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Elementos nucleares para um modelo de certificação de sistemas internos de garantia da qualidade

7. Os Processos de Auditoria Institucional na Europa

8.2 Elementos nucleares para um modelo de certificação de sistemas internos de garantia da qualidade

A análise comparativa efectuada em 7.2 dá algumas indicações importantes sobre as características dos principais modelos de auditoria institucional a funcionar na Europa, os seus elementos comuns e aqueles outros que os diferenciam, bem como a preocupação em que esses modelos sejam vistos não como meros mecanismos de controlo externo, embora esse propósito esteja presente em alguns dos esquemas obrigatórios de auditoria, mas também, ou essencialmente, como incentivadores de uma

cultura interna nas instituições de ensino superior que eleja a qualidade como um objectivo estratégico central à missão institucional.

As opiniões relatadas são de um modo geral bastante positivas quanto à aceitação dos processos de auditoria institucional por parte das instituições e ao seu impacto na dinâmica de desenvolvimento dos sistemas internos de garantia da qualidade. Em dois dos países que concluíram já um ciclo completo de auditorias é, por exemplo, referido o sucesso evidente dessa dinâmica em áreas relacionadas com o envolvimento dos estudantes e um melhor envolvimento do pessoal em matérias relacionadas com a melhoria do ensino e aprendizagem e com a gestão estratégica da melhoria da qualidade nas instituições185 (Escócia), bem como a percepção de que os critérios estabelecidos para as auditorias, desenvolvidos em cooperação com as instituições de ensino superior, contribuíram para o desenvolvimento da qualidade na educação186 (Noruega).

Na concepção de um processo de auditoria institucional, convirá ter presente o cansaço e reacção das instituições em relação ao esforço que lhes tem vindo a ser exigido no domínio da garantia da qualidade, nem sempre com efeitos ou vantagens evidentes. Como se afirma no relatório Trends V, “os sistemas de garantia externa da qualidade necessitam de demonstrar que efectivamente produzem uma melhoria na qualidade, existindo ainda uma preocupação considerável com a carga burocrática crescente que foi colocada nas instituições”187. A boa aceitação dos processos de auditoria institucional que se tem verificado em bastantes países está em boa parte ligada à expectativa de que possam contribuir para procedimentos aligeirados de garantia externa da qualidade, como contrapartida a uma maior atenção a processos internos de qualidade que, desejavelmente, se orientem para a criatividade e a inovação na prossecução da missão institucional188, favorecendo a melhoria de processos e resultados sem prejuízo de uma prestação transparente de informação aos parceiros e à sociedade em geral189.

O papel pedagógico e formativo da garantia da qualidade é um outro aspecto a valorizar, em especial em relação a instituições que se encontrem ainda numa fase embrionária de desenvolvimento dos seus sistemas internos de qualidade. Os processos

185 Brink, C. & Kohler, A. (2009). Audit Approaches – Features for a Common Understanding. In AQA (2009b), p. 39.

186 Ibidem, p. 40.

187 Crosier, D. et al. (2007). Trends V: Universities Shaping the European Higher Education Area, p. 9.

188 Vejam-se, a este respeito, as conclusões do Projecto QAHECA (ponto 5.4).

189 Um desafio que se coloca aos sistemas de garantia da qualidade é, efectivamente, o do equilíbrio entre o interesse das instituições em dispor de mecanismos mais leves de avaliação externa e o interesse da sociedade, em especial dos estudantes, em informação transparente sobre a qualidade dos cursos. Como é afirmado a propósito do modelo alemão, “the intriguing question (...) is how a productive interplay between internal and external governance of quality can be achieved and to what extent European HE systems can come together in this regard” (Witte, 2008, p. 52).

de auditoria institucional mais orientados à melhoria da qualidade e que incluem uma vertente de orientação e apoio às instituições tendem a reforçar esse papel, incentivando e facilitando a responsabilização institucional pela garantia da qualidade.

O desenvolvimento de um modelo de auditoria institucional implica a fixação prévia de standards, que constituam um referencial simultaneamente para as instituições, na concepção e desenvolvimento dos seus sistemas internos de garantia da qualidade, e para os auditores, no escrutínio desses sistemas. A definição de standards deverá desejavelmente ser efectuada de forma suficientemente aberta, para que não sejam indutores de mera conformidade, e deverá ser participada pelas instituições de ensino superior, para as sintonizar com o verdadeiro significado e alcance dos standards e desenvolver um sentido de apropriação que potencie a aceitação do modelo e a motivação para o seu envolvimento efectivo no trabalho a realizar. Esta preocupação deverá estar presente mesmo quando se pretenda que a auditoria conduza a uma decisão formal de certificação do sistema interno de garantia da qualidade da instituição, na medida em que, sem esses cuidados, “o modelo de certificação, com a sua ênfase no cumprimento de procedimentos, pode ter o efeito secundário de conduzir a uma maior burocratização e conformidade de processos, numa visão de profissionalismo baseada em listas de competências e resultados determinados externamente, o que poderá excluir a reflexão”190.

Em conclusão, face às considerações anteriores, à análise comparativa efectuada em 7.2 e ainda à reflexão incluída em 8.1 sobre os sistemas internos de qualidade, sem esquecer outros aspectos relevantes tratados ao longo do trabalho, nomeadamente as conclusões do Projecto QAHECA, poderão indicar-se, de forma sintética, alguns aspectos nucleares a ter em consideração no planeamento e implementação de um modelo de certificação de sistemas internos de garantia da qualidade nas instituições de ensino superior através de um processo de auditoria institucional, consonantes com o que se começa a definir como boas práticas europeias nesta matéria:

- Cooperação e diálogo – A garantia da qualidade é sensível ao contexto. A preparação da concepção do modelo de auditoria institucional deverá, pois, incluir uma ampla auscultação aos parceiros, com vista a assegurar a sua adequação às necessidades sentidas pelas instituições e outros actores relevantes, bem como a aceitação e adesão interessada das instituições. Essa preocupação é particularmente pertinente para a definição dos standards para a certificação, pelo seu papel determinante no próprio desenvolvimento dos sistemas internos de garantia da qualidade.

- Aceitação social – As pressões sociais têm influenciado os sistemas de garantia da qualidade, nem sempre de forma racional ou no melhor sentido para a promoção da qualidade. É importante que o processo de auscultação procure

190 Smith, Armstrong and Brown (1999), citados por Fernández et al. (2008), p. 61.

também assegurar a aceitação, por parte da sociedade e do poder político, de que a auditoria institucional constitui uma boa forma de abordagem à garantia externa da qualidade, pelo menos tão credível e eficaz como a acreditação de cursos.

- Clareza de propósito – Os propósitos do modelo de auditoria institucional a desenvolver deverão ser definidos de forma clara, nomeadamente quanto ao equilíbrio que se pretenda estabelecer entre a função de controlo e verificação de conformidade e o propósito da manutenção e melhoria contínua da qualidade.

- Aligeiramento de processos – Verifica-se uma tendência na Europa para que os sistemas de auditoria institucional constituam o único processo de garantia externa de qualidade ou, quando cumulativos com processos de acreditação de cursos, contribuam para uma acentuada simplificação destes. Nesta linha de evolução, a interacção entre os processos de auditoria institucional e de acreditação de cursos deverá ser definida e bem clarificada à partida (como parte da clareza de propósito), sendo desejável que a certificação do sistema interno de garantia da qualidade de uma instituição por parte da Agência tenha como consequência uma diminuição significativa do esforço associado à acreditação individual de cursos na instituição.

- Promoção da melhoria – A experiência relatada nos estudos de caso tratados enfatiza os efeitos positivos para a promoção e melhoria da qualidade em resultado de processos de auditoria que privilegiam o incentivo à criatividade, inovação e assunção de risco, em detrimento da conformidade estrita com padrões definidos externamente. O modelo de auditoria institucional a instalar deverá ter esta experiência em mente, tanto na definição de propósitos como na sua forma de organização, por forma a assumir-se como inspirador de uma verdadeira cultura de qualidade nas instituições.

- Papel pedagógico e formativo – Em consonância com esta ideia, é desejável que o processo de auditoria assuma uma vertente pedagógica e formativa importante, num contributo para uma melhor organização interna dos procedimentos de garantia da qualidade nas instituições, expressa nomeadamente no tipo de informação e referenciais disponibilizados, no apoio e contactos com especialistas da Agência e nas recomendações emitidas nos relatórios de auditoria.

- Standards não prescritivos – O processo de auditoria institucional não deverá ser indutor de modelos estandardizados de garantia interna da qualidade, que tenderiam naturalmente a privilegiar a conformidade formal. Os standards para a auditoria deverão, por conseguinte, ser formulados de forma suficientemente aberta, sem serem prescritivos em relação ao modo concreto de implementação dos sistemas internos de qualidade, e acompanhados de orientações que possam ajudar as instituições no desenvolvimento desses sistemas.

- Referenciais para os standards – Os ESG e o regime jurídico nacional constituem referência obrigatória para a fixação dos standards. O conjunto de referenciais sugerido em 8.1.1 exemplifica uma abordagem possível para a definição dos standards.

- Simplificação de procedimentos – Se não forem tomados os devidos cuidados, os processos de garantia da qualidade tendem a gerar burocracia. Os procedimentos associados ao processo de auditoria institucional deverão,

desejavelmente, ser concebidos da forma mais simples possível, com o objectivo de apoiarem e ajudarem a desenvolver as iniciativas das instituições, sem lhes imporem um quadro burocrático pesado e alheio à sua cultura institucional191. - Preparação da auditoria – Os contactos iniciais entre a Agência e a instituição

para a preparação da auditoria constituem um campo por excelência para a expressão da linha de diálogo e colaboração entre Agência e instituições. Os procedimentos prévios para a preparação da auditoria, para além de orientarem a instituição e a ajudarem no trabalho de preparação para a auditoria, poderão ainda ajudar na sensibilização da comunidade académica para o reconhecimento das vantagens dos processos internos de qualidade e a necessidade do seu envolvimento efectivo. Exemplos de boas práticas anteriormente referenciadas incluem um diálogo inicial com a instituição, o fornecimento de informação adequada por parte da Agência, a realização de reuniões prévias ou seminários com participação alargada e a contratualização formal dos termos de referência para a auditoria.

- Participação dos parceiros – A centralidade dos estudantes e a participação efectiva dos parceiros internos e externos nos processos internos de qualidade são consensualmente considerados como elementos essenciais a uma cultura institucional de qualidade. Os standards a definir para o processo de auditoria deverão ter este facto em consideração, a exemplo do que sucede nos diversos sistemas de auditoria instituídos na Europa.

- Follow-up – O estabelecimento de mecanismos de follow-up é importante para a credibilização dos processos de auditoria e também como meio de apoio continuado ao desenvolvimento das instituições. Há vantagens em que os procedimentos de follow-up sejam incluídos à partida como parte integrante do conceito global do processo de auditoria, tomando por referência algumas das boas práticas anteriormente referidas no que concerne a um diálogo sistemático e construtivo com as instituições.

- Difusão de resultados globais e boas práticas – Um outro aspecto de follow-up, de natureza sistémica, consiste no tratamento (anual ou por ciclos de avaliação) dos relatórios de auditoria para identificação de aspectos comuns importantes e de boas práticas susceptíveis de difusão, num contributo para a melhoria global do sistema de ensino superior e do sistema de garantia da qualidade. A concepção do sistema de auditoria a desenvolver deverá, desejavelmente, incluir este tipo de mecanismos de tratamento e difusão de resultados globais e de boas práticas.