• Nenhum resultado encontrado

O POSICIONAMENTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "O POSICIONAMENTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL"

Copied!
7
0
0

Texto

(1)

O P

OSICIONAMENTO DO

M

INISTÉRIO

P

ÚBLICO

F

EDERAL

SOBRE

M

ATÉRIAS

I

NSIGNIFICANTES NOS

P

ROCEDIMENTOS

I

NVESTIGATÓRIOS

BARBARA MENDONÇA ARRUDA1

JADSON BRUNO ROCHA CAVALCANTE2

FRANCISCO ANTONIO ALVES FERNANDES3

Resumo: o presente trabalho tem como objetivo analisar as interpretações realizadas pelo Ministério Público

Federal, por meios de orientações ministeriais, sobre o que é considerado insignificante para fins de instauração de procedimentos investigatórios. Assim, verifica-se como o princípio da insignificância, que até então era visto como algo a ser estudado no plano abstrato, está passando a receber patamares objetivos, estabelecendo limites para a interpretação do operador do Direito.

Palavras-chave: Insignificância. Orientações ministeriais. Modo de interpretar. Procedimentos investigatórios.

INTRODUÇÃO

Não existe uma dosimetria exata para se dizer o que é insignificante ou não, há grandes discussões doutrinárias e jurisprudenciais sobre como o operador do Direito deve aplicar tal princípio. É certo dizer que deve ser levada em consideração a capacidade financeira da vítima, bem como o valor subjetivo que o bem violado possui, além do nível de reprovabilidade da conduta, não se podendo precisar com exatidão o valor da insignificância de forma objetiva.

Ocorre que ações do Ministério Público Federal, por meio de orientações e votos, vêm estipulando valores mínimos para os bens violados, tratando o que seria considerado insignificância para fins de aplicação da lei penal e realizando uma espécie de seleção dos casos que merecem apreciação do poder judiciário.

1 Faculdade Luciano Feijão (FLF). Graduada em Direito. E-mail: [email protected] 2 Faculdade Luciano Feijão (FLF). Graduando em Direito. E-mail: [email protected] 3 Faculdade Luciano Feijão (FLF). Graduada em Direito. E-mail: [email protected]

(2)

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Por meio de orientações, o MPF busca melhorar a atuação de seus órgãos, seja em âmbito estadual, como em âmbito federal. Mesmo não possuindo força vinculante, tais orientações direcionam as autoridades investigatórias em suas atividades e abrem a possibilidade de aplicação daquilo que foi norteado.

A Orientação nº 25/2016 do Ministério Público Federal trata da aplicação do princípio da insignificância no crime de contrabando de cigarros. Considerou pesquisa realizada pelo Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva – INCA, em que diz que o brasileiro fuma, em média, 17 (dezessete) cigarros por dia, tendo o cigarro prazo de validade de 06 (seis) meses, chegando então a seguinte equação: 17 (cigarros) x 180 (dias) / 20 (cigarros por maço) = 153 maços. Assim, o brasileiro consome 153 maços por 06 (seis) meses que é o tempo em que o produto não perde a validade.

Através desse cálculo, chegou o órgão ministerial federal a conclusão de que um crime de contrabando de cigarros realizado com menos de 153 maços é considerado bagatela:

A 2ª Câmara de Coordenação de Revisão do Ministério Público Federal, no exercício das atribuições que lhe são conferidas no artigo 62, I da Lei Complementar nº 75/93, e respeitada a independência funcional, ORIENTA os

membros do Ministério Público Federal que oficiam na área criminal a procederem ao arquivamento de investigações criminais referentes a condutas que se adéqüem ao contrabando de cigarros, quando a quantidade apreendida não superar 153 (cento e cinquenta e três) maços, seja pela diminuta reprovabilidade da conduta, seja pela necessidade de se dar efetividade à repressão ao contrabando de vulto, ressalvada a reiteração de condutas que cobra a persecução penal. (BRASIL, Ministério Público

Federal, 2ª Câmara de Coordenação e Revisão, 18-04-16, Orientação nº 25/2016)

Assim, orienta o Ministério Público Federal pelo arquivamento das investigações já existentes e ao mesmo tempo estabelecendo critério para a instauração de futuras, estipulado patamar mínimo do objeto apreendido, no caso, maços de cigarro, que considerado insignificante algum valor aquém disso.

Desse mesmo sentido de tentativa de quantificação de valores insignificantes, a questão dos crimes contra a ordem tributária, o Ministério Público Federal também busca estipular patamar mínimo para os procedimentos investigatórios.

(3)

A Lei 10.522 de 19 de julho de 2002 traz o valor mínimo em que deva conter os débitos fiscais para que a Fazenda Pública promova ação de execução fiscal:

Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do

Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais)

Assim, fixado o valor mínimo de dez mil reais, devendo ser arquivados os autos de execução de débitos inferiores a isso, entende-se como esse sendo este o parâmetro do que será considerado lesão a ordem tributária. Débitos inferiores a isso não serão objeto de execução fiscal, portanto não comportam lesão considerável ao ordenamento. Com o entendimento extensivo desse dispositivo legal, fica considerado como insignificante tudo aquilo que se encontrar abaixo desse valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Assim, o Ministério Público Federal, em seu Voto expedido pela 2ª Câmara de Coordenação e Revisão, tendo como relator o Subprocurador-Geral da República, José Bonifácio Borges de Andrade, em Notícia de Fato tramitada nos autos nº 1.16.000.003054/2015-04 de origem na Procuradoria Geral da República do Distrito Federal, oficia pelo arquivamento do inquérito policial que investiga um crime de descaminho onde o valor total dos impostos iludidos é de R$ 2.986,09 (dois mil e novecentos e oitenta e seis reais e nove centavos):

No caso, não há notícia acerca de reiteração de conduta pelo investigado, as mercadorias apreendidas não são proibidas e o valor do tributo ilidido não ultrapassa o montante de R$ 10.000, 00 (dez mil) reais, situação que autoriza a incidência do princípio da insignificância. (BRASIL, Ministério Público Federal, Voto em NF nº 1.16000.03054/2015, 2ª Câmara de Coordenação e Revisão, 27-01-16, Rel. Bonifácio Borges de Andrade)

Assim, vê-se mais uma situação em que o princípio da insignificância é delimitado objetivamente. O valor de dez mil reais tornou-se parâmetro para a instauração dos procedimentos investigatórios, reconhecendo como insignificantes os crimes contra ordem tributária que tratarem de lesão inferior a isso, não merecendo, pelo entendimento do órgão ministerial federal, a atuação da autoridade investigatória.

(4)

No que diz respeito aos crimes contra a Previdência Social, insignificante é aquele valor que traz pequena lesão aos cofres da União, a discussão surge então sobre qual valor seria esse, assevera Jefferson Aparecido Dias em sua obra “Crime de Apropriação Indébita Previdenciária”:

Para alguns esse valor é de um salário mínimo. (...) Para outros, porém, o limite é de R$ 10.000,00 (dez mil reais) de acordo com a Lei 9.441 de 14.03.1997, que estabelecia esse valor como sendo o limite para a extinção dos créditos oriundos de contribuições do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, inscritas em dívida ativa até 30.11.1996. (...) Outros, ainda, defendem que o valor a ser considerado como insignificante deve ser aquele previsto como sendo o de não-ajuizamento de execução fiscal, ou seja, aquele que não será cobrado pela Previdência Social. Tal valor está fixado na Portaria MPAS 4.943, de 04.01.1999, que nos últimos anos sofreu sucessivas alterações, que ora fixaram o valor em dez mil reais, valor que também será utilizado como parâmetro para a aplicação do princípio da insignificância. (DIAS, 2010 p. 77-79)

O valor a ser considerado insignificante dos crimes cometidos contra a Previdência Social, é matéria de discussão doutrinária, porém recebe fortes defesas no sentido de que os valores com limite de até R$ 10.000,00 (dez mil reais) devem ser considerados insignificantes, sob a alegativa de quem esse mesmo valor é utilizado pela Fazenda Pública como parâmetro para ajuizamento de execução fiscal, não procedendo a mesma para valorem abaixo desse limite.

Ocorre que um dos fatores a ser analisado na aplicação do princípio da insignificância, além da lesão que será causada, é o nível de reprovabilidade da conduta. Mesmo o valor em questão não sendo superior ao, discutido, de dez mil reais, a conduta deve ser analisado sob a perspectiva de que essa infração cause ou não reprovabilidade social. Assim, os tribunais vêm decidindo pela não aplicação do princípio da insignificância quando afeta bem jurídico pertencente a coletividade:

(...) Por essa razão, em se tratando de estelionato cometido contra entidade de direito público, tem-se entendido não ser possível a incidência do princípio da insignificância, independentemente dos valores obtidos indevidamente pelo acusado, diante do alto grau de reprovabilidade da conduta do agente, que atinge, como visto, a coletividade como um todo. Precedentes do STJ e do STF. (HC n. 180.771/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, Quinta Turma, DJe 5/11/2012)

A reprovabilidade da conduta deve ser matéria de primeira importância na análise, por é ela que comporta a base para se estipular o que se torna ou não irrelevante para o

(5)

ordenamento jurídico. Também é importante salientar sobre a condição da vítima ou bem que será atingido. Como visto, um crime que atinja toda a coletividade, mesmo em valor ínfimo, possui reprovabilidade no meio social, não podendo assim conceber para este a idéia de bagatela.

Ainda, nesse entendimento de reprovabilidade da conduta e afetação ao bem jurídico da coletividade, vale a análise do princípio da insignificância perante os crimes ambientes.

Com relação aos crimes ambientais, o Ministério Público Federal possui um diferente entendimento ao que vem apresentado nessa oportunidade. Em Voto 434/2016 expedido pela 2ª Câmara de Coordenação e Revisão em Notícia de Fato que trata de investigação de destruição de vegetação nativa na área de 0,1 hectare, o Subprocurador Geral da República, José Adonis Callou de Araújo Sá, relator do voto, não acolheu o arquivamento promovido pela Procuradoria Federal oficiante.

NOTÍCIA DE FATO. POSSÍVEL PRÁTICA DO CRIME PREVISTO NO ART. 40 DA LEI Nº 9.605/98. DESTRUIR 0,1 HA DE VEGETAÇÃO NATIVA NO INTERIOR DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO SEM AUTORIZAÇÃO DO ÓRGÃO AMBIENTAL COMPETENTE. REVISÃO DE ARQUIVAMENTO (LC Nº 75/93, ART. 62, INC. IV). PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. DESIGNAÇÃO DE OUTRO MEMBRO PARA PROSSEGUIR NA PERSECUÇÃO PENAL. 1. Notícia de Fato instaurada para apurar suposta prática de crime ambiental, previsto no art. 40 da Lei nº 9.605/98, tendo em vista a destruição de 0,1 hectare de vegetação nativa no interior do Parque Nacional do Jamanxim, sem autorização do órgão ambiental competente. 2. A Procuradora da República oficiante promoveu o arquivamento do feito com base na atipicidade, por entender que a conduta descrita no auto de infração lavrado pelo ICMBio não demonstra relevante interesse ambiental, considerando, ainda, que a fixação da multa administrativa já configura medida suficiente para reprimir o fato 3. A jurisprudência do STJ tem sido cautelosa na aplicação do princípio da insignificância aos crimes ambientais, levando em consideração que determinadas agressões “têm potencial capacidade de afetar ecossistemas inteiros, podendo gerar dano ambiental irrecuperável, bem como a destruição e até a extinção de espécies da flora e da fauna, a merecer especial atenção do julgador.”

Desse modo, acompanho o entendimento de que não se pode ter por insignificante o dano ambiental praticado em área de mata ou floresta nativa, dada a indisponibilidade do bem tutelado. (BRASIL, Ministério Público Federal, Voto nº 434-2016, Procedimento nº 1.23.008.000527/2015-07, Origem: Santarém/PA, Rel.: José Adonis Callou de Araújo Sá, p: 29-01-16)

Com isso, pode observar que o Ministério Público Federal que ora propõe um patamar objetivo para o que deve ser visto como insignificante, também promove a não

(6)

homologação de arquivamento de investigações com base na bagatela, por não acompanharem os demais critérios específicos, quais sejam: reincidência e reprovabilidade social da conduta.

É inequívoco dizer que, em todos os entendimentos, o princípio da insignificância é aplicado, desde que ressalvado a reiteração da conduta ou a continuidade delitiva. Se fosse assim, seria muito comum passar por impunes crimes que o agente escolhe praticar “aos poucos”, quando se considera separadamente cada conduta como irrelevante. Além de dar margem para que o agente volte a praticar o delito.

Ademais, a reprovabilidade da conduta deve ser matéria de primeira importância na análise, por ser ela que comporta a base para se estipular o que se torna ou não irrelevante para o ordenamento jurídico. Também é importante salientar sobre a condição da vítima ou bem que será atingido. Como visto, um crime que atinja toda a coletividade, mesmo em valor ínfimo, possui reprovabilidade no meio social, não podendo assim conceber para este a idéia de bagatela.

CONCLUSÃO

Dessa forma, verifica-se que o Ministério Público Federal já estabelece limites para a instauração de procedimentos investigatórios, determinando o arquivamento daqueles que se encontrarem com objeto inferior ao estipulado. Mesmo o MPF emitindo apenas orientações que não possuem força vinculante, já se mostra um avanço para que as investigações passem a observar o nível de leisividade da conduta, não se restringindo somente aos elementos de autoria e materialidade, objetivando e otimizando as investigações, para que não haja perca de tempo e serviço.

Assim, a idéia de insignificância que é tratada apenas no plano abstrato e devendo ser levada em consideração conforme o caso concreto, começa a ser entendida também de forma objetiva. A subjetividade do operador do direito em dizer o que seria irrelevante para si começa a ser minimizada, pois há um princípio de quantificação daquilo que deve ser

(7)

considerado insignificante, porém, sempre ressalvando os requisitos necessários como reprovabildade da conduta e leisividade ao bem jurídico tutelado.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002. Dispõe sobre o Cadastro Informativo dos créditos não

quitados de órgãos e entidades federais e dá outras providências. Brasília, DF: Senado, 2002.

BRASIL. Ministério Público Federal. Orientação nº 25/2016, 2ª Câmara de Coordenação e Revisão, Data da Publicação 18 e abril de 2016. Disponível em: < http://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr2/orientacoes/documentos/orientacao-no-25>. Acesso em: 30 de abril de 2017.

BRASIL. Ministério Público Federal. Voto Nº 434/2016, 2ª Câmara de Coordenação e Revisão. Procedimento MPF nº 1.23.008.000527/2015-07, Origem: Santarém/Pa, Procuradora Oficiante: Janaina Andrade De Sousa Relator: José Adonis Callou De Araújo Sá, Data da Publicação: 29 de janeiro de 2016. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr2/publicacoes/boletins/boletins-2016-2/boletim-84/voto-434-2016>. Acesso em: 30 de abril de 2017.

BRASIL. Ministério Público Federal. Voto nº 538/2016, 2ª Câmara de Coordenação e Revisão, Processo nº 1.16.000.003054/2015-04 Origem: Procuradoria da República no Distrito Federal, Procurador da República: Igor Nery Figueiredo, Relator: José Bonifácio Borges de Andrada, Data da Publicação: 27 de janeiro de 2016, Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr2/publicacoes/boletins/boletins-2016-2/boletim-84/voto-538-2016>. Acesso em: 30 de abril de 2017.

Referências

Documentos relacionados

Inscrições na Biblioteca Municipal de Ourém ou através do n.º de tel. Organização: Município de Ourém, OurémViva e grupos de teatro de associações e escolas do

CAIXA, além do benefício previsto no parágrafo segundo da cláusula 26, o empregado que adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção de criança fará jus

Com o intuito de registrar tais alterações, anúncios de revistas premiados pelo 20º Anuário do Clube de Criação de São Paulo são apresentados de forma categórica como

Considerando a formação da equipe de trabalho, o tempo de realização previsto no projeto de extensão e a especificidade das necessidades dos catadores, algumas

[r]

A menor proporção de uso do SUS para exames preventivos e de diagnóstico precoce, em especial os cânceres de mama e próstata, sugere baixa cobertura populacional que pode

pronunciado como em filho/G pronunciado como em gude/GB não existe similar em português/H pronunciado como em ilha/J pronunciado como em Djalma/K pronunciado como em

Ali diz que, ao voltar, Jesus permanecerá nos ares enquanto somos levados ao Seu encontro: “Porquanto o Senhor mesmo, dada a Sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada