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O CENTRO-OESTE BRASILEIRO E SUAS TRANSFORMAÇÕES AO LONGO DO SÉCULO XX

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Academic year: 2019

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---O CENTR---O---OESTE BRASILEIR---O E SUAS TRANSF---ORMAÇÕES

AO LONGO DO SÉCULO XX

Paula Madeira Aliberti1 Thiago de Oliveira Gomes2

1. Introdução

Pode-se afirmar que a região Centro-Oeste se evidenciou no contexto nacional a partir da década de 1960, com a construção de Brasília e a modernização da agricultura, que provocou uma verdadeira revolução na sua produção. Conseqüentemente, a densidade demográfica da região também aumentou devido aos atrativos que esta passou a oferecer e o Centro-Oeste foi firmando seu papel no âmbito nacional, suplantando o Sudeste e o Sul na Divisão Nacional do Trabalho na agricultura e na pecuária.

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Na década de 1950, uma nova divisão do Brasil é sugerida pelo professor Geiger (1963): os Três Brasis. Esta divide o país em três regiões: Nordeste, Centro-sul e Amazônia. O Centro-Oeste para Geiger (1963) não existe como região, mas faz parte da região Centro-sul que ele denomina como ganhadora: devido à presença maciça de indústrias e a intensa migração para esta região.

Na década de 1990, Milton Santos e Laura Silveira elaboram como sugestão uma divisão do Brasil em 4 regiões: Nordeste, Norte (Amazônia), Concentrada: Sudeste e Sul e Centro-Oeste. Portanto, no âmbito acadêmico, somente a partir da década de 1990, o Centro-Oeste é visto como uma região e não como “parte” de outras regiões do Brasil.

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---Isto porque a identidade da região ainda não foi consolidada. Conforme enfatiza Steinberger (2003), a região Centro-Oeste pode ser considerada uma região-síntese, pois, sua economia e sua sociedade foram e estão sendo construídos com fortes vínculos extrregionais. A própria demografia da região só aumentou epreencheu os grandes vazios no território a partir da década de 1960, com a construção de Brasília e a forte intervenção estatal (esta a partir da década de 30, como por exemplo a Marcha para o Oeste).

Portanto, sendo uma região-síntese e que ainda está em processo de construção de sua própria identidade, não se pode analisar o Centro-Oeste somente a partir do recorte regional. Segundo Steinberger (2003), sua relação/interseção com as demais regiões brasileiras é tão forte que sua própria cultura, economia e política são dependentes desta relação e ainda estão em “transição”.

Neste trabalho, abordaremos principalmente os fatos que levaram o Centro– Oeste a sair do ostracismo dos séculos XVIII e XIX e as transformações ocorridas na

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acordo com Leme (2003), ver um período de ascensão da região devido, principalmente, à atividade mineratória por volta do século XVII e logo após um período de ostracismo iniciado em torno do século XVIII. Esse último sendo marcado pela redução do número de povoamentos, restando apenas a agricultura de subsistência e a pecuária espalhadas em meio aos grandes vazios no território da região, perdurou até aproximadamente o início do século XX, quando algumas mudanças no âmbito nacional repercutiram diretamente sobre o Centro-Oeste e impulsionaram o desenvolvimento da mesma.

Conforme Galindo e Santos (1995), os principais fatos que impulsionaram o desenvolvimento da região foram: a expansão cafeeira em direção ao Mato Grosso, a implantação do transporte ferroviário, que tornou possível o escoamento regular e seguro da produção primária e o abastecimento de bens manufaturados vindos do Sudeste, e a “Marcha para o Oeste”, esta última sendo considerada uma solução para o alto nível de desemprego no país.

Porém, Leme (2003) afirma que somente na década de 1930 que o movimento de reversão da situação do Centro-Oeste se concretiza devido às mudanças na condução política do Brasil e o ingresso deste em um padrão de acumulação urbano-industrial, os quais criaram as condições para a expansão do mercado interno. O resultado disso foi o fortalecimento da unidade nacional, com as regiões brasileiras em uma mesma divisão do trabalho sob o comando da economia paulista.

Sob o comando de Vargas tem-se no Centro-Oeste, pós-1930: políticas do Governo federal de integração e colonização (Marcha para o Oeste), ocupação das fronteiras agrícolas, implantação de colônias agrícolas e a construção de uma cidade planejada: Goiânia.

Após esses acontecimentos, vem o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek que tem como um de seus principais projetos a interiorização da capital federal e a construção de novos eixos de transporte ligando-a as demais regiões brasileiras. Construiu-se a segunda cidade planejada do Centro-Oeste: Brasília, capital do país. Localizada no coração da região, justificou os altos investimentos federais em eletrificação, telecomunicações e rodovias: Belém-Brasília, Recife, Brasília-Fortaleza e Brasília-Porto Alegre (Leme, 2003)

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---1960, o crescimento médio anual foi de 5,6% (Leme, 2003). Já Brasília, inaugurada em 1960, teve um crescimento médio anual altíssimo, na ordem de 14,3%.

Sendo assim, a região já tinha condições para a modernização agropecuária das décadas de 1970 e 1980, responsável pelo salto produtivo do Centro-Oeste. Porém, ressalta Leme (2003) que um dos fatores que também contribuíram para o desenvolvimento econômico da região Centro-Oeste foi o fato do ambiente internacional apresentar condições favoráveis desde o pós-guerra até os anos 70: o dinamismo do capitalismo, a liquidez internacional na vigência de um padrão monetário que não provocava maiores sobressaltos são apenas alguns exemplos dos fatores que tornaram possível a algumas economias periféricas ter altas taxas de crescimento no período.

Além disso, houve muitos incentivos do Governo Federal para o desenvolvimento da região: o crédito subsidiado (para insumos, irrigação e equipamentos), os investimentos em armazenagem, a política dos preços mínimos, a atuação de organismos estatais de extensão e apoio à pesquisa (responsável pelo desenvolvimento da produção de grão no cerrado) e os programas governamentais de incentivo às frentes comerciais: Polocentro, Proceder...

Desta forma, desenvolveu-se na região uma agricultura altamente mecanizada e o aumento significativo das áreas de pastagens e o contingente bovino, formando um sistema de produção de matérias-primas para a agroindústria e produtos de exportação. Logo, o PIB do setor primário regional cresceu à média de 12% a a na década de 70.

Considero importante enfatizar também a atuação dos setores industrial e terciário na composição do produto regional do Centro-Oeste. Segundo Galindo e Silva (1995), a indústria centroestina iniciou seu desenvolvimento no início do século XX, pautada principalmente na indústria de bens de consumo (alimentação, têxtil, construção civil) e de pequenas unidades de bens de produção (aço e cimento). Atualmente, a participação da indústria no Centro-Oeste vem crescendo, porém, ainda tem participação ínfima com relação à indústria brasileira.

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setor terciário devido às belas paisagens que a região Centro-Oeste oferece.

Portanto, conforme Leme (2003), pode-se observar dois pontos essenciais na evolução da região Centro-Oeste: o primeiro refere-se à integração econômica do Centro-Oeste ser subordinada à economia paulista e o segundo é constatação óbvia que foram as ações feitas pelo Governo Federal que possibilitaram essa integração e o desenvolvimento econômico da região.

2.1 Intervenção estatal

Como já observado anteriormente, a intervenção estatal foi um dos fatores primordiais para o desenvolvimento da região, por isso, será explorada com maiores detalhes.

De acordo com Steinberger (2003), a atuação estatal na região só começou na década de 1930, sem nenhum tipo de planejamento. Este começou a ser utilizado para ações na região com a criação da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste – Sudeco no ano de 1967 (sendo que sua extinção foi em 1990). Antes dessa instituição, havia a Fundação Brasil Central, porém, o Centro-Oeste só foi pensado em termos de desenvolvimento regional com a criação da Sudeco.

Segundo Steinberger (2003), a atividade mais importante realizada pela Sudeco foi a execução de programas como o Polocentro, o da Grande Dourados, o do Pantanal e o da Região Geoeconômica de Brasília, todos criados na década de 70.

O Polocentro fez parte dos programas que objetivaram a expansão agropecuária em áreas de cerrado. Conforme Galindo e Santos (1995), a origem desse programa está no Programa de Crédito Integrado – PCI criado pelo Governo de Minas Gerais para o cerrado mineiro. Seu sucesso foi tão grande que estimulou a criação em 1985 do Programa de Desenvolvimento dos Cerrados – Polocentro. Seu principal objetivo era desenvolver e modernizar a agropecuária do Centro-Oeste e de Minas Gerais, ocupando as áreas de fronteira do cerrado para aproveitamento em escala empresarial. Era voltado para o pequeno e médio produtor com linhas de crédito muito vantajosas ao mesmo. Como atuava também na área de pesquisa possibilitou ao desenvolvimento da agropecuária moderna no cerrado.

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---com 21,3%, sendo que, conforme Galindo e Santos (1995), essas áreas eram destinadas principalmente para a expansão da lavoura de soja e para a pecuária.

Outro programa que beneficiou a região foi o PROÁLCOOL, instituído em 1975 em âmbito nacional para suprir as necessidades de combustíveis automotivos. Galindo e Santos (1995) enfatizam que o crescimento da produção de cana-de-açúcar no período de 1970 a 1990 passou de 297,1 mil toneladas para 14,1 milhões de toneladas e isso incrementou a economia da região. Porém, semelhante às outras regiões brasileiras, o programa trouxe sérios prejuízos a produção de alimentos e a geração de empregos devido a alta mecanização da lavoura.

Conforme Steinberger (2003), com a extinção da Sudeco na década de 90, vários órgãos foram encarregados do planejamento regional brasileiro: a Secretaria Especial de Desenvolvimento Regional/PR, seguida pelo Ministério da Integração Regional, e da Secretaria Especial de Políticas Regionais (Sepre – Ministério do Planejamento e Orçamento/Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão). Atualmente, o Ministério da Integração Nacional é que é responsável por esta função.

Galindo e Santos (1995) afirmam que a grande maioria dos projetos tinha como premissas básicas não só o desenvolvimento econômico da região, mas também o desenvolvimento social. Entretanto, o desenvolvimento social teve um crescimento ínfimo se comparado com o crescimento econômico da região. Isso porque:

Observou-se, ao analisar os diversos programas, que os objetivos reais da política têm apontado sempre na mesma direção, qual seja, o benefício para uma mesma classe social, detentora do poder político. A defasagem entre os objetivos aparentes e os não pode ser considerada erro administrativo ou deficiência no planejamento, mas consequência da visão elitista e autocrática que caracteriza os processos de decisão na esfera política. (GALINDO e SANTOS, 1995, p. 164)

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e fiscal do Estado o que resultou na redução e até mesmo a extinção de alguns programas de auxílio ao setor, como por exemplo: o crédito rural a taxas reais de juros negativas foi extinto e nenhum mecanismo de apoio da mesma magnitude voltou a ser implementado.

Ainda conforme Capacle (2007), a década de 1990 caracterizou a ausência do Estado como agente regulador e o surgimento de instrumentos financeiros sem vínculos com as fontes do governo. Porém, mesmo com todos esses percalços, a soja deu à região Centro-Oeste o sucesso no segmento de exportação se consolidando como centro produtivo e competitivo.

4. Ameaça a sustentabilidade

Mesmo com o planejamento e com a implantação da SUDECO, não houve no Centro-Oeste uma efetiva preocupação com o meio natural. Na verdade, devido a grande pressão sobre a preservação da Floresta Tropical da Amazônia, o Cerrado e o Pantanal passaram a ser vistos como fonte de recursos financeiros e, portanto, relegados a segundo plano em relação à conservação/preservação ambiental (Steinberger, 2003). Porém, é sabido da riqueza da biodiversidade desses dois ecossistemas e Steinberger (2003) coloca que foi elaborada uma pesquisa “Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e do Pantanal” (1999) na qual o Cerrado e o Pantanal são colocados como uma das 25 áreas mundialmente críticas devido à alta pressão antrópica.

A biodegradação que no Centro-Oeste está aumentando cada dia mais devido ao aumento da demografia e da urbanização e, principalmente, do avanço da agropecuária e da pecuária. Porém, conforme pontua Steinberger (2003), a ação governamental, como em tudo do Centro-Oeste, é ainda o fator mais impactante na biodegradação desses dois ecossistemas devido aos programas de incentivo à agropecuária e pecuária em áreas do Cerrado e ao aumento intensivo do turismo no Pantanal.

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---Pelo o que foi exposto, pode-se considerar a região Centro-Oeste como uma síntese do Brasil, pois:

- Recebeu milhares de imigrantes do Brasil inteiro formando uma cultura que não possui tantas “singularidades regionais”, mas que forma um mosaico do país.

- Pólo Agropecuário e pecuário exportador do Brasil: atualmente, a soja, que já foi considerado o produto símbolo do Centro-Oeste, está sendo gradualmente substituída pela Cana-de-Açúcar, mas ainda tem forte participação na região.

- Após a construção de Brasília, passou a abrigar o Distrito Federal sendo um espaço luminoso no interior do país, impulsionando o desenvolvimento da região;

- A ação estatal foi fundamental para o Centro-Oeste ganhar status real status de Região e sair do ostracismo que se encontrava no início do século XX. Porém, as ações governamentais foram feitas no sentido de manter o poder da elite dominante do que para diminuir as desigualdades sócio-econômicas gritantes na região.

Por isso, afirmamos que o papel de “O grande exportador de grãos” dado ao Centro-Oeste esconde uma realidade de grandes latifúndios onde poucos têm muito e muitos tem muito pouco. E, atualmente, a ação estatal deveria trabalhar no sentido de diminuir e melhorar as condições sócio-econômicas da população ao invés de continuar exaltando o papel dos grandes latifúndios no país.

Bibliografia

CAPACLEA, V. H. O problema do transporte rodoviário para o escoamento da soja produzida no Centro-Oeste Brasileiro. 2007. 139 p. Tese (Mestrado) - Instituto de Economia - , Unicamp, Campinas.

CONSERVATION International do Brasil, Funatura, Fundação Pró-Natureza, Fundação Biodiversitas, Universidade de Brasília. Ações prioritárias para a conservação da biodiversidade do Berrado e do Pantanal. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 1999.

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LAMBERT, J. Dois Brasis. 4ª Ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1973.

LEME, H. J. C. A espacialidade do desenvolvimento: as cidades na Região Centro-Oeste. In: GONÇALVES, M. F.; BRANDÃO, C. A.; GALVÃO, A. C. (Org.) Regiões e cidades, cidades nas regiões. São Paulo: Editora Unesp: ANPUR, 2003, P.621 – 634.

SANTOS, M.; SILVEIRA, M . L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2001, 471 p.

Imagem

Fig. 1 – Divisão do Brasil sugerida por Geiger (1963)

Referências

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