Com a palavra, as gêmeas
A quem dedicamos este livro?
A todas as pessoas que acreditaram em nós e continuaram a nos apoiar contra tudo e contra todos.
A todos os clientes que se mantiveram fiéis ao longo dos anos. Muitos se tornaram ótimos amigos e nos deram amparo em momentos de necessidade. Bastava chamá-los para que viessem nos ajudar.
Na medida do possível, nos divertimos com os homens que nos cercavam, com sorrisos e muito humor.
Superamos a vergonha.
Agradecemos sobretudo a nosso pai e nossa mãe que, infe-lizmente, não se encontram mais entre nós. Eles nos apoiaram apesar de todas as dificuldades e sempre nos ajudaram com as crianças e os netos. Bastava uma palavra para que estivessem presentes.
Agradecemos também a todos aqueles que jamais nos julgaram.
Martine e Louise Fokkens, IJmuiden, 2011
o
touro peloS chiFreSLouise, 1962
WillemFizeraasmalasoutravez. Isso sempre acontecia quando
as árvores se cobriam de folhas e quando as folhas caíam. Nos casamos jovens, aos dezessete, depois de um relacio-namento de três anos. Eu estava grávida. Na época, os menores precisavam pedir permissão da rainha para se casar. Foi preciso ir formalmente à delegacia de polícia da Overtoom para que anali-sassem se era de comum acordo. Aos dezenove anos, já tínhamos três filhos, mas o cara de pau simplesmente me abandonou. Tive então que pegar o touro pelos chifres.
Eu trabalhava por uma migalha em um ateliê de abajures e estava por aqui com aquela situação. A gente se matava ralando, ficava com os dedos todos picados e precisava, além de tudo, sustentar a casa. Procurei então um novo emprego, mas, depois de um curto período em um bar de striptease, na Rembrandtplein, deixei o negócio porque tinha sido contratada para ficar sentada em um banco e de modo algum para manter o lugar.
No primeiro dia, após ter me apresentado, perguntei: – Posso começar?
– Claro! – respondeu a patroa. – Vá beber um copinho com aquele homem e sente no banco.
– Ei, que papo é esse? Tá fora de cogitação!
Eu estava tão atordoada que permaneci sentada. Era como se estivesse pregada no banco.
se eu estava a fim de uma bimbada. Eu não estava entendendo bulhufas.
Ao final da segunda garrafa de champanhe, o cliente foi embora, me dizendo:
– Hora marcada depois do trabalho pra bimbada, hein?! Pensei: “Pode tirar o cavalinho da chuva”. Eu precisava voltar para casa e cuidar dos meus filhotes. A babá não podia me esperar mais!
No momento de ir embora, vi o sujeito lá fora.
– Ei – gritei para a patroa. – Tem um cara me esperando na calçada da frente!
Ela respondeu:
– E daí? Dá pra ele e pronto, acabou. – Mas eu nunca traí meu marido.
– Não vai trair. Esse cara vai ter que pagar.
– Tá doida? Se conhece tanto ele, pode pegar pra senhora. Quando saí do bar, o homem continuava ali. Me enfiei em uma ruazinha lateral e saltei para o bonde da linha 25. Na época, ainda conseguia correr depressa em cima dos meus sapatos de salto alto.
O motorneiro me perguntou:
– Ué, tá ofegante assim por que, menina? Tão perseguindo você?
– Sim! – respondi, antes de ver o indivíduo se aproximar. – Feche a porta e ande, depressa.
O motorneiro se decidiu.
– Pronto, menina, ele não pode entrar mais.
Eu estava salva. Mas não conseguia entender por que o su-jeito corria atrás de mim daquela forma. Eu não tinha prometido nada. Com certeza estava caidinho por mim.
o
Senhor elegAnteMartine, 2011
– olá, Gracinhada luz vermelha.
– Olá, senhor.
Ele está impecável com seu terno. Gravata. Sapatos de verniz. Como este senhor é elegante e démodé.
– Gostaria de passar um tempo com você. Pode me bater na cara com aquelas botas que estão penduradas na vitrine?
– Claro que sim, senhor. Se tiver bastante dinheiro. Duzen-tos e cinquenta euros, pra começo de conversa.
Ele paga sem hesitar. – Se for bom, pago mais.
– Vá pro meu quarto. Ali, à direita. Não, aí são os banheiros. Mas se quiser, também dá.
– Não, quero no quarto. Estou muito tenso e gostaria que começasse logo, pois tenho pressa. Vim de Schagen. Na verdade pra fazer compras para a minha esposa. Ela caiu e agora está en-gessada. Pensei comigo: vou dar uma volta em Amsterdã, porque sou um legítimo habitante daqui. De repente senti uma melanco-lia. Sempre penso que vou reencontrar certo ar do passado, mas não reconheço mais nada. Faz tanto tempo. Sinto necessidade de voltar de vez em quando. E aqui estou com a senhora. Comecei a fazer isso aos dezoito anos.
– Vamos passar pra ação, meu caro. Vamos começar. – Vou pagar um pouquinho mais. Já tomei bastante seu tempo e, ao menos, você me escuta.
parede, até achar a posição certa. Coloco a bota direita sobre o rosto dele e começo a bater. Na bochecha. Debaixo do queixo.
– Mais forte, senhora, mais forte.
Bato com mais força. Com tanta força que me dá medo. Incrível.
Ele começa a berrar:
– Vai, senhora. Mais forte ainda, tô pedindo. Está me ou-vindo, não?
– Sim, estou. Tá bom, vou dar uns pra valer. E desfiro alguns pontapés violentos de verdade.
– Oooooh! – urra ele de dor. – Como é gostoso, minha senhora. Obrigado.
– Agora já chega, senhor.
– Sim, já chega. Achei maravilhoso isso que a senhora fez. Ah, acabei de lembrar que ainda preciso fazer as compras pra mi-nha mulher. Ela continua de pernas pro ar – fala ele, começando a gargalhar alto. – É uma boa piada, hein?
– Dê muito carinho pra ela quando o senhor voltar pra casa. – Pode deixar. Pois então, minha senhora, estou saciado. Isso vai me ajudar a aguentar por algum tempo. Desta vez vou voltar de verdade a Schagen.
E ele então sai assobiando. Me dá tchau com a mão e vira a esquina, rindo.
c
ongoS
tArLouise, 1962
alGumtemPodePois, viumanúncio com uma vaga para
garço-nete. Na Nieuwendijk. O bar se chamava Congo Star e muitos marinheiros se encontravam lá. Alguns bebiam como esponjas. Aprendi a tirar chope. No começo, derramava espuma por todo lado. O patrão ficava furioso e descontava uma parte do meu salário. Ah, não, de novo! Tudo tem um começo.
Eu adorava meu trabalho, mas os clientes não eram anji-nhos. Claro, havia também gente muito legal. O famoso bar da cantora Tante Leen ficava algumas casas adiante e eu ia lá de vez em quando. A gente se sentia bem. Do outro lado ficava a disco-teca Mercurius. O leão de chácara era Jopie Veth, um rapaz da família de malandros De Vries, da Zeedijk. Era 1962, uma época realmente bacana para a maioria dos moradores da cidade. Ainda dava para caminhar com tranquilidade pelas ruas e jogar conversa fora em rodinhas sem ser perturbado.
Eu só trabalhava algumas horas por dia no bar, pois tinha horário para voltar e cuidar dos meus três filhos. Certa tarde, um homem veio se sentar no bar e pediu gim. Depois de um tempo, começou a virar os copos de uma só vez. Alguém me aconselhou a manter distância.
Perguntei: – Por quê?
– Porque ele fica fora de si quando bebe e vai tentar enfiar o copo na sua cabeça.
levantou de um pulo, quebrou o copo e tentou enfiá-lo na mi-nha cara. Recuei às pressas. Um rapaz que presenciava a cena, ao tentar segurar o braço do bêbado, agarrou o copo quebrado. Foi parar no hospital. Tudo se passou muito rápido. Colocaram o gambá na rua. Precisei continuar trabalhando como se nada tivesse acontecido, mas estava me sentindo um caco.
Em certo momento, o rapaz, que se chamava Joël, voltou do hospital com a mão enfaixada. Tinha um ferimento enorme e levara pontos. Conversei com meu salvador e, claro, agradeci.
Ele disse:
– Que horas você sai? Vou esperar e acompanhar você um pedaço.
Dito e feito. Ele perguntou: – Mora onde?
Naquele tempo, eu vivia quase no fim da Ceintuurbaan, perto da Amstel. Cruzamos a cidade pela Hobbemakade. A certa altura, me escondi com meu salvador debaixo de um pórtico e começamos a nos bolinar. Romântico demais. Deixo para vocês decifrarem o que aconteceu a seguir.
Nossa história durou um bom tempo, até que ele levantou âncora para navegar em uma longa viagem. Nunca esqueci com-pletamente meu herói e continuei trabalhando algum tempo no Congo Star.
Fui embora de lá quando Willem retornou para o lar. O cara de pau tinha me seguido algumas vezes quando eu saía do Congo Star e tentara falar comigo. Achava que tinha direito a dar sua opinião. Para ele, aquele rapaz não servia para mim.
– Francamente, essa é boa! Quem é você pra me dizer isso? Só que ele, quando colocava algo na cabeça, não tinha jeito. E acabou dando certo: me apaixonei por ele de novo. Após deixar o Congo Star, levei por um momento uma vida calma, dentro de casa, com as crianças. Aquilo me agradava.