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Houve um tempo em que suas ruas eram marcadas pelo sossego, pelo tráfego lento dos bondes, pelas conversas nos bancos das praças, passeios nas ruas e matinês de cinema.3

Quando ocorreu em São Paulo esse tempo referido como “marcado pelo sossego”? A percepção do tempo é algo que se encontra em profunda movimentação no ser pessoal e no ser social. Movimentação essa que o passado não pode aprender de si, pois, no amanhã o tempo trará outra percepção do momento presente. Em algumas pessoas, o passado parece reter o que houve de bom nos lugares em elas viveram, certamente isso não é uma regra, mas aqueles que se dispõem a falar, ou a escrever sobre o seu passado, recontam em sua maioria as imagens prazerosas e significativas de suas vidas. Diz W. Benjamin:

A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem, que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.4

3 SÃO PAULO (cidade) SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA. Paulicéias Perdidas, p. 12. 4 BENJAMIN, W., Magia e Técnica, Arte e Política, p. 224.

Ao que parece, o homem quer reconhecer somente o que lhe apraz. Sendo assim, no presente se diz – porque de fato para quem diz isso corresponde à verdade – que, no passado, aquela cidade, praça ou rua foi “marcada pelo sossego”. Recorrentemente, esse é o tom dos memorialistas que no presente de um tempo futuro, para dizer distante, escrevem sobre o tempo passado. E a cidade de São Paulo teve, ao longo de sua história, a edição de várias obras memorialistas, várias dessas já reeditadas.

À diferença desses, há os cronistas de época, os jornais diários e demais publicações que escrevem sobre o presente no presente, e, no caso dos periódicos, diariamente. A produção desse material acontece no mesmo tempo em que esse fato aconteceu. Para esses, a São Paulo da virada do século XIX para o século XX é comumente descrita como um tempo de balburdias, das velozes estradas de ferro, a suspeita sobre a energia elétrica, de calçamentos diferenciados, enfim de transformações do passado que seria, este sim, mais sossegado.

No momento em que os politécnicos começam a se fazer presentes, ocorre em São Paulo esse tempo que para os memorialistas é um lugar “sossegado”, e para os cronistas da época uma “balburdia”. Aqui não se pretende parametrizar as alterações urbanas, já que isso requer estabelecer uma mensuração, determinando para tanto diversos parâmetros e, em seguida, realizar uma comparação entre os mesmos. Nesta pesquisa, quer-se identificar a inserção social de um específico grupo social, os engenheiros da Escola Politécnica, nesta cidade.

Eles passam a compor um corpo técnico que está em constante diálogo com os administradores da cidade, e as ações desenvolvidas por uns são abarcadas pelo outro grupo, numa simbiose por vezes difícil de identificar causa e causador. Dentre as ações que levam ao diálogo intenso entre esses grupos, estão a disputa e a definição pela utilização dos recursos hídricos do Estado, pois o seu uso, no decorrer do tempo, assume inúmeras facetas, beneficia ou

desagrada, isto é, gera capital ou não, para determinados grupos pelo norteamento dado ao assunto.

Os recursos hídricos da região são facilmente identificados com os seus rios, mas, para além desses, a própria chuva, as enchentes, os poços, os córregos, lagoas e lagos fazem parte da vida da população. Assim sendo, a água tem toda uma função social, que transpassa sua utilização como mero recurso hídrico a ser disputado entre engenheiros e administradores. Ao longo do tempo, a água foi identificada com diversas demandas diferenciadas, como saneamento, esgoto, energia, indústria ou irrigação para a agricultura, mas também, como ressaltou D. B. Sant’Anna, como aquelas que se dividem entre cristãs e pagãs, as que acolhem as assombrações e os frutos da ilegalidade, as quais nos seus regos e chafarizes possibilitam encontros e brigas. A água então perpassa a cidade não só nos rios que a cortam, mas também pela visibilidade dessa no dia-a-dia dos citadinos, funções por vezes negligenciadas por engenheiros e administradores, num comportamento quase sempre demagógico e pontual, destituído de qualquer preocupação com obras integradas numa correta hierarquia de prioridades. Esses propõem, e o que chega a ser desastroso, às vezes executam obras duvidosas na sua eficácia urbana.5

3.1 – Do Burgo à Politécnica

Por séculos, o espaço urbano da cidade de São Paulo foi condensado nas colinas, nos patamares das colinas onde os jesuítas ergueram suas fortificações. Lá no alto tinham um espaço seguro para habitar naquele momento, fugiam das planícies submersíveis, propícias às enchentes provocadas por três dos seus rios, Tietê, Pinheiros e Tamanduateí e por tantos outros córregos. No decorrer do

5 Em sua tese de livre-docência, Denise B. Sant’Anna realizou uma profícua pesquisa sobre uma

farta cultura material ligada ao uso da água em São Paulo dos primórdios do século XIX até meados do século XX. Pontuou o uso da água nas ações do cotidiano paulista, bem como algumas propostas dos poderes públicos. A tese é dividida em duas partes, a primeira sobre a visibilidade

século XIX, iniciou-se um processo de urbanização em um tempo histórico relativamente rápido, quando as planícies foram incorporadas aos espaços urbanos anteriormente produzidos. Esse processo não tardou a se tornar caótico ao sabor de retificações feitas sem qualquer previsão de impactos, envolvendo a especulação das terras que, por três séculos, foram inabitadas, quiçá, pelo conhecimento empírico de que tal espaço era inadequado para o desenvolvimento de uma cidade. Os rios sempre correm, não é fácil detê-los com simples ou complexas barragens, e a água da chuva escoa para algum lugar. Assim, na trajetória histórica de São Paulo torna-se cada vez mais intenso esse múltiplo diálogo com a água, a partir da expansão urbana da planície.

Há um consenso entre os historiadores em considerar o ano de 1870 como um marco para a cidade. O “espetáculo do crescimento”, que o presidente Luis Inácio Lula da Silva arvorou para o Brasil do seu governo, pode ser um conceito discutível para os dias de hoje. Podemos dizer que esse fenômeno foi registrado na Vila de Piratininga com essa denominação, pelo historiador O. N. Mattos, em um texto alusivo ao IV Centenário da cidade. Até então tida como o burgo dos estudantes do Largo São Francisco, a partir de 1870:

... a capital paulista como que rompeu as barreiras que cingiam à colina histórica, pôs-se se expandir de maneira sempre crescente e imprevisível, viu alterar- se seu ritmo de vida, passou a conhecer funções novas, modernizou-se, num caminho rápido e seguro, para o espetacular crescimento registrado no século atual.6

Esse espetáculo acontece nos mais diversos aspectos sociais e econômicos impulsionados pela elevação da receita orçamentária do Estado, com as plantações de café que se deslocavam do Vale do Paraíba para as regiões oeste e noroeste do Estado, propiciando um desenvolvimento urbano, com as luzes da modernidade, que já se consolidara com mais ênfase em Paris ou no Rio de Janeiro. As plantações do café, a instalação da malha ferroviária, criada e

da água e a segunda, em que se percorre o caminho do visível ao invisível, aqui destacando o papel da ciência na questão.

desenvolvida de mãos dadas como o mesmo, a partir de 1867 com a inauguração da São Paulo Railway Company, e a adoção do trabalho assalariado, predominantemente estrangeiro, são apontadas por estudiosos do período como responsáveis pelo despertar da cidade. A mudança no número de estabelecimentos industriais e comerciais, no de sobrados, e na publicação de periódicos mostra a efervescência do período, cuja administração do governador da província João Theodoro Xavier de Mattos foi voltada para a urbanização da capital.

Muito do que no início do século XX seria tido como obsoleto, lerdo e desprovido de beleza, era para seus pares, de 1870, motivo de orgulho e regozijo. Como por exemplo, os bondes, transporte público que a Capital passou a usufruir e transformou-se no meio de mobilidade, moradia-trabalho-lazer da população da época, muito significaram, para a época, a instalação da iluminação a gás inaugurada em 1872, dando mais segurança às estreitas ruas do Triângulo.7

Na administração de João Theodoro Xavier de Mattos, observa-se que a preocupação com as ruas, jardins e saneamento é acompanhada com a atenção dada à polícia, instrução pública, hospitais e segurança, isso porque a construção desta nova cidade não poderia ocorrer apenas no âmbito material, subsidiado pelas plantações de café. Faz-se necessária a reforma das instituições sociais que darão suporte para a formação do novo cidadão, como diz C. Monarcha:

O administrador público empreende a reforma das instituições destinadas a salvaguardar a ordem moral e procede à revisão das instituições destinadas a saúde física e mental dos enfermos e com a regeneração de condutas. Mobiliza energias e realiza ações voltadas para: cadeia pública, hospício dos alienados, leprosários e instrução pública, inaugurando a Escola Normal, tornando a educação obrigatória, e fundando o Instituto de Educandos e Artífices, inspirado nas organizações militares. Promove, assim, a especialização de cada função concebida autárquica e solidária, objetivando reforçar as fronteiras internas da cidade.8

7 Um estudo sobre a iluminação a gás em São Paulo pode ser consultado em: RANGEL, R. N. A.,

Paulicéia iluminada: o gás canalizado na cidade de São Paulo, 1870-1911.

O que é uma reforma urbana? Não discutiremos aqui tão vasta questão integrada aos estudos de arquitetura, geografia, antropologia e também da história social, apenas situar que de João Theodoro Xavier de Mattos a Francisco Prestes Maia, aqueles que a fizeram tiveram como intuito primário o social, o estético, o segregacionista, e não a pessoa, todas as pessoas que na cidade habitam.9 A administração pública, ao operacionalizar uma obra na cidade, tinha por vezes o olhar voltado para as exigências da elite dominante, buscando atender seus interesses, e não o que a população necessitava para ter uma qualidade de vida razoável.

C. Monarcha comenta que as mudanças na cidade ocorridas após 1870:

... impõem um ritmo inexorável ditado pela cadência da máquina a vapor, que penetra o interior da cidade e da moradia, procurando sobrepor-se ao tempo da natureza e da Igreja.10

Aponta para uma reforma urbana em que a natureza deveria ser alterada, drenada ou aterrada sem o mínimo respeito a sua configuração topográfica. Quanto a esses interesses, não houve escola de engenharia que avisasse que não se constrói uma cidade sobre a várzea, que os rios correm para algum lugar, ou que todo ano chove. O interesse da administração pública, isto é, a questão política de cada momento, se sobrepunha às abordagens técnicas preconizadas para a reforma urbana da cidade.

O aumento populacional começa sua ascensão. Os imigrantes estrangeiros, cujo destino inicial é o interior do Estado, passam a fazer um caminho de retorno à Capital; imigrantes dos outros Estados para cá também acorrem, e, na reforma urbana que se impõe na administração do Estado, a vida pública se sobrepõe aos interesses dessa crescente população.

9 Sobre essa temática: GADELHA, N. d’A. F., São Paulo, modernidade e centralidades espaciais:

intervenção pública e intervenção urbana; HUGHES, P. J. A., Periferia: um estudo sobre segregação socioespacial na cidade São Paulo; CALDEIRA, T. P. do R., Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo; e SILVA, M. N., da. Nem para todos é a cidade: segregação urbana e racial em São Paulo.

No outro extremo do País, em setembro de 1865, Manaus recebe a expedição científica chefiada pelo suíço Louis Agassiz com sua esposa, Elizabeth Agassiz, como relatora. Registrou assim sua impressão sobre a cidade:

Que poderei dizer da cidade de Manaus? É uma pequena reunião de casas, a metade das quais parece prestes a cair em ruínas, e não se pode deixar de sorrir ao ver os castelos oscilantes decorados com o nome de edifícios públicos: Tesouraria, Câmara legislativa, Correios, Alfândega, Presidência. Entretanto a situação da cidade, na junção do rio Negro, do Amazonas e do Solimões, foi uma das mais felizes na escolha. Insignificante hoje, Manaus se tornará, sem dúvida, um grande centro de comércio e navegação.11

Vários dos cronistas, biógrafos, viajantes e escritores que se reportaram a São Paulo, onde em 1894 se instalou uma Escola Politécnica, não o fazem com o otimismo acima descrito com o qual Elizabeth Agassiz se refere a Manaus.

Vista como ilhada geograficamente, no alto de uma colina, cercada de rios e vales, distante do litoral, que para ser alcançada necessitava de se transpor a Serra do Mar, sendo há séculos um pequeno vilarejo, apesar das reformas no governo de João Theodoro Xavier de Mattos, não se descortinavam para São Paulo promessas de um grande futuro. A cidade vivia assolada pela precariedade no abastecimento de água, e as inundações no Rio Tamanduateí e da Várzea do Carmo eram constantes. Ao se observar a fisionomia urbana que surge dos bicos de pena do século XIX, vielas estreitas, becos lamacentos, descontinuidade no calcamento, casebres desprovidos de harmonia, parcos sobrados, o tom cinzento que se fazia notar nas fotos de M. A. de Azevedo, impõe-se o questionamento a respeito da participação do poder público na estruturação deste aparente caos.12

Todavia, se assim ela é retratada por alguns, em documentos oficiais pode- se ler outra perspectiva do ano de 1894. O Relatório da Secretária do Interior assim a descreve:

11 Agassiz, L., E. Agassiz, Viagem ao Brasil, p. 247-248. Esta previsão logo tornar-se-ia verdadeira

com o advento do período áureo da borracha.

A importancia que a cidade de S. Paulo tem alcançado, já por ser a Capital de um dos maiores e mais ricos Estados da União, já pela sua prosperidade e extraordinario desenvolvimento material e intellectual...13

Enquanto estava em curso o espetáculo do crescimento paulistano, ocorreu a mudança do regime imperial para o republicano que provocou instabilidade política em algumas regiões do País, seja central, como no Rio de Janeiro, sede da nova República, onde adeptos do império tentaram seu retorno, ou no interior, como no caso de Canudos, em que seguidores de Antônio Conselheiro não aceitavam o novo regime. Mas em São Paulo, que em 1875 havia sediado a Convenção de Itu, de onde lideres paulistas propunham a alteração da forma de governo do País para República, a chegada da mesma não foi sinal de perturbação, foi percebida como mais uma variável no contexto do processo acentuado de mudanças que já era cá vivenciado desde 1870. A implantação da República viria apenas tornar mais contundentes as modificações já em decurso no Estado.14

A partir de 1870, tendo então como marco a administração de João Theodoro Xavier de Mattos, São Paulo começa a deixar sua condição de patinho feio dentre as capitais das províncias do Império, e passa a alterar com velocidade sua fisionomia. O responsável por isso é a rubiácea denominada café, elevada a produto de exportação, trazendo para o Estado e sua Capital somas cada vez maiores de recursos financeiros. Essa expansão material não é de imediato acompanhada por um desenvolvimento intelectual e político, e na esfera dos

13 SÃO PAULO (Estado), Relatório da Repartição de Estatística e Archivos do anno de 1894, p.

176.

14 Destoando do crescimento paulista, o cenário político-econômico nacional não era de todo

promissor. Em 1898, Prudente de Morais deixa a presidência da República e também um país falido financeiramente com a primeira crise internacional do café e o Mil-réis numa acentuada desvalorização. Seu sucessor, Campo Sales, adota como meio para enfrentar a crise o antigo e já usual artifício de pedir empréstimo em Londres com os Rothschild, banqueiros oficiais do Brasil. Durante sua administração, obteve-se algum sucesso na questão da valorização da moeda local, mas à custa de “... uma coletividade cada vez mais indigente”, o que fez com que no final de seu governo, entregando o cargo em 1902 para Rodrigues Alves recebeu congratulações por parte dos ingleses, mas sem aprovação do comércio e indústria local que enfrentavam mais uma crise. Cf. COSTA, A. M. da, SCHWARTCZ, L. M., 1890-1914, No tempo das certezas, p. 65.

diversos poderes públicos vai-se construindo uma nova cara para a cidade. Não podemos dizer que esse processo de transformação urbana paulista ocorreu apenas no decorrer dos anos seguintes. Num certo sentido, perdura até os dias de hoje.

A agilidade da transformação pela qual passava a cidade é observada nos diversos setores da administração pública. Arthur Motta, diretor da Repartição de Águas e Esgotos, em 1909 no seu quarto relatório, afirma que o ano transcorreu dentro da normalidade, mas que não lhe era:

... permitido acompanhar o gráo notável de desenvolvimento da cidade. Houve sensível augmento de construcções de prédios, sem que as obras por conta de capital correspondessem á expansão urbana da cidade.15

No entanto, como por si só já é translúcido, mesmo que não faça parte de vários textos, não só de melhorias, benfeitorias e grandes inaugurações vivia a capital paulista no entardecer do século XIX. Assim como sugiram as zonas nobres, Higienópolis e Campos Elíseos, os bairros operários também surgiram, por vezes em regiões insalubres, como o Brás e o Bexiga.16 Na São Paulo que se

modernizava, havia falta de moradia, os aluguéis alcançavam números assombrosos, o transporte coletivo não atendia a todos em número e em extensão de linhas, as epidemias grassavam ciclicamente sobre todos, faltavam trabalho, áreas de lazer, alimentos para muitos, e a população sofria com as repetidas enchentes, motivo de várias e continuas charges nos jornais, em vários pontos da cidade. Assim descritas, as questões acima pareciam compor uma crônica do alvorecer do século XXI, mas aqui reportavam-se de modo fidedigno ao entardecer do século XIX quando foi criada pelo governo do Estado a Escola Politécnica. De forma alguma, ela resolveria por completo todas essas problemáticas; entretanto, essas questões ligadas à reforma urbana estavam na raiz da criação desse instituto de tecnologia, e por isso se fariam presentes em

15 SÃO PAULO (Estado), Relatório da Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo, de 1909, p. 3. 16 AB’SÁBER, A. N., São Paulo: Ensaios Entreveros, p. 137-154.

sua sala de aula, e seriam discutidas em seus periódicos, como foi documentado na primeira parte dessa pesquisa.

O surgimento da Escola Politécnica situa-se na São Paulo da República Velha que herdou do período imperial a estrutura agrária que tinha como suporte os cafezais, fator provocador de um contínuo aumento na balança comercial, que não só propiciou, mas sim tornou necessária a transformação em todo o Estado. Uma delas, já em andamento, era a da origem da mão-de-obra, que, antes predominantemente escrava, agora contava com uma participação cada vez mais crescente de imigrantes das mais distintas nacionalidades que aqui chegavam e, por vezes, não se dirigiam às plantações, vindo a permanecer na cidade.

Outra mudança foi o surgimento dos novos centros de poder político em São Paulo e Minas Gerais, descentralizando o foco do Rio de Janeiro. A construção dessa nova articulação geopolítica se fez possível pela adoção, na Constituição de 1891, do regime federalista que deu maior autonomia aos Estados, somando-se as conquistas adquiridas pelos mesmos na esfera econômica. Nesse quadro, São Paulo foi particularmente privilegiada, como afirma B. Fausto:

Com o advento da República, a hegemonia da burguesia do café se estende do nível estadual ao nível nacional, através de um breve processo de lutas, onde os opositores se concentram sobretudo no estrato militar [...] a Constituição estabeleceu a ampla autonomia estadual, com a possibilidade de os Estados contraírem empréstimos externos e contarem com força militar próprias. Na distribuição de rendas, atribuiu os impostos de exportação aos Estados-membros, garantindo, assim, a recita das unidades maiores e em especial de São Paulo.17

O crescimento industrial do País, por exemplo, começou a despontar como marco necessário à sua modernização, muitas vezes ligada à exploração de uma matéria-prima básica. A borracha promoveu surto de desenvolvimento em