele um viva à Monarquia, sendo nessa ocasião agredido por alunos da Rscola Militar, e agarrando-o um deles disse para os companheiros: 'Mata esti-diabo', recebenilo nesse momento 0 ferimento C|ue apresenta". T ambém o outro ferido confirmou que os tiros ti­

nham partido "de um grupo d e//owcírs //;í;/»us, entre o squais se acha vam alguns

estudantes da liscola Militar".'" Tendo assistido ao tumulto da janela rle seu (ornal, viu-o diferentemente Rui Barbosa;

Cerca do 1res horas da tarde, percorria a rua do Ouvidor, cm direção ao mar, um troço do maltrapilhos, entoando vivas à monarquia c ao partido liberal. (...) O conflito era inevitável, ante a persistência do estímulo irritan­ te: a jactância insolente da mazorca protegida o a indiferença da força policial.

Os sítios mais transitados da cidade estiveram sob o domínio das patas da cavalaria policial

Não seria demais insistir no escândalo provocado por es.sa subversão, pala- V ra aqui tomada no seu sentido mais literal e dessa forma sentida pela socieda­ de, pela "boa sociedade": destruir o que estava assente, confundir, perturbar completa mente, d esord en ar.A versão da civilização brasileira construída pe­ los "saquaremas" estava sendo desmontada pelo alto, isto é, o governo do hsta- ckréque se valia da ralé para manter a ordem. Uma confusão dos mundos, que se quis estanques, para dar forma ao Império; o mundo do governo, o mundo do 1 rabalho e o mundo da desordem. Mas, dentro deles, era possível estabelecer-se, apesar da inferioridade do mundo do trabalho, dois compartimentos separados ptTa civilização: o mundo da ordem e o da desordem, hste último não tinha lugar no edifício imperial, escapava ao controle dos governos — do listado ou ( la Casa —, exprimindo, portanto, a perigosa anarquia.

A mistura desses mundos era sentida como escandalosa, como uma confu­ são desorganizadora de critérios de pensamento. É o que explica a profusão de lextos do período que reverberam esses fatos subversivos. A Revista ilustrada, de .10 de agosto de 1885, em tom de indignada surpresa, condena agitações e assas- sinatos provocados por capangas do Partido Conservador, "o partido da or­ dem". Pode-.se, então, dimension.ir o c.]uarito foi conspurcada <i Monar(|uia, en

Referências

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