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O ÚLTIMO EVENTO

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O FUZIL E A CRUZ: PODER ARMADO E PODER DIVINO NO COMPLEXO DO ALEMÃO

3.5 O ÚLTIMO EVENTO

O evento derradeiro ocorre no Campo do Ordem129, com ação social,

principalmente voltada para as crianças e encerra-se com o culto ecumênico em ação de graças pela participação do Exército Brasileiro no processo de pacificação do território e sua eminente saída.

À entrada do Campo, uma faixa que dizia: “Exército Brasileiro e Comunidade da Penha, juntos, nós construímos um futuro melhor‖, um blindado e dez soldados fortemente armados. Outras dezenas deles circulavam pelo evento.

O Coronel Chaves faz a abertura do culto destacando a participação das igrejas cristãs e enfatizando que a segurança é um privilégio dado por Deus.

Um pastor faz a oração de abertura destacando que “Deus está sarando esta terra que há muito tempo está manchada”.

Canta o coral da Igreja de Santo Antônio.

Apenas um padre está presente e é capelão do Exército. Os padres locais não comparecem. Em sua fala, o padre diz que “nosso legado é a paz”. Usou a Parábola do Filho Pródigo e aplicou-a alegoricamente fazendo do Pai da Parábola o Exército e o Filho, a Comunidade. O legado/herança é a administração da paz. Sua pergunta

111 provocativa foi: “Aquele filho soube usar da liberdade que lhe foi dada?”.

A segunda e última mensagem foi do pastor Moisés, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e capelão da Polícia Militar. A ideia da passagem do bastão fica evidente. Em sua mensagem, em que cita a bem-aventurança dos pacificadores, conclui que “a pacificação é, sobretudo, um projeto de Deus‖ e que o ―Exército Brasileiro veio abençoar o Rio de Janeiro”.

Cerca de vinte e cinco pessoas assistiam, em pé, ao culto, a maior parte delas fiéis dos poucos pastores presentes e envolvidos em alguma participação musical.

Assim termina o projeto conjunto do exército com religiosos locais para o Complexo do Alemão.

A avaliação do que aconteceu a partir das vozes dos protagonistas enseja ricas questões.

Coronel Chaves, chefe do serviço religioso, que comandou o projeto por alguns meses, manteve sua polidez característica quando lhe perguntei sobre o projeto e seu definhamento, mas deu a entender que nem todos os presentes tinham o interesse genuíno nele, mas procuravam, de alguma forma, algum ganho político. Quando perguntei sobre a ocupação do exército disse: “Ali tinha uma degeneração da moral e dos costumes que quebra os valores da sociedade. Quando tudo falha entra o sistema militar para tentar resolver”.

Fica evidente em sua fala o papel de gestor moral exercido pelo exército. Não somente na regulação da informalidade e da sociabilidade, seja na tentativa de toque de recolher, seja na proibição dos baile funk, ele ressalta que a representação do Complexo do Alemão é de local degenerado moralmente que necessitava de uma intervenção civilizatória. E o exército, conforme destaca, funciona como o ―último rincão de honestidade, integridade e reserva moral da sociedade brasileira”.

Pude conversar mais uma vez com padre Jeferson, que a esta altura já havia saído do exército. Ele diz se lembrar com carinho da experiência. Ressalta que “o veículo menos contaminado era a religião”, mas havia muita “imaturidade dos líderes religiosos. Não há união. Cada um quer puxar para o seu grupo”, assim como “falta de cultura dos líderes religiosos”. O projeto “não foi pra frente porque a liderança religiosa estava com a mesma visão das facções de bandido”, “faltou espiritualidade da parte dos ministros”.

Mateus, a ―pedra no sapato‖ durante sua gestão do projeto, revela, em nossa última conversa antes do fim desta pesquisa, seu passado como militar e elogia a

112 ação do exército como “o melhor período em que a população viveu”. “Não vi em nenhum momento corrupção no exército. O tráfico prefere a polícia porque a polícia aceita qualquer jogo”. Quanto ao projeto, diz que ―Jeferson queria tornar o projeto católico. Queria destacar as igrejas católicas”. Conclui, dizendo que “a população percebe a diferença entre o exército e a polícia. Não existe relação das igrejas com a polícia. PM e igreja nunca vão trabalhar juntos”.

Penso que a análise de Foucault (2008) sobre o pastoreio, como uma forma de poder característica do ocidente que inspirou a forma de governamentalidade ocidental, pode contribuir para a compreensão dos processos de ―pacificação‖ iniciados no Complexo do Alemão. Para ele, a verdadeira história do pastorado, como uma forma específica de poder sobre os homens, como matriz de procedimentos de governo dos homens, nasce com o cristianismo130. A pastoral cristã estaria no pano de fundo do nascimento do estado moderno, quando a governamentalidade se torna uma prática política calculada e refletida.

A arte de governar se desenrola num campo relacional de forças que exige dois grandes conjuntos de tecnologia política, sendo um destes a polícia131. Nessa concepção, a polícia deveria se utilizar de tudo aquilo que integrasse o homem ao estado, às suas forças, ao desenvolvimento das forças do estado, e fazer com que o estado, por sua vez, estimule, determine e oriente essa atividade do homem de modo que seja efetivamente útil ao estado. Em suma, essa polícia, como instrumento de gestão, seria reguladora de todas as formas de coexistência dos homens uns em relação aos outros. No complexo do Alemão, de dezembro de 2010 a junho de 2012, o exército acumulou estes papéis.

Estamos diante do modelo de pastoreio cristão. A proximidade e a aprovação mútua entre atores do exército e atores religiosos cristãos, por sua vez, podem estar no fato de que a modelo de gestão moral é um modelo pastoral, cuja origem é o cristianismo. Esta proximidade pode ser uma proximidade por identificação de modelos132. Seu projeto se harmoniza com o projeto cristão local. Tanto o exército

130―Primeiro, claro, vai haver, entre o poder pastoral da igreja e o poder político, uma série de interferências, de apoios, de intermediações, toda uma série de conflitos, evidentemente, (...), de modo que o entrecruzamento do poder pastoral e do poder político será efetivamente uma realidade histórica no Ocidente‖ (p.204)

131Esta passa a ser compreendida, a partir do século XVII, segundo Foucault, como o conjunto dos meios pelos quais é possível fazer as forças do Estado crescerem, mantendo sua boa ordem. O objeto da polícia seria o bom uso das forças do Estado.

132 Já havia observado, em pesquisa realizada na UPP do Batan, esta mesma proximidade e identificação de projetos, a tal ponto que o policial responsável pelas ações sociais e relações públicas também era

113 quanto os atores religiosos tinham um projeto de redenção das populações locais. A ―pacificação‖ parece ser uma pastoralização cristã, como modelo de gestão de corpos, da segurança pública.

Esta hipótese parece se materializar no chamado gabinete de gestão integrada, onde se materializa uma possível gestão do território conduzida por líderes religiosos cristãos tutelados politicamente pelo exército que, naquele momento, geria o território como braço armado do estado. Segundo o portal do ministério da justiça133, trata-se de:

―Em se tratando de política de segurança pública, a gestão integrada nada mais é que a articulação e o diálogo estratégico entre os órgãos de segurança pública e demais atores das três esferas de governo que atuam em um município, bem como entre os diferentes setores responsáveis pela sua construção, implementação, execução e monitoramento, com a finalidade de se inter-relacionarem para a consecução de objetivos comuns.

Exauridos os anos de ditadura militar, fez-se necessário novo olhar sobre a segurança pública, que rompeu o estigma exclusivo de garantia da defesa nacional e passou a focar-se na proteção do próprio cidadã@, detentor de direitos e deveres, sobre os quais o Estado se coloca na função de garantidor.

Dessa forma, a gestão integrada é um novo modo de conceber a política pública de segurança, envolvendo todos os setores por ela responsáveis. Nela, o Estado passa a atuar também de forma preventiva e não apenas repressora, dialogando e centrando a atenção principalmente nas ações capazes de evitar a ocorrência de novos delitos e prevenir a violência. Em outras palavras, a Gestão Integrada nada mais é que um conjunto de referências político – estratégicas, institucionais, legais, financeiras e sociais, capaz de orientar a organização das ações, programas e projetos, no caso de segurança pública, locais.

O conceito é o da integração de diversos segmentos, de forma a estabelecer e aprimorar a gestão da segurança pública, englobando todas as condicionantes envolvidas no processo e possibilitando um desenvolvimento uniforme e harmônico entre todos os interessados, de forma a atingir os objetivos propostos, adequados as necessidades e características de cada comunidade.‖

Este gabinete foi proposto e constituído no seio do projeto de redenção. Os militares se colocavam como mediadores entre instituições diversas - como o ministério público, a CEDAE (serviço de água), a LIGHT (serviço de fornecimento de energia

pastor de uma igreja pentecostal dentro da favela (Esperança, 2012). 133 http://portal.mj.gov.br/main.asp?View=%7B3F6F0588-07C1-4ABF-B307-

9DC46DD0B7F6%7D&Team=&params=itemID=%7BACD5446C-6404-480B-AC69- 947AB7DE3164%7D;&UIPartUID=%7B2868BA3C-1C72-4347-BE11-A26F70F4CB26%7D

114 elétrica), a COMLURB (serviço de limpeza urbana), a Defesa Civil, o SEBRAE, entre outros – e os representantes da população. Não é surpresa, na conclusão deste capítulo, dizer que os líderes religiosos cristãos, com a exceção de pouquíssimos outros integrantes ligados a ONGs e que foram ―indicados‖ e ―aprovados‖ pelos religiosos e capelães, assumiram o papel de porta-vozes autorizados pelo exército e passaram a integrar, também, o gabinete.

Quando o exército deixou o Complexo do Alemão, em cerimônia pública, a tutela do gabinete foi transmitida à polícia militar, que não deu continuidade ao projeto. Isto nos leva ao próximo capítulo, onde tratarei das Unidades de Polícia Pacificadora.

CAPÍTULO IV

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