• Nenhum resultado encontrado

3. UMA HISTÓRIA DE SANGUE: DOS CRIMES À NARRATIVA

3.3 É DE VOZ PÚBLICA: O QUE PODE TRAZER OS PROCESSOS CRIMES

O trabalho do historiador em analisar as fontes é diferenciado, pois ele consegue, nas entrelinhas e sob o olhar histórico, retirar do documento, minúcias que não serão perceptíveis à maioria das pessoas. Segundo Carr (1996, p.48):

O historiador é necessariamente um selecionador. A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de erradicar.

Nesse sentido, os processos de acusação dos dois crimes citados pelo padre e aqui estudados, além de relatar os incidentes, trazem peculiaridades da imigração italiana que foram “deixadas de lado” ao longo da historiografia tradicional.

O processo de investigação instaurado para julgar o réu Antônio Stoch, assim denominado tal documento, foram ouvidas 12 testemunhas. Todas elas pertencentes à comunidade de Linha Três, localizada no Núcleo Soturno, no município de Vila Rica. Além disso, todas as testemunhas convocadas eram italianas, atribuíam como profissão de agricultor e alegavam conhecer a família Stoch. Quanto aos depoimentos, praticamente todos foram

unânimes em acusá-lo de maus tratos a esposa e filhos, que não trabalhava, vivia embriagado, fazia a esposa mendigar, sendo esse o meio de sustento da família. A conduta irregular mantida por Ângelo fez com que o vissem nele o assassino da esposa e do filho.

O processo de acusação traz ainda os tipos de desavenças do casal. As testemunhas afirmaram que, além de ameaças contra a vida da esposa, ele batia nela, espancando-a. O réu atribuiu tal atitude devido à esposa não cumprir com as atividades do lar.

Outro ponto relevante é que nenhuma das testemunhas viu Ângelo cometer o crime, porém os comentários na localidade o incriminavam. As testemunhas apontavam que era voz pública que o réu era o assassino. É importante salientar que Ângelo Antônio Stoch se autodeclarava agricultor no processo, diferentemente do que foi dito pelo religioso.

As acusações que foram feitas pelas testemunhas revelam algumas características que envolvem esse grupo de italianos, possibilitando uma nova abordagem acerca da imigração italiana em Nova Palma. A partir do caso estudado, percebe-se a ausência de harmonia familiar, bem como a violência doméstica existente entre os Stoch, pois o marido maltratava a esposa e ainda a fazia esmolar na vizinhança para alimentar a si e os filhos. Essa característica também é mencionada na narrativa do padre ao narrar que o casal possuía desavenças, porém de uma forma mais suavizada. Segundo Matté (2008, p.97):

A violência doméstica é outra lacuna referente à história regional. A supervalorização à entidade familiar e ao matrimônio fica explícita também na historiografia, na qual os casos de violências e abusos realizados por maridos contra as suas esposas não são retratadas.

Além disso, a ideia de um bom imigrante acaba sendo maculada, pois Ângelo não trabalhava e ainda vivia embriagado – são esses os motivos pelos quais as testemunhas do processo de acusação o denunciaram, atribuindo-lhe uma má índole. Aqui existe outra brecha deixada pela historiografia tradicional, que emprega o discurso pelo qual o imigrante prosperou através do labor diário. Casos como o de Ângelo não são citados, sendo ocultados.

Com o conjunto de denúncias, percebeu-se ainda a falta de solidariedade entre os italianos, outro fato pouco retratado pela historiografia. Todas as testemunhas julgam o réu como o responsável pelo assassinato da esposa, mesmo que ninguém tenha – presenciado o crime, sua má índole seria fator primordial para condená-lo como assassino. Como já foi mencionado acima, a conduta irregular do réu reforça as suspeitas de ser o assassino – um julgamento moral. Esse ponto também foi levantado pelo religioso na narrativa, sendo que nada havia de conclusivo para acusar Ângelo como assassino, apenas as constantes desavenças que tinha com sua mulher.

Dando sequência a análise, nada oficialmente é encontrado que mostre a inocência de Ângelo Stoch. Ele teria cumprido a pena estabelecida no julgamento. A única fonte que atribuiu à inocência do Stoch é a narrativa do religioso, que traz outro crime que ocorreu nessa mesma localidade, alguns anos depois, em 1899. A comunidade onde Ângelo e sua família viviam o julga, tanto no processo, como na narrativa. Porém, o manuscrito apresentou o que seria o verdadeiro assassino de Maria e seu filho, Lúcio José dos Santos.

Segundo o processo de acusação37, o réu Juvêncio José dos Santos assassinou brutalmente a jovem italiana Luiza Vedovato em cinco de dezembro de 1899. Juvêncio foi linchado, uma morte com muitos culpados que não vira processo, segundo Vendrame (2011, p.301): “nesses locais a própria população que encontrava o culpado e escolhia a forma pela qual ele seria punido, antes mesmo de a justiça do Estado agir”. É relevante salientar que na narrativa o crime, Luiza Vedovato é coadjuvante, pois serve apenas para alegar a inocência de Ângelo Antônio Stoch. Mas pensando na historia da imigração italiana no RS, o crime traz mais uma temática pouco explorada pela historiografia: os crimes sexuais ocorridos no período da colonização italiana na Quarta Colônia.

Esses pontos levantados no processo de investigação e na narrativa escrita pelo padre traçam um perfil de imigrante que destoa da historiografia tradicional e mostra uma variedade de experiência ainda não suficientemente abordada na história da imigração da região central do RS.

Por fim, há possíveis rastros falseáveis tanto nos processos-crime, quanto na narrativa do padre. Desta forma, levanta-se uma série de questionamentos: teria realmente Ângelo Stoch assassinado sua esposa e filho? Seria Juvêncio o executor dos dois crimes? Os dois processos estudados que aparentemente não possuem ligações, com a narrativa, estariam ligados? Será que realmente os dois crimes tem ligação? Será que o religioso sabia ou não da conduta moral de Ângelo? O que se pode afirmar é que se ele sabia, acabou ocultando a má índole do italiano? Estariam as testemunhas de acusação de Ângelo mais próximas da verdade ao construir uma imagem sobre o mesmo como um homem violento e de má índole? A ideia não é responder esses questionamentos, pois seria impossível nesse trabalho, mas sim levantar indagações sobre a criação da figura heroica atribuída ao imigrante italiano.

A necessidade de construção de um monumento para reafirmação da identidade local é o próximo assunto a ser abordado nessa pesquisa.

37

4. UMA HISTÓRIA PARA UM MONUMENTO: ENTRE O PASSADO E O

Documentos relacionados