Imagem 1: Exploração de carvão no período colonial
Fonte: Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique,192915.
15 Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique. 08, [Tete e Cabo Delgado (Niassa) - Aspectos Gerais]
José dos Santos Rufino, 8, 1929, 104 págs.
Aproximando-se do recorte temporal da tese, este capítulo apresenta o itinerário dos principais processos de deslocamentos populacionais em Moçambique, sobretudo em Tete, desde a efetiva presença da administração portuguesa, que se tornou ainda mais incisiva com a implantação do Estado Novo em Portugal, em 1926, liderado por Antônio Salazar. A ditadura Salazarista promoveu uma organização política administrativa pautada na ocupação e domínio dos territórios coloniais, sendo uma de suas primeiras ações a eliminação progressiva das companhias concessionárias, apresentadas no capítulo anterior. É a partir de então, e munido com instrumentos legais, como o Ato Colonial de 1930, a Carta Orgânica de 1933 e a Lei da Reforma Administrativa Ultramarina promulgada em 1933, que os moçambicanos vão tendo suas práticas sociais e sua liberdade de ir e vir cada vez mais cerceadas e reguladas pela ação colonial.
Portanto, a seção Colonialismo, limitando o movimento destaca quão intensamente as estratégias de controle, conduzidas por um corpo burocrático presente no cotidiano dos cidadãos, foram postas em prática no sentido de rentabilizar a ação colonial. Também nesta sessão, destaca-se as mudanças ocorridas na década de 1960, como a pressão nacionalista e as críticas internacionais sobre o colonialismo, que fizeram com que Portugal procurasse confirmar uma imagem positiva, luso-tropical, sobre a suposta benfeitoria de sua “ação colonizadora” na África. A extinção do código do indigenato (1961), que implicou na categorização dos individuos em cidadãos portugueses e não mais indígenas e assimilados, caminha nessa direção, mas não foi suficiente para conter o desejo pela independência.
Neste sentido, em Guerra de Libertação, caminhos de fuga e luta, explora-se o avanço dos nacionalistas, como a Frente de Tete (1964-1968) e o consequente surgimento do primeiro grande projeto de deslocamento forçado em Moçambique, a ser detalhado nesta tese, os chamados aldeamentos coloniais. Somente na província de Tete, também afetada tanto pela guerra de libertação quanto pela construção da barragem Cahora Bassa, os aldeamentos reagruparam 80% da população que até então vivia dispersa e organizada segundo regras de parentesco.
Dando seguimento à exposição dos processos de deslocamento e suas narrativas, a seção Independência de ir e vir? interroga em que medida a política nacionalista contribuiu para a continuidade do deslocamento populacional em Moçambique através dos projetos das aldeias comunais. Tais iniciativas foram elaboradas a partir de um direcionamento socialista que, além de enfrentar resistência por grande parte das populações envolvidas, foi seriamente afetado pela guerra dos 16 anos entre a RENAMO e a FRELIMO.
Finalmente, com o Programa de Reestruturação Econômica (1987) o país foi liberalizando sua economia e junto ao multipartidarismo (1990) e ao Acordo Geral de Paz (1992), diversas empresas estrangeiras se mostraram interessadas em explorar os extensos recursos naturais de Moçambique, a exemplo do carvão. Nos anos 2000, essa tendência despontou com a chegada dos Megaprojetos, voltando a partir expostos na última seção.
Portanto, este capítulo tem por objetivo primordial situar os deslocamentos populacionais e os processos de desterritorialização ali inscritos, no vasto recorte desta tese, que vai do colonialismo tardio, passando pelo período socialista até a chegada de empresas como a mineradora Vale. Feito isso, e após uma breve pausa teórica no próximo capítulo, a proposta é se aprofundar nos projetos políticos, arquitetônicos, sociais, ideológicos dos aldeamentos coloniais, das aldeias comunais e dos reassentamentos, indicando as espantosas semelhanças entre esses três projetos de deslocamento populacional.
COLONIALISMO, LIMITANDO O MOVIMENTO
Desde a ocupação efetiva do território moçambicano, a administração portuguesa foi modelando um conjunto de práticas que comportasse o domínio das colônias a baixo custo. E três parecem ser os pilares que marcaram esse período ou a própria colonização portuguesa: racialização dos povos, exploração do trabalho e cobrança de impostos. Neste sentido, destrinchar esses três elementos é um esforço para compreender como o controle sobre os deslocamentos populacionais foi sendo interpretado como fundamental para a administração portuguesa.
Para uma “ciência colonial”, gestada sobretudo na Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), o primeiro passo da legitimação do domínio colonial era caracterizar o outro e definir seus espaços, direitos e deveres. E, portanto, a categoria indígena passou a ser debatida logo após a Carta-Lei de 29 de abril de 1875 extinguir a condição servil dos ex-escravizados nas províncias ultramarinas. Já o relatório que precedeu o Decreto de 03 de novembro de 1881, cujo intuito era dar mais autonomia às colônias, defendeu a assimilação dos então indígenas. Mas, para Oliveira Martins, fundador da Companhia de Moçambique, acadêmico colonial e versado nas teorias racialistas da época, a “selvagem” população local não apresentava condições físicas e, menos ainda, morais para se assimilar à civilização europeia, cabendo, portanto, um aparato legal para cidadãos e outro para os indígenas (Zamparoni, 2007:51).
Fazendo coro a Oliveira Martins, o professor de direito da Escola Superior Colonial, Lopo Vaz de Sampayo e Melo, responsável pela disciplina de Política Indígena16, defendia que cabia ao Estado elaborar e distinguir os tópicos aos quais os indígenas seriam submetidos, tanto em relação às regras europeias ou naquilo que deveria ficar restrito aos “usos e costumes” da população local. Nesta linha de pensamento, a assimilação não seria viável de imediato pois se tratava de estágios diferentes de civilização humana (Direito, 2013:53).
Apesar de algumas divergências, o debate sobre o meio mais eficaz de civilizar os indígenas foi unânime ao apontar a disciplina do trabalho como transformador das mentalidades e das relações produtivas que, por sua vez, resultariam na produção de excedentes e, logo, de assalariados e pagadores de impostos. E para selar a disciplina, o Decreto de 27 de setembro de 1894 estipulou uma pena de trabalho em obras públicas, destinada aos indígenas assim caracterizados: “somente são considerados indígenas os nascidos no Ultramar, de pai e mãe indígenas17”. Outra legislação relevante nesta altura foi
a Portaria Provincial Nº 317, de 9 de Janeiro de 1917, também conhecida como Portaria do Assimilado ou Alvará do Assimilado, que selou a divisão na sociedade colonial, categorizando o assimilado, que seria o africano tido como “civilizado”, o indígena, o suposto africano não “civilizado” e o não indígena, ou seja, o europeu e outros grupos não brancos como os indianos.
A Portaria foi um duro golpe para a elite negra e mestiça, chamada de filhos da terra, que, até fins do século XIX, cultivava um prestígio social proveniente das relações políticas e sociais construídas com a então Coroa Portuguesa. Essa elite da terra, sediada nas cidades de Quelimane, Tete, Beira, Ilha de Moçambique, Inhambane e Lourenço Marques, era, em sua grande maioria, descendente das poderosas famílias afro-portuguesas mencionadas no capítulo anterior, que, com a Portaria, passaram a ser categorizadas em termos raciais e não mais sociais. De acordo com Zamparoni (2007), na capital, os filhos da terra se uniram em torno do Grêmio Africano de Lourenço Marques (GALM) e publicavam suas insatisfações sobre a nova configuração social, a qual estavam paulatinamente sendo excluídos em favor dos colonos recém-chegados, no jornal O Africano e, logo depois, no O Brado Africano, criado pelos irmãos João e José Albasini. O Brado Africano foi também um importante instrumento de crítica das pretensas ações civilizadoras da administração colonial e de sua constante exploração indígena.
16 Oliveira Martins escreveu uma monografia, publicada em 1910, com o mesmo nome da citada disciplina. 17 Decreto, de 27 de setembro de 1894, art 1.
A assimilação procurou barrar o poder dessa elite local e promover uma divisão racial, mas, ao mesmo tempo, criar uma ilusão de mobilidade social, já que um indígena podia se tornar um assimilado. Para receber o alvará de assimilado ao universo europeu, o indivíduo deveria fazer uma requisição acompanhado de documentos que comprovassem que era monogâmico, exercia profissão compatível com a “civilização europeia”, fosse fluente em português, tivesse abandonado os usos e costumes da “raça negra” e demonstrasse ter cultivado hábitos europeus como trajar-se à europeia, calçar sapatos, comer à mesa e ter hábitos higiênicos. Tais elementos eram confirmados por uma comissão que visitava a residência do solicitante, que, invariavelmente, criava estratégias como empréstimos de talheres e louça para burlar a fiscalização. Essas exigência “estabeleciam uma inequívoca relação entre a organização socioeconômica da vida doméstica e a civilização que se pretendia implantar. Ser assimilado significava trocar a concepção de espaço da moradia, substituir a palhota circular e todo o universo simbólico a esta forma relacionado, por uma casa retangular, nos moldes europeus” (Zamparoni, 2000: 15). Depois de conseguir o documento de assimilado, os filhos menores e a esposa também eram assim considerados e quem, porventura, retomasse os tais usos e costumes era passível de ter seu alvará cassado.
Diante do resumido número de escolas oficiais, o aprendizado do português era mínimo e, com isso, podemos aferir que a portaria do assimilado pretendeu mais controlar do que proporcionar um caminho rumo a cidadania. A distinção legal entre cidadãos e não cidadãos foi enfatizada em 1926 através do Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas das Províncias de Angola e Moçambique. A grande diferença de categorias consistia no fato que os europeus e assimilados não eram recrutados para o trabalho forçado, tropa militar e nem pagavam o imposto de palhota e, teoricamente, podiam aceder a cargos públicos além de contar com uma educação bem melhor que as classes rudimentares destinadas aos indígenas.
No fundo, a assimilação nunca representou a integração da população local à comunidade portuguesa na colônia, ao contrário, os assimilados sempre foram entendidos pelos colonizadores como “o mais civilizado deles” e não como “um de nós”. Se o indígena carregava o estigma da caderneta, o assimilado carregava seu alvará (Cabaço, 2009: 118). Porém, foi sobretudo em cima da grande maioria indígena que recaiu a limitação dos movimentos através da expropriação de terras, do trabalho forçado, do combate ao modo de vida disperso e demais elementos que foram desterritorializando os povos de suas formas próprias de organização, conforme mostra as próximas sessões.
O TRABALHO “MORALIZANTE” EM TETE
Depois de definidos os indígenas, a íntima relação entre colonialismo e exploração do trabalho foi sendo delineada por intermédio de um conjunto de instrumentos legais elaborados pela já citada chamada geração de 95. Entre estes instrumentos, ressalta-se o Código de Trabalho Indígena de 1899, elaborado por Antônio Ennes e sua equipe, que firmou a distinção jurídica entre os considerados cidadãos e os não cidadãos ao impor a obrigação moral de trabalho sob pena de punição a todos os nativos, homens e mulheres, entre 14 e 60 anos. Poucos anos depois, em 1904, foi criado a Curadoria dos Negócios Indígenas e Emigração, elevada à Secretaria em 1907, para controlar o fluxo e as receitas provenientes do trabalho forçado nas minas e nos territórios vizinhos, além de aferir as penas do chamado trabalho correcional. Já o Regulamento Geral do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas de 1914, modificado em 1915 e 1917, uma espécie de adendo do Código, permitia que os patrões agissem para garantir a ordem, incluindo o uso de milícias conduzidas por um branco. Finalmente, em 1928, foi instituído o Código de Trabalho dos Indígenas nas Colônias Portuguesas de África, que perdurou até 1962. De acordo com Head (1980), em 1946, por exemplo, a fim de “eliminar a preguiça”, os homens que não tivessem sido contratados deveriam ser forçados a trabalhar nas obras públicas.
Para dar conta do recrutamento do trabalho e da cobrança de impostos, e sem quadros suficientes para isso, a administração colonial fez uso das autoridades tradicionais. Para isso, promoveu uma reforma administrativa em 1907 com subdivisões territoriais em torno dos Conselhos, caracterizados como “áreas administrativas que abranjam as povoações sedes do governo da colônia ou de Distrito, ou outras povoações importantes pela aglomeração da população branca ou assimilada, ou pelo desenvolvimento comercial ou industrial, e ainda as áreas em que a população indígena tenha atingido um grau especial de instrução e de progresso”18 (Apud Pedro, 2012). Ou seja, pequenos centros urbanos compostos sobretudo pelos considerados cidadãos. Já as Circunscrições (distritos) rurais, governadas por um administrador ligado diretamente ao Ministério dos Negócios Indígenas, eram subdivididas em postos administrativos com seus respectivos chefes. Os postos eram formados por um conjunto de regedorias que, por sua vez, eram compostas por um grupo de pequenas povoações lideradas por chefes de povoação. Cada regedoria era gerida por um régulo que deveria controlar a distribuição de terras, resolver pequenos conflitos locais por meio de um
tribunal tradicional, recrutar trabalhadores e garantir a cobrança de impostos. Para realizar tais incumbências, os régulos tinham sua polícia local conhecida como cipaios.
No caso de Tete, um pouco antes da reforma administrativa de Aires de Ornelas (1907), vigoravam os comandos militares como Zumbo, Marávia, Chioco, Barué e outros que indicam a importância militar do processo de ocupação efetivo na região. Com o arremate das “guerras de pacificação”, os comandos foram perdendo importância, cedendo espaço para uma administração de caráter mais civil, que assumiu o controle da população. Assim, em 19 de dezembro de 1912, os comandos militares de Tete foram transformados nas circunscrições de Tete, Chicoa, Macanja, Mutarara, Maravia e Zumbo e Intendência do Barué (Coelho, 1993).
Embora a administração colonial afirmasse que os regulados eram as “tribos tradicionais”, a criação das circunscrições nem sempre respeitou o território original dos régulos, chamados inicialmente de inhacuáuas, em Tete. E, com isso, parte da população acabou sendo incluída em outros regulados, reduzindo seu poder de líder. Outros régulos perderam completamente seu poder ou foram reduzidos à categoria de chefe de grupo de povoações. Para organizar os pretensos regulado, segundo documento pesquisado, em 1924, o governador de Tete mandava publicar os Direitos e Deveres das Autoridades indígenas do Distrito de Tete.19
Logo na Parte I, o documento distingue as autoridades tradicionais locais em mambos, inhacuáuas, fumos e chuangas, pontuando que, se os mambos não interferiam na administração das terras, os inhacuáuas ou fumo, também conhecidos por régulos, não pagavam impostos, podiam julgar as questões civis “milandos” e investigar os indígenas a si subordinados, possuíam um conselho de secretários e deveriam estar informados sobre tudo e sobre todos. Somente no Art.6° são listados 16 deveres e obrigações aos inhacuácuas, entre elas fornecer homens para o trabalho, proibir a prática de “bruxarias” e venda de “bebidas inebriantes”, indicar todos aqueles que quisessem estabelecer residência no inhacuauado e outros. No que se refere ao controle sobre os deslocamentos, os inhacuáuas deveriam: “evitar que os indígenas da sua área vão para as colónias inglesas vizinhas e quando o queiram por curto prazo de tempo, empregarão os meios para que esses indígenas peçam a devida licença de que serão portadores”20 E também deveriam instruir suas gentes reunindo os chefes de povoação, aconselhando-os, por exemplo “a andar decentemente
19 Direitos e Deveres das Autoridades indígenas do Distrito de Tete (1924).
Disponível em: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/files/direitos_e_deveres_tete_1924.pdf. Acessado em 25/06/2016.
cobertos, com seus panos vestidos, muito principalmente quando tenham de ir à vila de Tete, sedes das circunscrições ou em quaisquer festas nas povoações”21. Em suma, os indígenas deveriam obedecer e respeitar o inhacuáua, “dando-lhe conhecimento de tudo, para este os proteger perante o administrador, procurando o bem-estar deles, e melhorar as condições da vida indígena e tomarem-se medidas convenientes para desenvolver a região” 22
Os Direitos e Deveres das Autoridades indígenas do Distrito de Tete evidenciam que a administração portuguesa depositou nas autoridades tradicionais a responsabilidade de controlar os deslocamentos existentes em seus domínios territoriais, assegurar o recrutamento de trabalhadores, julgar, manter a ordem e moralizar as circunscrições indígenas. Essa terceirização do controle poupava recursos e mantinha a população local negra distante da ocupação de cargos e da reinvindicação de direitos.
Para as funções que prestavam, os régulos recebiam um percentual do imposto recolhido, um pequeno subsídio mensal e, por vezes, uma casa de alvenaria que o destacava do restante da população e, supostamente, garantiria sua lealdade para com os portugueses. Contudo, se não cumprisse os deveres determinados pelo colonizador, poderiam receber um conjunto de punições, incluindo o castigo físico. De acordo com Florêncio (2008), ainda que desempenhassem papeis sociais singulares na administração colonial, os régulos, muito raramente, ultrapassavam uma condição de subalternidade colonial atrelada à concepção eurocêntrica e racialista da altura, o que não impediu que, no pós-independência, eles fossem entendidos como colaboracionistas do regime colonial.
Umas das principais funções do régulo era recrutar trabalhadores e, como já mencionado, o trabalho foi entendido como civilizador e moralizador. Assim, logo no início do século XX, a região de Tete se confirmou como uma verdadeira reserva de trabalho, situação já evidenciada no capítulo anterior com a atuação de companhias como a Sena Sugar States. Além do trabalho nas plantações, a migração laboral, através de contratos clandestinos ou chibalo, para as farms da Rodésia do Norte (Zâmbia) e para a Rodésia do Sul (Zimbábue), se tornou uma constante na vida da população de Tete. O trabalho forçado, o chibalo, sobretudo em obras públicas ou estradas, empregou até mesmo as mulheres, como manifestou Dona Amélia do Songo, apresentada no capítulo V. Outras tantas mulheres foram retidas pelo atraso ou não pagamento de impostos, espancadas por se recusarem a informar o paradeiro dos maridos e demais tipos de violência.
21 Ibdem, p.9.
Um conjunto de entrevistas feitas por Judith Head e Alpheus Manghezi (1980), entre os anos de 1977-1979, elucida a situação de penúria e violência experimentada por quem viveu o chibalo. Lofas Nzampo, natural de Angônia, província de Tete, por exemplo, foi recrutado pela primeira vez em 1927 e afirmou que o chibalo, empregado desde a altura de seus pais, motivou muitos homens de sua aldeia a fugirem para as montanhas ou se mudarem de região. Seu colega Armando Juma acrescentou que as rusgas, como eram chamadas as buscas para recrutamento empreendidas pelos cipaios, faziam com que os homens vivessem em constante temor. Já o senhor Dinani Xilenge de Homoíne, província de Inhambane, informou que, após ter cumprido contrato na plantação de açúcar de Xinavane, tendo sido recrutado pelos cipaios a mando da administração, foi levado diretamente por um ex-militar português para trabalhar em suas machambas, sem ter passado pela administração algo considerado ilegal. Alfredo Sithole foi obrigado a fazer chibalo nas obras públicas na província de Gaza durante 1 ano consecutivo sem respeitar o período de descanso prescrito na lei, após os 6 meses de trabalho. Mineiros que chegavam das minas não conseguiam nem mesmo chegar em casa e já eram novamente recrutados, como lembrou J. Sthole. O Salomão Nyalunga, de Maputo, pontuou que, muitas vezes, quando um trabalhador estava terminando seu contrato, o machambeiro inventava acusações falsas, como roubo, e, assim, o trabalhador ficava impedido de receber pela empreitada. Quando expulso do chibalo, o acusado poderia ser preso e fazer trabalho correcional, motivo que o impedia de reivindicar o valor trabalhado. A péssima qualidade da comida (quando havia), o irrisório pagamento recebido, o abuso dos regulamentos de recrutamento, a violência física empregada sobretudo através de palmatórias e do chicote de cavalo marinho faziam parte do cotidiano do chibalo. Para fugir do violento recrutamento e pagamento de impostos, a população de Tete e de outras partes da região central de Moçambique, grande parte dela submetida à Companhia de Moçambique até 1942, se deslocava para a Rodésia. Segundo Adamo, Davies, Head (1981), enquanto os moçambicanos que partiam para a África do Sul eram recrutados oficialmente pela WNLA, os que iam para a Rodésia o faziam, em sua maioria, clandestinamente, excetuando o então Distrito de Tete. Nesta região limítrofe com a Rodésia, agências ou recrutadores oficiais atuaram em resultado do acordo laboral, assinado entre a Rodésia, administrada pela Britsh South Company, e o estado colonial português, em