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Universidade Federal do Rio de Janeiro A GENTE EM VARIEDADES DO PORTUGUÊS

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS NA IMPLEMENTAÇÃO DE

A GENTE EM VARIEDADES DO PORTUGUÊS

Juliana Barbosa de Segadas Vianna

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SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS NA IMPLEMENTAÇÃO DE

A GENTE EM VARIEDADES DO PORTUGUÊS

Juliana Barbosa de Segadas Vianna

Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como quesito para a obtenção do Título de Doutor em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa).

Orientadora: Profa. Doutora Célia Regina dos Santos Lopes

Rio de Janeiro Março de 2011

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Vianna, Juliana Barbosa de Segadas.

Semelhanças e diferenças na implementação de a gente em variedades do português/ Juliana Barbosa de Segadas Vianna. Rio de Janeiro: UFRJ/ CLA/ FL, 2011.

xx, 235f.: il.; 31 cm.

Orientador: Célia Regina dos Santos Lopes

Tese (doutorado) – UFRJ / Faculdade de Letras/ Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, 2011.

Referência Bibliográficas: f.206-213.

1. Língua Portuguesa – Pronomes pessoais. 2. Variedades do português. 3. Gramaticalização. I. Lopes, Célia Regina dos Santos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. III. Título.

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Semelhanças e diferenças na implementação de a gente em variedades do português Autor: Juliana Barbosa de Segadas Vianna

Orientadora: Professora Doutora Célia Regina dos Santos Lopes

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa).

Examinada por:

_________________________________________________ Presidente, Profa. Doutora Célia Regina dos Santos Lopes

_________________________________________________ Profa Doutora Maria Marta Pereira Scherre – UFES

_________________________________________________ Profa. Doutora Izete Lehmkuhl Coelho – UFSC

_________________________________________________ Profa Doutora Lilian Yacovenco – UFES

_________________________________________________ Profa. Silvia Rodrigues Vieira – UFRJ

_________________________________________________ Profa. Doutora Ana Maria Stahl Zilles – UFRGS, Suplente

_________________________________________________ Profa. Doutora Marcia Machado – UFRJ, Suplente

Rio de Janeiro 2011

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VIANNA, Juliana Barbosa de Segadas. Semelhanças e diferenças na implementação de a gente em variedades do português. Tese de Doutorado em Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/ UFRJ. 2011.

RESUMO

O objetivo desse trabalho é descrever e analisar a variação entre nós e a gente na língua oral do português europeu, em confronto com os resultados aferidos na variedade brasileira, com base na produção científica dos últimos vinte e cinco anos. Busca-se comparar a implementação de a gente nas duas variedades da língua portuguesa, bem como o grau de pronominalização da forma em cada uma delas.

A análise focaliza fundamentalmente a variedade europeia do português e se encontra apoiada na Teoria da Variação e Mudança Linguística, que leva em conta a influência de fatores linguísticos e sociais no condicionamento das formas em variação. Os dados obtidos foram submetidos ao tratamento do estatístico efetuado pelo Programa computacional de regras variáveis – o GOLDVARB 2001.

Com relação à discussão acerca do grau de pronominalização da forma, parte-se da análise do comportamento da forma em estruturas predicativas, observando padrões de concordância mais produtivos e frequentes, com relação aos traços de gênero, número e pessoa, nas duas variedades da língua.

Entre os principais resultados obtidos, os seguintes contextos linguísticos e extralinguísticos mostraram-se favorecedores para o uso de a gente no PE: (i) marca morfêmica do verbo que o acompanha; (ii) sujeito preenchido e nulo; (iii) paralelismo formal; (iii) localização no território português; (iv) escolaridade; (v) gênero; e (vi) faixa etária. A análise dos resultados demonstra semelhanças para o fenômeno variável, principalmente quando se têm em vista os fatores estruturais. Com relação aos fatores sociais, a variedade européia demonstra maior conservadorismo, havendo diminuição no uso da forma inovadora com o aumento da escolarização. Diferentemente do PB, a análise do PE não indica mudança de comportamento em curso.

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VIANNA, Juliana Barbosa de Segadas. Semelhanças e diferenças na implementação de a gente em variedades do português. Tese de Doutorado em Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/ UFRJ. 2011.

ABSTRACT

The aim of this paper is to describe and analyze the variation between nós and a gente in oral language of European Portuguese, in contrast with the results measured the Brazilian variety, based on scientific production of the last twenty-five years. It tries to compare the implementation of a gente in both varieties of Portuguese, as well as the degree of pronominalization of a gente in each.

The analysis focuses primarily the European variety of Portuguese and is supported by the Theory of Linguistic Variation and Change, which takes into account the influence of linguistic factors and social conditioning in the forms of variation. The data were subjected to statistical treatment performed by the computer program of changing rules – GOLDVARB 2001.

Regarding the discussion about the extent of pronominalization of a gente, it starts analyzing the behavior of the form in predicative structures, observing patterns of agreement more productive and frequent with regard to the characteristics of gender, number and person, in the two varieties of language. In this way of analysis, are taken into account the functional studies that discuss the phenomenon of grammaticalization.

The results show similarities to the variable phenomenon, especially when taking into consideration the structural factors. With regard to social factors, the more conservative European variety shows, decrease in the use of innovative ways with the schooling increase. Unlike the PB, the analysis of PE does not indicate behavior change in course.

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À Maria Anaïs Barbosa,

minha bióloga preferida, que vira linguista nos momentos mais cruciais,

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viii

AGRADECIMENTOS

Esse trabalho é resultado da contribuição de muitos personagens que foram fundamentais durante a longa trajetória do doutorado acadêmico. Em especial, destaco a importância e agradeço sinceramente àqueles que estiveram comigo nesses dois últimos anos de pesquisa – os mais sofridos.

Agradeço, em primeiro lugar e principalmente, à minha orientadora (de todo o longo percurso acadêmico), Célia Regina dos Santos Lopes, pela competência na difícil tarefa que é direcionar uma pesquisa de doutorado e, mais ainda, pela grande habilidade em “direcionar pessoas”. A ela sou grata pela oportunidade e credibilidade, por suas sugestões e críticas em vários estágios do trabalho, agradeço ainda por sua paciência e compreensão nas etapas finais desta investigação. Por seu entusiasmo que sempre me estimulou e por todos os ensinamentos nesses frutíferos anos de convivência.

Agradeço também à minha co-orientadora em Portugal, professora Matilde Miguel Sarmento, pelas importantes sugestões sobre como adequar os testes ao informante português. Às duas, agradeço por incentivarem as investigações na Madeira.

Às coordenadoras do Projeto bilateral “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias do português”, Silvia Rodrigues Vieira e Maria Antónia Mota, pela oportunidade de participar, aprender e colaborar com a equipe. O trabalho aqui apresentado se expandiu enormemente em função da participação nesse projeto de pesquisa.

Também agradeço às sugestões e críticas dadas pelas professoras Silvia Rodrigues Vieira e Izete Lehmkuhl Coelho durante a qualificação. A ideia de dar ênfase à alternância entre as formas no português europeu surgiu nesse encontro e foi um ponto em comum na fala das duas professoras. À professora Silvia, agradeço também por ter aplicado e reformulado a primeira amostra de testes no período que antecedeu à minha ida: foi a partir disso que surgiram as primeiras hipóteses.

À jovem amiga Maria João Colaço e à colega pesquisadora Aline Bazenga, apresento aqui um agradecimento especial. À primeira, sou imensamente grata pela disponibilidade e ajuda na aplicação dos testes em Lisboa, por sua amizade e empenho na realização das mini-entrevistas nas escolas. À segunda, devo os resultados referentes ao português da Madeira; obrigada por me apresentar nas escolas, na Universidade e por me ajudar na obtenção dos dados de fala.

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Aos queridos amigos paulistas de Portugal, Kelli Tonon e Luis Gustavo Tonon, pela generosidade de terem me recebido em sua casa com o maior carinho, por compartilharem os amigos comigo, e por terem sido os primeiros a me apresentar a Lisboa. Agradeço especialmente pelo companheirismo incondicional durante todo o período em que estive fora de meu país.

A Isabel Barreno por me integrar no grupo de amigos, pelo exemplo de cultura, elegância e simplicidade. Agradeço também a Celina Oliveira, Miguel Del Rey, Cristina Ando, João e Rosa Aibéo pelo alegre convívio no grupo, em especial, nas viagens a Alcaria.

À querida amiga Chica Vieira, avó portuguesa, que me acolheu em sua própria casa, e foi minha família durante todo o ano em que estive em Lisboa. Agradeço especialmente pelo lençol de flanela, o saco de água quente e a sopa quentinha naquelas noites geladas do inverno português, terríveis para quem está acostumado ao calor do Brasil. Devo mencionar sobretudo nossos papos diários, recheados de história e da sabedoria que só se adquire ao longo dos anos.

A Rui David Alexandre Ferreira, meu grande companheiro em Portugal, pela acolhida carinhosa, por ter me apresentado aos lugares mais interessantes de Lisboa, e tornando minha estadia tão especial, que quase não consegui voltar ao Brasil. Por sua paciência, seu apoio e seu carinho lhe sou imensamente grata.

À Andréa Carvalho pelo suporte fundamental no Cacém. Obrigada por todo apoio e empenho na busca de informantes portugueses, tão difíceis de aceitar essa abordagem.

Aos meus colegas de doutorado Ana Carolina Morito Machado, Leonardo Marcotulio, Suelen Sales, Luciana Vialli, Daniele Kelly, Juliana Marins, Érica Almeida, Humberto Soares, pela troca de ideias, pela troca de ideias e convívio agradável. Em especial à Ana Carolina Morito Machado pela amizade e companheirismo de sempre.

Por fim agradeço aos meus familiares que estão sempre ao meu lado nos bons e maus momentos e cuja leveza e sabedoria no “bem viver” nos tem conduzido por caminhos cheios de alegrias, desafios e construção. Ao meu querido irmão Gustavo Barbosa Segadas Vianna por sua presença “alto astral”, pelo bom humor que sempre me estimula e contagia. Às minhas tias Simone Barbosa Zanoti e Ana Lúcia Barbosa Faria pelo incentivo constante. A Maira, Ian, Ana e Tio Zé, pelo apoio e estímulo. Agradeço também ao meu pai que chegou a abrir conta no Facebook e aprendeu a manejar o Skype, só para falar com a filha e estar mais próximo.

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Este projeto foi financiado pelo Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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Mas é verdade. Eu quero te dizer, Guido, (...) na hora em que precisar tomar alguma atitude que implique enfrentamentos políticos, que implique posições que possam parecer duras para alguns, você não tenha dúvida que tomaremos a posição, sem vacilação, porque o legado que todos nós precisamos deixar para a futura geração é a seriedade com que a gente trata a coisa pública neste país.

Não foi nem uma, nem duas, nem três vezes que, neste país, se apresentou à sociedade um modelo econômico que ia salvar o Brasil. Ele durou, às vezes, três meses ... um ano .... dois anos, e nós

queremos garantir ao povo brasileiro um ciclo, quem sabe de uma

década, .... duas décadas ... três décadas de crescimento virtuoso,

para que a gente possa recuperar, em alguns anos, a dívida social

que foi acumulada durante séculos e séculos neste país.

Meu caro Palocci, eu não confundo a minha relação política com a minha relação de amizade pessoal. Eu acho que a única coisa que um ser humano leva depois da sua passagem pela terra é a sua relação de amizade, é quantos companheiros nós criamos na vida. Tem muita gente que tem muito amigo para isso, muito amigo para aquilo, mas eu quero ver quem consegue colocar nos dedos da mão, 10 verdadeiros companheiros. Mas eu gostaria de saber porque a

gente pensa que tem muitos companheiros, a gente pensa que tem muita amizade, mas na hora em que a gente encosta a cabeça no travesseiro, tenta colocar no dedo da mão quem é companheiro de

verdade....

Luis Inácio Lula da Silva Presidente do Brasil, entre 2003 -2010

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Falemos claro: o que acontece é que essa proposta mantém a discriminação. E em matéria de dignidade, de identidade e de liberdade, não é aceitável ficar a meio caminho.

Ø Podemos e Ø devemos decidir agora.

O mandato popular que Ø recebemos foi um mandato claro para que o Parlamento dê agora este passo contra a discriminação. Não é, pois, tempo para adiar. É tempo para cada um assumir as responsabilidades para que foi investido.

O País, como aliás todo o Mundo, vive muitos e difíceis problemas que Ø temos de enfrentar: problemas económicos, problemas sociais, problemas educativos, problemas orçamentais....

A lei que Ø queremos é singela: abrir a todas as pessoas adultas a possibilidade de contrair casamento civil se for essa a sua vontade comum – sem discriminações. A sua aprovação honrará este Parlamento.

José Sócrates Primeiro-Ministro de Portugal, entre 2005-2011

Discurso na apresentação de Proposta de Lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo na Assembléia da República – Lisboa, 08/01/2010

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SINOPSE

Estudo variacionista da alternância entre nós e a gente nas variedades brasileira e europeia do português, correlacionado à análise do comportamento da forma gramaticalizada como pronome, tendo em vista os traços de gênero, número e pessoa. Exame de entrevistas sociolinguísticas e testes escritos coletados entre portugueses e brasileiros. Uso da metodologia oferecida pela Teoria da Variação. Aplicação de pressupostos funcionalistas e variacionistas.

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xiv

SUMÁRIO

I – INTRODUÇÃO...1

II – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE O TEMA...5

2.1 – A VARIAÇÃO ENTRE NÓS E A GENTE NO PORTUGUÊS DO BRASIL ...6

2.1.1 – Rio de Janeiro: não-cultos vs. cultos, cariocas vs. fluminenses...6

2.1.2 – A pesquisa nos demais estados do sudeste: Belo Horizonte e o interior, Vitória e São Paulo...14

2.1.3 – O inovadorismo da região nordeste: Salvador e o recôncavo baiano, João Pessoa e São Luis do Maranhão...20

2.1.4 – A região sul, em sua totalidade: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul...25

2.1.5 – O que a pesquisa científica permite afirmar sobre a variação entre nós e a gente no PB?...33

2.2 – E COMO FICA O FENÔMENO DE VARIAÇÃO ENTRE NÓS E A GENTE NO PE?...38

2.3 – ANÁLISES LINGUÍSTICAS DA CONCORDÂNCIA DE NÓS E A GENTE EM ESTRUTURAS PREDICATIVAS NAS VARIEDADES PORTUGUESA E EUROPEIA DO PORTUGUÊS...41

III – PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS...45

3.1 – ASPECTOS VARIACIONISTAS E FUNCIONALISTAS...47

3.1.1 – A sociolinguística variacionista, a variação e a mudança linguística...47

3.1.2 – O processo de gramaticalização de a gente...53

3.1.3 – A questão da concordância como um dos elementos na definição do estágio de gramaticalização: rediscutindo os traços de gênero, número e pessoa do a gente pronominal...59

3.1.4 – A defesa do casamento teórico: o Sociofuncionalismo em análise...67

3.2 – DESCRIÇÃO DO CORPUS E PROCEDIMENTOS...70

3.2.1 – Amostras de língua oral...70

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3.2.1.2 As etapas operacionais relacionadas à coleta de dados...73

3.2.1.3 As características socioculturais das regiões investigadas...73

3.2.1.4 A caracterização das amostras e os dados referentes aos corpora...76

3.2.1.5 Os procedimentos de análise ...78

3.2.2 – Amostra de testes escritos...79

3.2.3 – Sobre os objetivos da investigação...84

IV – A VARIAÇÃO ENTRE NÓS E A GENTE NO PE...87

4.1 – FREQUÊNCIA GERAL DE USO DAS FORMAS PRONOMINAIS: BREVE COMPARAÇÃO ENTRE O PE E O PB...87

4.2 – OS GRUPOS DE FATORES SELECIONADOS NO PE...96

4.2.1 A pessoa verbal...98

4.2.2 A expressão plena ou nula do sujeito...104

4.2.3 Paralelismo formal ...115

4.2.4 A localização geográfica no território português...120

4.2.5 A escolaridade do falante...126

4.2.6 O gênero...136

4.2.7 A faixa etária do falante...139

4.2.8 Em síntese: o que se pode dizer sobre o encaixamento linguístico e social de a gente no PE? ...144

V – AS ESTRATÉGIAS DE CONCORDÂNCIA DE NÓS E A GENTE EM ESTRUTURAS PREDICATIVAS NO PE E NO PB...147

5.1 – RESULTADOS NA LÍNGUA ORAL...147

5.1.1 – O que as estratégias de concordância revelam sobre nós e a gente no PE?...149

5.1.2 – O que há de inovador nas estratégias de concordância com nós e a gente no PB?...156

5.2 – OS TESTES ESCRITOS...160

5.2.1 – O uso de nós e a gente nos testes escritos: ausência de variação no PE?... 170

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5.2.2 – As estratégias de concordância com nós e a gente nos testes

escritos...175

5.2.2.1 – A concordância verbal...176

5.2.2.2 – A concordância de gênero e número...182

5.2.2.2.1 – A generalização do masculino-plural no PE...182

5.2.2.2.2 – As estratégias de concordância gênero e número com nós e a gente no PE e no PB: semelhanças e diferenças... 191

5.2.2.2.3 – O controle do referente vs. as estratégias de concordância: o que determina as escolhas no PE?... 196

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 201

VII– REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...206

VIII – ANEXOS: mapas ilustrativos, modelo do teste escrito aplicado, lista de grupos de fatores considerados na pesquisa, rodada variacionista...214

(17)

xiv

ÍNDICE DE FIGURAS, GRÁFICOS, QUADROS E TABELAS

FIGURAS

Figura 1 – Mapa ilustrativo das regiões Brasil em que o processo de substituição de nós por a

gente foi investigado...37

Figura 2 – Mapa ilustrativo das localidades e/ou regiões no território português, nos quais foi registrado o uso do a gente pronominal em monografias dialetais...40

Figura 3 – Mapa ilustrativo das localidades brasileiras, nos quais foram feitas as entrevistas sociolinguísticas que compõem a base de dados do projeto bilateral “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias”...201

Figura 4 – Mapa ilustrativo das localidades e/ou regiões no território português, nos quais foram feitas as entrevistas sociolinguísticas que compõem a base de dados do projeto bilateral “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias”...205

Figura 4 – Mapa ilustrativo demonstrando a localização e distância da Ilha da Madeira, em relação a Lisboa...206

TABELAS Tabela 1 – A atuação do fator faixa etária sobre o uso de a gente ...8

Tabela 2 – A atuação do fator escolarização sobre o uso de nós em falantes adultos em contato ou sem contato com a escola...8

Tabela 3 – Porcentagem geral no uso de a gente vs. nós...10

Tabela 4 – O uso de a gente segundo a faixa etária...10

Tabela 5 – A influência da escolaridade na variação a gente vs. nós...15

Tabela 6 – Distribuição das variantes a gente e nós nas diferentes cidades...16

Tabela 7 – A influência do grupo social no uso de a gente...18

Tabela 8 – O fator faixa etária no uso de a gente vs. nós...19

Tabela 9 – A influência fator faixa etária no uso de a gente...28

Tabela 10 – Fatores sociais significativos no uso de a gente estudo de tendência 1970 e 1990 (NURC E VARSUL) ...31

Tabela 11 – Frequência dos pronomes de 1ª pessoa do plural em posição de sujeito...88

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xv

Tabela 13 – Concordância verbal no PE...98

Tabela 14 – A concordância verbal com nós e a gente nas amostras do PB...100

Tabela 15 – A concordância verbal de a gente nas amostras do PB...102

Tabela 16 – Expressão do sujeito...105

Tabela 17 – Expressão do sujeito pronominal vs. pessoa e número no PE...110

Tabela 18 – A influência do fator paralelismo formal no uso de a gente no PE...118

Tabela 19 – A influência do fator localização geográfica no uso de a gente...121

Tabela 20 – Apresentação dos resultados de Maia (2003, p.53), com base no dialeto mineiro...124

Tabela 21 – A influência do fator escolaridade no uso de a gente...127

Tabela 22 – A variação entre nós e a gente em relação à escolaridade dos informantes...128

Tabela 23 – A frequência de uso de nós e a gente no PB, de acordo com o aumento de escolaridade. Nova Iguaçu...131

Tabela 24 – A frequência de uso de nós e a gente no PB, de acordo com o aumento de escolaridade. Copacabana...131

Tabela 25 – A frequência de uso de a gente no PB, de acordo com o aumento de escolaridade. Omena (2003)...132

Tabela 26 – A frequência de uso de a gente no PE, de acordo com o gênero. (Oeiras, Cacém e Funchal, reunidas)...136

Tabela 27 – A variação entre nós e a gente em relação ao gênero dos informantes. Oeiras, Cacém e Funchal...137

Tabela 28 – A frequência de uso de a gente no PB, de acordo com o gênero. Omena (1996) ...138

Tabela 29 – A frequência de uso de a gente no PE, de acordo com faixa etária. (Oeiras, Cacém e Funchal, reunidas)...140

Tabela 30 – A variação entre nós e a gente em relação à faixa etária dos informantes. Oeiras, Cacém e Funchal...141

Tabela 31 – Percentuais de uso de a gente de acordo com a faixa etária do informante. VARSUL e NURC de POA...144

Tabela 32 – Estratégias de concordância de gênero e número com nós, a gente e gente no PE...150

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Tabela 33 – Estratégias de concordância de gênero e número com nós, a gente e gente no PB...158 Tabela 34 – Estratégias de concordância de gênero e número com nós e a gente. Vianna (2006) ...161 Tabela 35 – Estratégias de concordância de nós e a gente em função do sexo ...163 Tabela 36 – Concordância de gênero e número em função do controle do referente no PE ...164 Tabela 37 – Tabela 36 – Concordância de gênero e número em função do controle do

referente no PB...165 Tabela 38 – Tabela 37 – Tabela 36 – Concordância de gênero e número em função do

controle do referente. Vianna (2006)...166 Tabela 39 – O uso de nós e a gente nos testes de avaliação subjetiva. Resultados obtidos em Lisboa e no Funchal...171 Tabela 40 – O uso de nós e a gente na fala dos cariocas e nos testes de avaliação subjetiva aplicados no Rio de Janeiro...174 Tabela 41 – Estratégias de concordância verbal com nós e a gente nos testes de avaliação subjetiva...177 Tabela 42 – - Estratégias de concordância verbal com nós e a gente: dados relativos ao PE e ao PB...178 Tabela 43 – Concordância de gênero e número com nós, a gente e gente (Lisboa)...184 Tabela 44 – Concordância de gênero e número com nós, a gente e gente(Funchal)...185 Tabela 45 – Estratégias de concordância de gênero e número com nós e a gente: testes de avaliação subjetiva aplicados em Portugal e no Brasil)...191 Tabela 46 – Concordância em gênero e número, em função do controle do referente. Dados de dos testes aplicados em Lisboa...197 Tabela 47 – Concordância em gênero e número, em função do controle do referente. Dados de dos testes aplicados no Funchal...198 Tabela 48 – Concordância em gênero e número, em função do controle do referente. Dados de dos testes aplicados em Lisboa e no Funchal...199

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xvii

GRÁFICOS

Gráfico 1 – A presença dos traços de gênero com a gente em estruturas predicativas:

amostra PEUL-RJ (Mulheres)...32

Gráfico 2 – A distribuição de nós e a gente nas diferentes comunidades riograndenses...32

Gráfico 3 – A distribuição de nós e a gente em capitais brasileiras, falantes cultos e não cultos...34

Gráfico 4 – A distribuição de nós e a gente em capitais brasileiras, falantes cultos...35

Gráfico 5 – A distribuição de nós e a gente nas cidades de Santa Catarina...36

Gráfico 6 – Produtividade geral de nós e a gente no PE e no PB...90

Gráfico 7 – Apresentação dos pesos relativos para aplicação de a gente na referência explícita e implícita...107

Gráfico 8– Produtividade de nós e a gente no PE, de acordo com a realização preenchida ou não-preenchida do sujeito...108

Gráfico 9 – Realização plena e nula de nós e a gente em posição de sujeito em Jaguarão (RGS)...111

Gráfico 10 – Realização plena e nula de nós e a gente, em posição de sujeito...112

Gráfico11 – A evolução do apagamento do sujeito em peças teatrais dos séculos XIX e XX, escritas no Brasil...113

Gráfico 12 – O aumento na frequência de uso de nós, de acordo com o aumento de escolaridade...130

Gráfico 13 – Dados da região sul, cruzamento entre os fatores faixa etária e escolaridade (Borges, 2004). ...134

Gráfico 14 – Dados de PE, cruzamento dos fatores faixa etária e escolaridade (Oeiras, Cacém e Funchal reunidos)...135

Gráfico15 – Percentuais de uso de a gente segundo a data de nascimento do informante (VARSUL e NURC de POA) ...143

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xviii

QUADROS

Quadro 1 – Apresentação tradicional das desinências número-pessoais em português...60

Quadro 2 – Controle dos traços formais e semânticos de pessoa nos pronomes autênticos...61

Quadro 3 – Controle dos traços formais e semânticos de pessoa, entre as formas gramaticalizadas a gente e você...62

Quadro 4 – Controle dos traços formais e semânticos de número nos pronomes autênticos...64

Quadro 5 – Controle dos traços formais e semânticos de gênero nos pronomes autênticos...65

Quadro 6 – Entrevistas da amostra Nova Iguaçu...77

Quadro 7 – Entrevistas da amostra Oeiras...77

Quadro 8 – Entrevistas da amostra Copacabana...78

Quadro 9– Entrevistas da amostra Cacém...78

Quadro 10 – Entrevistas da amostra Cacém...78

Quadro 11 – Níveis de saliência fônica controlados...82

Quadro 12 – Fatores selecionados no PE...96

Quadro 13 – Fatores selecionados em cada amostra...97

Quadro 14 – Controle dos informantes funchalenses e lisboetas entrevistados nos testes...161

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xix

ABREVIATURAS E CONVENÇÕES

CENSO/PEUL – Projeto Censo da Variação linguística no estado do Rio de Janeiro e Programa de Estudos do Uso da Língua

CONDIAL-SIN – Corpus Dialectal com anotação Sintáctica

CRPC – Corpus de referência do Português Europeu Contemporâneo NURC-RJ – Projeto de Estudos da Norma Linguística Culta do Rio de Janeiro H1 – Homem da primeira faixa etária (de 15 a 25 anos)

H2 – Homem da segunda faixa etária (de 26 a 49 anos) H3 – Homem da terceira faixa etária (50 anos ou mais) M1 – Mulher da primeira faixa etária (de 15 a 25 anos) M2 – Mulher da segunda faixa etária (de 26 a 49 anos) M3 – Mulher da terceira faixa etária (50 anos ou mais) P1 – Primeira pessoa do singular

P2 – Segunda pessoa do singular P3 – Terceira pessoa do singular P4 – Primeira pessoa do plural P5 – Segunda pessoa do plural P6 – Terceira pessoa do plural PB – Português do Brasil PE – Português Europeu

[+ eu] – traço formal de primeira pessoa (falante) [- eu] – traço formal de segunda pessoa (ouvinte) [ eu] – traço formal de terceira pessoa (não-pessoa) [+ EU] – traço semântico de primeira pessoa (falante) [- EU] – traço semântico de segunda pessoa (ouvinte) [ EU] – traço semântico de terceira pessoa (não-pessoa) [+fem] – traço formal feminino

[ fem] – traço formal neutro quanto ao gênero [ FEM] – traço semântico de gênero subespecificado [+pl ] – traço formal de plural

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xx

[-pl ] – traço formal de singular [+PL] – traço semântico de plural [-PL] – traço semântico de singular TF – traço formal

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1

I

-

I

NTRODUÇÃO

Nos últimos vinte e cinco anos, o processo de substituição de nós por a gente tem sido amplamente estudado no português do Brasil (doravante PB), por diferentes grupos de pesquisa, nas diversas regiões do país. Com relação a esse tema, a pesquisa científica nacional acumula considerável produção bibliográfica, sobretudo de caráter variacionista, como pode ser observado nos trabalhos de Omena, 1986, 1996, 2003; Álban & Freitas, 1991; Freitas, 1991; Borba, 1993; Lopes, 1993; Menon, 1994; Machado, 1995; Seara, 2000; Laureano, 2003; Maia, 2003; Fernandes, 2004; Silva, 2004; Borges, 2004; Zilles, 2005, 2007; Mendes, 2007; Rocha, 2009; Ramos et al., 2009; Tamanine, 2010; Brustolin, 2009; Mendonça, 2010; entre outros.

De maneira geral, as pesquisas destacam que o fenômeno de variação entre nós e a

gente, na variedade brasileira, pode ser caracterizado como um processo de mudança

linguística em curso, a partir do qual, gradativamente, a forma inovadora vai ocupando os espaços da forma mais antiga. Nesse processo de difusão e implementação de a gente na língua oral do PB, atuam de maneira decisiva dois importantes fatores: a preferência crescente dada ao pronome entre as faixas etárias mais jovens (Seara, 2000; Maia, 2003; Omena, 2003; Zilles, 2002; 2005; entre outros) e o fato de não haver estigma associado ao uso da forma no desempenho oral dos falantes, mesmo entre os considerados cultos (Lopes, 1993; Zilles, 2007).

Todavia, ainda que haja tamanho conhecimento com relação ao fenômeno no PB (e é importante que se mencione que esse estudo não é, em absoluto, exaustivo), muitas gramáticas tradicionais continuam a ignorar a necessidade de inclusão do pronome inovador em suas descrições para o quadro de pronomes pessoais. Ainda hoje, tal quadro continua a ser apresentado por várias gramáticas e livros didáticos como sendo composto exclusivamente pelas formas eu, tu, ele, nós, vós, eles, a despeito das alterações sofridas dentro do sistema pronominal, sobretudo no português do Brasil. Com relação à 1a pessoa do plural, muitos manuais escolares incluem apenas o nós no elenco dos pronomes retos, reservando à forma a gente um status indefinido: ora a classificam como pronome pessoal, ora como forma de tratamento. Nas palavras de Brustolin (2009, p.18):

(25)

2

(...) nelas (as GTs), não se enquadram as formas ‘vivas’ e ‘pulsantes’ de nossos falantes como você (tu/você), a gente (nós/a gente) e

vocês (vós/vocês) (...) Essas outras formas pronominais medeiam

nossas relações e concorrem entre si, perpassando de ‘boca em boca’, inclusive nas instituições de ensino.

(Brustolin, 2009, p.18)

Mas o que se pode dizer sobre a alternância entre as formas de 1ª pessoa do plural na variedade europeia da língua portuguesa (daqui por diante PE)? É fato inquestionável que a variação entre nós e a gente também ocorre no PE. Há registros da existência do pronome inovador em localidades do continente, bem como nas regiões insulares, em trabalhos desenvolvidos, principalmente na área da Dialetologia (Pereira, 1970; Moura, 1960; Buescu, 1961; Martins, 1954; Ratinho, 1959; Palma, 1967; Cruz, 1969; Medeiros, 1964; Faria, 1997; Nunes, 1965). No entanto, são praticamente inexistentes1 as descrições para o fenômeno que levem em conta a perspectiva teórico-metodológica da sociolinguística laboviana. Em função desse quadro – inverso ao que se observa para a variedade brasileira –, muitas perguntas ainda estão sem resposta, como, por exemplo: (i) Qual a produtividade da forma

inovadora, frente ao uso padrão2? (ii) Que fatores impulsionam o uso de a gente no PE? (iii) Há atribuição de estigma ou prestígio ao uso do pronome inovador? (iv) Entre os jovens, verifica-se preferência pela forma gramaticalizada?

Tendo em vista essas questões, o primeiro objetivo do presente trabalho é dar conta dessa lacuna descritiva, em que o fenômeno de variação entre nós e a gente ainda se mantém pouquíssimo investigado. Para tanto, são utilizadas amostras de fala organizadas pelo Projeto bilateral “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades

africanas, brasileiras e europeias”, de acordo com o arcabouço metodológico da

Sociolinguística laboviana. Tais corpora incluem entrevistas coletadas em dois pontos na

1

Com base no levantamento bibliográfico da autora, foi localizada apenas uma descrição nos moldes sociolinguísticos para o fenômeno de variação entre nós e a gente na variedade europeia.

2

O termo ‘padrão’ em geral designa o que está fixado nas gramáticas normativas, inspirado numa elite letrada conservadora que preconiza determinados usos linguísticos em detrimento de outros. No espaço dessa pesquisa, ainda que se utilize tal terminologia em alguns momentos para designar a forma mais antiga, isto é, o pronome nós (em oposição à forma inovadora, ou não padrão, a gente), não se preconiza uso algum, nem se atribui juízo de valor às variantes linguísticas. O interesse que guia a investigação é descrever a norma objetiva das comunidades observadas.

(26)

3 Grande Lisboa (Oeiras e Cacém) e dois pontos da região metropolitana do Rio de Janeiro (Copacabana e Nova Iguaçu). Posteriormente, novos inquéritos foram realizados na cidade do Funchal (capital da Madeira) e passaram a fazer parte da base de dados do Projeto, como sendo representativos da porção insular da nação portuguesa.

Com base em tais amostras referentes ao PE (Oeiras, Cacém e Funchal), pretende-se descrever a variação das formas de primeira pessoal do plural, determinando os fatores que influenciam a alternância de formas. A comparação com o PB será feita, sobretudo, a partir dos resultados obtidos em pesquisas anteriores que descreveram o fenômeno na variedade brasileira. Embora as amostras referentes ao PB (Copacabana e Nova Iguaçu) também sejam usadas na investigação que ora se apresenta, não o serão da mesma maneira por um motivo muito simples: à época da análise dos dados, tais corpora não se encontravam completamente concluídos, isto é, faltavam entrevistas. Em função disso, a análise comparativa do PB, quando foi feita por meio das amostras do Projeto, contou apenas com as frequências brutas, mas não com os pesos relativos.

Diretamente correlacionado à temática das formas variantes da primeira pessoa do plural, o segundo objetivo deste estudo é analisar as estratégias de concordância da forma gramaticalizada a gente com adjetivos em estruturas predicativas, no confronto com o pronome nós. Consideram-se como “estruturas predicativas” as construções nas quais as formas pronominais estabelecem relações de concordância com adjetivos como em (a) ou particípios como em (b):

(a) “quando eles sabem que nós somos católico querem converter a gente ali...” (b) “...era uma coisa normal da gente querer fazer... mas a gente era reprimida”

Propõe-se correlacionar a variação dessas estratégias de concordância às propriedades formais (φ-features) e semântico-discursivas da forma nominal gente e do pronome a gente. Para tanto, são levados em conta os traços primitivos de gênero, número e pessoa de ambas as formas variantes (cf. Lopes, 2003, Vianna, 2006, entre outros).

(27)

4 Parte-se, nessa segunda via de análise, dos resultados obtidos em diversos estudos descritivos sobre o fenômeno (cf. Lopes, 1999/2003, Menuzzi, 1999, 2000; Costa et al., 2000; Pereira, 2001, 2003; Vianna, 2006) a fim de verificar se o comportamento linguístico é semelhante no PB e no PE. As hipóteses norteadoras, levantadas nos trabalhos feitos no PB, a serem testadas em amostras orais e escritas do PE são as seguintes: (v) a generalização do masculino-singular com o pronome a gente caracteriza-se como um novo estágio na gramaticalização da nova forma pronominal; (vi) o uso de estratégias no feminino-singular está restrito a situações em que há forte motivação pragmático-discursiva.

Para os dois estudos complementares adota-se o modelo teórico metodológico da sociolinguística quantitativa laboviana (WLH, 1968; Labov, 1994), associado a alguns pressupostos teóricos formais e funcionais para discutir o fenômeno de gramaticalização (cf. Traugott & Heine, 1991; Heine, 2003; Hopper, 1991)

O trabalho apresenta-se organizado em cinco partes fundamentais. A primeira é dedicada à introdução, que ora se apresenta, na qual são expostos, além dos problemas de ordem descritiva que motivaram a pesquisa, os objetivos principais a serem perseguidos pela investigação empírica. A segunda seção diz respeito à descrição do objeto de estudo, abrangendo a revisão bibliográfica das obras de referência sobre o fenômeno de variação entre nós e a gente, tanto no PB quanto no PE, além do comportamento da forma gramaticalizada em estruturas predicativas. A terceira, por sua vez, destina-se à explicitação do arcabouço teórico e da metodologia empregada na investigação dos dados. Também são apresentados detalhadamente os corpora utilizados e os grupos de fatores controlados durante a pesquisa. Na quarta e quinta seções, apresentam-se as duas análises efetuadas: a primeira delas, com base em dados da língua oral, descreve a variação entre nós e a gente; a segunda, por sua vez, levando em conta dados de fala, bem como dados provenientes da aplicação de testes escritos, focaliza as estratégias de concordância com as formas pronominais. Em tais seções, além da exposição dos dados, segue-se a interpretação e análise dos resultados aferidos. A última seção é destinada às considerações finais. Por fim, encontram-se, em anexo, os mapas ilustrativos das regiões estudadas, um exemplar do teste escrito aplicado entre informantes portugueses, a lista dos grupos de fatores utilizados na pesquisa e a rodada variacionista produzida pelo Programa GOLDVARB 2001.

(28)

5

II

R

EVISÃO

B

IBLIOGRÁFICA DO TEMA

Levando-se em conta que um dos objetivos do presente trabalho é estabelecer a comparação entre o PE e o PB, no que se refere ao fenômeno de variação entre nós e a

gente na língua oral, torna-se imprescindível a caracterização minuciosa de cada uma dessas

variedades da língua portuguesa.

Conforme mencionado anteriormente, com relação ao PE, são poucas as descrições existentes, sobretudo dentro da perspectiva variacionista. Por outro lado, no PB, a variação entre nós e a gente tem sido amplamente estudada ao longo dos últimos 25 anos, o que possibilita esboçar, nos dias de hoje, um panorama do que seria tal fenômeno linguístico com base na bibliografia acadêmica disponível.

Assim sendo, objetiva-se, no presente capítulo, realizar um apanhado geral dos principais resultados para o fenômeno de variação entre nós e a gente, obtidos pela pesquisa científica nacional, nas diversas regiões do país, por diferentes grupos de pesquisa. Dessa forma, tornar-se-á viável estabelecer uma proposta de síntese para o fenômeno no PB – haja vista que as dimensões continentais do país não permitem generalizações confiáveis com base em apenas uma região, sob o risco de se chegar a resultados falaciosos.

Além disso, ao final do capítulo, apresentam-se ainda alguns estudos efetuados, no PB e no PE, que focalizam o comportamento das formas em construções predicativas. A revisão desses estudos torna-se relevante uma vez que a investigação leva em conta os padrões de concordância mais produtivos e frequentes com a gente como indicativos do estatuto pronominal da forma.

(29)

6

2.1 A VARIAÇÃO ENTRE NÓS E A GENTE NO PORTUGUÊS DO BRASIL

2.1.1 RIO DE JANEIRO: NÃO-CULTOS VS. CULTOS, CARIOCAS VS. FLUMINENSES

As primeiras investigações sobre a alternância entre os pronomes de 1ª pessoa do plural datam da década de 1980 e foram apresentadas no trabalho pioneiro de Omena (1986), intitulado “A referência variável da 1ª pessoa do discurso no plural” (publicado posteriormente, em 1996). Neste, analisa-se a fala de informantes cariocas não-cultos com base em uma amostra do banco de dados do Projeto CENSO3 (Censo da Variação linguística

do Estado do Rio de Janeiro). Foram utilizadas 64 entrevistas coletadas no início da década

de 1980, na qual estavam representados três faixas etárias (15 a 25 anos, 26 a 49 anos e 50 anos ou mais), os dois gêneros (feminino e masculino), e três níveis de escolarização (1ª a 4ª séries (primário), 5ª a 8ª séries (ginásio) e 2º grau)4.

A autora parte da observação de que nós e a gente têm em comum os traços de [+1ª pessoa gramatical] e [+ pluralidade], o que permite a alternância no uso. Outra propriedade compartilhada entre as duas formas diz respeito à ambiguidade criada em determinados contextos, podendo indicar tanto a referência à 1ª pessoa do plural quanto à 1ª pessoa do singular.

Com base na Amostra CENSO, foram localizadas 1.979 ocorrências de a gente em posição de sujeito, em um total de 2.701 dados, registrando a frequência de 73% na fala carioca (Omena, 1986, 1996). Partindo desses números, a autora busca entender os motivos que levam o falante carioca a preferir a forma inovadora em lugar do pronome padrão,

3 O banco de dados do Projeto Censo da Variação Linguística do Estado do Rio de Janeiro, também conhecido

como Amostra CENSO, foi organizado pelo grupo de pesquisadores do Programa de Estudos sobre o Uso da

Língua (PEUL) no período de 1980 a 1983, a partir de entrevistas com falantes de diversos bairros da cidade do

Rio de Janeiro. Tal corpus apresenta-se estratificado em sexo (masculino e feminino), faixa etária (15 a 25 anos, 26 a 49 anos, e acima de 50 anos) e escolaridade (1º e 2º ciclos do ensino fundamental e ensino médio). A essa amostra inicial foi acrescentada, posteriormente, uma subamostra de língua oral representativa da faixa etária de 7 a 14, gravada no período de 1983-85.

4

Desde 1996, regulamentada por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a antiga nomenclatura referente às etapas do ensino básico no Brasil sofreu alterações. Atualmente, tem-se o nome Ensino

Fundamental para o que se costumava chamar de Ensino de Primeiro Grau. De maneira semelhante, o antigo Primeiro Grau estava dividido em duas etapas: primário e ginásio, como o E. Fundamental divide-se em dois

ciclos. O Ensino de Segundo Grau equivale ao Ensino Médio. Nessa resenha do trabalho de Omena (1986), optou-se por conservar a nomenclatura adotada pela autora à época da publicação.

(30)

7 desvendando e avaliando a ação dos condicionadores linguísticos estruturais e a ação das características sociais do próprio indivíduo sobre essa escolha.

Os resultados da investigação apontam a maior relevância da ação do paralelismo

formal e semântico na alternância das formas: (i) o uso de a gente é preferencial quando, na

sequência discursiva, é antecedido por a gente e há manutenção da referência semântica – havendo a incidência de 93% entre os adultos (0.81) e 94% para as crianças (0.78) –; por sua vez, o uso de nós preferencialmente ocorre quando o pronome tem uma realização igual anterior e há o mesmo referente – entre adultos (0.86) e crianças (0.75). Outro fator de destaque nos resultados de Omena (1986, 1996) refere-se às formas verbais: formas verbais menos marcadas favorecem o emprego de a gente, enquanto as formas mais marcadas impulsionam o uso de nós. O tempo verbal propriamente dito também é fator condicionante: quando há ação no tempo presente (0.55) ou em tempos não-marcados (0.83), é mais provável o emprego de a gente – sendo categórico com o gerúndio e altamente favorecido com o infinitivo. No caso de ocorrer ação no tempo passado ou no tempo futuro, o inverso acontece: há inibição ao uso da forma inovadora e favorecimento do pronome padrão. O traço de indeterminação do referente também se mostrou significativo para a alternância entre as formas nós e a gente: quando há referência a (i) grupo grande e determinado (0.72 para o uso de nós) e (ii) grupo grande e indeterminado (0.72 para o uso de a gente). Quando o referente era (iii) grupo intermediário/pequeno determinado ou (iv) grupo intermediário/pequeno indeterminado, os resultados apontam neutralização (0.55 e 0.50).

Com relação aos grupos de fatores sociais, a faixa etária dos informantes foi considerada especialmente relevante no sentido de impulsionar a escolha por uma ou outra forma. Segundo os resultados encontrados, o uso de a gente é bastante favorecido na faixa etária mais jovem, o que poderia estar indicando um processo de mudança em curso, como prevê a Teoria da Variação. De acordo com a autora, tais números “indicam que os falantes nascidos a partir de aproximadamente 1960 usam bem mais a forma a gente” (Omena, 1996, p. 312). A tabela abaixo ilustra os números obtidos com base na Amostra CENSO:

(31)

8 TABELA1: A ATUAÇÃO DO FATOR FAIXA ETÁRIA SOBRE O USO DE A GENTE

GRUPO FAIXA ETÁRIA FREQUÊNCIA PR

Crianças 7 a 14 anos 524/576 = 90% .74 Jovens 15 a 25 anos 660/751 = 87% .67 Adultos 26 a 49 anos 501/744 = 67% .36 Idosos 50 anos ou mais 293/568 = 51% .22

Valor de aplicação: a gente. Fonte: Omena (1996, p.313)

Por fim, a escolaridade também se mostrou significativa na pesquisa em questão. De acordo com a autora (1996, p. 318), o contato com a escola influenciou no uso da forma pronominal conservadora, como fica ilustrado no quadro abaixo:

TABELA 2: A ATUAÇÃO DO FATOR ESCOLARIZAÇÃO SOBRE O USO DE NÓS EM FALANTES ADULTOS EM CONTATO OU SEM CONTATO COM A ESCOLA

SEM CONTATO COM CONTATO

Escolaridade Ocorrências % PR Ocorrências % PR

Primário 197/764 26 .38 17/42 32 .81

Ginásio 229/554 41 .58 42/137 31 .73

2º grau 104/227 38 .54 20/289 7 .08

Valor de aplicação: nós. Fonte: Omena (1996, p.318)

Os indivíduos que mantêm o contato com a escola tendem a exibir índices superiores de uso da forma padrão, refreando o emprego da forma inovadora. Isso ocorre nos dois segmentos do 1º grau: primário (0.81) e ginásio (0.73). Dentro do mesmo nível de escolarização, os falantes que não têm contato com a escola apresentam comportamento inverso: utilizam mais o a gente, havendo menos probabilidade do uso do pronome padrão, ainda que tais informantes tenham concluído o curso primário (0.38) ou ginasial (0.58).

(32)

9 Curiosamente, os resultados são diferenciados no 2º grau: informantes em contato com a escola apresentam emprego quase nulo do pronome padrão (0.08). De acordo com a autora, tais resultados precisam de maiores investigações.

Posteriormente, no artigo publicado em 2003 – A referência à primeira pessoa do

plural: variação ou mudança? – a autora busca responder a pergunta-título, determinando

por qual fase passa o fenômeno variável: encontra-se em (i) estágio de variação estável ou

em (ii) processo de mudança linguística? Para tanto, utilizou-se nova amostra do Projeto

CENSO5, referente aos anos 2000, confrontando-os aos resultados obtidos na década de 1980 (Omena 1986, 1996).

Dessa forma, estipulou-se o estudo em tempo real de curta duração, incluindo dois tipos de investigação que se intercomplementam: (a) estudo de tendência (trend study) e (b) estudo de painel (panel study), de acordo com a proposta de Labov (1994). No primeiro, são comparadas amostras aleatórias da comunidade de fala, estratificadas de acordo com os mesmos parâmetros e coletadas em momentos distintos, ou seja, o foco recai sobre a comunidade como um todo. No segundo, por sua vez, é feita a comparação de amostras de fala do mesmo indivíduo, coletadas em épocas distintas – focaliza-se, nesse caso, o comportamento do indivíduo durante a passagem de uma faixa etária a outra. Para efeitos do presente estudo, interessa-nos apresentar exclusivamente os resultados referentes ao estudo de tendência.

De acordo com Omena (2003), a comparação entre o desempenho de 32 entrevistados da Amostra 80 e da Amostra 00 indica relativa estabilidade da comunidade no intervalo de tempo considerado: 20 anos. Em termos da frequência geral de uso das formas, o a gente mantém-se como estratégia preferencial, na função de sujeito. A tabela ilustra os resultados nas duas amostras (Omena, 2003, p.66):

5 A Amostra CENSO, organizada nos anos 80, serviu de base para a constituição, no período de 1999 a 2000, de

dois novos corpora. Essas amostras permitem a realização de estudos de mudança em tempo real de curta duração, tanto para o estudo da comunidade – Estudo Tendência (trendy study) – quanto para o estudo do indivíduo – Estudo de Painel (panel study).

(33)

10 TABELA 3: PORCENTAGEM GERAL NO USO DE A GENTE VS. NÓS

Amostra 80 Amostra 2000 1.078/1.374 = 78% 768/968 = 79%

Fonte: Omena (2003, p.66)

Visto que a frequência geral de uso das variantes não sofreu alteração significativa no lapso de tempo considerado, era de se esperar que tal resultado fosse refletido na distribuição por faixas etárias.

TABELA 4: O USO DE A GENTE SEGUNDO A FAIXA ETÁRIA

Amostra 80 Amostra 2000

Faixa etária Frequência PR Frequência PR

7 a 14 anos 103/116=89% .79 99/105=94% .84

15 a 25 anos 473/543=87% .70 211/227=93% .84 26 a 49 anos 271/369=73% .34 208/251=83% .43 50 anos ou + 154/267=58% .20 250/385=65% .22

Valor de aplicação: a gente. Fonte: Omena (2003, p.66)

Os resultados aferidos parecem indicar que os indivíduos tendem a mudar seu comportamento linguístico quando passam de uma faixa etária a outra, adquirindo a forma padrão, que confere maior prestígio, e usando-a com mais frequência. Esse comportamento difere do que se espera de uma mudança em progresso, na qual os indivíduos mais jovens tendem a manter seus hábitos linguísticos, independentemente da passagem do tempo e consequente mudança de grupo etário. Todavia, é importante fazer uma ressalva. Nas palavras da autora, é possível “constatar que a mudança que se iniciou por volta do século

(34)

11 XVIII, se em processo, não se evidencia no curto lapso de tempo considerado”. Apesar disso, há ligeiro aumento dos pesos relativos para cada grupo etário no confronto das amostras, como pode ser observado na leitura horizontal da tabela – (i) as crianças passam de PR 0.79 a PR 0.84; (ii) os jovens, de PR 0.70 a PR 0.84; (iii) os adultos, de PR 0.34 a PR 0.43; e (iv) os idosos passam de PR 0.20 a PR 0.22.

Tendo em vista a escolaridade dos informantes, os resultados mantêm-se, com maior produtividade de a gente no 1º ciclo do ensino fundamental e no ensino médio. Visto que a forma inovadora não é estigmatizada na língua falada, não há influência do fator escolarização no sentido de “barrar” esse uso.

Com relação aos grupos de fatores considerados significativos para a alternância das formas, esboça-se o mesmo panorama dos estudos anteriores (Omena, 1986, 1996). Entre os condicionadores linguísticos, saliência fônica, tempo verbal e paralelismo formal e

semântico mostram-se, mais uma vez, relevantes.

Ainda que não tenha sido selecionado, o fator linguístico traço de indeterminação

do referente merece um olhar atento, visto que na pesquisa anterior havia sido considerado

significativo (Omena, 1986, 1996).

Outro trabalho que coloca em foco a cidade do Rio de Janeiro é o de Lopes (1993). Nesse caso, de maneira diferente do que normalmente se vê na literatura científica sobre esse tema, a autora não se atém ao estudo do fenômeno em apenas uma cidade, ou mesmo a cidades diferentes dentro do mesmo estado. A autora busca analisar a variação entre nós e

a gente, tendo em vista as capitais de três estados que se localizam em diferentes regiões

administrativas do país, a saber: (a) Salvador, capital do Estado da Bahia (Região Nordeste), (b) Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul (Região Sul), e (c) Rio de Janeiro, capital do Estado do Rio Janeiro (Região Sudeste).

O corpus utilizado – proveniente do Arquivo Sonoro do Projeto NURC/Brasil6 – constitui-se por entrevistas do tipo DID (diálogo informante e documentador), coletadas na década de 70, nas três capitais brasileiras. Tal conjunto de dados é representativo da norma

6

O Projeto NURC (Norma Urbana Culta) teve início em 1969 com o intuito de organizar bases de dados de língua oral culta, nas cinco principais capitais brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Os informantes foram divididos em três faixas etárias: 25 a 35 anos, 36 a 55 anos e mais de 55 anos. As gravações foram de quatro tipos: (1) gravações secretas (GS), (2) diálogo entre dois informantes (D2), (3) diálogo entre informante e documentador (DID), e (4) elocuções formais.

(35)

12 culta brasileira, uma vez que inclui apenas homens e mulheres com nível universitário completo, distribuídos em três faixas etárias (25 a 35 anos, 26 a 55 anos, e acima de 55 anos).

A autora parte dos resultados discutidos em Omena (1986), com base em informantes de escolaridade média, para criar suas hipóteses iniciais. Todavia, em Lopes (1993), intenciona-se analisar a variação entre as formas de 1ª pessoa do plural no português falado culto do Brasil, buscando definir quais as restrições linguísticas e sociais que impulsionam a escolha de uma ou de outra forma, bem como distribuição das ocorrências nas regiões em estudo. Além disso, buscava-se responder a algumas questões:

(1) há sutis diferenças semânticas entre forma padrão e a inovadora no sentido de que a

primeira possua o traço [+determinado], ao passo que a segunda detenha o traço [-definido]?; (2) o processo de substituição da forma padrão pela forma inovadora encontra-se em variação estável ou em pleno processo de mudança?; (3) os dados aferidos entre falantes cultos opõem-se aos resultados discutidos em Omena (1986), com informantes de escolaridade média?.

Entre os resultados mais significativos, a autora observa a relevância dos grupos de fatores sociais que estratificavam a amostra: faixa etária, sexo e cidade. (i) Com relação às faixas etárias, os resultados indicam favorecimento da forma padrão entre os idosos e equilíbrio no uso das duas formas, entre os adultos. No grupo dos jovens, a forma inovadora é amplamente favorecida. (ii) A variável sexo, por sua vez, responde por sutis diferenças no comportamento dos indivíduos, visto que os homens tendem a favorecer o emprego da forma padrão (.61), ao passo que as mulheres apresentam comportamento oposto (.41), isto é, utilizam mais frequentemente a forma nova. (iii) Por fim, os resultados relativos às cidades apontam o comportamento do Rio de Janeiro como sendo o mais inovador (há preferência pelo uso de a gente), enquanto Salvador e Porto alegre são mais conservadores. Entre os grupos de fatores linguísticos que respondem pela alternância das formas, foram selecionados, à semelhança dos resultados de Omena (1986): (iv) paralelismo formal e

semântico, (v) saliência fônica, (vi) tempo verbal e (vii) traço semântico de indeterminação.

Em síntese, Lopes (1993) confirma os resultados de Omena (1986), com falantes não-cultos. As duas investigações apontam os mesmos condicionamentos sociais e

(36)

13 linguísticos para a variação entre nós e a gente. No entanto, o processo de mudança ocorre de maneira um pouco diferenciada nos dois grupos, uma vez que se encontra em estágio mais avançado entre falantes não-cultos e ocorre com mais vagar entre os falantes cultos.

Machado (1995), em seu trabalho intitulado “Sujeitos pronominais ‘nós’ e ‘a gente’:

variação em dialetos populares do norte fluminense”, também se utilizou de dados do

Estado do Rio de Janeiro para investigar a variação entre nós e a gente.

Com base nos dados do Arquivo Sonoro do Projeto APERJ (Atlas Etnolinguístico dos

Pescadores do Estado do Rio de Janeiro), foram analisadas 2.972 ocorrências, retiradas de 72

entrevistas com pescadores. Em tal amostra, os informantes eram do sexo masculino, analfabetos ou parcamente escolarizados, naturais de doze localidades pesqueiras na parte norte do estado. São elas: (a) localidades em que há pesca fluvial: São Fidélis, Cambuci, Itaocara, São João da Barra e Itaperuna; (b) localidades em que ocorre pesca lacustre: Ponta Grossa dos fidalgos e São Benedito, ambas pertencentes ao município de Campos; e (c) localidades onde a pesca é litorânea: Barra de Atafona, Atafona, Gargaú, Guaxindiba – pertencentes ao município de São João da Barra – e Farol de São Tomé – localizada em Campos. O corpus foi estratificado de acordo com três faixas etárias: 18 a 35 anos, 36 a 55 anos, e 56 a 75 anos).

A produtividade geral de uso das formas registrou índices bastante altos com relação ao pronome inovador (72%), ao passo que a produtividade do pronome padrão foi reduzida (28%) entre os pescadores; o que parece indicar avançado processo de substituição de nós por a gente quando se tem em vista tal grupo. O peso relativo para uso de a gente na amostra foi de 0.72, levando-se em consideração tanto sujeitos nulos quanto sujeitos expressos. Entre os grupos de fatores selecionados na amostra, estão (a) paralelismo formal

no nível do discurso, (b) grau de determinação do referente, (c) tipo semântico-funcional do verbo, (d) faixa etária, (e) localidade, (f) saliência fônica e (g) tempo verbal.

Com relação às restrições sociais, destaca-se nessa investigação a irrelevância do fator escolaridade, normalmente apontado como significativo para a variação nós e a gente. Por outro lado, a localidade teve influência no sentido de favorecer ou não o uso da forma inovadora. Segundo Machado (1995), a distribuição geográfica das variantes apresentou-se bem marcada: houve favorecimento de a gente nas localidades de Atafona, Gargaú

(37)

14 Guaxindiba (localizadas no município de Campos), Itaperuna e São João da Barra; e predomínio de nós em São Fidélis, Cambuci, Barra de Itabapoana, Farol de São Tomé e, principalmente, em Itaocara. A faixa etária também se mostrou bastante influente na alternância dos pronomes: registrou-se o favorecimento de a gente entre jovens (0.70), havendo diminuição nas faixas etárias subsequentes e chegando a índices de restrição entre os idosos (0.40).

2.1.2 A PESQUISA NOS DEMAIS ESTADOS DO SUDESTE: BELO HORIZONTE E O INTERIOR, VITÓRIA E SÃO PAULO

Com relação à região sudeste, além dos estudos que analisam dados do Rio de Janeiro (Omena, 1986, 1996, 2003; Lopes, 1993; Machado, 1995; entre outros), é possível encontrar pesquisas que descrevem a substituição de nós por a gente tendo em vista os demais estados dessa região administrativa do Brasil. Exemplos disso são os trabalhos de Maia (2003) e, mais recentemente, de Rocha (2009), ambos com dados do Estado de Minas Gerais; ou ainda a pesquisa de Mendonça (2010), que focaliza o Estado do Espírito Santo. Por sua vez, utilizando dados do Estado de São Paulo, mais especificamente da capital de mesmo nome, pode-se mencionar o trabalho de Menon (1994), entre outros.

Em Maia (2003), encontra-se a primeira descrição de que se tem notícia sobre a alternância entre nós e a gente no dialeto mineiro7. A pesquisa seguiu os pilares metodológicos e teóricos da Sociolinguística de base laboviana, mediante a utilização de dois

corpora de língua oral, sendo (i) um corpus constituído por doze entrevistas realizadas com

informantes da localidade de Pombal, pertencente ao Município de Mariana (MG); e (ii) uma amostra de entrevistas realizadas com indivíduos naturais da capital do Estado, Belo Horizonte. Nos dois corpora, os entrevistados têm pouca escolaridade ou são analfabetos. A escolha de tais localidades teve o intuito de confrontar dados provenientes de uma comunidade linguística rural (Pombal/Mariana) com dados oriundos de uma comunidade urbana. Entre os objetivos da investigação, buscou-se (a) verificar se o processo de

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Em Maia (2003, p.01), entende-se, por “Dialeto Mineiro”, uma forma de falar da região central de Minas Gerais, conforme aparece no Atlas Linguístico de Nascentes (1953:17) e Zágari (1998:1).

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15 substituição de nós por a gente se encontra em variação estável ou mudança em curso; e (b) descrever semelhanças e diferenças para o processo nas diferentes comunidades linguísticas.

Localizaram-se, nas duas amostras em conjunto, 359/672 dados da forma inovadora

a gente (53%), suplantando o uso padrão, que obteve 313/672 ocorrências (46%). Tal

resultado demonstra que o a gente se encontra fortemente implementado no dialeto mineiro, à semelhança do que ocorre em outras variedades do PB. Entre os grupos de fatores controlados, a investigação apontou a relevância dos seguintes: 1) realização fonológica da desinência de número e pessoa; 2) pessoa verbal; 3) referência. A localização geográfica foi o único fator social selecionado.

Interessante observar que a análise em tempo aparente constatou mudança em progresso nos dados do dialeto mineiro, como pode ser observado na tabela extraída de Maia (2003, p.51):

TABELA 5: A INFLUÊNCIA DA ESCOLARIDADE NA VARIAÇÃO A GENTE VS. NÓS

A GENTE NÓS

FAIXA ETÁRIA Ocorrências % PR Ocorrências % PR

F1 (20 a 35 anos) 155/244 63 .60 89/244 36 .39

F2 (36 a 65 anos) 90/152 59 .55 62/152 40 .44

F3 ( > 66 anos) 141/276 41 .38 162/276 58 .62

TOTAL 359/672 53 313/672 46

Fonte: Maia (2003, p.51)

Com relação à propagação da mudança, houve diferenças bem marcadas com relação à distribuição geográfica das variantes: o espaço urbano favorece a implementação do novo pronome, enquanto as áreas mais isoladas do meio rural tendem a retardar o processo de substituição de nós por a gente.

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16 TABELA 6: DISTRIBUIÇÃO DAS VARIANTES A GENTE E NÓS NAS DIFERENTES CIDADES

A GENTE NÓS Ocorrências % PR Ocorrências % PR ZONA URBANA BELO HORIZONTE 240/340 70 .67 100/340 29 .32 ZONA RURAL POMBAL 119/332 35 .32 213/332 64 .67 TOTAL 359/672 53 313/672 46 Fonte: Maia (2003, p.53)

Como pode ser observado nos resultados extraídos de Maia (2003), a forma inovadora a gente é muito mais usada em Belo Horizonte (PR 0.67) do que entre falantes de Pombal (PR 0.32). Em termos probabilísticos, os valores mostram-se inversamente proporcionais nas cidades observadas. Acerca do tempo de implementação da mudança em zonas rurais, a autora analisa:

Esse resultado coincide com os de Ramos (2000), no estudo sobre você/ce, as comunidades rurais apresentam ritmo de tempo mais lento.

Maia (2003, p.53)

A relação urbano/rural talvez explique por que a mudança se processa em ritmo mais lento em Minas Gerais, do que se observa em outros estados, como o Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul etc.

O trabalho de Rocha (2009) também utiliza amostras de língua oral para investigar o dialeto mineiro; no entanto, de maneira diferente de Maia (2003), focaliza exclusivamente a fala da capital Belo Horizonte. A autora parte de uma amostra já pronta, constituída por entrevistas sociolinguísticas colhidas durante o Projeto Descrição Sócio-histórica do Português de Belo Horizonte.

Referências

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