Capítulo 4 – Os argumentos de uma remoção
4.2 Área de Risco de Inundação
Um dos argumentos utilizados pelo poder público municipal é de que a Vila Dique abrange uma área de risco de inundação. Essa questão está tratada de forma direta em relação ao argumento de ampliação da pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Na justificativa para a remoção, a prefeitura salienta que o projeto de ampliação dá conta também de resolver a situação das famílias da Vila Dique que estão em uma área de risco, como aparece descrito pela própria prefeitura:
A transferência das famílias da Dique, deve-se às obras de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho. No projeto de remoção e atendimento às famílias da área de risco da Vila Dique, é desenvolvido o trabalho social com a mobilização e organização da comunidade, cursos de capacitação profissional e oficinas de educação ambiental. (PMPA, 2019.)
Acreditamos ser importante realizar uma breve distinção sobre o que significa inundação, enchente e alagamento, pois a partir da vivência em campo e dos relatos dos moradores, destacamos que a Vila Dique não está em uma área de risco de inundação. Segundo a Companhia Pública de Recursos Minerais (CPRM) e também a própria Defesa Civil, inundação se refere ao transbordamento das águas de um canal de drenagem, atingindo áreas marginais; já enchente diz respeito ao aumento temporário do nível da água do canal de drenagem devido ao aumento da vazão; por fim, alagamento é o acúmulo de água nas ruas e nos perímetros urbanos devido a problemas de drenagem.
No levantamento realizado em 2015, incluímos a pergunta para os moradores: “A sua casa inunda?”, pois a diferenciação do termo técnico poderia ser um fator que confundiria os moradores. Então, das 163 pessoas entrevistadas, 131 afirmaram que a sua casa não inunda e 32 responderam positivamente, isto é, que sua casa inunda. Para a diferenciação, utilizamos conversas com os moradores que afirmaram que a suas casas acabam inundando devido à falta de aterro do terreno e também do escoamento da água da chuva; além disso, também foi relatada a entrada de água da chuva pelos telhados.
Sendo assim, ressaltamos que muitas dessas respostas afirmativas para inundação possuem relação direta com a fragilidade técnica e como tipo de material do aterro e da construção da casa, não sendo relacionado diretamente com os cursos d’água. A falta de um sistema de escoamento das águas pluviais também pode ser apontada como fator que contribui para o alagamento das edificações.
Figura 15. Legenda do sistema de proteção contra inundações de Porto Alegre.
Fonte: Atlas Ambiental de Porto Alegre, 1998.
Conforme o Atlas Ambiental de Porto Alegre (1998), a área da Vila Dique está localizada dentro do sistema de proteção contra inundações. Localizada dentro do sistema de pôlderes da cidade, constituídos de diques, casas de bomba, condutos forçados e canais de drenagem.
Figura 16. Sistema de proteção contra inundações de Porto Alegre.
Fonte: Modificado pelo autor a partir do Atlas Ambiental de Porto Alegre, 1998.
Observamos nas figuras 15 e 16 que, a Oeste da Vila Dique, a área está considerada como área inundável protegida e, a Leste da Vila dique, está considerada como uma área inundável não protegida. Considerando que a Vila Dique está assentada sobre um dos sistemas de proteção contra cheias, o dique, e que este possui uma cota maior que os terrenos adjacentes, podemos afirmar que a área ocupada pela Vila Dique corresponde a uma área protegida contra inundações.
4.2.2 Bacias Hidrográficas
A respeito do sistema de drenagem do município de Porto Alegre, o Altas Ambiental de Porto Alegre (1998) apontou que existem 27 sub-bacias hidrográficas. A Vila Dique está localizada (figura 17) na interseção de duas destas sub-bacias, a do Arroio da Areia e a do Arroio Passo das Pedras.
A bacia do Arroio da Areia possui como corpo d’água receptor o Rio Gravataí. Esta bacia abrange uma área de 20,85km² na cidade de Porto Alegre, em uma região consolidada e urbanizada da cidade. Segundo o IBGE (2010) e a PMPA (2015), a população que reside no que abrange a bacia do Arroio da
Areia totaliza 97.510 habitantes. Considerando que os dados foram levantados no último censo demográfico de 2010, o cálculo da densidade populacional resulta em 47,10 habitantes por quilômetro quadrado.
Figura 17. Recorte e destaque para as Sub-bacias da Zona Norte de Porto Alegre.
Fonte: Plano Municipal de Saneamento Básico de Porto Alegre, 2015.
A bacia do Arroio Passo das Pedras abarca uma área de 35,30 km² e também possui como corpo d’água receptor o Rio Gravataí. Abrange grande parte da zona norte da cidade, em uma área de urbanização consolidada. Os dados do IBGE (2010) apontam uma população residente nesta sub-bacia de 180.296 habitantes, resultando em uma densidade populacional de 55,51 habitantes por quilômetro quadrado.
4.2.3 Sistema de Proteção Contra Inundações de Porto Alegre
Com um grande índice de precipitação em Porto Alegre no ano de 1941, as águas do Guaíba subiram mais de 4 metros além do nível normal, deixando boa parte da cidade debaixo d’água. A grande inundação de 1941, somada a
outras que ocorreram nas décadas seguintes, mobilizou a sociedade civil, que pressionou o poder público municipal para realização de obras de infraestrutura a fim de prevenir futuras inundações.
Entre abril e maio de 1941, com a chuva incessante, o centro da cidade ficou inundado e só era possível deslocar-se nele usando barco. Os bairros mais atingidos foram Cidade Baixa, Menino Deus, Azenha, Santana, Floresta e Navegantes. A enchente deixou cerca de 40 mil pessoas desabrigadas. (MONTEIRO, p. 72, 2012.)
Durante essas décadas, diversos estudos foram realizados a fim de solucionar o problema de drenagem urbana da cidade. Segundo a PMPA (2015), o estudo mais antigo para a concepção de um Sistema de Proteção Contra Cheias data de 1960. Na década de 1970, foi implementado, então, o Sistema de Proteção Contra Inundações, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS). Este sistema foi constituído da construção de 68 quilômetros de diques na cidade, estes divididos em duas categorias: internos e externos, além de uma cortina de proteção, o chamado Muro da Mauá.
Figura 18. Recorte e destaque Sistema de Proteção Inundações Porto Alegre.
O Sistema de Proteção Contra Cheias funciona a partir de diques externos que estão situados na margem do Guaíba e do Rio Gravataí, já os diques internos, que também fazem parte do sistema, estão localizados de acompanham os arroios internos da cidade. Segundo o Atlas Ambiental de Porto Alegre (1998), as áreas que estão entre estes diques são chamadas de pôlderes e constituem regiões limitadas e protegidas por diques.
A Vila Dique está localizada, portanto, sobre um dique interno, que acompanha o Arroio da Areia, e na parte leste está um canal de drenagem construído pelo DNOS. Além disso, outro dique interno acompanha o Arroio Passo das Pedras, sendo então que a região a leste da Vila Dique só não é considerada uma região protegida de inundações por causa da ausência de uma casa de bombas, mas ressaltamos que esta área também é um vazio urbano. A parte oeste da Vila Dique é uma região urbanizada e consolidada da cidade, compreende o bairro Anchieta, que é uma área de pôlder, por isso com diagnóstico de área protegida contra inundações.