CAPÍTULO I − A LÍRICA AMOROSA INICIAL E O IMAGINÁRIO DE ÁGUAS
2 ANTECEDENTES DA ASSOCIAÇÃO LIRA AMOROSA/IMAGINÁRIO
2.3 A água-espelho na Ode inicial de Ode e elegia
Por tudo o que vimos até aqui, é possível afirmar que a primeira associação fundadora da imaginação material, em Lêdo Ivo, é a da lírica amorosa com o imaginário hídrico. É esta associação que irá perpassar − como já notamos − as páginas do Acontecimento do soneto. Mas, em Praia do Sobral, poema do primeiro livro do autor, a água já é o espelho em que se remira o “eu”, ali ainda bastante narcísico. Na sequência, Lêdo Ivo comporia um poema em que a água aparece como espelho do Outro: o índice de alteridade em que o “eu” já não se percebe narcisicamente, mas onde contempla as mudanças da amada e as que ela desperta nele, amante. É o que ocorre no segundo livro do autor, Ode e elegia, precisamente no poema de abertura, intitulado Ode.
Há, então, algo como uma retomada da água-espelho, mas, pelo menos na Ode de abertura, esta já desempenha papel de princípio imagístico, conduzindo todo o poema a um encadeamento que remete a um devir de água corrente, visto opositivamente em função da imagem da água parada − água da lagoa ou poço que é, tal como em Praia do Sobral, o núcleo imagístico fundador.
A Ode é um poema longo, de metrificação regular, composta em 17 décimas de rimas variáveis. Todo o poema é um momento significativo de imaginário hídrico, a exemplo da estrofe a seguir:
[...]
Piedade inaudita, poço estável onde se banha teu corpo desnudo, espelho de mil faces, anjo amável que no rosto sem voz reflete tudo, eu te ofereço trovas e canções. Leva para a distância a minha mágoa e me sacode entre as constelações para que eu fique, mas desapareça, e como a água que corre, não feneça,
mas solitária esteja em outra água (IVO, 2004c, p. 80).
As imagens se organizam dentro do campo semântico da água, tomada, inicialmente, como emblema do espelho – a água-espelho do “poço estável” – para a qual, logo em seguida, a voz poética reclama uma mobilidade: “Leva para a distância a minha mágoa/ e me sacode entre as constelações”. Aqui se nota um caminho ansiado, um devir que já se antecipa, podendo o poema ser lido, de certo modo, como passo adiante em relação ao narcisismo
contemplativo de Praia do Sobral. E tudo leva a crer, mesmo, tratar-se de uma retomada, pois que alguns elementos do poema anterior são retrabalhados agora. Como em Praia do Sobral, entrevê-se o relato da iniciação sexual (todavia, agora mais expressa) nas cercanias de uma lagoa, havendo menção à infância do “eu” masculino, coincidente com a voz poética. Na Ode, porém, amplia-se o desenho da mulher desejada − agora mais despojado de metáforas:
[...]
Que aos meninos de outrora se transplante a flor que alimentaste com teu riso, quando, na ausência, teu corpo ondulante guardar a gravidade de um sorriso. Eras de muitos homens, tinhas vícios infames e perversos, mas deixaste em nossas vidas sem amor algum inapeláveis e cruéis resquícios, pois corpos jovens, tu os violaste
e os amaste sem amar nenhum (IVO, 2004c, p. 80).
A mulher que frequenta a Ode é um arquétipo feminino, espécie de Cármen que desliza nas memórias do “eu” lírico. Sua licenciosidade ou permissividade atordoam a voz lírica, e nisso a mulher (sem nome) difere muito, por exemplo, da Adriana mencionada em As imaginações (IVO, 2004c, p. 72-74), musa sobranceira que “não se prostitui”51. Contrariamente, a diva da Ode aproxima-se da mulher que ronda o poema Praia do Sobral, daquele mesmo livro.
Esse é o problema em se afirmar que Lêdo Ivo teria uma fase de poesia idealizada, impoluta, e outra mais carnal e concreta; o problema de se estabelecer um marco ou pavimento para essa obra, que parece ter tido a pretensão, aliás bastante afim com sua poética do excesso e do transbordamento, de albergar múltiplas vozes, múltiplos pontos de vista – para usar uma expressão mais corrente nos estudos de teoria da narrativa. Pode-se, no máximo, detectar prevalências, maior ou menor incidência de uma concepção etc. Sem ter lançado mão do recurso da heteronímia, este é um poeta diverso de si mesmo, como aliás disse de si em muitos poemas.
Voltando à Ode, vejamos, ainda, que todo o caminho das imagens é o de um devir móvel. O poema conduz o estático à mobilidade, chegando a antever o “corpo ondulante” na ausência, ou seja: que, por efeito da distância e da passagem do tempo, a imagem guardada na retentiva se fizera fugidia – e o adjetivo “ondulante” é aqui particularmente sugestivo da água.
Gaston Bachelard (1989), estudando associações entre a imagem de Ofélia e a mobilidade que, nesse exemplo da tradição literária, vai implícita na cabeleira que ondula, dá- nos a dimensão exata da distinção que estabelece entre imaginação material e imaginação formal:
No tema que estamos desenvolvendo, fica muito claro que não é a forma da cabeleira que faz pensar na água corrente, mas o seu movimento. A cabeleira pode ser a de um anjo do céu; no momento em que ondula ela traz naturalmente sua imagem aquática (BACHELARD, 1989, p. 88, grifo do autor).
Tal distinção é importante para perquirirmos sobre a imaginação material em Lêdo Ivo, já que o próprio Bachelard advertira, nos primeiros momentos de A água e os sonhos: “Uma poética da água, apesar da variedade de seus espetáculos, tem a garantia de uma unidade. A água deve sugerir ao poeta uma obrigação nova: a unidade do elemento” (BACHELARD, 1989, p. 12). Ora, parece ser bem este o caso da retomada de Praia do Sobral na Ode de abertura de Ode e elegia.
As sugestões de mobilidade são, nesse ponto, um acréscimo significativo. Se a mulher de que fala o “eu” lírico parecia transmitir um sentido de transitório, dada a volubilidade de suas relações, posteriormente ela mesma, ou sua imagem apropriada pela memória do “eu” lírico, sugere a este um apelo de permanência – e nisso está a tensão da Ode, o sentido de luta desse devaneio, que não fica apenas no mero uso do imaginário hídrico.
O poeta agora deixa mais clara a sua moral da água, já entrevista também no romance O caminho sem aventura. Isto porque a Ode não é, apenas, um quadro evocativo, nem a mera reversão axiológica da figura social da prostituta, ou da mulher dita “fácil”, como ocorre em muitos momentos de nossa lírica moderna e pós-moderna. O que importa mais é a ondulação que a conduta “promíscua” da personagem feminina, apenas sugerida, comunica ao “eu” lírico, o qual se volta contra sua mudança posterior, exigindo-lhe a extensão da inconstância também para os afetos; quando, porém, a parceira demonstra desejar o contrário – a permanência:
Queres que eu permaneça junto a ti pois nasceste na beira destes lagos para aos meninos dar rudes afagos misturados aos lírios, como se boiasses nestas águas transmudadas a fim de ser amada com a constância que tua alma imortal jamais quis ter.
Onde o reinado mágico das fadas que dominaste outrora, sem temer a sombra que cobria tua infância? [...]
Sinto a germinação de um fruto arfante que fosse pelos ventos arrastado para um lugar perdido no momento. Mesmo as sementes são por frio vento levadas para algum lugar perdido. Jamais o sonho quando a morte existe. Tu me deixaste o sonho, mas partiste sem contemplar teu rosto refletido na água podre de minha infância triste.
Jamais a morte quando o sonho existe (IVO, 2004c, p. 80-82).
Estas outras estrofes, que são também as últimas da Ode, parecem não deixar dúvidas: trata-se de nova escrita do quadro de Praia do Sobral, poema de As imaginações. Mas não se leia, aqui, a hipótese de um método; nada há, nas declarações do autor ao longo de sua vida literária, que faça supor o propósito consciente de tais retomadas. A ocorrência tampouco é um retorno ao mesmo, uma “variação sobre o mesmo tema”: com a omissão de qualquer topônimo, existe na Ode um foco maior no evento narrado, ampliando os característicos da personagem feminina, e marcando mais a relação estabelecida entre esta e os anseios do “eu” lírico. A voz poética ambiciona evadir-se, migrar, transpor. Recolhe de sua própria experiência, do que lhe sugere a “mesma” mulher que parece conduzi-lo à permanência (associada à água estática das lagoas), a força de mobilidade que se familiariza com os mundos sonhados da infância. Assim, assimila um destino da água que parece mesmo configurar, na linguagem do verso, o pensamento bachelardiano: “[...] a água é um tipo de destino, não mais apenas o vão destino das imagens fugazes, o vão destino de um sonho que não se acaba, mas um destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser” (BACHELARD, 1989, p. 6).
Por isso, o “eu” lírico da Ode sente “a germinação de um fruto arfante/ que fosse pelos ventos arrastado/ para um lugar perdido no momento”. Há uma ânsia de transitoriedade, oponível às sugestões de fixidez da mulher nascida “à beira destes lagos”.
Quando dissemos, porém, moral da água, estamos aqui ultrapassando o sentido moral de relações homem/mulher. Não é exatamente a apologia do comportamento promíscuo da personagem lírica. É o que o “eu” retira da contemplação poética – já mais ou menos despegada dos eventos: aquilo que lhe comunica mais amplamente, de modo conceitual. Dito de outro modo: se há um sentido mobilidade, extensível a uma percepção mais ampla do
mundo fenomênico, este não exclui, dialeticamente, as forças da fixidez. Está dialogando com elas, “namorando” em certo sentido; mas também lutando.
Fica a sensação de que a reescrita dos motivos de Praia do Sobral se faz em função desse jogo de forças, que dimana das imagens hídricas – forças lá pressentidas, no romance expostas em negativo, na Ode finalmente evidenciadas. Tudo isso, mais o que antes foi dito sobre o Acontecimento do soneto e suas relações com o romance As alianças, confirma a imaginação material da água já nos primeiros anos da produção literária de Lêdo Ivo. Um palimpsesto que perpassa mais de um gênero e no qual a operação de refazer-se configura aquele ser em vertigem, de que também nos fala Bachelard (1989): o ser da água.
CAPÍTULO II − QUANDO O MAR LAMBE OS PÉS DO POETA: O CAMINHO DA