4.3 A PRESENTAÇÃO DOS DADOS
4.3.4 Revista Superinteressante
4.3.4.4 Área do leitor
nas plataformas web, assim como em Veja. Isso demonstra uma relação com o leitor diferente daquela estabelecida a partir do impresso e do iPad: nesses casos, a revista utiliza a primeira página de conteúdo editorial depois da capa para se posicional, expor seus valores e convic-ções e, de maneira geral, orientar o leitor sobre o que esperar da revista – se não daquela edi-ção específica, da marca como um todo. Não há esse tipo de orientaedi-ção no site, podendo-se inferir que: (1) esse tipo de posicionamento junto aos usuários das plataformas web não é im-portante; ou (2) a relação no site se estabelece com os mesmos leitores do impresso, que já reconhecem os valores e convicções do título. Figura no editorial uma tentativa de vinculação à cultura letrada tradicional, associada à segmentação proposta pela revista, voltada a conteú-dos de ciência e tecnologia, predominantemente. No caso da versão do editorial no iPad, pou-cas apropriações de potencialidades são feitas, indo de encontro à inovação que a revista bus-ca vincular à sua imagem por meio dos discursos que estabelece sobre si, com a expansão da experiência do editorial entre as duas plataformas sendo materializada basicamente pelas ima-gens e pela tipografia,
Figura 34 – Seção Mundo Super, impresso e iPad.
Fonte: capturas do autor.
Os sites desktop e mobile utilizam a ferramenta de comentários Disqus, que adiciona, ao final de cada matéria, um espaço para participação de usuários, permitindo que sua identi-ficação seja feita por meio de login no próprio Disqus, no Facebook, no Twitter ou no Goo-gle+. A ferramenta oferece um link (Superinteressante no desktop site, conjuntivo; Comuni-dade no mobile, disjuntivo) que, ao ser acessado, abre uma lista com toda a movimentação de comentários do site da revista, divididos por matéria, em ordem cronológica (Figura 35). Esse recurso, contudo, não exibe os comentários, apenas indica quais matérias receberam comentá-rios, e quantos há em cada uma delas.
Figura 35 – Ferramenta Disqus no desktop site.
Fonte: capturas do autor.
A utilização de uma ferramenta de comentários externa permite pôr em discussão a questão das mediações tecnológicas apontada por Gruszynski (2015b), não apenas em termos de hardwares (diversidade de dispositivos de acesso) e de softwares (diversidade de interfaces e de lógicas de navegação), mas também em termos de soluções desenvolvidas por empresas que permitem a apropriação, por parte de sites diversos, de certas potencialidades do ciberjor-nalismo – como é o caso da Disqus, para comentários de usuários (interatividade seletiva), ou mesmo da Outbrain, para recomendação de links (personalização), utilizada pelo site da Veja.
Essa dinâmica, observada nos sites de revistas, torna ainda mais complexo o relacionamento entre leitor e título em diferentes plataformas, pois, muitas vezes, há pouco controle de tais mecanismos por parte da publicação responsável pelo site; essas ferramentas estabelecem formatos de apresentação pasteurizados, reproduzidos em todos os tipos de sites, independen-temente do seu perfil ou das características de seu público. Embora tais ferramentas possam cumprir efetivamente a função à qual se propõem, têm uma identidade visual própria, que, de certa maneira, interfere na percepção da identidade da publicação que as utilizam em seus sites.
No âmbito do esqueleto, em termos de design da informação, impresso e iPad trazem textos, fotos, ilustrações e miniaturas de publicações da Super, não contando com outros ele-mentos como infografias, áudio ou vídeo. A ferramenta de comentários dos sites, por sua vez, apresenta um ícone que conduz o usuário à página do Disqus, além de ícones associados às funções Assinar feed, Adicione o Disqus no seu site (no mobile site, reduzido para Add) e Pri-vacidade (com informações sobre o uso de dados pessoais). A lista geral de movimentação de comentários exibe fotos das matérias associadas, com seu título, início do conteúdo textual, momento da postagem e número total de comentários.
Assim como ocorre na Veja, na edição impressa os comentários passam por um pro-cesso de seleção e edição por parte da revista, ocupando um espaço de distinção. Já os comen-tários feitos pela ferramenta Disqus são todos publicados, de forma difusa e com pouca visibi-lidade, reduzindo sua importância relativa. Isso caracteriza uma diferença na posição ocupada pelo leitor em ambos os casos, refletindo em relações diferentes com o leitor entre as plata-formas.
Quanto ao design da interface, impresso e iPad têm um espaço fixo. Embora as pági-nas impressas se organizem a partir de alguns alinhamentos, não há um grid rígido; no iPad, ele é de três colunas, bastante evidente nas telas 2 e 3. Já nos sites, a ferramenta para inserção de comentários ocupa a largura da área de texto, obedecendo ao template da página. No desktop site, após clicar sobre o link correspondente, a área com toda a movimentação de co-mentários ocupa, verticalmente, pouco menos da metade da tela, em um grid de duas colunas, com fotos à direita e texto à esquerda. No mobile, o link conjuntivo abre uma janela própria do Disqus, com a lista organizada num grid de coluna única e sem fotos. A utilização do link conjuntivo, nesse caso, demarca fortemente a saída do usuário do ambiente da revista, tornan-do mais evidente a mediação de um terceiro na participação tornan-do leitor no site da Super. A mar-ca não se faz presente em nenhuma plataforma – podemos reafirmar a importância relativa-mente pequena de sua presença no interior das edições impressas e para iPad, devido ao efeito de nome-de-jornal (MOUILLAUD, 2002) decorrente da capa, ponto de entrada único nessas plataformas. No caso dos sites, a ausência da marca na área de comentários só reforça a inter-ferência de um terceiro na relação leitor-revista; dessa forma, pode-se inferir que essa relação se estabelece de maneira menos próxima e emocional nos sites do que ocorre com a revista impressa.
Em relação ao design da navegação, as edições impressa e para iPad apresentam, tex-tualmente, três links para páginas do site da revista (Figura 36); no tablet, todos eles são tocá-veis, e conduzem o leitor às páginas correspondentes, num modelo de navegação suplementar (todos são disjuntivos, mantendo o leitor no aplicativo). Um dos links leva a uma pergunta do Oráculo, no site, e é associada a duas opiniões divergentes de leitores; outro, conduz o leitor a uma matéria da revista, de fevereiro de 2014, com uma explicação sobre um determinado fe-nômeno, associado a uma notícia recente; o último, por sua vez, abre uma página com um texto produzido por uma leitora, selecionada para ter o conteúdo publicado no site da revista.
Em todos os casos, o recurso da hipertextualidade é utilizado de maneira bastante interessante, seja para contextualizar o leitor, seja para reforçar sua relação com a revista. Essa integração reforça a identidade ousada e inovadora da publicação. Na área de comentários dos sites,
identifica-se uma proposta de navegação suplementar na lista geral de matérias, com comentá-rios oferecidos pelo Disqus: ela se organiza a partir de um critério de participação articulado a um critério cronológico (pois oferece acesso às matérias com comentários mais recentes pri-meiro). Aqui, fica evidente que a navegação proposta pelo iPad na seção Mundo Super é mui-to mais efetiva em termos de reforço de relacionamenmui-to com o leimui-tor do que os sites, demar-cando novamente a diferença estabelecida entre as plataformas.
Figura 36 – Links na edição para iPad.
Fonte: capturas do autor.
No âmbito do esqueleto, a apropriação dos elementos ciberjornalísticos é bastante res-trita. No caso da multimidialidade, há apenas a presença de textos e imagens estáticas, e inte-ratividade seletiva, vinculada à tactilidade do iPad ou à navegação pelos links. As demais ca-racterísticas (memória, instantaneidade, personalização e ubiquidade) estão ausentes em todos os suportes. Apesar disso, a utilização do recurso da hipertextualidade pelo iPad deve ser des-tacada pelo bom uso que faz dessa potencialidade, reforçando o vínculo da publicação com seu leitor e criando integração entre revista impressa, iPad e sites.
Quanto ao nível da superfície, impresso e iPad apresentam os mesmos níveis hierár-quicos de texto: título corrente, título, subtítulos, dois níveis de corpo de texto, assinaturas, boxe, legenda de foto e fólio (na edição impressa). Nota-se o uso de tipografia-editorial, cujas famílias reforçam um uso recorrente em toda a publicação. Nas áreas de inserção de comentá-rios e na janela que concentra a movimentação deles, percebem-se níveis hierárquicos
especí-ficos associados à ferramenta Disqus, o que somente reforça a mediação já destacadas, desca-racterizando esse espaço como sendo efetivamente da Super.
Em relação às imagens, há utilização de fotografias ilustrativas e ilustrações, além de miniaturas de capas no impresso e no iPad. A utilização de uma imagem em destaque demons-tra a preocupação com o impacto visual, presente no papel (com a imagem grande, na página par), mas potencializado no iPad (com a mesma imagem em página inteira, sangrada). Esse tipo de apresentação reforça a identidade visual da publicação não só pelo tipo de imagem, utilizada de maneira recorrente, mas também pelo cuidado com o impacto visual, que perpas-sa toda a revista. Nos sites, o espaço de comentários mostra as fotos de usuários ou um ícone genérico, quando não há imagem associada. Na seção que concentra a movimentação de co-mentários, as imagens utilizadas são aquelas vinculadas às matérias correspondentes no site da Super, novamente reforçando um perfil de imagem mais associado a fotografias ilustrativas ou ilustrações, reafirmando sua identidade visual.
Quanto ao uso da cor, as edições impressa e para iPad utilizam, predominantemente, o verde como elemento de destaque em componentes tipográficos e esquemáticos. No iPad, há, ainda, a presença do laranja no título corrente (Figura 37), como indicador de localização, do mesmo modo que no editorial e no sumário (tela corrente em laranja, total de telas em cinza).
Enquanto a cor laranja cria uma unidade visual na plataforma, o verde permite uma identidade visual da seção específica, unificando as plataformas. Nos sites, a plataforma Disqus utiliza-se do azul em sua interface – novamente reforçando sua posição externa em relação à revista. O alinhamento dos elementos em relação ao grid é flexível no impresso e no iPad, e rígido na área de comentários do site. Em todos os casos, há predomínio de texto, destacando a impor-tância dada pela revista àquilo que o leitor tem a dizer.
Figura 37 – Laranja no título corrente da edição para iPad.
Fonte: captura do autor.
Distingue-se um verdadeiro esforço na renovação do vínculo da Super com seu leitor, especialmente no impresso e no iPad, em que há um reforço da identidade visual utilizada em ambas as plataformas, intensificando a ligação entre elas. A integração entre impresso, iPad e sites (por meio dos links) e a publicação não só das opiniões dos leitores em suas páginas, mas de um texto inteiro produzido por uma leitora em seu site, são aspectos que reforçam a relação de Super com sua audiência, além de fortalecer sua identidade, que se propõe inovadora e ousada. Além disso, a integração entre plataformas mostra-se coerente com uma revista seg-mentada da área de ciência e tecnologia. De maneira geral, a experiência proposta pela seção Mundo Super no impresso, ao migrar para o iPad, se amplia, ao dar acesso hipertextual aos conteúdos e reforçar sua identidade visual com o impacto visual proporcionado pela imagem de abertura. Nos sites, contudo, essa experiência se enfraquece em função da mediação de um serviço externo, cuja visualidade pasteurizada não reforça a marca Super, caracterizando uma relação diferenciada com a audiência proposta pelos sites.