1 TEORIA GERAL DOS SISTEMAS, ROTEIRIZAÇÃO TURÍSTICAS E
1.1 A ABORDAGEM DE BERTALANFFY SOBRE A TEORIA GERAL DOS
A Teoria Geral dos Sistemas foi apresentada pelo biólogo Ludwig Von Bertalanffy, por volta dos anos de 1930, com aplicações na biologia e na termodinâmica. Porém, a publicação ocorre na década de 1950 quando o autor
lança "General System Theory" e esta metodologia começa a ser aplicada por pesquisadores de diversas áreas da ciência como a física, química e biologia.
Para Bertalanffy (1973, p.132),
Dessa maneira, a Teoria Geral dos Sistemas apresentada por Bertalanffy (1973) sugere constituir um conjunto de ferramentas conceituais e metodológicas apropriadas para gerar um conhecimento da realidade em sua completude e na dinâmica das dimensões e elementos inter-relacionados. O autor buscou com esta teoria, de forma complexa, uma linguagem científica adequada para contemplar diferentes campos do conhecimento (BERTALANFFY, 1973; VICENTE; PEREZ FILHO, 2003).
Bertalanffy (1973, p.62) define os sistemas como “um conjunto de elementos em interação”. Chorley e Kennedy (1971) assinalam onze tipos de sistemas, ponderando a complexidade estrutural de cada um, sendo eles: sistemas morfológicos; sistemas em sequência; sistemas de processos respostas; sistemas controlados; sistemas automantenedores; plantas; animais; ecossistemas; homem e ecossistemas humanos. Destaca-se, entretanto, que tais sistemas e suas inter-relações propiciam uma melhor compreensão da realidade.
Um sistema é caracterizado por: a) seus elementos ou unidades; b) suas relações, quando os elementos dependem uns dos outros por meio de ligações que apontam os fluxos; c) seus atributos, que são as qualidades que a ele podem ser atribuídas, como comprimento, área, volume, composição ou densidade dos fenômenos observados; d) entrada e, e) saída (CHRISTOFOLETTI, 1979).
Segundo Christofoletti (1979, p. 8), um sistema é composto por "matéria, energia e estrutura". A matéria se caracteriza pelo material que será mobilizado por meio do sistema, é aquilo que vai se movimentar. A energia se distingue pelas forças que fazem o sistema funcionar, “gerando a capacidade de realizar trabalho”. Já a estrutura é composta pelos “elementos e suas relações, expressando-se através do arranjo de seus componentes” (Idem, p. 13).
Analisando a abordagem sistêmica no âmbito da Geografia, vê-se que esta, beneficiou e fomentou o desenvolvimento da chamada “Nova Geografia”,
A inclusão das ciências biológica, social e do comportamento junto com a moderna tecnologia exige a generalização de conceitos básicos da ciência. Isto implica novas categorias do pensamento científico, em comparação com as existentes na física tradicional e os modelos introduzidos com esta finalidade são de natureza interdisciplinar.
procedendo na sua modelização e numerização. A Nova Geografia surgiu nos anos 1950 em decorrência do contexto histórico mundial relacionado ao período pós Segunda Guerra Mundial. Segundo Christofoletti (1979), a Geografia se revitaliza neste momento devido aos pressupostos do neopositivismo.
A abordagem sistêmica favoreceu também para uma maior verticalização das pesquisas geográficas e para uma descrição com maior precisão de suas áreas de estudo. Abrangeu várias vertentes geográficas, mas teve maior destaque na Geomorfologia. O pioneirismo nesta temática foi com Strahler em 19501, quando trabalhou com sistemas de drenagem, considerando-o como um sistema aberto (CHRISTOFOLETTI, 1979). Nos estudos da Geografia Humana e Econômica também fez-se uso dos conceitos da Teoria Geral dos Sistemas, contudo de forma mais generalizada. Pode-se citar o trabalho de Berry2 em 1964, sobre as cidades como sistemas dentro de sistemas de cidades (CHRISTOFOLETTI, 1979).
Para Sotchava (1977), ao se usar os geossistemas deve-se destacar não os componentes da natureza, mas as amarrações entre eles. Ao se estudar a paisagem sob esta perspectiva, é imprescindível ressaltar sua dinâmica, estrutura funcional, conexões, e não apenas considerar sua morfologia e subdivisões. Nas palavras de Troppmair (2004, p. 102), um geossistema se constitui num “sistema espacial natural, aberto e homogêneo”. Ele se distingue por sua morfologia, ou seja, pelo arranjo da disposição dos elementos e sua consequente estrutura espacial, bem como, pela sua dinâmica e matéria, que passam pelo sistema e que variam no espaço e no tempo. Ele se difere ainda pela inter-relação de seus elementos e pela exploração biológica da flora, fauna e humana.
Para Limberger (2006, p. 103), o conceito de geossistema expõe diversas "contradições teóricas e grandes dificuldades de aplicação prática", especialmente no que se refere ao geossistema socioeconômico, em como investigá-lo. O autor revela também que, quando se divide um geossistema em físico ambiental e outro em socioeconômico, se perde o atributo de conexão, que é imprescindível para compor um sistema.
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STRAHLER, A. N. Equilibrium theory of erosional slopes approached by frequency distribuition 2
BERRY, B. J. L. City as Systems within Systems of Cities. In: FRIEDMANN, J. & ALONSO, W. Regional Development and Planning, a Reader. Boston, MIT Press, 1964.
Se o planeta Terra pode ser considerado um geossistema, então, qualquer alteração em um ou mais de seus elementos, que extrapole seu limite de resistência, pode causar desestabilidade e, assim, forçar um reequilíbrio. O mesmo pode ser inferido para qualquer área que integre o planeta. Veado (1998) relata que essa análise pode ser aplicada ao estudo dos impactos ambientais e para a emergência da relação do sistema socioeconômico e sistema ambiental físico. Dessa maneira, por meio da análise de sistemas e sua complexidade é possível oferecer informações sobre a natureza e sua estrutura, bem como sobre os elementos que a compõem. Assim, o geossistema permite revelar a maneira como os elementos influenciam uns aos outros, o papel e função de cada componente e como a ação antrópica modifica a organização espacial de um dado território.
Para Vera Rebollo et al. (2011), as ciências sociais tem se utilizado da Teoria dos Sistemas exatamente pela necessidade de lidar com processos de características complexas, como territórios e economias. Essas realidades pronunciam fatos que, juntos, configuram-se em uma totalidade funcional. Para esses autores, o complexo do ‘sistema’ pode sofrer algum tipo de ‘fratura’, quando uma das partes possui algum tipo de anomalia ou quando não existe um comportamento funcional que seja conjunto.
Os geossistemas são sistemas dinâmicos, flexíveis, abertos e hierarquicamente organizados. Desta forma, é possível incorporar também o sistema turístico entre os sistemas dinâmicos que o integram. Para Silva (2006, p.09) “a caracterização do geossistema é fundamental para a determinação da potencialidade turística de um destino receptor". Pode-se complementar ainda, que uma vez implementado, o turismo passa a ser mais um dos sistemas que o compõe.
De acordo com Panosso Netto (2012), o primeiro estudo da teoria geral de sistemas relacionada ao turismo foi feita pelo mexicano Raymundo Cuervo (1967)3 que defendeu o turismo como um sistema de comunicação com capacidade de prestar informações úteis e positivas para promoção da paz, assim como pode ser negativo causando desarmonia nas relações humanas. Para Cuervo (1967, p.33), a comunicação é um ponto forte dentro do sistema turístico. Segundo ele, “se então aceitamos que, mediante a viagem, ocorre uma comunicação, podemos aceitar _______________
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CUERVO, R. S. El turismo como medio de comunicación humana. México-DF: Departamento de Turismo do Governo do México, 1967.
como hipótese válida que o turismo é um sistema, e que podemos determinar para esse sistema uma função dada que, neste caso, é a da comunicação”.
No exterior, a proposta de sistema turístico mais conhecida é a de Leiper (1979)4 que buscou apresentar um sistema turístico interdisciplinar com elementos geográficos como a região, que era observada de três maneiras: Por meio da origem dos viajantes; trânsito de origem ao destino; e a região destino. Os outros dois elementos são o turista e a indústria de turismo e viagens. Um modelo simples, mas que consegue mostrar a inter-relação entre seus vários elementos (PANOSSO NETTO, 2012).
Um ‘Modelo Interdisciplinar’ foi apresentado por Jafari (1981). Nele o autor agrega diversas áreas do conhecimento distintas como: geografia, economia, administração, antropologia, ecologia, agricultura e outras. No modelo as áreas do conhecimento são distribuídas em formato de teia. Japiassu (2002), todavia, acredita que este não é satisfatório para transpor as barreiras disciplinares metodológicas na compreensão do objeto do turismo.
Seguindo ainda na relação dos mais tradicionais, Lainé (1984) apresenta a utilização da Teoria Geral dos Sistemas para o planejamento turístico. Já Sessa (1985) revela a ciência dos sistemas para os planos regionais de desenvolvimento turístico. Para ele o Sistema de Turismo tem um caráter global que deve ser reatado a seu desenvolvimento regional.
Molina (2000) propõe que o Sistema Turístico deve ser formado por um conjunto de partes e subsistemas para atingir um objetivo único. O sistema proposto pelo autor é de modelo aberto, pois estabelece relações de entrada e saída. Já Boullón (1997), assim como Sessa (1985) e Cuervo (1967), também apresentou uma reflexão sobre o turismo como um sistema pautado nas questões de planejamento turístico, isso a partir de sua própria compreensão como um fenômeno, resultante do tempo livre e do próprio desenvolvimento dos sistemas de transporte. Velasquez e Oliveira (2016) relatam uma similaridade entre os estudos de Boullón (1997) se comparado com Cuervo (1967) e Leiper (1979), porém com uma robustez mais acentuada.
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LEIPER, N. The Framework of Tourism: Towards a Definition os Tourism, Turist,and the Tourist Industry. In: Annals of Tourism Research. Great Britain: Pergamon, v.6, p.390-407. 1979.
No Brasil, o Sistema Turístico mais conhecido, estudado, aplicado e reconstruído é o de Beni (1998), que desenvolveu a sua teoria baseado na obra de Christofoletti (1979). Moesch (2004) se inspira na obra de Beni e a recria baseada na Teoria da Complexidade de Morin (2000) chamando-o de Sistema Turístico Orgânico Hologramático. Mais recentemente se apresentam modelos com construção, desconstrução e atualização (BENI; MOESCH, 2015, 2017) do modelo apresentado por Beni (1998). Essa contribuição brasileira é apresentada na sequência.
1.2 O MODELO ECOSSISTÊMICO DE TURISMO COMO CONTRIBUIÇÃO DE