Herberto Helder

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Herberto Helder e as naturezas-mortas / Herberto Helder and the Still Lifes

Herberto Helder e as naturezas-mortas / Herberto Helder and the Still Lifes

O “tornar-se negro” de um peixe antes vermelho ensina ao pintor uma concepção de pintura para a qual, assim como para a poesia de Herberto Helder, não se trata de imitar o real, mas de criar realidades artísticas autônomas. Para a escrita do poeta, como para a ideia de pintura que ela invoca como referência, mais do que tomar a natureza – em suas cores ou em suas formas – como modelo para a produção de semelhanças, interessa entrar em sintonia com seus princípios, ou em continuidade com suas forças, para se inventar a si própria como diferença. Neste sentido, a “fidelidade” entre o mundo “da imaginação” e “o mundo das coisas” deixa de ser apenas “primitiva” quando os termos de que parte ou a que chega o gesto artístico assentam não na noção insidiosa de um “real” idêntico a si mesmo, mas na realidade do devir que os enlaça. Assim é que “apenas uma lei” abrange toda a criação: “a lei da metamorfose”, da mudança, do movimento.
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“DEVAGAROSA MULHER COBRA”: HERBERTO HELDER, UMA POÉTICA DA TRADUÇÃO

“DEVAGAROSA MULHER COBRA”: HERBERTO HELDER, UMA POÉTICA DA TRADUÇÃO

Para além das modificações estruturais, que não percebo como tão relevantes, é preciso assinalar a introdução no poema da palavra mulher, ausente no original. Na versão em inglês apenas o título remete diretamente à figura feminina, mas não é exatamente a uma mulher, e sim a uma garota. É claro que o sentido geral do poema aponta novamente para a figura feminina, mas ela nunca é referida diretamente e o refrão reforça apenas a imagem da cobra: “O my black cobra”. Ao introduzir a imagem da mulher no lugar da garota, Herberto Helder dá ao poema um tom muito próprio, e que será intensificado com o uso do neologismo “devagarosa”, uma palavra extremamente significativa em sua poética, atravessando inclusive a “pulsão destrutiva” 17 do autor que fez com que apenas alguns fragmentos do livro Retrato em
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Alguém, ninguém, algo escreve? : breve nota sobre a cena da escrita em Herberto Helder?

Alguém, ninguém, algo escreve? : breve nota sobre a cena da escrita em Herberto Helder?

A possibilidade de haver uma relação entre o que Herberto Helder diz neste poema e o que é defendido pelo Mestre Kenzo Awa, seja ela de carácter hipertextual ou simples- mente consequência de uma certa sintonia, interessa-me não em si mesma, mas por abrir um caminho para a compreensão da escrita herbertiana. Não será excessivo, creio, ver no arqueiro que fala neste poema uma figuração daquele que escreve, e, se assim for, tudo indica que Herberto Helder coloca o poeta na condição de podermos concluir que se ele acerta é porque, na sua escrita, algo escreve, e porque, em função dela, algo acerta. Tal como o Mestre Kenzo Awa, Herberto Helder sublinha a ausência de intenção do poeta-arqueiro, a necessidade de que a escrita se liberte das contingências de uma polarização subjectiva. E poderíamos pôr ainda em paralelo aquilo a que o Mestre Zen chama «algo» (esse «algo» que atira e acerta) e uma isotopia que atravessa as magníficas imagens herbertianas neste poema: a condição de inerência e de intrinsecidade que une sujeito e objecto. Nestes versos de Herberto Helder, pensamento e paixão, natureza e imaginação são categorias não oponíveis entre si, são emergências do mesmo, dobras de um tecido único, inconsútil e cantante. Assim, Herberto Helder pode escrever que o poeta-arqueiro acerta sem precisar de ver o alvo, pode dizer que acerta porque vendado, ou que acerta «(…) porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros, / como se atirasse do outro lado do vento», «ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo –». Nessa relação de intrinsecidade, o eu dissolve-se num estado de acerto pleno com o mundo, condição que a poesia de Herberto Helder representa muitas vezes através da imagem de um corpo oco e rítmico, atravessado pela «electricidade do universo» 7 .
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Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

Haroldo de campos e Herberto Helder: a antropofagia como criação poética Haroldo de Campos and Herberto Helder : the antropophagy as poetic creation Geovanna Marcela da Silva GUIMARÃES

A convergência antropofágica existente entre Haroldo de Campos e Herberto Helder é a compreensão da antropofagia como instrumento de seleção crítica para a criação de uma poética que renega os padrões estabelecidos pela tradição em prol da valorização de obras e autores esquecidos por ela, caracterizando, desta maneira, um diálogo entre passado e presente, onde a crítica terá papel fundamental, pois a (re)visitação do passado pelos poetas terá como objetivo a busca de “novas” formas poéticas, estéticas e artísticas possíveis de serem atualizadas nas poéticas do presente. Haroldo de Campos dirá que a característica da arte do nosso tempo – isso em meados dos anos 70, mas que pode muito bem ser aplicado aos dias atuais – é que ela “é cada vez mais uma arte ‘metalinguística’, ou seja, uma arte crítica [onde] o poeta faz contínuas operações críticas” (CAMPOS, 1977, p. 74), o que nos faz ver que o trabalho poético empreendido por ele e por Herberto Helder é um constante processo de crítica e releitura da tradição. Trata-se de um minucioso trabalho de transformação da história por meio da linguagem, que em Haroldo é marcado pela crítica e pela reflexão e em Herberto Helder pelo desregramento e pela violência.
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Os selos, outros, últimos, de Herberto Helder: pelo sopro da criação à harmonia

Os selos, outros, últimos, de Herberto Helder: pelo sopro da criação à harmonia

Mesmo que não tomando à letra as sugestões de Chevalier, entende-se nestes poemas de Herberto Helder um diálogo complexo entre a harmonia e o caos, como teremos oportunidade de estudar. A este propósito, e para compreender a carga simbólica do número seis, recorde-se a importância do poema sexto de Os selos, pela referência aos espaços de elevação: “Montanhas das áfricas, / montanhas das árvores que sangram” (p. 558) e no final do mesmo poema: “[…] a realeza / do poema animal – leopardo e leão. Oh, / cantam em música humana, eles, no trono / das montanhas das áfricas / redivivas –” (p. 559). Entender-se- á igualmente a centralidade temática do último poema dos seis textos, quando o abordarmos no final deste estudo. Os títulos Os selos e Os selos,
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Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

Sonata para pulsões (sobre A Máquina Lírica de Herberto Helder)

com que ela não acabe “pelo tempo fora”. Ela permanece no tempo-dentro da memória e continua existindo na poesia da qual é o motor. De outro lado, o processo contínuo da poesia renova a mãe permanentemente. É uma máquina de retro-alimentação a lírica de Herberto Helder. Por isso, a obra do autor é marcada pelo sentido de processo, estando em constante estado de impermanência e incompletude, mas sempre em processo de se completar de novo. A poesia nunca mais acaba, se refazendo nos acréscimos, expansões e transformações, num moto- contínuo. A máquina reproduz os movimentos orgânicos de inspiração e expiração, com momento de dilatação e momentos de conclusão (inclusiva). Há períodos em que a obra se retém e períodos em que se expande de novo. A “toda poesia” de Helder só pode ser toda até aquele momento. “Toda” é termo circunstancial e nunca definitivo; “toda poesia” é toda poesia incompleta, paradoxo da criação.
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Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

Herberto Helder: electronicolírica fazse contra a carne e o tempo

Em Electronicolírica, a leitura linear pode ser substituída por uma leitura em travessias e correlações. E se o que daí deriva incide na tradição do illisible, e se resiste à imediata compreensão e consumo, nada disso mitiga a força da expressão poética. A aleatória combinação na esteira da chamada “poesia por computador” não trava o fulgor poético-encantatório de Herberto Helder: é do esvaziamento mesmo dos conteúdos que flui o ímpeto criador capaz de excitar a nervura verbal do real. O ímpeto criador associado ao jogo de bricolagem ativado pela máquina lírica foi, como vimos, uma das constantes da poesia de Herberto Helder aqui privilegiada. Resta citar alguns versos mais à guisa de conclusão:
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O poema é um animal: obscuros bestiários de Herberto Helder

O poema é um animal: obscuros bestiários de Herberto Helder

de um dos poemas, que trataremos em seguida ao relato. No fragmento “(magia)”, o escritor faz alusão a sua ida à África por ocasião de um filme “inspirado, baseado ou pretextado num texto” (HELDER, 2006b, p. 120) seu. A experiência decorrida na estadia no continente excede o motivo que o levou até lá. De uma incursão ao leste do país (cujo nome não é informado), o poeta relata que trouxera uma pequena máscara que só poderia ser tocada pelo feiticeiro que a fizera. Mesmo assim, ele não só viola a regra ao tocar a máscara como a torna “coisa sua.” Ao mostrá-la para outros, eles não se detêm por muito tempo no objeto e mudam logo de assunto. Essa seria a razão para a máscara se imbuir, progressivamente, de energia. “Penso que a se formara em torno do objecto um campo sensível de energia, e esse campo ia crescendo” (2006b, p. 121). Energia supostamente capaz de provocar o acidente que a pessoa empírica, Herberto Helder, sofreu um dia após assistir ao filme, a setecentos quilômetros de distância da máscara que permanecia em casa. E ainda, outro acidente, com quem lhe tirou de perto da máscara, a seu pedido, já no hospital. As quatro categorias de eventos, isto é, poema, filme, máscara e desastre, estariam imbricadas em um mesmo sistema de acontecimentos, levado a cabo pela magia.
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Este poema não existe: um caso de intermidialidade (e magia) em Herberto Helder / This Poem Does Not Exist: A Case of Intermediality (and Magic) in Herberto Helder

Este poema não existe: um caso de intermidialidade (e magia) em Herberto Helder / This Poem Does Not Exist: A Case of Intermediality (and Magic) in Herberto Helder

as can be verified through a disc recording which is narrated by the poet himself, as well as in a recent short film available on internet, produced by the group O Dizedor. Departing from the poet’s premise that “every poem is a movie”, we approach to the original poem, published in 1968 in the book Apresentação do rosto, and try and demonstrate their respective adaptations in audio and video as well as to other Herberto Helder´s texts in order to promote intermedial associations, especially between painting and cinema as ways to “see” the poetry. We try and demonstrate that, despite of being subtracted by Herberto Helder, the several rereading of this poem make it one of the most adapted among his whole work.
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A Maçã Envenenada: gestos de autor, corpo e obra entre Herberto Helder e Kurt Cobain

A Maçã Envenenada: gestos de autor, corpo e obra entre Herberto Helder e Kurt Cobain

Em Os nomes da obra: Herberto Helder ou O Poema Contínuo (2016), a também portuguesa Rosa Maria Martelo discute a obra de Helder e relembra o progressivo recolhimento do escritor, que detestava notoriedade pública, recusava-se a receber quaisquer prêmios, dar entrevistas ou apresentar-se em público. A crítica comenta também que a obra poética do escritor estava inextricavelmente ligada a esse apagamento (MARTELO, 2016, p. 20). Ao negar seu corpo biológico como parte de uma máquina mercadológica que apela à celebridade como par a o talento artístico na contemporaneidade, sem “nenhuma premeditação comercial” (MARTELO, 2016, p. 21), Helder estaria, segundo a autora, dando vazão a uma faceta-chave da experiência poética moderna que remonta a Samuel Coleridge e Arthur Rimbaud, por exemplo: o silenciamento ou a morte da figura autoral. Cabe-nos aqui perguntar: o efeito do apagamento dessa figura gera um espaço vazio de silêncio em lugar daquela presença divina que justificaria e explicaria a obra?
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Interseções poéticas: uma ponte dialógica da poesia modernista e contemporânea por meio da poética de Fernando Pessoa e Herberto Helder, em “Hora absurda” e “Para o leitor ler de/vagar”

Interseções poéticas: uma ponte dialógica da poesia modernista e contemporânea por meio da poética de Fernando Pessoa e Herberto Helder, em “Hora absurda” e “Para o leitor ler de/vagar”

Herberto Helder apresenta o silêncio ligado ao órgão emissor da voz, a boca, e ao mesmo tempo como uma metáfora mais velada, com uma ligação indireta da boca como o elemento de seu sentido poético, em que se lê no verso: “Sou fechado/como uma pedra pedríssima. Perdidíssima/da boca transacta. Fechado” (HELDER, 2009, p. 128), neste trecho o poeta se compara a uma pedra da boca transacta, ou seja, sua origem parte de uma outra pedra cuja boca não se abre, não passa nada através dela. Seria a pedra -leitor cuja boca é transacta? A conjunção apresenta duas possibilidades de direções de leitura, uma de que a pedra-autor possui a característica da boca transacta, outra interpretação que é a comparação de sua pedra-autor além do adjetivo “Perdidíssima” surge da “boca transacta”.
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MARTELO, Rosa Maria. Os nomes da obra: Herberto Helder ou O poema contínuo Documenta, 2016. 93p.

MARTELO, Rosa Maria. Os nomes da obra: Herberto Helder ou O poema contínuo Documenta, 2016. 93p.

No seu Geografias do Acaso: ensaio geral sobre o ensaio, em O gênero intranquilo, João Barrento afirma que “O ensaio faz-se a bordo dos dias. E a bordo dos livros, na leitura acidental, mais do que dirigida. É sempre o mais tangencial que me leva ao centro, núcleo duro, pérola de ostra, nó de rizoma, ponto e ponte de fuga” (BARRENTO, 2010, p. 17). É certo que há no conjunto de textos de Rosa Maria Martelo reunidos em Os nomes da obra (2016) muito desta ambiguidade consciente (BARRENTO, 2010, p. 27) que dá a ver tanto o olhar experimentado e indagador de quem há muito perscruta a amplitude de uma obra caudalosa e perene como a de Herberto Helder, como também a atração que ela exerce sobre aqueles que volta e meia pegam-se com e contra os versos helderianos.
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Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

Auto-bio-thanato-grafia: a experiência do silêncio em Photomaton & Vox, de Herberto Helder

A experiência do silêncio como suspensão temporária da existência em lin- guagem é portanto um gesto que fica inscrito em Photomaton & Vox como de- claração de poética e que atinge o fim com “(a morte própria)”. Sob a forma de uma progressão constante no sentido de uma depuração da linguagem, como se se morresse progressivamente, por etapas de re-escrita, até atingir o silêncio final. Diga-se, para terminar, que “(a morte própria)” foi já recuperada duas vezes nas reedições de Photomaton & Vox e que desde esse texto final até hoje a es- crita voltou a sobrepor-se ao silêncio tanto na edição de textos inéditos como na reescrita de outros anteriores. A última manifestação da “aventura criadora” (p. 70) de Herberto Helder é, à data, Ou o poema contínuo de 2004, uma muito recen- te edição de Poesia toda que exclui todos os livros de versões e retoma o título de Ou o poema contínuo de 2001, que assim passa a ser a súmula de um livro posterior. Depois do livro de 2001, Ou o poema contínuo de 2004 marca mais uma etapa na continuidade da escrita, para lá dos sucessivos patamares de finali- zação da obra, para lá dos vários silêncios finais.
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DAS DIFERENTES VISÕES DO AMOR, ATÉ O AMOR MÍSTICO PRESENTE NO CONTO TEOREMA DE HERBERTO HELDER.

DAS DIFERENTES VISÕES DO AMOR, ATÉ O AMOR MÍSTICO PRESENTE NO CONTO TEOREMA DE HERBERTO HELDER.

O estudo intitulado “Das diferentes visões do amor, até o amor místico presente no conto Teorema de Herberto Helder”, tem por objetivo realizar uma sondagem em busca das relações existentes entre as diferentes visões em que o amor é representado de acordo com a concepção traga pela filosofia, e o ideal de amor “imortal e mítico” que se encontra presente no conto Teorema . Para tanto, faz-se uso de uma metodologia de cunho bibliográfico centrada nas obras de Eduardo Farias Coutinho e Nicola Abbagnano. Como aporte teórico o estudo embasa-se na concepção de Mito e Amor adotada por Nicola Abbagano, e para dar sustentabilidade à relação entre essas duas concepções de amor, faz-se uso dos pressupostos da Literatura Comparada que pode ser compreendida segundo Marius-Francois Guyard, como a história das relações literárias nacionais. Sendo que o comparatista se coloca nas fronteiras, linguísticas ou nacionais, examina as mudanças de temas, ideias, livros ou sentimentos entre duas ou várias literaturas. Desta forma pretende-se estabelecer através do comparativismo literário as possíveis relações existentes entre as diferentes significações a que o amor é submetido segundo a concepção filosófica, e o ideal de amor imortal e mítico centrado no romance de D Pedro e D Inês de Castro. Além de explorar ainda a relação entre a narrativa e o titulo do conto (Teorema), o que consequentemente denota um movimento interdisciplinar entre a Literatura e a Matemática.
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O escritor no espaço da obra: o rosto caligrafado – uma leitura de Apresentação do rosto, de Herberto Helder

O escritor no espaço da obra: o rosto caligrafado – uma leitura de Apresentação do rosto, de Herberto Helder

correspondem à estratégia de composição de AR, que é, a um só tempo, um texto poético, ensaístico, dramático e narrativo; a perspectiva, por outro lado, oscila entre a retrospecção e a atualidade totalizadora das impressões (há, vale frisar, uma perspectiva holística que perpassa toda a obra de Herberto Helder e, desse ponto de vista, o indivíduo é como que parte de uma lógica totalizadora de funcionamento do mundo, o que veremos mais detalhadamente. Por esse mesmo motivo é que atentamos, anteriormente, para a problemática quanto ao fato da figura do Autor se referir, unicamente, a Herberto Helder, e enfatizamos o caráter ontológico de seu retrato); e, por fim, o assunto é, de algum modo, a vida: não a vida do indivíduo particularizado, como geralmente ocorre nas autobiografias, mas a do escritor no seu exercício de decifração holística.
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Infinito e segredo nas poéticas da combinação de Melo e Castro e de Herberto Helder / Infinite and Secret in the Poetics of Combination of Melo e Castro and Herberto Helder

Infinito e segredo nas poéticas da combinação de Melo e Castro e de Herberto Helder / Infinite and Secret in the Poetics of Combination of Melo e Castro and Herberto Helder

Na poética combinatória de Melo e Castro, sublinho o infinito como elemento linguístico que torna os modelos de enunciação abertos ao acaso e ao aleatório. Na poética combinatória de Herberto Helder, sublinho a ocultação de algum possível modelo combinatório, o que faz do segredo resultado de um gesto que prima pela “regra” de Húmus: “liberdades, liberdade”. Por isso, infinito e segredo são duas faces da mesma inteligência que os poetas demonstram no uso da técnica combinatória. Diante do inevitável excesso de controle e vigilância tecnológica em que vivemos, diante da crescente delegação da pesquisa de caminhos culturais e políticos à eficiência produtivista dos algoritmos, Melo e Castro e Herberto Helder – poetas que nasceram, cresceram e escreveram sob o salazarismo – parecem encontrar no infinito e no segredo pontos cegos em que a razão técnica aplicada à linguagem humana se abre ao acaso que define o que pode ser humano.
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Desubjetivação na lírica portuguesa: do desassossego de Bernardo Soares às antropofagias de Herberto Helder

Desubjetivação na lírica portuguesa: do desassossego de Bernardo Soares às antropofagias de Herberto Helder

Para Herberto Helder, o poder regenerador do canibalismo é perpetuado “por dentro de poemas”. (Helder, 2006a: 153). Eles contêm, assim, um poder simul taneamente destruidor e salvífico. O acto antropofágico é uma situação excepcional que confronta o Homem consigo mesmo, expondo-lhe, no corpo da vítima, a sua própria fragilidade e permitindo-lhe, na devo ração, uma vitória contra a morte. Também o poeta que se olha a si próprio em Antropofagias se encontra nesse limite da sobrevivência. Vive da observação de actos alimentares encadeados em que o poeta, o poema e o leitor são definidos por máscaras canibalescas. (GUERREIRO, 2009, p. 12).
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A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

Também aqui, no próprio coração negro de Servidões, Tanatos comparece, ocupando um lugar estrutural na escrita de Herberto Helder, mas, como na sua restante obra, a contrapresença antitética de Eros também se faz sentir com indisfarçável acutilância. À semelhança de volumes anteriores, aqui o desejo debate-se com a falta, o júbilo do conatus digladia-se com a dimensão trágica do existir. Em suma, com a poesia herbertiana estamos sempre perante a complexidade da vida ou, em termos ricœurianos, a alegria do sim na tristeza do finito.

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Tradução e transgressão em Artaud e Herberto Helder.

Tradução e transgressão em Artaud e Herberto Helder.

Herberto Helder, assim como Artaud, situa as possibilidades do fazer poético num pensamento sobre o corpo. Uma primeira diferença, entretanto, deve ser assinalada: Artaud parte de um corpo completamente esfacelado, alijado do discurso, submetido às torturas e aos constrangimentos dos asilos psiquiátricos. Um corpo que será preciso reconstruir sobre novas bases, esvaziando-o de suas funções puramente orgânicas, para que ele possa receber e suportar a linguagem que é produtora do poeta, uma linguagem que se define para além da necessidade de sentido. Já Herberto Helder parte de um corpo que deve ser deformado, que será preciso abrir, para que se dê a realização da tarefa poética. Mais uma vez, podemos fazer um paralelo com “Cartas do vidente”, de Rimbaud, em que o jovem poeta indica a necessidade de um método de deformação da alma e do corpo, de um trabalho a ser realizado: “Mas se trata de tornar
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O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

O EROTISMO REVISITADO NA POÉTICA DE HERBERTO HELDER

A obra de Herberto Helder é muito vasta e inclui trabalhos de poesia e tradução. Nota-se que na sua escrita há uma relação íntima entre as duas, tanto a poesia como a tradução surgem com uma potência erótica que será fundamental para a criação herbertiana. A tradução está intrinsecamente relacionada à criação, o próprio modo peculiar de o poeta nomear esse trabalho “poemas mudados para português” revela isso. A poesia e a tradução também instauram uma violência contra a linguagem, as duas deformam a língua, tirando-a do lugar-comum do sentido e aplicando a potência do vazio sobre ela. A desconstrução do sentido da palavra é o que possibilita a criação poética. A escrita de Herberto Helder é relacionada ao corpo e as imagens dos órgãos sexuais, do sangue, do sêmen e da saliva apontam para o corpo deformado, pensado agora em partes energéticas e é da deformação do corpo que surge o buraco para o fazer poético. Busca- se pensar na importância do erotismo como vetor de construção poética. Nesse sentido, as reflexões de Georges Bataille serão importantíssimas para nortear o erotismo e o relacionar à obra de Herberto Helder. Desta forma, a hipótese que se lança é de que o erotismo impõe uma violência contra a palavra e o corpo necessária para o trabalho de criação. Nesse sentido, nossa busca será pela presença do erotismo na poesia e na tradução de Herberto Helder, privilegiando os textos onde se encontra a imagem da criação.
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