Dos projetos modernos aos enclaves
2.5 Águas Claras: elementos do projeto urbanístico e
intencionalidades
O Plano de Ocupação e Uso do Solo já indicava as principais diretrizes que deveriam pautar o projeto do bairro, das quais algumas não seriam, como se poderá constatar ao fim da análise, seguidas. Como menciona- do, a destinação da área foi alterada de uso fundamentalmente comer- cial e industrial para o uso residencial e, no projeto, para uso misto, ain- da que com predominância de habitações. Posteriormente, em 2009, o PDOT – Plano Diretor de Ordenamento Territorial – confirmou em definitivo a predominância do uso residencial em Águas Claras, sim- plesmente referendando a realidade há muito consolidada no bairro. No que tange a proposta do projeto urbanístico de Águas Claras, al- guns elementos são especialmente marcantes em sua elaboração e idea- lização. De acordo com o arquiteto e urbanista Paulo Zimbres em con- versa informal62 concedida para esta pesquisa, o Plano Piloto de Brasília
62 Em companhia da aluna Karoline Cunha, orientanda de ProIC envolvida na pesquisa, tive a oportunidade de encontrar Paulo Zimbres e com ele con- versar sobre Águas Claras. Foi nesse mesmo episódio que o arquiteto cedeu a apresentação “Projeto Águas Claras – um exercício de urbanismo no Distrito Federal”. Na ocasião, conversamos sobre suas intenções no projeto, a história do bairro e o projeto em si. A conversa transcorreu de forma informal e Zim-
possuía uma “malha urbana muito difusa” e essa característica deveria ser eliminada no projeto de Águas Claras. Esse aspecto, considerado por ele problemático, foi, entre outros, o que mais fortemente quis atribuir ao projeto. Isso se daria na retomada da conformação de quarteirões, na redução de espaços vazios e de volumes soltos na malha urbana. Enfim, visava retomar a conformação urbana das cidades ditas tradicionais. No Memorial Descritivo do Bairro de Águas Claras63, é possível encon- trar as primeiras informações quanto ao que se propunha para o bairro. Primeiramente, a organização da ocupação ao longo da linha do metrô, a conformação de quarteirões tradicionais e a presença da diversidade de usos:
O bairro se desenvolve basicamente ao longo das li- nhas do Metrô, com a constituição de um sistema binário de vias de circulação e o lançamento de quar- teirões mistos para residências, comércio e serviços. Paralelamente a estes quarteirões foram dispostas grandes quadras residênciais. Visando o favoreci- mento das atividades econômicas foi permitida uma grande flexibilidade quanto aos possíveis usos do solo na faixa de quarteirões situados ao longo do Metrô. (Zimbres e Reis Arquitetos, 1991, pp. 6, sic.)
bres não quis que fosse gravada. 63 (Zimbres e Reis Arquitetos, 1991)
Além desses elementos, adiante trata das potencialidades volumétricas e de uma almejada centralidade para o bairro. Novamente, lançam- -se como recursos para uma retomada dos elementos da cidade dita tradicional.
A criação de um meio ambiente construído rico e ameno levou à adoção de tipologias variadas, tra- dicionalmente utilizadas em várias cidades brasi- leiras. Tratou-se também de assegurar uma grande liberdade de concepção para os futuros projetos das edificações que serão aí construídas. Desta forma combinou-se de maneira feliz virtudes das cidades tradicionais com conquistas do urbanismo contem- porâneo.
O comércio estará concentrado especialmente na área central do bairro, nos centros secundários loca- lizados nos entornos de estações do metrô e ao longo de vias que constituem o sistema binário, onde tam- bém se localizarão equipamentos públicos, postos de serviços e áreas institucionais para igrejas, associa- ções etc. (Zimbres e Reis Arquitetos, 1991, p. 8)
Ao projeto também se atribuía um foco diferenciado no pedestre, ain- da que efetivamente não esteja em completo antagonismo com o uso do automóvel. Também é importante lembrar que o metrô antecedia o projeto, mas era apresentado como uma solução bem-vinda. Fato é que a linha férrea do metrô cortava a cidade ao meio, sendo um grande vale
a céu aberto, uma divisa física. Zimbres não pareceu considera-lo um obstáculo tão severo e sugeriu a construção de pequenas pontes exclusi- vamente pedonais para transpô-lo, algumas das quais poderiam abrigar comércio.
Atenção especial foi também dada a circulação de pedestres com a adoção de amplas calçadas que per- mitirão a locomoção segura e amena de pedestres. Foi também prevista a construção de passagens de pedestres sobre as ou sob as linhas do metrô. Algu- mas destas passagens, a maneira das velhas pontes medievais europeias poderão eventualmente, onde e quando isso for viável, ser projetadas de forma a constituir conjuntos de pequenas lojas e espaços para serviços e atividades comerciais. (Zimbres e Reis Arquitetos, 1991, pp. 9, sic.)
De acordo com Zimbres, buscava-se a valorização do pedestre, o aden- samento populacional e a consolidação de uma cidade multifuncional, na qual comércio, trabalho, lazer e habitação estivessem misturados no tecido urbano. Outro aspecto importante era a construção de uma centralidade no bairro, inclusive com características morfológicas di- ferentes das presentes no restante da área do projeto. Todos esses ele- mentos constam na argumentação que justifica e elucida as diretrizes assumidas para o projeto e puderam ser verificados não só no Memorial Descritivo, como de maneira ainda mais contundente na apresentação de Águas Claras elaborada por Zimbres cujo sugestivo título é “Projeto
Águas Claras – um exercício de urbanismo no Distrito Federal”64.
Em síntese, aponta Williams ao discutir o projeto de Águas Claras:
A nova cidade se estendia entre duas avenidas de 4,5 km de extensão, levemente curvas, e entre elas, uma linha de metrô correndo no subterrâneo. As duas avenidas abrigariam lojas e instalações culturais no nível térreo, e residências nos andares superiores. Haveria um total de 45 praças públicas e um parque ecológico; em outras palavras, haveria um domínio público coerente. As referências visuais do plano de Águas Claras incluem Nova Iorque, Milão e Edim- burgo, sendo esta a cidade onde Zimbres estudou no início dos anos 70. Incluem ainda o próprio Pla- no Piloto, que o arquiteto considera como espaço fundamentalmente urbano, ainda que um tipo de espaço que raramente ratifica sua urbanidade. Zim- bres defende a densidade, a mistura de usos, a movi- mentação de pedestres, a restrição a carros particula- res, a centralidade do transporte público e a vida nas ruas. Utilizando as tradições continentais europeias e a história de Brasília, ele defende uma mistura de usos em uma densa ‘rede’; outros elementos signi- ficativos que auxiliariam esta conquista incluíam
64 (Zimbres, 1991)
comércio de rua e uma futura universidade. Em ter- mos puramente locais, Águas Claras pode ser vista como um bolsão protegido do urbanismo europeu, contudo, em uma expansão basicamente indiferen- ciada. (Williams, 2007, p. 2)
Ainda que reconheça valor no urbanismo do Plano Piloto e com ele se relacione, se torna patente a crítica ao projeto de Costa, da qual está im- buído o projeto capitaneado por Zimbres. Isso se expressa nas referên- cias que adotou, no discurso que expressou e no próprio projeto. Em Águas Claras, são características centrais no projeto a mistura de uso residencial e comercial, retomando o modelo de rua-corredor das cida- des tradicionais, os gabaritos variados e mais elevados65 do que no Plano Piloto de Brasília e a constituição de uma malha urbana mais compacta, com menos permeabilidade e menos vazios, retomando a estrutura de quarteirões. Esses elementos compõem a concepção do bairro projeta- do por Zimbres em razoável consonância, como fica também patente na análise de Williams, com os princípios do chamado Novo Urbanismo, ainda que se encontrem amalgamados com outras proposições.
Na Figura 16 é possível ver a forma pela qual o bairro foi pensado ao longo da linha do metrô. Além disso, sua área é majoritariamente re- sidencial ou mista. Mesmo a própria área central não deixaria de abri- gar moradores. Apesar disso, o zoneamento não deixa de apresentar
65 Originalmente, Águas Claras poderia abrigar edifícios com gabarito variado alcançando até 12 pavimentos. (Jatobá, 2010)
setorização – ela não desapareceria em absoluto, apenas seria mais limi- tada e se caracterizaria por menos separação entre residências, comércio e trabalho.
Como representação do que se projetava, os croquis e perspectivas apresentados por Zimbres são bastante elucidativos. Demonstram uma cidade verticalizada, com gabaritos variados, a conformação de quarteirões, bulevares bastante arborizados e uma área central marcada por uma enorme praça e edifícios de altura mais acentuada. De acordo com a apresentação66 elaborada por Paulo Zimbres, o bairro foi pen- sado para atender um devir focado nos pedestres, mas, mais que isso, no estabelecimento de uma vivência urbana similar àquela comumente atribuída às cidades tradicionais. Assim, como previamente menciona- do, retomar o padrão da rua-corredor foi um aspecto fundamental da proposta, o que também se vê nas ilustrações.
Há, por fim, mais uma característica do planejamento de Águas Claras que deve ser destacada. Tratava-se, desde o princípio, de uma área desti- nada à ocupação por uma população de classe média, diferentemente do que ocorreu na maioria dos projetos urbanísticos do Distrito Federal, cuja destinação comum era a de abrigar – ou propiciar a transferên- cia de, como no caso de Ceilândia – populações de baixa renda. Para Richard Williams, isso não fica claro somente na própria demanda do governo, mas também no projeto, quando sob escrutínio mais atento.
66 (Zimbres, 1991)
Zoneamento proposto para Águas Claras pelo escritório Zimbres e Reis Arquitetos Associados (1992).
Fonte: Apresentação “Projeto Águas Claras”, imagem cedi- da do arquivo pessoal de Paulo Zimbres.
Croqui de Águas Claras elaborado pelo escritório Zimbres e Reis Arquitetos Associados (1992).
Fonte: Apresentação “Projeto Águas Claras”, imagem cedi- da do arquivo pessoal de Paulo Zimbres.
Figura 17: Croqui de Águas Claras elaborado pelo escritório Zimbres e Reis Arquitetos Associados (1992).
Fonte: Apresentação “Projeto Águas Claras”, imagem cedi- da do arquivo pessoal de Paulo Zimbres.
Figura 18 e Figura 19:
A cidade é explicitamente da classe média, e seu do- mínio público é construído para enquadrar a expo- sição pública do burguês pró-Europa em seus mo- mentos de lazer: o passeio com a família, o café do bar da esquina, o bate papo solto com conhecidos na rua, o burburinho da multidão urbana. As ‘boas maneiras’ essenciais deste lugar e o plano racional são, por assim dizer, representantes um do outro. Os principais referenciais urbanos europeus de Zim- bres – os jardins da Rua Princess em Edimburgo e a Galeria Vittorio Emmanuele em Milão – expressam claramente esta política de classe, como também a frequente menção a Curitiba, única cidade brasileira que conseguiu cultivar um urbanismo neo-tradicio- nal em sua área central. (Williams, 2007, p. 2)
Não se tratou, porém, de uma política exclusiva do projeto, ainda que nele se torne explícita. A intenção de estabelecimento de uma área a ser ocupada pela classe média partira do governo, reproduzindo o mo- delo classista e segregador de ocupação do território que já adotara em diversas situações. O outdoor instalado pelo governo com publicidade referente a Águas Claras torna difícil entendimento diverso (Figura 20).
Outdoor com propaganda da implantação de Águas Claras. Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal.