ANÁLISE DO PROCESSO DE TRADUÇÃO ATRAVÉS DA TÉCNICA DE PROTOCOLOS VERBAIS Carlo Sandro de Oliveira CAMPOS e Tânia LIPARINI Campos (Universidade Federal de Minas Gerais)
ABSTRACT: In this paper we try to show the importance of think-aloud-protocols in translation studies presenting some examples of one study of our own, in which we use the adhoc-block and rest-adhoc-block model proposed by Königs (1987) and the model of translation process proposed by Alves (1995) to analyze our data.
KEYWORDS: Think-Aloud-Protocols (TAPs); psycholinguistics; translation process studies
0. Introdução
Neste trabalho analisamos alguns aspectos processuais de duas traduções do texto Eine sehr kurze Geschichte (original em inglês: A very short story), do autor Ernest Hemmingway, da língua alemã para a língua portuguesa através do uso da técnica de protocolos verbais (TAPs). As traduções analisadas foram feitas por dois alunos brasileiros (falantes nativos do português) do curso de bacharelado em alemão da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pedimos aos informantes, os quais chamaremos de I-1 (informante 1) e I-2 (informante 2) durante a análise, que verbalizassem e gravassem em fitas K7 tudo o que se passava em suas mentes enquanto traduziam. Essas verbalizações foram transcritas e utilizadas para análise do processo cognitivo realizado
durante a tradução. Os informantes não tiveram acesso ao texto original em inglês, apenas à tradução alemã. Extraímos alguns exemplos interessantes dos protocolos para seram analisados e, em alguns casos, comparados. As traduções dos sintagmas verbais parecem apresentar os maiores problemas. Como base para nossa análise, utilizamos o modelo de bloco adhoc e bloco restante (Adhoc-Block e Rest-Block) proposto em Königs (1987) e o modelo complementar ao de Königs proposto em Alves (1995), levando em consideração os conceitos apresentados de recursividade, apoio interno e externo e omissão de unidades de tradução (conscientes ou inconscientes).
Algumas unidades de tradução são simplesmente traduzidas no bloco adhoc (no qual ocorrem os procedimentos mentais automáticos, na maioria das vezes inconscientes) e não se consegue obter maiores informações a respeito do processo relativo à tradução destas unidades através do protocolo verbal. De acordo com Königs (1987), traduções ocorridas no bloco adhoc parecem ter uma resistência maior à mudança e correções por parte do próprio tradutor, o que podemos perceber em alguns dos exemplos analisados. Tudo o que não ocorre no bloco adhoc, ou seja, unidades de tradução que não encontram automaticamente um correspondente imediato 1:1, é traduzido dentro do bloco restante, no qual o tradutor toma decisões de tradução apoiado em processos mentais conscientes.
1. Análise de alguns aspectos das traduções dos informantes (I-1) e (I-2)
Ex. (1) - Luz sass auf seinem Bett.
(I-1) (1) „Luz sass auf seinem Bett. Sie war kühl und frisch in der Nn heissen Nacht. Luz sentou-se em sua cama..Luz sentou-se em sua
cama. Sass auf seinem Bett. Hm...sitzen…eh…Luz sentou-se em sua...sentou-se na cama dele...na cama dele.“
Existe uma diferença entre os verbos do alemão sitzen (estar sentado) e sich setzen (sentar-se) que o informante (I-1) não leva em consideração. Este último, cuja forma no pretérito (perfeito ou imperfeito – no alemão não há distinção entre um e outro) é setzte, envolve movimentação, já o primeiro não. O informante (I-1) reconhece sass como o pretérito de sitzen, mas confunde sitzen com sich setzen quando faz a tradução para o português. Ele parece ter traduzido este verbo no bloco adhoc e mantém uma solução inadequada no texto de chegada mesmo após a revisão.
Ex. (2) - Am Himmel waren Turmschwalben.
(I-1) (2) „Am Himmel waren Turmschwalben. No céu... Turmschwalben? Schwalben é andorinha? Turmschwalben ...(dic.).... andorinha, mas não tem Turmschwalben, ...então no céu haviam andorinhas de Turm? no céu haviam andorinhas, no céu estavam as andorinhas? Am Himmel waren Turmschwalben. No céu……as andorinhas voavam no céu. Am Himmel waren Turmschwalben. No céu …havia andorinhas no céu havia andorinhas.“
O verbo alemão sein, tem, a princípio, dois correspondentes na língua portuguesa: ser e estar, mas nesse caso nenhum desses dois correspondentes é uma solução adequada e o informante (I-1) se vê obrigado a procurar uma outra alternativa. Ele experimenta outros verbos até conseguir um resultado satisfatório através de apoio interno. A tradução do substantivo Turmschwalbe também é um caso interessante. O informante (I-1) tenta resolver o problema primeiramente através de apoio externo com a ajuda de um dicionário, mas só encontra o termo Schwalbe, que ele já conhece. Reconhecendo Turm como unidade de tradução, faz
a tentativa de traduzir Turmschwalbe como um substantivo composto („andorinhas de Turm?“-Turm significa torre), mas também não obtém uma solução satisfatória e toma a decisão de omitir a unidade de tradução Turm. Inferindo que Turmschwalbe seja um tipo de andorinha, o informante (I-1) opta pela tradução simplificada do termo, provavelmente considerando irrelevante a especificação.
Ex. (3) - Nach einer Weile wurde es dunkel und die Scheinwerfer begannen zu spielen.
(I-1) (3) „Nach einer Weile wurde es dunkel und Scheinwerfer begannen zu spielen. Depois de um momento ficou escuro e os faróis começaram .. zu spielen. Depois de um momento .. wurde es dunkel. An einem heissen Abend in Padua trug man ihn auf das Dach und er konnte weit über die, weit über die Stadt hinwegblicken. Am Himmel waren Turmschwalben. Nach einer Weile wurde es dunkel und die Scheinwerfer begannen zu spielen. Scheinwerfer, farol. Depois de um momento ficou escuro e os faróis começaram a ...spielen?...(dic.)..spielen....jogar, brincar, (...), representar, (...). E os faróis começaram a correr? Começaram a acender? Nach einer Weile wurde es dunkel und die Scheinwerfer begannen zu spielen. Depois de um momento, depois de algum tempo, depois de um certo tempo,.. ficou escuro...e os faróis começaram ...os faróis começaram...os faróis começaram a iluminar? (não) e os faróis começaram a ...brincar, nossa! Depois de um momento ficou escuro e os faróis começaram a ...ah eu vou deixar e os faróis começaram aaa, os faróis começaram aaa brilhar? A brilhar. Depois eu volto nisso. Depois de um momento, depois de um momento, depois de um temp..depois de um certo tempo começou, ou, ficou escuro e os faróis começaram a brilhar.“
(I-1) (4) „Depois de um ss certo tempo ficou escuro e os faróis começaram a brilhar ou a movimentar. Ficou escuro e os faróis começaram a se movimentar, acho que é melhor do que brilhar.“
O verbo alemão spielen tem vários correspondentes no português e o informante (I-1) conhece seus vários significados, mas não encontra uma solução adequada para o
contexto no qual está inserido, a princípio. Ele volta ao texto e tenta resolver o problema através de apoio interno, sem sucesso, e recorre então ao dicionário, onde encontra as entradas: jogar, brincar, representar. Essas não apresentam soluções adequadas para ele, pois ele as deixa de lado e tenta, novamente através de apoio interno, chegar a uma solução adequada. O informante (I-1) considera as opções: correr, acender, iluminar e brilhar, que já são traduções livres orientadas pelo contexto. Finalmente o informante (I-1) opta por movimentar-se. Provavelmente por brilhar ser um verbo estático e o verbo spielen no alemão envolver movimento.
No que diz respeito à palavra Scheinwerfer, esta pode ser traduzida de duas maneiras para o português, pois ela tem dois significados: farol e holofote. O que indicará ao tradutor a opção por uma ou outra tradução será o contexto no qual essa palavra estiver inserida. No entanto, no texto de saída utilizado pelos informantes não havia qualquer indicação de por qual palavra o substantivo Scheinwerfer poderia ser traduzido.
Sabe-se que as personagens encontram-se em uma cidade próxima a qual há uma guerra. O tradutor tem praticamente que adivinhar o significado desse substantivo, pois, à noite, numa cidade, podem-se ver tanto as luzes de carros como também de holofotes com os quais soldados numa batalha iluminam o céu a procura de inimigos.
(I-2) (5) „...die Scheinwerfer begannen zu spielen...e...Scheinwerfer...é holofote, né? E os holofotes begannen zu spielen..como é que eu vo falar ?”
O informante (I-2) parece lembrar-se da correspondência Scheinwerfer/holofote e imediatamente se preocupa com a tradução do verbo spielen, que segue o substantivo em questão.
(I-1) (6) „Nach einer Weile wurde es dunkel und die Scheinwerfer begannen zu spielen. Depois de um momento ficou escuro e os faróis começaram ... zu spielen.”
O informante (I-1) não teve também qualquer problema com o substantivo, e no final da frase, já procurava uma correspondência para o verbo (spielen).
Enquanto o informante (I-2) traduziu Scheinwerfer por holofote, a tradução do informante (I-1) foi farol (farol de automóvel). É interessante observar que nem um dos informantes pensou em outra possibilidade de tradução que não fosse a sua própria solução, o que indica que, em ambos os casos, a tradução tenha ocorrido no bloco adhoc.
Ex. (4)- ... und er konnte über die Stadt hinwegblicken.
(I-1) (7) „Em uma noite quente em Padua.. eh...levou-se ele para o telhado e ele pôde ... avistar ... a cidade ao longe... e ele pôde ... olhar sobre a cidade, enxergar ao longe. Em uma noite quente em Padua, Padua ...(dic.) Pádua, e então. Em uma noite quente em Pádua, ... ele foi levado para o telhado ... ele foi levado para o telhado e pôde ... e pôde dali ver a cidade, e pôde dali olhar ... olhar ao longe, não, difícil. E ele pôde longe sss olhar sobre a cidade ... olhar ao longe, através da cidade. .... Em uma noite quente em Pádua ele foi levado para o telhado ... e dali, e dali ele pôde olhaaar a cidade ao longe.“
(I-1) (8) „Em uma noite quente em Pádua ele foi levado para o telhado e dali ele pôde ver, e dali pôde ver ...e dali pôde olhar a cidade ao longe.“
Und er konnte (e ele pôde) foi traduzido sem problemas no bloco adhoc, mas weit über die Stadt hinwegblicken não foi tão fácil. Na verdade, o que apresenta um problema nesse caso é o termo hinwegblicken, um verbo
de movimento do alemão composto por blicken (olhar) e a preposição hinweg (para além de), que ocorre juntamente com os termos weit (longe) e über (sobre). O informante (I-1) experimenta várias preposições, na tentativa de manter todas essas noções espaciais, mas não consegue obter uma solução satisfatória. Por isso, a oração acaba sofrendo uma simplificação ao ser traduzida.
Ex. (5) - Luz würde erst nachkommen, wenn er eine gute Stelle gefunden hatte und sie in New York treffen konnte. (I-1) (9) „Luz iria só se ele encontrasse um bom emprego... se ele encontrasse um bom emprego, se ele arranjasse. ... Eu vou ter que mudar o verbo porque mais na frente ela fala em encontrar de novo, treffen, então vai ficar muito repetitivo, encontrasse um bom emprego e pudesse encontrá-la em Nova Iorque. Então Luz iria só se ele arrumasse ou arranjasse um bom emprego e pudesse encontrá-la em Nova Iorque, e pudesse en-con-trá-la em Nova Iorque.“
O informante (I-1) reflete sobre o verbo encontrar, que é uma possível tradução tanto para finden como para treffen. Preocupado com o estilo, ele menciona que prefere não repetir o mesmo verbo duas vezes na mesma frase e sugere arrumar/arranjar emprego para Arbeit finden. Inexplicavelmente ele mantém a tradução encontrar para ambos os termos no texto de chegada. No que diz respeito à conjunção wenn, esta pode introduzir tanto uma oração subordinada condicional como uma oração subordinada temporal na língua alemã. Como no português existem conjunções diferenciadas para esses dois tipos de oração (se para as orações condicionais e quando para as orações temporais), o tradutor tem que tomar uma decisão de tradução consciente para não alterar a função sintática da conjunção ao traduzi-la. O informante (I-1) parece ter
traduzido a oração no bloco adhoc, sem pensar sobre essas duas possibilidades mencionadas. Nós pessoalmente somos da opinião de que se trata de uma oração temporal devido ao advérbio erst (somente quando).
Já o informante (I-2) utiliza o verbo português vir como tradução de nachkommen. No entanto, dependendo do referencial, o verbo nachkommen pode significar em português tanto ir quanto vir. Luz deveria seguir seu amado para os Estados Unidos, mas ela estava na Europa. O movimento que ela faria seria da Europa para os Estados Unidos, mas ela estava ainda na Europa. Conseqüentemente, seria mais adequado se o informante (I-2) tivesse utilizado o verbo ir em vez de vir. A tradução desse verbo parece ter sido automática; no entanto, o informante (I-2) deixa escapar da boca a vogal i enquanto tentava construir uma frase com o verbo vir.
(I-2) (10) „Então, Luz viria...depois...erst nach ers.. viria só, ela só i viria depois quando ele... wenn ah... wenn er eine gute Stellung... und sie in New York treffen konnte, quando ele tivesse encontrado um bom emprego... e pudesse encontra-la em Nova Yorque. Oh, então ficou assim, Luz viria somente depois quando ele já tivesse encontrado um bom emprego e pudesse encontra-la em Nova Yorque”.
Se observarmos sua verbalização, poderemos entender que provavelmente ele queria dizer vir e inconscientemente pronunciou ir. Se isso for verdade, pode-se suspeitar que ele fazia uma comparação cognitiva entre os dois verbos e, dessa forma, sua tradução não teria sido feita de forma alguma no bloco adhoc.
Ex. (6) - Der Major heiratete sie weder im Frühling noch zu irgendeiner Zeit.
As conjunções weder…noch significam aqui mais ou menos nunca; entretanto, o uso dessas conjunções torna a frase sutilmente irônica. Sem elas, faltaria no texto esse sentido irônico. Na verbalização, o informante (I-2) traduz essa frase literalmente; na transcrição seguinte, pode-se perceber que, embora ele não tenho dado uma solução definitiva para essa parte do texto, é clara a sua opção por uma tradução literal:
(I-2) (11) „O major não casou com ela, né? Nem na primavera...noch zu irgendeiner andern Zeit. Nem nunca, né? Eh... como é que eu falo isso/ Nem na primavera, nem...nem...nem....em outra época nenhuma. Eh, nem em outra época alguma ou nem outra época nenhuma. Ele não casou com ela nem na primavera... nem em outra época nenhuma, sei lá! Aqui, eu pensei também, o major não, eh... nem na primavera, nem em outra época qualquer ou nem em outra época que fosse. Fica melhor do que nenhuma. Hum, hum!”
Mais tarde, no entanto, o informante (I-2) mostra em sua verbalização seu desejo de modificar sua tradução; parece que o ele não levou em conta tal sutileza do texto e, por isso, disse na verbalização que bastaria dizer que o major não se casou com Luz.
(I-2) (12) „Acho que eu posso colocar simplesmente o major nunca casou com ela... num é? O major nunca casou com ela. Pronto. Já ta... acho que já é o suficiente, num precisa de colocar isso tudo. Weder im Frühling noch zu irgendeiner andern Zeit. Acho que já dá essa idéia, esse nunca já é forte, né? O major nunca casou com ela”.
Embora a solução dada pelo informante (I-2) contenha ainda a informação mais importante do texto de saída, isto é, a informação de que o major não se casou com Luz, a ironia foi perdida.
Ex. (7) – Wenn er durch den Saal zurück ging, dachte er an Luz in seinem Bett.
Nessa frase o informante (I-2) percebe que, se ele traduzisse o pronome alemão sein por seu em português haveria uma ambigüidade de sentido, pois em português o pronome seu (equivalente a sein ) serve tanto ao gênero masculino quanto ao gênero feminino.
(I-2) (13) „Wenn er durch den Saal zurückging, dachte er an Luz in seinem Bett. Quando ele voltava... pela sala... ele pensava... em Luz na sua cama. Agora tem esse problema de in seinem Bett é na cama dele e não dela, e aqui num tem...ele pensava em Luz na cama dele? Porque é ele pensando, né? Vô ter que ver como eu vo fazer isso. Eh, tem outro problema aqui...quando ele voltava pela sala...eh, isso aí... vo ter que pensar...ele pensava em Luz em sua cama... pelo que eu entendi aqui dachte er na Luz in seinem Bett enquanto ele tava na cama dele. Vo ter que arrumar isso um jeito, né? De arrumar essa frase aqui. Quando ele voltava pela sala... ele pensava em Luz deitada em sua cama, né? É, essa solução acho que ficou boa.”
Todavia, ele pensou mais tarde que fosse o homem que estivesse em sua cama e lá pensasse em Luz. No final ele decide pela solução: “Quando ele voltava pela sala ele pensava em Luz deitada em sua cama.”, que ainda é ambígua em português.
2. Conclusão
O uso de protocolos verbais (TAPs) pode ser muito útil para entender melhor o que ocorre na mente do tradutor durante a tradução. As informações a respeito dos processos cognitivos envolvidos na tradução de textos, obtidos através dos TAPs, são apenas pistas de um processo mental mais complexo. No entanto, esses dados são de grande valor para o
estudo da tradução, já que fornecem indicações do que e como o tradutor pensa durante o processo de tradução.
Neste trabalho pudemos demonstrar algumas características do processo de tradução através dos exemplos retirados das verbalizações dos informantes I-1 e I-2. O processo de ambos os informantes é recursivo e ambos fazem constante uso de apoio interno e externo (que, nesse caso, se restringe ao uso de dicionários). Em concordância com as afirmações de Königs (1987), os exemplos do verbo sitzen em (1), do substantivo Scheinwerfer em (3) e da conjunção wenn em (5) do nosso trabalho demonstram a resistência a mudanças de traduções feitas no bloco adhoc.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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