CAPÍTULO 2: Aspectos ecológicos, uso e ocupação da Caatinga
3.2. Arena do semiárido
3.2.4. Nível de ação nacional
Quando se tratou do debate sobre a conservação da Caatinga no nível de ação nacional da Arena do semiárido, a atuação de setores do Ministério do Meio Ambiente, vinculados ao desenvolvimento rural sustentável e o combate à desertificação, se destacou no período da pesquisa (FIGURA 39).
Figura 39 – Parcerias entre atores da Arena do semiárido no nível de ação nacional
Fonte: Elaborado pela autora com dados da pesquisa (2019)
O Ministério do Meio Ambiente se destacou como coordenador do Grupo Interministerial de Combate à Desertificação, que entre 2008 e 2018 era composto pelos seguintes ministérios: Integração Nacional; Planejamento, Orçamento e Gestão; Relações Exteriores; Ciência e Tecnologia; Educação; Desenvolvimento Agrário; Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Cidades; Minas e Energia; Agricultura, Pecuária e Abastecimento, além de representantes da sociedade civil organizada e segmentos governamentais estaduais.
Durante quase duas décadas, as instituições com ações para o combate à desertificação do MMA focaram no manejo florestal e restauração da Caatinga como
fonte importante da matriz energética do Semiárido (APN, 2015). Tal perspectiva começou a ser desenvolvida nos anos de 1980, como indicou a fala do então engenheiro florestal e consultor externo do MMA e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD):
Nós trabalhamos com a Caatinga com um grupo estabelecido por um projeto no Rio Grande do Norte, para trabalharmos a questão energética dentro de um conceito novo que era uma coisa que os técnicos da sociedade brasileira não tinham até então visualizado: a necessidade de energia de parte dos pobres. Era uma energia completamente invisível para o planejador e para a sociedade em geral. Então primeira coisa, o governo esquecia que no Nordeste naquela altura, entre 35 e até 40% da matriz energética era constituída de lenha e essa lenha vinha de milhares e milhares e milhares de pequenos agricultores e a caatinga era o principal fornecedor de lenha. Porque ela ocorre de maneira invisível e ela é pulverizada, porque na caatinga você não tem uma frente de fronteira agrícola, ao contrário do que ocorre na Amazônia. As frentes elas têm diversas facetas, quer dizer, todo agricultor produz lenha no Nordeste, na caatinga. Todo, sem exceção ele usa para o seu consumo familiar, ele atende o mercado e toda vez que ele sente um aperto econômico, ele corta um feixe de lenha. |...| Aí o que acontece, você tem a Caatinga e como ela não ocorre dentro de frentes, ela passa a ser invisibilizada porque o agricultor tira a madeira dali. Ele causa uma série de danos na área, mas a regeneração é muito forte. |...| então nesse grupo de trabalho em Natal nós descobrimos nessa altura, nos anos 80, nós trabalhamos para entender como era a regeneração e qual o uso que os agricultores e os criadores de gado davam para a madeira. Descobrimos que a regeneração dela se dá no período de 13 anos, 11 a 13 anos.
Trecho de entrevista realizada em novembro de 2016.
Em 2016, a mudança de governo no nível nacional deslocou o foco das ações do MMA no combate à desertificação, manejo florestal e recuperação de solos. A atenção que vinha sendo dada aos recursos madeireiros da Caatinga foi deixada de lado, e com isso as narrativas de valorização da Caatinga florestal. A fala do então integrante do Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável (DDRS) do MMA ilustra essa mudança:
Falar em recuperação florestal pro Bioma Caatinga é um absurdo, um crime! Porque você não tem água! E as condições naturais não são mais as mesmas! Aqui tem um projeto da FAO, que quando eu cheguei aqui já existia, o dinheiro saiu agora, de Manejo Florestal pro Bioma Caatinga. Eu falei: vai manejar floresta aonde na Caatinga? Se eu sair das unidades de preservação não existe nada de floresta a ser manejado! E eu tô falando de um milhão de quilômetros quadrados. Raramente você encontra. Talvez um assentamento, que herdou
ainda de uma fazenda desapropriada que mantinha o que a iniciativa privada ela é obrigada, na pancada, obrigada a guardar sua reserva legal. Mas assentamento, quilombola, comunidade, às vezes núcleo familiar, eles acabam com tudo. Eles não são obrigados. Não se sentem obrigados, com essa visão paternalista que a gente tem. Grande parte da vegetação, eu diria 90% da destruição das APPs, das matas ciliares e de reserva legal é agricultura do pequeno produtor, não é o grande. A produção de carvão, o roubo de madeira nos assentamentos, não é o grande que faz isso. Isso é o pequeno. |...| Então, falar hoje em Recuperação Florestal da Caatinga é brincadeira, passatempo.
Trecho de entrevista realizada em julho de 2018.
Entre 2017 e 2018, a atenção da Secretaria de Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA se voltou para a construção de barragens de pedra com o objetivo de retenção de solos e recuperação de nascentes. A principal estratégia para o combate à desertificação da secretaria, até o momento de realização da pesquisa, era o URAD (Unidades de Recuperação de Áreas Degradadas). As estratégias e narrativas puderam ser ilustradas com a fala do então integrante do Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio ambiente:
Eu digo aqui: o nosso Ministério do Meio Ambiente, as nossas ações são centradas na recuperação da biodiversidade, do solo e da água. Esse é o nosso propósito. Esse é o nosso objetivo. Agora, eu não consigo fazer isso se eu não melhoro a vida das pessoas. Eu não consigo fazer isso, se naquela comunidade eu não substituir os modelos produtivos que destruíram, por modelos produtivos sustentáveis. |...| O produtivo eu tenho que deixar para eles uma decisão de um modelo produtivo, de uma unidade produtiva coletiva, como apicultura, por exemplo, que você faz uma casa de mel e dá as caixas para todo mundo, porque o orçamento é por família. Mas se é um coletivo eu junto o dinheiro de todo mundo e faço casa de mel. Ou se for um modelo, uma opção individual, que você pode escolher caprinos, mas tudo dentro da sustentabilidade. E, o Brasil tem aqui as metas de recuperar 15 milhões de hectares, aquelas metas do acordo de Paris. O que eu fiz? Como o Nordeste sempre é abandonado, o Bioma Caatinga, aqui em Brasília só existe Mata Atlântica e Amazônia, e nós somos 10% do território brasileiro, o que eu tô fazendo? Eu tô pegando 10% disso aqui e tentando fazer lá. Duas formas: cada família, nós estamos tentando implementar um hectare de ILPF, que é integração Lavoura, Pecuária e Floresta, botando Palma, Milho, Moringa, que são espécies que se adaptam. E se não for isso, se tiver ainda um resto de caatinga, ele fazer uso daquilo ali com um SAF, que é o Sistema Agroflorestal, onde ele faz linha de 12, ele abre 12 e deixa 6, abre 12 e deixa 6, da Caatinga, supostamente natural, introduzindo plantas forrageiras no meio.
Atores de setores do governo federal, que antes se dedicavam ao debate sobre o valor da Caatinga florestal para o manejo como estratégia de desenvolvimento, fomento da matriz energética e combate à desertificação, voltaram a reler a Caatinga através da visão em que é apresentada como degradada, inóspita e hostil.
O fortalecimento das narrativas sobre a Caatinga hostil no nível de ação nacional da Arena do semiárido mostrou-se negativo para o estabelecimento de parcerias com a Arena da biodiversidade, que tinha maior afinidade com a narrativa da Caatinga florestal, ainda que não priorizasse a valorização da biodiversidade para a conservação.
A conservação da Caatinga no nível de ação nacional da Arena do semiárido mostrou-se fortemente vinculada ao debate agropecuário, aos sistemas produtivos adaptados, manejo, recuperação de solos e uso dos recursos hídricos. As estratégias apresentadas como de conservação englobam espécies comumente encontradas no Semiárido, usadas no sistema produtivo (palma, moringa, milho), mas descoladas da biodiversidade do bioma. Essas estratégias são apresentadas e aceitas como estratégias de conservação da Caatinga por não haver uma inserção consolidada da importância da biodiversidade no debate.
As estratégias que foram apontadas como importantes para a conservação no nível de ação nacional associavam a Caatinga ao sistema produtivo e econômico. Por haver um forte diálogo, ou até mesmo identificação, entre as políticas para o Bioma Caatinga com aquelas desenvolvidas para o Semiárido político, os elementos considerados como fundamentais para a conservação da Caatinga se confundem com elementos do cotidiano produtivo das comunidades do Semiárido.