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LAICIDADE, SECULARIZAÇÃO E GOVERNAMENTALIDADE

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O FUZIL E A CRUZ: PODER ARMADO E PODER DIVINO NO COMPLEXO DO ALEMÃO

3.1 LAICIDADE, SECULARIZAÇÃO E GOVERNAMENTALIDADE

Como princípio, cunhado pelo Iluminismo europeu, laicidade significa a separação do poder político/administrativo/gestão do Estado do poder religioso, e vice- versa. Historicamente, remonta ao desligamento do Estado e do ensino público em relação à religião; a neutralidade religiosa das instituições públicas; tolerância religiosa; e liberdade de consciência para que o individuo possa livremente escolher a religião- ou a ausência dela- que melhor lhe agrada. Secularização, como conceito, por sua vez, abrange diferentes processos nos quais se verifica o enfraquecimento da presença e da influência do religioso nos fenômenos sociais e culturais.

Afinal, como destacou Mariano (2011), os próprios conceitos de secularização e laicidade, além de polissêmicos, fazem parte do léxico de disputas intensas pelas quais tanto grupos secularistas quanto seus adversários religiosos constroem e lhes atribuem novos significados e valores durante a construção das estratégias de confronto.

Casanova (2010) demonstrou o quanto há de imprecisão histórica nos mitos fundacionais da identidade europeia contemporânea e nas narrativas seculares comuns sobre religião e democracia na história europeia:

―A narrativa mais divulgada, e que é oferecida tanto como explicação genealógica quanto como justificativa normativa para o caráter secular da democracia europeia, apresenta a seguinte estrutura temática. Em um passado distante, na Europa Medieval, houve uma fusão –como é típico das sociedades pré-modernas- entre religião e política. Mas essa fusão, sob as novas condições da diversidade religiosa, do sectarismo extremo e do conflito criado pela Reforma Protestante, levou às terríveis, brutais e intermináveis guerras do início da Era Moderna que arruinaram as sociedades europeias. A secularização do Estado foi a resposta adequada a essa experiência catastrófica que aparentemente marcou de forma indelével a memória coletiva das sociedades europeias. O iluminismo encarregou-se do resto. E, mais importante, aprenderam a domar as paixões religiosas e dissipar o fanatismo obscurantista, relegando a religião à proteção da esfera privada e criando uma esfera pública aberta, liberal e secular, onde

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predominam a liberdade de expressão e a razão pública. São esses os alicerces seculares propícios sobre os quais a democracia cresce e se fortalece.‖ (Casanova, 2010, p.2)

O autor, então, demonstra o quanto essa narrativa é, de fato, um mito histórico. Primeiro, as guerras religiosas do início da Era Moderna, especialmente a Guerra dos Trinta Anos (1618-68), não produziram, imediatamente, um Estado secular, mas um Estado confessional. Segundo ele, em nenhum lugar da Europa o conflito religioso levou à secularização, mas sim à confessionalização do Estado e à territorialização das religiões e dos povos.

Segundo, foram os grupos religiosos e a política religiosa que contribuíram, mesmo que por vezes sem intenção, para a democratização e secularização da política em muitas sociedades europeias.

Terceiro, entre os extremos da laicidade francesa e a igreja luterana na Europa nórdica, há todo um leque de padrões diversos de relações Igreja-Estado na educação, na mídia, na saúde, nos serviços sociais e outros, que se configuram como complexos não seculares. Por exemplo, a política de pilarização dos Países Baixos, ou o reconhecimento do Estado oficial corporatista das igrejas católica e protestante na Alemanha. Não surpreende, assim, que a maioria das sociedades europeias continentais manteve partidos confessionais que desempenharam um papel crucial na democratização dessas sociedades (Ibid., p. 9).

Aproximo-me de Burity (2001), ao rejeitar a discussão sobre o ―retorno do sagrado‖ ou as querelas sobre a secularização e ao considerar mais frutífera a conjunção de aprofundamento da religião como prática pessoal e desprivatização da religião como força social e política. Para este autor, se há alguma volta, é a da religião à esfera pública, uma penetração ou reabertura dos espaços públicos à ação organizada de grupos ou organizações religiosas.

Utilizo como chave analítica o conceito de governamentalidade, conforme talhado por Foucault (1979, 2008), que, segundo este autor pode ter três significados. Primeiro, o conjunto de instituições, procedimentos, análises, cálculos e táticas que permitem o exercício do poder que tem como alvo a população e tem como procedimento técnico essencial os dispositivos de segurança. Segundo, a tendência ocidental de preeminência do tipo de governamental de poder, que levou a construção e o desenvolvimento de uma série de técnicas e saberes específicos. Terceiro, a transformação, ocorrida no séculos XV e XVI, do Estado de justiça medieval no Estado administrativo governamentalizado.

92 Nas palavras do autor, ―são as táticas do governo que permitem definir a cada instante o que deve ou não competir ao Estado, o que é público ou privado, o que é ou não estatal, etc.‖ (1979, p. 292).

A governamentalidade nasce do modelo arcaico da pastoral cristã. Para ele, a verdadeira história do pastorado, como uma forma específica de poder sobre os homens, como matriz de procedimentos de governo dos homens, nasce com o cristianismo. A pastoral cristã estaria no pano de fundo do nascimento do Estado moderno, quando a governamentalidade se torna uma prática política calculada e refletida. Em seguida, a governamentalidade se apoia em uma técnica diplomática-militar e finalmente toma a forma de uma série de procedimentos e técnicas com a polícia. ―Pastoral, novas técnicas diplomático-militares e finalmente a polícia: eis os três pontos de apoio a partir do que se pôde produzir este fenômeno fundamental da história do Ocidente: a governamentalização do Estado.‖ (1979, p. 293).

A proximidade e a aprovação das igrejas às UPPs e ao Exército Brasileiro, por sua vez, podem estar no fato de que o modelo de gestão é um modelo pastoral, cuja origem é o Cristianismo. Esta proximidade pode ser uma proximidade por identificação de modelos. A ―pacificação‖ parece ser uma pastoralização cristã, como modelo de gestão de corpos, da segurança pública. Seu projeto se harmoniza com o projeto cristão local.

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