CAPÍTULO 1: Aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa
1.3. A abordagem de Frames na questão ambiental
Para complementar a abordagem de arena ambiental, este trabalho buscou fundamentar-se, como já explicitado anteriormente, na abordagem de frames, que busca entender como partes compartilhadas de narrativas surgem e se inserem no tecido social (ENTMAN, 1993), direcionando ações nos diferentes processos decisórios. A abordagem de frames explica a dimensão discursiva perceptível que antecede, ao mesmo tempo em que estrutura, os dilemas vividos nas arenas políticas. Assim, sugere que quadros de sentidos, ou fragmentos de narrativas, podem ser percebidos de forma recorrente, dando significado às ações nas relações sociais (MENDONÇA; SIMÕES, 2012).
9 Hólon representa algo que é ao mesmo tempo um todo e uma parte, podendo representar sub- conjuntos articulados de uma organização social baseada na ideia da compreensão da totalidade para que haja a percepção das partes (CALDENHOF, 2013, p.19).
As narrativas revelam a percepção dos atores e legitimam suas ações sob a realidade (CHONG; DRUCKMAN, 2007). Na abordagem de frames, a dimensão discursiva e interpretativa é entendida como estruturante das estratégias e decisões em uma arena política envolvendo um dilema público (RAVAZZANI; MAIER, 2017). Aqui, o principal objeto de estudo são as narrativas que revelam padrões de interpretação.
Inicialmente elaborada no campo da psicologia, a abordagem tem como um de seus fundadores Gregory Batson, em que o pesquisador se questionava como as interpretações da realidade ancoravam sentidos e guiavam as interações e ação dos sujeitos (MENDONÇA; SIMÕES, 2012). É uma abordagem inicialmente desenvolvida nas ciências cognitivas e busca compreender os padrões de interação entre sujeitos em determinada situação a partir de suas interpretações da realidade (ENTMAN, 1993; MENDONÇA; SIMÕES, 2012). Ela parte do pressuposto de que é a interação social que promove formas de interpretar a realidade, tanto quanto a interpretação da realidade promove formas de interação social, e nelas as estruturas sociais podem ser reveladas e percebidas (ENTMAN, 1993; CHONG, DRUCKMAN, 2007; MENDONÇA; SIMÕES, 2012).
Van Gorp (2007) afirma que existem várias interpretações da realidade possíveis, mas que a manifestação situacional de uma interpretação específica revela as estruturas discursivas que foram capazes de atravessar todo um processo social. Para tanto, é importante compreender tanto a situação quanto as regras implícitas que orientam as ações dos sujeitos e suas interpretações da realidade. Toda forma de pensar e falar envolve estruturas conscientes e inconscientes, promove significados, traz emoções e revela estereótipos (VAN GORP, 2007).
Nas Ciências Sociais, a abordagem de frames ganhou amplitude com os trabalhos sobre Movimentos Sociais, que buscavam compreender como os atores mobilizam ideias em seus discursos e reivindicações, criando significados com poder de influenciar a dinâmica social. Na década de 1980, os pesquisadores estavam interessados em entender como as disputas em torno dos dilemas sociais estavam mobilizando novas ideias e significados (BENFORD; SNOW, 2000).
Em um dos artigos mais citados sobre a abordagem de frames, Entman (1993) afirma que os grupos sociais selecionam alguns aspectos da realidade percebida e os evidenciam, de forma a promover uma definição particular do
problema. De uma forma geral, ao dar significado às situações, os atores as diagnosticam, avaliam e dão prescrições.
Mendonça e Simões (2012) chamam a atenção para o fato de que as narrativas dos atores não são simplesmente perspectivas e opiniões, mas laços intersubjetivos que atravessam e estruturam as relações. Ainda que as narrativas possam ser mobilizadas estrategicamente, não deixam de ser estruturas simbólicas discursivas que vinculam os atores de forma ativa. As narrativas tanto transformam os atores quanto são transformadas por eles.
É nessa perspectiva que o estudo realizado por Lakoff (2010) discute a importância e o poder de narrativas compartilhadas. Quando as narrativas compartilhadas mobilizam emoções e sentimentos coletivos, elas agregam atores em torno de determinadas agendas mais facilmente. Nesse sentido, as novas narrativas têm uma permeabilidade menor no tecido social, por mobilizarem menos intensamente as emoções e os sentimentos coletivos. As novas narrativas precisam ser amplamente discutidas e compartilhadas para se consolidarem em uma comunidade. Mesmo em uma nova situação de decisão, tende-se a reproduzir narrativas antigas para dar significado ao novo contexto (LAKOFF, 2010).
Em uma arena ambiental, onde disputas evidenciam conflitos e parcerias, é importante observar também como as narrativas compartilhadas dão significado às interações entre os sujeitos. Algo se torna um problema somente quando grupos sociais se apropriam da situação e criam significado em torno dela. Assim também são os problemas ambientais, entre os quais a conservação da biodiversidade. Lele et al. (2018) afirmam que são os valores sociais atribuídos a determinada questão ambiental que a torna um dilema social. Entretanto, nenhuma atribuição de valor será completamente compartilhada da mesma forma entre os grupos sociais. Todo problema passa por intensos debates e contestações de valores antes de se chegar a uma solução.
A abordagem de frames demonstra que na sociedade, com suas diversas estruturas, as escolhas não são inteiramente racionais. As escolhas envolvem disputas de valores entre atores que se agregam em torno de um dilema. Nesse sentido, as narrativas que direcionam decisões e estratégias dos atores nas arenas políticas não são totalmente conscientes. Elas trazem uma forte carga simbólica da realidade social e histórica vivenciada pelos atores que participam dessa arena.
Lakoff (2010) discute que são as ideologias políticas que legitimam as tomadas de decisão. Elas são caracterizadas por um conjunto de enquadramentos de linguagem (frames). Quando um conjunto de frames é constantemente repetido, narrativas político-ideológicas se tornam a linguagem comum, e seus frames são rapidamente e inconscientemente ativados (LAKOFF, 2010). O autor defende que, para compreender as decisões políticas, é preciso entender o conjunto de frames replicadas nas narrativas de diferentes grupos sociais. Portanto, em uma arena política, os atores não são completamente independentes nas suas escolhas, tanto pelas estruturas de poder que existem nas relações, mas também porque eles não são completamente independentes em suas narrativas. As narrativas sempre refletem o contexto histórico, social e cultural compartilhado entre os atores (LAKOFF, 2010).