2 REVISÃO DE LITERATURA
2.3 CONFLITOS E DILEMAS ÉTICOS NA ENFERMAGEM
Não há muitos estudos que contemplem os dilemas e conflitos éticos vivenciados por profissionais da Enfermagem. Sendo assim, não se pode deixar de expor comentários sobre os parcos trabalhos realizados quanto a esse tema, até mesmo porque se revestem de grande interesse para essa área da saúde, por sua profundidade e mérito.
Para descrever e analisar julgamentos morais das enfermeiras, Coelho e Rodrigues (2006) realizaram estudo qualitativo com 28 enfermeiras; mediante a análise temática dos dados, o direito à informação foi descrito e, no conjunto, as respondentes basearam suas justificativas na ética normativa e deontológica.
Estudo identificou e analisou as implicações éticas oriundas das práticas de acolhimento em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e seus reflexos na atenção à saúde dos usuários. Revelaram-se contextos permeados por conflitos éticos;
distanciamentos técnicos e conceituais e limitações estruturais; diferenças entre o que se caracterizou como o desejo de se sentir acolhido com respeito e as frustrantes experiências vivenciadas nas UBS, as quais revelam situações de exclusão e negação do direito à saúde. Resumidamente, os resultados mostraram um revés na implementação do acolhimento com os princípios da universalidade, da integralidade e da garantia do direito à saúde (BREHMER; VERDI, 2010).
Freitas e Oguisso (2007) descreveram o perfil de profissionais de Enfermagem envolvidos em ocorrências éticas. Os resultados expuseram que a maioria das ocorrências envolveu profissionais do sexo feminino, sendo que a maioria foi comunicada à Comissão de Ética de Enfermagem da instituição pelos enfermeiros da mesma; parte significativa dos envolvidos encontra-se na faixa etária de 30 a 39 anos e, aproximadamente, metade deles eram auxiliares de Enfermagem; a jornada de trabalho de maior incidência das ocorrências é
correspondente a seis horas diárias, envolvendo profissionais com mais de três meses de vínculo empregatício na instituição alvo do estudo.
Chamma (2002), em seu estudo sobre dilemas éticos no processo ensino-aprendizagem de saúde mental e Enfermagem psiquiátrica, encontrou diversas situações de natureza ética como: internação involuntária, restrição da liberdade, contenção física sem indicação terapêutica, maus-tratos, furto de pertences e sujeição à eletroconvulsoterapia e outros tratamentos sem consentimento do paciente; abuso de poder; negligência e imprudência profissionais; preconceito;
mentiras; abuso sexual de paciente por outro paciente; relacionamento sexual consentido entre pacientes; recusa de familiares na participação do tratamento;
ausência de enfermeiro nos serviços de saúde e falta de condições mínimas para o exercício de Enfermagem.
Sua tese contempla, ainda, outras interrogações éticas, mas, a partir das citadas, dá para se ter uma noção da gravidade das situações encontradas. Além da gritante negligência profissional, existe um desrespeito muito grande com os direitos dos pacientes que, infelizmente, desconhecem algumas de suas faculdades legais.
A mesma autora aponta que a resolução de tais dilemas envolve um conflito entre os valores individuais e a submissão às normas e regras institucionais que dificultam a tomada de decisões. Além disso, são empecilhos para o enfrentamento o desconhecimento, o conformismo, a liberdade tolhida e o próprio medo dos profissionais nas diversas situações que se apresentam (CHAMMA, 2002).
Com o objetivo de revelar os dilemas éticos nos serviços de medicina diagnóstica, Taffner (2005) realizou um estudo fenomenológico que mostrou os seguintes dilemas referidos por enfermeiros: inclusão ou não de pacientes oncológicos em pesquisas clínicas; maus-tratos de mãe contra filhos; recusa, por parte de pacientes ou responsáveis, da realização de procedimentos por determinados profissionais; administração de medicação com dosagens inadequadas; coleta de exames de menor de idade que se recusa a fazê-lo e sem a autorização necessária; limites da competência legal de outros profissionais; falta de autonomia dos enfermeiros; e outros.
Nesse estudo, as decisões tomadas para a resolução dos dilemas incluem a participação de todos os envolvidos, ponderação do custo-benefício para o paciente,
prática humanizada, respeito à hierarquia institucional, cumprimento das normas da instituição, imparcialidade com a equipe (TAFFNER, 2005). Ressalta-se que, embora os profissionais devam certa obediência ao local onde trabalham, tal obediência não pode se sobrepor a leis e resoluções que regulam a profissão. Ao contrário, os profissionais devem reunir esforços para fazer cumprir o que é de direito.
No centro cirúrgico, Duarte (2004) identificou como principais dilemas éticos, vivenciados por enfermeiros, a falta de adequada infraestrutura dentro das instituições hospitalares para atender à demanda, o desrespeito aos pacientes e à enfermeira, erro da equipe, além de outros.
Novamente são registrados casos de erro e negligência profissionais e desrespeito aos pacientes. Importante lembrar que os profissionais devem estar comprometidos com a saúde das pessoas.
Relato de experiência, com o intuito de relatar o acompanhamento domiciliar e promover reflexão a respeito do dilema ético de cuidar de um paciente em fase terminal, concluiu que é preciso sentir a realidade do paciente, realizar uma abordagem interdisciplinar e voltar o olhar para um cuidado com qualidade de vida nos momentos finais (SOUZA; SOUZA; SOUZA, 2005).
Outro relato de experiência descreveu as dificuldades relacionadas aos primeiros socorros durante uma olimpíada estudantil e correlacionou a experiência vivida com aspectos técnicos, científicos e éticos recomendados para a atuação do enfermeiro. Mostrou-se o dilema entre dar continuidade ou não ao tratamento de atletas sem recursos materiais necessários às possíveis intervenções médicas por ocasião de algum dano sofrido (FRANÇA et al., 2007).
Uma revisão identificou que os profissionais de saúde vivenciam dilemas éticos quando precisam administrar hemotransfusão em Testemunhas de Jeová.
Isso se dá devido à liberdade religiosa não ser um valor absoluto e ocorrer uma colisão de direitos fundamentais que exigem uma tomada de decisão centrada no ordenamento jurídico e nos princípios bioéticos (FRANÇA; BAPTISTA; BRITO, 2008).
Estudo de abordagem qualitativa, realizado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital geral do município de São Paulo, encontrou dilemas éticos ligados à diversidade de valores, à presença de pacientes terminais, às incertezas
sobre a terminalidade e limites de intervenção para prolongar a vida de pacientes, à discordância na tomada de decisão, a não aceitação do processo de morte pela família do paciente e à falta de esclarecimento da família e do paciente. A tomada de decisão dos enfermeiros, frente a essas situações, leva em consideração os valores pessoais, a ética profissional, a empatia e o diálogo com os colegas (CHAVES;
MASSAROLLO, 2009).
Trigueiro et al. (2010), por meio de pesquisa qualitativo-exploratória com o fim de conhecer a percepção e a ação de enfermeiros diante da ordem de não reanimação, constataram que a maioria dos enfermeiros estão de acordo com a ortotanásia, entretanto, o dilema ético mais vivenciado na prática foi a distanásia. As autoras (2010) concluem relembrando da necessidade de conscientização sobre a importância da participação do enfermeiro na tomada de decisão quanto a reanimar, opinando junto à equipe multiprofissional na escolha do melhor.
Todos os estudos relatados demonstram como o tema se sobressai e necessita de mais estudos, contribuições e discussões frequentes, pois tem correlação direta com o exercício da profissão de Enfermagem e com a prevenção de danos contra o paciente.