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2 REVISÃO DE LITERATURA

2.2 ÉTICA: CONCEITO, OBJETO, FINALIDADE

A ética, do latim ethica, denota ciência da conduta (ABBAGNANO, 2007) e, do grego ethos, compreende as relações sociais em que o homem nasce e se desenvolve (FREITAS, 2005), sendo denominada, também, como filosofia moral (CHAUI, 2009). A moral, por sua vez, vem do latim mos, “costume”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Ethos e mos assentam-se num modo de comportamento que não corresponde a uma disposição natural, mas que é adquirido por hábito. Vê-se que o significado etimológico de moral e de ética não fornecem o significado atual dos dois termos (VÁSQUEZ, 2008).

Em diversas situações os indivíduos se defrontam com a necessidade de basear o seu comportamento em normas que julgam mais apropriadas, cumprem determinados atos, formulam juízos e se servem de argumentos que justificam as decisões tomadas. Trata-se de um comportamento humano prático-moral, mas, além desse, os homens refletem sobre o mesmo, tomam-no como objeto de reflexão.

Passa-se do plano da prática moral para o da teoria moral, para a esfera dos problemas teórico-morais ou éticos (VÁSQUEZ, 2008).

A reflexão vinculada ao agir humano e que se expressa em juízos prescritivos, portanto, é a moral. Um segundo nível reflexivo acerca dos juízos, códigos e ações morais já existentes chama-se ética (CORTINA, 2009). São

importantes tais afirmações porque a mesma, por vezes, é utilizada como sinônimo de moral.

A ética, sendo assim, é uma das subdivisões da filosofia que estuda os juízos de apreciação da conduta humana, compreende os comportamentos que caracterizam uma cultura ou um grupo profissional (OGUISSO; SCHMIDT;

FREITAS, 2010). Ela surge quando se discute os costumes e a compreensão do caráter de cada pessoa, ou seja, seu senso e consciência morais (CHAUI, 2009).

Cortina (2009, p. 65), por sua vez, sustenta que “é o saber do prático”.

A moral, assim, é contemplada como um fenômeno que se manifesta primordialmente por uma linguagem formada por expressões como “justo”, “injusto”,

“mentira”, “lealdade” etc. Tem como características: realização da vida feliz;

ajustamento a normas humanas; aptidão para solução de conflitos; aptidão para ser solidário; assunção de princípios universais que nos permitem avaliar as concepções morais dos outros e da própria comunidade (CORTINA; MARTÍNEZ, 2005).

Em síntese, quando alguém enfrenta uma situação real, deverá resolver por si mesmo, com a ajuda de norma que reconhece e aceita. De nada adianta recorrer à ética para encontrar uma norma de ação, pois ela poderá dizer-lhe o que é um comportamento baseado em normas, ou em que consiste o fim visado pelo comportamento moral. O problema do que fazer numa situação da vida cotidiana é um problema prático-moral e não teórico-ético (VÁSQUEZ, 2008).

Pode-se inferir que o uso social dessas duas palavras não a deslindam, visto que na linguagem comum e na aplicação desta à reflexão filosófica, ambas são utilizadas de forma indistinta. A ética se diferencia da moral por não estar presa à determinada imagem do homem aceita por certo grupo (CORTINA, 2009).

Éticas tradicionais partem da ideia de que a missão do teórico é dizer aos homens o que devem fazer, ditando-lhes normas para pautar seu comportamento.

Modernamente, a função da ética é a de explicar determinada realidade, elaborando os conceitos correspondentes. Seu objeto, portanto, é a realidade humana que se chama moral, constituída por atos humanos (VÁSQUEZ, 2008).

Da mesma forma, Cortina (2009, p. 67) elucida que “porque a tarefa da ética consiste em esclarecer o fundamento pelo qual os juízos morais se apresentam com pretensões de necessidade e universalidade que seu objeto se funde na forma da

moralidade.” Em outras palavras, é dizer que seu objeto envolve o dever relacionado às ações expressas por juízos morais.

Examinados conceito e objeto, sobeja a finalidade da ética. Esta trata de esclarecer se está de acordo com a racionalidade humana ater-se à obrigação universal expressa nos juízos morais, ou seja, é proporcionar procedimento lógico que permita discernir quando um conteúdo convém à forma moral (CORTINA, 2009).

Na construção de uma profissão, pode-se reconhecer o ideal ético que a orienta a partir das teorias, das crenças, dos paradigmas e da análise dos objetivos propostos, dos conceitos que a fundamentam, de suas formas de escolher, formalizar e exercitar os conhecimentos considerados necessários para o seu exercício (MAFFIOLETTI; LOYOLA, 2003).

Eventualmente, podem ocorrer conflitos entre os valores pessoais ou culturais do enfermeiro com aqueles de outros profissionais ou do paciente. Nesse caso, as diretrizes ético-profissionais devem ser suficientes para dirimir a questão, tendo em vista que os valores pessoais, religiosos ou culturais do enfermeiro não podem se sobrepor aos direitos do paciente (OGUISSO; SCHMIDT; FREITAS, 2010).

Esses conflitos podem levar a dilemas éticos. Estes podem causar sofrimento e confusão em pacientes e provedores de cuidados. A controvérsia é a natureza dos problemas da ética, e para superá-la e determinar um curso de ação, as questões éticas são processadas com cuidados. Processar um dilema ético requer negociação de diferenças, incorporação de ideias conflitantes e um esforço para se respeitar distintas opiniões. Essa negociação pode ser em parte uma maneira de se entender ambiguidades (POTTER; PERRY, 2005).

A formação generalista do enfermeiro enfatiza o contexto histórico-ético-legal da profissão, sendo importante acompanhar a evolução da legislação da Enfermagem (leis, decretos, resoluções, pareceres, projetos de lei) que interferem na delimitação dos espaços de atuação profissional do enfermeiro (OGUISSO;

SCHMIDT; FREITAS, 2010).

Apesar do conceito sobre ética profissional estar em constante evolução, está claro que ela não significa apenas uma moral do bem e do mal e, sim, um meio de direcionar as ações de forma prudente tanto para profissionais quanto para os

pacientes no que diz respeito à integridade física e moral durante o cuidado prestado (GARRAFA, 2005).