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7. Os Processos de Auditoria Institucional na Europa

7.2 Características nucleares aos processos de auditoria institucional – análise comparativa

7.2.1 Âmbito e motivação dos processos de auditoria

Os processos de auditoria não incidem directamente sobre a qualidade das actividades desenvolvidas pela instituição auditada, mas sim sobre a forma como a instituição assegura a qualidade das actividades que desenvolve, através de procedimentos de gestão da qualidade. Compete à instituição demonstrar, no decurso do processo de auditoria, que os objectivos que ela própria fixou (por si só, ou em articulação com parceiros externos relevantes, nomeadamente o poder político) são efectivamente atingidos e são continuamente monitorizados e melhorados.

Em relação à qualidade do ensino-aprendizagem, os ESG estabelecem padrões de referência para os sistemas internos de garantia da qualidade que, de uma forma ou outra, aparecem embebidos nos standards fixados para os diferentes sistemas de auditoria. Verifica-se que todas as Agências que desenvolvem processos de auditoria incidem, com um foco especial, sobre o ensino e a aprendizagem, mas no que respeita à cobertura de outras áreas temáticas as Agências assumem modelos diversificados. É o caso da investigação, que em muitos países é avaliada por um organismo diferente, mas em outros pode ser parte do processo de auditoria institucional, como acontece por

exemplo na Áustria. As abordagens das Agências são igualmente variadas no que se refere à forma como é analisada a evidência sobre a eficácia dos sistemas internos de garantia da qualidade, passando por exemplo pelas amostras aleatórias de processos e de cursos na Alemanha, pelos „audit trails‟162 na Inglaterra e Irlanda do Norte, ou pelo exame de processos chave em áreas definidas de desempenho na Áustria.

De um modo geral, os processos de auditoria institucional são apresentados como formas mais leves e menos intrusivas de avaliação externa, quando comparados com a avaliação e/ou acreditação de cada um dos cursos oferecidos. Proclamam, igualmente, que pretendem contribuir para a responsabilização própria de cada uma das instituições pelo assegurar da qualidade e que, através dessa margem de manobra, criam espaço às instituições para abordagens criativas orientadas para a melhoria sistemática da qualidade, pelo que, tendencialmente, os critérios fixados para as análises a efectuar pelos auditores não são prescritivas em relação à forma como a instituição deverá organizar o seu sistema de garantia da qualidade, colocando por conseguinte a ênfase não nos procedimentos internos de qualidade em si mesmos, mas na respectiva eficácia em termos da sua capacidade para identificarem casos de qualidade deficiente e para promover a melhoria.

Contudo, as motivações que conduziram à adopção dos processos de auditoria institucional apresentam variações, que acabam por se reflectir nos propósitos das auditorias. Da comparação dos diferentes sistemas analisados, parece poder-se concluir, nomeadamente, que:

- Nos casos em que a auditoria institucional é obrigatória, a função de controlo sobre a instituição, para efeitos de manutenção do reconhecimento público/acreditação da instituição e/ou de acesso a financiamento público, parece predominar163, sem prejuízo, porém, do contributo que o processo pode dar para uma melhor organização interna dos procedimentos de garantia da qualidade, resultante da informação e referenciais fornecidos pela Agência, dos contactos com os especialistas da Agência e da equipa de auditoria, bem como das recomendações emitidas nos relatórios. Efectivamente, os processos de auditoria institucional, pelo menos implicitamente, têm sempre o propósito de incentivar e auxiliar a instituição a promover a garantia e melhoria da qualidade, existindo no entanto o perigo de as instituições, face às possíveis penalizações resultantes de eventuais falhas detectadas no decurso da auditoria obrigatória, se concentrarem mais em aspectos formais de conformidade aos standards fixados pelas Agências e tentarem embelezar os relatórios de auto-avaliação, em detrimento de uma análise reflexiva séria e da implantação de procedimentos e atitudes

162 Em cada auditoria são normalmente efectuados dois “audit trails”, que correspondem a análises por amostragem efectuadas verticalmente através dos diderentes níveis de gestão, incidindo sobre a implementação e resultados de determinadas políticas e procedimentos institucionais, previamente acordados com a instituição, com vista a uma apreciação detalhada da forma como as políticas e procedimentos são efectivamente levados à prática (QAA, 2009, p. 11).

163 A Escócia é uma excepção, dado que o ELIR, apesar de obrigatório, é claramente orientado à promoção da qualidade.

verdadeiramente conducentes à excelência no cumprimento da sua missão institucional.

- Quando a participação nas auditorias é voluntária, o propósito da melhoria da qualidade tende a ser predominante, apesar de o processo de auditoria não deixar de incluir a verificação da conformidade com alguns referenciais externos, em especial no que concerne aos ESG. O facto de se estar a verificar uma boa aceitação dos processos voluntários de auditoria por parte das instituições de ensino superior revela que estas os reconhecem como uma mais-valia importante. Há dois factores determinantes a contribuir para a adesão elevada das instituições aos processos de auditoria: por um lado, a obrigatoriedade de as instituições estabelecerem sistemas internos de garantia da qualidade coloca sobre elas uma acentuada pressão externa, sendo natural que a informação e apoio especializado prestados através do processo de auditoria sejam vistos como uma ferramenta útil para ajudar a cumprir essa obrigação; por outro, a certificação do sistema de qualidade acaba por constituir um selo de qualidade, que a instituição passa a usar na apresentação e marketing dos seus cursos e serviços.

- No caso da Alemanha, e previsivelmente no próximo ciclo de avaliação nos Países Baixos e Flandres, há um incentivo adicional, na medida em que é dada às instituições de ensino superior a alternativa de escolha entre o regime vigente de acreditação cíclica de todos os cursos ministrados ou o novo processo de auditoria institucional, que permite simplificar a acreditação dos cursos (na Alemanha, serão submetidos a acreditação individual cerca de 15% dos cursos, por amostragem, e nos Países Baixos e Flandres prevê-se um aligeiramento dos procedimentos de acreditação, ainda que aplicados a todos os cursos).

Numa vertente complementar de análise quanto ao âmbito dos processos de auditoria institucional, verifica-se que, dos dez casos analisados:

- Em quatro deles, o processo de auditoria é obrigatório e constitui a única ou principal forma de garantia externa da qualidade, associada à concessão/manutenção da acreditação institucional (caso da Noruega) ou ao acesso a financiamento público (situação na Inglaterra e Irlanda do Norte, na Escócia e, em parte, na Suíça);

- Em três países, o processo é voluntário e complementar à acreditação individual de cursos:

• Na Alemanha e no próximo ciclo dos Países Baixos e Flandres, a auditoria constitui uma alternativa à acreditação dos cursos;

• Em Espanha, a auditoria é cumulativa com a acreditação dos cursos, sendo concebida como um selo de qualidade e um processo de apoio ao desenvolvimento institucional;

- Em três outros países, o processo de auditoria é simultaneamente voluntário e único, fortemente focalizado na promoção da melhoria da qualidade, sendo visto essencialmente como um selo de qualidade (Finlândia e Áustria) e como apoio ao desenvolvimento institucional (Finlândia, Áustria e, até recentemente, Dinamarca);

- Em todos eles, com a aparente excepção da Espanha, tende a representar uma forma mais leve de garantia externa da qualidade do que aquela vigente nos países onde predomina a acreditação de cursos.