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Interesse do menor - contributo para uma definição

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(1)

Anblise Psicológica (1986), 3/4 (IV): 461482

Interesse do

menor

-

Contributo

para

uma

definição

ALMIRO SIMÕES RODRZGUES (*)

1. INTRODUCAO

No Direito de Menores, fala-se muito em

«interesse do menor)), «protecção», L ((meno-

res em perigo)), aintegração social)), e «di- reitos do menor)): noções, a nosso ver, fun- damentais para uma teoria geral do Direito de Menores.

No seu conjunto, parece-nos quei a noção de ((interesse do menor)) assume especial re- levância pela posição privilegiada que ocupa na compreensão do estatuto do menor.

Com efeito, clarificado o que é o inte- resse do menor, facilmente poderemos vis- lumbrar os parâmetros da protecção, do que constitui perigo e do que são os direitos e deveres do menor.

Este é

um

ser

em

formação, num deter- minado ambiente. Haverá, pois, que ter em

conta o seu processo de desenvolvimento, do nascimento (ou antes) ao estado de adulto.

Cada estádio tem características próprias e necessidades definidas em função do seu objectivo de desenvolvimento. São aquelas que poderão ditar o interesse do menor, ou seja, o que se deve p6r entre a situação de

#(*) 'Centro de Estudos Judiciários. Lisboa. Por-

tugal.

facto em que o menor se encontra 8 06 seus

objectivos de ser humano.

Quando o menor se encontra em perigo OU desadaptada é porque o seu estado ou

a sua situação se encontram desadequados, inconsistentes ou desequilibrados face a o seu destino e objectivos de ser humano. É, pois, necessário introduzir algo que restabeleça a coerência e o equilíbrio. Esse algo, a de-

finir segundo as circunstâncias e a tipo de necessidade, poderá constituir o interesse (raiz etimológica: inter

+

esse = estar en- tre) do menor. Fazê-lo é proteger o menor; porque, naturalmente, iw é exigido, ele

tem 01 direito a protecção; porque ser social, candidato a humanidade, em formação e

desenvolvimento,

a

reconstrução do equilí- brio deve facilitar a integrqão social, ob- jectivo do desenvolvimento.

Daí que, embora consideremos com maior atenção, por ora, a noção de ((interesse do menon), sejam também importantes as no- ções de protecção, assistência, situação par- ticular, perigo, grave prejuízo, integração so-

cial, necessidades, direitos e obrigações, for-

mação e educação.

Posta assim a questão, vamos reflectir sobre ela, tendo em conta, sobretudo, a ex- periência adquirida ao longa de anos de

(2)

res e de família e alguma informação nas áreas do Direito e da Psicologia. Fá-10-emos,

partindo da realidade (jurídica e social) por- tuguesa, mas tendo sempre em mente o do- mínio mais vasto da comunidade interna- cional, de momento, interessada num pro- jecto de Convenção dos Direitos da Criança. Este facto já justificaria a nossa reflexão; além disso, qualquer ser humano é cidadão do mundo.

Assim,

começaremos por tentar surpre

ender a presença (exemplificativa) da noção ainterosse do menor)) nos textos legais (II), designadamente, na Organização Tutelar de Menores (O.T. M.) e C6digo Civil portu-

guês (C. C.) e nalguns textos internacionais, sobretudo as convenções relativas 21 protec-

ção dos menores.

Como a protecção é um direito do menor, abordaremos os direitos do menor (111), nos seus aspectos gerais (i), na sua enumeração

(2). De seguida, para mais completa visão do problema, consideraremos as obrigações do menor (IV) e deveres do Estado (V).

Este conjunto constitui o que poderíamos designar, grosso modo, abordagem jurídica

do tema (A).

De seguida, tomaremos uma segunda abor- dagem: a perspectiva pico-social (B), no âmbito da qual analisarmos oi menor en-

quanto protagonista activo 6 passivo do de- senvolvimento em interacção (VI), u que

leva a explicitar o conceito de sistema e outros (VII) úteis

a

compreensão do pro-

cesso de

socialização (VIII).

Finalmente, tentaremos uma shtesecon- dusão 6 dgumas sugestões de acção (IX).

2. O «INTERESSE DO MENOR)) NOS TEXTOS LEGAIS

termos quantitativos, mas antes em termos

qualitativos: a sua posição e importância em temos de interpretação e de aplicação do direito.

2.1. N a O. T. M .

(Organização Tutelar de Menores)

«Os tribunais de menores têm por fim a protecção judiciária dos menores e a defesa dos seus direitos e interesses me- diante a aplicação de medidas tutelares de protecção, assistência e educação.# (')

Dentre as medidas aplicáveis, o tribunal escolherá a mais adequínda a cada caso (ari. 12, 2 ) e tendo em conta a sua exequibili- dade prática (art. 21). Considerando o ca- rácter essencialmente protector e pedagó- gico, não há lugar a constituição de assis- tente ( y t . 40) e a intervenção de mandatá-

n o judicial (advogado) só é admitida para efeitos de recurso (art. 41).

As decisões proferidas podem ser, a todo

o tempo, revistar, para mais fácil reintegre

&o social do menor (art. 46, 1).

Ao Curador de Menores ("). cabe defender

os direitos e velur pdos interesses dos meno-

res, podendo intentar acções e usar quais- quer meios em sua defesa (art. 10).

A utilização do processo tutelar?) está

sempre condicionada ao objectivo de defesa do interesse do menor, a definir segundo a idade, personalidade, situação ou interesses relativos a educação do menor e sempre na perspectiva da

sua

integração social (arts.

28 e 29). O próprio poder paternal está condicionado pelo interesse do menor.

«O interesse superior da criança deve ser a consideração determinante» (Decla- ração dos Direitos da Criança).

Nos

textos legislativos portugueses, com maior incidência no5 menores, ei nas con-

venções internacionais, aparecem referên- C k S h IlOÇão de ((intereSSe do mCXiOr)>. A Sua

frequência nunca poderá ser encarada em

(') Art. 2 da O. T. M. (Decreto-Lei n.c 314/

(') Represeptante do Ministério Público junto

C ) No Tribunal de Menores. 178, de 27 de Outubro).

(3)

A

protecção judiciária visa a defesa do interesse do menor e a sua readaptação so- cial (arts. 21, 51, 98 e 99), tendo sempre

presente que cada caso é um caso (arts. 21,

35 e 45).

No dominio da prmew tutelar cível(4), a noção ((interesse do menor» também está presente nos arts. 117, 4; 180, 1 e 2; 181, 3 , ao lado de outras que lhe estão próximas, designadamente as de ((necessidades do me- nor)), ((deveres dos pais para com us filhos)), ((grave prejuízo para os filhos)), «pais mani- festamente incapazes, física ou moralmente)) (arts. 188, 2; 194 e 199).

2.2. No C. C. português

(Este código foi aprovado pelo Dec.-Lei n.' 47 344, de 25-11-66 e foi alterado pelos Decs.-Lei n.OS 496/77 de 25 de Novembro e 262/83 de 1 de Junho.)

A noção em causa aparece explicitamente,

pelo menos, nos arts. 1878,2; 1905, 1, 2 e 3;

1919; 1978; de forma implícita, aparece, também, nos arts. 1878,2; 1879; 1880; 1881;

1882; 1918; 1974, 1; 1981, 1 a); 1984 e 2003.

2.3. Nas convenções internacionais

2.3.1. Convenção relativa 2 protecção de menores (Haia, 5-10411)

As autoridades do Estado da residência habitual do menor são competentes para decretar medidas visando a protecção da pesso@ e bens do menor (art. 1). No entanto, se as autoridades do Estado donde o menor

é nacional considerarem que o interesse do menor assim o exige, podem, de acordo com a respectiva lei interna e depois de terem informado o Estado da residência habitual do mesmo, decretar medidas visando a pro- tecção do menor e seus bens (art. 4).

Apesar de tudo, as autoridades do Estado da residência habitual do menor podem d e

(4, No Tribunal de Família.

cretar medidas de protecção, desde que o menor esteja ameaçado de um perigo sério na sua pessoa e bens.

2.3.2. Convenção sobre a lei aplicável 2s obrigacões alimentares (Haia, 2 de Outubro de 1973)

A aplicação da lei designada pela Con- venção sír pode ser recusada se for mani- festamente incompatível com a ordem pú- blica.

Todavia, mesmo que a lei aplicável dis-

ponha de outro modo, devem SRT tomadas

em Consideração as necessidades do credor (interesse de ordem material) e as recursos do devedor, na determinação do montante da prestação alimentar (art. 11)

e).

2.3.3. Convenção europeia sobre o reconhe- cimento e a execução das decisões sobre a guarda de menores (Luxem- burgo, 20-5-80)

Os Estados membros do Conselho da Eu- ropa reconheceram que a consideração do interesse do menor é de uma importância fundamental em matéria de decisões relati- vas a sua guarda e que a instituição de me- didas destinadas a facilitar o reconheci- mento e a execução das decisões referentes a guarda de um menor terá como conse- quência garantir uma melhor protecção do

interesse dos menores (preâmbulo).

Daí que, além do mais, tivessem acor- dado:

-a autoridade central do Estado reque- rido tomará ou fará tomar todas as medi- das, se necessário provisórias e com a maior brevidade possível, de modo a evitar que

o# interesses do menor sejam lesados (art. 5,

1 b));

(7

O art. 2004 do C. C. estabelece que ((os

alimentos serão proporcionados aos meios daquele que houver de prestá-los e & necessidade daquele que houver de recebê-los)).

(4)

-o reconhecimento G a execução pode-

rão ser recusados se se constatar que, em face da alteração das circunstâncias, os efei- tos da decisão inicial já não são manifesta- mente conformes com o interesse do menor

ou se a recusa for conforme com o interesse

do menor (art. 10, 1 b) e d));

-

a autoridade competente do Estado re- querido, antes de recusar o reconhecimento e a execução com base na manifesta incon- formidade dos efeitos da decisão inicid com

o interesse do menor, deverá tomar conhe- cimento da opinião do menor, atenta, espe-

cialmente, a sua idade e a sua capacidade de discernimento (arts. 15, 1 b))(6).

2.3.4. Convenção europeia em matéria de adopção de crianças (Estrasburgo, 24- 4-67)

A adopção tem por objectivo assegurar o

interesse da criança (art. 4)(9 nos termos em que é definido no art. 8. Por isso, a auto- ridade competente deve proceder a um in-

quérito apropriado (adaptado a cada situa- ção concreta), designadamente, para avaliar

se a adopção corresponde ao interesse da criança e lhe proporciona um lar estável e

harmonioso (art. 8, 2).

Cada uma das Partes Contratantes con- serva a faculdade de adoptar disposições mais favoráveis a criança adoptada.

2.3.5. Convenção sobre o estatuto jurídico das crianças nascidas fora do casa- mento (Estrasburgo, 15-10-75)

Esta convenção visa a melhoria da con- dição das crianças nascidas fora do casa-

(') O desenvolvimento do raciocínio moral se- gundo Kohlberg pode ajudar a compreensão do conceito de discernimento.

(') O art. 1974, 1 do C . C. fala de «reais van- tagens para o adoptando)).

mento (8), assemelhando o seu estatuto jurídico ao das crianças nascidas no casa- mento, designadamente no domínio da su- cessão (art. 9).

2.4. N a Declaração dos Direitos da Criança (1959)

A Base I1 consagra que

«a c r i x ç a deve beneficiar de uma pro- tecção especial e ver-se rodeada de possi- bilidades concedidas pela Lei e por ou- tros meios, a fim de se poder desenvolver

de uma maneira sã e normal no plano físico, intelectual, moral, espiritual e so- cial, e m condições de liberdade e digni-

dade.

Na adopção de leis para este fim, o

interesse superior da criança deve ser a consideração determinante)).

Também a Base VI da mesma Declara-

ção, estabelece que

«a criança, para o desenvolvimento har-

monioso da sua personalidade, tem ne-

cessidade de amor e compreensão. Deve tanto quanto possível crescer sobre a pro- tecção e responsabilidade dos pais e, em qualquer caso, numa atmosfera de afecto e de segurança moral e material; a

criança, na primeira infância, não deve, salvo circunstâncias excepcionais, ser se- parada da sua mãe».

3 . OS DIREITOS DO MENOR

3.1. Aspectos gerais

3.1.1. Menor: o titular

...

No domínio da psicologia do desenvolvi- mento, nem sempre houve acordo quanto

(') O art. 36, 4 da Constituição Portuguesa consagra que N O S filhos nascidos fora do casa- mento não podem, por isso, ser objecto de quaI- quer discriminação)). Porém, o C . C . refere que

«O pai ou a mãe não pode introduzir no lar con-

jugal o filho concebido na constância do matri- mónio que não seja filho do seu cônjuge, sem o

(5)

aos estádios do desenvolvimento humano. Por isso, uma comissão de peritos da O. M. S . propôs o seguinte ((calendário)):

-Infância, do nascimento aos 13 anos -Puberdade, dos 13 aos 15 anos; -Adolescência, dos 15 aos 18 anos; -Juventude, dos 18 aos 25 anos;

-Idade adulta, com ponto médio sensi- -Velhice, depois dos 65 anos.

{ pr é-puber dade) ;

velmente aos 40 anos;

No plano jurídico internacional, relati- vamente a noção de «menor», também não há unanimidade. O período da menoridade situa-se, consoante o regime jurídico (') de cada país, geralmente entre os 18 e os 21 anos. Nas convenções internacionais, ao ser definido o domínio de aplicação (menores), surgem também diversas idades, por exem- plo, 18 ano5 ,)O'( escolaridade obrigatória ,)l'(

16 anos(I2) e outras.

Encontram-se, também, referências ex- tremamente amplas: ((falta de maturidade física e intelectual)) ( 1 3 ) , ((capacidade de dis-

cernimento)) (14), ((idade núbil))

(9,

cdepen-

(O) Regime jurídico português: arts. 122-137

do C. C.

( ' O ) Convenção europeia em matéria de adop-

ção de crianças (art. 3).

(") Recomendação do Conselho da Europa

de 4-2-82.

(") Convenção europeia sobre o reconheci-

mento e execução das decisões em matéria de guarda das crianças (...), de 20-5-80 (art. I).

( l '

) Declaração dos Direitos da Criança (n.? 3

do preâmbulo).

(14) Convenção europeia sobre o repatria-

mento de menores, de 28-5-70 (art. 5) e O. T. M. (arts. 14 e 76).

(15) Declaração Universal dos Direitos do Ho-

mem (art. 16) e Pacto Internacional relativo aos direitos civis e políticos (art. 23).

dência financeira)) (I6) e «fim da escolari- dade obrigatória))

(9.

Verifica-se, nas legislações internas e nas diversas convenções internacionais, a exis- tência de critérios de definição, tão nume- rosos como variados. Qualquer definição é,

pois, difícil.

O projecto (art. 1) apresentado pela Po- lónia, com vista ii elaboração da Convenção sobre os Direitos da Criança, utiliza como

critério a idade de 18 anos, a menos que as legislações nacionais prevejam limite infe- rior.

Embora concordemos com o critério pro- posto, pensamos que seria preferível o cri- tério da menoridade. Com efeito, a grande maioria dos países fixa-a entre os 18 e 21 anos, o que, $i partida, já respeita a situação

de cada um deles.

De qualquer modo, cremos que identifi- car «criança» a «menor» é critério prático e adequado(''). Ou seja, para efeito des- te trabalho, falaremos indistintamente em criança)) e «menor».

3.1.2. A o longo dai história

O menor, enquanto ser em formação, é um ser em relação com todo o seu meio. Porque em formação, é muitas vezes es-

quecido, subalternizado e ((assistido)). Numa

época em que ((prevenir vale mais que re- mediar)) e em que o investimento é a chave do desenvolvimento, há que pensar no futuro dos menores, candidatos a huma- nidade)). A comunidade (nacional e inter- nacional) parece, dando-se conta da sua importância, pretender ocupar-se da protec- ção dos menores, o que, aliás, já vinha fa-

(I') Pacto Internacional relativo aos direitos

(I') Código Europeu de Segurança Social e

( I '

) C. C. português: art. 66, 1 e 122.

econórnicos, sociais e culturais (art. 10, 3).

(6)

zendol. Esta atitude também se ((tornou)) ao longo de algumas décadas.

A daprotecção e, mesmo, a opressão dos menores, têm raízes fundas e antigas, ao longo da história. A própria morte, tam-

bém com fins rituais, está presente. Lem- brsse o episódio bíblico de Abraão e Isaac que, ainda hoje, é contado, com apoio au- dio-visual e tudo, a muitos dos n o w s me- nores.

O infanticídio funcionou, pelo menos na Idade Média, como meio de regulação d s

mográfica ou como meio de solução de outros problemas (casos de ilegitimidade, malformação ou miséria). No século XVIII, passou a ser punido.

A revolução industrial, no entanto, tor-

nou vulgar a exploração do trabalho infan- til. Ao contrário, em certas civilizações, di- tas primitivas, o bater numa criança era acto esprádico e severamente repudiado pela comunidade.

Conta-se que, em 1881, pessoas bem in- tencionadas denunciaram, em certo país, os

pais duma menor que tinha sido espancada por eles quase até

A

morte. A situação foi extremamente embaraçosa para

o

tribunal: não constava dos tipos legais de crime. O de- fensor do menor recorreu aos princípios que, então, protegiam os animais

...

Terá nascido aí a primeira associação de protec-

ção a menores.

Lenda ou facto verídico

...

quer dizer a p e nas que nem sempre a menoridade foi re- conhecida como trajecto da vida humana.

Após a Primeira Guerra Mundial,

a comu-

nidade internacional despertou para a pro- blemática da protecção e defesa dos meno-

res. De facto, em 1920, surgiu, em Genebra, a União Internacional de Protecção

A

In- fância. Em 1924, a Assembleia da

S.

D. N. adoptou uma declaração sobre os direitos

da criança

eg).

Até cerca de 1950, as preocupações no domínio da protecção, são sobretudo de or- dem humanitária e têm muito a ver com as duas g u m a s mundiais.

Depois, a abordagem dos problemas da infância evolui, não s6 quanto às suas mo- dalidades, mas também quanto aos seus des- tinatários, designadamente com o apareci- mento dum novo campo de preocupações -a adolescência e a juventude.

fi

nesta altura (1959) que surge a Decla- ração dos Direitos da Criança. No seu inte- resse, como no da comunidade, deverá dar- -se a criança o melhor possível. A protecção

outorgada é, agora, influenciada por objec- tivos de ordem sócioipolítica. Protege-se a criança, não tanto pela sua situação, mas mais pelo lugar que wupa ou pode vir a ocupar na sociedade, enquanto ((cidadão do mundo)) chamado a dirigir os destinos da humanidade. No entanto, o aspecto econó- mico também não é esquecido. Grande parte das resoluções das Nações Unidas sobre a

juventude acentuam a energia, o entusiasmo, o esforço criador e a participação activa dos jovens no desenvolvimento. No fundo, insistem na importância do seu papel na

economia. Com o Maio de 1968, a comu- nidade internacional dá-se! conta de que 06

jovens têm consciência dos problemas so- ciais e que podem desempenhar papel válido na sua solução.

Assiste-se, então, ao crescer da preo- cupação da comunidade relativamente aos

problemas dos menores, designadamente concretizada pela implantação, a nível inter- nacional, dum sistema de protecção que abrange todas as suas situações ou activi- dades.

É neste contexto que ocorreu o Ano In- ternacional da Criança (1979) e o Ano In- ternacional da Juventude (1985).

Naquela altura, a Assembleia Geral das Nações Unidas ("), sugeriu a criação duma

(") Nações Unidas, Conselho Económico e

Social, Comissão dos Direitos do Homem, de ('O) Resolução 33/166, de 15 de Março de

(7)

Convenção sobre os direitos da criança.

O objectivo seria o de conferir carácter obrigatório a textos (Declaração dos Direi- tos da Criança) que apenas tinham valor declarativo.

3.1.3. Até hoje

No seguimento daquela sugestão, a Poló- nia(""') tomou a iniciativa de apresentar um projecto de convenção, que se encontra em apreciação e discussão internacional.

Independentemente de vir ou não a exis- tir tal convenção, um facto é já irreversível, enquanto adquirido: os direitos do homem fazem parte integrante dos direitos do me- nor e, em formulação geral ou particular, a grande maioria das constituições dos di- versos países já os acolheu. Enquanto tais, apresentam-se como verdadeiros princípios gerais dos direitos do menor que, no plano

internacional, poderão servir de base a eventual codificaçãol desses mesmos direitos. Princípios gerais do direito do menor são

já: o direito A protecção especial, a não discriminação e ao desenvolvimento são e harmonioso. Assim têm sido considerados pela doutrina (Charpentier, 1975 e Van BCF ven, 1978) e pela jurisprudência, designada- mente da Cour de Justice des Communau- tés Européennes?). Também a prática da ONU vai no sentido de admitir que os di- reitos do homem fazem parte dos princípios gerais do direito.

Dentre o conjunto de direitos fundamen- tais já consagrados nos textos constitucio- nais internos há, pois, alguns que são prin-

cípios gerais em matéria de protecção do menor.

('I) Juntamente com a Colômbia, Jordânia, Síria e Senegal. Texto in Conseil Economique e t

Social, documents officiels, 1978, suppl. 4.

(") Aff. 130/75-Vivien Prais c/ Conseil

des Communautés Européennes; Aff. 36/75 - Roland Rutili c / Ministre de I'Intérieur, 28-10-75, Rec. 1975 p. 1219; Aff. 4/73 - J. Nord Kohlen c/ Comrnission C. E. E., 14-5-74, p. 491.

Princípio largamente?) admitido é o da protecção especial do menor. A Constitui-

ção portuguesa (art. 69) faz-lhe particular roferência dispondo que «as crianças têm direito .à protecção da sociedade e do Es- tado, com vista ao seu desenvolvimento in- tegral)) e (((

...) particularmente

os 6rfãos e

abandonados têm direito ii especial protec- ção da sociedade e do Estado contra todas as formas de dis,criminação e opressão e

contra o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições)).

De facto, o menor encontra-se em situa- ção especial relativamente ao adulto.

I3

desta especialidade, tem-se entendido, que o me- nor retira o direito 5 protecção especial de que necessita para preservar o seu futuro, a conseguir mediante desenvolvimento são

e normal, nos planos físico, intelectual,

mo-

ral e social.

família, h sociedade e ao Estado. Porém, por paradoxal que pa- reça, a família e o Estado são, ao mesmo tempo, juízes e partes na mesma questão. São igualmente responsáveis pela aplicação e respeito do direito do menor. Este, dada a sua condição de menor, não reivindica pessoal e directamente os seus direitos?).

Por isso, dentre os oprimidos com fala,

os menores são os mais mudos. O que é tido por direitos do menor parece ser antes a prerrogativa das entidades, social e juridi- camente responsáveis pelo seu desenvolvi-

mento, de tomarem (tas medidas de protec- ção que a sua condição de menor exige

p).

Teremos, pois, que pensar sobre a protecção do direito 2 protecção especial, o que po-

Protecção face

(") V. g. Constituição alemã (R. D. A. e

R. F. A.), argentina, brasileira, chinesa, cubana, egípcia, espanhola, francesa, italiana, jugoslava, mongol, polaca, portuguesa, síria, venezuelana, etc.

(") C. C. português (arts. 124 e 1881): a in-

capacidade dos menores 6 suprida pelo poder pa- ternal.

('7 Pacto Internacional relativo aos direitos civis e políticos (art. 24, 1).

(8)

derá fazer-se através da codificação dos di- reitos do menor ou através da Convenção sobre os direitos do menor.

Ai

é possível prever mecanismos de sanção para o incum- primento das correlativas obrigações. Se as- sim não acontecer, «o indivíduo protegido não tem escolha; ele não pode senão con- sentir na protecção que convém às institui-

ções protectoras (Boulding, E. - 1979, p. 5). Mas, se pela sua particular situação face ao adulto, o menor tem direito a protecção especial, ii posição de «protegido», como compreender o seu direito a não discrimi- nação, o seu direito a liberdade? (”).

Como já vimos, os direitos do homem fa- zem parte integrante dos direitos do menor.

A Declaração Universal dos Direitos do Ho- mem reconhece os direitos de circular, dei- xar o seu país, escolher local de residência; as liberdades de reunião e de associação pacífica, a liberdade de consciência, de pen- samento, de religião, etc. (m).

Como conciliar os direitos do homem e

as liberdades que lhe são conferidas com o considerar o menor como ser totalmente incapaz, imaturo e irresponsável? Como ignorar as suas necessidades essenciais de liberdade, autonomia e responsabilidade?

Como adiante se dirá, o menor torna-se adulto, está sujeito naturdmente a um pro- cesso de desenvolvimento. Isto quer dizer que, nos seus diferentes pontos de ((homi- nização)), há já certa capacidade de assumir certas «doses» de liberdade, de autonomia e de responsabilidade. A sua total negação é, sem dúvida, uma discriminação negativa. Do ponto de vista prático, transforma-se

em obrigação do menor o que normalmente é um direito do adulto. Desta forma, nunca se protegerá o menor contra a discrimina- ção em razão da idade, a que naturalmente não pode escapar. O princípio da igualdade exige tratamento desigual em desigualdade de situações.

(”) Constituição portuguesa (art. 27).

(”) Constituição portuguesa (arts. 4 1-46).

O direito a não discriminação é também um princípio geralmente admitido, pelo me- nos em teoria, pela maioria dos Estados (”).

O exercício efectivo deste direito terá que ser assegurado através da investidura plena do menor no seu erialulo de humano, da consideração do seu prccesso de desenvol- vimento e das suas reais capacidades em cada estádio desse processo.

As reflexões produzidas no Ano Inter- nacional da Criança permitiram repensar e redefinir o menor, verificadas que foram as insuficiências na formulação e aplicação dos seus direitos. Constatou-se a existência de menores objecto da propriedade privada da família ou do Estado. O respeito pelo interesse do menor passa necessariamente pela definição de um direito do menor em

que sejam considerados os diferentes está-

dios do seu desenvolvimento e as conse- quentes capacidades de que vai dispondo, designadameate a de informação e expres- são (2s). O menor comunica, exprime-se, mas sobretudo de forma não verbal. Estarão

os adultos, mais habituados

a

comunicação verbal, capazes de descodificar as suas men- sagens?

A definição daquele direito novo muito

ganhará se for orientada numa perspectiva interdisciplinar: a pedagogia, sociologia, an- tropologia cultural, psicologia (social, do desenvolvimento e cognitiva), além de outras, proporcionarão, certamente, contri- butos inestimáveis.

É exactamente na perspectiva interdisci- plinar que melhor se compreende o direito do menor ao1 desenvolvimento são e normal no plano físico, intelectual, mural, espiri- tual e social, em condições de liberdade e de dignidade. O menor é um sistema em in- teracção com outros sistemas (família, grupo

(’*) Cf. nota relativa ao direito ?i protecção

especial; Pacto Internacional relativo aos direitos

civis e políticos (art. 24) e Constituição portu- gucza (arts. 12 e 13).

(9)

social, sociedade...). Ele tem direito a que esse desenvolvimento global harmonioso sei processe num meio familiar.

3.2. Que direitos?

Os direitos a protecção especial,

a

não discriminação e ao desenvolvimento são e normal ,como princípios fundamentais, cons- tituem o centro de gravidade dos demais direitos do menor. Assim, eles estão con- sagrados nos diplomas fundamentais de quase todos os países e constituem motiva-

ção de toda a regulamentação internacional do estatuto do menor(30). Os direitos do menor podem ser encarados interdiscipli- narmente, isto é, nos diversos contextos em q i e se desenrola o seu processo de desen- volvimento: contexto familiar, escolar, s e

cial e jurídico.

2.2.1. N o contexto familiar

O direito do menor a vida

C1)

está ligado, natural e culturalmente, ao direito ao5 cui- dados pré e pós-natais, ao direito aos ali- rnentosC"). O menor tem direito a desen- volver-se no seu meio familiar, atenta a importância do papel do pai e da mãe no seu desenvolvimento.

O princípio da não separação do menor de seus pais encontra-se na Constituição portuguesa (art. 36, 6) ao consagrar que

«Os filhos não podem ser separados de seus pais, salvo quando estes não cum- pram os seus deveres fundamentais para com eles e sempre mediante decisão ju- dicial)).

___-__

(") Nações Unidas, E/CN4/1324, 27.12.78,

p. 3.

("1 Este direito está intimamente ligado ao problema do aborto, cuja liberalização, em certos países, obriga a considerar a sua nova dimensão. Na ausência de um critério objectivo, a vida tor- na-se uma noção relativa.

("3 C. C. (art. 1878).

Mas, sempre que esta decisbo ocorra(=),

01 menor tem o direito de manter os laços

com ambos os pais?) (mesmo que sejam de raça, de nacionalidade ou de confissões diferentes), a menos que, excepcionalmente,

o interesse do filho o desaconselhe(3J)I.

Quando nascido fora do casamento, o me- nor não pode ser objecto de discriminação relativamente aos menores nascidos n o ca- samento (36).

No fundo, o menor tem direito a uma família, unidade fundamental da sociedade e meio natural para o seu desenvolvimento e bem-estar. A experiência mostra que a desunião da família é fonte de desequilíbrios graves para os menores. O menor tem, pois, direito, para o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade, a crescer num meio familiar, num clima de carinho, amor e compreensão.

O papel privilegiado da família não ofusca o papel do Estado, chamado a intervir para assegurar a satisfação das necessidades ma- teriais

C7)

e a defesa dos valores da comu- nidade que encarna.

Este direito do menor ganha tanto mais importância quanto(, não tendo ele ainda capacidade bastante para avaliar e se decidir perante a diversidade de situações e exigên- cias que lhe são feitas, se torna terreno fácil da manipulação ideológica. Aí se poderá compreender o papel fundamental da famí- lia na educação, enquanto filtro e amor- tecedor de tendências absolutas ou não de- mocráticas. De igual compreensão beneficia

(37 C . C. português (arts. 1913, 1915, 1918- -1920) e O.T.M. (art. 19).

(") C. C. (arts. 1901 e 1906).

(") C. C. (art. 1919, 2) e O.T.M. (art. 26).

[36) Ver Convenção Europeia sobre o estatuto

jurídico das crianças nascidas fora do casamento (Estrasburgo, 19.8.76) e Constituição portuguesa (art. 36, 4), espanhola (39, 2), italiana (3), suíça

(54), jugoslava (190) e Lei Fundamental da R.F.A. (6. 5).

(37) Pacto Internacional relativo aos direitos

económicos, sociais e culturais (art. 24) e Carta Social Europeia (art. 16).

(10)

o direito do menor ii livre aswiação e ral, o direito a educação; outros consagram- expressão.

Na verdade, o papel da família é reconhe- cido em grande parte dos textos internacio- nais, pois ela é o ((elemento fundamental e natural da sociedade e tem direito ii pro- tecção da sociedade e do Estado»C8).

O projecto de convenção (preâmbulo) re- fere que, ((como unidade fundamental da sociedade e meio natural para o cresci- mento e bem-estar de todos os seus mem- bros, e em particular das crianças, deve re- ceber a protecção e assistência necessárias para que possa desempenhar cabalmente o

seu papel na sociedade)).

3.2.2. N o contexto escolar e social

O menor para se tornar um membro útil da sociedade e poder desenvolver-se inte- lectual, moral e socialmente, tem direito ii

educação.

Segundo a UNESCO

e’),

o direito ao d e senvolvimento cultural engloba o direito ?i

educação e ii identidade cultural.

A discriminação no domínio do

ensino

é essencialmente baseada na raça e cor, sexo, religião, regime social, situação eco-

nómica, opinião política e, muitas vezes, afecta o ensino das minorias (étnicas, cul- turais ou outras). Importa, pois, que os

menores quando (ilemigrados ou refugiados, aprendam a língua, cultura e história do

seu país de origem.

O direito ?educação i é reconhecido como

princípio fundamental

pelos

diversos

textos

constitucionais (“O). Alguns referem, em g e

p) Declaração Universal dos Direitos do Ho- mem (art. 16).

(”) Nations Unies, E/CN4/1324, pág. 33). Esta instituição salienta que os menores devem conhecer os direitos do homem e que os adultos devem conhecer os direitos do menor.

(‘O) Por exemplo: constituição brasileira (168).

chinesa (27), cubana (44 e 48), egípcia (18), ita- liana (34), japonesa (26), jugoslava (165 e 190, 3),

marroquina (13) e da R. F. A. (6 e 7).

-

-no expressamente. Neste último grupo se situa a Constituição portuguesa (art. 36, 3

e 5; e 43).

O direito ii educação deverá ser entendido amplamente, como compreendendo em si a instrução, o ensino e todas as: formas de educação: v. g. os jogos, o desprto, os tem- pos livres, o entretenimento, etc. Também este sentido parece ser acolhido na Consti- tuição portuguesa (arts. 70, 73-79]. O di- reito

a

educação consta também da Decla- ração Universal dos Direitos do Homem. Posteriormente a tal Declaração, algumas convenções traduziram-no em disposições obrigatórias para 05 Estados (41), outros tex- tos contêm disposições com valor declara- tivo (*).

Os menores são os titulares e beneficiá- rios do direito a educação. No entanto, cabe ao Estado assegurar a sua realização e aos

pais escolher a modalidade do seu exercí- cio (“3).

A família tem um papel importante, mas a sua acção é completada pela escola, en- quanto elemento mediador que permite ao Estado cumprir uma parte das suas obriga- ções para com o menor.

(“) Convenção relativa ao estatuto dos refu- giados (22): Convenção relativa ao estatuto dos apátridas (22); Convenção relativa a discriminação no domínio do ensino, da UNESCO, 1962; Con- venção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial (5); Pacto In- ternacional relativo aos direitos civis e políticos

( 1 8); Pacto Internacional relativo aos direitos eco- nómicos, sociais e culturais (13 e 14).

(‘7 Declaração de Genebra de 1954; Declara- ção dos Direitos da Criapça (2, 4, 6, 7, 9 e 10); Convenção Europeia de Salvaguarda dos Direi- tos do Homem, de 20.3.52; Convenção Amen- cana dos Direitos do Homem, de 22.11.69; Re- comendação da Assembleia Consultiva do Con- selho da Europa, de 18.9.49.

(43) Constituição portuguesa (arts. 67, 74 e 75)

(11)

No contexto social, o menor tem direito a protecção contra a não exploração(") e a protecção contra a crueldade, a negligên- cia e outras formas de exploração (infor- mação, consumo, sexualidade, comércio, trá- fico, etc.).

O menor tem também o direito ?saúde, i

como condição essencial para o seu desen- volvimento físico, intelectual e social. O di- reito

a

saúde é princípio admitido pela ge- neralidade das constituições dos países (de todos os regimes políticos e de todas as re- giões do mundo)-M. Dothe, 1978, p. 16. O menor tem necessidade, em razão da sua falta de maturidade física e intelectual, duma protecção especial adequada e de cui- dados especiais, antes e depois do nasci- mento. Este princípio está também na cons- tituição portuguesa que, depois de procla- mar que «todos têm direito A protecção da sua saúde e o dever de a defender e pre- servar)) (64, i), acreiscenta que o direito a protecção da saúde deve ser realizado pela criação de condições económicas, sociais e culturais que garantam a protecção da in- fância, juventude e velhice pela melhoria das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e de$- portiva, escolar e popular e ainda pelo de- senvolvimento da educação sanitária da povo (64, 2).

Deste modo, também aqui os princípios constitucionais do menor aparecem como normas universais fundamentais que, no mesmo plano dos direitos individuais e das liberdades fundamentais afirmadas pelas constituições, fazem parta integrante dos princípios gerais do direito.

("1 A Constituição japonesa (art. 27) afirma que «é proibida a exploração das crianças)). A Constituição suíça (art. 34) proíbe o trabalho das crianças.

3.2.3. N o sistema jurídico

O menor tem direito a um nome(#) e a nacionalidade (") mesmo na situação de nascido de pais desconhecidos, abandonado

ou apátrida (47).

Tem direito a segurança social ou, de forma mais ampla, a protecção social.

O menor tem ainda direito a um trata- mento especial em matéria e a ser ouvido(49) sobre todas as questões rela- cionadas com a sua pessoa e bens, designa- damente casamento, escolha de! profissão, cuidados médicos, educação, tempos livres, etc. No entanto, este direito poderá facil- mente conflituar com o direito dos pais (ou do Estado) no domínio da educação moral ou religiosa?'). Mas, o equilíbrio terá que se encontrar sempre numa relação cujo cen- tro de gravidade é «o interesse superior da criança)).

4. OBRIGACOES DO MENOR

O estatuto, actualmente reconhecido ao menor, confere-lhe um número significativa de direitos; mas tamMm lhe exige, social e juridicamente, o cumprimento de! obriga- ções.

Assim, o menor tem, além de outras, as obrigações de:

(") C . C . português (arts. 72 e 1875). ('6) Cf. Lei n.O 37/81, de 3 de Outubro, que

estabeleceu nova regulamentação quanto a atri- buição, aquisição e perda da nacionalidade.

(") Ter presente a Convenção da ONU, de

30 de Abril de 1961, sobre a redução dos casos de apátridas.

(") Art. 16 da O.T.M., art. 9 do Cod. Penal

português e decreto-lei n.? 402182, de 23 de Se- tembro. Ver ainda Pacto Internacional dos direitos civis e políticos (arts. 6, 10 e 14).

(9

C. C. (arts. 1878, 2; 1901, 2; 1981, ia) e

1984).

(") C. C., art. 1886: pertence aos pais decidir sobre a educação religiosa dos filhos menores de 16 anos.

(12)

-submissão ao poder paternal. O me- nor tem ((o dever de, a todo o momento,

respeitar os seus pais» (”);

-residir com os pais ou onde estes indi- carem

Cz);

-

aceitâr uma escolaridade obrigatória. De facto, a família escolhe o tipo de edu- cação, de acordo com as suas próprias con- vicções, e o Estado «oferece» um sistema educativo, cujo objectivo fundamental é tor- nar o menor um membro útil & socie- dade

e”);

-aceitar a formação religiosa que os pais escolherem;

-contribuir (às vezes, muito cedo) para a subsistência do lar e dos seus pais. Ele tem o dever de «os ajudar, de 05 alimentar

e de os proteger em caso de necessidade)) (54); -ser produtivo, pelo menos a longo prazo, e não ser carga financeira ou exces- siva para a família;

-

nalguns casos, antes da maioridade, cumprir as suas obrigações militares, com

alguns problemas, inclusive a objecção de consciência.

«As responsabilidade dos jovens aparecem como obrigações impostas pela sociedade dos adultos, mais do que uma possibili- dade de serem autores dos actos que Ihes dizem respeito e, finalmente, a toda a so- ciedade: obrigação, pois, de:

- de trabalharem a partir de idades mui- to baixas e em condições duras ou, ao contrário, de serem os primeiros a so- frer o desemprego;

-de respeitarem, enfim, a ordem do mundo feito fora deles e que Ihes apa- rece cada vez mais estranho)) (Bould- ing, E., 1979, pág. 5).

Assim se conclui que do menor protegido ao menor obrigado, vai apenas um passo. Ele tem sido dado pelos adultos! Esta ati- tude e a faIta de contrapartidas para as obri- gações impostas ao menor dificultam ou anulam o efeito favorável que a obrigação, o dever e a responsabilidade poderiam ter para o desenvolvimento das suas capacida- des. Com efeito, reconhece-se, hoje, que o menor tem necessidade de se sentir útil e responsável, designadamente ao nível da fa- mília (carência pedagógica familiar), e de beneficiar do direito de ter os seus deveres.

Existe, neste sentido, um movimento de ideias que tenta afastar-se das noções, em- bora protectoras, mas muitas vezes inadap tadas, de incapacidade e de irresponsabili- dade do menor.

Com efeito, existem certas resoluções

e’)

da Assembleia Geral das Nações Unidas, que

referem particularmente a necessidade de reconhecer responsabilidades aos jovens e adolescentes.

O ideal será, pois, estabelecer o equilíbrio entre as obrigações e as responsabilidades.

-se sujeitarem a autoridade da família Para isso, terá que se começar por dar par-

ticipação aos menores nessa tarefa, estabe- a informação de retorno (feedback) e actuar conjuntamente com eles. É necessário re- conciliar a noção de menor com a de adulto.

ou do Estado;

adultos, ou mesmo de não receberem qualquer ensino se pertencerem a gru-

pos desfavorecidos;

-de receberem 0 ensino elaborado Pelos lecer a comunicação com eles, dar atenção

VI) Declaração Americana (XXX) e C. C. por-

tuguês (art. 128; 1877; 1878, 2 e 1879) e O.T.M.

[art. 13 a) e 15 c)].

(52) C. C . português (art. 1887).

(9

C . C. português (art. 1885, 2 e 1907) e Constituição portuguesa [arts. 36, 5; 67, 2 c); 73,

2; 74, 3 e 751.

(”) Declaração Americana (XXX) e

c.

c.

português (arts. 1879 e 2009, 1).

Em conclusão, o doseamento (e a inter- venção em que se traduz(irá)) entre o seu

estado de desenvolvimento, a sua situação, a sua capacidade de responsabilidade e o

seu objectivo, pelo menos, de se tornar

(”) Resoluções 2037 (XX), 2633 (XXV), 2859 (XXVI), 3022 (XXVII), 3140 (XXVIII) e 3141

(13)

adulto, constituirá, a nosso ver, o interesse do menor. Aquele doseamento e interven-

ção, para constituírem ((interesse do menor)) e, independentemente do tipo de medida a adoptar, deverão ser sempre encarados na perspectiva sistémica, isto1 é, ter em conta que o menor é um sistema. Ele e a situação em que se encontra é um conjunto dinâ- mico em interacção que se pretende o r d a nada. Finalmente, é o mesmo que dizer que a perspectiva de abordagem deve ser inter- disciplinar, pelo menos, ao nível da análise que precede a decisão.

5 . OBRIGACÕES DO ESTADO O Estado tem assumido cada vez mais obrigações relativamente ao,s cidadãos em geral. O mesmo acontece em relação aos menores. Vejamos algumas delas, seguindo o esquema utilizado para os direitos do menor.

5.1. N o contexto familiar

As obrigações assumidas (ou a assumir)

neste aspecto têm a ver essencialmente com a política nos domínios da família, divórcio

e suas consequências, adopção, alimentos, aborto e outras matérias.

difícil indicar, de forma precisa, as obrigações do Estado. Quando estão consa- gradas, elas assumem carácter programático e nem sempre são previstos mecanismos que exijam o seu cumprimento. Seja como for, grands parte dos direitos do menor anda ligada a realização dos direitos económicos do homem, de que o menor também é bene- ficiário. Ou seja, os direitos do menor têm muito (ou tudo) a ver com os direitos dos adultos que os têm a seu cuidado. Na prá-

Daí que só terá sentido falar em obri- gações do Estado se este dispuser de legis- lação e estrutura adequadas i?t realização do direito essencial do menor a desenvolver-se no seu meio familiar. Neste domínio, releva, como atrás dissemos, a obrigação do Estado de assegurar as condições materiais e morais mínimas de sobrevivência da família não impedindo ao menor, com a sua acção ou omissão, a livre escolha dos valores.

5.2. N o contexto escolar e social Muitos Estados estabeleceram o carác- ter gratuito e obrigatório do ensino. Tam- bém esta obrigação do Estado está ligada realização dos direitos económicos do ci- dadão. Há ainda muitos países que, por di- ficuldades económicas, não conseguiram ainda estabelecer a gratuitidade e obrigato- riedade do ensino.

Os países de imigração, em cooperação com 05 de emigração, têm especial obriga-

ção de preservar a identidade cultural dos menores, incluindo no seu sistema educativo o ensino da história, cultura e língua dos países de que são nacionais. O mesmo se poderá dizer, em situação de conflito ar- mado, para os países ocupantes ou que re- cebem refugiados.

!É obrigação prioritária do Estado criar e

pôr

em

acção os mecanismos legais e estru- turais que permitam o exercício dos direitos do menor.

Seria útil, neste domínio, um sistema de controlo e verificação do cumprimento das obrigações pelo Estado, apoiado num es- quema supletivo para os casos de impossi- bilidade de cumprimento. Tal sistema e mecanismols poderiam ser considerados e

funcionar no âmbito da futura Convenção. tica, a falta de protecção a família redunda

em desprotecção dos menores. Estes serão tão desprotegidos quanto os pais não te- nham salário suficiente ou não disponham de habitaçáo condigna.

5.3.

NO

sistema jurídico

O Estado, além de reconhecer na sua le- gislação os direitos da criança

e

os direitos

(14)

do homem, tem a especial obrigação de reh- ponder a necessidade de especial protecção de que os menores carecem. Deverá, assim, adaptar todo o seu sistema jurídico a o o b jectivo de proporcionar efectivo1 exercício dos direitos e obrigações do menor.

6. O MENOR: REALIDADE DINÂMICA A compreensão dos fenómenos psi-

cológicos da adolescência abrange dois aspectos:

- a trajectória evolutiva da pessoa, da gestação a terceira idade: a perspectiva do desenvolvimento; - a interacção permanente indivíduo-

-meio, isto é, os grupos em que o jovem está integrado (família, es- cola, grupos desportivos, recreati- vos, culturais, etc.): a perspectiva psico-social. (Dias Cordeiro, 1981.)

O menor é um sistema, enquanto sujeito de elementos em interacção ordenada. Não

é um autómato; ele 6 um agente com von- tade própria. Sendo ele uma realidade dinâ-

mica, a sua abordagem tem que ser também dinâmica e operacional. Assim, mais do que saber o que é, interessa saber como se torna, ou seja, o seu desenvolvimento, a sua história pessoal.

O intervalo entre o conjunto fabuloso de células que é e única célula que foi consti- tui a sua história. G a análise desta história que permite saber, a todo o momento, como

se tomou, através do processo de desenvol- vimento.

O desenvolvimento humano é uma mis-

tura de maturação e de mutação, de evolu- ção e de revolução, de ampliação e de rup- tura. Longe de serem contraditórias ou sim- plesmente coexistentes, mutação e matura- ção postulam-se uma a outra. O desenvolvi- mento não se faz de forma linsar, ou seja, não é apenas um processo de maturação. Pelo contrário, o desenvolvimento organi- za-se em redomr de algumas grandes viragens, de alguns períodos de mutação, que repõem

em equação todas as mutações anteriores, transpondo-as para outro nível. O desenvol- vimento é, assim, alternativamente sereno e brutal. Na sua base, o menor molda a sua personalidade futura de adulto.

No decurso do desenvolvimento, que, dia após dia, fará do recém-nascido uni adulto, encontram-se etapas em que a personalidade se apresenta serena, equilibrada 8 perfeita-

mente adaptada as necessidades da idade e as perspectivas que ela propõe.

No entanto, estes estados (de equilíbrio e de serenidade) são apenas provisórios: não duram muito tempo, sobretudo na infância. Chegará o momento em que a própria per- feição do equilíbrio não pode satisfazer. Esta perfeição projecta-se para além do tal equilíbrio, não esperando atingir a fase se- guinte por simples maturação.

A crise é, então, por paradoxal que pa- reça, prova de que o equilíbrio anterior era perfeito. O equilíbrio rompese sobre a pró- pria pressão do desenvolvimento, com vista

a

criação de um estado de equilíbrio supe- rior.

A perspectiva que mais nos interessa con-

siderar é a psico-social, a do desenvolvimento social: abordar o menor em socialização, isto é, em relação com o grupo familiar e com a comunidade. Dizer «em socialização)) significa que o menor, enquanto sistema, se desenvolve em interacção permanente com o meio físico (eco-sistema), familiar ou so-

cial (sbcio-sistema). Em interacção, ele re-

cebe

e

emite informação,

comunica.

Note-se que comunicar e comunidade têm a mesma raiz etimológica e real. Daí que será útil, para o esclarecimento da noção de intsrme do menor, considerar um con- junto de ideias (comunicação e socialização) centradas na noção de sistema.

Com efeito, uma teoria, construída para outros fins explicativos, torna-se ctmodelo)) de esclarecimento quando, através da apli- cação dos seus conceitos a outra noção, pode

(15)

sua análise de forma mais desenvolvida e explicá-la de maneira coerente e razoável. Analisemos, agora e brevemente, o pro- cesso de comunicação.

A transmissão duma mensagem implica

sempre um emissor e um receptor ligados por um canal que é o suporte material da comunicação (transmissão da mensagem). O circuito de feedback (modelo base de to- dos os mecanismos de controle) 6 extrma- mente importante.

Em qualquer processo do sequência,

conhecendo o resultado das acções anterio- res se padem aperfeiçoar as acçóes ulterio- res.

Partindo do esquema proposto, podemos afirmar que:

-todo o sistema de comunicação implica a transferência duma mensagem; -a comunicação supõe uma comunhão

de reportórios ou de cbdigm;

-a aprendizagem é o processo que, no receptor, tende a permitir a assimilação do reportório do emissor;

-

na comunicação há sempre ruídos, per- turbações aleatórias que interferem na transmissão das mensagens.

Todo o processa de integrqão social do indivíduo é, no fim de contos, um processo de comunicação. A comunidade «educa» transmitindo mensagens, valores, objectivos, propostas, etc. O indivíduo recebe-as e, como indivíduo, interpreta-as sua maneira. Esta forma de receber condiciona as ulteriores intervenções. E o processo continua infini- tamente.

7. SISTEMA E CONCEITOS AFINS Sendo o indivíduo um permanente recep- tor de informação, não será possível abordar o seu desenvolvimento isolando os factores sociais ou negligenciando as interferências permanentes entre os factores cognitivos,

afectivos e operativos que englobam a sua actividade.

Com efeito, o comportamento (ou a ati- tude) integra três dimensões fundamentais: cognitiva, afectiva e operativa, em que são relevantes, respectivamente, a informação, a opinião e as sugestões (Pina-Prata, F.,

1976).

O equilíbrio entre estas dimensões é o resultado não só da tensão própria e interna de cada dimensão, mas, sobretudo, do tipo de tensão existente entre as referidas três dimensões. A estrutura tri-dimensional é di- nâmica, na medida em que nenhuma das dimensões se fecha em si mesma, muito embora tenham configurações estruturais es- pecíficas: conhecimentos, ideias e informa- ções; impressões, sentimentos e opiniões; de- cisões, propostas e sugestões.

As informações comportam todos os ele- mentos cognitivos comunicados ao sujeito como dados e cuja objectividade é, pelo me- nos, aceite pelo sujeito. As opiniões com- portam todos os elementos avaliativos, cuja comunicação revela a implicação que neles tem o sujeito. As sugestões comportam to- dos os elementos do processo de comunica- ção que traduzem m modos como o sujeito se propoe actuar, propõe actuar aos outros ou actua de facto.

O comportamento desviante do menor pode explicar-se, assim, por uma fractura na ligação das três dimensões ou por uma di- minuição de tensão entre das, ou seja, por

um

desequilíbrio entre as três dimensões- -base do comportamento.

O jovem pode não se dar conta (((dar-se conta)) 6 um fenómeno que caracteriza a vida de uma pessoa) de que oi seu sistema

de relação está cortado na dimensão do seu conhecimento da realidade, na inter-comu- nicação entre a dimensão afectiva ou ope- ra t iva.

Em conclusão, podemos dizer que o indi- víduo normal, logo que é confrontado com a informação do meio social, percebe a rea- lidade ou o fenómem social (cognitivo-

(16)

-informação), implica-se (afectivo-opinião) e desenvolve acções (operativo-sugestão). rj: um sistema em interacção com outro sis- tema.

O que é, então, um sistema?

Sistema pode definir-se (Bertalanffy - 1982) como um conjunto de elementos em

interacção ordenada. A teoria geral dos sis-

temas, que visa identificar as propriedades, os princípios e as leis características dos sis- temas em geral, aplica-se a qualquer todo constituído de componentes em interacção. Para o tema em análise, a teoria geral dos sistemas pode fornecer uma estrutura con- ceptual geral.

Com efeito, os fenómenos da vida apenas se encontram em entidades individualiza- das

-

os

organismos. «Todo o organismo é um sistema, isto é, uma ordem dinâmica de peças e de processos que subsistem em inte- racçãol mútua)) (Bertalanffy

-

1960). Por analogia, 05 fenómenos psicol6gicm reve-

lam*

em entidades individualizadas que,

no ser humano, se chamam personalidade.

«Toda a personalidade tem as propriedades dum sistema» (Allport

-

1961).

Como

se

disse, o esquema de feedback é um elemento essencial no processo de comu- nicação. Assim, quando um sistema res- ponde a uma perturbação exterior, uma parte do «output» (saída da informação ou acção) volta ao «input» (informação ou es- timulação) de modo a controlar a função do sistema, quer para conservar um estado desejado, quer para orientar o sistema para um objectivo.

salientámos que, quando estudamos o desenvolvimento social do indivíduo (na fa- mília ou na comunidade), devemos ter em conta as interferências permanentes entre os

factores cognitivos e afectivos.

De facto, é ao nível das relações entre pessoas, que estas duas ordens de factores se conjugam de forma tão íntima que, por ve- zes, se torna artificial avaliar a sua respec- tiva influência. Em geral, pode admitir-se que em cada estadio de desenvolvimento, os

factores cognitivos imprimem certa estru- tura as relações com o meio.

No que toca ao desenvolvimento, as pri- meiras relações da criança com os pais (ou substitutos) assumem grande importância; relações, no plano da consciência, com os pais reais e relações, no plano inconsciente, com as «imagos» parentais, isto é, as ima- gens dos pais que, pouco a pouco, são inte- riorizadas pela criança.

São estas primeiras relações que confe- rem, mais tarde, as atitudes sociais, uma tonalidade emotiva e que, em grande parte, determinam a conduta da criança, do jovem e do adulto, nas suas relações com os outros e com a comunidade. É necessário não es- quecer que o ser humano está inserido, desde o nascimento, num meio social, na comuni- dade e no grupo social representado pela sua família; ele não nasce «social», mas tor- na-se pouco a pouco. Poderemos dizer, com Pieron, que ele é um candidata 6 humani- dade. Enquanto candidato, ele tem poten- cialidades hereditárias. Ele adquire a seu es- tatuto de humano adulto na! medida em que é formado1 e informada pela humanidade vividai ncE comunidade. E porquê?

Precisamente porque ele é um sistema aberto que, portador de um conjunto orga- nizado de sinais verbais e não verbais, emite e recebe informação (cognitivo), toma v i - ção perante ela (afectivo) e desenvolve com- portamentos e acções (operativo).

Em concIusão, o indivíduo (enquanto sis- tema

-

psico-sistema) está em interacçãa com m outros sistemas, o eco-sistema

e

o

sócio-sist m a .

O comportamento, a atitude ou a acção do menor, criança ou adolescente, depende do aspecto particular da situação que incide sobre o organismo ou que é sdeccionado por ele; depende, também, da estrutura da indivíduo, naquele momento, a qual decorre de interacções complexas entre, por um lado, as características e esquemas de acção her-

dados (factor hereditário) e, por outro lado, da história individual das aprendizagens (es-

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