Dos projetos modernos aos enclaves
2.4 O Projeto Águas Claras: razões de seu surgimento
Ao longo de toda a sua existência, o Distrito Federal se desenvolveu a partir do modelo de cidade jardim, no qual cinturões verdes deveriam ser mantidos entre os núcleos urbanizados. Tratava-se também de uma espécie de cordão sanitário que protegeria a área tombada e auxiliaria no modelo de expansão fragmentada que o governo vinha implemen- tando. Isso gerou hiatos no território, que dificilmente pode ser enten- dido numa plena continuidade de malha, visto abundantes espaços residuais e as longas rodovias que conectam os bairros – reforçando a afirmação de que o modelo rodoviarista conduziu o desenvolvimento urbano e territorial da região.
Nesse esteio, o projeto de Águas Claras nasce de uma demanda
governamental alimentada por duas principais razões48: a consolidação de uma ocupação urbana densa que viabilizasse a construção da linha de metrô conectando as regiões de Taguatinga e Ceilândia ao Plano Piloto, suprindo também a crescente demanda habitacional de classe média, e o atendimento às diretrizes do planejamento urbano regional que propunha a instalação de um pólo econômico na região. De acordo com Aldo Paviani49, há uma terceira razão não declarada: a construção de Águas Claras também serviria para injetar um grande volume de di- nheiro na economia, alimentando o setor da construção civil.
Importante destacar que a demanda para ocupação da área destinada a Águas Claras advinha de um conjunto de diretrizes governamentais estipuladas50 no PEOT – Plano Estrutural de Organização Territorial – de 1977, documento produzido pela CODEPLAN – Companhia de Planejamento do Distrito Federal –, que apontava a necessidade de despolarização das atividades concentradas no Plano Piloto de Brasília, buscando evitar a “congestão do centro”51. Esse documento, entretan- to, previa uma ocupação bastante distinta daquela que seria proposta pelo governo e consolidada no Projeto Águas Claras52.
Originalmente, o PEOT de 1977 trazia como sugestão para a área a
48 (Campanhoni, 2013) 49 (Paviani, 2010)
50 (Paviani, 2010); (Campanhoni, 2013) 51 (Campanhoni, 2013)
instalação de atividades comerciais diversas, principalmente dos setores terciário e quaternário da economia53 como gráficas, escolas, restauran- tes, universidades, centros de pesquisa, laboratórios, etc. Para isso, pre- via edifícios de baixa altura, com até três andares, sem abarcar a função residencial. Logo nos primeiros passos com vistas à ocupação da área, já na década de 90, isso não aconteceu. O governo acaba por solicitar um bairro residencial, mas o escritório contratado extrapola o que lhe é pedido e propõe a multifuncionalidade, advogando a necessidade de misturar as funções residencial e comercial, principalmente. Explica o professor Richard Williams ao analisar o projeto de Águas Claras:
Águas Claras teve início em 1991, em um plano di- retor solicitado pelo Governo do Distrito Federal para o arquiteto Paulo Zimbres, baseado em Bra- sília. O arquiteto tinha sido chamado para planejar um bairro dormitório; no entanto, em vez disso, ele trabalhou para que o novo assentamento fosse um denso elemento de urbanismo na tradição europeia, projetando com base na experiência dos centros urbanos tradicionais de cidades brasileiras e euro- peias. De forma bem otimista, nomeou o plano de “Um exercício na urbanização do Distrito Federal”.
53 O setor terciário da economia contempla atividades de prestação de serviços, mas também de comércio de bens. O setor quaternário da economia se refere principalmente à produção e compartilhamento de informações e conheci- mentos.
(Williams, 2007, p. 2)
À época, essa demanda advinha também do fato de que o governo possuía interesse no estabelecimento do uso residencial para que fosse possível viabilizar a instalação do transporte metroviário. Era essencial torna-lo economicamente sustentável e a localização na qual Águas Claras foi instalada representava, até então, um “hiato”54 territorial no âmbito da principal massa urbana do Distrito Federal. No caso, entre Plano Piloto, Cruzeiro e Guará e as regiões de Samambaia, Taguatinga e Ceilândia, para citar as mais populosas. Além disso, a área seleciona- da rapidamente teve a destinação rural descartada, principalmente por ter sofrido com a intensa exploração de cascalho. Importante lembrar também que desde 1984 essa mesma região já vinha sendo ocupada de forma irregular, o que foi rapidamente endereçado pela gestão do DF com ações de remoção em função da instalação de Águas Claras. Antes do projeto urbanístico, em 1983, o Projeto Águas Claras55 é apro- vado e a poligonal56 na qual estaria inserido é confirmada. No ano se- guinte o sub-bairro de Águas Claras é criado, vinculado à então Região Administrativa III, Taguatinga57. Posteriormente, em 2003, Águas
54 (Campanhoni, 2011)
55 Decisão nº 46/83, Decreto nº 7.558/83.
56 Poligonal é a definição gráfica que demonstra o limite político de uma Re- gião Administrativa.
Claras foi desmembrada58 da RA de Taguatinga e ganhou administra- ção própria, tornando-se a RA XX. Curiosamente, só em 1990 a des- tinação urbana ficaria também confirmada pelo Plano de Ocupação e Uso do Solo – POUSO59 –, mesmo com a criação já efetuada.
Foi, entretanto, somente no ano de 1991 que o Governo do Distrito Federal contratou60 o escritório de arquitetura Zimbres e Reis Arquitetos Associados61 para elaborar um plano de ocupação para a nova área – lembrando: à época ainda um “sub-bairro” da RA III, Taguatinga. No ano seguinte, 1992, é concedida a autorização para que se inicie a implantação de Águas Claras. O Plano de Ocupação fica con- firmado na Lei nº 385 de 16 de Dezembro de 1992, dando a largada para a execução do projeto.
58 Lei nº 3.153/2003. 59 Decreto nº 12.898/1990. 60 (Campanhoni, 2011)
61 Ainda que se atribua a Paulo Zimbres a autoria do projeto de Águas Claras, deve-se lembrar que se tratava do líder de um escritório cuja equipe e consulto- res devem ser citados. Mesmo que Zimbres tenha atuado como principal idea- lizador, a elaboração do projeto se realizou coletivamente. Assim, é importante mencionar aqueles que contribuíram para a elaboração: Arq. Paulo Zimbres; Arq. Luiz Antônio Reis; Arq. Mitsuko Matuda; Arq. André Cobbe; Arq. Geraldo Nogueira Batista; Arq. José Renato de Carvalho; Arq. Eurico João Salviati; Adv. Clodoaldo Pinto Filho; Eng. João Lafuente de Araújo; Allan Ar- naldo de Araújo; Arq. Luis Antônio Vallandro Keating; Arq. Rosemay Leão Pimentel; Arq. Sandra Soares de Mello.
Croqui de estudo de locação para Águas Claras produzi- do pelo escritório Zimbres e Reis Arquitetos Associados (1991).
Fonte: Apresentação “Projeto Águas Claras”, imagem cedi- da do arquivo pessoal de Paulo Zimbres.
Mapa indicando as linhas do metrô construídas e a localiza- ção de Águas Claras.
Fonte: Ilustração produzida por Karoline Cunha. Figura 14:
Mapa indicando a localização definitiva (atual) de Águas Claras.
Fonte: Ilustração produzida por Karoline Cunha. Figura 15: