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A última hora e o anticristo: 1Jo 2,18-27

2. EXPOSIÇÃO PASSO A PASSO

2.2. Deus é luz: 1Jo 1,5–2,27

2.2.6. A última hora e o anticristo: 1Jo 2,18-27

Mais uma vez o autor se dirige a seus interlocutores com o vo-cativo “Filhinhos”, e seguem diversas instruções, assim como um pai que instrui seus filhos. Eis o que ele escreve.

2 18Filhinhos, esta é a última hora. Ouvistes dizer que o Anti-cristo virá. Com efeito, muitos antiAnti-cristos estão aí – por isso, sabemos que chegou a última hora. 19Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos, pois se fossem realmente dos nossos, teriam permanecido conosco. Saíram para que se manifestasse que não são todos dos nossos.

20Vós recebestes a unção do Santo, e todos sois conhecedo-res. 21Não vos escrevi porque não conheceis a verdade, mas porque a conheceis, e porque mentira alguma provém da ver-dade. 22Ora, quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o Anticristo: aquele que nega o Pai e o Filho. 23Todo aquele que nega o Filho, também não possui o Pai. Quem confessa o Filho, tem também o Pai.

24Permaneça dentro de vós aquilo que ouvistes desde o prin-cípio. Se permanecer em vós o que ouvistes desde o princípio, permanecereis no Filho e no Pai. 25E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna.

26Escrevi essas coisas a respeito dos que procuram enganar--vos. 27Quanto a vós, a unção que recebestes de Jesus perma-nece convosco, e não tendes perma-necessidade de que alguém vos ensine. A sua unção vos ensina tudo, e ela é verdadeira e não mentirosa. Por isso, conforme vos ensinou, permanecei nele.

O tema central dessa perícope é o conflito que resultou na di-visão da comunidade. Esse conflito significa, para o autor da Carta, que soou a última hora. Essa expressão é única no Novo Testamento.

Trata-se de um momento decisivo, que aproxima o tempo presente de seu final. Esse modo de compreender o tempo já tinha aparecido em 1Jo 1,8, quando o autor afirmava que as trevas já estavam passando e que a luz verdadeira já começava a brilhar. A última hora é a última oportunidade para tomar uma decisão consciente, livre e firme a favor da luz, da verdade e do amor, afastando-se das trevas, da mentira e do ódio. O advento de um novo tempo é precedido por um momento de conflito no qual, de todo jeito, a verdade aparece. Por isso, por mais difíceis que sejam os momentos de conflito, eles são vistos, na Primei-ra Carta de João, como etapas necessárias paPrimei-ra que surja o novo.

Em 1Jo 2,18, está a primeira ocorrência da palavra anticristo.

Ela foi explicada na introdução, de modo que basta recordar seu sig-nificado de “contrário a Cristo”. Como ela também ocorre no plural, antes de representar uma pessoa, ela representa o tipo de atitude que caracteriza essas pessoas. O autor da Carta esclarece que essas pessoas não vieram de fora, mas saíram de dentro da própria comuni-dade eclesial. Para ele, no entanto, eles estavam na comunicomuni-dade, mas não eram da comunidade. O conflito tornou isso claro (1Jo 2,19). Vale notar que essa é a primeira vez que o autor utiliza o pronome “eles”, referindo-se a outro grupo, diferente daquele ao qual escreve a Carta.

Ele se dirige aos que permaneceram na comunidade para lhes recordar que eles têm a unção do Santo (1Jo 2,20). Em grego, a pa-lavra unção se diz crisma, da mesma raiz que a papa-lavra Cristo, que, literalmente, significa ungido. A unção revela que cada cristão tem a missão de atualizar, em sua vida, a vida do Cristo. O autor da Carta chama a atenção, nesse momento, para outro aspecto da unção: ela dá o dom do discernimento, ou seja, a capacidade de distinguir a ver-dade da mentira. Ele acrescenta que mentira alguma pode provir da verdade (1Jo 2,21). Novamente, ele expõe seu pensamento de modo

radical: não há nenhuma possibilidade de acordo entre a verdade e a mentira, pois uma exclui a outra completamente.

A atitude de anticristo é uma atitude mentirosa, porque nega que Jesus é o Cristo, negando igualmente tanto o Pai quanto o Filho (1Jo 2,22). Negar que Jesus é o Cristo significa negar que, na história de Jesus de Nazaré, o Cristo se revela, o que também significa negar o caminho de salvação escolhido pelo Pai ao enviar seu Filho ao mundo.

É por isso que quem nega o Filho não tem o Pai, mas quem confessa o Filho também tem o Pai (1Jo 2,23). Esse tipo de atitude que o autor da Primeira Carta de João está criticando parece ser aquela que, algum tempo depois, deu origem a algumas heresias, como o docetismo, que afirmava que o Cristo tinha apenas uma aparência humana, mas não era verdadeiramente homem, ou à tendência em afirmar que, no Cristo, a humanidade tinha sido de tal modo assumida pela divindade que, na prática, teria desaparecido. Abertamente ou veladamente, essas pos-turas equivocadas continuaram existindo na história do Cristianismo.

Na continuação, reaparece o verbo permanecer, bastante comum na literatura joanina. O autor da Carta exorta seus interlocutores a que deixem que permaneça neles o que ouviram desde o princípio, de modo a que também eles permaneçam no Filho e no Pai. A expressão “desde o princípio” também já é conhecida. Quanto ao que foi ouvido desde o princípio, pode-se pensar no mandamento antigo e novo, “que recebestes desde o princípio”, que “é a palavra que ouvistes” (2Jo 1,7). Neste caso, trata-se de permanecer no mandamento do amor aos irmãos. Quem per-manece no amor, perper-manece em Deus, e Deus nele (Jo 15,9-12). Ele con-clui essa exortação relembrando que a promessa feita por Jesus é a vida eterna. Essa promessa aparece no Evangelho segundo João várias vezes, por exemplo, em Jo 5,24; 10,10; 11,25-26.

Os últimos versículos são a conclusão dessa perícope. O autor afirma que escreveu essas coisas a respeito daqueles que procuram desencaminhar a comunidade (1Jo 2,26). Por essa afirmação, pode-se pensar que a pregação daqueles que deixaram a comunidade ainda exercia influência sobre aqueles que ficaram. O autor admoesta os membros da comunidade de que eles não têm necessidade de que ninguém lhes ensine, pois a unção que receberam já lhes ensina tudo. Essa unção é verdadeira e ele exorta a que permaneçam no que

ensinou (1Jo 2,27). Em outras palavras, a exortação é a que os mem-bros da comunidade se comportem como pessoas responsáveis em buscar sua própria instrução, sem andar atrás de falsos ensinamentos.

Essa foi a última perícope da primeira seção da Primeira Carta de João, que começou com a afirmação de que “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5), e passou por seis perícopes. Na primeira (1Jo 1,5-7), estava a afirmação de que não podemos dizer que estamos em comu-nhão com Deus se caminhamos nas trevas, sem praticar a verdade.

Na segunda perícope (1Jo 1,8-10), havia uma lição de humildade: não devemos dizer que não temos pecado. A terceira perícope (1Jo 2,1-6) estava centrada em Jesus Cristo, o Justo, oferenda de expiação pelos pecados do mundo inteiro. O centro da quarta perícope (1Jo 2,7-11) é o mandamento antigo e novo, amar o irmão é viver na luz, odiar o irmão é caminhar nas trevas. Na quinta perícope (1Jo 2,12-17), o autor relem-brava que quem ama o mundo não deixa lugar em sua vida para o amor do Pai. Enfim, na sexta perícope (1Jo 2,18-27), aparecia o conflito com aqueles que negam que Jesus é o Cristo, que querem atrair outros para seus ensinamentos, mas que a comunidade não precisa que ninguém lhe ensine, pois a unção do Santo já lhe instrui.

O autor da Carta afirmava que “todo aquele que nega o Filho, também não tem o Pai. Quem confessa o Filho, tem também o Pai”

(1Jo 2,23). Atualizando este ensinamento, o Documento 107 da CNBB, sobre a “Iniciação à vida cristã” afirma:

Tudo o que precisamos conhecer de Deus e seu mistério en-contramos na pessoa de Jesus. Nele, “chave, centro e fim de toda história humana” (GS, n. 10), se faz presente o mistério do Reino de Deus. Ele está a serviço desse Reino. Por sua vida, palavras e ações, por sua doação total na cruz e gloriosa res-surreição, ele revela ao mundo o amor e o projeto de salvação do Pai que ama a todos (CNBB, Doc. 107, n. 87).

A próxima seção da Primeira Carta de João tem como tema a justiça: quem pratica a justiça é de Deus. Antes, porém, de passar para essa nova seção, é o momento de aprofundar o que foi visto nes-ta seção. Algumas pergunnes-tas podem ajudar nesse aprofundamento:

1. Por que no Cristianismo não é possível estar em comu-nhão com Deus sem estar em comucomu-nhão com os irmãos?

2. O que significa, atualmente, amar o mundo? Quais os valores que o mundo de hoje propõe que impedem que o amor de Deus permaneça nas pessoas?

3. Diante da pluralidade de discursos cristãos que existem atualmente, como distinguir o verdadeiro discurso sobre o Cristo e o falso discurso sobre o Cristo?