CAPÍTULO IV MOVIMENTOS EM CONTROLE: PROJETOS
MARÁVIA 14 ÁREA CENTRAL 2 2 1
CHOFOMBO 1 3 1 5 VASCO DA GAMA 2 1 1 4 MOATIZE 44 ÁREA CENTRAL 14 15 6 35 CALDAS XAVIER 3 1 4 ZÓBUÈ 4 1 5 MUTARARA 29 ÁREA CENTRAL 14 14 ANCUAZE 10 5 15 TETE 62 ÁREA CENTRAL 16 18 34 MARARA 14 14 CHIÔCO 3 1 4 CHANGARA 6 3 1 10 ZUMBO 10 ÁREA CENTRAL 2 5 7 ZÂMBUE 2 2 MESSANDALUZ 1 1 TOTAL 5 9 12 82 92 51 251
Imbuídos da categoria de desenvolvimento comunitário, a administração portuguesa promoveu novos debates em torno da mudança de vida da população aldeada. Conforme indicou um documento da Administração do Conselho de Moatize, de 1968, foram programados, para os aldeamentos, atividades recreativas, aulas de higiene pessoal, de hábitos alimentares (incluindo a divulgação de novos pratos), monitoração de dieta, estímulo ao aumento de frequência escolar, ensinamentos de uma “agricultura racional”, campanhas profilácticas, divulgação de conhecimentos de puericultura, entre outros. Técnicos sociais, agrários e médicos deveriam compor os quadros iniciais dos aldeamentos até que a própria população se ocupasse com a organização e manutenção das atividades, como “cursos de animadoras” para as meninas que visavam a promoção social da família rural e cursos para animadores no setor agrícola e pecuário para os rapazes. 122
Porém, tais ações, muito provavelmente, não ultrapassaram o limite textual ou estavam presentes em apenas alguns aldeamentos modelo, já que a real situação dos aldeamentos, que incluía tanto a falta de recursos como a dificuldade de acesso e circulação seguros no território, atrapalhou a execução da transformação local. Além disso, a propaganda do bem-estar não surtiu o efeito desejado, já que inúmeros grupos fugiram antes e durante a implementação dos aldeamentos. Os motivos eram variados: falta de
122 Administração do Conselho de Moatize, Administração - Secção A (Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo de Tete).
terras aráveis e água nos novos territórios, adesão aos nacionalistas ou ainda porque discordavam dos aldeamentos e se mudavam, muitas vezes, para países limítrofes e outras regiões e, sem dúvida, a configuração socioespacial implementada nos aldeamentos contribuiu para sua negação.
ARQUITETURA COLONIAL
Imagem 6: Foto aérea de um aldeamento em Tete.
Fonte: Arquivo Histórico de Moçambique (Pasta: Fotos coloniais, documento avulso).
A iniciativa de aldear a população de Tete passou a ser discutida em 1966 pelos administradores locais que avaliaram que a região, enquanto um corredor natural para o centro do país, seria um inevitável alvo da FRELIMO. Na assembleia geral realizada
naquele ano, os administradores foram incumbidos de identificar os locais que apresentassem três condições para aldear a população, em antecipação à ação nacionalista: acesso à água, disponibilidade de terras para agricultura e localização estratégica quanto ao acesso e a defesa. Porém, diante da falta de recursos necessários, a pesquisa exploratória de fertilidade dos solos ou cursos d’água que atendesse todos os aldeados, na maioria dos casos, foi substituída pela lógica militar de guerra. Não por acaso, as populações das circunscrições de Bene e Marávia, onde se iniciou a guerra em Tete, foram as primeiras a serem aldeadas.
Contudo, antes da edificação dos aldeamentos, o já mencionado projeto de ruralato fora criado em conjunto com o Gabinete de Urbanização Colonial (GUC). Esse órgão foi responsável por produzir uma série de documentos e projetos arquitetônicos para uma reestruturação nas colônias, incluindo a questão das habitações (Milheiro, 2014). Também em 1944, a Exposição de Construções nas Colônias Portuguesas, realizada no Instituto Superior Técnico, evidenciava a importância da arquitetura como símbolo da “civilizadora” presença portuguesa. Um artigo dedicado à Exposição, encontrado no Boletim Geral da Colônias de 1944, descreveu como as maquetes, mapas e centenas de projetos de portos, aeródromos, hospitais, hotéis, planos urbanísticos, sanitários foram expostos em diferentes salas. Além de percorrer esses espaços, o artigo destila elogios aos esforços de engenheiros e arquitetos para empregar a arquitetura portuguesa no terreno colonial. Deixando claro a importância das construções nas colônias, o artigo transcreve as palavras de Marcelo Caetano, o qual, na abertura da exposição, profere que “Os espaços a encher são vastíssimos; demorada e persistente, contínua sobretudo, tem de ser a nossa ação construtiva” 123.
A Exposição das construções certamente se inspirou na Exposição do Mundo Português, realizada em 1940, que já espelhava a relação direta entre poder político e arquitetura. Segundo Omar Thomaz (2002), no grande pavilhão da Seção Colonial dedicado às missões católicas, o “estilo português” da casa missionária foi apresentado como símbolo de simplicidade, recolhimento e beleza. Para Thomaz, o propósito do pavilhão colonial não era de retratar apenas uma possível missão portuguesa do ultramar e sim “criar um estilo que pudesse servir de modelo às possíveis construções futuras” (Thomaz, 2002: 266).124 Além da casa da missão, foram construídos protótipos da casa do colono, da casa indígena
123 Exposição das Construções na Colônia. Boletim Geral das Colónias. XX – 233 PORTUGAL. Agência Geral das
Colónias, Vol. XX - 233, 1944, p.10. http://memoriaafrica.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N233&p=10. Acessado em 25/05/2016.
124 Na Exposição do Mundo Português, comemorou-se os 800 anos da independência e os 300 anos da sua restauração.
Secção Histórica, Padrão da Descoberta, Seção da vida popular, Centro regional, Aldeias Portuguesas, Zona comercial e Industrial foram algumas sessões que compuseram o grandioso evento.
e da casa portuguesa, com característica rural do sul de Portugal, indicando que “o imaginário da arquitetura popular do núcleo das aldeias portuguesas cruza-se com a proposta para os futuros colonos europeus em África” (Milheiro, 127:2013).
Nesse sentido, a arquitetura recriada na cidade cenográfica de 560 mil metros quadrados na Exposição do Mundo Português deveria enaltecer o “espírito português” ou a “especificidade” do empreendimento lusitano, caracterizado pela simplicidade das aldeias rurais e suas “casas portuguesas”, pela fé cristã e pelo ímpeto dos descobrimentos. Uma história de contatos e uma consequente “vocação” para civilizar pessoas. Não por acaso, o pavilhão das missões foi posicionado justamente entre as aldeias com povos de Guiné Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé, composto por cerca de 300 indígenas trazidos de suas terras para reproduzir seus usos e costumes diários para o deleite dos visitantes.
Para coroar a importância da arquitetura, em 1948, Lisboa sediou o I Congresso Nacional de Arquitetura, cujos debates giraram, principalmente, em torno dos “problemas da habitação” e na sugestão de construção de bairros populares em Portugal. Ao discutir o citado congresso, Tânia Ramos (2011) analisa uma rede de relacionamentos políticos e sociais existente entre arquitetos, chefes de governo, ministros, diretores, intelectuais e engenheiros no Estado Novo português. Nessa rede, sobressai o nome de Cottinelli Telmo, o arquiteto responsável pela Exposição do Mundo Portuguê,s e Duarte Pacheco, o Ministro das Obras Públicas e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
O próprio Gabinete Urbanístico Colonial de 1944, formado por equipes multidisciplinares de arquitetos, engenheiros, peritos em medicina tropical e climatologia, iniciou seu trabalho com projetos de habitação para funcionários públicos, planos urbanos e equipamentos básicos, nomeadamente na área da saúde. Em 1952, o recém-nomeado Gabinete de Urbanização do Ultramar (1952-1957) ampliou os programas de Instalações dos Liceus e Escolas do ensino profissional, segundo uma orientação arquitetônica funcionalista, como a Escola Técnica Elementar de Nampula, ainda que também tenham vigorado algumas construções de edifícios monumentais evocando a metrópole.
Em 1958, as funções do Gabinete de Urbanização do Ultramar passaram para a Direção de Serviços de Urbanismo e Habitação (DSUH), sob jurisdição da Direção-Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar (DGOP). Nesse período, marcado pelas pressões nacionalistas e pelas críticas internacionais sobre a colonização, os projetos arquitetônicos buscaram diminuir a alusão representativa da metrópole em uma tentativa de “africanizar” a própria intervenção portuguesa e promover a integração das
culturas locais através de projetos em torno da chamada “tradicional casa africana”. Em 1962, o arquiteto Mauro de Oliveira lançou a obra Problemas Essenciais do Urbanismo do Ultramar e, logo após, conduziu o Plano Urbano Diretor da cidade moçambicana de Quelimane (1963-1964), onde a casa foi destacada como um meio civilizador. Para Oliveira, “A habitação, quando organizada em função de um consciente planeamento, é o primordial elemento de convívio, e como a convivência é fundamental para o indivíduo, julgamos este fenômeno como primordial em qualquer aspecto do habitat” (Oliveira, 1965:70).
Por “consciente planeamento” entedia-se a lógica ocidental de organização do espaço. Contudo, os pesquisadores Curto e Cruz (2015) apontam a desconfiança sobre o tema do reagrupamento das populações em autores como Correia de Araújo, em sua obra Aspectos do desenvolvimento económico e social de Angola, publicado pela Junta de Investigações do Ultramar, em 1964. Indicando que o colonialismo não formava um corpo técnico homogêneo, Correia de Araújo rejeitou uma arquitetura geométrica para tais espaços, sugerindo que:
Tal concentração deverá, antes, basear-se nas tradições das mesmas populações, nas suas aspirações, no condicionalismo do meio ambiente, e ser precedida de uma adequada campanha informativa, que poderá evidenciar aos olhos dos respectivos habitantes as vantagens que lhes poderão advir de tal reagrupamento. Se surgirem resistências, ou não se conseguir despertar o entusiasmo desejado, o melhor será aguardar e educar com paciência. (Araújo apud Curto e Cruz, 2015:152)
Com o despontar da guerra de Angola, em 1961, e de Moçambique, em 1964, “a paciência, educação e informação” sobre tais projetos, assim como o estudo de técnicas construtivas locais, pouco se concretizaram, sendo substituídos por aqueles que atendessem diretamente os fins militares, a exemplo dos aldeamentos. Desse modo, os aldeamentos seguiram uma lógica militar pragmática que privilegiava questões de acesso e defesa. Programados para abrigar uma média de 1000 pessoas, as circunstâncias da guerra apressaram a aglomeração de pessoas em média 20 vezes mais que os antigos aglomerados familiares. Os aldeamentos da parte central do Conselho de Macanga, em Tete, reuniram, no ano de 1969, cerca de 3364 pessoas em Zangaia e 3344 em Chioco (Coelho, 1993).
O perfil extremamente militarizado de tais espaços se fez sentir nos arames farpados e minas terrestres que “protegiam” os aldeados, torres de vigilância e ação de diferentes forças como polícias do distrito, tropas do exército e sobretudo as milícias comandadas pela Organização de Voluntários (OPV) que agiam a nível interno dos aldeamentos. Todos os
que viviam nos aldeamentos deveriam ser registrados pela administração local e portar cartões de identidade especialmente detalhados. Suas casas deveriam ser numeradas e sua mobilidade controlada. Com isso, entradas e saídas eram submetidas a uma série de procedimentos burocráticos. Todavia, a amplitude desse controle em um latente contexto de guerra, sem dúvida, criou grandes dificuldades para os comissários distritais e administradores locais no constante trabalho de coleta de dados.
Seguindo um padrão urbano, Coelho (1993) descreve os aldeamentos ruas principais largas, com uma média de 20 metros de largura, e as ruas secundárias cerca de 10 metros. Nesse reordenamento espacial as famílias aldeadas passaram a ter direito a 0.5 hectares para a constituição de suas machambas, sendo que anteriormente utilizavam cerca de 5 hectares. Os lotes residenciais tinham 600 m² por família “nuclear” e os polígamos tinham direito a um extra de 300 m² por esposa adicional, a mesma área concedida a homens solteiros. Os régulos tinham direito a mais terras, em geral, um lote dobrado e é interessante verificar como a administração colonial, teoricamente contrária às práticas locais, cedendo mais terras aos polígamos, acabou por legitimar essa forma de matrimônio, enquanto que, na questão da disposição espacial dos aldeados, os ditames “civilizados” desconsideraram qualquer prática de habitação costumeira local. Essa ação demonstra que as ações coloniais não foram uniformes.
A imagem abaixo deixa evidente o formato retilíneo do espaço, dividido em sucessivas quadras e lotes, muito diferente do padrão circular e não geométrico dos antigos locais. Desde os projetos e croquis das missões católicas do início do século XX, em Moçambique, que se observa o apelo ao retangular, ao retilíneo, considerado mais racional. Analisando o croqui da Missão do Chai-Chai, apresentado pelo Padre Daniel da Cruz em 1910, Zamparoni (2000) observa a estratégia de instituir a lógica colonial cristã frente ao universo “pagão circundante”, uma vez que:
O grau de civilização passava a ser medido por esta capacidade que tinha o indivíduo para construir ou ao menos morar em casas quadradas ou retangulares, construídas em ruas retas. As palhotas deveriam ser abandonadas; representavam o atraso, pareciam estar distribuídas de forma caótica pelo território, eram mal iluminadas, a circulação de ar em seu interior era escassa e os materiais construtivos empregados eram frágeis e de fácil deterioração. As casas retangulares, pelo contrário, contavam com janelas para a entrada de luz e a circulação de ar – a mesma lógica que orientava a reestruturação urbana – e, sobretudo, para garantir a privacidade e a propriedade, com portas e cadeados, cujo uso era incentivado pelos missionários. (Zamparoni, 2000: não paginado)
No caso dos aldeamentos, a mesma lógica retangular, defendida no croqui da missão de Chai Chai, induziria o abandono dos “usos e costumes” locais. Ou seja, a nova casa deveria representar a “nova vida” e os “novos hábitos”, como evidencia o memorial Obstáculos verificados na concessão de créditos a agricultura das regedorias encontrado no Arquivo do Gabinete do Plano do Zambeze. Segundo esse documento, as palhotas deveriam ser substituídas através da “construção de vedações separatórias dos talhões residenciais”125, além do estímulo à construção de compartimentos para banho e “a substituição gradual das habitações circulares por casas retangulares de maior área, compartimentadas e com melhores condições de arejamento e luminosidade”.126
A adoção de uma família monogâmica cristã com quartos separados, a distribuição de um lote destinado à família nuclear em um espaço vigiado por milícias e tropas, buscavam barrar o movimento nacionalista e adotar um discurso civilizatório. Tal discurso se fez evidente também na arquitetura dos aldeamentos e na organização “racional” de seus espaços, conforme atesta a imagem abaixo. Porém, ao mesmo tempo em que se buscava transformar o circular no quadrado, como algo pretensamente mais civilizado, o aldeamento privilegiava o polígamo, concedendo-lhe mais terra. Ou seja, o colonialismo foi algo poroso e fraturado e não absoluto em suas práticas, como mostrou O’laughlin (2000) ao falar dos limites do indigenato.
125Desenvolvimento Geral da Região do Zambeze (Memorial: obstáculos verificados na concessão de créditos a agricultura
das regedorias. Arquivo do Gabinete do Plano do Zambeze). Pasta 67, sem data.
Imagem 7: Casas em Aldeamento Colonial na Província de Tete (sem data). Fonte: Arquivo Histórico de Moçambique (Pasta: Fotos coloniais, documento avulso).
Mesmo com pouca terra cedida no espaço dos aldeamentos, a administração portuguesa previu um desenvolvimento econômico através da introdução de culturas de mercado como amendoim, girassol, tabaco ou algodão. Não obstante os planos de produção, não era permitido que os campos agrícolas ultrapassassem 4 km de distância dos aldeamentos, reduzindo ainda mais a disponibilidade de terras. Além desses elementos complicadores para a produção e sobrevivência dos agregados familiares, os aldeamentos poderiam sofrer mudança de lugar, como no caso dos aldeamentos de Namuera e Túmpuè, na circunscrição de Marrupa, segundo informa uma documentação confidencial do SCCIM localizada no arquivo da Torre do Tombo. Na carta, enviada em 8 de janeiro de 1970 pela administração de Vila Cabral ao governador do Distrito, justifica-se nova transferência de populações devido ao receio de colaboração com inimigos.127 A vida nos aldeamentos implicava, portanto, em um misto de vigilância, temor e falta de liberdade.
Outro problema causado pela remoção de pessoas para os aglomerados foi a junção de diferentes autoridades tradicionais em um mesmo território. Sobretudo entre 1971 e 1972, quando o número de aldeamentos cresceu, não era difícil encontrar dois ou três
127 Serviço de Centralização e Coordenação da Informação de Moçambique. (Arquivo da Torre do Tombo).
régulos ou chefes de grupo em um único aldeamento. Muitas famílias foram obrigadas a conviver com pessoas que desconheciam. Colheitas inteiras foram abandonadas e a simbologia da terra, como espaço de cultivo com os ancestrais, foi afetada. Em suma, a antiga terra constituída enquanto um espaço para a colheita, socialização, culto, casas, currais, árvores e aves foi substituída por um espaço formatado por cercas de arame e circundado por minas terrestres. Soma-se a isso a falta de segurança, uma vez que a comida insuficiente obrigou os moradores a irem às antigas machambas, sob escolta militar, o que representava um grande risco de ataque dos nacionalistas. Todos esses elementos incentivaram o abandono, a fuga, e a negação dos aldeamentos.
Portanto, o apelo para a transformação das casas em um formato retilíneo, a otimização do trabalho e a reorganização familiar foram componentes fundamentais para gerar a urbanidade que se pretendia e o controle que se esperava. Os arquitetos partidários de uma ciência colonial indicavam que a assimilação ao modo de vida europeu não se faria apenas através de um desenho arquitetônico e sim por intermédio da adesão aos modos de vida europeus, como a aquisição de mobiliário formado por mesas, camas e cadeiras que supostamente refletiam as vivências ocidentais (Oliveira, Seixas e Faria, 2013). Além disso, uma perspectiva evolucionista da transição do nomadismo, ou da dispersão, através da fixação de uma casa em uma vila com acesso a bens urbanos sempre esteve no horizonte dos projetos civilizatórios do colonialismo e a população criou estratégias para se afastar desses paradigmas.
ESCAPANDO DOS ALDEAMENTOS
Diferente da proposta de “conquistar a população” para os aldeamentos, esses espaços foram interpretados como indesejados para a população local por diferentes motivos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, com o avançar da guerra, as populações passaram a ser forçadamente aldeadas, tendo, muitas vezes, que abandonar suas terras na época de semeadura, assim como seus celeiros com as importantes reservas da colheita anterior. Tal situação, somada à concentração de pessoas em um único espaço, resultou em epidemias de fome e surtos de varíola. Os aldeamentos também dificultavam a obtenção de crédito junto à Delegação do Instituto de Crédito de Moçambique, porque seus moradores não possuíam registro de propriedade junto à Repartição de Agricultura e Florestas. A compra de qualquer equipamento e instrumentos de plantio, como motores de rega e moagens, só era liberada após a responsabilização pessoal e particular de
técnicos do Gabinete do Plano do Zambeze, segundo informou o documento Obstáculos verificados na Concessão de créditos a agricultores das regedorias tradicionais.128
As atividades dispensadas para a construção das novas casas, a falta de água e de terras suficientes afetaram diretamente o sistema de sobrevivência e reprodução dos agregados familiares que sempre contaram com os sistemas de autoajuda. Segundo informa Eliseu e Medeiros (1991), entre as comunidades Nyungwe, uma série de formas de ajuda mútua são identificadas entre parentes, vizinhos e amigos e é na kulima (o período de sacha da colheita) que diferentes pessoas de um grupo trabalham rotativamente em uma mesma machamba até que o trabalho acabe e outra machamba, de um dos participantes do acordo, receba o mesmo tratamento e assim sucessivamente. Essa ajuda mútua do tipo “trabalho contra trabalho” é chamada de Cikuti ou Cibatsirano e, por vezes, também é empregada nas atividades de colheita e debulha, tanto por homens quanto por mulheres. Já o trabalho com a compensação de bebida alcóolica, o ndomba, é usado no momento em que uma pessoa precisa de ajuda para a abertura de machambas, construção de casa, celeiro ou curral, transporte de material, produtos ou ainda sacha e colheita. Finalmente, o trabalho contra produtos e gêneros, chamado de Pheresero, “ganho, ganho”, ocorre em locais onde famílias se ocupam de diferentes atividades, como criação de gado, cabritos ou agricultura em machambas de bons solos que produzem mais variedades que outras.
Portanto, os aldeamentos pautados em uma lógica militar afetaram esses e outros laços sociais construídos entre as pessoas e seu habitat, causando um agudo processo de desterritorialização. Além disso, os aldeamentos eram locais perigosos, atacados pela FRELIMO munida com morteiros, bazucas e armas automáticas. As adjacências dos aldeamentos também eram perigosas devido as centenas de minas terrestres, raptos e possibilidade de confronto entre as milícias dos aldeamentos que acompanhavam a população em suas atividades e as forças nacionalistas.
Segundo inquérito realizado pela ONU, em 1974, os aldeamentos, frequentemente referidos como vilas fortificadas ou aldeias estratégicas, trouxeram sérios problemas para a população aldeada, como fome e doenças129. Testemunhas descreveram os aldeamentos como um campo de concentração ou campo de extermínio cujo intuito era isolar as pessoas
128 Desenvolvimento Geral da Região do Zambeze (Arquivo do Gabinete do Plano do Zambeze-Memorial, assunto: