• Nenhum resultado encontrado

[ARTIGO] [COMPORTAMENTO] Samuel Lins* COMPREI

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "[ARTIGO] [COMPORTAMENTO] Samuel Lins* COMPREI"

Copied!
6
0
0

Texto

(1)

COMPRO OU NAO COMPRO?

COMPREI

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

43

(2)

Do impulso à compulsão

V

IVEMOS EM UMA SOCIEDADE MATERIALISTA E CON-SUMISTA, NA QUAL O ACÚMULO DE BENS MATERIAIS E O CONSUMO OCUPAM UM LUGAR CENTRAL NA VIDA DAS PESSOAS, AFINAL, SEMPRE SE ENCONTRA UM BOM MOTIVO PARA COMPRAR ALGUMA COISA: aniversário do pai, da mãe, do filho, de casamento, dia das crianças, Natal, amigo secreto, o primeiro dia de trabalho, e por isso é importante comprar uma roupa nova para causar uma boa impressão ou, simplesmente, o fim de semana chegou e nada melhor do que fazer compras depois de uma semana cansativa e sobrecarregada de trabalho.

Por causa disso, somos bombardeados diariamente com campanhas publicitárias que procuram vender produ-tos fazendo promessas que muitas vezes não podem cumprir, oferecendo aos seus consumidores alegria, felicidade e sa-tisfação dos seus desejos através da posse dos seus produtos, sendo que, para possuí-los, as pessoas precisam comprá-los. Entretanto, esta busca pela autossatisfação através das pos-ses e pelo desejo de comprar cada vez mais itens pode levar os indivíduos a desenvolverem comportamentos prejudiciais ao seu bem-estar, como a compra por compulsão.

A compra por compulsão (oniomania, mania de com-prar) ou o transtorno de compras compulsivas ocorre quando a pessoa sente uma irresistível vontade de comprar, e este desejo gera uma tensão que é aliviada somente quando a pes-soa efetua a compra, acompanhado de uma sensação inicial de satisfação e prazer, seguida de culpa e remorso (Faber & O’Guinn, 1989). A compra compulsiva é um comportamen-to crônico e cíclico, ou seja, caracterizado pela repetição constante.

Entretanto, é importante diferenciar o comportamento de compra compulsiva da compra impulsiva. A compra impulsiva ocorre quando, ao se aproximar de um produto, o consumidor des-perta um repentino desejo de comprar, para obter uma gratificação imediata (Rook & Fisher, 1995). A compra por impulso não é patoló-gica, e qualquer pessoa pode comprar por impulso. Por exemplo, é comum nas filas dos caixas dos supermercados haver o que chama-mos de “corredor polonês”, uma fila repleta de prateleiras, cheias de itens que muitas vezes são comprados por impulso, sem nenhum planejamento prévio.

Já o comprador compulsivo compra produtos que talvez nun-ca utilize, ou compra mais do que realmente precisa, muitas vezes não tem como pagar o que comprou, e não está muito interessado no

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

(3)

que está comprando: o que lhe dá prazer não é o produto em si, mas o ato de comprar (Dittmar, 2005). Assim, a excitação vivenciada ao realizar a compra é tão satisfatória que impossibilita ponderar as consequências.

Apesar do impulso ser uma das caracte-rísticas do comportamento compulsivo, o sim-ples fato de agir por impulso não caracteriza uma compulsão. A princípio, sentir impulso para comprar não é prejudicial, pode ser con-siderado normal. O problema se dá quando este impulso vivenciado cresce e se desenvolve tan-to, tornando-se incontrolável, caracterizando a compulsão (Rook, 1987).

A melhor maneira de distinguir a com-pra compulsiva da impulsiva são as motivações e as consequências do comportamento, como também a intensidade da frequência com que ele acontece (Faber & O’Guinn,2008). De uma forma geral, a compra compulsiva ocorre pelo prazer de comprar em si, o foco é o comporta-mento de compra. Já a compra por impulso é de-sencadeada pelo desejo de possuir um produto, isto é, o foco é o objeto.

Outro aspecto que merece ser destacado é que o simples fato de uma pessoa gostar de fazer compras, ter o hábito de comprar muito, ou em um fato esporádico gastar mais do que poderia também não se configura como com-pra por compulsão. Um indivíduo pode ter a atividade de comprar como um hobbie ou la-zer, bem como pode dispor de muitos recursos financeiros e, consequentemente, fazer muitas compras, ou, por descuido, comprar um produ-to e não conseguir pagar por ele. Entretanprodu-to, a combinação de satisfazer-se em um ambien-te de compras, realizar compras em excesso, não conseguir pagá-las e sentir desejos súbitos de fazer compras são fortes indicadores de um comportamento compulsivo.

Agora, vou pedir a você que responda ra-pidamente e da forma mais sincera possível a es-tas pergunes-tas: há sacolas de compras fechadas em seu armário? As outras pessoas consideram que você compra em excesso? Boa parte da sua vida se baseia em comprar? Você se considera um comprador impulsivo, ou seja, alguém que não pensa nas consequências? Você costuma comprar coisas que não precisa ou coisas que não planejou comprar? Se você concorda com a maioria destas perguntas, é bom parar para pensar e refletir sobre seus hábitos de compra. É bem possível que você seja ou esteja se tor-nando um comprador compulsivo.

Estas perguntas foram retiradas da

Ri-chmond Compulsive Buying Scale (RCBS),

ela-borada por Ridgway, Kukar-Kinney e Monroe (2008) e traduzida e adaptada recentemente para o contexto brasileiro por Leite e colabo-radores (2013). A RCBS fornece algumas per-guntas que ajudam a pessoa a pensar sobre seu comportamento de compra, fazendo-a refletir sobre a possibilidade de ser um shopaholic, ou seja, um comprador compulsivo. Obviamente, responder sim para todas estas perguntas não o caracteriza imediatamente como comprador compulsivo. É importante destacar que todo e qualquer diagnóstico deve ser feito com um pro-fissional especializado (psicólogo e psiquiatra). Mas o que leva uma pessoa a se tornar um comprador compulsivo? Diversos fatores podem estar relacionados, como aspectos socio-demográficos, emocionais, sociais e biológicos.

As mulheres tendem a ser mais

pro-pensas a comprarem compulsivamente. Entre-tanto, não podemos interpretar esta evidência como se fosse algo inato ao público feminino. A explicação para esta relação pode estar em fato-res socioculturais, uma vez que as mulhefato-res são

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

(4)

Estudos comprovam que a compra compulsiva está diretamente relacionada às emoções. As emoções negativas tornam-se um gatilho para compra por compulsão.

mais socializadas no consumo, e mais estimula-das desde pequenas a possuírem e a utilizarem mais acessórios. Não precisamos ir muito longe para fazer esta constatação: em qualquer

sho-pping center, vamos encontrar um número

ex-pressivamente maior de lojas destinadas ao pú-blico feminino. Do mesmo modo, pessoas mais jovens também tendem a ser mais compulsivas, principalmente por estarem aprendendo a lidar com as suas próprias finanças. Muitas vezes, adolescentes e jovens não tem noção do quanto gastam e do que é preciso ser feito para pagar suas próprias contas.

Para além disso, o acesso fácil ao crédito, a compra parcelada e o uso do cartão de crédito também são formas de contribuir para o desen-volvimento da compra compulsiva, pois estes hábitos e formas de pagamentos muitas vezes ludibriam o consumidor, não o fazendo ter cons-ciência de quanto dinheiro realmente possui e do quanto efetivamente pode gastar. Neste sen-tido, os jovens mais propensos à compulsivida-de nas compras utilizam o cartão compulsivida-de crédito compulsivida-de forma mais intensa (Veludo-de-Oliveira, Ikeda, & Santos, 2004), portanto, juventude e cartão de crédito podem ser elementos constitutivos de uma bomba relógio rumo à compra compulsi-va. Assim, ressaltamos a importância da família na educação financeira. Os pais e responsáveis

precisam educar os seus filhos ainda quando crianças a lidarem melhor com o dinheiro para que, quando adultos, sejam mais prudentes em relação aos seus gastos.

Por outro lado, o ambiente familiar tam-bém pode ser considerado um “fator de risco”, uma vez que a compra compulsiva é mais co-mumente observada em famílias que já evi-denciam este tipo este tipo de transtorno (Va-lence, D’astous, & Fortier, 1988), e em famílias com uma estrutura familiar problemática, que passaram por questões emocionalmente preju-diciais, como o divórcio dos pais, por exemplo (Rindfleisch, Burroughs, & Denton, 1997).

Estou triste? Logo compro! Um aspec-to crucial para o desenvolvimenaspec-to da compra compulsiva diz respeito às emoções do consu-midor. Estudos mostram que pessoas com baixa autoestima, com tendência à depressão ou que estão simplesmente tristes tendem a ser mais compulsivas na compra. As emoções negativas podem ser consideradas como um gatilho para o comportamento de compra por compulsão.

O curioso é que estas emoções negativas são ao mesmo tempo causa e consequência des-te comportamento, funcionando de forma com-pensatória. A pessoa sente-se triste e deprimi-da, e enxerga a atividade de compra como uma forma de aliviar esta tristeza, mas, ao passar o

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

(5)

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

47

frenesi, ela volta a vivenciar emoções negativas, como frustração e tristeza, dando continuidade ao ciclo. Assim, existem dois lados da compra: se por um lado existe o desejo e o prazer de comprar, como forma de aliviar a tensão inter-na, por outro lado, nem sempre este sentimento de autossatisfação se mantém, havendo culpa e ressentimento após a compra.

Para além disso, a compra por compul-são é um comportamento obsessivo-compulsivo que pode estar relacionado a outros transtornos como a cleptomania (mania de roubar objetos), o alcoolismo, transtornos alimentares (bulimia), e associado a problemas psiquiátricos como an-siedade, depressão e transtorno bipolar.

Ainda podemos mencionar outros fatores que estimulam este tipo de comportamento: a pressão exercida pelos pares, principalmente sobre pessoas mais vulneráveis que buscam reconhecimento através dos bens que possuem; os aspectos culturais, como os valores, particu-larmente os valores individualistas típicos da sociedade ocidental. E, por fim, questões bioló-gicas que consideram a existência de um com-ponente genético. Um estudo realizado pelos pesquisadores Hirschman e Stern (2001) cons-tatou que o gene D2DR está mais presente em compradores compulsivos.

Além das emoções negativas mencionadas antes, outras consequências do comportamento compulsivo de compras são o endividamento e

os prejuízos sociais. Segundo uma pesquisa re-cente realizada pelo Banco Central (2014), um dos principais motivos do endividamento das fa-mílias brasileiras é atribuído à falta de domínio dos gastos e às compras realizadas de maneira impulsiva e descontrolada. Diante da vergonha do endividamento, é comum que os compulsivos escondam a fatura bancária dos familiares, min-tam sobre seus gastos, e escondam o que com-praram, prejudicando o convívio social.

É muito difícil uma pessoa assumir-se como uma compradora compulsiva, principal-mente em uma sociedade como a nossa em que o ato de comprar é aceitável e desejável, dife-rentemente de outros tipos de vícios. As justi-ficativas podem ser muitas, até porque muitos dos compradores compulsivos podem ter condi-ções de pagar suas próprias compras e podem “sustentar o seu vício”, afinal, “se eu posso pa-gar, porque não comprar?”, utilizando este ar-gumento como forma de defesa, justificando o seu comportamento.

De justificativa em justificativa, a maio-ria dos shopaholics procuram ajuda apenas quando as dívidas extrapolaram o limite máxi-mo, quando os problemas nos relacionamentos surgem em decorrência dos exageros nos gas-tos, quando as questões legais e judiciais batem à porta, ou quando a situação está tão incontro-lável ao ponto de provocar quadros depressivos. Apesar de ter sido recentemente incluída

(6)

O tratamento deve ser imediato quando o diagnóstico é confirmado. A pessoa deve se manter afastada de ambientes consumistas, diminuir o uso de cartões de crédito e reduzir o acesso a recursos financeiros.

[

[

ARTIGO

COMPORTAMENTO

]

]

48

como doença no DSM (Diagnostic and

Statisti-cal Manual of Mental Disorders), a

compulsivi-dade nas compras é um vício que precisa ser en-frentado e tratado como qualquer outro tipo de vício (drogas, comida, sexo, álcool etc.). O DSM é um manual elaborado pela Associação Ame-ricana de Psiquiatria, utilizado em todo mundo por profissionais da área de saúde mental, que classifica as doenças mentais e define os crité-rios usados para diagnosticá-las.

Diante de um diagnóstico confirmado, existem várias formas de tratamento. Primeira-mente é abordada a questão comportamental: se as compras são prejudiciais para a pessoa, o melhor a se fazer é afastá-la do ambiente con-sumista, diminuindo a frequência de ida aos

shopping centers, cancelando e evitando o uso

de cartões de crédito, e reduzindo o acesso aos recursos financeiros. A pessoa vai passar por um processo de transição e de aprendizado para lidar com o dinheiro e com as compras, da mesma forma como se faz com os transtornos alimentares ou a dependência química.

Há também os grupos de autoajuda que fornecem suporte social, como os Devedores Anônimos (DA), formado por pessoas que com-pram e gastam compulsivamente, que funciona semelhantemente aos Alcoólicos Anônimos. Para quem mora em São Paulo, o Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Insti-tuto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas ofe-rece tratamento gratuito (http://amiti.com.br/ compras-compulsivas). Por fim, em apenas al-gumas situações, o tratamento medicamentoso com antidepressivos é realizado.

“Ia passando por uma dessas lojas, quan-do pensei... por que comprá-lo, por que não comprá-lo? Comprei-o! ”. Este famoso jargão do memorável personagem Armando Volta, da escolinha do professor Raimundo, é motivo de brincadeira para uns, mas para outros é coisa séria. A compulsão nas compras não se desen-volve de repente, do dia para a noite. Quando um comprador compulsivo se reconhece como tal, e reflete sobre os motivos que contribuíram para chegar neste quadro, costuma identificar vários fatores que contribuíram para o desen-volvimento e que, talvez, poderiam ter sido evitados, sem precisar ter chegado a tal ponto. Diante de tudo isso, convém pensar e refletir sobre nosso próprio comportamento de compra, antes que prejudique a nós mesmos e as pessoas que nos cercam.

* Samuel Lins é professor do departamento de Psi-cologia da PUC-Rio, Doutor em PsiPsi-cologia (Universidade do Porto Portugal), Mestre em Psicologia Social (Universi-dade Federal da Paraíba - UFPB), Licenciado e Formado em Psicologia na área Clínica/Psicanálise (UFPB) e Ba-charel em Administração (UFPB). Atualmente é um dos responsáveis pela pesquisa “Família: Emoções, valores e consumo”, realizada em todo território nacional, que tem o objetivo de analisar a relação entre o ambiente familiar e o comportamento de compra. Para participar é preciso ter mais de 18 anos e responder o questionário disponi-bilizado no endereço eletrônico: https://pt.surveymonkey. com/s/pesquisafamilia. E-mail para contato: [email protected]

Referências

Documentos relacionados

é bastante restrita, visto que tanto suas duas entradas, quanto as galerias e condutos que interligam os pequenos salões são bastante estreitos, e a umidade na maioria dos salões

Em alguns casos, esses títulos foram usados ilegalmente em localidades diferentes da original (os chamados títulos voadores). Fonte: Agência CNM de Notícias. CNM participa

Campo opcional (numérico): caso o conteúdo do campo não seja fornecido, este não será preenchido com zeros até completar seu tamanho máximo.  Todos os campos

O coronel William Mendel, do Exército dos Estados Unidos, na edição portuguesa da Military Review, apresenta como exemplo desse tipo de lugares Ciudad del Leste,

Não enunciar em primeiro lugar os princípios mais primitivos, inverter a ordem natural entre pre- missas e conclusões, omitir premissas, deixar implícitas mediações importantes

Na América, durante séculos, conviveram (e ainda convivem) inúmeros povos com realidades históricas bem distintas: povos nômades de cultura primitiva, como

Uma vantagem da microscopia de fluorescência é que podem ser aplicados a células vivas para se determinar a concentração intracelular de íons de Ca+ e H+ podendo ser utilizado

Nós concluímos, a partir desse estudo, que os acidentes associados à crise epiléptica são comuns na infância e pacientes com epilepsias provavelmente-sintomática ou