CAPÍTULO 5 MODALIDADE E IMPERFECTIVIDADE
1.1 A ABORDAGEM DO RESULTADO EVENTUAL
Como defendido no capítulo 2, o tratamento da semântica do presente simples como um reportivo levou ao tratamento das perífrases do tipo ‘be+V+ing’ como denotadoras de um evento que é concomitante ao tempo de proferimento da sentença onde aparece. Em Bennet & Partee (1978) as condições de verdade de sentenças com perífrases com ‘be+V-ing’ são dadas por:
(113) PROG ϕ is true at an interval i iff ϕ is true at some interval i' that contains i as a non-final part.
Ao estender da maneira mais simples e direta essas condições de verdade para ‘be+V-ing’, os problemas começam a surgir. As sentenças progressivas impõem uma perda de telos no processo descrito pelo verbo, consequentemente, quando
um predicado télico como ‘cross the street’ aparece com forma ‘be+V-ing’, isso não acarreta que o evento em questão de fato ocorreu. Assim, a forma lógica (113) não é adequada para a sentença (114a) uma vez que esta assevera a existência de um evento e a sentença ainda seria verdadeira mesmo se o telos não for atingido.
(114)
a. Fido is crossing the street.
b. [T t=n [ASP PROG [VP Fido cross the street(e, e')]]]
Esse problema exige que se vá além de (113) e os limites das lógicas temporais (inglês, tense logic): Isto é, além da definição da verdade de um operador
operadorϕ pela verdade de ϕ em alguma extensão temporal intuitivamente adequada, como observa Szabó (2004). Logo, apesar de aparentemente não haver nada de especial na sintaxe de sentenças como (114a), o mesmo não se pode dizer de sua semântica.
Esse fenômeno inspirou um traço central da análise do progressivo de Dowty: o enriquecimento do aparato da lógica temporal com mundos possíveis. A idéia é que a verdade de sentenças progressivas depende não somente de estados de coisas concretos e reais, mas também de eventuais resultados de estados de coisas reais. O progressivo então é um tipo de condicional e tem propriedades modais. O proferidor vê Fido atravessando a rua e profere ‘Fido is crossing the street’ porque as condições de verdade de sentenças modais são tais que a sentença será verdadeira se, e somente se, quando todas as continuações concretizáveis do evento de Fido andar rumo ao outro lado da rua (e os outros eventos relevantes a esse) prosseguirem da maneira esperada, Fido chegar ao outro lado da rua. Essa idéia, que é bastante engenhosa, no entanto encontra muitas dificuldades técnicas e teóricas. Especialmente com relação à noção de ‘continuação’. Em uma abordagem Davidsoniana com argumentos de eventos implícitos na estrutura argumental dos verbos, as condições de verdade do operador PROG ficariam assim:
["w': w' INERT w.r.t (w,i)] [i': i ⊂ i'] (S is true at (w', i'))
Essa forma lógica encerra mais elementos que aquela para a sentença não- progressiva. Ou seja, temos agora o quantificador universal sobre mundos possíveis e uma noção de inércia que pode se estabelecer entre diferentes mundos. Com respeito a essa noção de inércia, um mundo é inerte a outro se eles têm as mesmas histórias até um determinado momento, e daquele momento em diante são diferentes um do outro tão somente em que o mundo inercial é tão previsível quanto possível. Isto é, em um mundo inercial tudo o que acontece a partir do tempo t é esperado: não há explosões, carros furando o sinal vermelho ou a 'carrocinha' para impedir que Fido chegue ao outro lado da rua. É importante notar que a noção de inércia é relativizada para um intervalo temporal: um mundo é inerte a outro mundo em um intervalo se os dois tiverem a mesma história para aquele intervalo temporal.
Com essas condições de verdade, as formas lógicas para as sentenças progressivas vistas acima são (onde @ é o mundo atual):
(116) [t = n] [∀w: w INERT w.r.t. (@, t(e))]
[∃(e'', e'): t(e) ⊂ t(e'')] CROSS(w, t(e')) (fido, e) . 6
Isso captura as condições de verdade de (114a). O predicado télico ‘atravessar a rua’ é representado como dois argumentos implícitos de eventos V(e'', e') mostrando que o verbo descreve um processo e’’ que termina em um evento e’. A forma lógica diz que há um evento anterior ao tempo de proferimento da sentença tal que, em todo mundo inercial ao mundo real (@), seu intervalo t(e) é um
6Perceba que as condições de verdade são para verbos de accomplishment e de achievement, que
são predicados télicos; como tais, as condições exigem a existência de algum processo que leve ao telos. Além disso, exigem também que esse processo esteja em curso no tempo de referência (isto é, que o tempo de referência esteja incluso nesse intervalo em que ocorre esse processo). No exemplo ‘atravessar a rua’, esse processo seria ‘andar na rua rumo ao lado oposto’. Vlach (1981) notou que a análise original de Dowty (1979) não captura a relação entre o processo de preparação e o telos. Esse problema desaparece se os predicados de accomplishment e de achievement forem representados como V(e, e’) onde o primeiro argumento representa o processo, no caso de
subconjunto de t(e''). Logo, em todos os mundos inerciais Fido chega ao outro lado da rua, uma vez que (nesses mundos) nada impede o processo e de chegar a sua culminação e’. Que ‘Fido está atravessando a rua’ possa ser verdadeira sem que ‘Fido atravessou a rua’ jamais seja é explicado pois, uma vez que o telos de atravessar a rua só precisa ser atingido em mundos que são inertes com respeito ao intervalo em o que o proferidor observou Fido atravessando a rua. Assim, o mundo atual @ não precisa ser inerte em relação a si mesmo naquele intervalo. Ou seja, o mudo atual pode ser um onde a carrocinha e explosões impedem Fido de atravessar a rua. Mas isso não terá importância para a verdade da sentença progressiva, pois ela não depende do que ocorre ou deixa de ocorrer no mundo real, mas tão somente do que ocorre ou deixa de ocorrer nos mundos que são inertes em relação ao mundo real.